Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  As Mulheres De Mantilha Joaquim Manuel Macedo - Página 9  Voltar

As Mulheres de Mantilha

Joaquim Manuel de Macedo

XLVII

Por mais ativos que fossem os trabalhos da reconstrução da casa de Marcos Fulgêncio ordenada pelo conde da Cunha e à custa do seu bolsinho em cerca de vinte dias estava apenas adiantada, mas ainda um pouco longe

de terminação das obras.

Marcos Fulgêncio e Fernanda estavam morando com sua filha na pequena casa que fora de seu marido, e que ela não quisera deixar, embora muito rica se achasse.

Emiliana limitara-se a mandar limpar a casa e a orná-la com extrema simplicidade; muito recente era a afronta de que fora vítima, e ainda não podia pensar nos gozos de uma vida brilhante que lhe proporcionava a fortuna.

A filha do carpinteiro tinha o coração cheio de ódio, aspirava vingarse do seu algoz; mas devorava em silêncio as lembranças da afronta; porque seu pai ignorava a sua desonra, e ela sabia de quanto era capaz Marcos Fulgêncio, tão pobre como honesto, e tão respeitador dos preceitos da moral e da religião, como zeloso até o extremo da reputação de sua família Emiliana, apesar de viúva e portanto emancipada, tinha medo do furor de Marcos Fulgêncio.

Na noite da serração da velha, às oito horas pouco mais ou menos uma mulher, trajando com elegância, veio bater à porta da casa da Rua do Parto, procurando Marcos Fulgêncio e foi recebida na sala, onde estavam o carpinteiro, Fernanda e a filha viúva.

Emiliana estremeceu, reconhecendo Maria, que oferecendo a mão a Marcos Fulgêncio, disse-lhe: – Sua mulher é uma santa, sua filha uma vítima que se resigna, e só o senhor é forte, e capaz de entender-se comigo.

– Virgem Nossa Senhora! exclamou Fernanda.

Emiliana ficou muda e a tremer.

O carpinteiro disse: – Fale, minha nobre senhora.

– Vou ferir-lhe o coração; tenha porém paciência para ouvir-me até o fim e estou certa de que se entenderá comigo.

O carpinteiro cruzou os braços sobre o peito.

– O senhor tem sido piedosamente enganado por sua mulher e sua filha... – Perdão, minha nobre senhora! mas..

Marcos Fulgêncio queria dizer, porém não disse – não creio; porque viu a perturbação e o susto de Fernanda e de Emiliana.

Maria continuou impávida: – Quando na noite do incêndio da sua casa, o senhor foi levado quase moribundo para a Santa Casa de Misericórdia, sua virtuosa mulher correu em desespero, onde lhe levavam o esposo...

– E Emiliana? – Ficou na casa arrumada da velha perversa, que de surpresa deu a notícia da sua morte à filha infeliz, que soltou um grito e desmaiou...

– E depois?...

– A velha introduziu no quarto onde estava sua filha um oficial militar, e fechou a porta.

– Alexandre Cardoso! bradou Marcos Fulgêncio, levantando-se.

– Ele mesmo, que abusou da inocente que estava desmaiada.

Marcos Fulgêncio agarrou com força nos punhos de Emiliana, obrigando-a a encará-lo e perguntou-lhe com os dentes cerrados: – É verdade? A filha respondeu, gemendo.

– É verdade.

O carpinteiro largou a filha, e furioso, disse à mulher: – Abandonaste Emiliana!...

– E tu que morrias?!!! exclamou Fernanda.

– Sabias que o malvado tentava seduzir nossa filha! – E tu que morrias?!!! repetiu a esposa com veemência.

– Devias deixar-me morrer! disse Marcos Fulgêncio com raiva.

– E tu me deixarias morrer? O carpinteiro voltou-se para Maria e perguntou-lhe: – Que mais?...

– Tenha a bondade de sentar-se, disse sossegadamente Maria.

Marcos Fulgêncio levou as mãos calejadas à fronte, e soltando gemido de leão ferido, sentou-se: Maria prosseguiu com horrível frieza: – Contei-lhe em resumo, a verdadeira história da sua maior desgraça: aquela menina foi vítima inocente, e sua mulher, tão culpada por abandonála, como o senhor foi culpado por cair, lançando golfadas de sangue.

Agora, redigamos: a nódoa que manchou a reputação de sua filha foi lavada pelo casamento com Clélio Írias, de quem a sra Emiliana é hoje viúva, ou se ainda subsiste.

– Subsiste! disse sinistramente Marcos Fulgêncio.

– Ou se ainda subsiste, somente pode lavar-se de todo por meio do casamento com Alexandre Cardoso...

– E tu queres? perguntou rude e asperamente o carpinteiro à filha. Emiliana fez um movimento de horror.

– Em tal caso, disse Maria, sempre inalterável e refletidamente fria; em tal caso, há só um caminho a seguir: é o caminho da vingança.

– Minha nobre senhora, murmurou terrível Marcos Fulgêncio: bemvinda seja! Nós nos entenderemos.

– A senhora é uma tentação que quer deitar a perder meu marido! exclamou Fernanda.

– Silêncio! bradou Marcos.

– Que pretende fazer? perguntou Maria.

– Não se pergunta.

– Ao contrário, pergunta-se; entregue a si mesmo, amanhã Marcos Fulgêncio seria réu de assassinato, ou ainda pior, de tentativa de assassinato, e além de dar público testemunho da desonra da filha, iria pagar na forca o crime perpetrado.

– Que me importa a forca? Deixarei um exemplo de justíssima vingança...

– Que a lei de Deus condena.

O carpinteiro rugiu surdamente.

– Há mais fácil, mais segura, mais dolorosa e não pecável vingança, disse Maria.

– Qual? – Amanhã vá falar ao vice-rei...

– O protetor do monstro?...

– Procure no palácio Germiano, o criado do conde da Cunha, dê-lhe o seu nome, peça uma audiência particular do vice-rei, e apresente a este a sua queixa, Vá, ou de manhã, às sete horas, ou à tarde, às cinco.

– E o vice-rei mandará levantar um sobrado sobre a pobre casa que fez construir para o carpinteiro! disse com ironia pungente Marcos Fulgêncio.

– Espere oito dias, pelo castigo do criminoso.

– E se no fim de oito dias o criminoso ostentar ainda a sua impunidade, e em vez de receber a punição merecida, mandar-me prender e condenar-me aos trabalhos públicos? – Dada essa hipótese, há só dois recursos.

– Quais? – Ou submissão de escravo ao poder que abusa e provoca...

O carpinteiro bateu raivoso com o pé.

– Ou começar a vingança pelo vice-rei.

– Misericórdia! bradou Fernanda.

– Ela tem razão, disse Emiliana; se o vice-rei não fizer justiça, haverá não um, porém dois criminosos, e dos dois o primeiro será o vice-rei.

– Ainda bem! exclamou Marcos Fulgêncio.

– Estamos, pois, entendidos? perguntou Maria. – Estamos, disse o carpinteiro.

– Ainda não, tornou Emiliana.

– Por quê? – Porque não é meu pai, sou eu que devo ir pedir justiça ao vice-rei.

– É assim, disse Maria.

– Meu pai me acompanhará ao palácio, e serei eu quem pedirá audiência ao vice-rei.

– Até que enfim! tornou Maria.

– E se o conde da Cunha ainda, por oito dias, deixar impune o seu ajudante oficial-de-sala, justiça seja feita por meu pai, pois que não temos governo que no-la faça.

Maria sorriu-se e disse: – Não há de ser preciso.

XLVIII

O conde da Cunha era madrugador, e especialmente no verão,

preferia trabalhar nas horas frescas que precedem ao intenso calor tropical.

Sentado à mesa, o vice-rei examinava diversos papéis relativos à administração da grande colônia, e muito atentamente o alistamento dos habitantes da capitania, a que mandara proceder, e que da cidade e de algumas vilas já tinha chegado sem dúvida muito incompletamente executado; causava-lhe estranheza e pena o número extraordinário de jovens solteiros de ambos os sexos, e maldizia de um fato que, embora aproveitasse bastante ao exército, era evidentemente nocivo à moralidade e ao progresso da colônia, dependente do aumento da população.

O vice-rei meditou por muito tempo sobre o assunto, e enfim, parecendo ter assentado em alguma providência, passou a ler outros papéis, encrespou a fronte, encontrando as nomeações dos comandantes e oficiais do novo terço, propostas por Alexandre Cardoso, e traçando com a pena os nomes dos candidatos, escreveu em nota: “proponha outros”.

Interrompendo o trabalho para almoçar, voltava de novo a ele, quando Germiano lhe apareceu.

O Conde da Cunha olhou para o mudo, que estendendo o braço, apontou com o dedo para o lado da entrada do palácio, e aproximando-se, entregou-lhe uma folha de papel.

O vice-rei leu: “a viúva de Clélio Írias”.

– Clélio Írias! O velho usurário que morreu? O mudo fez sinal afirmativo.

– Faze-a entrar para aqui.

Germiano tinha regalias excepcionais no palácio, e todos respeitavam nele o cão fiel e estimado do vice-rei.

Daí a pouco Emiliana, trajando pesado luto, entrou conduzida pelo mudo, que imediatamente se retirou.

A jovem e bela menina estava comovida e trêmula; mas havia no seu rosto alguma coisa de enérgica decisão.

– É a viúva de Clélio Írias? perguntou o conde.

– Sou, sr. vice-rei; e sou também a filha do carpinteiro Marcos Fulgêncio.

Ouvindo esse nome, o vice-rei fez um movimento; mas conteve-se logo, e disse friamente: – Pode falar.

– O sr. vice-rei mandou reconstruir à sua custa, a casa de meu pai, devorada pelo incêndio, cuja origem até hoje não se explicou; há, porém, outra desgraça muito maior, de que fomos vítimas nessa noite e que o sr.

vice-rei não pode reparar.

– E qual é?...

– O ultraje feito à minha honra, disse Emiliana, abaixando a voz e a cabeça.

– Se houve crime, não faltará o castigo; mas, onde as provas do crime? – sr. vice-rei, não venho pedir a exposição pública da minha vergonha para alcançar vingança, aviltando-me aos olhos de todos...

– Então que quer? – O sr. vice-rei é juiz e é pai do povo que governa, eu não requeiro ao juiz, queixo-me ao pai.

O conde sentiu a delicadeza da observação e reconheceu que lhe falava uma jovem, que recebera alguma educação.

– Quem foi o seu ofensor? perguntou.

– Um homem que se cobre com o nome e com a proteção do sr. vicerei.

– O seu nome? – Alexandre Cardoso.

O conde já esperava ouvir esse nome, e por isso não mostrou abalo, nem surpresa.

– Conte-me a história do seu infortúnio, disse ele.

Emiliana fez um supremo esforço para dominar o pejo que lhe peava a língua, e com os olhos no chão, começou a falar.

O vice-rei escutava a história de que sabia metade; havia, porém, nela, um ponto obscuro e duvidoso que desejava esclarecer: se Emiliana fora vítima da violência, ou cúmplice seduzida, ou especuladora enganada.

Pouco a pouco a inocência e a verdade de Emiliana foram entrando na alma do vice-rei.

Mas, enquanto o conde da Cunha ouvia com interesse animador a filha do carpinteiro, uma cena violenta se passava no saguão do palácio.

Alexandre Cardoso chegou; e, ao entrar no saguão, esbarrou com Marcos Fulgêncio, que, passeando, esperava Emiliana.

O ajudante oficial-de-sala estremeceu, supondo que o carpinteiro vinha falar ao vice-rei, e dirigiu-se a ele com fingida amabilidade: – Marcos Fulgêncio! Estimo ver-te; a tua casa estará acabada dentro de quinze dias, e...

Alexandre Cardoso estacou, vendo os traços descompostos do rosto de Marcos.

As naturezas nobres, generosas e rudes não sabem fingir: o carpinteiro olhava Alexandre Cardoso com raiva ameaçadora, e no convulsar dos lábios, mostrava-lhe alvejantes os dentes cerrados.

– Que tens, Marcos Fulgêncio? Que aspecto feroz é esse? perguntou o soberbo oficial, sorrindo com desprezo.

– Siga o seu caminho! murmurou rouca e sinistramente o carpinteiro, tendo já a cabeça perdida.

Alexandre Cardoso voltou-lhe as costas, e disse aos soldados da guarda: – Ponham fora daqui esse doido.

Como se realmente houvesse endoidecido o carpinteiro rugiu terrível, e atirou-se furioso sobre o seu inimigo; mas numerosos braços o agarraram e travou-se luta desigual, em que o carpinteiro contra os soldados, um contra vinte, desesperado se debatia.

O ruído chegou aos ouvidos do vice-rei, que mandou saber o que havia, e Alexandre Cardoso, correndo a informá-lo, recuou como espavorido, encontrando o conde em companhia de Emiliana.

Simulando não ter percebido o espanto do seu ajudante oficial-desala, o conde perguntou-lhe: – Que há lá embaixo?...

Alexandre Cardoso dominara-se logo, e respondeu, adivinhando e arrostando toda a situação.

– Senhor vice-rei, lá embaixo o pai desta moça insultou-me, e ousou ameaçar-me; cá em cima esta mulher me caluniava sem dúvida.

– Como o sabe? – No empenho de hostilizar-me, odientos inimigos, explorando a perversão de uma aventura, fizeram dela o seu instrumento, e ela e eles convenceram o mais estúpido dos pais de que eu fui sedutor de sua filha...

Emiliana, tomada de horror, olhou para o conde da Cunha e não ousou falar.

– Era o que eu estava pensando! exclamou o vice-rei; e com intrigas semelhantes me tomam o tempo, e perturbam o espírito! Que destino deu ao pai desta desgraçada? – Vou mandá-lo recolher à cadeia, se o sr. vice-rei não ordenar o contrário...

– Estou hoje de bom humor; dormi bem e almocei ainda melhor: haja perdão! A esta moça, basta a sua vergonha, ao pai, a sua loucura; faça entregar a filha ao pai, e que ambos nos deixem tranqüilos.

O ajudante oficial-de-sala curvou-se respeitosamente.

Emiliana, profundamente ressentida, fez uma simples vênia ao vicerei, e saiu abrasada em cólera.

Marcos Fulgêncio estava subjugado no saguão do palácio; mas, em obediência às ordens do vice-rei, foi solto, e acompanhou Emiliana de volta para casa.

– Disseste tudo ao vice-rei? – Tudo.

– E então? – Justiça seja feita contra o vice-rei, que é o primeiro criminoso.

XLIX

Durante dois dias, que se passaram depois da noite da serração da velha, a população da cidade do Rio de Janeiro só se ocupou de dois assuntos: do atentado contra a família de Jerônimo Lírio, e do encontro de Alexandre Cardoso com o carpinteiro Marcos Fulgêncio no saguão do palácio; a audiência dada pelo vice-rei a Emiliana foi geralmente sabida, e os fatos, comentados e exagerados, tomaram proporções romanescas, mas em todas ou em quase todas as diversas relações, o ajudante oficial-de-sala

era gravemente comprometido.

Assim nas mil histórias do acontecimento do caminho da Gamboa, a parte que tomara na luta o jovem Isidoro, que trajava vestidos feminis, abria espaço a contos de imaginação; corria, porém, como certo que o atentado tinha por exclusivo fim o rapto da menina Inês, determinado por Alexandre Cardoso; relativamente à filha do carpinteiro, contavam-se diversos romances, a começar da noite do incêndio, e cujos últimos capítulos se desenvolviam à custa do casamento do velho usurário Clélio Írias com a pobre Emiliana e da enérgica resolução tomada por esta, de ir pessoalmente dar queixa ao vice-rei contra Alexandre Cardoso; além de outras invenções, pretendiam uns que o conde da Cunha maltratara e despedira com desprezo cruel a pobre moça queixosa; queriam outros que o conde se dispunha a castigar severamente o seu ajudante oficial-de-sala; mas que tendo na mesma ocasião Marcos Fulgêncio esbofeteado no saguão do palácio ao ofensor de sua filha, o vice-rei dera este por suficientemente castigado, e mandara embora a ofendida sem reparação, e o esbofeteador com perfeita impunidade. Havia, enfim, quem assegurasse que esta questão se resolvera, ajustando-se o casamento de Alexandre Cardoso com a viúva de Clélio Írias.

O conde da Cunha tinha mandado chamar Jerônimo Lírio, de quem ouviu por miúdo quanto lhe acontecera, e o verdadeiro motivo do disfarce de Isidoro; garantindo ao negociante a segurança pessoal desse jovem, ordenou-lhe que o trouxesse logo à sua presença.

Isidoro recebeu do vice-rei cumprimentos pela sua intrepidez e valor, e passou em seguida por minucioso interrogatório, sendo até obrigado a declarar quantos golpes de espada supunha ter acertado, e que pontos do corpo dos salteadores, com quem se batera, acreditava ter ferido.

Infelizmente, faltava um objeto que estivera em poder de Isidoro e que talvez pudesse indicar os criminosos: a espada que o jovem arrancara das mãos de um deles, e com que combatera, tinha desaparecido, ficando esquecida no lugar do atentado.

Além destas averiguações, feitas pelo vice-rei, o ajudante oficial-desala mostrava-se muito empenhado na descoberta dos salteadores, e o juiz competente abrira devassa.

Os dias, porém, iam correndo, Alexandre Cardoso continuava a ser ajudante oficial-de-sala, ostentando mais influência e poder do que nunca, e nem Emiliana, nem Jerônimo, nem a moralidade pública recebiam satisfação alguma.

O povo murmurava por toda parte, não era mais Alexandre Cardoso, era o conde da Cunha o mais detestado e recriminado. Dizia-se que tinham sido mandadas para Lisboa as mais graves queixas contra o vice-rei.

Antônio Pires chegava a comprometer-se, manifestando publicamente e com imprudente veemência, as mais acres censuras contra o governo do conde da Cunha.

Os pasquins injuriosos repetiam-se, aparecendo quase todas as manhãs nas paredes das casas, ou largados pelas ruas.

Dir-se-ia que se conspirava uma revolta.

Mais ainda: as senhoras começavam a pronunciar-se; em todas as casas, nos encontros casuais, nas visitas, as mães de família, como as donzelas, maldiziam do vice-rei, que as não protegia contra Alexandre Cardoso e seus sócios, tornados ameaças vivas e impunes que traziam em risco a inocência e a honra das mais recatadas.

Agravava este justo sobressalto do sexo mimoso e fraco, o desgosto proveniente das providências severas, mas bem aconselhadas, que tomara o bispo proibindo certas solenidades religiosas à noite, a conversação com as senhoras, e a corte feita a elas, às portas e nos átrios das igrejas, e alguns costumes ridículos que se misturavam com as cerimônias das procissões, e só serviam para profano divertimento.

Além dessas medidas, que diminuíam as ocasiões de colheitas de tributos de adoração para as senhoras, revoltavam-se estas contra as instituições de casas de recolhimento forçado para muitas esposas e filhas, verdadeiros cárceres em que a vontade dos pais e dos maridos tinham recurso seguro, que servia à sua prepotência.

Realmente a época não era lisonjeira para o belo sexo, que desde

alguns anos, ressentindo e desgostoso, aproveitara então o sentimento geral de reprovação do governo do conde da Cunha, e tomava parte considerável

na oposição de murmurações e de acerbas censuras.

E não se tenha em pouco essa oposição feminil; pode muito a diária e insistente pregação da mãe, da esposa, das filhas e das irmãs, que falam livremente em casa, e que sabem convencer agradando, ameigando ou chorando; e podiam muito as senhoras, que, arriscando-se menos que os homens às perseguições da autoridade, cantavam ao cravo, ou a guitarra e à viola, os lundus e as cantigas com alusões epigramáticas ao conde da Cunha, ao seu ajudante oficial-de-sala, e aos abusos e escândalos que se observavam.

O que além de tudo isto preocupava alguns espíritos, e nenhum explicava, era uma notável modificação nas práticas do governo do conde da Cunha, que sempre suspeitoso e violento, esmagava com pronto castigo e sistemática opressão as mais leves demonstrações de censura ou de reprovação dos seus atos, e que então por tolerância, ou por desprezo, deixava livre curso às queixas do povo, não ordenara prisão alguma, e nem ao menos fizera perseguir algum suspeito de fixar ou espalhar os pasquins, em que aliás era ele o mais injuriado.

Mas nem por essa generosidade o vice-rei era poupado ou ainda por essa ostentação de desprezo do povo murmurador; o povo se mostrava cada dia mais hostil a ele, não lhe perdoando a impunidade de Alexandre Cardoso, que aliás se exaltava com a sua confiança, sendo conservado no cargo de ajudante oficial-de-sala.

Era esta a situação da capital do Brasil-Colônia nos últimos dias da primeira quinzena do mês de março, quando o vice-rei mandou anunciar, solene parada dos regimentos de linha e auxiliares ou de milícia da cidade, para 19 do mesmo mês, ou dia de São José, santo do nome do rei.

Evidentemente a festa não era feita ao bem-aventurado do céu, e sim ao bem-aventurado da terra.

Na manhã seguinte o pasquim disse:

O nosso conde da Cunha Nem do céu respeita a lei; No furor da adulação

Furta do santo para o rei.

Tem razão o vice-rei; A consciência o aterra; Descrê os santos do céu, Agarra-se ao rei da terra.

O conde da Cunha, se leu ou teve conhecimento deste pasquim, desprezou-o, como desprezara outros.

No meio deste pronunciamento de desgosto geral, Jerônimo se conservava silencioso, e esperava: espantava-se da longanimidade46 do conde da Cunha; mas ainda confiava nele.

Velando implacável pela vingança que jurara tomar de Alexandre Cardoso, Maria não se descuidava.

Dois dias depois daquele em que Emiliana falara ao vice-rei, Maria voltou à casa da Rua do Parto, e pediu informações do que se passara na audiência.

Emiliana deu-lhe conta de tudo, acabando por dizer que o conde ouvira com fingida bondade.

– Fingida por quê? – Porque, desde que nos apareceu Alexandre Cardoso, não me atendeu e despediu-me de modo revoltante.

– Ótimo sinal, disse Maria.

– Como? – O conde da Cunha fingiu somente para com Alexandre Cardoso.

Esperemos mais seis dias.

– Mais cinco apenas, que completarão oito, que prometi esperar, disse Marcos Fulgêncio, levantando-se.

– E depois? perguntou Maria.

– Depois?... isso fica por minha conta.

– Que farás, pobre Marcos? – Obra do meu ofício, minha nobre senhora; levantarei uma forca...

para mim.

Fernanda segurou instintivamente, com força, o braço do marido, exclamando: – Santo nome de Jesus!... Nossa Senhora que te livre de tal! – Senhor Marcos Fulgêncio, disse Maria; daqui a cinco dias voltarei; espere-me.

L Alexandre Cardoso afetava aos olhos de todos serenidade e segurança; mas, dentro de si, receava talvez bem próxima a sua desgraça, porque também a ele espantava a cega confiança, com que o vice-rei o amparava contra a animadversão47 geral, apesar da gravidade dos últimos acontecimentos.

Além disso, outras contrariedades o afligiam; o jogo absorvera-lhe quanto dinheiro tinha, e quanto pudera tomar de empréstimo à bolsa dos amigos; a morte de Clélio Írias o privara de uma fonte de recursos, e a

46 No texto: paciência.

47 No texto: censura.

recusa do vice-rei à nomeação dos oficiais para o novo terço o deixava em dificílima e triste posição; por último, a sua infeliz paixão pela menina Inês, o mau resultado de sua criminosa tentativa, na noite da serração da velha,

enchiam-lhe de fel o coração.

Entretanto, o ajudante oficial-de-sala dissimulava as perturbações do seu ânimo; mas, irritado e desejoso de tirar vingança daquele que principalmente fora a causa de haver abortado o seu plano para o rapto de Inês e já perfeitamente informado de quem era Isidoro e do motivo do seu disfarce, determinara persegui-lo a todo transe, e recrutá-lo para soldado.

Não entrava no seu plano a idéia de que Jerônimo Lírio quisesse para seu genro um jovem sem fortuna e sem futuro, como era Isidoro, que somente se recomendava por alguma educação literária e artística, que os frades franciscanos do convento de vila de Santo Antônio de Sá lhe tinham dado, movidos pelo interesse que lhes inspirava a bela inteligência daquele menino.

Alexandre Cardoso compreendeu que não era prudente, depois do que acontecera, fulminar diretamente com os raios da sua vingança o simpático Isidoro; estudara, pois, e calculara uma providência que compreendesse Isidoro pela regra geral, e dirigiu-se ao conde da Cunha com um bando já redigido, em que eram declarados soldados de linha todos quantos até a data do bando eram solteiros e não tinham ofício ativo, ou estabelecimento próprio e conhecido no comércio, indústria e artes, tendo de dezoito a quarenta anos.

O conde da Cunha leu o bando e disse, mostrando-se satisfeito: – Eu também tinha pensado nisto, que aliás já está em prática, pois é principalmente na massa dos solteiros e vadios que fazemos recrutar.

– No bando que escrevi, para oferecer à sábia consideração do sr.

vice-rei, excluo a idéia do recrutamento arbitrário de que muitos se queixam e proponho uma regra que, por ser geral, agradará ao povo.

– Que temos nós com a gritaria do povo?... Guardo o seu bando, e amanhã ou depois lhe darei outro com uma idéia nova que desejo ensaiar.

O ajudante oficial-de-sala curvou-se.

O vice-rei continuou: – Quero que seja esplêndida a grande parada que pessoalmente comandarei no dia do nome del-rei, meu senhor; há muitos dias que não visitamos as fortalezas, e delas se devem retirar, para concorrerem à parada, quantas praças se puderem dispensar em suas guarnições; saiamos, pois: o senhor vá às fortalezas, eu irei aos quartéis e ao meu arsenal.

Alexandre Cardoso tornou a curvar-se e saiu.

Pouco depois o conde da Cunha foi visitar os quartéis, onde se informou do número de praças prontas, do estado das armas e do fardamento.

No regimento novo, os soldados doentes tratavam-se todos no competente hospital e no da Santa Casa de Misericórdia; no regimento velho, três soldados doentes não estavam, como outros, nos hospitais.

O vice-rei quis saber a razão dessa exceção.

O major do regimento respondeu: – Tiveram licença para tratar-se fora.

– E quem os cura?...

– Eu o ignoro, sr. vice-rei.

O conde da Cunha cerrou as sobrancelhas e perguntou: – E onde se tratam? O major estremeceu.

– Também o ignora?...Quero sabê-lo.

– Um desses soldados doentes é casado e tanto ele como os dois camaradas, de quem é parente ou amigo, são tratados em casa.

– E onde é essa casa? – Sr. vice-rei, eu não estava preparado para...

– Devia estar! bradou o conde da Cunha; e se não está, prepare-se já para responder-me; dou-lhe dez minutos.

E o vice-rei tirou o relógio e marcou, em alta voz, a hora que era.

O major, trêmulo e assustado, foi para o interior do quartel e, no fim de três minutos, voltou apressado.

– Preparou-se? perguntou o vice-rei com ironia terrível.

O major disse, a gaguejar de medo: – A casa é no morro do Desterro, um pouco acima do convento de Santa Teresa... à beira do caminho e à mão esquerda de quem sobe...

O vice-rei voltou as costas ao major e disse aos oficiais que à distância respeitosa se achavam reunidos: – O tenente-coronel Alexandre Cardoso, obrigado a desempenhar os deveres de meu ajudante oficial-de-sala, tinha o direito de ser mais zelosamente servido pelos seus subordinados no comando do regimento velho; hei de dizer-lhe o que observei aqui, e basta-me isso. O tenentecoronel ainda não mentiu à minha confiança.

E o velho conde da Cunha montou a cavalo, dirigiu-se ao arsenal, onde se demorou até à hora do jantar.

De volta ao palácio, e recolhido ao seu gabinete, consultou apontamentos que tomara, interrogando Isidoro, e leu para si: “penso que feri no ombro o salteador que tentava raptar a menina Inês; com certeza feri no rosto e na ilharga outro salteador, de alta estatura e força descomunal, que esteve a ponto de matar-me; não feri nenhum outro”.

O conde da Cunha abriu uma gaveta de segredo e dela tirou uma carta; era ainda um novo relatório semanal da vida e proezas de Alexandre Cardoso, que ele leu ainda para si: “o mandatário do atentado foi Alexandre Cardoso, o fim era o rapto da menina Inês, filha de Jerônimo Lírio; os instrumentos foram soldados do regimento velho, alguns dos quais foram feridos, e estão sendo tratados fora do quartel; ainda não sei onde, e menos o sabe o vice-rei, que faz garbo de tudo ignorar”.

O conde da Cunha mandou chamar Germiano, que não tardou a apresentar-se. O vice-rei lhe disse: – No morro do Desterro, um pouco acima do convento, à beira do caminho, à mão esquerda, de quem o sobe, há uma casa, onde estão em tratamento três doentes, soldados do regimento velho; preciso saber que moléstias sofrem eles, e se estão feridos, como me informam, em que regiões ou pontos do corpo receberam feridas. Vai-te: tens dois dias para desempenhar esta comissão.

O mudo sorriu-se, fez sua vênia e deixou o vice-rei.

Germiano, que sabia tudo quanto se passava e se murmurava na cidade, compreendeu perfeitamente o empenho do vice-rei, e, por amor deste, sendo inimigo de Alexandre Cardoso, esmerou-se em executar prontamente as ordens do seu idolatrado amo: jantou e bebeu em vez de uma, como tinha por costume, três garrafas de vinho ao jantar.

O mudo sabia a sua conta: uma garrafa de vinho era apenas o excitante normal da digestão, duas davam-lhe alegria, três o levavam ao estado duvidoso que precede a embriaguez; quatro tiravam-lhe a consciência.

Germiano bebeu, pois, três garrafas de vinho e saiu a passear; tomou a direção do morro do Desterro e começou a subi-lo, passou além do convento e, reconhecendo, pelas indicações, a casa que procurava, parou diante dela, introduziu na garganta dois dedos para provocar um vômito e desde que conseguiu esse indício da embriaguez, que pretendia simular, deixou-se cair contra a porta da casa e, estirado no chão, pôs-se a gemer pungentemente.

A porta da casa abriu-se, e uma mulher e um soldado, que trazia um lenço atado à cabeça, apareceram.

A mulher disse: – É um bêbedo.

O soldado curvou-se um pouco, examinando o rosto de Germiano, e exclamou: – E o cão do vice-rei, é o patife do mundo, que hoje bebeu pelo menos um garrafão de vinho! – Manda esse maroto para a porta do convento, disse outra voz, que partia do interior da casa.

– Era preciso que o borracho tivesse pernas; aqui não há que hesitar: ou atirar com o cão do vice-rei pela escarpa do morro abaixo, levando a cabeça quebrada e sem miolos, ou recolhê-lo e tratá-lo como amigo; este biltre é cão capaz de morder, e ao cão bravo, ou compra-se a fidelidade, ou mata-se de uma vez.

Isto dizia da porta o soldado que, entrando e conferenciando com os camaradas, voltou com a mulher e ambos carregaram para dentro Germiano, a quem estenderam em uma esteira velha.

O mudo dormiu ou fingiu dormir longas horas, até que, despertando e sentando-se na esteira, olhou espantado em torno de si.

– Estás em casa de amigos, Germiano, disse-lhe o soldado que trazia o lenço à cabeça; tomaste solene bebedeira, como às vezes nos acontece, e o senhor vice-rei não ficará mal contigo por isso.

Germiano pôs-se a custo de joelhos e levou um dedo à boca, pedindo segredo do excesso de vinho que o levara à embriaguez.

– Um dia não são dias, e uma mão lava a outra: tu te embebedaste por exceção e nós te socorremos; toma nota disto, e olha bem para nós a fim de que, lembrando as caras, não esqueças a gratidão.

O mudo tornou a deitar-se e adormeceu.

Só no dia seguinte, pelas dez horas da manhã, Germiano entrou, no palácio; mas apenas entrou, foi direito ao gabinete particular do vice-rei.

– Já sabes tudo? perguntou-lhe o conde.

O mudo fez sinal afirmativo.

– Os soldados estão feridos?.

Igual resposta deu Germiano, acenando com a cabeça.

– Quantos são? O mudo mostrou três dedos.

– São três, muito bem; e o primeiro, onde foi ferido? O mudo pôs a mão na cabeça.

– O segundo? O mudo mostrou o ombro direito.

– Ah! no ombro? Isso mesmo.

– E o terceiro? O mudo apontou o rosto, e depois a ilharga.

– No rosto e na ilharga?... tal e qual! E esse ferido no rosto e na ilharga, é de baixa estatura? O mudo fez com a cabeça sinal negativo, e depois encostando-se à parede, levou a mão um palmo acima da sua própria altura.

– Então... um homem gigantesco? O mudo indicou que sim.

– Tudo como me informam! murmurou o vice-rei.

LI

Sem o pensar, o conde da Cunha pôs a cidade em movimento, distraindo-a de suas sombrias apreensões com uma medida sábia e útil, mas

que oferecia margem para gracejos e apreciações divertidas.

Dois dias antes do de São José, a 17 de março, o vice-rei entregou a Alexandre Cardoso o bando48 que escrevera em substituição do outro que o ajudante oficial-de-sala redigira, e ordenou-lhe que o fizesse logo proclamar.

O bando do vice-rei encerrava pensamento absolutamente oposto ao de Alexandre Cardoso, ou pelo menos, muito favorável de isenções do recrutamento; mas o secretário do vice-rei não se animou a fazer objeção alguma, antes, deu-se por feliz, vendo que o conde da Cunha, ocupado seriamente deste assunto, e dando-lhe grande importância, se esquecia da questão dos soldados doentes do regimento velho, cuja averiguação completa bem pudera produzir graves conseqüências.

Assim, pois, no mesmo dia, o bando foi proclamado, e os habitantes da cidade ficaram na inteligência de que o vice-rei, atendendo à desproporção que se notava entre os homens casados e solteiros, sendo exageradamente superior o número destes, e considerando a fartura que havia de vadios onerosos ao Estado e nocivos à sociedade, ordenava que todos os jovens e quantos estivessem na idade varonil, tratassem de casarse em breve prazo, e que aqueles que o não fizessem, assentassem praça nos regimentos de linha.

Esta providência econômico-política, a que não faltava o cunho do poder absoluto e da opressão do governo, se estendia além da cidade, a toda a capitania, e era por certo de considerável proveito futuro; os habitantes de Sebastianópolis, porém, a consideraram em suas relações com o presente e a receberam em tom brincão.

Houve festa ao bando do vice-rei.

À noite, as famílias amigas saíram a visitar-se; as moças perguntavam umas às outras, quantos pedidos em casamento já haviam recebido; os velhos celibatários, com o direito da sua idade, divertiam-se a empenhar-se por achar noivas, e os jovens solteiros e esquivos ao dever de tomar família, pensavam seriamente no bando do vice-rei.

O que não se mostrou duvidoso, o que se manifestou francamente, foi uma revolução súbita na opinião pública feminina. O belo sexo, que até então e principalmente nos últimos dias, se pronunciara vivamente adverso ao conde da Cunha, mudou de parecer e encareceu-lhe a sabedoria do governo; as jovens solteiras, com particularidade, entusiasmaram-se pelo velho vice-rei.

Na primeira e nas seguintes, às mesas de ceias de alegres companhias, as senhoras faziam dez vezes a saúde do conde da Cunha, e elas tinham razão, porque em dois dias, mais de vinte meninas pobres já tinham noivos muito empenhados em apressar seus casamentos.

Na casa de Maria de... também se festejava o bando do vice-rei e na noite da véspera do dia de São José, reunira-se no círculo folgazão e não

48 Anúncio público. Proclamação.

pouco leviano da famosa cortesã.

Alexandre Cardoso e Gonçalo Pereira não tinham faltado; mas o primeiro caía às vezes em irresistível meditação e o segundo mal disfarçava a sua tristeza.

A razão das reflexões de um e da tristeza do outro provinha das intrigas da odienta e vingativa mulher.

Gonçalo Pereira tinha nesse dia almoçado com a cortesã e acabado o almoço, recomeçou entre ambos a luta que desde muito se travava, e que punha no ânimo do oficial a paixão mais ardente em violento combate contra o melindre e a honra.

Maria reclamava, mais que nunca, o concurso de Gonçalo para perder de uma vez Alexandre Cardoso, e exigia que ele se prestasse a dar ao vice-rei testemunho de fatos criminosos ou escandalosos que vira o ajudante oficial-de-sala cometer.

Gonçalo revoltou-se e perguntou colérico: – Queres, pois, que, além da ignomínia de espião, me caiba ainda a vergonha de denunciante? – Quem fala em denúncia? disse Maria.

– Que exiges então? – Que se fores chamado e interrogado pelo vice-rei, lhe digas a verdade.

– Oh! e quem denunciará Alexandre Cardoso? – Eu.

– Maria! Serias capaz?. .

– Eu sou pomba e tigre.

E confiou ao amante a história dos relatórios semanais, que mandava ao conde da Cunha.

Gonçalo pôde apenas dizer: – Terrível mulher! – Vou apelar para o teu testemunho na carta anônima, que o vice-rei há de receber amanhã, à noite.

– E eu negarei os fatos, embora minta! exclamou o oficial.

Maria empregou todas as suas graças e fascinações para dominar Gonçalo, que pela primeira vez resistiu ao poder da fada maléfica.

A cortesã revoltou-se contra a resistência invencível do amante, e, entrando em furor, disse-lhe: – Não preciso dos teus serviços...sei tudo quanto desejo sobre Alexandre Cardoso... e não és tu que mo dizes desde muitos dias...

– Ainda bem! – Não o sabes, ou não me disseste e eu sei que foi Alexandre Cardoso quem mandou atacar no caminho da Gamboa, a família de Jerônimo Lírio...

– É impossível! Semelhante crime...

– Eu sei e o vice-rei também já sabe todas as circunstâncias do

atentado.

E Maria referiu por miúdo o ataque, o combate, os ferimentos dos soldados, cujo tratamento se fazia fora do quartel.

– E quem foi o traidor que te informou tão circunstanciadamente? Porque foi um traidor, um cúmplice que viu tudo... Quem foi?...

Maria desatou numa risada de escárnio.

– Hás de dizer-mo! exclamou Gonçalo abrasado em furioso ciúme: hás de dizer-mo! Semelhante traição só podias comprar com a moeda, com que me corrompeste! Maria empalideceu; mas disse com firmeza: – Não to direi.

Seguiu-se longa cena de frenético ciúme, até que, de repente, Gonçalo murmurou, raivoso: – O alferes Constâncio Lessa...

Maria empalideceu ainda mais; fingiu, porém, segunda risada de escárnio.

Gonçalo acabava de lembrar-se de haver encontrado, no dia imediato ao do atentado do caminho da Gamboa, o alferes Constâncio Lessa na casa da cortesã, acrescendo que desde algumas semanas concebera suspeitas de relações mais íntimas entre os dois.

Constâncio Lessa era o mais desmoralizado dos oficiais do regimento velho, e sócio e instrumento dos maiores escândalos e perversões de Alexandre Cardoso.

Arrebatado de ciúme e de indignação, Gonçalo tomou o chapéu e deixou Maria, que não menos colérica ficava.

Um longo passeio aplacou o furor do oficial, que resolveu-se a procurar pleno conhecimento dos fatos, cuja suspeita o desorientava.

Foi-lhe fácil encontrar o alferes Constâncio Lessa. a quem convidou para jantar, e ainda mais fácil fazê-lo despejar e beber algumas garrafas de vinho generoso.

Habituado a todos os vícios, Constâncio Lessa embriagava-se muitas vezes.

Gonçalo calculou o efeito das libações e quando viu o alferes mais alegre e mais gárrulo, provocou a questão: – Tu és um bom diabo, disse-lhe; mas às vezes pecas pela língua desenvolta...

– Na eloqüência do vinho, meu tenente; dá-me mais um copo.

E recebeu e virou o copo.

– Então... falo às vezes demais? – E muito; queres uma prova? Escuta: por que havias de confiar o segredo daquela brincadeira do caminho da Gamboa à nossa alegre amiga Maria, que tão ciumenta anda do tenente-coronel?

– É mentira... Eu sei lá dessas coisas?...

– Não podes negá-lo; foi ela mesma que mo confessou...

– Ela?... Vem-me cá com essas.

– Bebamos um copo à saúde daquela condescendente beleza! – Viva Maria! exclamou o alferes Constâncio Lessa, bebendo.

– Eu também amo a Maria, que nem sempre é cruel comigo; mas o diabo me leve, só ela me arranca segredo! – Sim?... Pois que te abres comigo, eu... eu vou abrir-me contigo...

Gonçalo sentiu que a língua de Constâncio Lessa tornava-se pesada, e receou havê-lo feito beber demais.

– Dá-me vinho, disse o alferes.

– Acaba primeiro o que ias dizer e dou-te uma garrafa cheia; então Maria.

– Aquele demônio...é mercadora de amor... por segredos... da vida do tenente-coronel...

– Então ela não mentiu? Contaste-lhe a história da tal brincadeira?...

– Pois se ela disse metade... eu devia dizer tudo...

– Entendo, feliz diabo! Foi favor por favor...

– Ou favores... por favores... tomara eu ter mais que contar... e levo o demo... o tenente-coronel...

– Ora! Que boa vida! Que peças que pregamos ao tenente-coronel! Maria ama-me há quatro meses... E a ti?...

– Há três semanas somente.. . Dás-me mais vinho?...

Gonçalo , ciente da mais cruel verdade, empurrou uma garrafa para Constâncio Lessa, levantou-se e saiu maldizendo da cortesã, que se aviltava ao ponto de vender-se por vingança e corrução, ao mais vil dos homens.

Maria caíra, a seus olhos, na mais profunda abjeção; olhando-a, porém, no fundo do vergonhoso e imundo abismo, o nobre oficial se encontrava a seu lado com a marca da ignomínia pelos abusos de confiança, pelas traições, em que por sua vez incorrera, denunciando à fatal cortesã os abusos e as desenvolturas criminosas de Alexandre Cardoso.

Arrependido e envergonhado das suas fraquezas, Gonçalo, porque era verdadeiramente nobre, experimentava nos remorsos e no mais violento e amesquinhador ciúme, o castigo de sua paixão desvairada.

Duas imagens, a de um homem e a de uma mulher, incessantes se mostravam ao espírito agitado de Gonçalo: Alexandre Cardoso, por ele durante algum tempo traído, e Maria, que atraiçoara a ambos. Procurando escapar a essas lembranças cruéis, o jovem oficial desprezou o alferes Constâncio Lessa, que ficara a beber na mesa, e de novo foi pedir ao passeio, ao ar livre, ao encontro de conhecidos, e à fadiga, o arrefecimento do seu veemente sofrer.

Mas passeava apenas há meia hora, e Gonçalo sentiu que alguém lhe pusera a mão sobre o ombro direito, e achou-se em frente de Alexandre Cardoso.

– Nem me via, tenente!... Que preocupação! – É certo, sr. tenente-coronel.

– Se precisa de um amigo, disponha absolutamente de mim.

Gonçalo corou; preferia um insulto, ao obsequioso oferecimento de Alexandre Cardoso.

– Nada de cerimônias, tenente; ponho à sua disposição o coração, o braço e a bolsa, embora esta não ande muito provida.

Gonçalo levou a mão ao peito, que arfava, e disse, tomando de súbito uma resolução: – Senhor tenente-coronel, far-lhe-ei uma confidência importantíssima, receba-a e guarde-a em segredo, para melhor acautelar-se.

– Pois é de mim que se trata? – Pode ser que de nós ambos; mas, pouco importa o que me é relativo.

– Então, que há? – Há mais de três meses que o atraiçoam e tramam a sua desgraça.

– Eu começava a suspeitá-lo...

– O vice-rei é constante e miudamente informado de todos os seus atos, ainda os mais... melindrosos... e comprometedores...

– E como? – Ele sabe tudo... os episódios que acompanharam o incêndio da casa do carpinteiro... a tentativa de rapto da menina Inês, são-lhe conhecidos, como as suas perdas ao jogo, e quantos fatos podem servir ao seu descrédito...

Alexandre Cardoso desfigurou-se.

– Tem certeza disso, tenente? perguntou com voz alterada.

– Absoluta certeza.

– E o nome do traidor? – Há nomes de traidores.

– Diga-mos todos.

– Não posso fazê-lo; só tenho o direito de dizer-lhe o nome de um.

– Esse ao menos...

– Não me é possível dize-lo já; o sr. tenente-coronel vai a serviço?...

— Não... passeava sem destino...

– Passeemos.

– Tenente, quem me esconde o nome dos traidores, serve a traição.

– Eu dei-lhe o aviso da traição urdida; nomear-lhe os traidores fora tornar-me delator.

– Mas prometeu-me denunciar um...

– Tenho esse direito... passeemos.

Alexandre Cardoso, aturdido pela noticia, não soube mais de si, e ora instando por novos esclarecimentos, ora absorvendo-se em profunda e sombria meditação, deixou-se levar por Gonçalo, que no fim de longa marcha pelo campo do Rosário, parou em um sítio deserto e limpo de árvores, mas cercado de moitas de arbustos.

– Senhor tenente-coronel, disse Gonçalo; o traidor, cujo nome posso declarar, apaixonou-se no correr do ano passado por uma mulher que tinha sido sua amante, e que ferida pelo seu desprezo, pôs por preço ao amor que esse homem lhe pedia, a espionagem dos seus passos, e a traição à sua confiança.

– E o infame...

– O infame?!! exclamou Gonçalo, batendo com a mão nos copos da espada; o infame... louco de paixão... submeteu-se a essa indignidade, e durante alguns meses foi espião de seus atos... e abusou de sua confiança...

– E quem foi esse miserável?...

– O tenente Gonçalo Pereira, que está pronto a dar-lhe satisfação de cavalheiro.

Os dois oficiais desembainharam as espadas, e o combate travou-se logo.

Eram ambos valentes e adestrados; mas Gonçalo Pereira, esgrimidor notável e muito mais hábil que o seu adversário, parecia determinado a cansá-lo, e apenas se defendia.

Alexandre Cardoso, enfurecido, sentiu que Gonçalo lhe poupava a vida; ainda mais se enraiveceu por isso e quando contava ferir de morte o tenente, viu sua espada escapar-lhe da mão e cair a duas braças de distância.

Gonçalo cruzou os braços e ficou imóvel.

– Não aceito a vida! bradou o tenente-coronel.

O tenente apanhou a espada de Alexandre Cardoso, e oferecendo-lha, disse friamente:.

– Comecemos de novo.

– Quero saber o nome da mulher por quem se infamou disse Alexandre Cardoso, sem receber a espada.

– Não lho direi, respondeu Gonçalo.

Rangendo os dentes e espumando de cólera. o tenente-coronel tomou a espada já vencida uma vez e renovou o combate, que por mais de dez minutos se prolongou terrível.

Três vezes Gonçalo deixou de ferir o adversário, que se pusera loucamente a descoberto, três vezes a sua generosidade foi sentida pelo desesperado e cego tenente-coronel; mas, finalmente, ao dar um salto, embaraçou um dos pés nas raízes secas deixadas por antigos arbustos e caiu por terra.

Alexandre Cardoso com a espada ameaçadoramente levantada sobre Gonçalo, bradou: – O nome da mulher...

– Não lho direi, respondeu o tenente, sem alteração de voz.

– Esse nome, ou a morte! – Mate! Alexandre Cardoso recuou dois passos e embainhou a espada, dizendo: – Não posso matá-lo.

E acrescentou: – Vida por vida, Gonçalo pôs-se em pé e com o rosto em flamas de vergonha: – Pois que é assim, disse tristemente, perdoe-me também o mal que lhe fiz.

Alexandre Cardoso ofereceu a mão, que Gonçalo apertou.

LII

O tenente Gonçalo Pereira, instado por Alexandre Cardoso para acompanhá-lo à casa de Maria, não ousou resistir ao convite; a resistência pudera despertar uma de duas suspeitas: ou que ele se arreceava de mostrarse ao lado do ajudante oficial-de-sala, ameaçado pela adversidade, ou que lhe repugnava a casa de Maria, que aliás até então freqüentara, o que

exporia à desconfiança a cortesã a quem devia generosidade.

Era assim que na alegre reunião, Alexandre Cardoso caía às vezes em irresistível meditação, e Gonçalo mal disfarçava a sua tristeza.

– Lundu novo! exclamou uma linda rapariga, levantando-se e tomando a viola.

– Por que não ao cravo? – O cravo é mais nobre, pertence às xácaras49 e às baladas; o lundu é mais plebeu e cabe de direito à viola, que é o instrumento do povo.

– Venha pois o lundu.

A moça cantou:

Graças ao Conde da Cunha, Ao bando casamenteiro, Acham noivos raparigas Sem beleza e sem dinheiro.

Em um mês se acabam As moças solteiras, Os noivos recorrem Às velhas gaiteiras.

49 Canção sentimental, de origem árabe.

Pra muitos que sobram, Soltar vão as freiras, Dos recolhimentos Saem prisioneiras.

E as qu’em vão amavam, E as que lastimavam A sorte, que o feio, cruel celibato Tão mau lhes impunha,

E as moças sem dote, e as velhas e as freiras Que à luz se escondiam, corujas do mato, São hoje devotas e noivas festeiras Do Conde da Cunha.

Como esta, mais cinco ou seis coplas50 cantou a bonita rapariga no

meio de vivos aplausos.

Depondo a viola, disse ela a rir: – Todos me aplaudiram, menos o senhor tenente-coronel, que pensa no dia de amanhã, e o senhor tenente Gonçalo, que está triste, com saudades do dia de ontem! – Não é isso, exclamou Maria; o sr. Alexandre Cardoso e o Sr.

Gonçalo Pereira estão aflitíssimos, porque ambos me pediram em casamento, e a ambos me recusei.

– Querem ver que tivemos medo de assentar praça! disse Alexandre Cardoso.

– Não; mas o vice-rei vai mandar proclamar outro bando, condenando à perda de seus postos os oficiais solteiros que não se casarem prontamente.

– Em tal caso, pedirei a minha demissão.

– Pois, sr. tenente-coronel, apresse-se antes que lha dêem.

Alexandre Cardoso perturbou-se, lembrando-se da confidência de Gonçalo Pereira.

Maria voltou-se para o tenente, e perguntou-lhe: – E o senhor também pretende pedir a sua demissão? Gonçalo ficou com olhos flamejantes a cortesã e disse: – Já dei-a.

Maria corou de leve, sentindo o golpe que recebera; acrescentou, porém, logo: – E como conserva e traz a farda e as divisas? – Estas são as do regimento novo, e foi de oficial de outro corpo que

50 No texto: estrofes.

me demiti.

– Então de qual? – Do regimento dos escravos do vício.

– Ainda bem que a sua presença aqui indica que esta casa não é quartel desse regimento, respondeu Maria, contendo-se.

Alexandre Cardoso começava a prestar atenção.

A cortesã, ferida rudemente em sua vaidade, tornou, dizendo: – Que súbita regeneração! Os arrependidos assim, ou ficam santos, ou bem depressa perdem no caminho da salvação, e só não caem no inferno, quando o diabo lhes fecha a porta.

Gonçalo Pereira guardou silêncio.

Alexandre Cardoso conservava-se pensativo e imóvel na sua cadeira.

– Que insuportável melancolia a destes senhores oficiais! Fazem-nos sono! Creio que estão assustados com a grande parada de amanhã.

E, sempre audaciosa, Maria acrescentou: – Falta-nos aqui o elegante alferes Constâncio Lessa, que nunca sabe o que é tristeza! E falando às senhoras: – Mundo às avessas! Façamos dançar estes cavalheiros, exclamou.

As senhoras levantaram-se alegremente, e Gonçalo Pereira, aproveitando o movimento da companhia, aproximou-se da cortesã, e disse-lhe: – Se quer aqui o alferes Constâncio Lessa, mande buscá-lo à minha casa, onde o deixei em vergonhoso estado de embriaguez, depois que lhe ouvi quanto me convinha saber.

Gonçalo voltava as costas; porém Maria travou-lhe do braço, e respondeu-lhe com impavidez: – Se me tivesse perguntado o que lhe convinha saber, poupar-se-ia a uma ação desleal, e às despesas de um jantar envenenado; porque eu lhe diria... tudo.

E lançou-se ao turbilhão da dança.

Gonçalo Pereira foi debruçar-se à janela.

Alexandre Cardoso esperou alguns minutos, e quando viu a sociedade mais ocupada com a dança, encaminhou-se também para a janela.

– Tenente Gonçalo Pereira! disse-lhe; se não nos tivéssemos batido esta tarde no campo do Rosário, sairíamos agora mesmo daqui para nos batermos.

– Senhor tenente coronel...

– A mulher que me atraiçoa e por quem me traiu, é Maria.

Gonçalo não respondeu.

– É Maria! repetiu Alexandre Cardoso.

O tenente manteve-se mudo.

– É Maria!... tornou com voz surda e ameaçadora o tenente-coronel.

Gonçalo, por única resposta, perguntou: – Quer que saiamos?.

Alexandre Cardoso passou a mão pela fronte e disse: – Não tornaremos a bater-nos... não... essa mulher não é digna de um duelo entre dois cavalheiros... vi bem que suas relações com ela estão quebradas... as minhas, quebro-as hoje... e desde agora...

– Um pouco tarde! murmurou sinistramente Maria, mostrando-se junto dos dois oficiais.

Espantados de tanto e tão afrontoso cinismo, Alexandre Cardoso e Gonçalo Pereira tiveram a mesma idéia para castigar a soberba e impávida cortesã, idéia profundamente insultuosa, material, baixa e repugnante; mas idéia que sem prévio ajuste, ambos puseram em prática ao mesmo tempo, e como se estivessem de acordo.

Os dois oficiais simultaneamente atiraram suas bolsas de ouro aos pés da cortesã e retiraram-se.

LIII

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro despertou festiva no dia 19 de março, acordando ao ribombo das salvas de artilharia das fortalezas

embandeiradas.

A Praça do Carmo ou Largo do Paço estava margeada de imenso povo que ocupava suas quatro faces, olhando e admirando as tropas que se desenvolviam no centro; as janelas do palácio, do convento do Carmo, e das casas particulares, se mostravam armadas, e as últimas atopetadas de senhoras; junto do palácio e perto da porta, onde soberbo cavalo esperava o conde da Cunha, mais compacta era a multidão de curiosos, e encostado à parede tinham muitos mostrado o carpinteiro Marcos Fulgêncio com semblante carregado; o carpinteiro não se fizera acompanhar nem pela esposa, nem pela filha: tinha a um lado uma mulher de mantilha, e do outro um padre velho que lhe eram ou pareciam desconhecidos.

Marcos Fulgêncio trazia uma determinação criminosa e horrível; viera armado de uma pistola, de um punhal, e decidido a assassinar o conde da Cunha, aproveitando os momentos, em que ele montasse a cavalo; deixara em casa Fernanda chorando desesperadamente e Emiliana em violenta agitação nervosa.

Na tarde da véspera Maria tinha ido entender-se com Marcos Fulgêncio; mas debalde o aconselhara a adiar a sua vingança, garantindolhe o próximo castigo de Alexandre Cardoso.

O carpinteiro respondera com aterradora frieza estas únicas palavras sempre repetidas: – O prazo da espera termina hoje: o vice-rei conhece o criminoso, e o deixa impune; amanha hei de matar o vice-rei e, se eu puder escapar, depois de amanha matarei Alexandre Cardoso.

A descrença da justiça pública inspirava a vindita particular e um homem honrado, perdendo a razão pela impunidade do perverso algoz de sua honesta filha, ia ser criminoso de assassinato.

Maria deixara preocupada e aflitíssima o carpinteiro Marcos Fulgêncio, de cujo vingativo empenho fora ela a própria provocadora.

Maria não era celerada, e a idéia de um assassinato a horrorizava; mais ainda além disso, o crime que Marcos Fulgêncio premeditava, devia em todas as hipóteses contrariar as tramas que ela enredava para sacrificar Alexandre Cardoso.

A despeito das instâncias de Maria, e das lágrimas de Fernanda, o carpinteiro fora tomar o seu posto na manhã de 19 de março, e com a mão no peito, onde trazia a pistola, esperava o vice-rei.

Às onze horas da manhã em ponto, o grito da guarda e a continência dos soldados anunciaram a presença do conde da Cunha, que mostrou-se, e avançando para o cavalo, pôs o pé no estribo.

Aclamações gerais saudaram o vice-rei.

E Marcos Fulgêncio fez tal movimento com a mão que trazia ao peito, que rebentou alguns botões da véstia51; mas a mulher de mantilha que estava a seu lado imediatamente lançou-se diante dele, e disse-lhe em voz baixa: – Não quero... não quero... isso! Marcos Fulgêncio recuou um passo e quando reconheceu Maria na mulher de mantilha, já o conde da Cunha estava longe.

– Que pretendia fazer este homem? perguntou o padre que perto se achava.

– Atirar este ramalhete de flores sobre o vice-rei, disse Maria, apresentando um ramalhete ao padre.

– Pois era isso? – E então? o fogoso cavalo em que vai o senhor conde da Cunha poderia espantar-se, e talvez acontecesse algum infortúnio.

O padre voltou-se, e daí a pouco a mulher de mantilha seguia par e passo o carpinteiro que deixara a posição que, para tentar contra a vida do conde da Cunha, havia tomado.

Marcos Fulgêncio seguiu em direção à praia, e quando se achou bastante afastado da multidão para não ser ouvido, voltou-se para Maria e perguntou-lhe irado: – Que tem a senhora com o meu proceder e com o meu destino? – Em todas as hipóteses faria o que fiz; mas nesta, o sangue derramado do vice-rei cairia também sobre a minha cabeça; porque fui eu

51 Gibão. Casaco de couro.

que acendi a sua vingança.

Está bem, senhora, já cumpriu o seu dever; agora deixe-me em paz.

– Não.

O carpinteiro travou do braço de Maria, e com um rir feroz: – Julga-me seu escravo? perguntou.

– A sua mão de ferro me contunde o braço, disse pacificamente a moça.

Marcos Fulgêncio abriu a mão, e voltou os olhos, ouvindo o ruído de uma pisada.

O padre que fora testemunha do que pouco antes se passara, tinha-se aproximado sem ser visto e estava junto do carpinteiro e da mulher de mantilha.

– Marcos Fulgêncio, disse ele; tu precisas de mim, meu irmão.

– Eu, senhor reverendo? – Não era um ramalhete que ias atirar sobre o vice-rei.

O carpinteiro olhou espantado para o padre.

– Conheço-te, meu irmão, continuou o padre; és homem chão e temente a Deus; mas o demônio te persegue sem dúvida e não estás em ti.

– Abençoada seja a intervenção do ministro do Senhor! murmurou Maria.

– Pecador! disse ainda o padre ao carpinteiro; as portas da igreja de São José estão abertas; é Deus que me envia a ti: vem confessar-te e contrito receber o corpo e o sangue de Jesus que te há de salvar.

E tomou pela mão a Marcos Fulgêncio que humilde e absolutamente dominado se deixou conduzir.

Maria respirou, e caminhando apressadamente, desapareceu no seio da multidão.

LIV

A grande parada foi magnífica em relação às condições da cidade do Rio de Janeiro, que até então nunca vira tão belo e festivo aparato militar; a diversidade dos uniformes dos corpos de linha e auxiliares, o elegante fardamento dos oficiais e sobre todos os brilhantismo com que se mostrou o conde da Cunha, encantaram tanto o povo, como a disciplina e precisão que ostentaram na marcha, nas manobras, nas descargas e nas continências os

regimentos e os terços.

Mas a festa não acabou aí: à noite devia haver no teatro representação gratuita, tendo sido os camarotes oferecidos às principais famílias da cidade, os bilhetes de platéia dados em parte aos oficiais militares e em parte deixados ao povo, ou, melhor, àqueles que primeiro se apressassem a toma-los, ou que mais protegidos fossem.

Além da representação teatral e da iluminação geral da cidade, o vice-rei daria grandiosa ceia, para a qual estavam solenemente convidados todos os oficiais dos diversos corpos e muitas famílias nobres, ou notáveis pela posição social ou riqueza de seus chefes.

Como é sabido, o teatro era então na casa que se chama hoje Tesouraria da Casa Imperial e que olha pela frente para o palácio, pela face direita para o mar, e pela face esquerda para a antiga cadeia, e desde 1823 Paço da Constituinte e da Câmara dos Deputados.

Bem que esse teatro estivesse a quatro braças do palácio, o vice-rei, que não devia tocar com os seus pés o chão que todos pisavam, foi para ele de carruagem, sendo saudado com entusiasmo pelos espectadores que enchiam os camarotes e a platéia.

Na platéia ostentavam-se as fardas; nos camarotes o riquíssimo e pesado luxo dos ornamentos das senhoras, cujos vestidos e sapatos de saltos eram bordados de prata ou de ouro, e nos homens as casacas de veludo, jalecos de cetim também bordados de prata ou ouro e contendo um relógio em cada bolso, dois relógios, pois, presos por cadeias de ouro, que tais eram as modas usadas pelos ricos senhores.

O conde da Cunha sorriu-se levemente, contemplando a esplêndida assembléia, e pareceu satisfeito de encontrar em um dos camarotes Jerônimo Lírio com a mulher e as filhas, tendo ainda a seu lado o velho Antônio Pires e o jovem Isidoro, trajando com a mais perfeita elegância; turvou-se porém um pouco, notando em um dos camarotes, último obséquio que Alexandre Cardoso fizera três dias antes, a muito conhecida e, embora, formosa cortesã Maria de...

Deslumbrante de beleza, esmeradamente vestida, e trazendo em jóias uma riqueza afrontosa, Maria era como um sol a radiar naquela noite.

Causava pena a lembrança da vida licenciosa daquela mulher verdadeiramente encantadora! Só a virtude devia ser bela assim. O vice-rei, que procurou informar-se de quem partira o oferecimento do camarote à mulher reprovada, mostrou-se indiferente, sabendo a verdade da própria boca de Alexandre Cardoso.

– Eu o desculpo, disse; tratava-se de festa, e não se encontraria flor mais linda.

Representou-se a ópera – Labirinto de Creta – do Judeu, isto é, do poeta fluminense Antônio José da Silva.52 A representação teatral que começara às sete horas terminou às dez e meia da noite.

Às onze horas serviu-se a ceia no palácio: foi ceia de vice-rei, ostentosa, riquíssima, porém comprimida pela etiqueta, e abafada pela gravidade.

A mesa imensa chegara todavia para os convidados, entre os quais se

52 Autor teatral, nascido no Rio de Janeiro em 1705 e morto pela Inquisição em Lisboa em 1739.

contavam não poucas senhoras.

A família de Jerônimo Lírio, e os dois amigos, Antônio e Isidoro, que a acompanhavam, estavam presentes.

Às onze horas e meia da noite acabou a ceia.

Reunida a sociedade em outra sala, o conde da Cunha dirigiu-se a Jerônimo Lírio, mostrou-lhe um cravo, e perguntou-lhe se Isidoro quereria prestar-se a cantar.

O desejo do vice-rei era um decreto.

Isidoro cantou; mas delicado e conveniente escolheu para executar música apropriada à cerimoniosa festa.

Desejoso de obsequiar o conde da Cunha, e um pouco vaidoso do merecimento de suas filhas, Jerônimo ofereceu fazê-las ouvir.

Irene cantou melancólica e suavemente a mais terna das suas modinhas.

Inês, ignorante de etiquetas, sem a inspiração das conveniências de uma festa oficial, sem que a tivessem prevenido do que lhe cumpria fazer, escolheu para cantar o que melhor sabia, e com que mais gabos ganhava: cantou o mais engraçado dos lundus.

– Se a - modinha - fora mal cabida, o lundu era inteiramente fora de propósito.

Jerônimo Lírio arrependia-se do estouvamento da sua vaidade de pai e olhava severo para a menina Inês, que só via Isidoro.

Mas a inocência, a graça e a beleza de uma jovem têm privilégios quase ilimitados.

O lundu cantado por Inês foi revolta feliz contra a etiqueta.

O vice-rei pôs-se a rir, a assembléia a aplaudir, e a cantora animada pelos aplausos, redobrou de graça e de sainete, e deixou o cravo no meio de uma revolução de alegria, em que o conde da Cunha não era o menos revoltoso.

Mas nesse momento o sino de São Bento anunciou meia-noite.

– Meia-noite! disse o vice-rei com voz forte e severa.

Toda a sociedade se conteve e guardou silêncio respeitoso.

O conde de Cunha em pé no meio da sala continuou, falando grave e solenemente: – Começa o novo dia; o de ontem foi de festa e devoção ao santo do céu, e ao nome abençoado de el-rei meu senhor; o de hoje, que principia agora, não é mais de festas, nem de folguedos; é de justiça, e de castigo aos culpados.

A companhia enregelara-se e tremia diante do despótico vice-rei que falava assim.

– Senhor tenente-coronel do regimento novo! bradou sinistro o conde da Cunha, chamando.

O tenente-coronel confuso e perturbado aproximou-se do vice-rei que lhe falou em voz baixa, e quando acabou de ouvi-lo, avançou triste e compungidamente para o ajudante oficial-de-sala, e diante de toda a assembléia surpresa, disse-lhe: – Senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso de Meneses, entregueme a sua espada! Está preso por ordem do senhor vice-rei conde da Cunha.

Alexandre Cardoso trêmulo e lívido desembainhou a espada, entregou-a ao tenente-coronel do regimento novo, e perguntou: – Posso saber para onde vou ser conduzido?...

– Para a fortaleza de Santa Cruz e incomunicável até segunda ordem.

– E o meu crime?...

O vice-rei deu um passo para aquele que desde esse momento deixava de ser o seu ajudante oficial-de-sala, e disse: – É um acervo de crimes.

O preso não respondeu; mas simulando força de ânimo que realmente lhe faltava, porque a própria consciência o acusava, saiu com a fronte erguida, acompanhando o tenente-coronel do regimento novo que o conduzia desautorado à prisão.

A assembléia ficara tomada de surpresa.

Quando Alexandre Cardoso desapareceu, o conde da Cunha exclamou: – Creio que a cidade continuará em festa no dia que vai amanhecer! Logo depois e a um sinal de despedida feito pelo vice-rei, as famílias e os oficiais se foram retirando sem descuidar-se da profunda vênia a ele devida.

A Jerônimo Lírio tinha o conde ordenado que se demorasse, e quando haviam saído todos os convidados, perguntou-lhe: – Está satisfeito? Jerônimo respondeu: – Não desejo mal a alguém; mas o senhor vice-rei fez justiça.

– Saiba pois que esta ceia foi dada de propósito para que muitos e com especialidade o senhor Jerônimo Lírio fossem testemunhas da prisão solene de Alexandre Cardoso, porque a todos, porém muito especialmente ao senhor, o vice-rei devia uma satisfação pública.

– Ah, senhor vice-rei! – Eu tentei precipitá-lo a fazer a desgraça de sua filha mais moça, pedindo-lha em casamento para esse homem indigno, e ainda bem que o senhor ma negou; mas juro-lhe que não conhecia nem o caráter, e menos os crimes do meu fatal ajudante oficial-de-sala! – Eu e minha família somos escravos da bondade do senhor vice-rei.

– Pois bem; dê-me uma prova disso: peça-me um serviço, um favor que esteja nas minhas faculdades satisfazer.

Jerônimo animou-se e disse: – Peço ao senhor vice-rei o cumprimento de uma promessa que será para nós a honra mais elevada.

– Qual é? – Que o senhor vice-rei se digne ser padrinho do casamento de minha filha Inês com este mancebo.

E mostrou Isidoro.

– Oh! com o nosso bravo cavalheiro! Perfeitamente: serei o padrinho do casamento.

Saindo do palácio e no ato de embarcarem as senhoras nas cadeirinhas, Jerônimo perguntou a Antônio Pires: – Então que dizes agora do vice-rei? – Digo que ele acordou muito tarde; Deus pode perdoar-lhe; a justiça do rei não.

CONCLUSÃO

A desgraça de Alexandre Cardoso foi geralmente recebida como

justo castigo.

O infeliz desmoralizado oficial devia consolar-se porque a sua punição se limitou a seguir para Lisboa, onde aliás acabou seus dias na maior e na mais tormentosa miséria.

O povo não perdoou o conde da Cunha o não ter castigado exemplarmente no Rio de Janeiro a Alexandre Cardoso, e a memória do governo opressor e despótico desse vice-rei ficou marcada com o selo da reprovação pública.

O grande ministro do rei d. José I, o marquês de Pombal, deixou também entender que o governo de Lisboa igualmente condenara a administração do conde da Cunha; porquanto o conde de Azambuja chegou para substituí-lo no vice-reinado do Brasil, inesperadamente, sem ter havido prevenção alguma, e surpreendendo o vice-rei demitido de modo bem desagradável.

A 21 de novembro de 1767, entregou o conde da Cunha ao de Azambuja o vice-reinado do Brasil, e poucos dias depois seguiu para Portugal.

Maria de... esqueceu depressa os gozos sinistros da sua vingança de vaidosa no empenho de novas conquistas e nos braços de novos amantes, entre os quais a tradição não diz que contasse algum outro ajudante oficialde- sala do vice-rei.

O vice-reinado do velho conde de Azambuja durou apenas dois anos incompletos, sucedendo-lhe o marquês de Lavradio que era muito sensível aos encantos do belo sexo, e ardentemente se apaixonou por Maria de...

Mais tarde me empenharei em escrever a história ou o romance desses amores do vice-rei marquês do Lavradio e da formosa cortesã.

Fim do volume II

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

voltar 123456789avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal