É claro que não procurei mais encontrar-me com o velho Nunes, e aproveitando a lição desse novo desengano, compreendi que me cumpria ser ainda muito mais cauteloso na escolha do meu procurador, e principalmente na eleição da minha noiva.
Empreguei quatro dias no empenho da descoberta de um procurador, como desejava, e perdi o meu tempo: estudei com a minha luneta magica nada menos que trinta e tantos procuradores e achei-me sempre de mal a pior! pareceram-me todos eles verdadeiros procuradores do epigrama de Bocage, os que se diziam melhores e passavam por mais hábeis e dedicados, eram os piores pela mais refinada arteirice, e profunda malícia.
No fim dos quatro dias senti-me tonto, aborrecido, desesperado, e com a convicção tristíssima, de que não encontraria procurador, que pudesse merecer a minha confiança.-- Que homens! disse comigo mesmo; que gente desmoralizada, ardilosa e má! isto será talvez devido à influência do oficio: eles têm tantas vezes de procurar, de trabalhar em proveito de causas injustas, têm tantas vezes de contrariar a verdade, a justiça, a inocência, e o direito, que acabam por habituar-se ao dolo, à mentira, e ao sacrifício de todas as noções do dever. Há de ser assim, e nem pode ser de outro modo; porque a minha luneta mágica, que me faz ver no intimo dos corações, não me deixa cair em falsas apreciações.
-- Mas todos eles maus e nem um único bom ao menos sofrível... é demais! não quero tão cedo continuar na descoberta de procurador; estou cansado de ver homens ruins; tratarei de consolar-me contemplando as graças do sexo encantador.
O último dos quatro mal afortunados dias fora de abrasadora calma; ao declinar da tarde dirigi-me ao Passeio Público.
Era a primeira vez que eu visitava, com a certeza de poder apreciar pela visão, esse pequeno, mas preciosíssimo jardim, onde a população da cidade pode ir gozar das árvores sombra e imperceptível respiração purificadora do ar, das flores encanto e perfumes, do mar o aspecto sublime, da terra limitada amostra da opulência majestosa da natureza do nosso Brasil, e das magias da tarde a suave frescura da viração.
Entrei no Passeio Público, e com apressada curiosidade fui vendo e gozando os deleitosos quadros da relva verdejante, dos grupos de arbustos graciosos, das árvores gigantes, das correntes d'água, das pontes, do outeiro dos jacarés, do terraço que se torna admirável pela vista das montanhas, dos rochedos e do mar, das fortalezas e das ilhas, das praias e da cidade formosa, mas recreio da cidade ofuscadora, a que demora fronteira.
Tudo isso era novo para mim, tudo, todas essas maravilhas da criação, todos esses belos testemunhos, todas essas obras do trabalho e da arte dos homens.
Eu devia esquecer-me de mim mesmo, embevecendo-me na contemplação de tantos prodígios; senti porém perto de mim, em torno de mim, passando junto de mim, indo e vindo, outra maravilha, que os homens vêem em toda parte, a todas as horas, e que nunca se satisfazem de admirar, e de amar; ouvi o ruído do arrastar de vestido, senti doces e sutis aromas deixados em leve rasto, tocaram-me os ouvidos os sons murmurantes de vozes argentinas, em uma palavra, senti a mulher e não vi mais nem serras, nem ondas, nem natureza grandiosa, nem arte nascente, nem florestas, nem cidades; senti perto de mim a mulher, e, olvidando tudo mais, voltei-me para contemplar a mulher.
Não era uma, eram cem as senhoras que passavam e que estavam no terraço.
Sentei-me em um dos bancos de mármore e deixei fixada a minha luneta.
Mais de vinte jovens senhoras me pareceram bonitas; defronte de mim porém estava sentada junto de um venerando ancião a mais formosa donzela.
Vestira-se de branco! tinha os cabelos negros, os olhos pretos, grandes e suavíssimos, eram olhos que não abrasavam, mas que inundavam de doçura, de luz branda, de enfeitiçadas delicias o coração do homem que lhe merecia um olhar; tinha no rosto a palidez enlevadora, que não indica sofrimento e atesta fina sensibilidade: o seu corpo era esbelto, e sua cintura de proporções delicadíssimas; trazia na mão pequenina e branca um leque de madrepérola com que se abanava distraída, absorta na contemplação do mar, ou divagando pelos mundos da imaginação; levantou-se a convite do ancião, sem dúvida seu pai, e com ele passeou ao longo do terraço; no fim de alguns minutos tornou a sentar-se no mesmo lugar em que estivera.
Era indizível a graça do seu andar tão suave, como o deslizar da nuvem pela face do horizonte.
A donzela pálida afigurou-se-me revelação de todas as perfeições humanas completando um portento de formosura. O rosto é o espelho da alma, a graça, dom do céu: a donzela pálida era necessariamente 0 símbolo do amor e da pureza dos anjos.
O meu coração palpitava transportado de admiração, e já dominado pelo poder miraculoso de tanta beleza.
-- Como está hoje arrebatadora Dona Rosinha! disse um mancebo, falando a outro perto de mim.
Ela chamava-se Rosa; tinha o nome da rainha das flores.
-- Está hoje como sempre; mas em que cismará ela?... provavelmente em coisa nenhuma: quer que se acredite que tem horas de embevecimento poético.
-- Não; ela fez vinte anos ontem, e está sem dúvida cismando nos motivos por que ainda não se casou...
Revoltei-me contra os dois sacrílegos, apartei-me deles com sentimento de aversão.
Eu tinha observado a formosa jovem, lançando-lhe vistas repetidas, mas passageiras, receoso de sobressaltar o seu virginal pudor; não pude porém resistir por mais tempo ao ardente empenho da adoração da sua alma, e fitei nela a minha luneta por mais de três. minutos.
A donzela apercebeu-se da minha contemplação e por acaso ou de propósito deu a seu corpo flexível uma atitude de gracioso abandono, que me deixava apreciar todos os encantos da sua figura, inclinando langorosa a cabeça para o ombro de seu pai, e esquecendo os olhos no céu.
Ah! foi para mim um abismo de magias, um arrebatamento do espírito irresistível perdição de toda a minha liberdade durante três minutos...
E no fim de três minutos o coração da donzela se patenteou a meus olhos, e os segredos de sua alma se revelaram à visão do mal.
O demônio das contradições absurdas reunira naquela alma de mulher formosa a vaidade mais descomedida, e a inveja mais violenta e cruel: Rosa julgava-se a mais encantadora e bela das mulheres e invejava de uma os cabelos loiros, de outra os olhos azuis, de sua mãe o vestido mais rico, de sua prima a voz de contralto, da amiga da infância uma prenda que lhe faltava, da noiva desconhecida a fortuna do casamento; invejosa, aborrecia todas as senhoras, vaidosa, queria ser amada, requestada por todos os homens; pela inveja era mordaz, maldizente, intrigante e aleivosa; pela vaidade era imprudente e louca, coração corrompido; não poupava sorrisos, nem olhar animador, nem palavras comprometedoras para prender um namorado: o que era em solteira prometia ser quando casada, namoradeira sempre; e pela combinação da vaidade e da inveja com a sua organização e suscetibilidade nervosas, havia de impor-se absoluta dominadora do marido, a quem não amaria como marido, e só olharia como escravo; frenética, doida em ímpetos de brutais ciúmes não derivados de amor, rancorosa, raivosa, dissipadora, sem consciência do dever, sacrificando por uma noite de baile um ano de pão para a família não hesitando em reduzir à miséria pai, e esposo, para alimentar o seu luxo, só pensando nos gozos da ostentação e de apaixonados cultos na terra, sem fé, sem religião, em moça era tentação infernal, velha havia de ser o desgosto de si própria degenerado em malvada ira contra todos, em vaidade condenada, em inveja corroída, em aborrecimento do mundo, e em ódio a todos elevado a expansões delirantes, capazes de transformar o lar doméstico em geena desesperadora.
Eu vi tudo isto, e ainda mais podia ver; porque longe ainda deviam estar os treze minutos que limitavam a visão do mal: podia e tinha mais que ver naquele coração desgraçado; mas não quis... tive horror de um ponto negro, que se ia esclarecer; tive horror... deixei cair a luneta, e amaldiçoando a inveja, e maldizendo da vaidade, fugi, correndo, precipitado para fora do terraço.
Na escada por onde me retirava para o seio do jardim quase que em impulso desastrado levei diante de mim um homem que também descia.
-- Ah! senhor! exclamou ele voltando-se; não tem olhos ou vem doido?
-- Perdão! respondi; exatamente não tenho olhos, porque sou míope e venho doido, porque encontrei no terraço um demônio com aparências de querubim.
-- Pois quem é míope deve trazer óculos, e quem anda às voltas com o diabo deve procurar antes o inferno do que o Passeio Público!
-- Mano! disse uma voz dulcíssima; o senhor se desculpou tão cortesmente, que o favor da sua amabilidade exige antes agradecimento, do que insistência na lembrança de um acaso que não teve más conseqüências.
-- Obrigado, minha senhora, tornei logo, fixando a luneta; eu já nem me arrependo da minha imprudente precipitação; pois que a ela devo o encanto do perdão dado por voz tão melodiosa.
Vi voltar-se para mim o lindo rosto de uma mulher que ostentava todo o esplendor da beleza na primavera dos anos; ela porém afrontou com tanta firmeza a fixidade da minha luneta, sorriu-se tão facilmente para mim, olhou-me com tão clara garridice, que antes de cinco minutos causava-me já tal desgosto que por castigo nem lhe descreverei as graças da figura.
Coitadinha! era uma menina, que talvez tivesse nascido com excelentes disposições, branda, condescendente, alegre, assim o devo supor, pois não creio que alguém nasça mau e pervertido; mas os pais entusiasmados pela beleza da filha, quiseram fazer dela singular maravilha, e a esqueceram cinco anos em um famoso colégio, cuja diretora, antiga florista de Paris, mudara de vocação com os enjôos da viagem transatlântica, e chegada ao Rio de Janeiro, anunciou prodígios de instrução e educação de meninas.
Nesse internato, onde as educandas de todas as idades se confundem e se acham em contato de dia e de noite com seus diversos costumes, com seus bons e maus instintos, com suas imaginações travessas, com suas malacias enfim, a pobre menina aprendeu demais o que devia ignorar, e quase nada o que precisava saber, e saiu do colégio, corando não por pudor virginal, mas por artifício de namoradeira, não conhecendo o valor de um beijo de seus lábios, nem o preço e a glória das virtudes, sem as quais a mulher se faz objeto de desprezo.
A leviandade do seu procedimento, a palavra desenvolta com que aturdia as amigas, a audácia com que se arriscava na sociedade, sacrificando todos os preceitos da prudência na liberdade exagerada que permitia a quantos lhe faziam a corte, que não era mais suficientemente respeitosa, autorizavam a maledicência que a feria com venenosas calúnias.
O aleive, a mentira a ultrajavam injustamente com suspeitas cruéis; não era calúnia porém, a fama da sordícia do seu coração.
Quantos perigos, meu Deus, há nos colégios, e nos internatos de meninas!... quantas pobres inocências atiradas a prevaricações possíveis e fáceis! ah! se eu tiver uma filha, hei de fazê-la instruir-se ao lado e aos olhos de sua mãe; e se então me achar em pobreza, e não puder pagar mestres, minha mulher e eu ensinaremos como pudermos, e o que pudermos à nossa filha, e em último caso ficará ela embora ignorante, mas não será exposta a ser desmoralizada.
Oh! minha luneta mágica! eu te agradeço esta lição, que me deste.
E ainda com a proveitosa lição senti-me triste, profundamente triste.
Que dia infeliz! começou de manhã pelos procuradores que vi e que me causaram repugnância e tédio, e acaba à tarde com a contemplação de duas jovens formosas, que a princípio me pareceram dois anjos, e logo depois reconheci que eram duas criaturas condenadas, dois corações infeccionados, duas mulheres formosas, porém más, dois medonhos abismos cobertos de lindas flores.
Esta luneta é implacável e cruel: além da visão das aparências ainda não me concedeu uma contemplação suave.
Já aborreço os homens, e hoje principiei a desconfiar das mulheres.
Quero, preciso ter uma consolação, uma impressão felicitadora, que compense as tristes desilusões, por que tenho passado. Longe da minha luneta os homens e as mulheres! prefiro olhar, apreciar algum ser impecável, obra de Deus, não contaminada pelas malícias, e pelos vícios da humanidade.
Aí estão as duas pirâmides, e defronte o outeiro dos jacarés... são trabalhos do homem, desprezo-os; lá se mostram as flores... algumas são venenosas, e os perfumes das mais inocentes em certas condições podem matar; também não quero as flores; a água deste lago pode conter miasmas... não me convém...
Oh! eis ali um beija-flor!... a mais delicada e gentil criatura! eu o estou vendo com suas penas de esmeraldas e rubins, de ouro e topázio, de púrpura e de fogo... eu o estou vendo com a sua mobilidade faceira, com os seus vôos rápidos e graciosos, com o seu trêmulo adejar equilibrante no gozo puro do seu amor das flores...
Mas... que vejo ainda? que vejo agora?... ah! essa avezinha tão mimosa e tão linda é um monstro que me inspira aversão por seus instintos ferozes e qualidades perniciosas.
Egoísta, falso, incapaz de afeição durável, o perverso abusa dos seus encantos, e beija, profana e atraiçoa todas as flores, licenci e infame, poluindo seus nectáreos e ostentando após a mais bárbara indiferença, a mais ostentosa e ilimitada inconstância.
O beija-flor é como a serpente pela extensibilidade da língua, e esta ainda nele se duplica, estendendo dois filetes, que lhe servem como as garras às aves de rapina.
Finalmente assassino e destruidor, ele mata e devora em cada dia dezenas e dezenas de insetos inocentes, fracos e incapazes de defender-se, ousando sem continência, nem respeito ir arrancá-los do mais doce asilo, do seio mimoso das flores!...
Hoje criei ódio aos beija-flores, passarinhos devassos, desmoralizados, traiçoeiros e malvados.
Flores da terra! acreditai na minha luneta mágica: tende medo dos beija-flores!
Esta última experiência afligiu-me profundamente.
Quê! até nos seres irracionais, e entre eles na própria avezinha, mimo da criação, sorriso de anjo e raio de sol nascente tornados pelo criador em passarinho, no próprio beija-flor só me é dado encontrar maldades e perversão!!!
Sempre turvos e sinistros desenganos! sempre o mal neste mundo de peste e de misérias!... este mundo será pois o inferno, ou pode o inferno ser pior que este mundo?...
Deixei o Passeio Público, maldizendo da vida, detestando o homem, a mulher, toda criação, pedindo a Deus a morte, como o indigente faminto pede pão, como a escrava que é mãe, e a quem a maldição do cativeiro ainda não deturpou e anulou a sensibilidade, deseja e pede a liberdade do filho.
Que noite de horror e desespero passei! mas enfim a fadiga, o sofrimento do corpo que respondia às torturas morais da alma, venceram a contenção do espírito que procurava debalde imaginar consolações e lenitivo: ao romper da aurora adormeci.
Lembra-me que meu último sentimento na tormentosa vigília foi de desgosto da vida e de repugnância a toda a humanidade.
E como esses cinco últimos dias ainda mais trinta, um mês inteiro de desenganos e desilusões! em casa o quadro constante de tríplice traição na companhia obrigada de meus três e únicos parentes; fora de casa a pronta descoberta da maldade e da perfídia de todos os homens e de todas as mulheres.
Vi, encontrei somente o mal em tudo, e em toda a parte, nos seres orgânicos e nos inorgânicos, nas obras das ciências, e das artes, nos livros e nos monumentos.
Para escrever tudo quanto me mostrou a visão do mal me fora preciso encher com a pena molhada em fel muitos e volumosos livros, e atormentar a minha alma com o registro vivo das mais aflitivas observações.
Resumirei muito em breves palavras.
Eu tinha por amigos dois jovens da minha idade que moravam perto de nossa casa; a intimidade em que eu vivera com ambos nos tempos da minha miopia física e moral me fora sempre de grande consolação; mas a luneta mágica fez-me em breve conhecer o erro perigosíssimo dessas relações de tantos anos: um desses mancebos, o mais alegre, espirituoso e folgazão, era um homem imoral, desprezador das leis humanas, afrontador das leis de Deus, sem consciência, sem crenças, sem fé, tipo da sensualidade sem freio, besta que só cuidava em fartar-se nos pastos do mundo.
O outro que me agradava ainda mais, porque se mostrava sempre grave, pensador e comedido, era um calculista frio, sem escrúpulos na escolha dos meios para atingir ao fim que tinha em mira; o seu princípio moral consistia em salvar as aparências; furtaria a bolsa do amigo, se tivesse a certeza. de o não verem furtar; venderia sentenças, se fosse juiz; estava cansado de esperar pela morte de um tio, de quem contava ser herdeiro; filho único, porém não legitimo, do pai houvera abastada fortuna, e esquecia a mãe ainda viva e abandonada na miséria e no desprezo.
Separei-me de homens tão indignos da minha amizade; mas por isso mesmo mais profundos se tornaram o deserto e a noite da minha vida, e a medonha solidão no meio da mais ruidosa e brilhante sociedade.
O que faz sofrer este estado lúgubre, terrível do espírito ninguém sabe, ninguém faz idéia, só eu que o estou sofrendo.
Um dia vi uma elegante e nobre senhora, que passava, deixar cair com angélico disfarce duas moedas de ouro na mão de um mísero leproso, que deitado no primeiro degrau da escada do átrio de uma igreja, esmolava tristemente; vi-a levar o lenço aos olhos para enxugar duas grossas lágrimas, que lhe sublimizavam as faces; segui a nobre senhora com a minha luneta fixada sobre ela: ah! o disfarce fora mentira, a caridade era ostentação; as duas lágrimas duas pérolas falsas preparadas e expostas pelo artifício da hipocrisia; essa mulher casara rica, dominava o marido, gastava anualmente vinte contos de réis em vestidos e enfeites, economizando exageradamente em casa, negando ceia aos escravos, dando-lhes almoço e jantar muitas vezes insuficientes, e compensando a penúria da alimentação com freqüência de castigos ferozes e de torturas repugnantes.
Em outro dia vi um padre de aspecto venerando; não arredava do chão os olhos, trajava com severa decência própria do seu ministério, levava na fronte o selo da austeridade de seus costumes, e na expressão suave de seus olhos, e de sua boca meio risonha a manifestação da sua piedade: eram olhos de conforto espiritual, e boca de perdão. Observei-o com a minha luneta por mais de três minutos: os olhos de conforto espiritual eram vulcões de concupiscência, a boca do perdão era a fonte de palavras santas no altar e no púlpito, mas de seduções vergonhosas fora do templo; esse padre tinha corrompido uma donzela, abandonando-a depois aos frenesis da prostituição; esse padre discutia previamente a espórtula das missas, fazia sacrilegamente do altar balcão de traficantes, brigava por uma vela de libra ou meia libra de cera, guerreava os outros padres na sacristia, não se lembrava mais da conta das missas que devia, e desonrava enfim o sacerdócio, ultrajando o Cristo com exemplos de desmoralização e de ganância pervertedores do rebanho católico.
Uma vez quis ler um artigo de uma gazeta diária que me haviam recomendado por muito importante e bem escrito. Com efeito logo no primeiro período achei idéias sãs e luminosas enunciadas com elegância e pureza; bem depressa porem, revoltei-me, descobrindo oculta na metafísica de um principio a materialidade da ambição mais desenfreada, disfarçado em máximas de moral sublime o manejo intrigante do órgão de uma facção, nos protestos do amor da pátria a mentira do mais refalsado egoísmo e na ostentação de franqueza e independência dissimulado o preço por que se alugara o escritor. Irritado, fiz em pedaços a gazeta maldita.
Em outra ocasião, passando pela Rua dos Barbonos, parei diante de uma casa consagrada ao mais piedoso e santo mister, e vi armado em sua parede aquele aparelho movediço que se chama- roda dos enjeitados.
Ora pois! disse a mim mesmo; aqui é impossível que eu descubra o mal; porque neste caso o mal está somente na mãe, ou na família cruel, que enjeita o recém-nascido; mas no seio que se abre para recebê-lo, salvá-lo, adotá-lo não pode estar senão o bem, a caridade, a santidade.
E fitei a minha luneta na roda por mais de três minutos: quem o diria?... a roda da piedade bem depressa pareceu-me antes protetora do vicio e da desmoralização, do que providência salvadora de inocentes criancinhas condenadas; essa roda afigurou-se-me leito ruim de falsa caridade, porta do abandono, da perdição, talvez algumas vezes do cativeiro dos míseros enjeitados; li no berço dessa roda cem lúgubres histórias, e recuando espantado, preferi a miopia à visão do mal, e cheguei a pensar que para muitos dos enjeitados e para a sociedade fora melhor a sepultura, do que a roda.
E retirei-me, meditando, refletindo sobre o que acabava de ver.
Fique de parte a questão moral, social da conveniência de tais estabelecimentos de caridade,
Que faz a roda ao enjeitado? Se pode, livra-o da morte; mas depois condena-lhe a vida: era talvez preferível deixá-lo morrer.
Ser ou não ser: se a instituição é de caridade, seja-o plenamente, não se desnature, recorrendo a meios que em regra geral são fatais aos enjeitados; se não pode sê-lo plenamente, não cumpre o seu fim.
Que faz a roda? Recebe o enjeitado, e depois enjeitado por sua vez. A verdadeira caridade não enjeitada.
A roda que faz? Dá os enjeitados a criar, a quem os vem pedir e os leva a dez, a vinte, a cinqüenta e mais léguas de distancia, e fica muito contente de si, porque paga a criação do enjeitado por dois terços menos, do que de ordinário custa o aluguel de uma ama.
E por esse preço insuficientíssimo criar enjeitados é negócio que se explora!
Que fortuna espera ao enjeitado que a roda assim por sua vez enjeita? Faz tremer pensá-lo.
O mísero inocente é feliz, se acha seios de mulher em que se aleite, e fica apenas analfabeto e sem educação; a sociedade é que não pode esperar ser felicitada por semelhante enjeitado de roda.
E o que não é feliz desse modo tão infeliz?...
E o enjeitado que fica reduzido a escravo da família que o foi pedir?... e o enjeitado que morre à mingua longe da roda que o enjeitou, e que paga sua criação muitos meses além da afortunada morte do mísero condenado?
E o enjeitado de cor preta, ou de cor menos branca, que tão facilmente substitui o escravo que morre, e que toma dele o nome para ser vendido pela perversidade de algum infame dentre os negociantes de criação de enjeitados?
Esta ultima idéia, a suspeita da possibilidade... talvez da realidade de tão grande crime penetraram no meu espírito, como punhais ervados que me rasgassem o coração.
Tudo pois que eu via no mundo era maléfico, pavoroso, medonho!
A minha vida se tornava mais pesada, insuportável fardo. Não havia para mim na terra nem consolação, nem luz de esperança; se me tivesse faltado a profunda fé em Deus, e a educação católica, o meu recurso teria sido o suicídio porque a visão do mal me levara ao desespero.
Compreendi bem o horrível suplício da minha vida.
Em três parentes que eu possuía no mundo descobri três ignóbeis exploradores da minha fortuna e do meu infortúnio.
Em dois amigos quase da infância achei dois miseráveis sem moral, nem consciência.
Fiquei sem as santas prisões da família e sem a doce confiança da amizade.
Quis tomar conta dos meus bens e criar para mim uma família e empenhei-me em acertar com um bom procurador, e com uma donzela digna de ser minha noiva, e todos os procuradores que estudei, eram homens repulsivos e alicantineiros e todas as donzelas que observei me inspiravam repugnância, pelas suas ruins qualidades morais, e gravíssimos defeitos.
Para qualquer lado que me voltei, fitando a minha luneta, vi somente sob falsas aparências corações corrompidos pelos vícios, ou enegrecidos pelo crime.
Não houve uma exceção!... todos os homens hediondos, todas as mulheres ainda piores que os homens! 0 mundo pareceu-me povoado por demônios de ambos os sexos; porque fora absurdo acreditar, que somente na cidade do Rio de Janeiro toda a população nacional c estrangeira fosse má e estivesse pervertida.
Descobri no sol fontes de terríveis calamidades, no beija-flor uma criatura malvada; na imprensa uma instituição condenável, em estabelecimentos de caridade lições e praticas de desumanidade.
Descri do advogado, do padre, do sábio, do artista, de todos e de tudo!
Achei-me na terra sem um parente amado, sem um parente possível, sem uma noiva possível sem sociedade possível.
Em todos vi o mal; porque em breve desconfiei mesmo daqueles, que não estudara por mais de três minutos com a luneta mágica.
A visão do mal me causava já certa espécie de terror; um dia lembrou-me fitar a luneta no prato que acabavam de servir-me ao jantar; mas estremeci, e não a fitei, receoso de encontrar veneno; que me importava ser envenenado?... era melhor não ver.
Foi assim que passei mais outro mês que se arrastou como um século
Que viver de torturas!
Tende piedade de mim, meu Deus! tirai-me deste mundo, onde eu vivo só, absolutamente só em solidão infernal, ou com um único, inseparável, amaldiçoado, mas implacável e sinistro companheiro, com o mal que eu vejo em tudo, em todos, em toda a parte.
O armênio tinha razão: a visão do mal é um poder fatalíssimo, uma faculdade que aniquila a paz, o sossego, as afeições, a vida do desgraçado que tem esse poder; mas agora é tarde! é muito tarde; precipitei-me em escarpado precipício, e é inevitável que eu vá morrer no fundo do abismo.
Pode-se viver sem crenças, sem a mais tênue esperança, sem o mais dúbio raiozinho de confiança em algum homem, em alguma mulher... pode-se; porque é assim que estou vivendo.
Recebi hoje uma carta do Reis, a quem não tornarei a chamar meu amigo; pois não me é possível ser amigo de homem algum.
Eu não tinha voltado à casa do Reis nem para cumprir o dever de cortesia, indo render-lhe agradecimentos, e também ao armênio pelo favor da luneta mágica.
Não voltei e não volto lá: detesto o armênio e desconfio do Reis; o melhor sinal de imerecida gratidão que a ambos posso e devo dar, é esquecê-los, é não ir lá fitar por mais de três minutos sobre eles a luneta que me deram: o armênio é concentrado e rude; o Reis é expansivo e obsequiador; quem sabe o que a minha luneta me mostraria no intimo de qualquer deles?...
Devem ficar-me muito agradecidos por não ir vê-los: detesto o armênio, desconfio do Reis; não quero relações com eles.
Mas a carta do Reis deu-me que pensar; ei-la aqui ipsis verbis.
"Rio de Janeiro, 1.° de abril de 1868: Ilmo. Sr.: Não mereci a graça de uma visita de V. S a depois da noite da operação cabalística do armênio, e apenas desde anteontem comecei a ter singulares noticias da sua luneta mágica; mas de modo que sou obrigado a pedir a V. S B o favor de explicações que me são indispensáveis.
"Há dois dias que o meu armazém é procurado por numerosos fregueses e desconhecidos que se empenham por obter esclarecimentos relativos à luneta mágica. Muitos zombam do caso, atribuem maravilhas inconvenientes que se contam à exaltação perigosa da imaginação de V. S.ª; exigem porém informações sobre o armênio e sobre a operação cabalística, de que têm notícia não sei por quem.
"Outros, e infelizmente não são poucos, pretendem que com a luneta mágica tem V. S.ª a faculdade de ver os corações e as consciências de quantos observa por mais de três minutos, descortinando assim segredos, vícios que se escondem, erros que se ocultam e más qualidades que se dissimulam, protestando todos contra o perigo social que pode resultar de tão fatal e assombroso poder de encantamento.
"Alguns enfim incômodos e teimosos querem por força que eu lhes venda lunetas iguais à sua, e perseguem-me com instâncias que me perturbam o sossego.
"O maldito armênio diz que está pronto a encantar lunetas, sem dúvida com intenção maléfica; eu porem não consinto que ele apareça no armazém.
"V. S.ª compreende que tenho urgente necessidade de saber tudo quanto há e se tem passado em relação à sua luneta mágica.
"Devo aos meus fregueses e ao público em geral explicações sem reservas, transparência sem a mais leve sombra em tudo quanto se prepara e se faz, se imita, se aperfeiçoa, se inventa e se realiza nas minhas oficinas, e de quanto se vende no meu armazém ou dele sai, no cumprimento deste dever há para mim escrúpulo e honra; peço pois a V. S a que me habilite para dar esclarecimentos e informações às pessoas que incessantemente me estão procurando, e inquirindo sobre esse importante assunto Sou etc. Reis."
A carta não me foi agradável; refleti por algum tempo e resolvi não responder ao Reis; a falta de resposta era inqualificável grosseria; eu porém já tinha em tão profundo desprezo e aborrecimento os homens, que pouco ou nada me preocupava a idéia de ofender o Reis. Decidi-me a fazer de conta que não recebera a carta.
Mas quem poderia ter atraiçoado o meu segredo? Tornado patente a minha facilidade da visão do mal?... Só três homens:
O armênio, de cuja ciência mágica se duvidava, e cujo testemunho era portanto suspeito, e para quase todos seria ridículo.
O Reis que me escrevia, interrogando-me, e que por conseqüência. nada sabia, visto que perguntava.
O velho Nunes que assistira a cena dos trabalhos mágicos do armênio e a quem no dia seguinte eu confiara imprudente, louca e desastradamente o segredo do poder miraculoso da minha luneta magica.
Portanto, o traidor, o propalador do segredo fora o velho Nunes, o procurador imoral e refalsado, de quem eu fugira, e a cujo convite para jantar no seio de sua família faltara sem escusas ulteriores nem satisfações.
O velho trapaceiro e ignóbil procurava pois vingar-se do meu desprezo, denunciando a todos, publicando a força prodigiosa da luneta que eu possuía.
Vingança estéril, vã, estúpida! Que me importa o juízo dos homens? Que me importa o mundo?
Mundo, homens, velho Nunes e minha própria vida eu embrulho todos e tudo isso nos trapos ascosos do meu mais profundo desprezo,
Não dei a menor importância à revelação traidora, mal intencionada do velho Nunes: pensei que ainda quando ela pudesse trazer-me desgosto e porventura colocar-me em circunstâncias embaraçosas e desagradáveis, nem por isso chegaria a tornar-me mais desgraçado do que eu já era.
Atirei com a carta do Reis sobre a mesa, tomei o chapéu e sai a passear para desforrar-me de três dias de misantropa reclusão, a que me condenara.
Eu levava comigo o suplício da visão do mal, e não pudera imaginar que ainda outro suplício e igualmente horrível por ela me estivesse esperando no mundo em que vivia.
Saí, como disse, e avançara apenas alguns passos, quando reparei que muitas pessoas fugiam de encontrar-me, que outras voltavam-me as costas, que as senhoras se retiravam apressadas das janelas.
A princípio não pude explicar o fenômeno; logo depois, porém, lembrou-me a insidiosa revelação do velho Nunes, e compreendi que me fugiam por medo da minha luneta magica.
-- Fogem, disse rindo-me; fogem, porque lhes doem as consciências e se reconhecem todos hipócritas e maus.
Era a primeira vez que me ria desde dois meses; o meu riso, porém, era cheio de fel, era o rir de maldição irônica lançando em face à humanidade-demônio.
Era quase noite; cheguei à Praça da Constituição, e entrei no jardim que estava cheio de povo.
De súbito ouvi surdo e longo ruído de centenas de vozes, semelhante ao trovejar longínquo da tempestade afastada; que me importava isso?... Continuei o meu passeio pelas ruas do jardim, mas antes de três minutos a Praça achou-se deserta, e no jardim apenas a estátua eqüestre e eu!...
-- Que gente! exclamei sem poder conter-me: não há um homem, não há uma mulher que ouse afrontar a luneta mágica.
Veio-me o desejo de olhar e estudar a estátua eqüestre; imediatamente porém senti tanta repugnância ao desengano provável das idéias e sentimentos que eu acreditava ou antes acreditara presidindo e dirigindo o acontecimento majestoso e patriótico que esse belo monumento comemora, e atesta com sublime ufania que cedendo a generoso impulso, não quis contemplá-lo, e deixando o jardim, dirigi-me ao café vizinho, à muito conhecida casa do Braga.
Entrei, sentei-me a uma das primeiras mesas, e pedi uma xícara de café.
A sala estava atopetada de fregueses; mas apenas entrei, e tomei um lugar, despovoou-se de improviso, e um servente rude e mal-educado veio de mau modo dizer-me que não havia mais café, e que a casa dispensava a minha freguesia, e muito me agradeceria, se eu não tornasse a aparecer ali.
Desta despedida formal a uma expulsão à viva força a distância era pequena e quase nula, era a intimação antes da violência; eu tinha por mim o meu direito incontestável de ser servido, pagando o que se garantia ao gozo publico; a lata, a contenda porém não me podia convir: traguei o insulto, e saí sem responder uma única palavra ao caixeiro selvagem.
Andei às tontas, sem destino e sem norte pelas ruas; às oito horas da noite dirigi-me a um dos nossos teatros, pouco importa saber qual, comprei um bilhete, e fui tomar a minha cadeira.
Mal acabava de sentar-me, ouvi dizer perto de mim: "é ele!"
A essa voz que soara em tom baixo, seguiram-se outras que repetiram com ecos surdos: "é ele! "
Dentro em pouco o sussurro transformou-se em ruído, o ruído em desordem: as senhoras que estavam nos camarotes, recuaram os seus bancos até não poderem ser vistas, espectadores das cadeiras e da platéia levantaram-se ao mesmo tempo como um só homem, e geral gritaria de "fora! fora! fora!" ribombou estrepitosa, insistente, ameaçadora no teatro.
Um porteiro veio humildemente pedir-me que me retirasse, oferecendo-me com estúpida e revoltante aparência de benignidade a vil quantia, por que eu pagara o meu bilhete; resisti e furioso disse uma injúria ao mísero porteiro.
Mas a gritaria tempestuosa continuava; insultos desabridos, ameaças ferozes chegaram a meus ouvidos; a polícia interveio debalde em meu favor; a pateada violenta ameaçava degenerar em motim. No maior fervor da borrasca recebi da autoridade policial não uma ordem, porém um pedido para retirar-me do teatro, do qual então imediatamente sai vexadíssimo, ardendo em cólera, ferido pela reprovação de todos, e ao som dos aplausos escarnecedores, com que era festejada a minha vergonhosa retirada.
Nos dois seguintes dias teimei em aparecer ao público e experimentei iguais testemunhas de geral condenação.
Nas ruas e praças fui cem vezes apupado.
Na tarde de um desses dias tentei ir passear a Niterói; mas a minha entrada na ponte da companhia Ferry, produziu um movimento ameaçador entre os passageiros, e eu tive logo de sair da ponte ao ouvir algumas vozes sinistras que repetiram: "deitá-lo-emos ao mar!"
Em um hotel negaram-se a dar-me o jantar que pedi.
O cocheiro de um carro da praça não quis acudir ao meu chamado.
E ninguém mais fugia de mim, porque todos me espantavam com ameaças.
No terceiro dia fiquei encerrado em casa; mas à noite fui a um aparatoso baile, para o qual estava desde algumas semanas convidado.
Era uma brilhante festa dada em aplauso e honra de um casamento com ardor desejado, e com júbilo abençoado pelas famílias dos noivos.
Apenas apareci foi extraordinária a agitação que se sentiu na sala cheia de convidados, as senhoras encheram-se de terror, e cobriram os rostos com os leques e os lenços, a noiva esteve a ponto de desmaiar; os homens deixaram-me perceber pragas que a cortesia, e o respeito à sociedade onde estavam, abafavam; o dono da casa três vezes encaminhou-se para mim e outras tantas recuou confuso e com evidentes sinais de contrariedade; eu o compreendi, e poupando-lhe o amargor de uma despedida formal, fiz o que me cumpria: fugi desesperado, chorando de raiva, e cada vez mais convencido da malvadeza de toda a humanidade.
Que noite de cruel vigília ainda mais cruel do que tantas outras, cujos horrores já havia provado!
Eis-me pois ainda mil vezes mais desgraçado do que dantes!
Não creio em homem algum, em mulher alguma: sou a descrença viva, ceticismo animado.
Desconfio de todos.
Aborreço a vida, mas sendo obrigado a Viver, como vai correr a minha vida?
Um por um todos se arreceiam de mim, e todos me detestam.
Em toda parte sou por todos enxotado, de toda parte repelido.
Ninguém me quer ver; quando apareço, ninguém me tolera.
Tocou-me a lepra moral.
Eu sou como a peste, pois todos fogem de mim; sou pior que a peste, sou como um cão hidrófobo que se persegue, e cuja morte se deseja!
Oh, meu Deus! meu Deus! Eu sou católico e é somente por isso que não me mato; mas se alguma vez o suicídio pudesse merecer o perdão, a vez do perdão do suicídio era esta.
Meu Deus! eu pequei, confiando na magia, entregando-me a um pérfido mágico, aceitando para meus olhos o socorro do demônio!
Perdão, meu Deus!
Oh!... como é bom não ver!!!
Não sei, não posso dizer quantas vezes nessa noite furioso lancei mão da luneta mágica para quebrá-la; mas, com vergonha o confesso, nunca tive animo bastante para realizar o meu pensamento.
Não dormi um instante, chorei quase toda a noite, e quando não chorei, revolvi-me, debati-me no leito em agitação violenta, e devorado por abrasadora sede.
Na manhã seguinte eu tinha os olhos inchados, a cabeça atordoada, e o rosto inflamado; senti-me doente; mas não quis anunciar o meu estado.
Às dez horas introduziram no meu quarto o Sr. A..., o dono da casa, donde eu fora expelido na noite antecedente.
Recebi-o sem ressentimento.
-- Está doente ? perguntou-me.
-- Um pouco; sofri muito esta noite.
-- Eu o previ, meu amigo, e por isso me apressei a vir dar-lhe explicações, que reputo indispensáveis até para o bem do seu futuro.
-- Agradeço a sua bondade; eu porém sei tudo e sei demais.
-- Que sabe, pois?
-- Que um miserável, o muito conhecido velho Nunes, fez espalhar a notícia de que eu possuo uma luneta magica, pela qual chego à visão do mal, e descubro todos os segredos e todas as maldades e vícios que se escondem e se dissimulam; e que o medo que causa n minha luneta faz com que se levantem contra mim todos os homens, porque com efeito todos são perversos e temem que sejam conhecidas suas perversidades.
-- E então...
-- Então desde que se espalhou tal noticia eu tenho sido apupado, insultado, repelido por toda parte, onde apareço. Não é isto?
-- Não é tudo, como lhe parece.
-- Explique-se.
-- Não se ofenderá se eu lhe disser toda a verdade?
-- Não: diga tudo.
-- Meu amigo; a população da nossa capital 6 muito civilizada, e não acredita no poder da sua luneta mágica.
-- Neste caso por que me fogem?... Por que me apupam?... Por que me temem?
-- Aqueles que o têm perseguido com apupadas e os que fogem tremendo da sua luneta dividem-se em duas classes, uma a que pertencem todos os crédulos e pobres de espírito que ainda prestam fé a feiticeiros e artes mágicas: há dessa gente em todas as capitais; a outra é a dos garotos que ousam rir e zombar de infortúnios e males a que todos estamos sujeitos.
-- Que quer dizer?
-- Quanto aos mais eu vou dizer-lhe o que há, e arme-se de coragem para ouvir-me.
-- Nada mais me pode admirar, e menos assustar neste mundo.
-- O velho Nunes, que se proclama seu amigo e intimo confidente, foi com efeito o propalador das notícias que correm; e sabe o que se pensa? O que todos acreditam?
-- Diga.
-- Que o senhor, tendo imaginação ardentíssima e fraquíssima razão, foi arrastado por um pérfido e malvado armênio até deixar-se dominar pela mais inacreditável mania; que por isso o senhor imagina ver o que não vê, o que não é real; supõe, julga infalível a visão extraordinária da sua luneta, e nas confidências de alguns amigos, que aliás abusam da sua credulidade enferma, descreve os corpos, e expõe íntimos das consciências de quantas senhoras, e de quantos homens fita com a sua luneta.
-- Mentira e verdade! corpos não, é falso; minha luneta 6 honestíssima; almas sim, minha luneta as patenteia plenamente, e eu tenho visto em todos hediondas maldades.
-- Não discutamos agora esse pretendido poder da sua luneta. O que é certo é que o simples receio de que o senhor, acreditando que vê realmente o que apenas molestamente imagina, e que descreve em confidências de amigos quadros físicos, defeitos e virtudes, em que ninguém crê; mas que em todo caso ridiculizam não pouca as vítimas da sua luneta, faz com que todos o evitem, todos o queiram longe, todos temam somente o ridículo que provém do que chamam sua manta.
-- Mania!!! que o seja embora; mas eu juro que não tenho um só amigo, que não tenho confidentes: isso é calunia.
-- Cumpria-me dar-lhe estas explicações, meu amigo. Fique certo de que não há homem, nem senhora de juízo que dê importância e que tema a sua luneta mágica; mas das suas falsas apreciações, e dos sonhos extravagantes mas não recatados, não ocultos da sua imaginação resultam o ridículo de que todos querem escapar.
-- Entendo-o perfeitamente.
O Sr. A... disse-me ainda algumas palavras consoladoras; convidou-me a tratar da minha saúde alterada pelo excesso de imaginação, e fraqueza do espírito e deixou-me enfim.
E esta!
Por conseqüência estou definitivamente declarado doido pela opinião pública que e a rainha do mundo, e cujos decretos não tem apelação.
A humanidade perversa e infame engenhou o mais seguro dos meios para livrar-se de mim: não há recurso contra ela.
Todos os homens, todas as mulheres cientes do meu poder, todos e com eles e elas todos os médicos, autoridades declaradas e decretadas na matéria dizem- que estou doido!
Não há, não pode haver uma só voz que proteste contra a sentença; porque a todos eles e a todas elas convém que eu seja reconhecido- doido.
Há só uma voz que pode e há de protestar, é a minha, a voz suspeita, a voz do doido.
Por conseqüência estou doido!!!
E amanhã, ou hoje mesmo, talvez daqui a uma hora, quatro ou seis policiais quatro ou seis urbanos virão agarrar-me, e hão de conduzir-me ao hospício da Prata Vermelha!...
E meu irmão se mostrará compungido, e a prima Anica fingirá chorar, e a tia Domingas rezara por mim nos seus rosários!!!
E rir-se-ão todos de mim!... e me chamarão o doido!
Meu Deus! estarei eu realmente doido?...
Ninguém compreende os tormentos que sofri com esta nova perseguição da perversidade dos homens, com esta idéia da- loucura- que começou a agitar-me.
O atordoamento da minha cabeça aumentou, a febre devorou-me com milhões de línguas de fogo e eu bradei em alta voz:
-- Água! água! quem me dá água?...
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