INTRODUÇÃO
Os quatro anos que correram de 1763 a 1767 não foram por certo dos mais suaves e agradáveis para os habitantes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, embora muito ufanos e orgulhosos devessem eles estar em conseqüência da definitiva mudança da capital do Brasil que passara da primogênita de Cabral para a bela filha de Mem de Sá, assumindo com caráter de permanência o chefe da grande colônia portuguesa da América a
graduação e hierarquia de vice-rei.Mas o primeiro vice-rei que d. José ou por ele o marquês de Pombal despachou para o Rio de Janeiro, e que governou o Brasil desde 16 de outubro de 1763 até 21 de novembro de 1767, foi d. Antônio Álvares da Cunha, conde do mesmo título, homem talvez animado de boas intenções, porém tão facilmente irritável como violento e déspota.
Não é da nossa conta o que fez o conde da Cunha em Mazagão e Angola que também governara; no Rio de Janeiro porém deixou ingrata e turva memória pelos desabrimentos e escandalosos abusos da sua administração.
É verdade que lhe podem dar como circunstância atenuante da aspereza e despotismo do seu governo as prevenções bem ou mal fundadas que trouxera contra o corpo do comércio e talvez contra toda a população da nova capital do Brasil.
E precisamente eram os naturais de Portugal habitantes da cidade os mais suspeitos ao vice-rei, que aliás estendia a todos sem exceção o rigor e as violências que, ou provinham do seu gênio, ou adotara por sistema.
Os negociantes estabelecidos no Rio de Janeiro eram todos portugueses, e tendo sofrido grandes prejuízos com a tomada da colônia do Sacramento pelos espanhóis em 1762, vingaram-se no governador geral conde de Bobadela, atando-o e flagelando-o no pelourinho da maledicência, e injuriando-o e caluniando-o tão furiosamente em pasquins e cartas anônimas que o brioso Gomes Freire de Andrade apaixonou-se a ponto de adoecer gravemente, vindo a morrer no dia 1º de janeiro de 1763.
O conde de Bobadela fora muito amado pelos brasileiros e com especialidade pelos fluminenses, a estes porém a lembrança desse amor não serviu de escudo contra os golpes do aspérrimo rigor do vice-rei, que incessante lembrava a morte de Bobadela, e por isso agradava sempre aopressão em que desconfiado tinha o povo.
É provável que também uma sinistra medida tomada pelo governo de Lisboa e executada pelo conde da Cunha concorresse muito para o desgosto profundo que causou a sua administração.
Ou porque se quisesse prevenir o muito descaminho do ouro em pó e em folhetas, ou porque, como parece mais verdadeiro, se resolvesse sob aquele pretexto sacrificar os interesses legítimos dos colonos aos interesses egoístas dos ourives da metrópole, a Carta Régia de 30 de julho de 1766 mandou extinguir o ofício de ourives nas capitanias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, e foi o conde da Cunha o infeliz executor desse assassinato da ourivesaria que principalmente no Rio de Janeiro tinha chegado a um grau de perfeição que excluía o concurso dos produtos respectivos da metrópole.
A Carta Régia de 30 de julho de 1766 era a pobreza para muitos, e a iniqüidade para todos. Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma jóia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal.
O governo de Lisboa sentenciara à morte a ourivesaria do Brasil, e o conde da Cunha era o algoz que enforcava a vítima no patíbulo levantado pelo despotismo.
Ora, em fato de execução de sentença de morte, dos juizes se maldiz, mas do carrasco tem-se horror.
Ao conde da Cunha sobreveio quase no fim do seu governo essa infelicidade.
Mas uma outra ainda maior o perseguiria desde 1763.
Era opinião corrente e averiguada que muitas vezes e em muitos casos a bolsa aberta em segredo poupava vexames e até iludia a justiça do vice-rei.
Escândalo tão revoltante ajuntava-se à experiência de extorsões do fisco sem regra, às crueldades do mais arbitrário e atroz recrutamento, que deixava mães, viúvas e irmãs órfãs ao desamparo, filhos sem pais e esposas sem maridos, os atentados contra a propriedade, e contra a liberdade individual, privando-se em proveito das obras públicas os senhores dos serviços de seus escravos, e coagindo-se homens livres, sob pretexto de que eram vadios, a ir trabalhar nas obras do rei.
Tudo isso se mandava e tudo isso se cumpria com energia tirânica, e sem que houvesse para as vítimas o direito de queixa: porque a queixa era insulto e crime punidos imediatamente e com descomedimento brutal.
E, pior ainda, era ponto incontroverso a impunidade do ajudante oficial-de-sala e dos protegidos do vice-rei que atentavam contra a honra das famílias, desrespeitando a inocência de donzelas, a honestidade de esposas, e o recato de viúvas.
De duas destas acusações o conde da Cunha defendeu-se,dinheiro e depravação por luxúria sobre o ajudante oficial-de-sala, tenentecoronel do regimento velho, que se chamava Alexandre Cardoso de Meneses, e a quem despediu mal recomendado para Lisboa.
Mas a tão infames crimes não bastava esse simples banimento, e a suavidade do castigo dado por quem tão severo com todos se mostrava, não é de grande proveito e de convincente defesa para a memória do conde da Cunha, que aliás foi de improviso, sem que o esperasse, e menos airosamente substituído em novembro de 1767 no vice-reinado do Brasil pelo conde de Azambuja, o que indicia que o marquês de Pombal desagradou-se da sua administração.
Como quer que seja, Alexandre de Meneses, o ajudante oficial-desala, foi a asa-negra do vice-reinado do conde da Cunha.
Como escrevemos sempre e somente para aqueles que sabem tão pouco que ainda sabem menos do que nós, e não para aqueles que nos podem ensinar, vamos, porque isso é preciso, dizer o que era e o que podia naqueles tempos o ajudante oficial-de-sala do vice-rei.
A melhor lição é o exemplo, é dizer o que nos nossos dias e nos nossos costumes corresponde hoje àquele cargo da época colonial.
O exemplo e a explicação saem ingenuamente e sem malícia alguma.
O ajudante oficial-de-sala do vice-rei era então o que é hoje em dia o oficial-de-gabinete do ministro de Estado ou do presidente de província.
Ora, o oficial-de-gabinete é meio ministro e meio presidente de província, e às vezes não é meio, é todo, e sem responsabilidade perante os juízos daqueles de quem está na confiança: era tal e qual assim o ajudante oficial-de-sala do vice-rei.
O mais humilde, e especialmente os mais humildes dos pretendentes do nosso tempo sabem de quantos milagres e de quantos abusos é capaz um oficial-de-gabinete, que sendo hábil toma-se em vez de mão direita do ministro ou presidente de província, cabeça e árbitro do ministro ou presidente de província que for menos hábil que ele.
E dão-se casos em que a ilustração e superiores habilitações do ministro ou do presidente de província cedem à firmeza e à energia do oficial-de-gabinete que ou pela simpatia e confiança que inspira, ou pela influência da idade mais vigorosa, do entusiasmo mais fascinador, ou do prestígio da prática e dos conhecimentos minuciosos da administração, governa, fingindo submeter-se, e, quando lhe convém, abusa impunemente, escondendo-se atrás da pobre e inocente sombra do responsável, cuja confiança explora.
O ajudante oficial-de-sala do vice-rei era pois exatamente como é hoje um oficial-de-gabinete de ministro de Estado, ou de presidente de província.
O conde da Cunha era um déspota; não há porém fundamento para julgar-se que tivesse sido concussionário, nem devasso; era um violento opressor; mas não vendia a justiça, nem atacava a moral das famílias.
Entretanto, Alexandre de Meneses abusava da confiança que merecera do vice-rei, e explorando a importância oficial, alimentava indignamente os instintos da sua ambição, e da sua lascívia.
Gula de ouro, e sede de prazeres sensuais, dois golfões em que se afoga a honra, duas fontes de corrução que infamam os corrutores e os corrompidos.
Os habitantes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estavam pois sofrendo muito: o despotismo cruel do conde da Cunha e o desenfreamento de Alexandre de Meneses, que era imitado por alguns companheiros e protegidos seus, traziam a todos em susto contínuo e em tristes incertezas da vida.
Mas os fluminenses tiveram sempre e tem ainda hoje alguns pontos de semelhança com os franceses: dir-se-ia que estes, tendo sido os primeiros ocupadores do Rio de Janeiro, deixaram nesta parte do Brasil o seu gosto pelo sarcasmo e pela zombaria contra o governo que detestam e que só obrigados toleram.
Antes de se revoltar levam anos a ridicularizar a opressão.
Com o seu rir sarcástico desacreditam, solapam, diluem o poder que hão de mais tarde e oportunamente destruir de todo, e quando não podem destruí-lo, vingam-se ao menos, ferindo-o com as setas do epigrama e da zombaria.
No governo do conde da Cunha os fluminenses sofriam muito e riam-se ainda mais.
Eis aqui uma das cantigas desse tempo, cantiga que devemos à memória de um velho octogenário, fiel herdeiro de recordações que lhe foram legadas.
Não é preciso dizer que de 1763 a 1767 somente em segredo e em sociedade bem retirada e cautelosa se ousava cantar a copia audaciosa que aliás todos sabiam de cor.
Ei-la aí vai:
Um dia o conde da Cunha Em dois seu nome cortou: Do primeiro se enjoou, O segundo nada impunha; Mas o Meneses matreiro Dele fez comprida unha, Furtando o u do primeiro.
À parte o que de menos polido e decoroso se pode adivinhar na
cantiga, aí está a condenação do vice-rei e do seu oficial-de-sala sentenciada, lavrada pelo povo a rir.Salvo o perigo das perseguições, e vinganças tomadas nos parentes, e das seduções impunes com que indignamente se celebrizavam Alexandre de Meneses e seus sócios de perversões, o belo sexo poderia apenas queixar-se da indiferença, com que o tratava o vice-rei conde da Cunha que aliás por fim, e como se há de ver, bem pudera ter sido declarado o benemérito das moças solteiras, mas esposo fiel, recatado e de costumes austeros em relação à família, nem sequer tinha olhos para ver e dizer que havia na capital da colônia algumas ou muitas senhoras bonitas.
Entretanto andava também o belo sexo descontente da situação: primeiro, porque indiretamente as mães, as esposas e as filhas recebiam por contrapancada os golpes que o despotismo desfechava em seus pais, esposos e filhos, segundo, porque o bispo d. fr. Antônio do Desterro inocentemente as contrariava e semeava espinhos na vida de flores a que elas se julgavam com direito incontestável.
Na opinião das senhoras o bispo d. fr. Antônio do Desterro completava o vice-rei conde da Cunha.
Havia injustiça nesse juízo: o vice-rei era déspota; o bispo era severo, e devia sê-lo.
Queixavam-se, murmuravam do bispo por causa do Recolhimento do Parto e do Recolhimento de Itaipu, onde muitas vezes abusiva e cruelmente alguns pais desterravam as filhas, alguns maridos encarceravam as esposas, essas injustas violências porém não estavam na intenção do virtuoso prelado.
Murmuravam ainda do bispo porque ele sabiamente acabara com os penitentes de açoites nas procissões do enterro, como os ajuntamentos de povo e conversações profanas às portas e nos adros das igrejas antes e depois das festas, e com as solenidades religiosas que se celebravam à noite, e de que abusavam os namorados e os libertinos em proveito de seus amores inocentes ou condenáveis.
O fr. Antônio do Desterro, que prestou os mais importantes serviços à sua diocese, foi um bispo modelo na sua época e a severidade de que usou, de grande socorro à moralidade, ao ensino, à santidade do culto, e aos costumes do século.
Não pensavam assim naquele tempo as senhoras ameaçadas pelas casas de severo recolhimento e contrariadas pelas justas providências que obstavam a fácil turibulação1 à sua beleza nos átrios e às portas das igrejas, e nem pensavam assim as moças estouvadas e alguns padres que viviam vida desregrada, que o venerando bispo corrigiu com a mais santa energia.
O bispo d. fr. Antônio do Desterro não podia escapar aos golpes do epigrama e do ridículo que eram as armas de oposição dos desgostosos.
1 Relativo ao turíbulo, vaso onde nas igrejas se queima o incenso.
Esse sábio e honestíssimo prelado, zeloso da moralidade do seu rebanho, fulminara um dia com os raios da sua reprovação as cantigas demasiadamente livres que eram cantadas em companhias pouco discretas, e até recebidas e ouvidas com repreensível tolerância em sociedades
estimáveis.Com efeito, o lundu, a cantiga folgazona, sarcástica, erótica e muito popular, exagerava os seus direitos, e ia às vezes até a licença, ofendendo, arranhando os ouvidos da decência, e contribuindo insensivelmente para a corrução dos costumes.
O bispo d. fr. Antônio do Desterro fulminou o lundu demasiado livre, às vezes até quase obsceno.
A oposição popular reagiu, considerando condenado em absoluto todo e qualquer lundu, e desrespeitosa atacou o bispo com a arma do lundu.
Em toda parte cantou-se com aplauso o seguinte lundu que se compunha de muitas copias, cada qual mais extravagante e zombeteira:
Já não se canta o lundu Que o não quer o senhor bispo: Mas eu já pedi licença Da Bahia ao arcebispo.
E hei de cantar, E hei de dançar, Saracotear,
Com as moças brincar.E impunemente, Cantando o lundu, Ao bispo furente2 Direi uh! uh! uh!
Fr. Antônio do Desterro Quer desterrar a alegria; Mas eu sou patusco velho, E teimarei na folia.
E hei de cantar, E hei de dançar, Saracotear,
Com as moças brincar.E impunemente, Cantando o lundu,
2 Enfurecido.
Ao bispo furente Direi uh! uh! uh!
Era com semelhantes cantigas ou lundus, e muitas vezes com pasquins em verso e prosa que se pregavam à noite nas portas das igrejas, nas paredes das casas, e nos muros, que os desgostosos justa ou injustamente se pronunciavam, visto como não tinham tribuna parlamentar, onde se falasse por eles, nem imprensa, que fosse livre órgão da opinião de
cada um.Estas breves informações que acabamos de escrever dão idéia embora um pouco obscura da situação, costumes, prevenções, antipatias e disposição dos ânimos dos habitantes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro na época em que se vai passar o romance histórico que tomamos sobre nós escrever.
Ainda mesmo durante o carrancudo vice-reinado do conde da Cunha a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha seus dias e suas noites
excepcionais de folgança e de alegria.O bastão despótico do vice-rei ficava suspenso, deixando que os pobres colonos gozassem, algumas vezes por ano, horas de inocentes folguedos consagrados por motivos que eram santos e legitimados pelos costumes, que são leis imperiosas embora não sejam decretadas pelo poder.
Ao governo opressor até importa muito que o povo se entregue a festas e divertimentos; enquanto o povo brinca, não reflete: pueri ludunt.
Uma daquelas noites excepcionais era a de 5 de janeiro, a noite da véspera do dia dos Reis ou das cantatas dos Reis, que aliás se repetiam animadas na noite seguinte.
Filha de uma recordação profundamente religiosa, de uma lição do Evangelho, da visita e das oferendas dos Reis Magos ao berço humilde de Belém, onde acabava de nascer da Virgem imaculada Deus feito homem, Jesus Cristo enfim, esse costume do povo português passara ao brasileiro, e era como um reflexo do júbilo da igreja no regozijo profano, mas puro pela origem, e cheio de enlevos para todos no século passado, para todos ainda por muitos anos no século atual, para muitos ainda agora mesmo nos municípios e nas paróquias do interior, onde se recolhem a último, a extremo asilo, antes de aniquilarem-se completamente as usanças e os costumes rudes porém ricos de poesia característica da vida brasileira no passado.
Deus nos livre de maldizer da civilização: a civilização é Sol; mas o Sol tem manchas; no assunto de que muito de passagem tocamos, a civilização tem europeado demasiadamente o Brasil.
Avivemos um pouco a lembrança da festa profana dos Reis que em
suma era na cidade do Rio de Janeiro como em toda parte do Brasil.A festa popular da noite dos Reis era a que rematava as festas do Natal, que, acompanhando as sagradas comemorações da igreja, começavam na noite de 25 de dezembro pela exposição dos presepes, onde se figurava a cidade de Belém, o lugar humilde do berço do Menino Deus, um campo cheio de pastores e de multidão de animais, árvores, flores, rios, fontes e cascatas, tudo em mais ou menos bem feita miniatura, e tudo perturbado por mais ou menos anacronismos e impropriedades, que aliás não preocupavam nem aos mais entendidos em história natural e na arqueologia.
Os presepes conservavam-se abertos até a terminação das alegres folias dos Reis, e todas as noites eram visitados por multidão de curiosos, e amadores.
Hoje em dia ainda se observam na capital do império e em capitais de províncias fracos arremedos dos antigos presepes.
As cantatas dos Reis se preparavam com esmero e muita antecedência: organizavam-se sociedades êmulas3 umas das outras, como agora para os passeios de carnaval em relação aos homens; combinavam-se alegres mancebos e também velhos folgazões, jovens senhoras estimáveis, de ordinário parentas daqueles, ensaiavam danças alegóricas, quase sempre pastoris, ajustavam suas vozes, tomando de cor a música das cantatas, e enfim na noite de 5 e de 6 de janeiro saIam a obsequiar seus amigos e pessoas de distinção, cantando – os Reis – em suas casas.
Quer estivesse aberta ou não a casa obsequiada, a cantata se entoava na rua e à porta, e começando quase sempre por um infalível:
Acordai, se estais dormindo...
ou algum outro verso com o mesmo pensamento; o dono da casa recebia os visitantes que repetiam a cantata na sala, onde em seguida executavam suas danças; ceias lautas, mesas de banquetes, ou cobertas de doces, se patenteavam aos cantadores dos Reis que assim passavam duas noites em regalada festança. A ninguém se prevenia e todos se preveniam: nas noites dos Reis cada chefe de família tinha mesa pronta para ser oferecida às sociedades obsequiadoras, e mesas que em muitas casas se renovavam com ostentação; pois que os cantadores dos Reis uns aos outros se sucediam, e as pessoas mais distintas se reputavam menos consideradas, se não lhes
entoassem à porta três ou quatro cantatas.Com estas boas sociedades de cantadores dos Reis contrastavam muitas vezes bandas especuladoras dos Reis, que os cantavam, pedindo
3 Rivais.
tributos de favor; ainda no presente século essa exploração se denunciava na quadrinha velha, já antes repetida cem vezes com a mais desgraçada música:
Pedir Reis é do costume E o dar é bizarria; O negar é mofineza, O aceitar é cortesia.
Mas aos próprios pedidores dos Reis não se fechavam as casas, e para eles era certa a colheita de pingues4 presentes que serviam depois para multiplicar os jantares e as folganças dos especuladores da festa, estes porém tinham ao menos a prudência e bom juízo de se afastarem das boas
sociedades que em caso algum consentiriam em reunir-se com eles.E havia casos de reunião das sociedades de cantatas dos Reis.
Na cidade do Rio de Janeiro era quase obrigada, era de costume a reunião dessas sociedades no grande pátio do convento de Nossa Senhora da Ajuda. Ali se terminava a festa, a folia de cada uma das duas noites pelas razões mais justas e convenientes.
Em primeiro lugar essa concentração das sociedades dos Reis no pátio do convento da Ajuda era moda no século passado e a moda é lei; em segundo o presepe do convento da Ajuda passava por ser o mais famoso ou pelo menos um dos mais famosos da cidade, e portanto atraía numerosa concorrência; em terceiro as freiras da Ajuda eram, como ainda hoje o são habilíssimas e delicadas mestras de doces e de empadas, que então não poupavam ao regalo das sociedades, que recebiam os presentes em tabuleiros e bandejas cobertas com riquíssimas toalhas perfumadas; em quarto e último lugar era de costume que o pátio do convento da Ajuda se transformasse nessas noites em outeiro poético; as freiras que estavam às grades davam motes e muitos bons e maus poetas glosavam de improviso.
Por todas estas razões as boas sociedades de cantatas dos Reis se reuniam de acordo no pátio do convento da Ajuda, quando muito além da meia-noite haviam terminado as suas visitas e cantatas de obséquio, e nesse pátio cada uma delas por sua vez entoava seus cantos, e todas em amiga efusão dançavam alegremente.
Às duas horas da madrugada do dia 6 de janeiro de 1766, apinhavase o povo da cidade, que já era capital do Brasil, no pátio do convento da Ajuda. Quatro sociedades de cantatas dos Reis tinham-se encontrado ali, e
4 Abundantes.
estreitado jubilosamente seus laços de fraternidade; todas cantaram por sua vez, e de cada vez houve três a aplaudir a que cantara, e todas quatro se fizeram uma só na execução das suas danças; as freiras batiam palmas, e a multidão de curiosos louvava as sociedades, admirava o presepe, e vitoriava as pobres freiras, que estavam das grades a olhar para o mundo,
de que se achavam perpétua e desumanamente banidas.O concurso imenso ostentava no pátio do convento da Ajuda o que havia de mais nobre ou de mais belo e distinto na população da capital.
Pouparemos aos leitores deste romance a descrição dos calções e dos sapatos com fivelas, e dos grandes jalecos, casacas e cabeleiras com rabicho dos velhos e dos mancebos elegantes da época; relativamente ao belo sexo limitar-nos-emos a dar uma noticia curiosa às nossas leitoras: as damas elegantes daquele tempo vestiam-se um pouco ou muito à moda da atualidade, calçavam sapatos de saltos de cor à fantasia, como os têm as botinas dos pés mimosos de hoje, traziam vestidos estreitos e como os nesgados de agora e arrastando caudas mais ou menos longas como exatamente se observava há pouco tempo; mas também usavam trazer ricos pendentes às orelhas, e profusão de ouro e pedras preciosas com especialidade no colo e nos dedos cheios de anéis; em muitas a protetora e romanesca mantilha escondia a parte superior do corpo, a cabeça e quase totalmente o rosto; mas no modo de trajá-la e na graça dos movimentos as moças sabiam atraiçoar-se.
Quanto aos dotes físicos das senhoras dava-se o caso de todos os tempos e de todas as cidades grandes ou pequenas, havia feias e bonitas e poucas formosas, mas os belos olhos, a cintura delicada e fina e os pés mimosos tão comuns nas brasileiras faziam-se admirar, como também hoje se admiram. Não se reparava então; agora porém muito se notaria naquela numerosa reunião a falta de variedades de tipos; a razão era simples: o Brasil colônia só se comunicava com a metrópole; não se admitia comércio estrangeiro e por exceção apenas alguma família espanhola se misturava com as famílias portuguesas e brasileiras; mas ainda assim a raça era no fundo a mesma, e os caracteres físicos obedeciam às leis da sua origem natural: umas senhoras eram mais engraçadas, mais esbeltas, mais bonitas do que outras somente por aquele segredo, aliás explicável, que faz com que a mesma árvore, ou o mesmo arbusto, apresente flores mais ou menos defeituosas e mais ou menos perfeitas.
Encantonado em um dos ângulos do pátio estava um grave ancião trajando com a séria elegância dos homens ricos, tendo a seu lado, mas um pouco para trás, uma senhora trazendo rica mantilha e que como ele observava zelosa duas belas meninas de dezoito a vinte anos de idade, vestidas com esmero, sem mantilhas, e unidas uma a outra e com as mãos dadas, como a medo de se separarem embora estivessem entre o ancião e a senhora que as guardavam, sentinelas à vista, cuidando ainda mais delas do que do presepe que já tinham apreciado bastante, e das cantatas e danças que as duas donzelas aplaudiam com inocente encantamento.
O ancião era conhecido de todos e portanto sabiam muitos e adivinharam os outros que a senhora de mantilha era a esposa e as meninas as duas filhas de Jerônimo Lírio, português e rico negociante da praça do Rio de Janeiro. Muito raramente Jerônimo Lírio mostrava a família em público; mas a fama da beleza das filhas corria pela cidade ainda mais porque se ajuntava com a fama, a riqueza do pai, e as duas donzelas tinham recebido de um bem inspirado admirador, uma denominação que foi adotada, e que não podia chamar-se alcunha, porque em suma era o plural do sobrenome de Jerônimo, e tinha alguma coisa de poético; pois lembrava duas flores irmãs: chamavam às duas meninas – os dois lírios.
Muitos amigos tinham cumprimentado Jerônimo e sua família; os velhos gracejaram com as donzelas e lhes ofereceram doces; as moças as saudaram respeitosas, contentando-se com o direito geral de contemplá-las à distância, e sempre com precaução para não ofender o exagerado melindre dos pais.
A despeito das duas desconfiadas sentinelas, grupos de mancebos e mancebos isolados aqui e ali, prestavam aos dois lírios o devido culto à beleza. Jerônimo e sua esposa maldiziam em monossílabos que lhes escapavam, do que lhes parecia atrevida licença de mocidade desmoralizada; como porém suas filhas só tinham olhos para as danças, deixavam-se ficar no pátio.
Mas de súbito pai e mãe estremeceram: entrara no pátio já atopetado de povo um grupo de oficiais militares, à frente dos quais vinha o oficialde- sala do vice-rei conde da Cunha; Jerônimo Lírio olhou para as duas filhas, como se um abutre se tivesse aproximado do ninho, onde se achavam inocentes e ainda implumes avezinhas; pensou logo em retirar-se, mas o oficial-de-sala do vice-rei avançou para ele, e foi apertar-lhe a mão.
Não havia recurso possível fora de cerimonioso acolhimento; o oficial-de-sala do vice-rei era a cabeça e o braço do violento conde da Cunha; a imediata retirada de Jerônimo poderia parecer ofensa, e a ofensa não ficaria impune; o ancião não teve sorrisos; mas simulou voluntária tolerância, recebendo os cumprimentos do muito respeitoso oficial, que ousava já dirigir olhos ardentes e cobiçosos às duas meninas, quando felizmente para o zeloso pai começou a última parte da folgança pública.
Dez vozes gritaram: – Motes! motes!...
As freiras acudiram ou já estavam às grades; uma delas disse com voz alta e argentina: – Deus no berço da humildade.
– Ouçamos! exclamou Jerônimo, puxando com força o braço do oficial-de-sala; ouçamos! Eu aposto que é Mariano Antunes que vai improvisar.
O oficial-de-sala cedeu ao puxão e fingiu atender; Mariano Antunes ou outro qualquer mostrou-se na escada do tablado das danças, e bateu
palmas.Silêncio geral. O poeta do outeiro improvisou:
Enquanto os grandes da terra Ostentando vã nobreza, Em vaidade sempre acesa Trazem sempre o mundo em guerra; Enquanto as nações aterra De cem reis a potestade, A celeste majestade Dos reis o orgulho fulmina, Mostrando em lição divina Deus no berço da humildade.
A multidão batia palmas ao poeta.
– Que insolente, murmurou o oficial-de-sala, pondo as mãos no copo da espada; falar dos reis assim!.
– Em comparação com Deus... tolera-se, disse Jerônimo.
Subira ao tablado outro poeta, bateu palmas, e logo disse em voz altissonante.
Foi um poeta infeliz O que há pouco improvisou; Outra explicação vos dou Do que o Evangelho nos diz: Deus mostrar ao mundo quis Que às avessas da verdade, Aviltando a dignidade O mundo vil vai e vem, E assim nasceu em Belém Deus no berço da humildade.
O segundo improvisador foi como o primeiro vivamente vitoriado; acudiram outros poetas, renovaram-se os motes das freiras e as glosas dos
poetas do outeiro.Ainda uma voz de freira proclamou da grade, donde estava olhando e ouvindo: – Viva o bispo e o vice-rei.
O mote era uma provocação ao desgosto geral do povo; não houve poeta que subisse os degraus do tablado; mas do meio da multidão compacta alguém bateu palmas, e rompendo o silêncio que imediatamente se fez, falou em voz alta, mas fanhosa, e como para disfarçá-la:
Quando em casas e conventos Prende o bispo as raparigas, E o vice-rei por intriga Recruta moços aos centos; Quando o bispo faz tormentos, E o vice-rei não tem lei, Quando o pastor mata a grei E é todo povo infeliz, Maldito seja quem diz – Viva o bispo e o vice-rei!
Estrondosa aclamação vitoriou o poeta; mas o atrevimento insólito
deste provocou as fúrias da gente oficial que estava na reunião popular.O poeta reproduzira em seus rudíssimos versos a opinião e o sentimento de todos, e fora por isso entusiástica e espontaneamente festejado; logo porém o oficial-de-sala desembainhou a espada, e imitado pelos oficiais que o seguiam, um e outros lançaram-se no encalço do revoltado e audacioso improvisador.
A importância oficial do homem que à frente dos seus sequazes se atirava contra o povo em procura do órgão do povo, o susto e o terror das famílias, o movimento da multidão que procurava fugir e que se esmagava no ímpeto da fuga, o choro das crianças, os gritos e clamores das mulheres, os gemidos da gente que se pisava, e de alguns que eram feridos pelas espadas dos agressores, os brados de misericórdia! soltados pelas freiras, o furor de muitos do povo que atiravam pedradas sobre os oficiais que loucamente perturbavam a ordem do divertimento público produziram assustadora confusão, e fizeram recear lamentáveis conseqüências.
No fim de poucos minutos o pátio do convento da Ajuda estava quase deserto; as freiras tinham-se retirado das grades; todo o povo conseguira fugir e o oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha sem ter podido encontrar o poeta revoltador via apenas diante de si e de seus companheiros de prazeres e de orgia uns oito pobres feridos e esmagados que estendidos no chão bradavam por socorro.
– Que faremos destes miseráveis? perguntou ao oficial-de-sala um dos seus sequazes.
– Pois que nenhum deles parece ter sido o poeta que nos escapou, deixemo-los, que há de haver quem deles se ocupe, e vamos acabar a noite, onde nos espera melhor folia.
Os oficiais retiraram-se e quando não se ouviu mais o tinir das bainhas das espadas, seis homens e duas mulheres de mantilha que jaziam por terra foram-se levantando: nenhum deles tinha sofrido ferimento grave, nem contusão que molestasse muito; o mais infeliz tinha recebido um leve golpe na fronte, os outros apenas arranhões sem conseqüência, mas haviam como de concerto gemido e bradado dolorosa e aflitivamente para se verem livres do oficial-de-sala.
Um a um esgueiraram-se os seis homens que nem sequer olharam para as duas mulheres de mantilha; estas porém quando se julgaram sós, levantaram-se também, e depois de observar o pátio, que acharam deserto, disse uma dessas à outra: – Ah! Guido Vaz! fizeste-la bonita! De que escapamos!... Se nos descobrem, pelo menos éramos expulsos do seminário e tínhamos fardas às costas! – Mas que inspiração, Manuel Dias! Que décima! Nunca farei outra igual!...
As duas mulheres de mantilha eram dois estudantes do seminário de São José!
D. Antônio Álvares da Cunha, conde do mesmo titulo, era um varão de costumes rígidos e de caráter severo, honesto, bem intencionado, mas déspota no governo; nomeado primeiro vice-rei do Brasil na capital do Rio de Janeiro trouxe, infelizmente, para o desempenho de tão alto cargo, prevenções contra os negociantes portugueses desta cidade, e vendo por isso em todos e em tudo indícios de oposição e desobediência exagerou o sistema de rigor até a opressão e o despotismo cruel; por maior desdita sua chamou para oficial-de-sala o tenente-coronel do regimento velho, Alexandre Cardoso de Meneses, e dentro em pouco vivamente impressionado pela inteligência, atividade e energia deste, aplaudiu-se na
escolha que fizera e depositou no escolhido a mais plena e cega confiança.Alexandre Cardoso reunia felizes condições para agradar e tornar-se o braço direito do vice-rei: suficientemente instruído e talentoso poupava o conde da Cunha a muito trabalho; infatigável e diligente dava asas à ação do governo; sempre de acordo com o vice-rei, déspota como ele, e fazendo executar todas as suas ordens e resoluções com a prontidão e o rigor que aprendera na disciplina militar, nada deixava a desejar ao chefe do governo da grande colônia; além de tudo isso moço ainda, pois que apenas ia tocar os quarenta anos, muito agradável de feições, tendo elegante figura, graça no falar e nas maneiras, e como belo lavor de tudo isso, bravura natural abrilhantando o dever do soldado, exercia uma espécie de fascinação sobre o velho Conde da Cunha.
O vice-rei tinha dito a si mesmo cem vezes: “tenho o meu homem!” Pudera antes dizer: “tenho a meu lado um mau gênio”.
Alexandre Cardoso era com efeito o mau gênio do conde da Cunha. Em pouco tempo estudara e conhecera as fraquezas do caráter do seu chefe, que era sobretudo orgulhoso, soberbo e dominador; pôs-lhe de freio as fraquezas e dirigiu-as em seu proveito: adulou sem exageração nas lisonjas, admirou incessantemente a sabedoria de consumado administrador, deu sempre conselhos sem dizer que os dava, nunca pretendeu parecer mais do que submisso e dedicado executor das ordens do vice-rei, e este deixou-se mil vezes arrastar e dominar pelo seu oficial-desala sem pensar que o fazia. Alexandre Cardoso abusava em nome do conde da Cunha e o conde da Cunha carregava com a responsabilidade dos abusos.
A fascinação era tão forte que ninguém se animava a queixar-se do oficial-de-sala depois que dez ou vinte exemplos demonstraram que as queixas além de desatendidas eram fundamentos para cruéis perseguições.
Alexandre Cardoso não podia ser perfeito, e julgava-se o melhor dos homens, porque os seus principais senões, a que não chamava vícios, eram três amores que o obrigavam ainda a um quarto amor; amava as mulheres bonitas, amava o luxo, amava o jogo, e por causa das mulheres, do luxo e do jogo, amava o dinheiro.
Os três amores eram exigentes e o soldo de tenente-coronel não os satisfazia; o oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha pôs a justiça e a administração à venda em seu proveito: dava empregos e empreitadas de obras públicas a preço ajustado, como negócio seu; fazia prender e soltar, recrutava e dispensava do serviço militar, ameaçava e anulava a ameaça a troco de favores pecuniários, explorava enfim o governo de que era oficial, centuplicando os lucros legais com os lucros da prevaricação e da infâmia.
Era fácil assim amontoar tesouros; mas a Alexandre Cardoso nunca sobrava o dinheiro; porque ele tinha as mãos sempre abertas para animar seus três amores: ao luxo, e ao jogo não há riqueza que chegue, e o amor das mulheres é também um abismo que nunca se enche de ouro.
Alexandre Cardoso abusando das suas vantagens e da sua influência de oficial-de-sala do vice-rei tornou-se o perigoso inimigo das famílias, o sedutor ousado que levava a desonra aos lares domésticos; para essa guerra imoral e pervertida tinha ele por armas seus dotes pessoais, o seu poder no governo da colônia, a ameaça de perseguição aos pais, e de recrutamento aos irmãos das donzelas, cuja beleza o encantava: as famílias pobres de ordinário eram vítimas da violência, quando não cediam à garantia de proteção; as ricas nem sempre escapavam à audácia daquele amor das mulheres e precisavam às vezes lutar contra o ressentimento e o furor do desenfreado e impune oficial-de-sala do vice-rei.
Pior que tudo isso ainda Alexandre Cardoso por suas paixões do jogo e da luxúria, tinha sócios de jogo e de orgias e estendia sobre eles o encanto da sua impunidade; era portanto o chefe de uma banda de mancebos imorais, corrompidos e audazes, recrutados principalmente na oficialidade dos corpos militares da guarnição da cidade do Rio de Janeiro, e essa banda perigosa, ousada, petulante , era o terror das famílias, e o testemunho vivo da perversão do governo.
O conde da Cunha, retirado, quase sepulto na solidão da casa que tinha de ser no século seguinte palácio de reis e de imperadores, ignorava completamente as tropelias e os crimes do seu oficial-de-sala e dos sequazes que este comandava, e era força que os ignorasse, porque à semelhança dos pais extremosos e cegos, que se irritam quando lhes denunciam os abusos e os vícios dos filhos, reputava caluniosas as censuras e acusações que se faziam ao seu querido oficial-de-sala, e violento se revoltava contra os censores e acusadores dele.
A obstinação e a parcialidade do vice-rei abriram fontes de suspeitas e de calúnias; porque muitos supuseram e alguns propalaram que o conde da Cunha ganhava como sócio principal nas toleradas prevaricações de Alexandre Cardoso, cuja desenvoltura permitia em atenção aos lucros que lhe dava a sociedade infame.
A probidade do Conde da Cunha triunfou dos botes dessa calúnia atroz, mas desculpável por circunstâncias atenuantes; é porém certo que o oficial-de-sala Alexandre Cardoso foi o mau gênio do primeiro vice-rei mandado à capital do Brasil.
A cidade do Rio de Janeiro era naqueles tempos muito diferente do que é hoje: o aspecto ainda das melhores casas era triste e indicava a educação clausural das famílias: abundavam as casas térreas e de um só pavimento, e essas reservavam as portas e batentes das janelas para se trancarem à noite, mas de dia tinham os vãos das portas e janelas defendidos aos olhos curiosos por peneiros ou tecidos de palha firmados em um quadrado de sarrafos, quase penduravam, ou se podiam mover encaixilhados; as casas de dois ou mais pavimentos, quase todas uniformemente de três portas eram de sacadas com grades de madeira mais ou menos completas e sombrias: mais ou menos porque essas grades ou eram da altura de meio corpo do homem, ou tinham a altura do pé-direito do pavimento que sombreavam, de modo que simularam triste prisão; em regra abriam-se pequenos postigos nesse engradamento, postigos maiores e cômodos na altura em que deviam ser as janelas, para que as senhoras deles se aproveitassem, olhando a rua, e pequenos postigos rentes ou quase rentes com o assoalho para que as senhoras ou as escravas debruçando-se vissem menos expostas ao público, o que se passava na rua, ou chamassem os
pregoeiros vendedores de quanto podiam precisar a mesa da família.No século passado e ainda no principio do atual havia quitandeiros ambulantes de todos os gêneros da alimentação geral dos habitantes da cidade: os escravos vindos da África, negros e negras, corriam as ruas da cidade que hoje se chama velha, apregoando além do peixe e das verduras, o feijão, a farinha, o arroz, o guandu5, o milho verde e seco, e tudo já medido em tabuleiros pirâmides, de que eram base a porção avultada e necessário à família numerosa, e ápice o quinhão de cinco ou dez réis que convinha aos pobres.
Tudo se vendia pelas ruas e até os refrescos utilíssimos em país de tanto calor; ninguém então se lembrava do gelo, ninguém desejava os sorvetes do nosso tempo; não havia confeitarias; mas era certo o popular aluá6, a inocente e refrigerante cerveja do arroz, apregoado nas horas mais calmosas dos dias de verão e em todas as estações.
Os humildes postigos inferiores das casas de sobrado serviam pois principalmente às recatadíssimas chefes de família e às suas escravas para chamarem os pregoeiros vendedores de todos esses produtos agrícolas e do industrial, o rude mas utilíssimo aluá, que muito aproveitavam às famílias.
Em todos esses costumes estampava-se o atraso e a rudeza da sociedade colonial do Rio de Janeiro; mas indisputavelmente, se a civilização tivesse poupado alguns deles, limitando-se a destruir os peneiros e as grades de pau, e outros semelhantes, o povo pobre pelo menos teria mais facilidade na vida.
Ponhamos porém de parte estas inúteis memórias do passado, e no passado sigamos apenas os fatos que servem ao romance que nos propusemos a escrever.
Na rua que agora se chama do Hospício7 e que no último século se chamava do Alecrim, desde o ponto em que é cortada pela Rua da Vala8 até o Campo de Santana, levantava-se uma casa de sobrado com sacadas de grades de pau e meia altura e que na madrugada de 6 de janeiro de 1766 se mostrava refulgente de luz e ruidosa de alegria e de festança.
Era a casa de dª. Maria de..., notabilidade feminina, que por sua formosura, sua independência audaciosa, sua natureza ardente e indomável, suas paixões e seus desvarios fáceis desde o conde de Bobadela até o vicereinado do marquês do Lavradio, influiu algumas vezes mais do que se pode supor no governo da grande colônia portuguesa da América.
Maria de..., da mais nobre estirpe luso-brasileira, nobre por seus avós, rica pela opulência de seus pais, tinha direito a pretender esposo da mais alta hierarquia na colônia portuguesa; o mais orgulhoso dos nobres mandados ao Brasil seria apenas igual a ela; a natureza lhe dera o encanto de irresistível formosura; a fortuna sublimara esse dom natural com a condição da riqueza e da fidalguia da família.
5 Guando. Andu. Vagem de semente comestível originária da África.
6 Bebida feita de farinha de arroz ou milho, ou casca de abacaxi ou gengibre, açúcar, caldo de cana e suco de limão.
7 Atual Buenos Aires.
8 Atual Uruguaiana.
Infelizmente a bela mulher, que ainda se distinguia pelos encantos do espírito mais cultivado do que então era usual no seu sexo, mentira à educação e aos exemplos dos seus maiores, e nodoara um nome ilustre: a vaidade, o ímpeto das paixões, o desprezo do santo dever do recato a tornaram famosa, como as Lenclos9 e as Marion Delorme10, zombando da
reprovação pública e da repugnância com que a olhava a sociedade.O primeiro amor de Maria de... foi o segredo da sua perdição: aos quinze anos deixou-se seduzir por um mancebo pouco mais velho, ou pouco menos criança que ela; um ano tinha já de duração o seu amor secreto e criminoso, quando foi descoberto pela família que aflitíssima se precipitou em imprudente vingança: o amante não foi julgado digno de lavar a mancha pelo casamento; e imediatamente passou a ser preso para assentar praça por ordem do conde de Bobadela, a quem o pai da seduzida dirigira queixa particular sob diversos fundamentos que dissimulavam a desonra da filha.
Maria era ardente, colérica, arrebatada; sabendo que destino se preparava ao amante, não verteu lágrimas inúteis nem protestou em vão no lar doméstico: encerrou-se em seu quarto, vestiu-se com apuro de elegância que amava muito por vaidosa, e aproveitando hora oportuna, saiu da casa sozinha, arrostando os costumes do tempo, e atrevidamente foi falar ao governador, conde de Bobadela, que a recebeu e ouviu-lhe a história da sua paixão e da sua franqueza, e o formal pedido da sua intervenção para que ela se casasse com o mancebo recrutado.
O conde de Bobadela tinha todos os prejuízos da aristocracia para não aceder ao empenho da jovem fidalga seduzida por mancebo de humilde e desprezada condição; mas admirado da afoiteza e da energia daquela menina delicada, e ainda mais da sua peregrina beleza, assegurou-lhe decidida proteção atenuadora do ressentimento de seus pais.
Dentro em pouco tempo o protetor se tornou amante: Maria, repelida pela família honestíssima, teve casa própria, vida reprovada, mas luxo e riqueza que ostentava sem corar. Ou fosse que só um único amor, o primeiro, tivesse ela verdadeiramente sentido, e que pelo infortúnio desse lhe houvesse ficado o coração endoidecido, ou fosse que envenenado sangue lhe abrasasse a natureza com o fogo da luxúria, Maria não soube ser fiel a amante algum, e a todos atraiçoava menos pela torpeza do interesse, do que pelos delírios do capricho, e pelas inconstâncias da sensualidade.
O conde de Bobadela apaixonado e cativo resistiu alguns anos aos desatinos da famosa moça; mas por fim quebrou as cadeias que o prendiam, deixando-a porém rica, e protegida sempre pelo seu favor até o dia em que morreu.
No vice-reinado do conde da Cunha, Maria foi amante de Alexandre
9 Ninon de Lenclos (1620-1705), célebre cortesã francesa.
10 Marion de Lorme (1613-1650), célebre cortesã francesa.
Cardoso: tinha tomado gosto ao amor do chefe do governo da colônia; em falta do vice-rei que era de austeros costumes, contentou-se com o oficialde-
sala que era quase vice-rei pelo poder da sua influência.Na noite das cantatas dos Reis, Alexandre Cardoso e seus companheiros, retirando-se do pátio do convento da Ajuda depois da inútil desordem que haviam feito, tinham-se dirigido à Rua do Alecrim e entrado na casa de Maria de...