Em sua aflição pela perda dos importantes documentos Clélio Írias contava com o auxílio enérgico e com as providências do ajudante oficialde- sala, por certo muito interessado em reaver papéis que podiam
comprometê-lo gravemente.Afrontando pois certas conveniências o velho usurário foi bater à porta da casa da bela cortesã, e deu o seu nome ao escravo que lha abriu, declarando que procurava o senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso para negócio urgentíssimo, e da maior delicadeza.
Daí a breves instantes recebeu ordem para subir e esperar na sala; mas pouco esperou; porque Maria apareceu-lhe com todo o esplendor de sua voluptuosa formosura, trazendo soltos os longos e anelados cabelos e um simples vestido branco, apertado ao pescoço, mas amplo e sem prisões, como fraca e tênue nuvem a cobrir com um véu provocador os encantos de uma fada.
Clélio Írias apesar de velho estremeceu à aparição daquele prodígio de beleza.
A voz de Maria de... era suave e encantadora, como era belo o seu rasto e se adivinhava admirável de perfeição o seu corpo.
Sorrindo-lhe meigamente, ela disse a Clélio Írias: – Alexandre Cardoso esqueceu-se hoje de mim; eu porém não o esqueço nunca, e velo sempre pelos seus interesses; chegará daqui a pouco, ou virá amanhã despertar-me para almoçar comigo...
Clélio Írias mostrou-se contrariado, e levantava-se para sair, – Por que se incomoda? perguntou-lhe a cortesã.
– Eu precisava falar-lhe já.
– Já é impossível; se lhe apraz espere-o aqui, que ele há de vir ainda esta noite, ou amanhã pela manhã, pois nunca me falta; se isso o constrange, incumba-me do seu recado: eu sei dos negócios de Alexandre...
faltou-lhe hoje, e a mim também, algum dinheiro... não ignoro o que se passou entre ele e o senhor Clélio Írias, a quem não é a primeira vez que recorre...
O velho usurário olhou espantado para a encantadora cortesã.
– Não me crê? perguntou ela com um daqueles feiticeiros sorrisos, que convenciam de tudo a todos.
– Não me atrevo a duvidar, minha bela senhora.... disse Clélio Írias.
– Então... mas... eu pensava que os senhores... já... se haviam entendido hoje...
– Sim... perfeitamente entendidos...
– E... realizado o negócio...
– Por isso é que se torna indispensável que fale hoje mesmo... já... ao senhor Alexandre Cardoso.
– O senhor começa a aterrar-me... Eu estremeço por Alexandre...
Que aconteceu, senhor Clélio Írias? Maria era uma atriz consumada: conhecia desde muito tempo o velho usurário; mas ignorava completamente o assunto de que ele e Alexandre Cardoso se tinham ocupado naquele dia; adivinhava como qualquer outro adivinharia que era negócio de empréstimo de dinheiro e fingiu ter conhecimento de outras circunstâncias, pois que evidentemente as havia e graves, pronunciando meias palavras que podiam significar tudo e nada; finalmente, ardendo na mais viva curiosidade, simulou-se possuída de grande medo, e trêmula e comovida, tomou entre as suas uma das mãos de Clélio Írias, e repetiu a pergunta que fizera: – Que aconteceu? Que aconteceu? Diga-me... pois que está arranjado o negócio... Que mais quer de Alexandre ainda hoje?...
– Onde posso eu encontrá-lo?... perguntou o velho, levantando-se
aflito.– Oh! exclamou Maria; não me deixará assim nos tormentos da dúvida mais desesperadora... ah! eu adivinhava algum infortúnio e preveni Alexandre...
– Como, senhora? – Opus-me a semelhante negócio...
– Sabe então... tudo? – Por isso que tremo...
– Pois é preciso que o senhor tenente-coronel dê prontas e imediatas providências.
– Mas o que aconteceu? – Perdi ou roubaram-me os documentos! disse o velho com voz lúgubre.
– Oh! e o louco jurou-me que eles não tinham a importância que...
Clélio Írias teve um ímpeto de furor: – Porque eram falsos, eu sei, e lho disse! O senhor Alexandre Cardoso porém esqueceu-se de que há na denúncia dada contra mim uma de sua letra escrita a lápis, e que os falsificados ofícios do comissário do Santo Ofício e do bispo são provas de um crime que hão de perder a ele e a mim, que além disso fico ainda com o prejuízo de dez mil cruzados!...
– Exatamente como eu dizia, murmurou convulsa a cortesã; e que eu não sei onde achar Alexandre!... Mas é indispensável que ele saiba da perda dos papéis..
E ansiosa e quase chorando, chamou e despachou sucessivamente três escravos em procura de Alexandre Cardoso, tendo acompanhado o primeiro até à escada como a instruí-lo sobre diversas casas a que de preferência lhe cumpria ir.
– Também eu saio... disse o velho, tomando o chapéu.
– De modo nenhum, senhor Clélio Írias: espere aqui Alexandre, aproveitemos o tempo, estudando a sangue frio o caso, como ele se passou, para com alguma luz imaginarmos, calcularmos as medidas que convém tomar.
– Não tenho cabeça, respondeu o velho.
– Tenho-a eu e em breve lho provarei: refira-me sem desprezar o mais leve incidente, a mais insignificante circunstância, este desastroso sucesso; faça porém de conta que ignoro tudo.
Clélio Írias olhou atentamente para Maria.
– Ah! exclamou esta, como se lhe houvesse acudido uma idéia.
E levantando-se, chamou uma escrava, e mandou-a procurar Alexandre Cardoso em casa que lhe determinou.
Sentando-se de novo, disse: – Vamos, senhor Clélio Írias.
– Quer que comece pela entrevista de hoje de manhã? perguntou o
velho com os olhos fitos em Maria.– Não; até aí sei eu; respondeu a fingida moça; mas... suspeita alguém pudesse estar ouvindo às ocultas o que os senhores conversaram? – Falamos em voz de segredo e com a porta fechada.
– E depois?...
Clélio Írias que demais já havia dito, contou miudamente tudo quanto passara com ele, desde que saíra de casa em cadeirinha até à sua volta da casa de Alexandre Cardoso, o ataque dirigido contra a cadeirinha, a teimosa fúria dos hércules que não o deixara, senão no fim do banho, e concluiu, dizendo: – Juro que foi aquele desalmado que me roubou os papéis, pensando que roubava dinheiro.
Maria, que ouvira em silêncio, disse-lhe sorrindo: – Perdão! Só agora reparei que tem os vestidos completamente molhados.
E mandou vir licores e aguardente.
Enquanto o velho usurário se banhava interna e externamente em aguardente, Maria meditava, brincando com os dedos a enrolar e a desenrolar os anéis de seus cabelos soltos.
Quando acabou de beber e de embeber-se em aguardente, Clélio Írias, sempre agitado, disse: – E o senhor tenente-coronel que não chega! Maria desatou uma risada.
O velho encarou-a, raivoso.
– Há uma hora que representamos uma cena de comédia, meu velho: eu não sabia nem um ceitil do seu negócio com Alexandre Cardoso.
Grotesca estupefação de Clélio Írias.
– Mas eu prometi provar-lhe que tenho cabeça.
– E os escravos e escravas que saíram? perguntou estupidamente o usurário.
– Não saíram, respondeu Maria, rindo-se.
– Traição! bradou o velho.
– Em nosso proveito: eu sei e posso dizer-lhe, onde estão os documentos que lhe roubaram.
– Onde estão? – Sente-se aí e responda-me: é capaz de esperar um dia, um mês, um ano pela vingança? Clélio Írias sentou-se e respondeu: – Sou.
– E se não a esperar, que me importa? Não há nada de comum entre nós; é porém de seu interesse servir à minha vontade e obedecer-me.
O velho sentia-se cada vez mais espantado.
– Senhor Clélio Írias, os seus dez mil cruzados foram-se.
– Não preciso que me diga.
– O desalmado que o arrancou da cadeirinha, e que o conteve em suas garras até o fim do banho era um soldado que se disfarçava em paisano...
– E para quê?...
– Para roubar-lhe os documentos...
– E que diabo tinha ele com os documentos?...
– Desgraçado homem! O senhor não sabe senão emprestar dinheiro com usura abusiva e assoladora.
– Isso não vem à questão.
– Mas é um castigo do céu, que o embruteceu tanto que o senhor nem soube ver no homem desalmado e furioso um instrumento do mais interessado em privá-lo, em despojá-lo daqueles documentos...
O velho tentou pronunciar um nome, e gaguejou, e a convulsar de raiva nada disse.
– Esses papéis estão em poder de Alexandre Cardoso, ou ele já os destruiu, queimando-os.
Clélio Írias espumava.
– Perdeu a partida, meu velho; agora porém continue o jogo, e espere um dia, um mês ou um ano pela vingança.
O usurário acenou com a cabeça afirmativamente.
– Amanhã, dissimulando toda suspeita, vá prevenir a Alexandre Cardoso da perda dos documentos, e finja-se temeroso das conseqüências possíveis por ele e por si.
O usurário escutava sem responder.
– Oportunamente insista pelo cumprimento das promessas que lhe foram garantidas: peça-lhe administração de obras do rei, e fornecimentos de tropas, e para conseguir uma e outros, abra-lhe a bolsa, se é que tem alma capaz de vingança.
O usurário teimava em não falar.
– Abra-lhe a bolsa; mas à força de paciência e de sacrifícios consiga da mão desse homem uma assinatura, urna ordem, um escrito que o comprometa ou que sirva de prova de sua indignidade, e de suas prevaricações.
O velho queria falar e hesitava.
– E em qualquer caso duvidoso, no ajuste de qualquer transação venha previamente falar-me, e conte comigo para a sua vingança, se é que tem alma capaz de vingar-se.
Clélio Írias pôde enfim usar da palavra e perguntou com espanto: – E a senhora quem é... ou o que é do senhor Alexandre Cardoso?...
– Fui sua amante, e sou sua inimiga, respondeu a cortesã.
À mesma hora em que o velho usurário saía da casa de Maria, Marcos Fulgêncio depois de longo padecer, devorado por ardente febre e tormentoso delírio, adormeceu enfim no leito da caridade que lhe dera a
Santa Casa de Misericórdia.Fernanda, que nem um só instante se afastara de seu marido, e que depois do fatal incêndio não se alimentara, nem dormira, preocupada com o perigo que corria a vida do seu Marcos, respirou esperançosa ao vê-lo sossegadamente adormecido, e enxugando as lágrimas, chamou o enfermeiro e pediu-lhe que examinasse o doente.
O enfermeiro, feito o exame pedido, sorriu-se e disse a Fernanda: – Boa mulher, a febre cedeu; agora sim, creio que o homem se salvará; é tempo de tratar de si: vá comer alguma coisa, e dormir sem receio.
– Obrigada, respondeu Fernanda; eu voltarei ao romper do dia: se ele acordar e procurar-me, diga-lhe que, vendo-o sossegado, corri a cuidar também de Emiliana... Emiliana é nossa filha, meu bom senhor.
E, atando um lenço à cabeça, Fernanda saiu apressadamente. A nobre esposa do carpinteiro tinha recebido na manhã desse dia um recado que a enchera de tristes receios pela sorte de Emiliana; mas em vez de ir procurála na casa da velha comadre, com quem a deixara, foi bater à porta de uma pequena casa térrea do Beco (hoje Rua) do Cotovelo.
Uma mulher velha fez entrar Fernanda.
– Como vai o homem? – Melhor, minha tia; e Emiliana? – Levou a chorar todo o dia e toda a noite; mas bendito seja Deus, pegou no sono ainda agorinha.
– Por que não foi ela ver o pai? – Três e mais vezes, coitadinha, correu até à porta; mas voltava sempre gritando: “não! não! jamais, nunca!” – Minha tia, disse-lhe o estado em que se achava Marcos? – Eu não, e pelo contrário fui sempre assegurando que ele passava cada vez melhor; Deus me perdoe estas mentiras.
– Então por que tanto chora Emiliana? – Eu sei lá! Perguntei e ralhei, e ela nada quis dizer-me.
Fernanda tremia.
– A que horas chegou Emiliana? – Acordou-me, batendo à porta pouco antes de romper o dia e veio só, a pobrezinha, por essas ruas.
– Onde está ela? – No sótão.
– Minha tia, desde ontem à noite que não como, nem durmo; acorde a negra, e mande preparar-me alguma coisa para cear, enquanto vou ver Emiliana.
– Ah, menina! por que não disseste logo? Fernanda não tinha fome, mas queria subir só ao sótão, pobre sótão que constava de uma única sala, baixa, e de telha-vã.43 Emiliana estava estendida em um antigo catre, e dormia sono às vezes agitado por contrações nervosas; defronte do catre estava acesa uma candeia sobre uma caixa de pau.
Fernanda sentou-se aos pés de sua filha e contemplou-a com enternecimento e dor ao notar-lhe os olhos inflamados, os cabelos em desordem, o rosto contraído, e os braços com manchas de contusões.
De súbito Emiliana estendeu os braços, pareceu querer com as mãos trêmulas repelir alguém, e assombrada sentou-se no catre; vendo porém a mãe, tornou a deitar-se, desatando a chorar.
Fernanda sufocou um gemido de angústia; deixou que a filha chorasse livremente por algum tempo e depois disse-lhe com voz grave.
– Fugiste da casa, onde te deixei; vieste só e a horas mortas da noite acolher-te a esta; não correste, para meu lado junto ao leito de teu pai moribundo; tens vinte anos, e recebeste educação de virtudes; uma de duas explicarás o teu procedimento, ou és uma filha maldita.
E elevando a voz, acrescentou: – Basta de lágrimas!...
Emiliana deixou de chorar; mas à luz da candeia o seu rosto se mostrava de fogo e carmim.
– Fala! A jovem saltou fora do catre, caiu de joelhos, e com a cabeça inclinada para o chão, balbuciou tremendo.
– Juro por Deus Nosso Senhor... não tive culpa...
Fernanda torceu as mãos com desespero; levantou-se, e em pé diante da filha ajoelhada, disse com voz repassada de cólera ou de dor: – Miserável!... desonraste-nos? Emiliana ergueu a cabeça e ao mesmo tempo ressentida e confusa, orgulhosa e envergonhada, respondeu sem soluçar, mas caindo-lhe em bagas as lágrimas: – Levaram-me à casa da traição e aí me abandonaram!... Ao anúncio do desmaio e do perigo de meu pai, minha mãe esqueceu a filha que ficava só, pelo marido que longe era levado, e nem reparou que me deixava sem sentidos... não me queixo disso... o abandono em que me achei foi exigido por outro dever...
E elevando também a voz, por sua vez: – Mas porque agora me condenam?
43 Casa ou recinto destituído de forro, com as telhas soltas, sem argamassa.
Fernanda abriu o coração às queixas e increpações que fazia a filha; ainda porém em tom severo, perguntou:
– E depois?...Emiliana respondeu, falando com os dentes cerrados: – Abandonaram-me inanimada nas marras da traição e tornei a mim nos braços do crime, e no abismo da vergonha! – Desgraçada!...
– De quem é a culpa?... perguntou desesperada a infeliz moça.
Fernanda estendeu o braço sobre a cabeça de Emiliana, e com a mão abençoou a filha.
– Debalde gritei... abafaram-me os gritos, cerrando-me com força a boca; fui maltratada, e esmagada em luta desproporcional... e outra vez desmaiando, nem sei que fizeram da filha abandonada!... Quando recobrei os sentidos, achei-me só, levantei-me, e abri a janela, saltei por ela, e vim bater à porta da casa de minha tia...
E ainda mais profundamente ressentida, perguntou lugubremente: – Quem tem a culpa de minha desonra? – Tu és pura diante de Deus, minha filha; e, além de pura, és mártir! – E o mundo?... E eu agora no mundo?...
Fernanda não sabendo que dizer, perguntou: – Conheceste o infame?...
– Desde muitos dias eu tinha reclamado a vigilância e a proteção de meus pais contra ele...
– Alexandre Cardoso!!! exclamou Fernanda.
– Eu tinha dito a meus pais que a velha perversa estava vendida a esse homem! – Emiliana!...
A pobre moça em angústias despedaçava o coração materno: – Eu disse tudo.... Avisei debalde! Debalde, porque meus pais me entregaram sem defesa, me abandonaram fraca e desmaiada à traição e ao crime! Fernanda caiu de joelhos em face da sua filha ajoelhada, e disse chorando: – Perdão, Emiliana!...
Mãe e filha abraçaram-se, misturando as lágrimas.
A velha tia, falando da escada, anunciou que a ceia estava à mesa.
Fernanda e Emiliana levantaram-se.
– Vamos cear, disse a mãe.
– Não posso...
– É preciso poder fazê-lo: tua desgraça deve ser um segredo para todos, e principalmente para teu pai; ao algoz aproveita o silêncio; a velha perversa terá medo do conhecimento do crime, pois que o senhor vice-rei mandou garantir-nos a sua proteção, e reconstruir à sua custa a nossa casa incendiada; eu sou mãe e tu foste a vítima: ninguém falará: é necessário esconder ao mundo, a todos, a tua, a nossa vergonha. Vamos cear.
– Vamos, murmurou Emiliana.
E fez um movimento rápido para caminhar adiante.
Fernanda segurou-a pelo vestido.
– Emiliana! disse-lhe; minha pobre filha, tu levas no coração o amargor que há de durar muito, e um ressentimento, que me confrange e que me mata!...
– O que, minha mãe?...
– Meu marido, teu pai, estava em perigo de morte...
Emiliana hesitou...
– Oh, minha filha! Perdoa pelo amor de Deus o abandono em que tua mãe te deixou! Emiliana lançou-se chorando nos braços de Fernanda.
O velho usuário não se recolheu a sua casa, quando saiu da de Maria.
A cortesã não lhe merecia confiança e em todo caso convinha-lhe falar a Alexandre Cardoso; a boa aguardente com que se banhara interna e externamente lhe dera calor e lhe aumentara a força; dispôs-se pois a perder o resto da noite e foi esperar o ajudante oficial-de-sala à porta de sua casa na Rua da Misericórdia, e achando a porta fechada, sentou-se na soleira.
Dentro em pouco a idade, a fadiga e o isolamento puderam mais do que o cuidado dos papéis perdidos, e Clélio Írias insensivelmente foi-se deitando na soleira e tendo os pés firmados em um dos portais, as pernas encolhidas, e um braço a servir-lhe de travesseiro, adormeceu.
A cidade já dormia também, e não houve quem, passando, perturbasse o sono do velho usurário, que aliás podia não ser percebido, pois que então as ruas ainda não tinham lampiões de iluminação.
Os sinos já haviam anunciado duas horas da madrugada, e em breve marcariam três, quando Alexandre Cardoso seguido de uma ordenança aproximou-se trazendo o seu cavalo a meio galope e somente por ser muito adestrado cavaleiro deixou de medir a terra, pois o soberbo animal em que vinha montado deu violento e inesperado salto, assustando-se com a roncaria e o vulto de Clélio Írias.
Alexandre Cardoso, firme na sela, esporeou, dominou o cavalo, obrigou-o a reconhecer o objeto que o assustara, e depois gritou à ordenança: – Desperta esse mendigo e leva-o à cadeia.
O velho já tinha despertado, e reconhecendo aquela voz, sentou-se, gemendo, e disse: – Sou eu, senhor tenente-coronel!...
– Clélio Írias! exclamou Alexandre Cardoso.
E, apeando-se, atirou com as rédeas à ordenança, dizendo: – Vai recolher os animais.
E bateu à porta, enquanto o velho, agarrando-se a um dos umbrais e soltando gemidos, levantou-se a custo.
– Que fazias aqui? perguntou Alexandre Cardoso.
– Esperava-o.
– Por quê? Para quê?...
O velho repetiu a história da perda ou do roubo dos papéis e Alexandre Cardoso não o deixou acabar, entrando em explosões de furor, e injuriando Clélio Írias.
– Sinto-me muito doente, disse este; já nem posso apreciar a natureza e as feições da sua cólera; roubaram-me papéis que podem lembrar idéias e meios capazes de perder-me; mas o homem, a quem esses papéis mais interessam, e cuja posse mais convinha é o senhor tenente-coronel.
– Que pretendes significar, bruto?...
– Que a honra exige e manda que o senhor ajudante oficial-de-sala descubra onde estão aqueles documentos e mos restitua.
O velho caiu outra vez sentado, desprendendo pungente gemido.
Alexandre Cardoso pareceu compadecer-se dele.
– Tens razão, meu velho; empregarei toda a minha atividade em reaver os documentos, cuja perda ou roubo pode ser ainda mais fatal a mim do que a ti. Se pudermos colhê-los, serão teus, voltarão ao teu poder, juro-o pela minha honra; se tanto não conseguirmos, nem por isso respeitarei menos as condições do nosso contrato verbal.
Clélio Írias quis levantar-se e não pôde.
Alexandre Cardoso deu-lhe as mãos e o pôs em pé.
– Tu sofres... vem; eu te recebo e te tratarei em minha casa.
O velho arredou-se dois passos com tanta viveza, e respondeu com tal acento de voz: – Oh! não! – que Alexandre Cardoso sentiu a espontânea manifestação da mais injuriosa desconfiança e, ressentido, lançou um insulto ao usurário e entrou batendo e fechando a porta.
Clélio Írias apoiando-se à parede quis andar; faltaram-lhe porém as forças e caiu.
Saíram então da sombra dois vultos, duas mulheres, uma de mantilha e outra sem mantilha; ambas se curvaram e ergueram em seus braços o velho doente: – Senhor Clélio Írias, nós o levaremos à sua casa, disse a mulher que não trazia mantilha.
Eram Fernanda e Emiliana que se dirigiam à Santa Casa da Misericórdia, e que, por acaso, tinham ouvido a conversação ou o diálogo de Clélio Írias e Alexandre Cardoso.
A mãe dissera à filha:
– Socorramos o velho Írias: Deus tomará em conta e a favor de teu
pai o bem que lhe fizermos.A filha respondera com voz trêmula: – Socorramo-lo; ele é meu irmão.
A fraternidade de que Emiliana se lembrara, não era a do Evangelho: era a de duas vítimas de um só e do mesmo algoz. Não ficava longe a casa de Clélio Írias; este porém se achava tão tomado de dores, que as duas senhoras quase desanimaram em meio da empresa caridosa, tendo de carregá-lo em seus braços.
Arquejando de fadiga chegaram finalmente, e aberta a porta da casa por um escravo tão velho como seu senhor, e o único e a única pessoa que com ele habitava, depositaram na mais pobre cama o rico usurário, que ardia já em febre, e soltava profundos gemidos.
O escravo foi chamar um licenciado que morava na mesma Rua do Parto e que, acudindo diligente, examinou Clélio Írias e declarou-o em perigo de vida e precisando dos mais assíduos cuidados.
O velho tinha reconhecido Fernanda e lhe beijara as mãos.
Fernanda chamou de parte a filha e disse-lhe: – Emiliana, este homem emprestou dinheiro a teu pai, quando construímos a casinha que ontem se incêndio, e, usurário cruel para todos, lembrou-se que um dia Marcos o defendera contra um devedor que desatinado por bárbara penhora, o atacara na rua, e não quis receber juros da quantia que lhe devíamos e lhe pagamos.
– Eu sabia tudo isso, minha mãe.
– O velho Írias está às portas da morte e não tem quem o trate: eu não posso, e tu podes fazê-lo. Teu pai aprovará o nosso procedimento. No correr do dia acharás uma hora menos atarefada para ir ver teu pai. Fica velando por este homem sem amigos e sem parentes: é uma obra de misericórdia, minha filha; e eu voltarei aqui muitas vezes.
Fernanda afastou-se, e Emiliana murmurou lugubremente: – Já não corro perigo.
E ainda teve duas grossas lágrimas para acompanhamento da ironia terrível com que se ferira.
Alexandre Cardoso não pensou nas providências que sem dúvida tomaria para descobrir os documentos perdidos ou roubados, se ele os não
tivesse queimado antes de sair de casa naquela para ele propícia noite.O ajudante oficial-de-sala do vice-rei preparara habilmente a comédia de que fora vítima Clélio Írias: o hércules. que agarrara o velho e que só o largara no fim do banho era soldado do seu regimento e da sua confiança, a quem vestira à paisana, a quem no interior da casa correra a instruir sobre o bolso forrado de couro, onde estavam os papéis, e que os roubara na luta violenta do banho.
Alexandre Cardoso perpetrava pois um crime vergonhoso, o mais infame dos crimes pela mão do soldado, seu instrumento obediente e cego mas sofismava com a própria consciência, pretendendo que apenas arrancara a um usurário os meios de o dominar como senhor, e que cumpriria plenamente seus deveres contraídos verbalmente, satisfazendo as condições de uma negociação que aliás era também um crime.
A corrução tem degraus fáceis de descer, desde que se desce o primeiro, e Alexandre já havia descido tantos que no fundo do abismo não tinha mais luz de simples dignidade, e se perdia nas trevas, e se chafurdava no lodo das ações mais torpes.
Esquecera facilmente CléIio Írias; voltará contente das horas que passara, jogando, e de volta a casa saboreava ainda a sua primeira vitória sobre o famoso jogador que nessa noite perdera avultada soma, e nem sequer lembrava, que Ângelo, depois do que lhe acontecera, fazendo a banca na casa de Maria de... bem podia por sagacidade e para desfazer suspeitas, perder ao jogo em uma noite para mais seguro ganhar seguidamente em dez.
O ajudante oficial-de-sala do vice-rei dormiria pois muito tranqüilamente o resto da noite, se a imagem de Inês e o desejo de vingar-se de Jerônimo Lírio, que lha negara em casamento, não viessem freqüentemente enegrecer-lhe o coração e inflamar o seu apaixonado sentimento que ele chamava amor, e a sua cólera abafada.
Alexandre Cardoso resolvera desde que soubera da recusa feita ao vice-rei, vingar-se de Jerônimo Lírio, sacrificando Inês aos seus instintos malvados: ele, um nobre, oficial de grande aspirações no exército, desempenhando alto cargo na administração, fora pelo negociante, plebeu obscuro e sem nome de família, julgado indigno de ser esposo de Inês; era pois indispensável à satisfação do seu orgulho e à sua paixão manchar a pureza daquela mimosa flor da solidão; animava-o ainda mais a isso o ressentimento profundo do conde da Cunha contra o velho negociante; mas um pouco suspeitoso e apreensivo desde a noite de domingo, não confiou suas intenções e seus projetos a nenhum dos amigos e só consigo planejava a obra do crime.
Perdera a esperança de seduzir a bela menina; porque empregara em vão todos os meios para aproximar-se dela e falar-lhe; escrever-lhe era loucura, porque Inês não sabia ler; mandar-lhe recados, flores, e declaração de amor, também tentara debalde, recorrendo a escravos de Jerônimo, que conhecendo bastante a severidade de seu senhor não ousavam expor-se ao cometimento de atos que seriam terrivelmente punidos.
As velhas pobres que envolvidas em mantilhas esmolavam pelas casas eram naquele tempo as useiras do ofício de confidentes e recadistas de amor: delas não se esquecera Alexandre Cardoso; se alguma porém conseguiu falar ao ouvido de Inês, nenhuma lhe merecera atenção.
Contra a filha do negociante rico e venerado, do homem austero e forte que nem ao vice-rei se dobrara, o plano de ataque e de conquista violenta precisava ser fria e cautelosamente combinado, e disso o orgulhoso e audaz ajudante oficial-de-sala se ocupava.
Os dias foram passando: o jogo não sorria mais a Alexandre Cardoso, que em breve se achou sem dinheiro e privado dos recursos com que então mais contava; porque de um lado o vice-rei negava-se a nomear comandantes para o último dos novos terços, e do outro, Clélio Írias, o seu contratado sócio, de quem muito esperava, batia às portas da morte, atacado de uma febre maligna.
Entretanto, o conde da Cunha continuava a tratar com a maior benignidade o seu ajudante oficial-de-sala, e apenas o incomodava, exigindo notícias da filha do carpinteiro, e a descoberta do cúmplice ou sedutor dessa moça.
Alexandre Cardoso sofria...
Quatro ou cinco dias depois do carnaval, o conde da Cunha, tendo recebido e lido o misterioso e anônimo relatório da semana, passou algumas horas em febril irritação, fazendo gemer as salas do palácio sob
seus passos pesados e acelerados.Os servos, as ordenanças, os próprios empregados que trabalhavam na Secretaria, tremiam.
– A tempestade ronca; sobre quem cairá o raio? dizia um.
– O sr. vice-rei em idas e voltas, tem passeado hoje duas léguas, observava outro.
– É a medida de sua cólera, acrescentava um terceiro.
Mas a tempestade serenava sem que caísse raio sobre alguém.
O vice-rei deixou de passear; a tarde correu tranqüila, e ao anoitecer, Germiano foi chamado ao gabinete do conde da Cunha.
Os dois se acharam a sós.
– Escuta, disse o vice-rei.
E tomando a carta ou relatório que recebera das mãos do próprio Germiano, leu-lhe uma página, que continha a história de quanto se passara entre Alexandre Cardoso e Clélio Írias, e do modo por que a este haviam sido roubados os três documentos falsos.
Acabando de ler, o conde da Cunha tornou, dizendo: – Quero saber se isso é verdade e preciso simular ignorância destes fatos, é indispensável interrogar o velho Clélio Írias; eu me atraiçoaria, se o fosse procurar, e só tenho confiança em ti; mas tu és mudo, e Clélio Írias está a morrer: que farás?...
Germiano ficou imóvel e refletindo; no fim de alguns minutos sorriuse: tinha resolvido o problema.
O mudo dividiu uma folha de papel em oito pedaços, correu com o dedo duas linhas do relatório e com o mesmo dedo fingiu escrever no primeiro dos oito pedaços de papel, e assim foi igualmente trazendo com os outros.
O vice-rei compreendeu Germiano, tanto mais facilmente, que tinha tido a mesma idéia.
– Entendo: copiarei a denúncia que me dão, fazendo perguntas, cada uma das quais escreverei em papel separado.
O mudo fez sinal afirmativo.
O vice-rei escreveu muitas perguntas, e cada uma em um oitavo de papel.
Germiano quando viu terminado este trabalho, e que o vice-rei lhe entregava os papéis, apontou com o dedo indicador para este, depois para si, e depois para a rua, na direção da casa do velho Clélio Irias.
O conde da Cunha escreveu em uma folha de papel, que Germiano ia por ordem do vice-rei, interrogar daquele modo a Clélio Írias, como o inteligente mudo acabava de indicar-lhe, e ajuntou a isso garantia de perdão ao velho usurário, uma vez que ele não procurasse ocultar a verdade, e impondo-lhe, enfim, ordem de absoluto segredo.
Acabando de assinar o que escrevera, o vice-rei leu tudo a Germiano, e perguntou-lhe: – Queres mais alguma coisa? O mudo fez sinal que não.
– Sabes onde mora Clélio Írias? O mudo sorriu-se.
– Até amanhã à noite, dar-me-ás conta desta comissão.
Germiano curvou-se respeitosamente e retirou-se, levando todos os papéis escondidos no peito, por baixo da farda.
Passadas duas horas, bateram à porta do gabinete do vice-rei.
– Quem é? Perguntou este.
Nenhuma voz respondeu; mas os dedos de alguém arranhavam a porta.
– É Germiano, disse o conde da Cunha.
E foi abrir a porta.
O mudo fez sua vênia ao vice-rei, entregou-lhe os papéis que lhe tinham sido confiados e ficou imóvel.
O conde da Cunha examinou os papéis e no fim da maior parte das perguntas, encontrou, feita a lápis, uma cruz, em duas um risco passado sobre a pergunta, em uma absoluta falta de sinal.
– Que quer dizer a cruz?
O mudo fez com a cabeça movimento afirmativo.
– Portanto, a estas perguntas, Clélio Írias respondeu que era verdade? O mudo repetiu com a cabeça o movimento afirmativo.
– E o risco passado sobre as palavras destas duas perguntas? O mudo moveu a cabeça em sinal negativo.
– Quer dizer que não; muito bem; mas esta pergunta, que não traz sinal de resposta?...
O mudo moveu ambos os braços em abandono, e tendo as mãos abertas, levou-as um pouco para trás.
– Não entendo, disse o vice-rei.
O mudo fechou os olhos e com as mãos tapou os ouvidos.
– Queres dizer que o homem não viu, nem ouviu, e respondeu que não sabe? Germiano sorriu-se, indicando sim.
O conde da Cunha bateu com a mão no ombro do mudo e disse-lhe: – Aqui, como em toda parte, desde que te conheço, és fidelidade inteligente que Deus concedeu para o meu serviço e defesa. Vai dormir, meu velho amigo! Duas grossas lágrimas correram pelas faces rugosas de Germiano, que beijou a mão do conde da Cunha e foi dormir, como ele lhe ordenara.
Germiano, orgulhoso e ufano, lembrou-se acordado e em sonhos dormindo, o titulo de meu velho amigo, que lhe dispensara o alto senhor conde da Cunha, vice-rei do Brasil.
Emiliana estava cumprindo zelosamente o seu dever de caridade e, primeiro prêmio de Deus, os cuidados incessantes que exigia o velho
usurário a faziam esquecer por vezes o seu infortúnio.Marcos Fulgêncio, que ia sempre melhor, não só aprovara a nobre tarefa incumbida por Fernanda a sua filha, como ordenara que esta não desamparasse um só instante a Clélio Írias, e apenas, cauteloso e prudente, quisera que a velha tia de sua mulher fosse acompanhar Emiliana, que não devia ficar só em uma casa estranha.
Clélio Írias se achava no estado mais perigoso: o descuido com que se deixara molhado até secarem-lhe as roupas no corpo, o sono dormido as visitas ao relento, a excitação nervosa e o desespero que lhe tinham causado as violências sofridas no entrudo e o roubo dos seus papéis, prepararam-lhe moléstia gravíssima.
O facultativo chamado era prático, hábil, e desenvolvia com energia todos os recursos que os seus conhecimentos médicos e o livro magistral da experiência de longos anos de clínica punham à sua disposição mas debalde lutava com a morte, que parecia ter marcado a sua vítima.
Clélio Írias, ardendo em febre e caído em sono comatoso, passara quarenta e oito horas nesse estado, que indicava próxima agonia; mas, à luz do terceiro Sol, a febre diminuiu, o sono horrível cessou, e dores atrozes o atormentaram; o facultativo concebeu algumas esperanças de salvar o
doente e continuou a luta contra a morte.Gemendo pelas dores que sofria, abrasando-se na febre que se abatia sem cessar de todo, durante breves horas, para agravar-se logo depois, banhando-se em viscoso suor, agitando-se no leito, e algumas vezes delirando, Clélio Írias tinha sempre ao pé de si Emiliana, que, paciente, delicada, compassiva, animadora, velava noite e dia cuidando dele como a filha mais extremosa.
Muitos improvisados amigos ao saberem que o velho usurário escapara ao sono precursor da morte e voltara à consciência da vida e da sua situação, correram a oferecer-se para tratá-lo; este, porém, apontava para Emiliana e dizia com voz trêmula: – Basta ela.
Uma vez, tendo respondido do mesmo modo a um novo oferecimento, Clélio Írias chamou Emiliana, e tomando-lhe uma das mãos, beijou-a com enternecimento.
O facultativo proibiu ao doente receber visitas e fez parar assim a procissão dos fingidos amigos do usurário, que somente estabeleceu uma exceção da regra para o seu vizinho compadre, aquele que lhe emprestara a cadeirinha.
Emiliana era quem recebia e despedia as visitas na pobre sala de jantar do rico usurário, cujo leito passara de um quartinho escuro e úmido para a sala principal, que lhe servia de escritório.
Uma noite, pouco depois do toque de Ave-Maria, uma senhora trazendo mantilha apresentou-se na casa de Clélio Írias e foi levada para a sala de jantar.
Emiliana recebeu-a e a fez sentar.
– Venho visitar o Sr. Clélio Írias, disse a mulher de mantilha.
– Eu darei parte da visita da senhora, e peço o favor de dizer o seu nome.
– Então ele não pode receber-me? – Não, minha senhora; o sr. licenciado proibiu absolutamente as visitas ao doente.
A mulher fez um movimento de desagrado.
– Perdão, minha senhora; eu cumpro ordens que me deram.
– A menina é a enfermeira?..
– Sim, minha senhora.
– É parenta de Clélio Írias? – Não, minha senhora.
– Sua afilhada talvez?...
– Também não, minha senhora.
Uma velha que trabalhava a um canto da sala, na sua almofada de rendas, disse: – É Emiliana, filha do mestre carpinteiro Marcos Fulgêncio, que é um homem muito honrado e amigo do sr. Clélio Írias.
A mulher de mantilha levantou-se, estremecendo: – Ah! exclamou; o mestre Marcos? a vitima do incêndio?...
– É verdade, minha senhora, respondeu Emiliana: mas não sei por que minha tia deu agora em apregoar o meu nome.
– Cala-te aí, enfezadinha! tornou a velha; nós não temos motivo para andar escondendo quem somos, graças a Deus! – Menina, disse a mulher de mantilha, sua tia tem razão; o seu mister nesta casa é uma tarefa de anjo de caridade.
– Oh! não, minha senhora, é apenas o pagamento de uma dívida de gratidão, e o cumprimento da santa lei do amor do próximo.
A mulher lançou a mantilha no banco de pau, onde estivera sentada e mostrou seu rosto de peregrina beleza e seu corpo de suaves e maravilhosos contornos.
Emiliana contemplou-a admirada; com ingenuidade que valeu mais que todas as lisonjas dos salões elegantes, foi atiçar a candeia, e voltou a contemplar de novo a senhora.
– Como é formosa, minha senhora!... disse ela.
Maria de... abraçou Emiliana, beijou-a em ambas as faces e respondeu: – A menina pode, sem inveja, como o faz, reconhecer a beleza de qualquer mulher; porque a nenhuma cede em lindeza.
Emiliana confundiu-se, e abaixou o rosto.
– Mas eu precisava muito falar a Clélio Írias! – É impossível, minha senhora...
– Oh!... se a menina soubesse...
– Dói-me muito repeti-lo; mas o licenciado não quer, e eu sou responsável...
Maria interrompeu Emiliana, tomando-lhe a mão e levando-a para o corredor, onde, falando-lhe ao ouvido, murmurou: – Silêncio!... nem uma exclamação, nem um grito, ou despertará suspeitas..
Emiliana tremeu e prestou atenção.
Maria continuou, segredando: – Nós somos irmãs, e sob este teto há três vitimas, e três inimigos do mesmo homem; lá o velho, que vai talvez morrer, aqui uma amante ultrajada e uma donzela ofendida em sua honra.
Maria susteve Emiliana, que titubeava.
– Silêncio e prudência... já lho disse; nós ambas temos o mesmo ódio, e eu preparo a vingança: preciso falar a Clélio Írias antes que ele morra.
Emiliana envergonhada, trêmula, quase sem voz, sentiu horror desse frenesi de vingança que ousava ir perturbar, tempestuar a alma de um velho, talvez próximo a morrer.
– Não, balbuciou ela; por isso mesmo não, minha senhora.
Maria recuou um passo e perguntou com ironia: – A vítima perdoou ao algoz?...
Emiliana respondeu com vexame profundo e justo despeito: – Não entendo o que me dizes; mas sei o que me cumpre fazer O facultativo, licenciado, ou cirurgião, como então indistintamente se dizia, chegou nesse momento; antes de tudo, foi examinar o velho doente, e no fim de alguns minutos dirigiu-se à sala de jantar, onde cumprimentou a velha e as duas moças.
– A febre declina, mas não me engana; é evidentemente traiçoeira e anda a fazer-me negaças; esta resistência de certos sintomas nervosos pode dar de si... o velho Írias conserva na língua uma crosta com cheiro de morte; notem que ele já mudou de cabeceira duas vezes...
– Mas eu precisava falar a Clélio Írias, disse Maria.
– Nada, de modo nenhum, respondeu o licenciado, rindo-se; a srª dª.
Maria é bonita demais, e era capaz de fazer pecar por pensamentos o velho, que, amanhã deve receber os socorros da Igreja.
Maria quis teimar; bateram, porem, à porta da casa.
Emiliana mandou entrar, e entrou Germiano.
– Que pretende?... perguntaram a Germiano.
O mudo, pondo em ação a sua mímica expressiva, indicou que queria entender-se com Clélio Írias.
Responderam-lhe que isso não era possível.
Germiano conhecia o facultativo e dirigindo-se a ele, pôs um dedo na boca, recomendando silêncio e mostrou-lhe uma folha de papel.
Apenas leu as primeiras palavras, o licenciado curvou-se com respeito, e disse ao mudo: – Venha.
E introduzindo Germiano na sala, onde estava Clélio Írias, retirou-se, cerrou a porta, e saiu, prometendo voltar em breve.
– Aquele soldado é um enviado do vice-rei; e sou capaz de jurar que vem pedir a Clélio Írias informações sobre a sua enfermeira.
Emiliana não respondeu a Maria e ficou imóvel.
Bateram de novo à porta, e enquanto Emiliana foi ver quem chegava, Maria, conhecedora, como qualquer outro, das divisões e comunicações adotadas em quase todas as casas da cidade, atravessou a sala de jantar, entrou em um quarto, passou desse para outro que era contíguo à sala que servia de escritório, onde estava Clélio Írias, e abrindo um pouco e levemente a porta, aplicou o ouvido e escutou.
Germiano levava a candeia que estava acesa na sala do doente para perto deste, e oferecera-lhe aos olhos a folha de papel que mostrara ao facultativo.
– Da parte do sr. vice-rei! disse Clélio Írias, lendo; e fazendo vão esforço para sentar-se.
O mudo conteve o doente e com a sua mímica recomendou-lhe tranqüilidade e começou o seu interrogatório, apresentando a primeira pergunta escrita.
Clélio Írias leu em meia voz e respondeu sim.
Germiano traçou com um lápis que trazia, uma cruz no papel onde estava escrita a pergunta.
No entanto Emiliana tinha vindo procurar Maria e encontrando-a a escutar à porta entreaberta do quarto, puxou-a com força pelo braço para afastá-la daquele lugar, onde surpreendia um segredo; achando, porém, teimosa resistência, hesitou, não sabendo o que devia fazer; porque, tolerando aquele abuso, era cúmplice em uma traição, e denunciando-o, expunha talvez a tremendo castigo a mulher audaciosa, e ia provocar perigoso abalo provavelmente fatal ao velho doente.
Ansiosa e trêmula, Emiliana ouviu o nome de Alexandre Cardoso murmurado por Clélio Írias na pergunta que lera, e não podendo arredar dali a senhora de mantilha, deixou-se também ficar, puxando sempre pelo braço desta; mas talvez já não menos curiosa que ela.
O mudo foi sucessivamente passando a Clélio os papéis de perguntas, e traçou uma cruz, quando a resposta foi – sim –, um risco sobre as letras da pergunta, quando o velho respondeu – não –, e não fez sinal algum em uma pergunta, à qual o doente respondeu – não sei.
Clélio Írias lia sempre em meia voz a pergunta que o mudo lhe apresentava e a que respondia imediatamente.
Terminado esse interrogatório singular e imprudente nas circunstâncias em que se achava Clélio Írias, Germiano apertou a mão do doente e voltou a dar conta da sua comissão ao vice-rei.
Ao mesmo tempo Maria tornou à sala de jantar e, voltando-se para Emiliana disse: – Perdi o meu tempo; nada ouvi que fosse novo para mim.
Emiliana não podia dizer outro tanto, e estava espantada da perversão e dos crimes do homem que já era bastante criminoso para ela.
– Em que pensa, menina? perguntou Maria, pensa em...
A moça interrompeu-a com viveza e respondeu: – Pensava naquele mudo...
Maria sorriu-se maliciosamente; vendo, porém, que Emiliana corava, disse-lhe:
– A providência divina também é muda: não fala, mas não dorme.O facultativo chegou, como prometeu; e Maria, perdendo de todo a esperança de falar a Clélio Írias, envolveu-se em sua mantilha, e, embora levasse a promessa de que lhe participariam, quando o doente pudesse recebê-la, dada a hipótese de escapar à morte, retirou-se contrariada.
Dois egoísmos tinham, um, tentado com empenho sacrificar, e outro, efetivamente sacrificado à sua vontade todas as considerações de respeito e de caridade, a que tinha direito um velho doente e em perigo de vida; o egoísmo da vingança e o egoísmo do poder despótico. Emiliana soubera resistir a Maria; o licenciado não ousara resistir ao vice-rei.
Mas, receoso das conseqüências do interrogatório misterioso feito pelo mudo, o licenciado foi ver outra vez o doente: a febre aumentara um pouco e com ela as dores e a agitação.
– A tal conversa lhe foi nociva, disse o prático; espero, porém, que há de amanhecer melhor; vou receitar-lhe um calmante poderoso...
Clélio Írias sacudiu a cabeça em sinal de incredulidade.
– Isso é medo de velho...
– Amanhã receberei os sagrados socorros e a extrema-unção, murmurou o doente.
– É o seu dever de católico.
– E suave consolação e conforto de minha alma de usurário e pecador arrependido...
– Está bem; descanse.
– Não; é preciso que eu lhe fale: sr. Licenciado, tenho mais de setenta anos; o mundo e a vida já me cansam.
– Conversaremos amanhã...
– Amanhã pode ser tarde. Sr. Licenciado, seja franco: tenho negócios a arranjar, disposições a tomar; se ainda espera salvar-me e esses cuidados podem contrariá-lo, estou pronto a adiá-los; se, pelo contrário...
O licenciado cortou a palavra ao doente e respondeu-lhe: – O seu estado é grave; ainda tenho esperanças de vencer esta febre maldita que o devora; mas quer me parecer que a preocupação dos arranjos dos seus negócios é ainda pior do que será a fadiga e a excitação do trabalho que vai ter; descanse, pois, duas horas, tome depois as suas disposições, e deixe o resto por minha conta.
Clélio Írias compreendeu perfeitamente a verdadeira significação das palavras do licenciado, e sem comoção e sem tremer, disse: – Agradeço-lhe a verdade.
E fechou os olhos como para dormir.
O licenciado receitou e despediu-se de Emiliana e da velha.
Meia hora depois, Clélio Írias abriu os olhos e viu sentada a seus pés a dedicada enfermeira.
– Venha sentar-se aqui, disse-lhe, mostrando uma cadeira de pau que estava junto da cabeceira.
A moça obedeceu e ele tomou-lhe uma das mãos, e falou com ansiedade que enérgico dominava.
– Emiliana! Devo-lhe muito nestes dias, e vou morrer, apesar dos seus cuidados de filha dedicada. Veja em mim seu pai, e creia que vai confessar-se a um moribundo; mas confesse-se...
Emiliana estremeceu.
– Faltam-me as forças... padeço muito... não me fatigue fale, preciso ouvi-la.
– Que quer que eu diga? – Que confesse ao moribundo que vai dar contas de si a Deus, o que com inteira verdade se passou na noite do incêndio da casa de seu pai.
Emiliana desatou a chorar.
– É pois verdade o que disseram? perguntou Clélio Írias.
– É verdade, balbuciou a moça.
– Alexandre Cardoso é pois seu amante? – Oh! não!... exclamou ela levantando-se.
– Sente-se.
Emiliana sentou-se.
– Mas Alexandre Cardoso, o infame por mil infâmias, manchou a sua reputação.
A moça contou soluçando, a breve história da sua desgraça.
Clélio Írias fatigado e em febril agitação teve pressa de acabar essa íntima conversação.
– Embora inocente, o seu nome está exposto às irrisões do mundo: tome outro nome...
– Como, senhor?...
– Seja noiva amanhã para ser viúva depois de amanhã.
Emiliana não soube que dizer.
– Mande chamar sua mãe, e prevenir a seu pai; amanhã senhora será esposa do velho usurário que morrerá logo depois com a cabeça encostada no seu seio.
E Clélio Írias tornou a fechar os olhos; mas, passados poucos momentos, murmurou: – As orações do anjo serão as asas que hão de levar a alma do pecador arrependido aos pés do Senhor Deus misericordioso.
E Clélio Írias dormiu.
Na manhã do dia seguinte CléIio Írias aparentemente muito melhor dos seus cruéis sofrimentos, calmo e contrito, confessou-se e recebeu a sagrada comunhão.
Em seguida foi celebrado e abençoado o seu casamento com Emiliana, a filha do carpinteiro Marcos Fulgêncio.
Acabado o ato religioso do casamento, o padre saiu da sala, onde entrou o tabelião.
No fim de uma hora duas testemunhas assinaram o testamento do marido de Emiliana.
Ao meio-dia o velho que era noivo estava sem febre, tranqüilo, e como sorrindo aos horizontes da vida.
As duas horas da tarde voltou a febre com extraordinária violência.
Às cinco horas Clélio Irias delirava.
Às seis perdera a fala e seu corpo cobriu-s e de frio e suor.
À meia-noite o velho usuário, pecador arrependido, agonizava, tendo a cabeça encostada no seio de sua jovem esposa.
À uma hora da madrugada, Emiliana Írias estava viva e era a única herdeira de uma fortuna de seiscentos mil cruzados.