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As Mulheres de Mantilha

Joaquim Manuel de Macedo

XLIII

Na chácara da Gamboa, continuara sem a mais leve perturbação a vida suave e tranqüila da família de Jerônimo Lírio; tipo das famílias de costumes severos do tempo colonial, principalmente do último século observava as regras adotadas com precisão, mas sem constrangimento, porque a educação passada de pais a filhos as tornara fáceis e como que

naturais.

Assim, Jerônimo Lírio, o chefe, dirigia exclusivamente os negócios e neles resolvia tudo sem consulta anterior e sem conhecimento posterior da sra. Inês; esta governava absolutamente na economia doméstica, no que o marido só intervinha, quando a mulher precisava do seu concurso; cada uma das duas filhas por sua vez fazia semana subgovernando e dirigindo todos os serviços domésticos debaixo das vistas de sua mãe, cada uma tinha sua escrava particular que costurava e engomava seus vestidos e a servia no quarto; os costumes dessas escravas eram especialmente zelados. As duas meninas não falavam a pessoa estranha, senão em presença de seus pais, e nunca passeavam nem se mostravam sós.

O cuidado do futuro da família pertencia a Jerônimo, que diria oito dias antes do casamento os nomes dos noivos de suas filhas a sua mulher: mais ainda em segredo; porque bastava que as noivas os soubessem na véspera do enlace nupcial.

Entretanto Jerônimo teve de fazer uma exceção a esta última regra do absolutismo logo depois da retirada na noite da segunda-feira de entrudo.

Ele se lembrara de que na tarde antecedente Inês o confundira, dizendo-lhe: “Sou mãe que vê mais e que adivinha antes de ti o que mais tarde lhe escondes para poupar-lhe cuidados”.

Sem contestações Inês tinha-se referido às pretensões de Alexandre Cardoso à mão de sua filha mais moça, e pois era justo que soubesse o que sem quebra do sigilo convencionado, podia Jerônimo comunicar-lhe da sua conversação particular com o conde da Cunha.

Chegando ao seu quarto, o negociante disse à srª Inês que o esperava: – Sabes a que veio o vice-rei? – A quê? – Pedir-me a sinhá em casamento para o seu ajudante oficial-de-sala.

– Misericórdia!... antes não viesse cá o senhor vice-rei!...

– Por quê?...

– Será uma desgraça semelhante casamento..

– Pensamos do mesmo modo.

– E então? – Respondi com um não redondo.

– Mas e o senhor vice-rei? – Ele governa a colônia; eu, porém, governo minha família.

– E as perseguições e os perigos a que ficamos expostos com um tal inimigo? – Sossega: o conde da Cunha retirou-se às boas comigo.

– Mas esta gente alta não finge? – Oh! e muito: mas eu tenho razão para estar tranqüilo, nem de outro modo te comunicaria isto.

– Deus Nosso Senhor nos ampare.

– Ontem apanhei em algumas palavras tuas a declaração de que antes de mim tiveste conhecimento das atrevidas e importunas intenções e cortesias do tal Alexandre Cardoso.

– É verdade; eu as tinha percebido.

– E a Sinhá?...

– Coitadinha! ainda não pensa em semelhantes coisas.

– Olha que ela é muito esperta...

– É um anjinho de inocência, como a Nhanhã.

– Bem: o que acabo de dizer-te é um aviso para que redobres de vigilância.

– Sem dúvida; mas o vice-rei? – Que tem o vice-rei? – Como acharia ele a recepção que lhe fizemos? – Onde a terias melhor no Brasil? Não vês que fomos despachados, e que vais ser a senhora dona Inês? – Sim, e com marido cavaleiro do hábito...

– Estás vendo que a nobreza nos entra em casa...

Ambos se puseram a rir, mas dentro de si muito ufanosos das graças prometidas.

E deles não se riam hoje os comendadores e barões admirados de ufania por tão pouco; pois o título de dona a uma senhora e um hábito da Ordem de Cristo a um homem custavam e distinguiam então muito mais do que as comendas e os baronatos do nosso tempo.

Ainda antes de dormir os dois velhos e amigos esposos conversaram sobre Isidora; mas em voz tão baixa que só eles mesmos se podiam entender.

O dia seguinte era feriado e o compadre Antônio Pires chegou inesperadamente e foi recebido com expansão de alegria pela família.

O dia tornou-se de festa. Os dois velhos amigos conversaram a sós uma hora: Jerônimo Lírio confiou a Antônio Pires tudo quanto se passara na visita do vice-rei; e este referiu àquele a notícia do incêndio da casa do carpinteiro Marcos Fulgêncio e os rumores que corriam do novo atentado que perpetrara Alexandre Cardoso; discorreram sobre os dois acontecimentos e depois voltaram à sala onde se achavam as senhoras.

As meninas falavam muito no vice-rei, a quem faziam encantados elogios; Isidora sentada junto da senhora Inês se conservava em silêncio.

Os dois compadres jogaram o gamão e Jerônimo Lírio que estava em maré de felicidade punha em torturas a impaciência de Antônio Pires, contido e coato44 pela presença das senhoras.

Uma vez depois de cinco gamões consecutivos perdidos por Antônio, a fortuna pareceu mudar, Jerônimo, falhando três vezes, estava exposto a levar gamão; era quase impossível a este salvar a partida, ou conseguir perder apenas jogo simples.

– Toma agora a lição de mestre, velho presumido! exclamou Antônio.

– E se eu te der na pedra?...

– Era preciso que tivesses o diabo no corpo para que me desses na pedra, saísses com os três, que estão quase presos, e que te casasses, enquanto eu fosse falhando por um século! E foi o que aconteceu!...

Jerônimo teve dos dados o quase impossível, fechou-se todo, e gritou a Antônio que furioso apertava a pedra na mão: – Tragam doce para Antônio, enquanto eu não lhe abro casa! Antônio teve medo de esquecer-se da presença das senhoras, e voltando-se para elas, disse: – Comadre, mande despedaçar este tabuleiro de gamão! – Não jogue mais, compadre! – Aí tem casa aberta, disse Jerônimo; entra depressa se queres livrar o gamão...

– Com uma pedra só a entrar e recolher? – Tem-se visto tantas vezes! Antônio falhou três vezes, entrou depois; mas em seguida lançou

44 Constrangido.

duas vezes dois e ás, e levou o gamão cantado.

Jerônimo quase rebentava de rir, provocando com zombarias o velho amigo, que arrebatado, deixou-lhe o tabuleiro nos joelhos, e para disfarçar a sua irritação perguntou a Isidora: – O vice-rei assustou-a muito? Escondeu-se dele? – Ao contrário, compadre; ela encantou o senhor conde da Cunha com os lundus que lhe cantou.

– Ah! canta lundus? – E muito bem.

– Pois faça de conta que eu sou o vice-rei, e vamos aos lundus.

Isidora não se fez rogar; foi para o cravo, e então menos acanhada, cantou muito melhor do que na presença do conde da Cunha.

– Mas.., isto é muito bonito! exclamou Antônio.

E voltando-se para os dois lírios.

– E vocês cantaram também? – Nós dançamos, meu padrinho, disse Inês.

– Pois deviam ter também cantado: a música vale mil vezes mais que a dança.

– Mas... não sabemos,..

– Era fácil sabê-lo agora, visto que vocês têm boa mestra em casa, disse Antônio.

E voltando-se para Jerônimo, continuou: – Jerônimo, por que as meninas não aprenderam a cantar alguma coisa com a senhora Isidora? O velho negociante um dia antes se revoltaria contra a proposição; mas desde a oração da noite do domingo começara a afeiçoar-se a Isidora, e o muito que esta agradara ao vice-rei pelos seus lundus, acabou por decidilo: – Isso é lá com Inês, que é quem se ocupa das meninas, respondeu.

A senhora Inês que observara a expressiva fisionomia do marido, acudiu depois de breve reflexão: – Se a menina Isidora quiser prestar-se a dar algumas lições...

Isidora respondeu, corando: – Sei muito pouco, minha senhora, mas estou pronta a servir em tudo quanto possa à família respeitável e benéfica a quem devo hospitalidade e proteção.

– Quanto tempo perdido! exclamou Antônio.

– Como? – A primeira lição já devia ter principiado.

Jerônimo levantou-se e saiu da sala, dizendo: – Temos doidices: ainda hei de ver-me obrigado a fechar a porta a este velho.

Antônio era o único homem que influía com poder quase irresistível sobre Jerônimo; e cada uma de suas visitas era sinal de festa e de alegria na chácara da Gamboa, onde ele com dissimulado aprazimento do amigo, punha as duas meninas em folguedo não coagidas pela austeridade do pai.

– Fazes bem em te ir, carrancudo, ralhador, dissera Antônio a Jerônimo.

E falando à srª Inês, prosseguiu: – Comadre, há de ver o que sai daqui: eu aposto que a Nhanhã, que é menos alegrona, cantará bem modinhas, e que a Sinhá há de brilhar nos lundus. Vamos a um ensaio? A Nhanhã que experimente uma modinha.

A srª Inês sorriu-se e animou as filhas; Isidora foi sentar-se ao cravo; mas Irene, vergonhosa e confundida, não se atreveu a ensaiar sua voz.

– Sinhá, disse o padrinho à afilhada, dá o exemplo a tua irmã. A menina Inês levantou-se risonha, corada e entre o vexame natural e o desejo de agradar ao padrinho, foi colocar-se ao lado de Isidora.

– Que deseja cantar? perguntou esta, docemente.

– Ora! Não sou eu, é meu padrinho que deseja que eu cante um lundu.

– Qual é o que vai cantar?..

– O primeiro que ouvi ontem à senhora.

– Ah! o da velha que quer casar? – Esse mesmo.

– Acha bom que lho repita? – Meu padrinho não poderia ouvir-me depois.

Isidora começou o acompanhamento e a inteligente e engraçada Sinhá, vencendo o medo, desatou a voz e cantou de cor o lundu que ouvira duas vezes, conseguindo imitar as inflexões da voz, o método e a graça do canto de Isidora.

A menina Inês acabava de exceder o que porventura dela esperava o padrinho, que batia palmas.

Isidora contemplou admirada a sua imitadora.

– Que lhe pareceu? perguntou a srª Inês.

Isidora afastou logo os olhos que fixara na menina e respondeu: – Estou maravilhada, minha senhora.

– Se pensa que vale a pena, principiaremos amanhã as nossas lições de música.

XLIV

Havia quinze dias que as lições de canto tinham começado; desde que satisfazia os trabalhos diários do governo da casa, regularmente, às dez horas da manhã a srª Inês levava as filhas para a sala e sem se ausentar por um só momento, e com os olhos e a atenção mais ativa e o mais

escrupuloso zelo empregados nelas, assistia às lições de solfejo e canto, que Isidora dava às duas meninas.

Irene e Inês, que achavam nessas lições distração suave em sua vida monótona, aplicavam-se muito e faziam rápidos progressos; além do estudo da música, Irene tinha aprendido de cor duas modinhas e Inês outras tantas e um lundu, para cantá-los em casa de Antônio Pires, na noite da serração da velha.45 Jerônimo Lírio estava satisfeitíssimo do aproveitamento das filhas, já as fazia cantar em sua presença e calculava com essa nova prenda das meninas para a festa que daria ao vice-rei em uma segunda visita, com que contava.

O recato, o proceder honestíssimo, os modos sempre respeitosos de Isidora, tranqüilizavam cada vez mais o austero velho, que nem mais disfarçava a estima que lhe merecia a hóspede; entretanto, não se modificara por isso o sistema da vida íntima da família Lírio: Isidora era sempre uma estranha; nem uma só vez se achava a sós com as duas discípulas, e unicamente em horas determinadas era admitida no interior da casa, a conversar com a srª Inês.

Ainda naqueles tempos quase recentes, os portugueses e seus descendentes conservavam no sangue os germes do turvo ciúme mourisco que rouba a mulher à admiração e aos cultos dos homens e a condena à escravidão do zelo brutal.

Irene e Inês tinham vivido sempre sob vigilância como suspeitosa, e cada, uma só na outra encontrava a confidente única de seus inexplicáveis enleios.

Jerônimo Lírio e sua esposa defendiam a inocência de suas filhas contra todas as lisonjas e contra todas as luzes do mundo; mas não puderam defendê-las contra a voz da natureza, que devia anunciar-lhes, embora confusamente, um mistério na vida da mulher, um quer que seja que a natureza manda desejar e que em sua inocência deseja sem saber o quê.

Irene e Inês estavam já nesse caso, Irene menos ardente, a pensar sem falar; Inês mais suscetível e mais exaltada, a pensar, a sonhar, a confiar à irmã o que nem ela nem a irmã entendiam.

Sabiam ambas que havia um laço que unia uma mulher a um homem, o casamento; mas do casamento só compreendiam, além do fato misterioso da união, a beleza ou o encanto do vestido branco e do véu, e da coroa da noiva, e o subseqüente governo da casa do noivo.

Ainda assim, e sem saber por que, ambas desejavam ser noivas; mas noivas de bonitos e elegantes mancebos.

Tanto Irene como Inês, por mais de uma vez tinham recebido de velhas pobres pedintes a quem davam o pão da caridade, recados lisonjeadores e amorosos de homens a quem conheciam ou não; nunca

45 Folguedo de origem portuguesa, hoje extinto no Brasil. No meio da quaresma, um grupo de pessoas invadia a casa de uma mulher idosa, fingindo que a serrava.

haviam dado resposta alguma; mas os recados as faziam rir e as divertiam

muito, e ambas instintivamente os escondiam dos pais.

Assim Inês sabia e acreditava que Alexandre Cardoso a adorava perdidamente e com a sua inata e sutil habilidade de mulher, tinha, mais de uma vez, olhado e observado imperceptivelmente o soberbo ajudante oficial-de-sala que lhe causara profunda repugnância, talvez em parte devida à reputação de homem mau e desmoralizado, que ele gozava.

As duas irmãs brincavam, riam-se, e zombavam em confidência dos protestos de amor que recebiam muito raramente, mas que em todo caso, as faziam pensar em amor, e em casamento sem sentir um e sem compreender o outro.

Em um dos últimos dias a menina Inês, correndo a dar esmola a uma velha de mantilha que mendigava, ouvira dela, no meio de um dilúvio de bênçãos, as seguintes palavras, proferidas em tons diversos: – Minha bela menina – seja pelo amor de Deus – o senhor tenentecoronel Alexandre Cardoso, oficial-de-sala do senhor vice-rei – Nossa Senhora do Amparo a proteja – ama-a e quer casar com a senhora – e todos os anjos e arcanjos a acompanhem sempre – o senhor vice-rei deseja o seu casamento com o sr. Alexandre Cardoso e a protegerá contra seu pai – e São Pedro, e São Paulo, e Santo Antônio de Lisboa a façam feliz – porque seu pai a destina para freira – mas o seu belo apaixonado está pronto a salvá-la e a casar com a senhora, tomando por padrinho o senhor vice-rei – e todos os santos e santas do céu a façam feliz – dê-me a resposta que devo levar - para sempre amém.

Inês voltara as costas à mendicante, que se retirara confusa e apressada, tremendo justo castigo, se a menina denunciasse o seu ousado e ímpio recado.

Mas Inês nada disse a sua mãe e somente, esperando a noite, e quando se achava longe da família e a sós com Irene, em seu quarto de dormir e quando ambas, feita a oração da noite, se acolheram a seus leitos puros, e próximos um do outro, perguntou à irmã: – Nhanhã, como vais de recados? – Que recados? – De amor, de paixão, de casamento, de tudo? – Ora... Sinhazinha, tu pensas nisso? – Creio que nós pensamos; mas, em todo caso, eu penso.

– Por quê? – Porque ainda hoje recebi um.

– De quem? – Do oficial-de-sala; foi a velha mendicante de hoje de manhã que me trouxe o recado.

– E que mandou ele dizer-te? – O mesmo que das outras vezes, e uma noticia curiosa. – Qual? – Que meu pai me destina para freira.

– E repetes isso a rir? – Não tenho medo; se fosse verdade, eu pediria proteção e socorro a meu padrinho.

– E respondeste ao recado? – Eu?... que me importa o oficial-de-sala, com aqueles bigodes tão feios! – Ah!.. se ele fosse bonito.

– E bom, e engraçado...

– Responder-lhes-ia, Sinhazinha?...

– Não julgas que se pode responder a um desses recados, sem se ofender a Deus, e ao nosso dever?...

– Eu não sei... talvez... conforme a pergunta e a resposta.

– Tu és sonsa, Nhanhã.

– E que responderias, Sinhazinha?...

– Mandaria dizer que falasse a meu padrinho.

– Sobre o quê? – É claro, sobre o casamento.

A inocência de Inês transpirava da própria ingenuidade com que se pronunciava.

– Sinhazinha, perguntou Irene, qual é o moço com quem desejarias casar-te? – Nenhum...

– Ora... estás mentindo...

– Não; já achei alguns bonitos, agora acho todos feios.

– Por quê?...

– Quase que tenho vergonha de dizer.

– Dize-me sempre..

– Quisera casar-me com um moço que tivesse o rosto, a voz, a bondade e a graça de Isidora.

– Na verdade ela é bonita, e é pena que seja um pouco malfeita de corpo...

– Mas... que olhar o seu!...

– Muito suave... sem dúvida...

– Quando não é brilhante de fogo; porque, então, é abrasador.

– Ela nunca me olhou assim...

– Parece que se arreceia da mamãe.

– Como, pois, sabes que ela tem olhar de fogo?...

– Já por três ou quatro vezes, quando dás lição e mamãe se ocupa mais contigo, apanhei-a a olhar-me assim de relance.

– De relance? – É como um relâmpago, Nhanhã... – Ah! – Também não sei por que mamãe nunca nos deixa em liberdade com uma senhora que é moça como nós, e ainda melhor educada que nós.

– É verdade; nós nos divertiríamos tanto! – E eu então? Olha, Nhanhã, não tenhas ciúmes; suponho que ela gosta muito de mim.

– Porquê? – Um dia esqueci sobre o cravo um raminho de alecrim, e à noite, quando fomos rezar ao oratório, vi o meu raminho, servindo de marca no livro de oração de Isidora.

– Talvez ela o apanhasse por acaso e sem pensar em ti.

– Julgas que sou tola? Deixei passar dois dias, e, enquanto cantavas, fui esquecer um botão de rosa na janela...

– E mamãe não deu por falta do botão de rosa?...

– Ora, esta Nhanhã me considera idiota! Pois eu havia de levar modo que a mamãe o visse? – Onde o levaste? – Bem escondido no seio.

– E que foi feito dele? – Vi-o, à mesa do jantar, no cabelo de Isidora.

– E depois... que mais? – Acabou-se a história, – Sinhazinha, agora é que eu digo que és tola.

– Sim?...

– De que te serve gostar de uma moça como nós?...

– Eu sei! o que dizes é muito acertado; mas Isidora me encanta... não é por minha vontade não entendo o que sinto; mas já duas vezes tenho visto em sonhos um moço com o rosto de Isidora.

– Ela diz que tem um irmão que é o seu retrato perfeito...

– Pois era com o irmão de Isidora que eu queria casar-me.

– Casar-te?... Falas tanto em casar-te! Eu também desejava casarme...

tenho curiosidade... há no casamento um segredo que nos encobrem...

por que o escondem? Já o adivinhaste, Sinhazinha? Para que desejas casarte? Inês respondeu logo sem o mais breve vexame, e com indizível naturalidade: – É para ter filhos, Nhanhã, como os têm quase todas as moças que se casam, e também para ter casa minha, e em meu marido um homem que trabalhe para mim.

– Ainda falta aí o segredo... murmurou Irene.

Inês, que também ignorava o segredo, e que se viu abatida pela evidência da falha considerável no seu saber pretensioso, disse um pouco amuada: – O mais, não sei.

As duas irmãs guardaram silêncio por alguns minutos.

Irene tornou a falar.

– Dormes, Sinhazinha? – Não.

– Eu estava pensando em Isidora.

– Também eu.

– Causou-me surpresa e dúvida o que me disseste: talvez tenhas interpretado mal o fato de recolher esta moça o ramo de alecrim e o botão de rosa.

– Interpretei muito bem.

– Quisera fazer uma experiência.

– Qual...

– Amanhã serei eu quem esqueça uma flor sobre o cravo.

– E eu esquecerei outra na janela.

– Pois sim.

– Mas com a condição de não teres ciúmes.

– Juro que tenho só curiosidade. Vamos dormir.

E Irene e Inês dormiram fácil, suave e tranqüilamente. como devem dormir os anjos, se os anjos dormem.

No dia seguinte, à hora da lição de música, Irene, que levava na mão uma violeta, deixou-a cair sobre o cravo, quando solfejava, ao mesmo tempo que Inês esquecia na janela um amor-perfeito que levara escondido.

Terminada a lição e ao retirarem-se as meninas, Isidora chamou-as, e apresentou-lhes a violeta, perguntando a quem pertencia.

Irene recebeu a flor, corando, e agradeceu a Isidora, e ainda mais curiosa e atenta, viu, à noite, durante as rezas no oratório, o amor-perfeito de Inês servindo de marca no livro de orações de sua mestra de canto.

Quando, abençoadas por seus pais, as duas meninas se recolheram para dormir, e se achavam a sós, Irene disse a Inês: – Tens razão, Sinhazinha, Isidora te ama.

– E eu a ela, muito, cada dia mais! – Eu, porém, não entendo isto... que amor é este, entre pessoas que não se podem casar?...

– É verdade, Nhanhã; não me governo, porém, mais... amo Isidora...

e nem compreendo a natureza do sentimento que a ela me cativa.

– Sinhazinha, quem sabe se há nisto obra de tentação do inimigo? Eu te dou um conselho.

– Qual?...

– Antes da semana santa, havemos de confessar-nos: não te esqueças de consultar o padre sobre este caso de consciência.

– Ah, Nhanhã! O padre é tão rabugento! – É porque pecamos muito, Sinhazinha; e porque talvez rezamos pouco.

E instintivamente as duas meninas cobrindo os seios com os lençóis em voltas, ajoelharam-se sobre as camas, e rezaram o credo, a ladainha de Nossa Senhora, e outras orações que as ocuparam durante uma hora.

E depois adormeceram sorrindo, como se agradecidas, sorrissem à bênção de Deus.

XLV

O vigésimo dia da quaresma é em todo o mundo católico de suspensão de penitência, e como de férias dadas pela Igreja aos jejuns e aos austeros preceitos de religião santa e única verdadeira, impostos aos fiéis nesse período anual que recorda os quarenta dias de jejum e da suprema meditação de Jesus Cristo antes da sua sagrada paixão e morte, que deixou no sangue do Deus mártir o Jordão que lava todas as culpas, e na cruz santíssima a árvore da liberdade que regenerou e nobilitou, que regenera e

nobilita, que há de regenerar e nobilitar para todo sempre a humanidade.

Esse dia excepcional, que a Igreja concede aos fiéis para descanso das penitências e dispensa das abstinências dos jejuns e das práticas austeras, dava no Brasil ocasião a uma folgança popular não pouco burlesca. A folgança tomava o nome de serração da velha.

Descreveremos em poucas palavras essa espécie de mascarada dos antigos costumes, que só no presente século foi proscrita pela nova civilização.

Nas cidades e até nos pequenos povoados ajuntavam-se mancebos folgazões para a festança; dizia-se que pelo correr da noite se havia de serrar a mulher mais velha da cidade ou povoação, e era tão simples e crédula a gente daqueles tempos, que havia velhas que, tremendo de medo, se escondiam durante o dia fatal para não serem apanhadas pelos serradores.

À noite, saía a sociedade à rua: homens possantes, vestidos a caráter, às vezes representando índios, ou negros africanos, ou mouros, puxavam um carro com imenso estrado, sobre o qual viam-se meia dúzia de figurantes trajando à fantasia e uma grande serra armada e pronta para serrar uma pipa, dentro da qual se dizia ir encerrada a velha condenada ao sacrifício.

Onde era possível obter-se música, uma dúzia de tocadores de instrumentos bárbaros, ou capazes de produzir grande ruído, não excluía a banda de música de verdadeiros professores que, durante a marcha da burlesca procissão, alternavam com a orquestra infernal, tocando marchas alegres; onde tanto não se podia conseguir, contentavam-se os folgazões com a orquestra infernal.

Às vezes cessava a música, e os puxadores do carro marchavam, entoando cantigas alusivas ao trabalho que executavam, alternando também com os serradores que cantavam, ora fazendo alusões à velha que levavam na pipa, ora outros cantos mais ou menos engraçados, ou em moda entre o povo.

Quando os carregadores paravam para descansar, ou de propósito defronte de alguma casa, a cujos moradores queriam obsequiar, os serradores dançavam grotescamente, e um deles, principal, fazia em voz alta a leitura de uma composição poética, em que era cantada a vida da velha que ia ser serrada.

Passavam assim pelas ruas, até que na praça principal, se completava a função, serrando-se a pipa, que em vez de mostrar serrada, no seu interior, a velha, apresentava boa e variada ceia, e abundância de garrafas de vinho.

Às vezes fingiam serrar a pipa desde o princípio e em todo o correr da procissão; ainda de muitos e diversos modos variavam o divertimento, que por fim, acabava sempre com a ceia na praça ou em casa para isso disposta.

Como se vê, a serração da velha era uma folgança inocente, mas rude, e talvez um pretexto para as ceias fartas e alegres no dia da suspensão dos preceitos da quaresma.

Esse texto era perfeitamente compreendido pelas famílias, que também ceavam em festa.

Dos antigos cantos que entoavam os serradores da velha, um apenas ouvimos com seguranças dadas por quem no-lo repetiu, de que pertencia ele ao século passado. Ei-lo:

Serra, serra, serra a velha, Puxa a serra, serrador; Que esta velha deu na neta

Por lhe ouvir falas de amor.

Serra-ai! – serra-ai! – serra-ai! – puxa, Puxa-ai! – puxa, serrador! Serra a velha – ai! – viva a neta Que falou falas de amor.

Serra! – a pipa é rija; Serra! – a velha é má; Serra! – a neta é bela; Serra! – e serra já.

Eis ai mais ou menos como era a serração da velha no século passado.

Tinha chegado o dia dessa folgança, no ano de 1767, e desde que despertaram ao canto dos passarinhos. que saudavam a aurora, Irene e Inês não pensaram senão na alegre noite que haviam de passar, na casa do bom velho Antônio Pires, a quem ia pagar Jerônimo Lírio a aposta perdida,

levando a família a cear com o amigo e compadre.

As duas meninas, tão sobejamente enfeitadas pela natureza, empregaram o dia todo em imaginar enfeites para seus formosos cabelos e finos vestidos brancos.

Enfim, às seis horas da tarde, a família de Jerônimo Lírio pôs-se em marcha da Gamboa para a cidade. A Srª Inês, Isidora e os dois lírios eram levadas cada uma em sua cadeirinha; o velho caminhava atrás, cavalgando soberbo cavalo, e seguido de dois criados.

Às sete horas e pouco mais, da noite, Antônio Pires desceu do sobrado para receber à porta da rua a família do seu amigo.

XLVI

A casa de Antônio Pires era na Rua Direita, a principal da cidade; no pavimento térreo, tinha ele o seu armazém comercial, com amplas proporções que se estendiam até em frente ao mar; no sobrado, preparado

com o maior luxo, morava ele, como em desmesurada solidão.

Mais rico do que Jerônimo, pois que não tinha mulher nem filhos, expansivo, alegre e obsequiador, Antônio Pires cultivava numerosas e excelentes relações na cidade do Rio de Janeiro, e naquela noite reunira escolhida sociedade com propósito tão evidente de festejar Jerônimo Lírio, que não havia um só convidado que não fosse também negociante ou cavalheiro, que o seu amigo conhecesse, estimasse ou apreciasse.

Antônio Pires estava como adoidado pela alegria que lhe causava presença da família de Jerônimo; a este dissera: – Tu és velho caloteiro arrependido, que começas hoje a pagar-me o que me deves.

À srª Inês disse, com os olhos úmidos de lágrimas de inexprimível contentamento: – Comadre, tome o governo da casa; todos aqui e eu na conta, somos seus hóspedes...

E voltando-se para Irene e Inês, exclamou a rir, mostrando Jerônimo: – Meninas, aquele velho carrancudo e feio não manda nada nesta casa; vocês hoje são minhas filhas, toca a brincar! E, dirigindo-se a Isidora: – Devolvo-lhe a dita que estou gozando...

– A mim? perguntou Isidora, admirada...

– Não o sabe, não o pensa; mas é assim; sou o devedor; porém, em vez de pagar-lhe a minha dívida, pedir-lhe-ei novos favores... há de cantar nos os seus lundus..

E voltando-se ainda para Irene e Inês, gritou-lhes: – Meninas! Corram por aí, vão correr-me a casa... se forem capazes, adivinhem onde é o meu quarto de dormir, e se o adivinharem, entrem, e acharão dois irmãos muito parecidos, que guardei para vocês...

As meninas, tendo consultado os olhos de sua mãe, levantaram-se, correram para dentro, e em breve tornaram à sala, trazendo cada uma nos braços um pequenino, branco, felpudo e lindo cachorrinho.

Antônio andava às tontas pela sala.

– Tu deitas-me a perder as meninas, disse-lhe Jerônimo, comovido pelo júbilo do amigo.

– Vais ralhar em tua casa, velho enfezado.

– Queres ver e apreciar o que tens feito?...

– Quero; vamos a isso.

Jerônimo chamou as filhas e ordenou que fossem cantar.

Irene cantou, tremendo, e talvez por isso com maior efeito, uma modinha de música suave e melancólica.

Inês cantou dois lundus com arrebatadora graça. Uma e outra mereceram gerais e sinceros aplausos.

– Se foi assim que eu deitei-as a perder, hás de pagar-me o malefício com juros acumulados, disse Antônio a Jerônimo.

Começaram as danças, depois outras senhoras cantaram, renovou-se a dança, os dois lírios cantaram outra vez, instavam com Isidora para também cantar, quando se anunciou próximo o préstito da serração da velha.

Todas as senhoras correram para as janelas.

Por acaso – quem sabe, se por acaso? – Inês achou-se junto de Isidora, e afastada de sua mãe.

– Por que não quer cantar? perguntou Inês a Isidora.

– Porque prefiro ouvi-la.

– Mas pode ouvir-me, e deixar-se ouvir.

– Depois que a vi e a ouço, já não sei cantar: preparo-me somente para chorar.

– Por quê? – Porque a amo...

– Mas eu também a amo, e muito!...

– Inês... Sinhazinha!...

– Somos duas moças e quase da mesma idade: que amor mais inocente e puro?... É o único, que não pode fazer chorar...

Isidora curvou a cabeça e roçou com os lábios a mão de Inês que estava sobre o parapeito da janela.

Inês estremeceu e corou sem saber por que, recebendo aquele fugitivo beijo.

Isidora como que se arreceou da comoção da inocente menina, e

travou conversação com a senhora que lhe ficava do outro lado.

O préstito da serração da velha se aproximava cada vez mais; alguns cavaleiros, porém, tomaram-lhe a dianteira levando os cavalos a trote; todos esses cavaleiros eram militares, e um deles, demorando ainda mais o trote do seu ginete, fitou a menina Inês com olhos tão audaciosos, que, passando além da casa de Antônio, não se lhe deu de que o vissem voltar para trás a cabeça, continuando a olhar a bela filha de Jerônimo Lírio.

Esse cavaleiro era Alexandre Cardoso.

Cinqüenta rapazes trazendo archotes adiante do préstito iluminavam bastante a rua para que todos pudessem ter notado a contemplação inconveniente, com que o ajudande oficial-de-sala parecera adorar o lindo rosto de Inês.

Jerônimo Lírio mal disfarçou a sua cólera.

Só a menina Inês com pasmosa isenção nem sequer deixou perceber que vira o apaixonado cavaleiro.

Na rua murmurava-se entre o povo: – São os dois lírios! – Que formosos que eles são! – Não será o maldito oficial-de-sala quem mereça alguma daquelas flores! – Ainda bem que o velho Jerônimo é casmurro.

Enfim o préstito passava, e, ainda melhor, o carro parou defronte das janelas de Antônio e as danças se executaram no meio dos aplausos do povo.

Aproveitando o movimento e o ruído, Isidora perguntou com voz trêmula a Inês: – Quem é aquele cavaleiro, que tanto a olhou ainda há pouco? – Que cavaleiro?...

– Por que dissimula? Vi bem que ele a ama...

– Viu mais do que eu.

– Mas quem é ele?..

– Que me importa isso?...

– Diga-me o seu nome...

Inês admirou-se da alteração da fisionomia de Isidora, para quem levantara os olhos, e sem mais hesitar disse em voz baixa: – Chama-se Alexandre Cardoso.

– O oficial-de-sala do vice-rei? – Ele mesmo.

Isidora exalou um gemido mal abafado, e ficou silenciosa e triste.

Inês não sabia o que pensar desse abalo da sua bela mestra de música.

O préstito da serração da velha seguiu seu caminho.

Logo depois Antônio Pires levou seus convidados para a mesa da ceia que foi profusa e rica.

Às onze horas da noite Jerônimo voltou com sua família para a chácara da Gamboa, e, atravessando as ruas da cidade, ainda viu modestas sociedades ceando em esteiras estendidas às portas de casas térreas.

A noite ia adiantada e o caminho para a Gamboa era, como ficou dito, solitário e arriscado, mas Jerônimo estava tranqüilo, porque além dos oito escravos carregadores das cadeirinhas, levava dois pajens escolhidos.

O velho negociante não contava com Alexandre Cardoso.

O vingativo, soberbo e desmoralizado oficial-de-sala já desde alguns dias tinha concebido o plano da sua vingança e só esperava ensejo oportuno para executá-lo.

Tendo visto a família de Jerônimo às janelas da casa de Antônio Pires, apenas chegou à Praça do Carmo, despediu-se dos oficiais com que passeava, tendo antes dito em voz baixa algumas palavras a dois que eram seus íntimos, e que mais tarde a ele foram reunir-se em lugar aprazado.

Em uma hora Alexandre Cardoso tomou todas as medidas que lhe faltavam, e às dez da noite, oito possantes soldados do regimento velho disfarçados em maltrapilhos e escondidos no bosque, esperavam a família de Jerônimo.

O plano era simples, ousado, e tão imprudente que só se podia explicar pelos hábitos de impunidade e pela cega e frenética paixão de Alexandre Cardoso: simular-se-ia um ataque de ladrões, começando por alguns tiros dados ao acaso para espantar os cavalos, imediatamente seriam atacadas as cadeirinhas, as senhoras despojadas de jóias, e no meio da desordem, Inês devia ser arrastada para o bosque que estava completamente fora de seu conhecimento e de suas previsões.

O algoz se reservava papel sublime: acudiria intrépido aos tiros, e chegaria ainda a tempo de salvar as vítimas, e de... encontrar Inês no bosque.

Pouco faltou para que completamente se realizasse a malvada trama de Alexandre Cardoso, que entretanto não pudera calcular com uma intervenção, ou com um potente auxílio.

As quatro cadeirinhas seguidas por Jerônimo chegavam ao ponto mais solitário e escabroso do caminho, quando de súbito estrondaram alguns tiros de espingarda; os cavalos espantaram-se, um dos pajens caiu e perdeu os sentidos, o outro foi arrebatado para o lado contrário do bosque pelo animal que cavalgava, o velho negociante ocupado a domar o cavalo achou-se de improviso lançado por terra e preso nos braços de um desconhecido, sem dúvida salteador.

As senhoras foram arrancadas das cadeirinhas, e os escravos carregadores destas, obedecendo a generoso impulso, começaram uma luta desigual, pois que estavam desarmados.

Os gritos desesperados das senhoras despedaçavam o coração de Jerônimo, que rugiu furioso ao ver um dos salteadores tomar em seus braços Inês; mas imediatamente Isidora lançara-se de um salto sobre o roubador ou raptor da bela menina, e disputou-lhe a presa com tanta felicidade, que talvez pelo imprevisto do ataque, conseguiu arrancar-lhe da mão a espada que ele trazia.

O salteador largando no chão Inês desmaiada, arremeteu contra Isidora; mas recuou logo, e soltando um gemido, fugiu.

Manejando a espada com braço varonil Isidora atacou animosa os outros ladrões, e com o concurso dos escravos sustentou breve, mas enraivado combate, ostentando o arrojo e a força de um leão.

O pálido clarão da lua iluminava a cena pavorosa e Jerônimo Lírio testemunhou ansioso durante dois ou três minutos o mais terrível dos episódios desse drama horrendo.

Enquanto os escravos se achavam a braços e atarefados com cinco ladrões, um outro destes, o mais gigantesco, o hércules, armado com um sabre atacava Isidora: era a força contra a agilidade muito constrangida pelos vestidos de mulher; mas ainda assim o leão não se deixava prender; saltando ligeira, Isidora livrava-se dos botes tremendos do hércules, cujo sabre perdia seus golpes neutralizados pela espada hábil da valente amazona; cego de raiva o gigante bradou: – Não é mulher! E desabriu um golpe; Isidora porém o rebateu, e feriu o gigante no rosto.

Seguiu-se um bramido, novo bote, e nova ferida na ilharga do salteador, que cambaleou e caiu.

Ouviu-se então o galopear de cavalos, e o ladrão que continha preso Jerônimo e os outros que combatiam com os escravos, fugiam carregando o companheiro ferido e os quatro restantes protegendo aqueles, e defendendo-se em retirada pelo bosque com evidente prática militar.

Isidora deixou-se então cair sentada. Jerônimo correu a ela: – Está ferida? perguntou.

– Não, respondeu a amazona; estou cansada; o salteador bateu-se bem... deve ser algum soldado...

Alexandre Cardoso e dois oficiais esbarraram os seus cavalos, e olhando o campo do combate, onde estavam estendidos o pajem que caíra do cavalo, e três escravos feridos, pediram informações do caso, dizendo que por ouvir o estrondo de alguns tiros, tinham corrido a prestar socorro.

Jerônimo Lírio relatou de mau modo quanto acontecera, e concluiu, dizendo: – Ainda bem que chegou tarde para defender-nos.

– Ainda bem? – Sim; porque teria chegado tarde demais, se outro defensor e salvador não houvéssemos tido.

O pajem, cujo cavalo desencabrestara, apresentou-se com um grupo de escravos armados. Jerônimo Lírio despediu-se de Alexandre Cardoso e dos dois oficiais, agradecendo e não aceitando o oferecimento de sua companhia até à chácara.

As senhoras embarcaram-se de novo nas cadeirinhas, e o pajem que caíra do cavalo e os escravos feridos foram levados nos braços de alguns dos seus parceiros.

Chegados a casa, Isidora foi de novo interrogada por Jerônimo sobre o seu estado, e a senhora Inês desfez-se em cuidados por ela.

As duas meninas olhavam espantadas para Isidora.

A senhora Inês a contemplava em adoração.

Jerônimo abraçou-a três vezes.

Isidora tinha sido a providência salvadora daquela família.

Quando se acharam sós em seu quarto, as duas meninas conversaram ainda palpitantes e trêmulas de abalo pelo perigo de que haviam escapado.

Irene perguntou: – Viste-a bater-se, Sinhazinha? – Eu não vi coisa alguma; lembra-me que ouvi tiros, que logo depois me agarraram, e não soube mais de mim...

– Os mais bravos cavaleiros devem bater-se como ela se bateu.

– Foi ela então que me salvou? – Sem dúvida e a todos nós e a nosso pai.

– Que mulher extraordinária! – Sinhazinha, tu és feliz! – Por quê? – Porque lsidora não pode ser mulher; é um mancebo e te ama.

Irene adivinhara o segredo de Isidora, que de fato era lindo jovem que se disfarçara com vestido de mulher para escapar ao recrutamento.

Jerônimo compreendera que não era admissível por mais tempo o disfarce depois do admirável combate, e ao despedir-se de Isidora perguntou-lhe: – Trouxe vestido do seu sexo...

– Sim, senhor.

– Pois é preciso trajá-los: a sua bravura e o seu valor tiraram-lhe o direito de fingir-se mulher.

E antes de dormir Jerônimo ainda pensou em Isidora; pois perguntou à senhora Inês: – Não pensas que devemos grande serviço a esse valente mancebo? – Salvou-nos mais que as vidas, salvou a honra de nossas filhas.

– Inês, vou mandar colher informações sobre o caráter e procedimento de Isidoro.

– Para quê? – Se ele for como parece...

– Então?...

– Qual de nossas filhas julgas que devemos dar-lhe em casamento?

– A Nhanhã é a mais velha...

– Mas foi a Sinhazinha que ele precisamente salvou, atacando e ferindo o seu malvado raptor.

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