Satisfeito dos obséquios que recebera, o vice-rei voltara contudo da sua visita preocupado e entregue a pesadas reflexões: o homem da sua confiança era objeto de reprovação geral e Jerônimo Lírio, um tipo de austeridade e honradez, o apontara como criminoso e fatal ao vice-reinado, e, muito mais ainda, assinalara com respeito, mas tão claramente, o desmazelo do chefe do governo da colônia que chegara a prometer o casamento de sua filha, se ele, o vice-rei, vigiando melhor o seu ajudante oficial-de-sala, não conhecesse em dois meses a indignidade deste, e a
própria e repreensível cegueira.O conde duvidava: os velhos são teimosos por vaidade, e aferrados a suas afeições por fraqueza; mas a franqueza nobre de Jerônimo, e o compromisso por este tomado, o obrigava também a vencer, a domar os seus sentimentos de simpatia, favor e confiança que tanto aproveitavam a Alexandre Cardoso no dizer de todos. Disposto, decidido a pôr em ação a mais apurada vigilância e esmerilhado estudo dos negócios, subia as escadas do palácio, quando ouviu o dobre dos sinos, anunciando incêndio, e logo ordenou que de novo lhe trouxessem o mesmo cavalo, em que chegara, ou que imediatamente selassem outro.
Cinco minutos eram apenas passados e o vice-rei ia montar a cavalo apesar da idade e da fadiga; mas um soldado de cavalaria chegou a correr, trazendo uma comunicação verbal de Alexandre Cardoso, segunda qual o incêndio era de pouca importância, devorava uma pequena casa isolada no fim da praia de Santa Luzia, e todas as providências estavam tomadas.
O conde da Cunha, abençoando ainda uma vez a atividade do seu ajudante oficial-de-sala que o poupava a tantos incômodos, tornou a subir as escadas, e despedindo os criados e dispensando a ceia, retirou-se para o seu quarto, sendo apenas acompanhado pelo seu criado particular, o velho soldado que servira em Mazagão, o seguira para Angola, e em seu serviço viera também para o Brasil.
Era, já ficou dito, um homem rude, analfabeto, mas fiel e dedicado, e que apesar dos seus sessenta anos valia dez moços em bravura, e um leão em força. Em Angola escapara milagrosamente a uma febre perniciosa com derramamento cerebral; ficara porém mudo em conseqüência de paralisia da língua.
Germiano, que assim se chamava o criado mudo, apenas chegou ao gabinete do amo, entregou-lhe uma carta.
Conhecido como exclusiva e, por assim dizer, religiosamente dedicado ao conde da Cunha, Germiano era de ordinário o portador escolhido para certas cartas anônimas, que por diversos e variados ardis lhe chegavam às mãos sem que se atraiçoasse ou descobrisse quem as escrevia.
O vice-rei abriu e leu a que acabava de receber, e que dizia o seguinte: “Cego e surdo vice-rei; é força que se antecipe o meu relatório da semana que apenas começa, para dar-te duas notícias e uma prevenção; eis as notícias: Alexandre Cardoso ontem à noite jogou doidamente a banca em má companhia na casa da cortesã audaciosa que por ele governa como vicerei de toucado e leque. – Às nove horas da noite foi entregue a Alexandre Cardoso na casa imoral uma carta de um dos criados do vice-rei de calções, anunciando-lhe que este recebera em suspeitosa audiência o velho negociante Jerônimo Lírio, e o oficial-de-sala deixou precipitadamente o jogo, e saiu para informar-se miudamente do que se passara. – Limitam-se a estas as minhas noticias do passado que foi ontem: agora receba o cego e surdo vice-rei de calções a prevenção de um crime que se projeta. Na noite de hoje ou em alguma das mais próximas será incendiada a pequena casa do carpinteiro Marcos Fulgêncio na praia de Santa Luzia, e aproveitando a desordem e a confusão que sempre se observam nos incêndios, Alexandre Cardoso ou raptará ou violentará a honesta filha do pobre carpinteiro. – Parabéns ao cego e surdo vice-rei de calções por estas flores do seu vicereinado.
– Post Scriptum: a cortesã, vice-rei de toucado e leque, começa a ressentir-se do arrefecimento da paixão de Alexandre Cardoso, e solícita aproveita a luz do seu ocaso para arranjar os últimos afilhados (que prometem pagar bem) em empregos e em postos dos novos terços criados.
– Adeus e até breve, cego e surdo vice-rei. – Alma do outro mundo”.
O conde da Cunha amarrotou com raiva a carta insolente, apertandoa na mão; impressionado, porém, pela prévia notícia do incêndio, perguntou ao criado: – A que horas te deram esta carta? Germiano levantou a mão direita, estendendo os cinco dedos, e logo a esquerda, estendendo somente três.
– Às oito horas? O mudo fez com a cabeça sinal afirmativo.
– Foi prévia a notícia, murmurou o vice-rei.
E tendo refletido alguns momentos, disse a Germiano: – Faze com que se tranquem todas as portas, e que todos se recolham a seus quartos para dormir, e volta.
Um quarto de hora depois Germiano de novo se apresentou.
– Tudo está fechado? perguntou o conde.
O mudo respondeu que sim com o movimento da cabeça.
O vice-rei atirou a Germiano uma capa que podia envolvê-lo todo, cobriu-se com outra igual em dimensões, tomou o chapéu modesto e comum, e disse ao criado: – Segue-me.
Esquecendo que falava a um mudo, acrescentou: – Nem uma palavra... silêncio.
Germiano sorriu-se melancolicamente.
O conde da Cunha marchou adiante, atravessou pé por pé uma sala, desceu a uma área interior do palácio, e indo direto a uma porta que se achava trancada, tirou do bolso uma chave, abriu uma porta e saiu seguido por Germiano, tomando a direção da praia de Santa Luzia.
Germiano movia com a cabeça, como se consigo falasse, e parecia dizer: – Já era tempo.
Marcos Fulgêncio voltava do trabalho para o seio da família
invariavelmente ao anoitecer; às oito horas ceava, às nove dormia.Na segunda-feira do carnaval procedeu como em todos os outros dias; mas logo depois das dez horas da noite despertou aos pavorosos brados de Fernanda, que assim se chamava sua mulher, e saltando fora da cama, viu sua pobre casa ardendo em fogo; ainda tonto de sono Marcos Fulgêncio hesitou por alguns momentos; mas a fumaça começava a invadir o quarto, e um clarão horrível inundara a sala.
O carpinteiro tentou sair para a sala e recuou ante o fogo que devorava o teto, semeando de contínuo pedaços de ripas e caibros abrasados e telhas que caíam por falta de apoio; calculando então as proporções do perigo tornou a trancar a porta do quarto, correu a uma janela que se abria para o lado direito da casa, escancarou-a, tomou em seus braços Fernanda, lançou-a fora da casa, atirou-se também pela janela, tendo primeiro arrojado por ela o seu caixão de instrumentos.
– Minha filha!... minha filha!... gritava Fernanda.
Mas o carpinteiro não parara um instante: do caixão de ferros tirou um formão e o martelo, e precipitou-se para os fundos da casa, onde havia uma porta em frente do mar.
Marcos Fulgêncio não falava: chegou diante da porta que procurava, avançando com o formão e o martelo; mas como se julgasse moroso o meio, largou no chão os instrumentos, aplicou um dos ombros à porta e durante um minuto talvez empregou tão ferrenho esforço, que conseguiu
rebentar a fechadura.O carpinteiro cambaleou e abrindo a boca lançou uma golfada de sangue; mas penetrou logo acelerado na casa, e em breve, soltando um grito de dor imensa, voltou, trazendo nos braços Emiliana morta ou desmaiada, e a depositou, chorando, no colo de Fernanda, que em desespero se abraçou com ela.
Só então Marcos Fulgêncio ouviu os sinos, dando sinal de incêndio.
Começava a acudir gente e não tardou a velha vizinha que habitava a casa arruinada, e que, ao ver Emiliana estendida no chão e exposta em camisa como o pai a trouxera da cama, tirou a sua mantilha e cobriu-a com ela.
Emiliana não estava morta, e bastaram alguns minutos do ar livre, fresco e puro da noite para que ela recobrasse os sentidos que perdera.
Marcos Fulgêncio e Fernanda responderam com duas exclamações de alegria ao primeiro suspiro de Emiliana, que logo depois abriu os olhos e sentou-se apoiando-se em sua mãe.
Ouviu o tropel de cavaleiros.
– É a tropa que chega, disse a velha; esta menina não pode ficar aqui; comadre Fernanda, levemo-la para minha palhoça...
– Sim, disse Marcos Fulgêncio; vai com ela para a casa da comadre Pôncia.
E tranqüilo sobre o estado da filha, o carpinteiro pensou de novo no incêndio.
A antiga e pesada construção das casas, o emprego de madeiras de lei e de grossura exagerada, a fortaleza das paredes explicam a razão do longo trabalho do fogo a devorar ainda mesmo um pequeno prédio bem edificado.
A casa do carpinteiro Marcos Fulgêncio fora construída pouco a pouco por ele mesmo e sob sua zelosa direção e era toda dessas madeiras do Brasil que arremedam o peso, a dureza e a resistência do ferro.
Os socorros tinham chegado e o homem combatia o incêndio. O tenente-coronel Alexandre Cardoso dirigia com serenidade, inteligência e energia todos os trabalhos.
– Coragem, Marcos Fulgêncio; gritava ele, quando via o carpinteiro passar correndo.
O fogo conquistara todo o teto da casa.
Marcos Fulgêncio não falava; mas tinha com sublime frieza medido a fúria do incêndio, e compreendido o que mais lhe convinha fazer para que fosse menor o seu prejuízo.
Desprendendo um machado, o manejara ativamente, despedaçando as portas e janelas para dar livre saída ao fumo e com audacioso ímpeto arrojava-se ao interior da casa, ou entrando pelas portas, ou saltando pelas janelas, e logo enegrecido pela fumaça, chamuscado pela flama, saía trazendo à cabeça ou nos braços alguns objetos, algum pobre fardo ou traste que salvara.
As caixas de roupa de sua mulher e de sua filha, o bastidor38 e a roca39 de Fernanda, e outros objetos foram assim arrancados por ele à completa destruição.
Mas sem dúvida o tesouro do carpinteiro devia estar na sala da frente, pois que ele já vinte vezes tentara invadi-la e vinte vezes recuara, rugindo, por não poder assoberbar as línguas de flama e os vômitos de fumo.
E já duas vezes novas golfadas de sangue haviam marcado o ressentimento do corpo pelo excesso do esforço de Marcos Fulgêncio.
Enfim o indômito carpinteiro fez o sinal-da-cruz, e aos gritos – “o teto vai desabar!” que, ouvindo um medonho estalo, soltava a multidão, ele, furioso, investiu pela porta da frente através da fumaça ardente, e desapareceu.
– Misericórdia!... bradaram mil vozes.
Um vulto imenso, como um fantasma mostrou-se à porta em meio da nuvem espessa de fumo.
O teto estalou outra vez e desabou todo.
E Marcos Fulgêncio, negro, com as mãos queimadas, com os vestidos em trapos, avançou, trazendo à cabeça o seu oratório que depôs no chão.
– Graças a Deus! exclamou ele.
E ajoelhou-se, estendeu os braços para o oratório, e caiu por terra sem sentidos.
Fernanda e comadre Pôncia tinham levado quase carregada para a pobre casa arruinada a menina Emiliana e lá a haviam feito deitar na
humilde cama do estrado da velha.Enquanto Emiliana descansava, pois que em breve dormiu sono embora agitado por contrações nervosas, a velha e Fernanda conversaram em voz baixa: – Mas... este incêndio... como foi? perguntou Pôncia.
– Tomara eu que mo digam, comadre Pôncia, respondeu Fernanda: às nove horas da noite apaguei eu a candeia, e não havia no fogão nem uma brasa: o fogo foi maléfico...
– De quem?
38 Espécie de caixilho de madeira, no qual se estica o tecido sobre o qual se borda ou se pinta.
39 Pequeno bastão com um bojo na extremidade, onde se enrola o algodão ou a lã a ser fiada.
– Eu sei lá! – Depois que puseram para fora da terra os santos padres jesuítas40,
têm-se visto destas e de outras...– E o meu Marcos! exclamou Fernanda.
– É o homem são e prudente que sabe o que faz; não se ponha em aflição por ele.
Fernanda chorava.
– As vezes o não-sei-que-diga tenta os tementes a Deus com estes e outros infortúnios para excitar o pecado do desespero; eu sei casos! Quer que lhe conte um que presenciei e vi com estes olhos que a terra há de comer?...
– Conte, comadre Pôncia, disse Fernanda, que aliás não atendia.
A velha Pôncia contou de enfiada meia dúzia de histórias de ridículas proezas do diabo.
Fernanda continuava a inquietar-se pela sorte de Marcos Fulgêncio, quando principiaram a chegar os objetos por ele salvos do incêndio e as notícias repetidas de que o carpinteiro estava ousando fazer com risco da própria vida.
Os temores e ânsias de Fernanda agravaram-se; ela porém que a miúdo deixava o quarto, onde Emiliana dormia, para falar às pessoas que chegavam, e que lhe davam novas do marido, não se atrevia a deixar só a filha na casa de Pôncia, em quem Marcos não confiava.
Mas por último um soldado que viera, correndo, anunciou o desmaio e o estado melindroso do carpinteiro.
Fernanda esqueceu a filha, e saiu precipitada em socorro do marido, que fora conduzido para a Santa Casa da Misericórdia, onde ela foi encontra-lo devorado de febre e em furente delírio.
A esposa amante e fiel ficou junto do esposo ameaçado de morte próxima.
Entretanto, na casa da velha Pôncia, Emiliana despertara em sobressalto aos lamentos de sua mãe, que correndo, partira, e a traiçoeira hóspede não hesitara em dar-lhe a notícia do que acontecera a Marcos Fulgêncio.
Emiliana soltou um gemido profundo e outra vez desmaiou.
Alexandre Cardoso entrou então no quarto, e a velha infame saiu, cerrando a porta.
Às três horas da madrugada o ajudante oficial-de-sala do vice-rei esgueirou-se furtivo da casa arruinada da tia Pôncia, onde aliás muito se demorara.
E depois que ele passou, dois embuçados saíram dentre os arbustos que próximos havia, e caminharam pela praia de Santa Luzia e Rua da
40 Os jesuítas foram expulsos de Portugal e suas colônias em 1759, acusados de rebeldia e sublevação contra o estado e a coroa.
Misericórdia até o palácio, diante do qual pararam junto de uma porta
lateral.Um sentinela vigilante correu, e tomou-lhes o passo, intimando-os a dizer quem eram.
Um dos vultos embuçados atirou para trás a capa que o outro apanhou, e mostrando o rosto à sentinela, perguntou-lhe: – Conheces-me? O soldado recuou tremendo espantado, e disse a gaguejar: – O senhor vice-rei!...
– Que te mandará enforcar, se disseres a alguém o que acabas de descobrir.
A sentinela ficou muda e estática.
O vice-rei e Germiano entraram no palácio.
O conde da Cunha velou o resto da noite: irascível e violento, atormentou-o a necessidade da dissimulação com Alexandre Cardoso, de cujo procedimento criminoso e indigno não podia mais duvidar como dantes. Testemunhando incógnito o incêndio e os trabalhos para dominá-lo, o vice-rei a principio se ufanou do zelo da intrepidez, e da ação e direção inteligentes que mostrara o seu ajudante oficial-de-sala; mas logo que abateu o teto da casa incendiada, Alexandre Cardoso não foi mais visto, e
outro oficial comandou em seu lugar.Contrariado pelo súbito desaparecimento daquele a quem viera observar e que assim lhe escapara às vistas, o conde afastou-se um pouco da multidão reunida e perguntou ao ouvido de Germiano.
– O tenente-coronel Alexandre Cardoso? O mudo estendeu o braço e com a mão apontou para a mata de arbustos fronteira à casa incendiada.
– Segue-me, disse o vice-rei.
E entrou na mata que por aquele lado cobria a fralda do monte do Castelo.
As últimas flamas do incêndio esclareciam a mata, onde Germiano tomou a dianteira ao vice-rei, gastando ambos algum tempo a procurar debalde o ajudante oficial-de-sala.
Por fim o vice-rei ouviu lamentos e logo descobriu uma pequena casa, perto da qual acabava, ou antes, era interrompida a mata.
O conde da Cunha parou, observou por alguns minutos e viu sair da casa, em pranto e desespero, uma mulher que deitou a correr, e viu mais um oficial surgir da sombra espessa, passar perto dele e entrar na casa, cuja porta fechou.
O vice-rei estremeceu, tomou uma das mãos de Germiano, e disse-lhe: – Quando me apertares a mão, dirás – sim; se não ma apertares, quererás dizer – não.
Era um recurso para se entender com o mudo às escuras.
– Conheceste o homem que acaba de passar perto de nós, e de entrar naquela casa? O mudo apertou a mão do vice-rei.
– Era Alexandre Cardoso? O mudo tornou a fazer o mesmo sinal.
– Estás certo de que era ele? Germiano apertou com mais força a mão do conde da Cunha.
– Sabes quem mora nessa casa?.
A mão do mudo ficou inerte.
O vice-rei esqueceu-se da noite em longo refletir, e querendo convencer-se por seus próprios olhos de que era Alexandre Cardoso e não outro que entrara na casa arruinada, aproximou-se do caminho, e sempre oculto na mata, mas com os olhos na porta da casa, esperou.
Passado algum tempo ouviu um grito pungente, fez um movimento para lançar-se à casa arruinada; mas Germiano o susteve.
Reinou profundo silêncio.
O conde da Cunha arquejava de impaciência e de fadiga; mas finalmente a porta da casa se abriu, uma velha apareceu, levando na mão uma candeia, a cuja luz mostrou-se o rosto e o vulto de Alexandre Cardoso, que apressado se retirou.
O vice-rei ficou sabendo metade do que lhe cumpria saber e adivinhou o resto.
Na manhã da terça-feira do carnaval o ajudante oficial-de-sala apresentou-se ao vice-rei.
– O incêndio?... perguntou este apenas o viu entrar.
– Devorou a casa, de que apenas ficaram as paredes.
– Foi casual? – Supõe-se que não, senhor vice-rei.
– Como o explicam? – Por mim nada sei ao certo; dizem porém alguns que o incêndio abriu a porta a uma filha contrariada em seus amores por pais severos.
– E o cúmplice da perversa? – Falam de uma farda, de um soldado, ou de algum oficial.
– Onde está essa mulher incendiária? – Esteve na casa de uma velha sua vizinha que a recolheu; agora não sei, pois que ao amanhecer fugiu desse pobre asilo...
– E os pais da desgraçada? – O pai está na Santa Casa da Misericórdia e corre perigo de vida, a mãe ao pé do marido vela por ele, e não sabe de si, nem da filha.
O vice-rei mal contendo a sua cólera, disfarçou-a, exclamando: – Tenente-coronel! ontem à noite o vice-rei e o ajudante oficial-desala
contraíram duas dividas, que é preciso pagar.– Como, senhor? – Devemos à moralidade pública o nome e a posição do cúmplice ou perverso violentador dessa moça, filha de pais pobres, mas honestos.
– Empenho-me em descobrir o crime e os criminosos, respondeu Alexandre Cardoso.
– Mas o crime produziu os seus efeitos: há uma casa incendiada e uma donzela desonrada; devemos, pois, aos pobres que tanto perderam uma compensação; devemo-la; porque desta vez fomos ambos autoridades pelo menos desmazeladas; o ajudante oficial-de-sala o foi por não acudir a tempo de salvar a casa, e sobretudo por não ter sabido salvar a honra da família do mísero carpinteiro; e o vice-rei também o foi, pois o seu lugar ontem à noite era diante do incêndio e deixou-se ficar dormindo pelas seguranças que recebeu em um recado oficial. Multemo-nos portanto, tenente-coronel: o vice-rei mandará à custa do seu bolsinho reconstruir a casa incendiada, e o ajudante oficial-de-sala, se não descobrir o sedutor, raptor ou cúmplice da donzela dotá-la-á e casá-la-á com algum oficial de oficio a contendo dos pais da menina. Que diz? – Que respeito e admiro sempre o espírito de justiça do senhor vicerei.
– Bem... bem... recomendo-lhe este assunto do incêndio e de todas as circunstâncias que o acompanharam; quero providências urgentes, e notícias do infeliz carpinteiro.
Alexandre Cardoso, vendo-se livre dessa questão para ele escabrosa, apresentou ao vice-rei uma folha de papel com algumas linhas escritas.
– Que é isso? perguntou o conde.
– São os nomes de alguns bons vassalos de el-rei nosso senhor lembrados para os postos principais de novo terço de infantaria criado na vila de...
– Ainda comandantes sem comandados!... exclamou o vice-rei, interrompendo Alexandre Cardoso.
– É o meio de organizar mais prontamente esses corpos e, obedecendo às ordens do senhor vice-rei, ajuntarei a cada nome proposto miúdas informações da nobreza, fortuna e serviços respectivos.
– Sim.., veremos isso depois.
– Com o mais profundo respeito cumpre-me informar também ao senhor Vice-Rei que as necessidades do serviço continuam a reclamar a imediata organização desses terços de infantaria auxiliar.
O conde da Cunha pensou por breve tempo e disse: – Quer saber?... Acho-me hoje incapaz de resolver prudentemente negócios do governo; desde ontem sinto-me irritado e de mau humor... Alexandre Cardoso observava respeitoso o vice-rei.
– Passei por cruel desengano: o meu nome, a importância do alto cargo que desempenho, o valor da honra imensa que fiz, foram desconsiderados! – Como, senhor vice-rei?!!! – Jerônimo Lírio, um vil embora rico traficante, um mercador de vinhos e azeite, ousou ontem recusar-me sem rebuço e com teima insolente a mão de sua filha Inês que abaixei-me a ir pedir-lhe para o meu ajudante ofïcial-de-sala!.
Alexandre Cardoso empalideceu.
– O vice-rei conde da Cunha recebeu três vezes na face o – não – do traficante que deveria responder-lhe – sim – ajoelhando-se! E o conde media a passos largos a sala, como costumava fazer quando se achava em cólera.
Alexandre Cardoso não falava; mas nervoso tremor agitava seus lábios que às vezes mostravam um rir, que não era riso, ou era o riso do demônio das vinganças.
O vice-rei parou enfim diante de Alexandre Cardoso e disse-lhe: – Sofra no seu amor e na sua vaidade o que eu sofri na minha alta dignidade.
E com movimento de ira acrescentou: – Proíbo-lhe que outra vez me fale nesse... negociante que me desconsiderou.
E voltando as costas, deixou a sala.
Alexandre Cardoso retirou-se para o gabinete, onde trabalhava, desoprimido de um grande peso, mas aturdido por duas contrariedades que
muito agitavam-lhe o ânimo.O vice-rei tinha freqüentemente dias de impaciência e de irritação difíceis de se suportar; nessa manhã porém menos desabrido que em outras, falara sobre o incêndio, negara-se a despachar as nomeações para o comando do terço, de modo que excitou suspeitas e temores no espírito naturalmente desconfiado de Alexandre Cardoso, que só respirou desafrontado de mais graves apreensões, ouvindo logo depois a explicação do mau humor e da cólera do poderoso senhor.
Mas ficaram a Alexandre Cardoso duas contrariedades.
O ajudante oficial-de-sala do vice-rei negociara particularmente e por bom preço as nomeações para os diversos postos do novo terço; de algumas recebera adiantado pagamento, e calculava com elevadas quantias que as outras haviam de render-lhe; o jogo, em que andava infeliz, e a devassidão que lhe custava rios de ouro, o apertavam em críticos apuros, e o vice-rei, adiando aquelas nomeações viera agravar seus embaraços financeiros, o que era questão de máxima importância para ele que em cada noite precisava ter a bolsa recheada de louras moedas.
A negativa de Jerônimo Lírio à sua proposição de casamento com a bela Inês era para Alexandre Cardoso além de uma repulsa insultosa, um desmancho de cálculos de futura riqueza, e um incentivo provocador de sua paixão pela formosa menina. Ultrajado em sua vaidade, prejudicado em seus planos de fortuna, esporeado, ferido em seu amor, se realmente amava, em seu ardor libidinoso, se outro não era o seu sentimento, o ajudante oficial-de-sala do vice-rei jurou vingar-se em Inês do orgulhoso pai de Inês e animou-se mais nessa idéia, contando com o ressentimento do conde da Cunha que tão colérico se pronunciara contra Jerônimo Lírio.
Entretanto o cuidado instante de Alexandre Cardoso era arranjar dinheiro, para o jogo e para seus desenvoltos prazeres; trabalhou mal como ajudante oficial-de-sala nesse dia; porque, trabalhando, meditava, imaginando expedientes; às onze horas da manhã despachou um soldado com uma carta para Clélio Irias, velho usurário riquíssimo que morava na mais baixa e pobre casinha da Rua do Parto e apenas viu sair o soldado, pôs-se a escrever com maior cuidado em uma folha de papel, e consecutivamente em mais duas, imitando diversos caracteres de letra, no que era hábil e consumado, dobrou depois as folhas de papel, e guardou-as na sua pasta.
No fim de uma hora pouco mais ou menos Clélio Írias, hirsuto e com vestidos remendados, com a cabeça sem cabeleira, e os sapatos sem fivela, imundo e desprezível, foi introduzido no gabinete do ajudante oficial-desala.
– Senta-te e espera, Clélio Írias, disse este, e continuou a escrever.
O velho esperou meia hora e vendo Alexandre Cardoso como dele esquecido, disse: – Tempo é ouro: que faço eu aqui? O ajudante oficial-de-sala do vice-rei largou a pena, e respondeu: – Tens razão meu velho: quanto te devo até hoje?...
– Cinco mil cruzados com os juros do último trimestre, que não recebi.
– Dou-te a melhor das notícias, Írias! – A do pagamento? – O contrário disso: a boa-nova de que esta noite te deverei dez mil cruzados.
– E como? se não tenho hoje nem um patacão41 para emprestar? exclamou o velho a tremer.
– Fala baixo, ou não te poderei valer, observou Alexandre Cardoso.
41 Antiga moeda de prata, no valor de 320 réis.
O velho ficou olhando em silêncio.
– Clélio Írias, não me esqueci de que em um dia me abriste a sua bolsa usurária e me emprestaste dois mil cruzados, que hoje por tuas contas de juros sobem a cinco; não discuto sobre a usura: precisei, achei-te, devote gratidão.
O velho continuava a olhar.
– Lê esta denúncia, disse Alexandre Cardoso, passando a Clélio Írias uma das três folhas de papel.
O velho leu uma denúncia que contra ele dava um incógnito inimigo, acusando-o, como judeu, ao Santo Ofício.42 Clélio Írias não era judeu, mas filho de judeu.
– Lê agora estes ofícios, continuou Alexandre Cardoso, passando ao velho as outras duas folhas de papel.
Clélio Írias leu um ofício do comissário do Santo Ofício ao bispo, e outro do bispo ao vice-rei.
A prisão e remessa de Clélio Írias para Lisboa eram exigidas.
O velho tornou a ler e a reler os documentos, e depois caindo de joelhos disse com voz sumida: – Salve-me pelo amor de Jesus Cristo! Alexandre Cardoso pôs-se a rir; o velho quase chorava.
– Mandei-te eu chamar para te prender, pobre milionário Írias? – Salva-me! repetiu o velho.
– Quanto te devo eu hoje? – Ah, senhor! creio que coisa nenhuma...
– Não, usurário; o que eu devo, devo, hei de pagar-te.
E Alexandre Cardoso renovou a pergunta.
– Quanto te devo eu até hoje? – Cinco mil cruzados.
– É quase nada.
Clélio Írias arregalou os olhos.
– Um homem da minha hierarquia ou não deve, ou deve mais do que isso, disse Alexandre Cardoso.
O velho tremia e esperava.
– Quero esta noite dever-te o dobro dessa quantia; já o disse.
– O dobro?!!! – Achas pouco? Talvez tenhas razão; espera: deixa-me examinar outra vez esses papéis.
Clélio Írias teve medo de que o novo exame determinasse aumento da exigência, e perguntou: – Onde levarei os cinco mil cruzados? – À minha casa às seis horas da tarde.
42 Os judeus eram vítimas potenciais do Santo Ofício (Inquisição), sujeitos à pena de morte.
– E estes papéis?
– Queima-los-ei à tua vista.O velho usurário refletiu por algum tempo: tornou a ler e a examinar a denúncia e os ofícios, foi pouco a pouco recobrando o ânimo perdido e por fim disse com uma certa acentuação de malícia na voz: – Eu preferia que me passasse a clareza da dívida em um desses papéis.
Alexandre Cardoso corou.
– Miserável! – Questão de segurança: quem me responde pela futura complacência do meu denunciante? – Eu.
– Não me basta.
– E de que te serve a clareza passada em um desses documentos? – Ah! de muito! Se eu for outra vez denunciado, o senhor ajudante o oficial-de-sala me salvará ou eu o perderei com o papel da clareza.
Alexandre Cardoso conteve uma imprecação e disse: – Retira-te.
– Quer que vá às seis horas? – Não: mudei de parecer.
Clélio Írias, que perdera o medo, tornou: – Tenho outra idéia...
– Retira-te, judeu! – Perdão, senhor: olhe que está elevando a voz.
Alexandre Cardoso encarou com raiva o teimoso velho, que prosseguiu: – Levarei às seis horas a clareza da dívida antiga e mais cinco mil cruzados em boa moeda, e em troca da clareza e do dinheiro receberei a denúncia e os dois ofícios; mas doravante o senhor tenente-coronel arranjará as coisas de modo que eu não seja outra vez denunciado, e que além disso eu com o meu próprio nome ou com o de outro ou de outros, venha a ter por administração as melhores obras públicas, e por contrato os melhores fornecimentos para as tropas d’el-rei, e pela minha parte eu também arranjarei as coisas de modo que os lucros sejam irmã e honradamente repartidos entre mim e o meu sócio encoberto.
Alexandre Cardoso respondeu a tremer por sua vez: – Bruto! Não sentes que me insultas? O usurário, rindo-se com um rir irônico e repugnante, debruçou-se na mesa do ajudante oficial-de-sala, firmou o queixo sobre os punhos, fitou Alexandre Cardoso e continuou, dizendo: – Que insulto? O que eu sei é que esses papéis são falsos mas que o senhor tenente-coronel é bem capaz de arranjar verdadeiros e de perder-me para sempre, e também ainda sei que o senhor precisa muitas vezes de dinheiro; ora mesmo falsos como são, esses papéis me servem muito: dou por eles o que disse, sob a condição da sociedade, em que lucraremos bastante, e sem receio um do outro; porque ficaremos ambos em mútua dependência. Isso é que é ser franco: serve-lhe? Alexandre Cardoso viu aberta a seus olhos uma mina de ouro, e respondeu: – Às seis horas em minha casa. Clélio Írias saiu.
A proposição do velho usurário agradaria plenamente a Alexandre Cardoso, se não fora a perigosa condição da entrega dos documentos que deixava-o para sempre à mercê das exigências e imposições que deviam tornar-se ilimitadas, pois Clélio Írias, tendo conhecido a falsidade dos três escritos, dava ainda por eles dez mil cruzados, uma riqueza naquela época e
isso apesar da sua escandalosa avareza.O ajudante oficial-de-sala não se escravizaria em caso algum a semelhante homem; mas para ver se descobria algum outro recurso que substituísse a entrega dos documentos, mandou que Clélio Írias fosse a sua casa às seis horas da tarde, e ficou debalde pensando, dando tratos à imaginação no empenho de achar ou de inventar o expediente almejado, ou outros meios prontos para prover-se de dinheiro.
Um empregado da sala veio perturbar suas cogitações trazendo-lhe um requerimento, que dependia de imediato despacho, ou para cujo indeferimento bastava a demora da providência perdida: era uma respeitosa representação dos mercadores de limões-de-cheiro, que lamentavam os seus prejuízos, mostravam como eram os inocentes castigados pelo crime dos perversos pasquineiros, e concluíam pedindo que o senhor vice-rei, dignando-se revogar suas anteriores ordens, permitisse o jogo do entrudo na tarde e noite da terça-feira.
Alexandre Cardoso, contrariado, desgostoso, aflito por diversos motivos naquele dia, atirou com o requerimento para baixo da mesa, dizendo: – Eis o único despacho que esse canalha merece.
O empregado retirou-se, mas o ajudante oficial-de-sala imediatamente depois lembrou-se do mau humor, e do gênio irritável do conde da Cunha nessa manhã muito suscetível, e apanhando o requerimento, foi apresentá-lo ao vice-rei, a quem encontrou carrancudo e passeando acelerado pela sala.
– Por que me incomoda? perguntou o conde, gritando.
– Senhor vice-rei, é a pesar meu: este requerimento que aliás reputo desprezível e talvez desrespeitoso, que pede a revogação de uma ordem de v. exª, depende de imediato despacho, e se eu o não apresentasse, era o mesmo que se o tivesse por mim próprio indeferido, o que não ouso fazer...
O vice-rei tomou com arrebatamento e leu para si o requerimento; logo depois sentou-se à mesa do despacho, e escreveu. “sim: publiquem-se editais, revogando a ordem de anteontem, e permitindo o jogo do entrudo até às nove horas da noite nas ruas, até à meia-noite precisa no interior das casas”, e assinou.
– O requerimento não é desprezível: o que nele se pede é justo disse o vice-rei, entregando a folha de papel ao ajudante oficial-de-sala.
Alexandre Cardoso voltou apressado e tão ativamente dirigiu os trabalhos que no fim de uma hora estavam fixados mais de vinte editais autorizando o jogo do entrudo.
O Conde da Cunha era quase intratável em seus dias de irascibilidade molesta; o ajudante oficial-de-sala o sabia por experiência, e em tais casos, silencioso e obediente, esperava em novo Sol reassumir o poder de sua influência, o que sempre conseguia.
Tendo dado porém, de má vontade embora, as providências determinadas pelo despacho do vice-rei, Alexandre Cardoso tornou a pensa em Clélio Írias, e de repente desatou a rir.
Acabava de imaginar ou de achar o desejado, o afortunado recurso para a sua negociação com o velho usurário sem deixar em seu poder os perigosos documentos.
Contente, feliz, Alexandre Cardoso conversou, provocou todos os empregados da sala ao jogo do entrudo na tarde e noite desse dia e acabando o expediente, deu-se pressa em despedi-los e também em retirarse, tendo antes e por dever suportado em despedida a terrível carranca do conde da Cunha que outra vez lhe disse: – Fui desconsiderado por sua causa: não o responsabilizo por isso: mas proíbo-lhe que outra vez me fale nesse negociante, que se chama Jerônimo Lírio.
O ajudante oficial-de-sala aplaudiu-se do motivo da cólera do vicerei.
Naquela cólera fulgiam a estima do conde da Cunha pela pessoa de Alexandre Cardoso e o ressentimento do mesmo alto senhor pela negativa de Jerônimo Lírio na questão do casamento.
Para o ajudante oficial-de-sala tudo corria bem em relação ao vice-rei que era a base do seu poder.
A tarde e noite da terça-feira, o último dia do entrudo, foram de alegria, de delírio, de frenesi, e de inocente loucura na cidade do Rio de
Janeiro.O jogo do entrudo proibido nos seus dois primeiros dias, e autorizado na tarde e noite do terceiro, foi como o ímpeto da inundação que vence e destrói o dique que se lhe opunha.
O fervoroso exaltamento da população na costumada festa de três dias reduzida à metade do terceiro e último dia, vingou-se da proibição, ostentando desenfreado furor do entrudo, e gozo pacífico, entusiástico, do jogo tantas vezes provocador de rixas e desordens, e então somente excitador de ruído festivo e de risadas expansivas e amigas.
A indústria anual e efêmera dos limões-de-cheiro era exclusivamente explorada por senhoras de famílias pobres e como em prova de gratidão ao despacho que o vice-rei dera ao requerimento, dezenas de mulheres de mantilha, seguidas de multidão de ambos os sexos, rodearam à tarde da terça-feira o palácio, dando vivas ao vice-rei conde da Cunha que pela primeira vez os recebia espontâneos.
Feito esse passeio de ostensivo reconhecimento, os aclamadores do Conde da Cunha espalharam-se pela cidade, onde em quase todas casas, as famílias, e em todas as ruas paisanos de mistura com soldados, estudantes, operários, mulheres e meninos, se entrudavam freneticamente.
O velho Clélio Írias foi talvez o único habitante da cidade que maldisse da contra-ordem do vice-rei, porque menos comodamente, e sem dúvida expondo-se a algum banho, tinha de ir à casa de Alexandre Cardoso; mandou porém pedir de empréstimo a cadeirinha de um seu compadre e metendo-se nela, fez-se conduzir, levando as cortinas fechadas, e a caminhar adiante um escravo, que bradava aos grupos de jogadores de entrudo: “é doente que vai para a Santa Casal” e com efeito a cadeirinha levava a direção da Rua da Misericórdia, onde morava o ajudante oficialde- sala.
A multidão respeitou a cadeirinha que enfim parou à porta da casa de Alexandre Cardoso.
Clélio Írias subiu a escada e foi recebido pelo futuro sócio que se achava só.
Sentaram-se os dois em frente um do outro.
– Trazes o dinheiro? perguntou Alexandre Cardoso.
– Certamente e também a clareza da dívida antiga.
– Bem: eu te garanto ampla e constante proteção em matéria de administração de obras do rei, e de fornecimento que forem necessários para as tropas; prescindo da parte que me ofereceste nos lucros e...
– Mas eu não prescindo: quero-o por sócio, senhor ajudante oficialde- sala; é essa uma honra de que faço questão.
– Sociedade sob palavra.
– Lá isso como lhe parecer.
– Sujeito-me, Clélio Írias: é negócio concluído.
– E as três folhas de papel?...
– Dar-te-ei trezentas. – Bastam-me as três que contêm a denúncia e os dois ofícios.
Alexandre Cardoso resistiu e durante uma hora empregou debalde todos os argumentos e todo o empenho para fazer com que o velho usurário não insistisse nessa condição cruel; este porém ria-se e dizia: – Cada um sabe as linhas com que se cose.
Por fim o ajudante oficial-de-sala sacou do bolso as três folhas de papel exigidas, e atirou-as a Clélio Írias, dizendo: – Toma-as pois, velho do diabo! Clélio Írias examinava com o maior cuidado o papel e a letra, e linha por linha, e palavra por palavra os três escritos, e rindo-se outra vez com o seu riso repugnante, observou: – Não há que notar... são os mesmos...
– Ousavas pô-lo em dúvida, malvado usurário?...
– Cada um sabe as linhas com que se cose.
Alexandre Cardoso em outro qualquer dia houvera castigado a insolência de Clélio Írias; nesse, porém, tanto o aviltava a necessidade de dinheiro, ou nele podia alguma consideração, que em vez de repelir o insulto, disse: – Dei-te os papéis que por mim e por ti deves encerrar para sempre no fundo da tua burra de ferro: dá-me agora a clareza e os cinco mil cruzados.
Clélio Írias desabotoou o jaleco, e logo em seguida um bolso de couro preso à face interna do mesmo jaleco, e fechado com botões de metal na parte superior: tirou um pequeno saco, e dele a clareza passada e assinada desde dois anos por Alexandre Cardoso de Meneses, e peças de ouro no valor de cinco mil cruzados.
O ajudante oficial-de-sala recebeu e guardou a clareza e o dinheiro, e Clélio Írias fechou no bolso de couro as três folhas de papel e disse: – Agora sim, está o negócio concluído.
– Retira-te pois, velho maldito: por hoje basta de aturar-te.
– Mas prepara-te para aturar-me depois de amanhã,.
– Tão depressa! – Trar-lhe-ei o plano das primeiras operações da nossa sociedade.
O ajudante oficial-de-sala sorriu-se e Clélio Irias tomou o chapéu, e fez sua reverência de despedida.
Alexandre Cardoso acompanhou o velho até à porta que trancou sobre ele, e dirigiu-se com precipitação para o interior da casa.
Clélio Írias acomodou-se na cadeirinha, cerrou as cortinas, e mandando que o levassem de volta por outras ruas, incumbiu o escravo que caminhava na frente de anunciar aos jogadores de entrudo: “é uma senhora que caiu na rua com um ataque de cabeça!” A cadeirinha seguiu pela Rua da Misericórdia, Praça do Carmo (hoje Praça de d. Pedro II), Rua Direita, Rua do Ouvidor, aproveitando-lhe quatro vezes o triste anúncio da senhora com ataque de cabeça; tomou depois pela Rua dos Ourives; mas no ponto em que esta rua corta em ângulos retos a da Cadeia (atualmente da Assembléia), um grupo numeroso de entrudadores com limões-de-cheiro, seringas e baldes d’água avançou, galhofando, para a cadeirinha.
– É uma senhora que caiu na rua com ataque de cabeça! bradou o escravo.
Os brincadores hesitavam.
– Que graça! exclamou um homem alto, corpulento, e que pelo trajar indicava ser oficial ou mestre de ofício; que graça: este mesmo pregoeiro anunciou, há duas horas, nesta mesma cadeirinha, um doente levado para a Santa Casa!...
– É pulha! É pulha! gritavam muitas vozes.
– Vejamos a doente!.... Vejamos a senhora!...
E o homem alto e corpulento, lançando-se adiante de todos, abriu à força as cortinas da cadeirinha, e arrancou de dentro e mostrou suspenso em seus braços de ferro o velho Clélio Írias, cuja voz se perdeu no meio das gargalhadas e da algazarra da gente que formava o grupo e da que corria para aplaudir o caso que tanta alegria excitava.
Preso pelas pernas e braços, empurrado para todos os lados, já todo molhado dos pés à cabeça, cego pelos esguichos das seringas, surdo pela tempestade de gritos, o velho usurário lutava e se estorcia em vão.
– Um banho! um banho! um banho! Um enorme gamelão cheio d’água estava perto no meio da rua para o serviço do entrudo: o homem alto e corpulento disputava a vinte outros a glória de levar o velho ao banho, e na luta e no esforço rompiam-se os vestidos da vítima que pelo hércules que desde o princípio o agarrara, foi conduzido e mergulhado no gamelão.
Com a força prodigiosa, suprema, que em desespero ostentam os ameaçados de asfixia por submersão, Clélio Írias pôs a cabeça fora d’água e bramiu furioso: – Não me afoguem! – Ninguém o quer afogar; mas aprecie aí o seu banho! respondeu o hércules, comprimindo com as mãos o peito do velho que a reagir contra a força que o esmagava, estorcia-se nas mãos do homem terrível, que escorregavam para um e outro lado, e cujos dedos no fervor da luta ainda mais despedaçavam os vestidos.
– Basta! Basta! exclamaram finalmente muitas vozes.
– Pois basta, respondeu o hércules, e deixando livre das garras afastou-se e desapareceu no meio da multidão.
Clélio Írias saiu do gamelão do banho no meio de estrondosas risadas e sem mais lhe importar a cadeirinha, dirigiu-se colérico e precipitado a sua casa que bem perto ficava, pois era, como dissemos, na Rua do Parto, e nela entrando, ia mudar de roupa, quando viu que o bolso de couro de seu jaleco estava despedaçado, e que havia perdido ou lhe tinham roubado os três documentos.
O velho soltou um rugido, e correu, como estava, para o lugar, onde recebera o violento banho; ali chegando exclamou: – Perdi ou roubaram-me papéis preciosos! Eu os quero, eu os peço! Eu exijo os meus papéis!...
Algumas pessoas condoeram-se da aflição do velho, e empenharamse improficuamente em descobrir os objetos perdidos.
Clélio Írias, fora de si, em frenético ardor, marchou apressadamente para casa de Alexandre Cardoso, a cuja porta encontrou-se com um soldado: – O senhor ajudante oficial-de-sala? perguntou o velho usurário.
– Procure-o amanhã.
– Como? Não está em casa? – A estas horas nunca.
– Sou exceção; para mim ele está sempre em casa.
– Faça pois o senhor um milagre: não ouve o galopar de um cavalo? Clélio Irias atendeu ao ouvido, e respondeu logo: – Ouço.
– O senhor tenente-coronel, que apressa o seu cavalo.
– Aonde vai ele? O soldado riu-se, e tornou dizendo.
– Ele tem tanto aonde ir!...
O velho usurário caiu sentado na soleira da porta, sobre os joelhos descansou os braços, sobre estes a cabeça, refletiu por alguns minutos, levantou-se de súbito: – Maria de... é a sua amante, ele deve estar lá... disse ao soldado.
E sem esperar pela resposta, caminhou com acelerados passos.