Eram nove horas da noite.
Na casa da formosa cortesã havia sarau e jogo; na sala principal a dança e o canto eram os pretextos; na sala de jantar a mesa de jogo era o verdadeiro motivo da reunião.
Maria animava e encantava a companhia de moralidade duvidosa ou negativa na primeira sala; na outra uma roda de jogadores, mancebos ricos, velhos aferrados ao vício, à paixão fatal do jogo, oficiais e paisanos, dispunham-se a parar à banca.
A mesa enchia-se de ouro.
Alexandre Cardoso, ou por cortesia ou por desafio diante dos montes de ouro, ofereceu as cartas a Ângelo, que recusou-as modestamente, aceitando-as porém às primeiras insistências.
O jogo começou.
Na primeira cartada Ângelo perdeu quase sempre, e metade das suas pilhas de ouro passou para os outros jogadores; na segunda ficaram apenas cerca de vinte moedas ao banqueiro que havia perdido já muito mais de três mil cruzados.
Ângelo perguntou com imperturbável serenidade se alguém queria tomar-lhe o lugar de banqueiro.
Alexandre Cardoso, que fora quem mais ganhara, e que, apesar do que havia dito ao amigo com quem viera, tinha ojeriza a Ângelo, disse com intenção de confundi-lo: – Abdica talvez por falta de recursos; mas sobra-lhe o crédito: disponha da minha bolsa.
– Obrigado, respondeu Ângelo sem formalizar-se.
E tirando do bolso um pequeno saco de veludo verde, despejou na mesa nova enchente de ouro.
– Vamos, senhores. E espalhando, confundindo e baralhando as cartas com exagerado escrúpulo, ia dá-la a partir, quando hesitou, e sorrindo-se disse: – Evidentemente baralho hoje contra mim!... Se alguém baralhasse melhor as cartas... Capitão! o senhor que não joga, quer fazer-me este favor? O capitão recusou-se.
– Paciência, tornou Ângelo.
E deu as cartas para serem partidas.
A terceira cartada vingou o banqueiro, que ganhou nessa quanto perdera nas duas primeiras.
– Quem quer as cartas?.. . tornou Ângelo a perguntar.
– Continue, respondeu Alexandre Cardoso.
Ângelo carteou e ganhou ainda mais.
– Quem quer as cartas? repetiu.
– Continue, insistiu Alexandre Cardoso, mas se não o leva a mal, mudaremos o baralho.
– Como quiserem.
Um criado trouxe cartas novas, e o capitão, a pedido de Ângelo e a instâncias dos outros jogadores, tomou, abriu e misturou o baralho.
O interesse do jogo aumentava.
Alexandre Cardoso apontou elevada soma na dama.
– É um erro, observou Ângelo, sorrindo; as damas não são favoráveis aos jogadores.
E carteou. A terceira carta foi dama e caiu à direita. O banqueiro ganhara.
Alexandre Cardoso dobrou a parada na mesma carta; um outro ponto imitou-o.
Não apontem na dama, tornou Ângelo; sou ainda muito moço para que as damas me desdenhem.
E ganhou segunda vez.
Alexandre Cardoso teimou e com ele pararam outros ainda na dama, que oferecia então mais probabilidades contra o banqueiro, que impávido carteava recolhendo sempre mais do que pagava.
A dama que se demorara apareceu, saindo pela terceira vez à direita.
Alexandre Cardoso acabava de perder a sua última pilha de moedas, e no meio do ruído que excitara a fortuna do banqueiro, levantou-se dizendo: – Esgotou-me a bolsa; por hoje basta.
– Sua palavra vale mais que mil bolsas recheadas, respondeu Ângelo; e devo lembrar-lhe que ainda está no baralho a quarta dama.
– Mil cruzados pois! exclamou o ajudante oficial-de-sala.
Olharam todos para o banqueiro.
– Aceito, disse ele.
E perguntou aos outros pontos:
– Alguém mais quer honrar a dama?...O desafio chegava a ser imprudente.
Dois mil cruzados esperaram a carta que três vezes já tinha sido favorável ao banqueiro.
Alexandre Cardoso tinha os olhos fitos nas mãos de Ângelo; o capitão em pé o observava com igual cuidado.
A dama não se fez esperar muito e ainda pela quarta e última vez nessa cartada foi fiel à fortuna do banqueiro, – É demais!... exclamou um dos jogadores.
– Com efeito, disse Ângelo; convenho em que elas me perseguem docemente... mas só no jogo... só no jogo..
Alexandre Cardoso olhou-o com raiva.
O tenente Gonçalo Pereira, que pouco antes havia chegado e não jogava, fez um movimento de repugnância, ouvindo Ângelo, e saiu imediatamente da sala.
Enquanto na sala do interior fervia o jogo com todas as suas ansiedades e tormentosas emoções, Maria entretinha na outra a companhia que reunira, fazendo cantar e dançar as moças e dando ela mesma o
exemplo para animar a sociedade que aliás não podia perder por acanhada.Ao terminar uma contradança à espanhola, Maria viu Gonçalo Pereira entrar na sala, e fazendo-lhe um sinal com os olhos, convidou uma das moças a cantar um lundu, gênero de música ligeiro e brejeiro que em muitas composições não teria cabimento em boa companhia pela licença quase obscena das letras, mas, que nessa reunião se ouvia sem constrangimento.
Nem todos os lundus eram assim e pelo contrário alguns ostentavam a graça especial desse gênero de música sem de leve ofender o pudor de uma donzela, e tinham o grande merecimento de possuir certo caráter nacional, embora os quisessem e queiram fazer passar bem ou mal fundadamente por imitação da zarzuela espanhola.
Gonçalo Pereira fora debruçar-se à janela, e enquanto a moça cantava o seu lundu com voz travessa e requebrados olhos, Maria dirigiu-se semcerimônia para onde estava o seu querido tenente.
– Jogaste?... perguntou ela.
– Não, e o teu conselho aproveitou-me.
– Ele ganha? – Quem? – Ângelo? – Prodigiosamente.
– E Alexandre Cardoso?
– Perdeu já quanto dinheiro trazia e jogava sob palavra.– Ainda bem! – Mas por que, Maria? – Amanhã e depois Alexandre Cardoso venderá em maior escala a justiça para trazer mais ouro a Ângelo.
Gonçalo Pereira fez um movimento de reprovação: – Impiedosa! disse ele; tu deliras em tua vingança, e consentes que na tua casa se roube ao jogo! Maria estremeceu.
– Ângelo rouba ao jogo... é um empalmador de cartas33, tem segredos infames de ligeirezas sutis dos jogadores ladrões; ele rouba ao jogo! Maria curvou a cabeça e respondeu: – Rouba.
– Maria, o teu ódio leva-te à cumplicidade no mais torpe dos crimes! – Gonçalo! – É preciso que Ângelo não torne a jogar em tua casa.
– Porquê?...
– Eu não quero ler no teu belo rosto o reflexo hediondo desse crime.
Maria teve medo da indignação de Gonçalo Pereira, e também furor impetuoso de sua vingança, preparando aquele meio imoral para perder Alexandre Cardoso, nem lembrou que concorria para que outros fossem abusiva e indignamente despojados de suas riquezas.
– Tens razão, disse ela; Ângelo não há de jogar mais em minha casa e nem se aproveitará dos seus lucros de hoje.
– Como? – Vou jogar.
– Maria! – Tu não saias: terás que agradecer-me esta noite.
E deixando Gonçalo, disse em voz alta, e sorrindo-se: – Senhoras! Liberdade plena a cada um de nós, a mim também! Comadre Luísa, ocupe estes moços e moças com um jogo de prendas: eu preciso de uma hora para outro empenho.
E enquanto a comadre Luísa dispunha e explicava o seu jogo de prendas, Maria foi ao seu gabinete, escreveu algumas linhas em meia folha de papel, que fechou como carta, e chamando um escravo, ordenou-lhe que levasse a carta a Ângelo, dizendo-lhe que alguém a trouxera e se retirara.
Ângelo acabava nova e ainda feliz cartada, quando admirado recebeu, abriu, e leu para si o bilhete que Maria lhe escrevera: “estás perdido, se me não deixas salvar-te; vou jogar contra ti; perde sempre, e perde tudo”.
33 Quem, num jogo de cartas, oculta uma delas na palma da mão, roubando a partida.
Ângelo empalidecera, e refletia, baralhando as cartas.
– Misericórdia! exclamou Maria, chegando-se à mesa do jogo; que monte de ouro!...
E desviando os olhos da áurea colheita de Ângelo, volveu-os pelos jogadores que palpitantes de emoção, uns descorados pela concentração da ira, outros afogueados pela expansão desse ou de outro aflitivo sentimento, tinham os olhos presos às cartas, e teimosos provocavam ainda a fortuna.
Maria tomou entre as suas uma das mãos de Alexandre Cardoso, e com estudada crueldade, largou-a logo, dizendo: – Que gelo! Que mão de finado! Alexandre Cardoso fingiu que se sorria.
– Como deve ser sublime o jogo! Senhores, eu também quero jogar! – Escolhe má noite; o banqueiro tem o diabo nas mãos! – Dizem alguns que a mulher às vezes pode mais que o diabo: quero jogar; mas com uma condição...
– Qual?.
– Jogarei emparceirada com algum dos senhores que se prestará e ensine-me o jogo, deixando-me livres as inspirações.
Todos aplaudiram a idéia e por cortesia e por certos prejuízos comuns nos cada qual pediu e reclamou a dita da parceria coma bela cortesã, que tendo calculado com isso, tornou, dizendo.
– Não farei exceções: dos que têm perdido ao jogo cada um por sua vez será meu parceiro; e ainda mais.
– Que mais? – Se eu ganhar como espero, aquele que por mim tiver recuperado o dinheiro perdido, deixará logo a parceria a favor de outro.
Os jogadores começavam a rir.
– E conta ganhar?...deveras?..
– Até hoje a fortuna sempre me sorriu. Eia! joguemos!.
Ângelo, tendo recolhido mais de oito mil cruzados, refletira friamente sobre o bilhete de Maria, e acabava por dar pouca importância à sua ameaça.
– Bela senhora, disse ele; não posso vencer a felicidade e a pesar meu, terei de vencer o seu encanto.
Maria sorriu-se para Ângelo tendo por segura a sua obediência Logo depois, recebendo breves explicações do jogo talvez desnecessárias, lançou sem contar um punhado de moedas de ouro na carta que escolheu.
O parceiro que ela designara, seguiu-lhe a inspiração.
Ângelo carteou e ganhou.
Maria tornou a sorrir, aplaudindo a dissimulação do banqueiro, a quem ainda supunha obediente; mas, continuando o jogo, reconheceu-se ludibriada.
No fim da cartada ela tinha já perdido perto de dois mil cruzados.
Mais ressentida da desobediência do que da perda do dinheiro, e lembrando-se de Gonçalo Pereira, cuja reprovação a magoava, a altiva cortesã disse: – Asseguram-me que sou bonita e sei que sou moça; ora as moças que são bonitas têm o direito do capricho e até do abuso: não é insulto que irrogo34; é experiência que proponho ao banqueiro: a sua fortuna não lhe vem dos dedos, oh, não! Vem-lhe do simples acaso. Pois bem! Continue a ser banqueiro; mas entregue o baralho a alguém, que carteie por ele.
– Um homem não me faria tal proposição! observou Ângelo, perturbando-se.
– Mas, respondeu Maria com acento colérico, sendo uma mulher que a faz, a negativa do banqueiro autorizaria as suspeitas de qualquer homem.
E acrescentou logo depois: – Senhor Ângelo, a sua felicidade é extraordinariamente prodigiosa: convém-nos experimentá-la ainda nesse mesmo baralho fora de suas mãos.
Os jogadores e entre eles alguns oficiais militares apoiaram vivamente a injuriosa proposição da bela e audaz cortesã que com olhos radiantes de fogo sinistro devorava o rosto do banqueiro desobediente.
Ângelo teve medo, baralhou as cartas, deu-as a partir, e entregou-as ao capitão que se sentara a seu lado, o que não quisera jogar.
– Volte-as o senhor, disse com raiva abafada.
– Baralhe-as de novo, e dê doutra vez a partir, disse também Maria ao capitão.
Baralhadas e partidas novamente, o capitão começou a cartear depois de feitas as paradas.
Ângelo pela falta do baralho tinha perdido o domínio das cartas, e pelo insulto que lhe fizera Maria, a placidez que apadrinha o tino; perdeu sucessivamente cinco paradas, ganhou a sexta e sétima, e tornou a perder seguidamente seis vezes antes de ganhar uma vez. A cartada custou ao banqueiro a terça parte dos seus lucros.
– Duas cartadas ainda, e ele perderá a sua última moeda de ouro, exclamou Maria a rir.
– Eia pois! bradou Ângelo fora de si, e sujeitando-se ainda à aviltadora experiência.
A profecia da bela cortesã realizou-se: Ângelo viu todo o seu dinheiro passar às mãos dos jogadores, de cuja confiança e lealdade havia indignamente abusado. A fortuna de Maria, e a sua própria perturbação tinham sido os instrumentos de um castigo providencial.
Ângelo levantou-se confuso: – Conto em breve com a minha desforra, disse ele.
34 Imponho.
Maria tinha já deixado a sala do jogo, que aliás continuou sempre
animado.Ângelo saiu; mas ao chegar à escada encontrou Maria que lhe entregou um lenço cheio de moedas de ouro e lhe disse: – Toma o que te ganhei; é o meu dinheiro que te volta às mãos: não jogarás mais em minha casa, e, pois que me desobedeceste, não tornes a ela.
Ângelo recebeu o dinheiro atado no lenço, e desceu a escada precipitadamente.
Maria, voltando-lhe as costas, encontrou diante de si o tenente Gonçalo Pereira que a seguira.
– Muito bem, Maria! Eu te adoro hoje mil vezes mais do que ontem! Maria, sorrindo feliz, estendeu para Gonçalo o pescoço e recebeu nos lábios um beijo do amante amado.
– Quero jogar prendas! gritou ela, entrando na sala.
– E eu também! disse Gonçalo Pereira perdido de amor.
O jogo de prendas terminou, e Maria, levando outra vez Gonçalo Pereira para a janela, disse-lhe: – Afortunado e doce entretenimento! Abraçamo-nos dez vezes e nos beijamos outras tantas! – E era isso o que eu devia agradecer-te esta noite? perguntou
Gonçalo.– Achas pouco? – Muito, e pouco.
Maria sorriu-se ternamente e apertando a mão do jovem e apaixonado oficial, tornou dizendo-lhe: – Não era isso o que eu pensava que me agradecerias, o que ainda penso que me agradecerás.
– Então o quê?...
– O que não contavas e nem sequer me pediste! Adivinha! Gonçalo adivinhou imediatamente.
– Passarmos juntos o resto da noite, Maria? – Sim; mas sob uma condição...
– Qual? – Dir-me-ás o que me escondes; quais são os projetos de Alexandre Cardoso relativamente à filha do carpinteiro.
– Sempre vil espião! – Gonçalo!...
– Esta imposição me desatina, e eu declaro que não é possível continuar a obedecer-te.
– Tão pouco mereço eu! Ah Maria! tu não me dás, vendes-me o teu amor a preço de deslealdade e de desonra minha! A bela cortesã, inclinando a cabeça para murmurar um segredo ao ouvido do amante, tocou com os lábios na face dele, e depois continuando a conversar, torcia levemente com os dedos a ponta do negro bigode do
elegante militar.Dejanira cativava a Hércules.35 Gonçalo, abrasado em apaixonadas flamas, jurou dizer-lhe quanto sabia, quando estivessem sós.
– Por que não agora? perguntou Maria.
O tenente corou e disse tremendo e com os dentes cerrados: – Porque tu és escrava, e eu não sei se teu senhor te quererá deixar livre.
Maria corou por sua vez, teve um ímpeto de cólera; mas dominou-se e tornou a falar.
– E se eu o fizer sair já?...
– Já?...
– Em cinco minutos.
– Dir-te-ei tudo imediatamente.
Maria saiu da janela, dirigiu-se à sala do jogo, sentou-se junto de Alexandre Cardoso e disse-lhe ao ouvido: – Há meia hora que um soldado da guarda do vice-rei veio trazer uma carta dirigida a ti.
– Onde está a carta? Maria mostrou; mas não entregou a carta.
– Dá-ma, disse Alexandre Cardoso; é talvez alguma ordem do vicerei...
– Não é do conde da Cunha...
– Qu’importa? Seja de quem for; dá-ma.
– Aqui não, respondeu Maria, retirando-se.
Alexandre Cardoso seguiu a cortesã até um gabinete, onde ela entrou.
Maria voltou-se e com voz alterada e os olhos em fogo, disse, mostrando a carta em sua mão: – Esta letra é de mulher!...
Alexandre Cardoso riu-se do acesso de ciúme da amante.
– Semelhante carta mandada a minha casa é uma zombaria, injúria a que não me resigno! – Maria, não há mulher que me escreva; tranqüiliza-te.
– Oh!... tranqüilizar-me!... exclamou a cortesã, misturando o furor com as lágrimas que dos olhos lhe romperam.
35 Esposa de Hércules, segundo a mitologia greco-romana. Foi a causadora involuntária da morte do marido ao induzi-lo vestir uma túnica envenenada, que incendiou seu corpo.
Alexandre Cardoso comoveu-se, ou quis pôr termo à questão e disse: – Convence-te de que és louca: abre a carta, e lê o nome de quem me
escreve.Maria, trêmula de irado ciúme, rasgou o sobrescrito, dobrou o papel, e vendo a assinatura, sorriu-se e balbuciou um pouco confundida, entregando a carta, que não quis ler: – Perdão, Alexandre.
O ajudande oficial-de-sala empalideceu, lendo o que lhe comunicavam, e visivelmente contrariado falou a Maria.
– É forçoso que eu te deixe: um caso imprevisto reclama a minha presença fora daqui; até amanhã.
E, beijando a mão da cortesã, foi à sala do jogo recolher o seu dinheiro, e saiu apressado.
Maria tinha aberto e lido a carta, em que um dos protegidos de Alexandre Cardoso, e encarregado de dar-lhe conta de quanto se passasse com o vice-rei, de quem era criado, lhe anunciava que Jerônimo Lírio fora recebido em audiência particular pelo conde da Cunha, e estava com este em conversação muito animada.
O ciúme da cortesã fora um embuste para encobrir o repreensível abuso do rompimento do selo da carta.
Quando Maria voltou à sala, Alexandre Cardoso já se tinha retirado; ela correu à janela, onde Gonçalo a esperava, e perguntou-lhe: – Que há em relação à filha do carpinteiro? – É uma bonita menina que nobremente resiste a toda espécie de sedução.
– E ele? o sedutor? – A ele próprio nada ouvi; porque confesso que desde algumas semanas me furto às confidências e à intimidade de Alexandre Cardoso.
Maria fez um movimento de contrariedade.
– Um dos seus amigos porém há pouco me revelou um plano atroz, a idéia de um duplo crime.
– Qual? – Aproveitando o isolamento da casa do carpinteiro, Alexandre Cardoso a fará incendiar, e a pretexto de acudir ao incêndio, será presente, e conta poder violentar ou raptar a pobre donzela.
– Quando se efetuará este projeto criminoso? – Amanhã ou qualquer dia.
– A menina chama-se Emiliana... o pai Marcos Fulgêncio...
– Não sei; como o sabes tu, Maria? – É que tu dormes, e eu velo, Gonçalo; nada sabes, e eu sei muito por isso.
– Oh! mas eu também sei muito, sei demais!..
– O que, mentiroso?...
– Adorar-te, feiticeira!...
Maria beijou a fronte de Gonçalo, e fugia-lhe; ele, porém, deteve-a, segurando-a pelo vestido e perguntou: – Não basta de canto, de dança e de jogo, Maria? A cortesã lançou sobre Gonçalo um olhar voluptuoso e delirante.
– Tens razão, respondeu ela; é tarde; as velas estão gastas, as luzes quase a apagar-se: que outras luzes, pois, se acendam.
E meia hora depois, estavam sós Gonçalo e Maria.
Desde alguns meses o conde da Cunha começara a meditar sobre a possibilidade do comprometimento do seu nome e da sua reputação em abusivo e criminoso proveito do seu ajudante oficial-de-sala, e não menos sobre alguns indícios, que no murmurar do povo eram provas dos costumes
desregrados e da vida desmoralizada de Alexandre Cardoso.Encantado pela atividade e inteligência do tenente-coronel do regimento velho, a quem chamara para o gabinete do governo da colônia, o vice-rei conde da Cunha, durante os primeiros anos desprezara e até castigara todas as queixas e denúncias dadas contra Alexandre Cardoso, não só pela habilidade com que este se defendia, como pela recente lembrança do muito que sofrera o conde de Bobadela em insultuosas cartas anônimas, que também então chegavam às mãos do vice-rei, cheias de acusações contra o seu querido ajudante oficial-de-sala.
Ultimamente, porém, um inimigo muito mais terrível operava incógnito, atacando Alexandre Cardoso.
Não se passava semana em que o conde da Cunha não recebesse uma espécie de relatório da vida desordenada do seu ajudante oficial-de-sala, sendo para notar que às vezes o sinistro semanário preanunciava casos que efetivamente se realizavam.
As censuráveis relações de Alexandre Cardoso com Maria, ainfluência desta, fazendo-se sentir na administração, o patronato produtivo exercido por aquele, sua paixão em jogo, seus desregramentos e atentados contra o pudor e a moral, a venda de alguns empregos, a isenção do recrutamento a preço ajustado, as violências e imposições excessivas que se atenuavam ou desapareciam, conforme a importância de ajustes particulares, tudo enfim o vice-rei recebia comunicado no infalível semanário escrito de modo a disfarçar completamente a letra.
O conde da Cunha fora por esse meio informado da paixão em que Alexandre Cardoso se abrasava pela filha mais moça de Jerônimo Lírio, e dos esforços que ele empregava para cativar a gratidão do pai da bela menina, e introduzir-se no seio da família Lírio como amigo e protetor.
Até fevereiro de 1766 os relatórios anônimos e semanais influíram pouco no espírito do conde da Cunha; recebidos com a desconfiança que merecem denunciantes inimigos que ferem à traição, esses escritos conseguiram ao menos abalar um pouco a cega confiança que o vice-rei depositava no seu oficial-de-sala, mas no domingo do carnaval a carta e o bilhete que Jerônimo Lírio foi apresentar, produziram impressão profunda no ânimo do conde da Cunha, porque demonstraram que o secretário do governo abusava da sua posição e do nome do chefe da administração do Brasil servindo-se de uma e de outro para seus empenhos particulares e reprovados.
O conde da Cunha sabia que Alexandre Cardoso era jogador e apaixonado do belo sexo; não acreditando, porém, que ele se entregasse doidamente a essas duas paixões, como seus inimigos propalavam, perdoava-lhe esses defeitos em atenção a essas qualidades; mas os fatos começavam a provar que o ajudante oficial-de-sala comprometia o vice-rei.
Suspeitoso enfim, e disposto a dissimular, o conde recebeu na manhã da segunda-feira, a Alexandre Cardoso com a mesma bondade com que sempre o fazia e perguntou-lhe se mais alguma novidade ocorrera no dia antecedente.
O ajudante oficial-de-sala estava prevenido.
– Nada mais, sr. vice-rei, respondeu ele; a proibição do entrudo foi geralmente observada; deu-se, porém, uma única exceção muito escusável: o honrado negociante Jerônimo Lírio, jogando o entrudo na sua chácara da Gamboa, tolerou infelizmente que, contra o preceito dos editais fixados, mercadores de limões de cheiro fossem vendê-los no terreiro de sua casa; recebendo denúncias do fato e observações sobre minha parcialidade a favor desse negociante, feitas por amigos que gracejaram comigo, aludindo a uma nova calúnia, de que sou vítima, escrevi uma carta oficial muito severa a Jerônimo Lírio, intimando-o para vir hoje, ao meio-dia, explicarme o seu procedimento; preparada assim esta satisfação para o público, mandei dentro da carta um bilhete, tranqüilizando o bom velho negociante.
O conde da Cunha fingiu que de leve se sorria.
– Tranqüilizando-o. . . como?...
– Em breves palavras deixei entender que fora indispensável dirigirlhe a severa carta; mas que hoje eu conseguiria tudo quanto não pudera conseguir ontem.
– Entendo: o vice-rei conde da Cunha é o déspota, e o seu ajudante oficial-de-sala a bandeira da misericórdia; é isso?.
– Mudado o nome déspota em magistrado severo e reto, é isso mesmo, senhor.
– Explique-se então melhor.
– Tarde e quando v. exª já se havia recolhido, escrevi eu a carta e o bilhete em questão; resolvi por mim mesmo, porque o fato não tem conseqüências, e não devia por tão pouco incomodar a v. exª; mas, escrevendo, cumpria-me fazer partir a ordem em nome do vice-rei, e indicar que eu interviria hoje e conseguiria o completo esquecimento da desobediência de Jerônimo; porque de outro modo, e pondo de lado o sr.
vice-rei, que é quem governa e manda, diria o negociante que eu também governo e mando na Colônia.
Alexandre Cardoso tocara no fraco do conde da Cunha.
– Assinou o bilhete? perguntou ele.
– Não, senhor, e desfigurei a letra.
– Por quê? – Poderia dar-se o caso de Jerônimo Lírio perdê-lo.
– Fez bem.
– Deixei cópia da carta e do bilhete, que o sr. vice-rei lerá, quando quiser.
– Já os li, disse o conde da Cunha.
– Como? Onde, senhor?.. . perguntou o ajudante oficial-de-sala com admiração perfeitamente fingida.
– Jerônimo Lírio mos apresentou ontem, à noite.
– Ah! segue-se que ele desconfiou de mim.
– Eu o creio também.
– Dói-me isso: é um homem de bem, que me desconsidera e me desestima.
– Sem motivo?...
– A pergunta de v.exª me confunde.
– Ele não, mas alguém me disse que o meu ajudante oficial-de-sala ama uma das filhas de Jerônimo Lírio.
– E é verdade, sr. vice-rei.
– E que procura por todos os meios relacionar-se com a família da menina amada.
– Por todos os meios lícitos, também é verdade.
– E com que fim? – Com o único fim honesto...
– Quereria casar-se? – Poderia eu ter outro pensamento?...
– Há quem o suponha, sr. Alexandre Cardoso.
– O pai, sr. vice-rei?.,.
– Muito orgulhoso, não lhe ouvi uma palavra a esse respeito; é, porém, certo que ele não faz honra aos seus sentimentos.
– Sr. Vice-Rei, tenho um meio seguro, infalível de manifestar e provar a pureza de minhas intenções, e as torpes calúnias dos inimigos de V. Exª, que são os únicos que conto.
– Qual é esse meio? – Sou nobre, e tenho já no exército elevada patente; mais do que isso, o ajudante oficial-de-sala do vice-rei, que é o sr. conde da Cunha, não pode ser homem absolutamente obscuro.
– Certamente.
– Pois bem: v. exª que tem sido o meu protetor, o meu segundo pai, patrocine esse amor de que me fazem um crime, e faça com que se realize o meu casamento com a filha mais moça de Jerônimo Lírio.
O rosto do conde da Cunha expandiu-se.
– Senhor Alexandre Cardoso, disse ele, descansando a mão direita no ombro do seu secretário; acaba de tirar-me um peso horrível que me esmagava o coração; vá trabalhar; hoje mesmo farei o que me pede, e quero ser uma das testemunhas do seu casamento.
O ajudante oficial-de-sala beijou a mão do vice-rei.
– Ao meio dia Jerônimo Lírio se apresentará.
– Depois de ter falado ao sr. vice-rei? – Eu sei manter a força moral dos meus subalternos.
Alexandre Cardoso curvou-se, agradecendo.
– Diga o que julgar melhor ao pai da sua noiva, na certeza do bilhete, e diga-lhe enfim, de minha parte, que esta tarde hei de ir visitá-lo à sua chácara da Gamboa. Vá trabalhar.
Alexandre Cardoso saiu.
– Como se julga mal e injustamente dos homens!... Como se caluniam aqueles que carregam com o peso e com a responsabilidade do governo disse consigo o conde da Cunha.
Alexandre Cardoso acabava de reconquistar toda a confiança da vicerei.
Uma visita do vice-rei era um acontecimento extraordinário que se marcava, como título de honra, no livro da família visitada. Jerônimo Lírio, sem dúvida ufano, mas um pouco desconfiado da inesperada distinção, preveniu logo a sra. Inês do que deveria esperar, e demorou-se apenas duas
horas na cidade, fazendo compras e despachando portadores.Às cinco horas da tarde, o caminho da Gamboa estava em seus piores lugares consertado por mais de trinta escravos que se ocupavam desse serviço, e a casa do rico negociante pronta a receber o hóspede quase real.
A sala principal ostentava sua mobília rica, severa e pesada; as mesas e bufetes eram de jacarandá e ornados de custoso trabalho de talha; as cadeiras, também de jacarandá e com o mesmo trabalho, eram de espaldar e de assento de couro lavrado e brunido; as paredes e o teto pintados a fresco e com mais luxo e riqueza do que hoje se observa, tinham sido fácil e cuidadosamente escovados. A sala de jantar, ornada no mesmo gosto, apresentava imensa mesa ocupada por inúmeros pratos de riquíssimo banquete; a louça era a mais fina da Índia, e o resto do serviço de prata e de ouro; as toalhas, do mais fino tecido custosamente bordadas e com as melhores rendas nas cercaduras. A profusão e variedade dos doces excedia o mais exagerado cálculo em repentino banquete.
Melhor que tudo, ainda de mais apurado gosto – sempre a idéia religiosa na vida da família – o oratório grande e de elevado valor material, também de jacarandá e de perfeitíssima obra de talha, estava, como em ação de graças pela honrosíssima visita, armado e brilhantemente iluminado com velas novas e brandões.
A sra. Inês, vestida ricamente, e com dezenas de contos de réis, ou de mil cruzados, como então se contava, em brilhantes nas orelhas e no colo, as duas meninas trajando finíssimos vestidos brancos de subido preço, e enfim, Jerônimo Lírio, de casaca, jaleco e calções de veludo, e calçando sapatos com fivela de ouro encastoadas de brilhantes, enfeitado com primorosa cabeleira apolvilhada, e com babados de delicadíssimo trabalho no peito e punhos da camisa, esperavam ansiosos o vice-rei conde da Cunha.
Nos atropelados e urgentíssimos serviços e cuidados dessa metade de um dia, o concurso de Isidora foi do mais útil auxílio: enquanto a sra. Inês e as duas meninas cuidavam do banquete e especialmente dos doces, Jerônimo do conserto do caminho e do asseio da sala, ela tomara sobre si a armação, ornamento e iluminação do oratório e do respectivo gabinete, muito menos ansiosa e precipitadamente; porque não devendo aparecer ao vice-rei, não se preocupou com a lembrança do toucador.
Jerônimo entrou no gabinete do oratório, quando já se achava vestido e pronto para receber o vice-rei, e tão satisfeito ficou do que viu, que foi abraçar Isidora, a quem encontrou sentada e lendo placidamente.
Depois de abraçar a bela hóspede com liberdade só escusável em um velho, perguntou-lhe: – Por que não mudou de vestido?...
– Primeiramente, porque suponho que não devo aparecer, e em segundo lugar, porque realmente não tenho melhor.
Jerônimo saiu e dali a pouco trouxe a Isidora o melhor vestido branco da sra. Inês.
– Os das meninas não podem chegar-lhe, disse ele; o de minha mulher talvez lhe sirva; experimente.
– Mas, devo eu mostrar-me?...
– Sem dúvida: o vice-rei não é espião, e de quem mais se arrisca, menos se desconfia.
O vestido da Sra. Inês serviu às mil maravilhas a Isidora, e apenas, embora rastejante, quando no corpo de sua verdadeira dona, podia ofender um pouco o rigor da moda, por deixar demasiado à mostra os pés delicados da bela moça asilada.
Jerônimo Lírio, que apesar de toda a sua gravidade, andava aforismado36, e fora do seu natural com a idéia ufanosa da visita do vicerei, exclamou, vendo Isidora trajando o vestido da sra. Inês: – Admirável!...Está bonita e elegante, como as meninas! Quero encantar o conde da Cunha: nhanhã e sinhazinha hão de dançar e... a senhora dança?...
– Muito desajeitadamente; canto, porém, menos mal do que danço.
– Pois as meninas dançarão, e... a senhora cantará, sim?...
– Farei tudo que me ordenar.
Um escravo correu a anunciar que o vice-rei conde da Cunha se aproximava.
Jerônimo e as quatro senhoras precipitaram-se ao encontro do grande hóspede.
O conde da Cunha chegava a cavalo seguido de uma guarda de soldados de cavalaria, e enquanto as quatro senhoras ficaram imóveis no terreiro e perto da escada do terraço, Jerônimo Lírio avançou alguns passos
para segurar no estribo do vice-rei, como de fato assim procedeu.O ilustre fidalgo e chefe do governo do Brasil-Colônia dignou-se apertar a mão do rico e honrado negociante e foi logo cumprimentar as senhoras, subindo imediatamente a escada e entrando na sala antes de todos, e aí recebeu os primeiros agradecimentos de Jerônimo, que lhe apresentou designadamente sua mulher, suas filhas, e Isidora como sua hóspede.
O conde, tornando-se amável, dispensou palavras agradáveis a cada uma das senhoras, demorando-se alguns momentos mais do que com as outras, quando dirigiu-se à menina Inês, e voltando-se para Jerônimo, disse-lhe: – Já ouvi gabar a beleza de suas filhas, e contaram-me que o povo da cidade as alcunhou, chamando-as os dois lírios. Desta vez o povo do Rio de Janeiro tem razão.
As meninas, que se atreviam a levantar os olhos, coraram de modéstia e abismaram-se em confusão.
O conde da Cunha, lançando então os olhos em torno de si, viu todas as portas escancaradas, todas as salas patentes, e em frente o gabinete ornado e iluminado, onde o oratório estava aberto e compreendendo a lisonjeira significação do religioso obséquio, dirigiu-se ao gabinete e fez íntima e curta oração ajoelhando-se sobre uma almofada de veludo verde: ajoelhados também rezaram Jerônimo e as senhoras e quando o conde persignava-se para levantar-se, Isidora cantou suavemente um simples hino
36 Inquieto.
religioso em ação de graças a Deus pela honra da visita do vice-rei, que, levantando-se, enfim, examinou o oratório e as imagens, e retirou-se, permitindo a Jerônimo que cerrasse as portas do gabinete em respeito às
imagens que expostas ficavam ainda.Depois de conversar algum tempo com a família de Jerônimo, o conde foi ao terraço e encareceu a feliz posição da casa, e a esmerada disposição e o cultivo da chácara, e tornando à sala, recebeu da senhora Inês o pedido de aceitar uma colher de doce.
Um momento depois o vice-rei entrou na sala de jantar e viu diante de si o mais esplêndido e delicado banquete, e fazendo com que as senhoras e Jerônimo se sentassem com ele à mesa, disse sorrindo: – Eu não tinha conhecimento da existência de um palácio encantado na capital da colônia! E honrou o banquete de modo a satisfazer os hóspedes que tão galhardamente o recebiam.
Um escravo calçado e trajando libré nova e de luxo servia exclusivamente o conde da Cunha, mudando-lhe os pratos e talheres.
No fim de cerca de meia hora o vice-rei levantou-se da mesa e fez mudamente a oração de graças.
Um outro escravo tão ricamente trajado, como o outro, apresentouse, finda a oração, ao conde com um jarro e prato de ouro e finíssima toalha.
Enquanto o vice-rei lavava os dedos, Jerônimo tirou do bolso e deu ao primeiro escravo uma folha de papel dobrada em quatro, e quando o vice-rei acabou de enxugar os dedos, Jerônimo tirou do bolso outra folha de papel semelhante e a entregou ao segundo escravo.
O conde da Cunha não compreendeu e teve curiosidade de saber o que significava aquela entrega de folhas de papel.
– Que papéis são esses? perguntou.
– Senhor vice-rei, os escravos que tiveram a honra de servir hoje imediatamente a v. exª, nunca mais servirão como escravos a outra pessoa.
Eram pois dois escravos que ficavam libertos.
O vice-rei saiu comovido da mesa do banquete.
A guarda do vice-rei foi com permissão deste introduzida na sala do jantar deixada pelo nobre senhor, que ao ver entrar os soldados, disse gracejando, o que raramente fazia: – Invejo aqueles estômagos de tarimba!37 Mas eu tenho melhor livro do que eles para perpetuar a nota desta visita: eles hão de lembrá-la pelas doze saudades de seu estômago, e eu pela memória grata do coração.
A um sinal de Jerônimo a senhora Inês foi sentar-se ao cravo, e as duas meninas levantaram-se, e ao som da música dançaram com explicável
37 No texto: caserna.
acanhamento, mas com graça natural, merecendo ser abraçadas de leve pelo
vice-rei.Isidora tomou em seguida uma guitarra, e cantou uma balada, e um lundu que era gracioso sem ter a menor inconveniência.
A voz de Isidora era um contralto admirável, e ou fosse o encanto dessa voz, ou talvez a novidade daquele gênero de música para o sempre recolhido e melancólico vice-rei conde da Cunha, certo é que este fez Isidora repetir o seu lundu já cantado, e cantar ainda outros.
Às nove horas da noite marcadas no relógio do conde, disse este: – Cheguei antes das seis horas, contava estar de volta às sete, e eisme ainda aqui às nove, em que de costume recolho-me aos maus aposentos!.
Jerônimo curvou-se profundamente.
– O senhor e sua família improvisaram para obsequiar-me uma recepção real, de que jamais me esquecerei. Se alguma destas três meninas, ou se, como desejo, todas se casarem com aprovação de seus pais antes da minha retirada da colônia, quero ser testemunha de seus casamentos, e darei a cada uma delas o seu vestido de noivado: é um favor que peço.
Jerônimo tornou a curvar-se.
O vice-rei estava distribuindo as suas graças.
– Ouvi, continuou ele, a menina Isidora tratar a chefe da família por senhora Inês, esquecendo um título.
– Eu sou humilde plebeu, observou Jerônimo; minha mulher não tem dona.
– Pois terá esse título que vou mandá-lo impetrar, como há de o digno esposo da senhora dona Inês ser cavaleiro da Ordem de Cristo, se ainda mereço, como suponho, a confiança del-Rei nosso senhor.
Jerônimo respondeu: – O senhor vice-rei nos confunde com tanta bondade e proteção: nós bendiremos de todas as graças que nos vierem por intervenção tão honrosa; mas a maior honra já a tivemos nesta singular e gloriosa visita.
– Agora, disse o conde, que as senhoras vão descansar do incômodo que lhes dei; antes de retirar-me preciso conversar a sós com o senhor Jerônimo Lírio.
As senhoras levantaram-se e despediram-se do vice-rei, que com elas repartiu obsequiosas amabilidades.
O conde da Cunha ficou na sala com Jerônimo.
O conde da Cunha estava na verdade penhorado pela recepção que tivera na visita a Jerônimo, o conserto do caminho, o recebimento pelas senhoras no terreiro, a oração religiosa no oratório brilhantemente ornado e iluminado, a riqueza do banquete, a alforria dos dois escravos que o serviram à mesa, a dança e o canto das meninas, e tudo isso combinado e realizado em cinco horas, tinham sido trabalhos e festas de improviso, e de
cortesia delicada, que obrigam a gratidão.Mas fazendo promessas de obséquios e de graças na mesma ocasião e com evidente falta de bom e melindroso gosto, o vice-rei talvez tivesse a idéia de dominar pela vaidade e pela ambição de distinções os sentimentos e a vontade do austero e teimoso velho português.
– Senhor Jerônimo, disse ele; desde que me fiz seu hóspede, conhecime seu amigo.
– Eis ai a minha ufania, e o meu maior galardão, senhor vice-rei – Pois bem; falemos, conversemos, como amigos que somos devemos ser, e vamos direto à questão de que desejo ocupá-lo.
Jerônimo esperou silencioso que o vice-rei anunciasse a questão.
– Que juízo faz do meu ajudante oficial-de-sala? – O pior possível, respondeu com segurança o velho negociante.
– Por quê? – Eu já tive a honra de dizer ao senhor Vice-Rei, que em caso algum me farei denunciante.
– Aqui não está o vice-rei, está o amigo que interroga o amigo para oferecer-lhe ou não oferecer-lhe uma proposição importante.
Jerônimo adivinhou o pensamento e o empenho do conde da Cunha, e disse com ampla franqueza: – O dia mais glorioso da minha vida vai acabar desconsolado e triste; porque o senhor vice-rei veio distinguir-me altamente com a honra da sua visita para dar-me uma ordem a que não poderei obedecer.
– Então...
– Senhor, eu sou como pai responsável a Deus pelo futuro e pela felicidade de minhas filhas, e em nome de Deus jamais convirei em que alguma delas seja esposa do tenente-coronel Alexandre Cardoso.
– Entretanto ele é cavaleiro nobre.
– Não é porém nobre cavaleiro.
– Ainda!...
– E sempre, senhor vice-rei: pelo chefe supremo da sala respeito quanto devo e posso ao seu ajudante oficial; mas a consciência e o amor paternal não me permitem fazer de Alexandre Cardoso marido de minha filha.
– E se eu respondesse por ele?.
– Oh! Com todo o respeito digo que o senhor vice-rei já responde demasiado por ele no governo da colônia: é um vassalo fiel de el-rei nosso senhor que fala assim; agora o que como pai sei e posso dizer, é que esse homem jogador frenético, libertino sem freio, sedutor que tem feito a vergonha e o infortúnio de não poucas famílias, não está no caso de merecer a minha confiança.
– É então inexorável com um jovem fidalgo, que apenas tem exagerado mais do que devia os defeitos próprios da sua idade? Jerônimo Lírio respondeu sem mudar de tom.
– Sei bem que não passo de humilde peão de baixa classe; pela minha honra porém declaro que me senti ultrajado, quando senti que esse fidalgo ousava levantar os olhos para minha família.
O vice-rei tinha feito voto de paciência, e via bem que tratava com um português velho e cabeçudo; insistiu pois, dizendo: – Mas, levantando os olhos para sua família, Alexandre Cardoso o fez com as mais puras intenções, e a prova é que o fim desta conversação confidencial foi ainda há pouco adivinhado. Vim pedir-lhe, e peço-lhe a mão de sua filha Inês para o meu.
– Ah, senhor vice-rei!... perdão!... exclamou Jerônimo.
– Suas prevenções contra Alexandre Cardoso o tornam injusto: ele joga, mas deixará de jogar; tem freqüentado demais a casa de uma cortesã lamentavelmente célebre: não continuará porém a fazê-lo. Eis aí os graves senões, as tristes desculpas que com verdade se atribuem ao meu ajudante oficial-de-sala; eu as condeno; mas vão lá achar um santo entre mancebos e principalmente entre os dos regimentos velho e novo! São os erros repreensíveis; todavia desde que são corrigidos, esses erros não desonram o futuro, porque não perpetuam a desonra, ou antes as nódoas do passado.
Jerônimo não respondeu, e o conde prosseguiu: – Fora disso, bem sei, amontoam-se ainda tremendas acusações, a décima parte das quais bastaria para levar Alexandre Cardoso à forca: a sedução de donzelas, as extorsões e as violências em nome do governo, o peculato, formariam a lista dos seus crimes; donde porém as provas? – As provas, senhor vice-rei... as provas? – Acabe... sei que não tem intenção de ofender-me...
– As provas... o senhor vice-rei deve procurá-las.
– O vice-rei tem recebido cem cartas anônimas, como as que se escrevem contra o conde de Bobadela; o povo desta capitania foi sempre mais ou menos altaneiro, e sofre de má vontade e morde o freio do governo; daí mil calúnias arrojadas para tormento e descrédito daqueles que governam, e a pior é que os próprios homens de bem, como o negociante Jerônimo Lírio, acabam por acreditar nos aleives multiplicados e repetidos.
– E porque o senhor vice-rei duvida sempre, o povo é vítima do ajudante oficial-de-sala.
– Um fato com a prova...
– Senhor, eu cuido só da minha vida, e nunca pensei em recolher provas dos atentados e dos abusos do tenente-coronel Alexandre Cardoso.
– Eis aí!...
Jerônimo Lírio cruzou os braços e disse: dois amigos que somos”; se pois mereço o nome de amigo, assisteme o direito de falar franco.
– Sem dúvida.
– O senhor vice-rei deve vigiar melhor o seu ajudante oficial-de-sala.
O conde da Cunha turbou-se.
– Vossa excelência tem confiado nele além dos limites da prudência...
O vice-rei encrespou as sobrancelhas.
– Perdão, senhor; é o amigo que fala.
– Tem razão, disse o conde, serenando: continue.
– Se o senhor vice-rei, sem desconfiar do seu ajudante oficial de sala, mas também não confiando demasiado nele, ouvir com paciência os queixosos, e por si aprofundar o estudo dos fatos de que se fazem pontos de acusação, não precisará pedir provas dos crimes de Alexandre Cardoso, a pessoa alguma, e reconhecerá que ele tem sido fatal ao seu governo.
– Senhor Jerônimo Lírio, pela segunda vez e agora ainda mais clara e positivamente acaba de dirigir-me grave censura.
Jerônimo curvou-se e não se desculpou.
– Insiste no que disse? perguntou o conde.
– Insisto, senhor vice-rei, e digo mais; ousei e ouso desobedecer a v.
exª, não concedendo a mão de minha filha Inês ao ajudante oficial-de-sala de v. exª.
O conde fez um movimento de despeito.
Jerônimo continuou: – Mas se o senhor vice-rei quiser vigiar mais cautelosa e atentamente o seu secretário, e no fim de dois meses não se achar convencido das minhas respeitosas prevenções de amigo, comprometo-me a aprovar e a realizar o casamento de minha filha com o tenente-coronel Alexandre Cardoso.
O rosto do conde expandiu-se.
– Senhor Jerônimo Lírio, disse ele; aceito o compromisso e farei o que me aconselha; tenho nisso maior interesse; pois queria condição que me oferece, compreendo a profundeza das suas convicções contrárias ao meu secretário do governo, e a grandeza da sua amizade à minha pessoa.
E dando a mão a Jerônimo, acrescentou: – Retiro-me, levando a segurança da sua palavra.
– Eu, senhor vice-rei, fico tranqüilo com a certeza de que o casamento não se realizará.
O conde da Cunha que havia já dado alguns passos, voltou-se e ainda ajuntou: – Não preciso recomendar-lhe segredo sobre o seu compromisso condicional: quero que todos absolutamente o ignorem; é matéria de que
nem nós mesmos teremos de falar até o prazo de dois meses; direi a Alexandre Cardoso que não pude vencer a sua oposição ao casamento de
sua filha com ele.Jerônimo acompanhou o vice-rei, e no terreiro recebeu a última despedida, e não se esqueceu de segurar no estribo, quando o conde montou a cavalo.
O vice-rei partiu; quatro pajens de Jerônimo, levando lanternas, galopavam adiante, esclarecendo o caminho.
Eram dez horas da noite, quando o conde da Cunha apeou-se à porta principal da casa dos vice-reis, que aliás ainda não se chamava e só para clareza chamamos palácio.