Sala, ornada com esmero e luxo; portas, ao fundo e aos lados, dando comunicação para o exterior e para o interior da casa.
Fanny, que entra pelo lado direito; Petit, que ao mesmo tempo aparece à porta do fundo.
Petit (Suspirando) - Miss Fanny!
Fanny (Estremecendo) - Ah!…monsieur Petit! Ficar muite sustade...este non se use n'Ingliterre.
Petit - Oh! non tem que assusta; eu venha aproveitar momento deliciose de conversa sozinha com miss Fanny em uma tête-à-tête impreciável.
Fanny - Mim ficar muite envorganhade com este conversacion.
Petit - Oh! miss Fanny, non tem vergonha!vergonha non presta por nada: gente que tem vergonha, non sabe arranja sua vida. (Olhando para dentro) Onde está as senhoras?
Fanny - Poder estar segura: madame fique sentada de fronte de toucador, e pinta suas cabelinhas brancas; e mademoiselle estar no janela de sala grande olhando repagão barbude do sobrado de esquina.
Petit - E senhor Maurício estar em sue gabinete lendo contas de despesa e roendo as unhas: então nosso tête-à tête se prolongue dues hores; porque madame tem muito que pinta, mademoiselle muito que olhe, e senhor Maurício muito que róe.
Fanny - Oh! mas este non se use n'Ingliterre; done deste case ganhe cinco e gaste cincoenta; este família ser gente de imposture: contracta mim para ensina inglês mademoiselle, e non paga minhas ordenados cinco meses! Mim há de faz queixa a ministro inglês.
Petit - Esta gente non ande direita. Senhor Maurício tem bola virada, e madame non tem bola para virar; non pode gastar e faz ostentação, e tem em casa professora de inglês para mademoiselle, e criado francês para servir na sala; mas também quatro meses que eu non recebe meus salários, e se miss Fanny non mora nesta casa, eu bota logo pés na rua.
Fanny - De mèsme sorte mim non poder ficar separade de monsieur Petit.
Petit - Oh! este confissão me torne verdadeiramente um grande Petit! Miss Fanny, vamos deixar esta casa, vem dar coroa de felicidade ao meu amor.
Fanny - Oh! Este non se use n'Ingliterre; mim non poder dar corôa de felicidade, sem ver padre católica bota mão de Petit em cima de mão de Fanny.
Petit - Eu non ponha dúvida em fazer aliança anglo-francesa com miss Fanny...é maior ventura que suspira!
Fanny - Então, mim dar corôa de felicidade: confessa que estar muito desejose...
Petit (De joelhos e beijando-lhe as mãos) - Miss Fanny! Oh! quel bonheur!
Petit de joelhos, Fanny e Anastácio, que aparece à porta do fundo; vem trajando à viajante e traz botas grandes e esporas.
Anastácio - Oh lá...que par de galhetas! Parece uma coruja que ouve em confissão a um macaco d'Angola!...
Fanny - Ah! Ficar muite vergonhade!...este non se use n'Ingliterre.
Petit (Levantando-se) - Que diabo de mineiro! (Indo à porta) Non entra na sala com esses botas que traz lama!...
Anastácio - Não entra na sala!
Petit (Firme, diante de Anastácio) - On ne passe pás!
Anastácio (Ameaçando-o) - Arreda-te, malandro! Quando não...
Petit (Firme) - La garde meurt, elle ne se rend pás!
Anastácio (Dando-lhe um murro) - Insolente!...(Entra)
Petit (Caindo) - Au secours!...au secours!…
Fanny - Mim vai grita quem de rei, e chama dona de casa! Este non se use n'Ingliterre.
Petit, Anastácio, e logo Leonina.
Anastácio - Entrei como Palafox em Saragoça!
Leonina - Que é isto?...Que aconteceu?
Anastácio (Á parte) - Que mocetona! É a tal cabecinha de vento, sem dúvida.
Petit - É este mineiro que arruma soco inglês, e entra à força na sala com esses botas que traz lama.
Leonina - E por que não havia de entrar, uma vez que vem procurar a meu pai ou a minha mãe? (Com austeridade.) Retira-te.
Petit (À parte) - Ah! Sapristi!...(Vai-se)
Leonina - O senhor quer ter a bondade de sentar-se?
Anastácio (Sentando-se) - Sou capaz de apostar que a menina não adivinha quem eu sou.
Leonina (À parte) - A menina!...já se vê que este homem é grosseiro. (A Anastácio) Certamente, que não tenho a fortuna de o conhecer.
Anastácio - Ora aí está, como são as coisas! Eu conheço a menina como as palmas das minhas mãos.
Leonina (Á parte) É um velho doido! (A Anastácio) - Não admira, porque eu sou bastante conhecida, pelo menos na alta sociedade do Rio de Janeiro.
Anastácio - Pois não deve ufanar-se disso. O que mais convém a uma senhora honesta é que não se fale muito em seu nome, nem em bem e ainda menos em mal; e a uma menina solteira o que melhor assenta é, recolhida no seio da modéstia, fazer-se notar pela virtude que não se ostenta, e que, no entanto, excita a admiração, por isso mesmo que não procura louvores.
Leonina - Meu senhor, eu prefiro que em lugar de dar-me conselhos, que não pedi, diga-me o que pretende e se deseja falar a meu pai.
Anastácio - Já agora conversaremos um pouco; hei de provar que a conheço bem: sou um velho feiticeiro que adivinha a vida, os pensamentos e até os segredos do coração das moças! Olha para mim sorrindo-se?...pois escute: a menina chama Leonina, e bem que assevere a todas as suas camaradas que conta somente dezessete anos de idade, vai completar os seus vinte dois justinhos daqui a cinco dias.
Leonina - Senhor!
Anastácio - A menina toca alguma coisa o seu piano; canta um pouco mal a sua ária italiana; tem de cor algumas frases do francês; desenha um nariz que parece uma orelha; dança e valsa noites inteiras nos bailes; passeio e conversa sem vexame com os rapazes, e presume por isso que tem uma educação completa. Engano, menina! A Verdadeira educação de uma moça é aquela que, antes de tudo, deve torná-la uma boa mãe de família; a outra, a educação fictícia, aquela que recebeu, e que muitas recebem, pode dar em último resultado excelentes e divertidas namoradas, porém esposas extremosas e mães dignas deste nome sagrado, palavra de honra que não, minha senhora!
Leonina - O senhor tem a idéia de ofender-me?
Anastácio - A sua história é em tudo semelhante à de muitas outras. Cedo, bem cedo foi a menina arrastada para o turbilhão das festas ardentes, onde o delírio segue de perto a alegria, a sensibilidade se embota, e o fingimento usurpa o lugar da inocência; e a menina, na idade em que devia ainda brincar com bonecas, sonhou com amores e conquistas, amou ou supôs amar ao próximo antes de amar a Deus, e só se lembrou da igreja lembrando-se do casamento.
Leonina - Assim mesmo para um roceiro, o senhor fala corretamente! É provável que seja eleitor e juiz de paz na sua terra.
Anastácio - Dentro em pouco a vaidade encheu de teias de aranhas essa cabecinha de criança. A menina realmente não é feia, julga-se, porém, a primeira formosura das cinco partes do mundo: critica e murmura desapiedadamente até das suas próprias amigas, e supõe-se por isso muito espirituosa; é filha de pais muito honrados, mas tão plebeus como este seu criado, e presume-se fidalga de sangue azul e torce o biquinho a todo aquele que na tem excelência de jure, e quinze avós ainda mesmo arranjados de encomenda entre os descendentes dos doze pares de França.
Leonina - Isso é demais! (Levanta-se) Eu vou chamar meu pai, que o fará sair imediatamente desta casa!
Anastácio - Escute ao menos um segredo do seu coração...
Leonina - Um segredo! (Com orgulho.) Que pode o senhor saber de mim?...
Anastácio - Foi, há dois meses; a menina encontrou no Clube Fluminense um elegante mancebo que lhe fez a corte, e, ou porque realmente gostasse do seu novo apaixonado, ou porque não achasse inconveniente em acrescentar mais um nome à lista dos seus namorados, mostrou corresponder ao amor desse jovem; os encontros repetiram-se nos bailes; das conversinhas misteriosas já se tinha chegado aos apertos de mão, e à troca de flores, e é escusado dizer que o papai e a mamãe não viam absolutamente nada; mas em certa noite, ainda no Clube Fluminense, alguém murmurou aos ouvidos da menina as seguintes palavras: - "Aquele moço que a requesta é um pintor e filho de um marceneiro"; - a terrível notícia acendeu os brios da fidalga, e o namorado plebeu foi condenado ao desprezo. Diga, menina, não é verdade?
Leonina - Não o nego; mas porventura deveria eu continuar a aviltar-me?...
Anastácio - Oh! não, não, de modo nenhum; há porém no fim dessa história, uma tristíssima e fatal realidade!
Leonina - E qual é? Já agora dê o seu recado até o fim.
Anastácio - É que o miserável pintor, filho do miserabilíssimo mestre marceneiro, é...é...tenho vergonha de acabar a frase.
Leonina - Nada de reticências; eu quero que diga tudo.
Anastácio - Pois então lá vai, minha fidalga: é que o miserável pintor, filho do miserabilíssimo mestre marceneiro, é...tenha paciência, é, sem mais nem menos, primo-irmão de Vossa Excelência.
Leonina - Oh! eu não posso suportar essa ironia insultuosa! (Chamando) Meu pai!...meu pai!... minha mãe!...
Anastácio - Manchei-lhe o sangue azul com as tintas do meu pintor!... E como ficou irritada!... Menina, façamos as pazes! (Procurando-a) Venha um abraço em sinal de reconciliação!...
Leonina (Fugindo) - Meu pai!...minha mãe!...
Anastácio (Seguindo-a) - Há de dar-me um abraço, quer queira, quer não.
Leonina (Fugindo) - Meu pai! Acuda-me!...
Anastácio (Seguindo-a) - Pois agora há de ser um abraço e um beijo...
Anastácio, Leonina, Maurício e Hortênsia.
Maurício - Leonina... (Vendo Anastácio) Oh!...mano Anastácio!...(Abraça-o)
Hortênsia - Meu mano! (Abraça-o por sua vez)
Anastácio - Sim! Ele mesmo!...depois de dezoito anos de ausência!...ele mesmo!
Maurício - Que prazer! Que felicidade!...
Leonina - Pois é meu tio?...é o meu padrinho?...
Hortênsia - Sim, minha filha, é o teu padrinho.
Anastácio (Chorando) - Conheceram-me logo...amam-me ainda...não se esqueceram do velho rabugento...mas...parece-me que estou chorando...isto é uma vergonha na minha idade... Maurício, mano, outro abraço para esconder estas duas goteiras de casa velha!...(Abraçam-se)
Leonina - E eu então, meu padrinho?...
Anastácio - Ah! Já, minha cabecinha de vento?...não te disse que havias de dar-me um abraço e um beijo? (Abraça-a e beija-a na fronte) Pois toma dois e três de cada espécie, e estes podes receber e pagar com juros sem dar satisfação à língua do mundo.
Maurício - Quando chegaste, Anastácio?
Anastácio - Agora mesmo; apeei-me à porta de tua casa.
Hortênsia - Mas por que gritavas com tanto desespero, Leonina?
Leonina - Ora...eu não conhecia meu padrinho, vendo-o correr atrás de mim para me abraçar...(Sentam-se)
Anastácio - Não foi isso, mentirosa! Deves dizer sempre toda a verdade a teus pais: mana, fui eu que, conforme o meu costume, ralhei como um frade velho. Leonina, tenho mais vinte anos do que teu pai, e portanto acho-me com direito de avô. Meus pais desejaram que eu fosse padre, e deram-me uma educação severa e estudos variados e sérios; circunstâncias que agora não vêm ao caso, afastaram-me das ordens sacras; fiquei, porém, com as menores, e , sem ser padre gosto de pregar os meus sermões; dispõe-te pois a aturar-me, que tens muito que ouvir e eu muito que ralhar.
Leonina (À parte) - Pior está essa! Mas o meu recurso é simples: para um velho que ralha, uma moça que ri.
Maurício - Sim, ralhe muito com ela e para isso não nos deixe mais nunca.
Anastácio - Mais nunca?...Havia de ser bonito! E quem me tomaria conta das fazendas em Minas?...cheguei há pouco e sinto que já estou pelos cabelos: a vida da cidade é só para gente vadia.
Hortênsia - Um homem solteiro, quando chega à sua idade e é bastante rico, tem o direito de descansar e gozar.
Anastácio - Não; o homem ocioso é sempre um peso para a sociedade. O trabalho é uma lei de Deus que se deve cumprir até a morte; sou rico, nunca porém serei vadio, nem perdulário.(Olhando). Mas pelo que vejo, tu andas pelas grimpas, Maurício? Aposto que tens os teus vinte contos de renda anual?.. não...ah! já sei, tens tirado a sorte grande cinco ou seis vezes.
Leonina - Qual! todos os bilhetes, que papai compra, saem brancos.
Anastácio - Então, acumulas alguns sete empregos para receber os vencimentos de todos eles, sem cumprir as obrigações de nenhum: acertei! A nação é quem paga o pato, e, coitadinha! Não se queixa, porque já está acostumada. A quanto chegam os teus ordenados?
Maurício - Tenho só um, Anastácio, e esse e mais achegos dão-me por ano cerca de cinco contos de réis.
Anastácio - Ao menos esta casa é propriedade tua...
Maurício - Infelizmente não; e as casas estão por um preço fabuloso: pago de aluguel por esta dois contos de réis.
Anastácio - E com os três contos que restam dos cinco que ganhas, e vestes com o luxo que vejo a tua família, pagas criados franceses que olham com desprezo para quem traz botas à mineira, e tens salas como esta, mármores, ricas mobílias, e esta grandeza toda?...Maurício!...
Hortênsia - Que quer dizer, meu mano?
Anastácio - Eu não quero dizer nada: o adágio antigo é que diz uma coisa muito feia, porém muito verdadeira.
Leonina - Ora, pois meu padrinho há pouco ralhava comigo, e agora já está ralhando com meu pai. (Levanta-se e senta ao pé do padrinho).
Anastácio - E que tem você que ver com isto?...destas despesas loucas e superiores aos recursos de quem as faz, transpira uma prova de demência ou de imoralidade. Quem despende mais do que ganha, ou cai na miséria ou no crime...quem...tá...tá...tá...que tenho eu de meter-me com a vida alheia?...Maurício, como está Felisberto?...
Maurício (Confuso) - Felisberto...
Hortênsia (Confusa) - Felisberto...
Anastácio - Sim...Felisberto, vocês hesitam? Acaso terá morrido?
Leonina - Minha mãe, quem é esse Felisberto?...
Anastácio - Quem é esse?... é teu tio, o irmão de teu pai, o cunhado de tua mãe, é meu irmão; um homem honrado e laborioso, e um mestre marceneiro da primeira ordem.
Leonina - Marceneiro!...pois isto é verdade, minha mãe? (Vai sentar-se ao fundo muito triste).
Hortênsia (À parte) - Antes nunca tivesse voltado à corte este velho doido.
Maurício (Levanta-se) - Meu mano...a alta sociedade que freqüentamos...as nobres relações que temos...certo pundonor...os prejuízos talvez....Têm feito com que...a pesar nosso...
Anastácio - Tu gaguejas?...estás engasgado com alguma indignidade?
Maurício - Não...nós estimamos sempre muito a Felisberto; mas um simples marceneiro...podia ser encontrado aqui por fidalgos, titulares, grandes personagens enfim, que nos honram com a sua amizade; e por isso...e por um vexame muito natural...
Anastácio - Fechaste a porta a nosso irmão?...Que miséria!...como deve estar corrompida esta sociedade em que há quem se lembre de quebrar os sagrados laços do sangue e de voltar o rosto a um irmão, só porque ele é um simples artífice! Que sociedade é esta tão estúpida, que não sabe repelir de seu seio esses Cains da vaidade, como Deus repeliu o Caim da inveja!...(A Maurício e batendo com o pé no chão) Caim!...Caim!...
Maurício - Anastácio!...
Anastácio - Fidalgo improvisado! O teu castigo é a voz da verdade que soa em tua consciência; e onde quer que vás, onde quer que estejas, eu, eu, que não renego nem o meu passado, nem os meus parentes; eu, enquanto vivo for, bradarei aos teus ouvidos: lembra-te, meu fidalgo, que nosso pai foi um nobre ferreiro, que durante sessenta anos se chamuscou na forja e bateu na bigorna! Teve por título de nobreza a sua imaculada probidade, e por glória o seu trabalho e a educação da virtude que soube dar a seus filhos; foi deveras um nobre ferreiro, e é pena somente que deixasse um filho doido!
Maurício - Oh! é muito!
Hortênsia - Meu mano, as coisas aqui na corte não se passam como lá na roça; aqui há certas prevenções...certas considerações...
Anastácio - Engana-se, minha senhora: lá na roça, como aqui na corte, os tolos de ambos os sexos abundam do mesmo modo.
Hortênsia - Senhor...é quase um insulto!
Anastácio - Tire-lhe o quase e seja um insulto completo; desagrado-lhes, não é assim?...pois fiquem-se com a sua fidalguia que eu vou direto para casa do marceneiro.(Indo-se)
Hortênsia - Não...não...é impossível que briguemos: não há de deixar-nos assim.
Anastácio - Nesse caso terão de ouvir-me, e aturar-me.
Hortênsia - Diga o que quiser, já lhe conhecêssemos o gênio; mas não faça injustiças: temos uma filha que desejamos casar bem; e é provável que se viesse a saber que é sobrinha de um marceneiro, não pudéssemos arranjar-lhe um noivo de família nobre.
Anastácio - É a honra que enobrece o homem; e eu juro que não há homem mais honrado do que meu irmão marceneiro: pode bem sentar-se a par do melhor dos seus barões.
Hortênsia - E se o barão fugisse do seu lado?
Anastácio - Provavelmente o faria envergonhado, por dever-lhe ainda a mobília da sala.
Maurício (À parte) - E ele tem razão...eu sou um miserável!
Leonina (À parte) - Marceneiro!...estou definitivamente desacreditada!...
Hortênsia - Deixe estar, mano, que havemos de fazê-lo chegar à razão. No dia dos anos de Leonina vamos dar um baile, e por sinal que será de máscaras, para aproveitarmos a coincidência da segunda-feira do Carnaval; hoje mesmo receberemos visitas, e o mano há de ufanar-se de ver a brilhante sociedade com que nos achamos relacionados.
Anastácio - Sim, hei de pôr-me nas pontinhas: jurarei que sou bisneto do imperador da China, e que portanto somos parentes do sol e da lua; creio que vocês por ora se contentam com estas alturas. Ah Gil Brás de Santilhana!...mas...que idéia!...não a devo perder...meus fidalgos, até logo! Vou ver o nosso...o meu irmão marceneiro; contem porém comigo, que ainda hoje hei de fazer brilhaturas!...(Vai-se).
Maurício (Seguindo-o até a porta) - Anastácio!...
Leonina (À parte) - Marceneiro!...
Leonina, sentada a um lado; Maurício e Hortênsia; Petit entra, acende velas e retira-se.
Maurício - E lá se foi correndo!
Hortênsia - Antes nunca tivesse chegado; veio só para envergonhar-nos. Este fatal segredo, que com tanto cuidado ocultávamos de nossa própria filha, ele o revelou, enchendo de amargura aquele coração inocente e o nosso nome e os nossos projetos...
Maurício - Hortênsia, ninguém pode ignorar que Felisberto é meu irmão...Não é acreditável que não saiba isso, e nós já fazemos demais não o recebendo em nossa casa há dez anos.
Leonina (Á parte) - Marceneiro!...
Hortênsia - Mas por que ferir-nos em ponto tão delicado! Olha, se Anastácio não fosse padrinho de Leonina, e não esperássemos que ele venha a instituí-la sua herdeira, por certo que não me sujeitaria às suas brutalidades.
Maurício - E no entanto é sempre a verdade o que ele diz! Ainda há pouco anunciou-nos a miséria, e tu sabes, Hortênsia, que a miséria nos está estendendo as garras!
Hortênsia - A que vêm essas tristes idéias?...dentro em breve ajustaremos o casamento de Leonina com o comendador Pereira: a riqueza do genro esconderá a pobreza do sogro; confia em mim.
Leonina (À parte) - Marceneiro!...
Maurício - Sim...abracemos a mais leve esperança...esqueçamos o mal que nos ameaça: creio que pouco tardarão as nossas visitas, convém que nos mostremos alegres.
Hortênsia - E que nos retiremos da sala, pode ser que o comendador chegue primeiro do que Dona Fabiana...
Maurício - Duvido: Dona Fabiana chega sempre cedo demais onde não se precisa da sua pessoa. Eu aposto que ela chega primeiro. (Vão-se)
Leonina (Sentada e muito triste).
Marceneiro! Marceneiro! Como vão zombar de mim aquelas que não valem tanto como eu! Hão de fazer-me em cem pedaços com o serrote de meu tio marceneiro! Dona Luizinha, que tem olhos cor de vinagre, vingar-se-á de meus belos olhos pretos, repetindo: - marceneiro! - Dona Jesuína, que tem mãos de calafate; Dona Sofia, que tem dentes de tubarão; Dona Leocádia, que tem cintura de abade velho, vingar-se-ão de minhas mãos de princesa, de meus dentes de pérolas, de minha cintura de fada, contando a todos que sou sobrinha de um marceneiro!Oh! é horrível! Quando eu supunha que mais cedo ou mais tarde viria a ser condessa ou pelo menos baronesa...é abominável! (Silêncio) marceneiro!...(Chora) marceneiro!...(Desesperada) marceneiro!...(Ouve-se o rodar de uma carruagem). Oh! um carro que pára! Se forem senhoras, não devem suspeitar que eu padeço; (Enxuga os olhos e arranja os cabelos) folgariam com isso...Oh! Coração, esconde as tuas mágoas! Olhos, brilhai! Boca, sorri! Rosto, expande-te! E agora podem chegar, venham todas, porque eu tenho consciência de que sou formosa.
Leonina, Hortênsia, Maurício, e logo depois Fabiana, Filipa e Frederico.
Maurício - Então, que te dizia eu?...aí está a Dona Fabiana rompendo a marcha.
Hortênsia - Leonina, Dona Fabiana e sua filha vêm subindo a escada.
Leonina - Que horrível massada!...(Indo à porta) Chegue Dona Fabiana; chegue Dona Filipa; conheci-as logo pelas pisadas.
Frederico (Dentro) - De ora avante usarei de sapatinhos de cetim para ver se um dia mereço igual felicidade.
Leonina - Não faça tal: Vossa Senhoria mesmo sem sapatos de cetim já se confunde bastante com as senhoras. (Entram os três, cumprimentos, etc).
Frederico (À parte) - Decididamente recebi um cumprimento de mau gosto, ou então um epigrama ferino.
Hortênsia - Como passou de ontem, Dona Fabiana?
Fabiana - Sofri um pouco dos nervos: mas nem por isso quis faltar à minha palavra.
Maurício - É uma fineza de mais que temos de agradecer a Vossa Excelência, mas...creio que sobem às escadas.
Frederico - Quem será?...(A Leonina) - Vossa Excelência não adivinha pelas pisadas?
Leonina - Nem sempre: Dona Fabiana, Dona Filipa, e Vossa Senhoria já aqui se acham.
Frederico - Hei de fazer certa experiência, vindo aqui uma noite sozinho.
Leonina - Dar-nos-á ainda assim muito prazer; mas olhe que se expõe a ser confundido.
Frederico (À parte) - Foi epigrama; reconheço-o pela segunda edição.
Os precedentes, Reinaldo e Lúcia, cumprimentos, etc.
Leonina e Hortênsia - Oh! Dona Lúcia! Senhor Coronel!
Maurício - Como vamos, meu caro senhor coronel?...não há que perguntar, sempre remoçando...
Reinaldo (Olhando para Leonina) - Passei o resto da noite cheio de saudades e um dia inteiro anelante de esperanças...
Leonina (Á parte) - Aquilo é comigo. (A Reinaldo). Não precisa dizer mais: o teatro italiano faz-lhe saudades no fim das óperas, e acende-lhe esperanças com os cartazes. Vossa Excelência, creio eu, traz sempre um cartaz no coração!
Reinaldo - Minha senhora, dou-lhe minha palavra de honra que não sei o que se cantou ontem no teatro italiano.
Lúcia - Dona Leonina, meu paizinho levou hoje o dia inteiro a falar no seu fichu à Marie-Antoinette.
Reinaldo - E o seu balão, Excelentíssima! O seu balão é capaz de levar a gente às nuvens!
Leonina (A Filipa) - Você já viu homem mais tolo?...
Filipa (A Leonina) - Homem não, porém mulher, já vi.
Leonina (A Filipa) - Quem é?
Filipa (A Leonina) - A filha, que tem tanto de feia como de desfrutável. ( A Lúcia) Dona Lúcia, você é adorável!
Lúcia - Por que diz isso?...
Frederico - Perdão; mas é a nós os homens que pertence dizer esse porquê, visto que somos nós os que o sentimos melhor e mais profundamente.
Reinaldo (Que conversava com Maurício) - É possível!...o meu amigo Anastácio? O bom velho que me dava confeitos, quando eu era cadete?
Hortênsia - É verdade, depois de dezoito anos de ausência, chegou-nos hoje de Minas o padrinho de Leonina, o meu cunhado Anastácio. (Cumprimentos).
Reinaldo - Ditoso padrinho de tão formosa afilhada! O meu velho amigo!...Minha senhora, amanhã virei pedir-lhe de jantar ...quero jantar com o meu amigo Anastácio.
Hortênsia - Mas Vossa Excelência esquece que o comendador Pereira convidou-nos para passar o dia de amanhã no Jardim Botânico; convenha pois em que todos, que nos achamos presentes, jantemos juntos depois de amanhã para fazer uma saúde ao meu excelente cunhado.
Pereira (Dentro) - Com a devida vênia!...
Maurício (Indo recebê-lo) - Oh! senhor comendador!
Os precedentes e o Comendador Pereira.
Hortênsia - Senhor comendador, Vossa Excelência gosta demasiadamente de se fazer desejar!
Pereira - Não é isso, minha senhora, não é isso; é que eu venho desesperado...furioso...
Maurício - Então que há?
Pereira - Um atentado que revolta as leis da natureza! (Levantam-se todos).
Reinaldo - Diga depressa, senhor comendador: Vossa Excelência está expondo as senhoras aos ataques nervosos.
Pereira - O mundo está perdido!...
Lúcia - É algum novo cometa, senhor comendador?
Frederico - Qual, minha senhora, os cometas abundam tanto, que já não assustam a pessoa alguma.
Pereira - É coisa muito pior do que dez cometas juntos: é o esquecimento dos deveres mais sagrados, e da honra das famílias.
Hortênsia - Isso então é muito sério; diga o que foi...
Pereira - Mais um passo dado para o descrédito da aristocracia...
Reinaldo - Quem vem lá?...Passe de largo!
Pereira - Lembram-se de Dona Inocência, a filha de um barão, e descendente de uma nobre casa de Portugal?...
Fabiana - Sim...sim...a baronesinha, como todos a chamam...
Pereira - Sangue puro de fidalga! Sangue puro como o de um cavalo árabe!...
Filipa (A Leonina) - A comparação parece de boleeiro.
Pereira - Pois bem...saibam todos: casou-se hoje.
Reinaldo (À parte) - Ai! Tenho uma namorada de menos.
Vozes - Casou-se?...mas com quem?...
Pereira - Com um negociante de retalhos!!!
Hortênsia - De retalhos?!...coitadinha!
Fabiana - Passou de filha de barão a noiva de retalhos! pobrezinha!...
Reinaldo - Mas o pai...matou-se...não é assim?
Pereira - Vergonha das vergonhas! Abraçou o genro.
Reinaldo - É o progresso!...são as luzes do século!...
Hortênsia (Com fogo) - Não pode haver nobreza, onde os nobres se aviltam misturando-se com a canalha!...
Pereira - É inaudito!
Maurício - Paciência; mas esqueçamos aqueles que se esquecem de si mesmos.
Pereira - Nós, porém, lembremo-nos sempre do que somos!...
Hortênsia - Sim! Nós seremos sempre dignos do nome que temos, do sangue que gira em nossas veias, e da nobreza de nossas famílias.
Os precedentes, Anastácio, Felisberto, Henrique, e a seu tempo, Fanny e logo Petit.
Anastácio - Maurício! Mana Hortênsia! (Voltam-se todos). Aqui vos trago comigo o nosso irmão, o mestre marceneiro Felisberto, e o nosso sobrinho Henrique, pintor. (Surpresa geral).
Hortênsia (Desmaiando) - Ah!...
Leonina (Correndo a Hortênsia) - Minha mãe!
Maurício - Hortênsia!...desmaiada! meu Deus! Um médico! Petit, um médico!...(Movimento geral: Felisberto e Henrique ao fundo: no meio da confusão Anastácio tira do bolso uma carta, desdobra-a e prepara uma torcida de papel).
Fanny - Um médica! Monsieur Petit, um médica! Oh! este non se úse n'Ingliterre!
Petit - Le docteur! Le docteur! (Vai-se correndo).
Maurício - Hortênsia!
Leonina - Minha mãe!...
Pereira - Senhor Maurício, deite-lhe água fria na cabeça!
Reinaldo - Isto não é nada; deixem-me aplicar-lhe um globulozinho de beladona.(Tira do bolso uma caixa homeopática).
Anastácio (Avançando com a torcida de papel) - Afastem-se! eu curo em um instante minha cunhada. (Introduz a torcida no nariz de Hortênsia, e esta espirra). Espirrou!...está salva.
Hortênsia (Tornando a si) - Ah!...(Á parte) Malvado!...
Todos - Minha senhora!
Anastácio (Erguendo a torcida) - Viva a torcida!...a torcida é um específico infalível para o mal dos faniquitos!...
Leonina (À parte) - Marceneiro!...
FIM DO PRIMEIRO ATO
O teatro representa um ponto do Jardim Botânico; ao fundo vê-se o lago e a pequena ilha; à esquerda grupos de bambus, à direita aparece sobre o seu outeiro um lado da casa de cedro; árvores e arbustos convenientemente dispostos.
Maurício, Hortênsia, Leonina, Fabiana, Filipa, Frederico, Reinaldo, Lúcia e Pereira; uns contemplam o lago, descem outros da casa de cedro, etc: Anastácio, meio deitado na encosta do outeiro.
Hortênsia - Deveras que nunca vi rosa mais bela, nem mais perfeita.
Fabiana - Mas de quem seria a mão cruel que se atreveu a roubar aquela princesa do jardim? Vimos a rosa apenas alguns momentos, e quando voltamos a contemplá-la, tinha já desaparecido!
Reinaldo - A tal rosa tem dado que pensar às senhoras! oh! quem pudera transformar-me em um pé de roseira!
Hortênsia - É o mistério de uma flor, um começo de romance que enche de poesia o agradável passeio que nos proporcionou o comendador.
Pereira (Á parte) - Conheço agora que sou um homem muito espirituoso!
Lúcia - E não há quem rompa esse mistério?...
Filipa - Que mistério! Não há coisa mais simples: quem roubou a rosa foi o senhor Anastácio.
Pereira - Não, não; sou capaz de apostar que a rosa se oculta junto de algum coração apaixonado, e está reservada para ser a palma da beleza.
Frederico - E que pensa Vossa Excelência?...(A Leonina) Nem mesmo o destino misterioso dessa rosa pode arrancá-la às tristes meditações, de que hoje se mostra apoderada?
Filipa - E quem tem culpa disso é ainda o senhor Anastácio. (Rindo-se)
Hortênsia - E desta vez adivinhou, Dona Filipa: o mano levou a conversar toda a noite com Leonina, e, certamente, lhe pregou tal sermão, que ainda hoje a faz estar pensativa e triste.
Maurício - Pois vençamos a sua melancolia obrigando-a a passear; creio que as senhoras já descansaram.
Frederico - Sim, e as flores esperam as borboletas.
Fabiana - Vamos, e eu quero ser o cavalheiro de Dona Leonina: hei de conseguir torná -la prazenteira e alegre. (Dá o braço a Leonina).
Pereira (Dando o braço a Hortênsia ) - Minha senhora! (Vão saindo Fabiana com Leonina pela esquerda e Frederico com Lúcia, Pereira com Hortênsia, e Reinaldo com Filipa pela direita).
Maurício, que vai sair, e Anastácio, que o suspende.
Anastácio - Abre os olhos, Maurício, e atenta bem: não achas que aquela mulher, levando tua filha pelo braço, se assemelha muito a um algoz que arrasta consigo a sua vítima?...
Maurício - Mas, em tal caso, que papel entendes que eu represento?
Anastácio - Pior do que um pai tolo: o papel de um pai que desconhece os seus mais santos deveres.
Maurício - Sempre impertinente, Anastácio!
Anastácio - Escuta: há vinte cinco anos aquela mulher supunha-se amada por ti, e viu em Hortênsia uma rival preferida, quando com esta te ligaste em casamento. O desprezo de um homem abre no seio da mulher uma ferida envenenada que nunca cicatriza. A ofensa, foste tu que a fizeste, mas a mulher desprezada detesta ainda mais que ao ofensor a rival que triunfou. Assim, pois, diz a lógica, que Fabiana aborrece profundamente a tua esposa.
Maurício - Viste ainda há pouco como ela beijou-a com ardor?
Anastácio - Judas também beijou a Cristo poucas horas antes de vendê-lo. Tua mulher escapou outrora à vingança de Fabiana, porque esta, casando com um oficial do nosso exército, teve de acompanhá-lo para o Rio Grande do Sul donde só voltou há dois anos, depois de viúva.
Maurício - Estás perfeitamente informado da sua história.
Anastácio - Estabelecendo a sua residência nesta capital, Dona Fabiana dissipa loucamente a medíocre fortuna que lhe deixou seu marido, e mancha-lhe o nome honrado, conquistando uma reputação tristemente famosa. É uma libertina, para quem são apenas vãos prejuízos alguns dos preceitos que constituem a moral das famílias: sua casa é o ponto de reunião de um círculo licencioso; sua conversação espalha princípios desmoralizadores, e o se exemplo é uma lição corruptora.
Maurício - És severo demais, e por isso, sem o pensar, te fazes o eco de indignas calúnias.
Anastácio - Cometeste o erro de abrir s portas de tua casa à natural inimiga de tua mulher. Tu...que se importa ela contigo?...uma mulher nunca fere um homem, quando tem uma mulher para ferir; minha cunhada está defendida por um passado que a abona, e pela idade precisa para escapar às ciladas de algum galanteio que a leve á desonra; mas leonina, moça e bela, aí está, e Dona Fabiana, envenenando a vida inteira de Leonina, de um só golpe fará a tua desgraça e a da sua antiga rival. Maurício! Abre os olhos! Por aquela rua foi um algoz arrastando consigo a sua vítima.
Maurício - Faz-me tremer, Anastácio!
Anastácio - E, supondo extinto o ódio de Dona Fabiana, não bastam os seus princípios demasiadamente livres e sua reputação dilacerada pelo público, para que o dever te mande afastar Leonina de sua companhia? Um pai que expõe sua filha às conseqüências das relações perigosas, não é um pai, é um louco, para não ser um monstro. Oh! quando uma pobre moça, uma filha pervertida pela más companhias se deixa corromper, e se avilta, o mundo antes de castigá-la com o seu desprezo, devia primeiro cuspir na face do pai desnaturado que a levou pelo caminho do vício. Era isto, que eu precisava dizer-te: agora podes ir fazer os teus cumprimentos a Dona Fabiana.
Maurício - Dezoito anos de ausência da corte puderam tornar-te hoje, e apesar da tua instrução, como um estrangeiro no meio dela; desconheces os costumes e os usos da alta sociedade, e confundes a civilização com a licença.
Anastácio - No Rio de Janeiro, como em todas as capitais do mundo, a alta sociedade conta duas classes de freqüentadores que a deslustram: uma, é dos imorais e libertinos, que dela devia ser expelidos como indignos; a outra, é a dos elegantes caricatos, ridículos macaqueadores dos grandes; pobres tolos que são castigados em sua própria vaidade: a gente que te cerca, meu irmão, pertence a essas duas classes, e tu fazes parte da última.
Maurício - Anastácio, é demais!
Anastácio - Qual demais! Eu tenho ainda que dizer-te um milhão de verdades amargas...
Maurício - Pois eu não as ouvirei, agora ao menos; e fica certo de que nem sempre são os mais avisados aqueles que presumem ter mais juízo que os outros. (Vai-se)
Anastácio - Vai, abre porém os olhos, Maurício! (Seguindo-o) Porque por aquela rua foi um algoz arrastando a sua vítima!
Anastácio, e logo Henrique.
Anastácio - Eis aí um homem que tem uma cabeça de ferro; mas tão oca como um cabaço sem miolo!
Henrique - Meu tio, o que vossa mercê praticou hoje comigo chama-se uma traição: foi provocar-me a um passeio no Jardim Botânico, sabendo que vinham aqui passar o dia pessoas que me olham com o mais insultuoso desprezo, e obriga-me, para não encontrá-las, a correr a medo para as alamedas mais solitárias e afastadas, como se eu fora um miserável criminoso.
Anastácio - E vossa mercê, chegou há quatro meses da Europa com fumaças de artista de gênio; foi ao baile, apaixonou-se por sua prima que o não conhecia, e que voltou-lhes as costas, mal soube que o seu namorado era um pintor; então, lembrou-se vossa mercê do seu tio da roça; correu a Minas, confessou-me o seu amor, pôs-me ao fato da vida que levam seus tios da cidade, e arrancou-me da fazenda, sob o pretexto de que só eu podia salvá-los.
Henrique - E ainda bem que veio...
Anastácio - Ainda mal, porque estou desconfiando que cheguei tarde. Maurício disparou em tal carreira pela aristocracia adentro que é bem de crer que não pare senão à porta do palácio da Praia Vermelha. No entanto, eis-me arvorado em médico de loucos, e o senhor, que me impôs este mister, vem agora dizer-me que lhe estou armando traições!...Começo a acreditar que tenho na minha família mais doidos do que pensava...
Henrique - E considera-me talvez no número desses...
Anastácio - A falar a verdade, ainda não te suponho doido; mas, orgulhoso, olha que és muito, Henrique.
Henrique - É a vossa mercê que devo este meu orgulho: desde os primeiros anos senti arder em minh'alma o amor da arte; e foi meu tio que com a sua riqueza facilitou-me os meios para ir estudar na Europa. Ali, no foco da civilização, e no meio dos grandes mestres, a cada passo que avançava na conquista dos segredos da arte, reconhecia que me ia enobrecendo por ela; e quando depois de doze anos de um estudo incessante, ao apresentar um quadro que me fora inspirado pelas saudades da pátria, meu mestre correu a abraçar-me, chorando, e pintores célebres que têm um nome no mundo, me aplaudiram e me chamaram irmão, tive consciência de que valia alguma coisa; amei a minha palheta como um rei a sua coroa, e apreciei devidamente o meu nome de artista para não curvar a cabeça diante de papelões dourados. Eis aí o meu orgulho: é vossa mercê que o devo.
Anastácio - Segue-se daí que te mandei estudar para te fazer pintor, e que tu não me borraste a pintura; sê portanto orgulhoso com esses que em sua soberba desprezam o artista que vale mil vezes mais do que eles; quando porém se tratar de tua prima, perdoa-lhe as fraquezas, e humaniza-te com ela, mesmo porque a rapariga é bela como as virgens do teu Perugino.
Henrique - Quer então, meu tio, que eu me sujeite aos desdéns e aos insultos de parentes que se envergonham de mim?...Deseja, por exemplo, que Leonina suponha que eu vim hoje aqui de propósito para admirá-la...para beijar os vestígios de suas pisadas...para...Oh! não, meu tio.
Anastácio - Amas ou não amas tua prima?...Sim, ou não?...
Henrique - Ameia-a.
Anastácio - Falo-te no presente, e respondes-me no pretérito?...Tu não sabes gramática.
Henrique - Como quer que lhe responda?...
Anastácio - Sim, ou não?...amas, ou não amas?...
Henrique - Não devia amá-la.
Anastácio - Pior: tu não nasceste para pintor; nasceste para advogado e havias de ser grande na chicana.
Henrique - Não devia amá-la porque o seu coração é uma urna impura que guarda os restos de cem amores fingidos; não devia amá-la porque a sua vaidade amesquinha e desbota os seus encantos; não devia amá-la porque...
Anastácio - Mas, a pesar teu, morres de amores pela rapariga!...
Henrique - Ao menos saberei fugir dela.
Anastácio - Sim?...pois olha para aquela rua; de quem será aquele balão pavoroso, que não sei como entrou pelo portão do Jardim?...
Henrique - Oh!...é ela...eu fujo...adeus, meu tio...
Anastácio - Foge, corre depressa; mas eu no teu lugar deixava-me ficar, ocultando-me atrás destes bambus.
Henrique - Tem razão: vê-la-ei sem ser visto; mas não me atraiçoe.(Oculta-se)
Anastácio - Que ele não fugia, sabia eu muito bem! Os namorados parecem-se todos uns com os outros, com a mão direita com a mão esquerda.
Anastácio, Leonina e Henrique, que se conserva oculto.
Leonina - Então, meu padrinho, sempre se resolveu a vir jantar conosco!...
Anastácio - Não, senhora; não sou mulher nem político para andar mudando de opinião da noite para o dia.
Leonina - Entretanto, nós o viemos encontrar aqui.
Anastácio - É verdade, mas preferi à companhia dos seus fidalgos a de uma pessoa a quem tributo verdadeira estima.
Leonina - Sim, creio mesmo que me pareceu ter visto dois vultos, quando agora vinha chegando.
Anastácio - E encontrou só um, porque espantou o outro com a sua presença.
Leonina - Palavra de moça, que é a primeira vez em minha vida que assim espanto um homem! Quem é esse senhor espantadiço!...
Anastácio - É seu primo-irmão. (Silêncio). Sabe quem é seu primo-irmão?...