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O Moço Loiro

— Pois eu tenho culpa de lhe haver agradado?... tornou Brás-mimoso.

— Qual agradado, nem meio agradado; pois o senhor se capacita de que uma moça de bom gosto havia de interessar-se por um esqueleto de cinqüenta anos?

— O Sr. Manuel Venâncio me insulta!... exclamou Brás-mimoso.

— Manuelzinho, cala-te!... gritou Tomásia.

— Cala-te, Manuelzinho, repetiu Venâncio.

— O senhor, continuou Brás-mimoso, endireitando a gravata, com ter menos de vinte anos não é capaz de ser mais bonito nem mais engraçado do que eu.

— Pois mostre-se tal qual é, respondeu Manduca; tire os cabelos postiços, os dentes postiços, a cor postiça da cara!... o senhor sempre é um homem, que usa de mais postiços do que a própria mana Rosa...

— Não seja tolo, ouviu?... acudiu Rosa enraivecida, não me meta lá nas suas tratadas... minha mãe, ouça o que está dizendo este pateta.

— Manuelzinho, retira-te, disse Tomásia, a tua cabeça não está boa.

— Retira-te, Manuelzinho! repetiu Venâncio. Sr. Brás, não repare, a cabeça dele não está boa.

Manduca retirou-se furioso da sala, jurando vingar-se de Brás-mimoso.

— Não se enfade, Sr. Brás... aquilo é fogo de palha; tem estas imprudências, mas é um menino muito bem-criado e de muito bom gênio.

— Eu tenho-lhe amizade, disse Brás-mimoso, já menos irado; sei o que é o ciúme... o Sr. Manuel foi infeliz... é um rival que caiu por si mesmo; o mais terrível, e o que me dá mais cuidado é Otávio.

— Eu sei que ele já freqüenta muito a casa de meu amo, disse Félix.

— Pois bem: é esse o único que me incomoda; mas ao menos ele não pode deixar de ver-se muito atrapalhado.

— Por quê?...

— Porque a sua comadre mudou-se para Niterói, e consta-me que não deixa a companhia de D. Honorina... isto há de dar ainda muito que falar.

— Rosa!... que belos dias temos de passar... é preciso entrelaçarmo-nos de amizade com D. Honorina; domingo, agrados sobre agrados!

— Então domingo...

— Estamos convidadas a passar o dia com ela...

— Minha senhora... se eu pudesse ser apresentado...

— Oh! será uma contrariedade para Manuelzinho; mas se quiser pode ir em nossa companhia, e devo crer que será bem recebido.

— Disso tenho eu a certeza.

— Pois muito bem; está convidado.

Oh! presente do céu!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No entanto, que alguns dos apaixonados de Honorina preparavam-se para lutar, que Lucrécia se dispunha para vingar-se, ou pelo menos opor-se à ventura de Otávio, Tomásia e Rosa se tratavam para observar e murmurar; o que estaria projetando ou fazendo esse homem, de que nenhum deles sabe, esse incógnito, cuja existência só tem sido sentida por Honorina, Raquel e Lúcia?...

Duas semanas são passadas desde o seu último aparecimento: não há notícia nenhuma dele; ninguém o conhece... e Honorina, que em silêncio pensa nele, não se anima, nem se animará nunca a perguntar pelo moço loiro.

E quem é esse homem das sombras e do mistério?...

E o que quer dizer esse contínuo pensar do espírito de Honorina, que pende sempre docemente em suas reflexões das vigílias, e em seus sonhos das noites para esse jovem desconhecido?... o que quer dizer?...

Extravagante, estouvado por força, esse personagem misterioso, que ainda se não sabe, ao certo, que cara tem, que muda de semblante, de ofício, de vestidos, e de cabelos a cada hora, como pôde tão vivamente tocar a alma (e quem sabe se também já o coração) de uma inocente moça?...

Oh!... é porque a mulher ama, sobretudo, o que lhe parece mais romanesco e misterioso!

Sem que se dê por tal, ela é apenas curiosa no princípio, logo depois se faz interessada... e é um milagre se escapa de ser amante no fim.

E Honorina, que na cor pálida de seu rosto, na delicadeza de sua compleição, e em todos os seus traços enfim deixava ler esse temperamento, talvez perigoso, mas sempre interessante, no qual a vida está no sentimento, e com o qual somente se sabe compreender, sentir e alimentar essa paixão ardente, cujo fogo não minora, não se extingue, nem ao sopro do infortúnio, nem ao poder da prepotência, e com o qual, enfim, basta a impressão ligeira de uma figura, que se vê na sombra... diáfana... misteriosa, que se adivinha bela, que se sonha, como se deseja para dar um rumo ao batel da vida, que nem um tufão da tempestade, nem a agitação das vagas pode jamais mudar; para dar um doce pendor ao espírito, que nem a docilidade dos conselhos, nem a força de uma ordem, nem o rigor do despotismo pode fazer desaparecer; e Honorina, dizemos nós, romanesca e entusiasta, tinha cedido à força de sua organização e ao enlevo do misterioso proceder do homem que a amava na sombra.

E, portanto, já havia um segredo na vida da moça, e apesar dela uma ação que às vezes a obrigava levemente a corar. O segredo estava em seu coração... ainda pouco inteligível para ela mesma: era o sentimento que começava a votar ao moço loiro; a ação de que levemente corava, era o ter ela guardado a sempre-viva que o zéfiro da manhã lhe atirara dentro da câmara.

Duas semanas estavam passadas depois da noite do sarau; novas amizades tinham vindo ocupar-lhe horas de alguns dias; Lucrécia, que havia alugado uma casa em Niterói, era então assídua junto dela, e a cercava de obsequiosos cuidados; mas Honorina se contrafazia ao pé de Lucrécia... amava a solidão... suspirava em silêncio, e apesar seu... pensava no moço loiro.

Honorina se tinha tornado docemente melancólica, o que fazia ainda mais realçar os seus encantos.

Ela precisava sem dúvida confiar seus sentimentos... seus receios e seu estado a uma amiga; mas Lúcia tinha o triplo da sua idade, e, posto que não hesitara em mostrar-lhe os primeiros escritos do moço loiro, agora ela não podia resolver-se a corar diante dela, confessando-lhe que guardara a sempre-viva, ainda que lhe repetisse as mesmas palavras que costumava dizer a si própria para desculpar-se diante de sua mimosa consciência de moça:

— Não fui eu... meu Deus! foi o teu sopro.

Lucrécia... Lucrécia não era a sua amiga da infância, como Raquel, e Raquel estava longe dela.

Finalmente na manhã de sábado Hugo conveio em levar um bilhete de sua filha a Raquel; e, pois, Honorina escreveu depressa:

"Raquel!... Não nos pudemos falar a sós no dia em que fui à corte; e eu tinha tantas coisas para te dizer!... vem hoje Raquel, dormiremos juntas, e eu te contarei uma história bem singular: vem hoje, Raquel, ver a tua amiga — Honorina."

Nesse dia, não; mas na manhã do seguinte, Honorina abraçou a Raquel.

XVII

Canto ao luar

Um dia inteiro se tinha passado sem que Honorina e Raquel tivessem podido estar a sós alguns momentos. A casa de Hugo se achava cheia de visitas. Lucrécia se havia apresentado às nove horas da manhã. Otávio um pouco depois; às onze horas do dia, Venâncio com sua família, e Brás-mimoso; e, enfim, Félix. Era preciso, pois, que Honorina se repartisse por todas aquelas senhoras, que agradasse àqueles homens, que, em suma, desse alma à sociedade reunida em casa de seu pai.

O dia foi correndo prazenteiro e belo. Ema, apesar de não compreender como era possível tolerar-se a liberdade que aqueles homens tomavam com as senhoras, conversando, gracejando e lisonjeando a todas elas, não podia deixar de encher-se de orgulho, vendo a graça e a nobreza com que se portava a encantadora neta.

O jantar serviu-se tarde; e, já ao anoitecer, a sociedade, levantando-se, derramou-se pelo jardim. Ema, que não podia expor-se ao ar frio da noite, ficou na sala, acompanhada de Venâncio e de Jorge, o pai de Raquel.

Hugo de Mendonça passeava com Tomásia.

Honorina, defendida pela amizade de Raquel, vigiada pelo ciúme de Lucrécia, perseguida pelos impertinentes obséquios de Otávio, espantada das loucas pretensões de Brás-mimoso e do ridículo proceder de Manduca, caía às vezes em doces meditações, nas quais vinha quase sempre a imagem do moço loiro tomar o posto mais nobre.

Félix dava o abraço à sua querida prima; e, único feliz entre tantos, esquecia-se, conversando com ela, do tempo que passava, dos olhos que o cercavam, do passado, do presente e mesmo do futuro.

Porque o homem, que passeia com a mulher que ama, é um ente excepcional, cujo mundo não passa dela e dele; cujo mundo é fechado pelo horizonte de amor... horizonte belo, cor-de-rosa, brilhante, limitado... tão limitado, que dentro dele só cabem dois corações, somente soam as palavras de duas bocas, somente pensam duas almas; troca-se entre ambos uma linguagem, um idioma de fogo, e sempre novo, que se fala pelos olhos e se entende pelo tremer dos braços ou pelo palpitar dos corações; tudo que os cerca está fora do seu mundo, não tem nele existência possível; aí só vivem os dois... e amor.

Depois de algum tempo de passeio, as senhoras recolheram-se. Hugo foi ajuntar-se e tomar parte com Venâncio e Jorge na conversação de sua mãe, que, entusiasmada, se exaltava, fazendo a apologia das belezas, dos prazeres e dos puros costumes do seu tempo.

Otávio uniu-se a Félix, e ambos desapareceram pelas mais obscuras ruas do jardim, como se os ocupasse objeto de muito subido interesse.

Brás-mimoso e Manduca passeavam cada um para seu lado; mas na volta de uma rua encontraram-se, talvez contra a vontade de um deles.

Aqueles dois completos namorados sem ventura eram, em verdade, a personificação de duas classes de homens, que todas as senhoras devem mais ou menos ter encontrado no decurso de sua vida. Vejamos se, dando conta do caráter de cada um deles, poderemos ter a felicidade de chegar ao ponto de que cada moça que tiver estas linhas diante de seus belos olhos, possa dizer consigo ao recordar a coleção de seus impertinentes adoradores: "Brás-mimoso se parece com este; Manduca é o retrato daquele."

Há um sentimento... oh! seria profanação dar-lhe o sagrado nome de amor. Comecemos, pois, de outro modo.

Há homens detestavelmente vaidosos, homens insolentes, que não vêem na mulher senão a mais fraca e humilde das criaturas; homens que não amam nunca, pois são incapazes de tão nobres sentimentos, mas que trabalham para ser e se ufanam de parecer amados. A alma desses homens é torpe, é alma de lodo; e a mulher infeliz, a quem requestam, é por força a vítima de sua vanglória; porque, de duas uma, ou ela é bem desgraçada para corresponder a fingidos extremos, ou deles sabe zombar. No primeiro caso, lá vão os miseráveis ostentar seus triunfos em toda a parte... nas assembléias, nos passeios e no teatro eles desfiam a atenção do público para que todos sintam suas vitórias, invejem suas felicidades, proclamem-nos como conquistadores, embora à custa do nome e do crédito da vítima!... e, quando uma senhora os tem tratado de maneira que em sua própria vaidade não ousam supor-se felizes, eles ousam, contudo, por jactância e por vingança impor... fingir... dizer sê-lo! para eles o nome e a fama de uma mulher não é mais que a flor, que importa pouco ser quebrada, murcha e perdida, contanto que sirva um momento para ornar a coroa de seus improvisados triunfos.

Brás-mimoso, com ser tão ridículo em si mesmo, era um desses homens.

Há outros que, pelo contrário, nem se sabem fazer amantes; outros que, vivamente interessados por uma senhora, ficam duas horas a sós com ela sem lhe dizer palavra, e, quando ela se retira, vingam-se de si mesmos, beijando suas pisadas, e se conservam uma noite inteira contemplando a cadeira em que ela esteve sentada; que comem o palito que lhe caiu dentre os dentes, que beijam em segredo o papelzinho que ela enrolou entre os dedos, que decoram e adoram os versos das balas que se atreveram a estalar com ela, que a servem nas sociedades como um escravo, e depois se retiram para um canto, olhando-a de longe, e abaixando os olhos se encontram com os dela; que quando são obrigados a dar-lhe o braço, tremem como varinhas verdes; se ousam dirigir-lhe a palavra, gaguejam e se perturbam a ponto de causar piedade; e que, finalmente, confiando, a medo, seus extremos a um amigo, lastimam-se, choram e vivem assim.

Manduca era pouco mais ou menos um namorado deste gênero.

Ora, parece depois do que vem dito, que naturalmente o homem que impõe deve ser forte e valente, e aquele que chora, fraco e desanimado; pois por notável contradição sucede o contrário disso: as mais das vezes o chorão é um Hércules, e o impostor um covarde. E mais um exemplo vem para a regra; porque Manduca tem o braço de um atleta; e Brás-mimoso a natureza de um poltrão.

Exatamente por esse motivo, Brás-mimoso, que achava um não sei quê no rosto de Manduca, desde a última noite que havia passado na casa de Venâncio, não tinha lá a maior vontade de encontrar-se com o moço em lugar solitário; porém, tantas voltas deu o filho de Tomásia pelas ruas do jardim, que depois de aturado trabalho conseguiu encontrar-se cara a cara com Brás-mimoso, que, um pouco desapontado, e com o mais desengraçado e menos bem fingido disfarce, ia já se voltando para trás, quando Manduca o chamou dizendo:

— Sr. Brás, faça-me o favor...

— Oh! Sr. Manuel! exclamou Brás-mimoso, ora... muito bem diz o ditado — os que se querem, se encontram sempre.

— Fico-lhe obrigado; mas ouça-me, pois tenho que lhe falar.

— E eu também... quero dar-lhe os parabéns... o senhor tem sido feliz... felicíssimo... o nosso amigo Otávio deve trazê-lo na garganta.

— Pior é estar-me o senhor a trucar de falso!... disse Manduca levantando a voz.

Brás-mimoso estremeceu desde os pés até à cabeça.

— O Sr. Manuel parece um pouco... exacerbado!... creio que não fui eu quem teve a desgraça...

— Então já se esqueceu do que disse em minha casa sexta-feira à noite? perguntou o moço.

— Oh!... pois V. S.ª ainda se lembra disso?

— Lembro-me perfeitamente de que o senhor se fez de grande valentão, porque estava à vista de minha mãe; e, portanto, venho aqui repetir-lhe o que então disse, e dar-lhe um conselho proveitoso.

— Sr. Manuel, V. S.ª abusa da minha posição!...

— Eu quero repetir-lhe na cara que o senhor é um esqueleto de cinqüenta anos, um velho muito ridículo e miserável; pois que, sem se lembrar de que tem cara de avô, anda com pretensões de moço de vinte anos...

— Senhor... eu vejo que devo ser prudente com V. S.ª... eu me recordo de que V. S.ª é o filho de um homem... e de uma senhora.

— Digo-lhe, continuou Manduca, que me não importa que o senhor persiga com suas maneiras ridículas e desprezíveis aquela bela senhora; pois que eu a suponho com bastante juízo para não fazer caso de uma ostra, de um carrança espartilhado como o senhor!...

Brás-mimoso tremia e suava suores frios; por isso ouviu sem dizer palavra aquele ataque feito a seu amor-próprio.

— Porém, prosseguiu Manduca, e aqui vai o conselho; se o senhor tiver o atrevimento de gabar-se uma outra vez em qualquer parte do mundo de ter sido atendido por D. Honorina, já que mostra tão pouco juízo, que parece haver-se tornado de novo criança, tenha a certeza de que me acho disposto a persegui-lo cruelmente.

— Está bem, Sr. Manuel, diga o que lhe parecer...

— Juro-lhe que sou capaz de arrancar-lhe a cabeleira mesmo à vista de D. Honorina.

— Senhor... mas eu não sei em que tenho merecido a inimizade de V. S.ª...

— E como, em todo o caso, faz-se preciso que um castigo acompanhe sempre o crime, e o senhor delinqüiu, falando sem respeito de uma senhora honesta, e chegando mesmo a caluniá-la...

Brás-mimoso, ouvindo falar em castigo, sentiu enfraquecerem-lhe as pernas, e, encostando-se ao tronco de uma árvore, olhava para todos os lados a ver se descobria alguém a quem recorresse.

— Eu exijo, continuou Manduca, que em presença das mesmas pessoas, diante de quem falou sexta-feira, o senhor se desdiga de quanto disse... que confesse que não passa de um tolo...

— Sr. Manuel... V. S.ª...

— Um caluniador...

— Por quem é, Sr. Manuel, não me deite a perder...

— Um...

Manduca foi interrompido: o céu acabava de socorrer Brás-mimoso.

E os dois singulares rivais estenderam os pescoços e ficaram estáticos e boquiabertos, atentando os acentos melodiosos de uma voz doce e branda, que cantava uma música melancólica.

Uma idéia feliz tinha tido Hugo de Mendonça para obsequiar a seus hóspedes: como, à exceção de Brás-mimoso e Manduca, se achassem todos depois de algum tempo sentados debaixo de uma copada mangueira, que ficava próxima do mar, ele lembrou-se que ali, à mercê do silêncio da noite e ao clarão da lua, devia causar efeito bem agradável uma voz harmoniosa, que entoasse um canto; e, orgulhoso do mérito de sua filha, não hesitou em aconselhar-lhe que cantasse.

Félix ofereceu-se para acompanhá-la; apareceu um violão, e Honorina cantava.

Já então era noite fechada; mas a lua cheia e bela derramava sobre a interessante Niterói os raios de sua luz misteriosa. E uma voz entoava um hino melancólico. Oh! fora preciso estar ali, e ouvi-la; e sentir também como toda a natureza harmonizava os seres, punha em concerto os elementos para magicamente acompanhá-la. E, pois, brando favônio lambia apenas as folhagens... as ondas murmuravam docemente ao beijar das praias... a lua prestava à cena essa luz receosa e modesta, mercê da qual o fraco embalançar dos ramos, que a aura embalava, erguia aqui e ali seres fantásticos... místicas sombras noturnas, que, segundo o vaivém dos ramos, ora se agigantavam, ora se iam minguando até sumir-se de todo, para logo renascer outra vez... e por toda a parte o silêncio... e como equilibrando-se sobre ele essa voz... doce, angélica... que diríeis um longo suspirar de anjo... essa voz... um pouco curta talvez... mas tão cheia de encanto e magia... que soar... tocar o ouvido... e cair no coração de quem a escutava, era milagre de um breve instante... Oh! fora preciso ouvi-la!... e também fora preciso ver essa moça que cantava, assentada debaixo de copada mangueira... essa moça bela... pálida... vestida de branco... semelhante talvez à imagem vaporosa que a imaginação escaldada do viandante noturno vê à porta do templo solitário... ou curvada sobre a campa de um finado... essa moça, cuja voz tinha um não sei quê de tão subtil... tão melancólico... tão sobre-humano talvez, que retinia no âmago do coração, e nos seios da alma!...

Honorina escolhera para cantar uma lira que era desde alguns dias a sua favorita; que desde algumas noites ela preferia sempre a mil outras para entoá-la ao lado de seu pai, ou sentada à janela de seu quarto no silêncio das desoras: essa lira parecia como uma prece, que saía do seio de uma virgem para subir ao céu; ela dizia assim:

Inocente, incauta virgem,
Que inda o mundo te sorri...
Esse mundo que te incensa
Laços arma contra ti.
Virgem, mede os passos teus...
Virgem, só confia em Deus!...

Esses olhos que dardejam
Sobre ti chamas de amor,
Podem verter em teu seio
Doce veneno traidor.
Virgem, mede os passos teus...
Virgem, só confia em Deus!...

Sê, ó virgem, sê somente
Sempre a rosa do Senhor...
Vê que o vento afronta às vezes
A do mundo pobre flor.
Virgem, mede os passos teus,
Virgem, só confia em Deus!...

Honorina calou-se... Os aplausos choveram sobre ela... os dois infelizes amantes, que de longe a tinham escutado, correram a derramar suas felicitações e seus parabéns aos pés da encantadora moça que os enfeitiçava; mas de repente os parabéns, os aplausos se suspenderam, e todos olharam surpreendidos para o mar; porque uma voz também sonora entoava de lá o seu canto, sujeitando-se à mesma música.

Favorecidos pelo luar, eles viram, a pouca distância da praia, um pequeno e lindo batelão parado, e sobre ele a figura branca de um homem, que, voltado para a árvore, debaixo da qual se achavam, cantava com voz comovida; e eles ouviram que seu canto dizia assim:

Inocente, bela virgem,
Que o mundo fazes sorrir...
Amor, que inspira a virtude,
Sabe em teu seio nutrir.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...

Lembra, que esse amor de poeta,
Em que pode uma alma arder,
Mesmo acabando na morte
Por força belo há de ser.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...

Qual cede a rosa ao favônio
Vivo aroma encantador;
Ao homem nobre e constante
Ceda a virgem seu amor.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...

O canto terminou; e o batelão se foi misteriosamente deslizando para o largo.

Insensivelmente toda a companhia se tinha aproximado à praia; só Honorina e Raquel haviam ficado no mesmo lugar, surpreendidas, e tomadas talvez do mesmo sentimento.

— É ele!... murmurou Honorina, quando sentiu que o canto acabava.

— Eu o conheci, disse Raquel; ele falou ainda uma vez no amor de poeta!

— Oh!... tornou Honorina, e o sopro de Deus!... o sopro de Deus!... portanto, ele vê... ele ouve... ele sabe tudo!...

— Que queres dizer, Honorina?

— Logo... logo te direi tudo. Agora silêncio: todos se chegam para nós.

Com efeito, a sociedade tornava a seu primeiro lugar.

— É preciso convir, disse Hugo de Mendonça, que aquele bateleiro é um atrevido, que tem muito boa voz, e canta bem sofrivelmente!

— O que não pode fazer olvidar, disse Otávio, que ele é um insolente, que se aproveita da largueza do mar...

— Como insolente?... acudiu Lucrécia, que se apraziava com o desgosto de Otávio; eu me confundo decerto!... Supunha que nada havia mais natural do que um bateleiro fazer demorar sua viagem para ouvir a voz de uma moça que cantava; nada mais agradável do que responder o canto, que acabava de ouvir, com outro da mesma natureza.

— Mas o homem que cantou não pode ser um rude bateleiro...

— E que podemos nós fazer?... disse Hugo: porventura está no nosso direito impedir que se cante no mar?... deverá Honorina privar-se de sua mais bela prenda só porque houve um homem que, de longe, respondeu uma vez a seu canto?...

— Deus nos livre disso! acudiu Otávio.

— Seja embora um atrevido, continuou Hugo, devemos confessar que causou-nos uma surpresa.

— Mesmo uma agradável surpresa, ajuntou Tomásia.

— Não tem dúvida; uma agradável surpresa, repetiu Venâncio.

— Mas que é isso, Honorina?... tão melancólica de repente?... Será possível que aquele harmônico bateleiro chegasse a incomodar-te até o ponto de te entristecer assim?...

— Meu pai... é que eu não esperava...

— Graças a Deus temos todos essa certeza. Nada... nada de nos ofendermos por tão pouco... Querem saber? se eu pudesse, faria com que o nosso bateleiro repetisse uma outra vez o seu canto...

— Meu pai!

— Não é graça... tem uma bela voz de tenor...

— E o efeito, disse Lucrécia, o grande efeito que produz o canto no silêncio da noite e no mar...

— É verdade!... é verdade!...

— A propósito! exclamou Hugo de Mendonça, daremos uma lição ao nosso bateleiro.

— Como?...

— Se Honorina quiser, aproveitaremos uma ou duas destas belas noites de luar, faremos um passeio marítimo, e no mar... defronte da mais linda praia... levantam-se os remos, e Honorina entoa a sua lira da virgem inocente.

— Oh! não, meu pai!...

— Sim... sim, minha senhora... ceda...

— Porventura tens medo de bateleiro?... lá... o caso é outro: estaremos no mesmo campo, e se ele aparecer veremos qual é o batel que mais voa... então que dizes?...

— Ceda... ceda...

— Eu farei o que meu pai quiser.

— Pois muito bem: estamos tratados; resta marcar a noite; quando deverá ser?...

— A Sr.ª D. Honorina que decida...

— Para mim é indiferente... pode ser qualquer...

— Honorina, disse Raquel, marca a noite de amanhã: eu fico contigo até terça-feira, não é assim, meu pai?...

— Sim, minha filha, respondeu Jorge.

— Amanhã, amanhã, Sr.ª D. Honorina, disse Tomásia, nós temos de passar o dia de amanhã com minha comadre, e pediremos licença para tomar parte em tão agradável passatempo.

— Pois se meu pai quiser, tornou Honorina, seja amanhã.

— Está dito, concluiu Hugo, seja amanhã.

E ao mesmo tempo que todos se levantavam, ouviu-se ao longe muito ao longe, a voz do bateleiro, que repetia:

Virgem, mede os passos teus;

Mas cede ao sopro de Deus!

XVIII

As duas amigas

Enfim, elas se viam sós; não como da outra vez, recostadas na janela, que deitava para o jardim, porque Honorina receava uma aparição noturna e repentina daquele homem singular, que em toda a parte e a todas as horas velava por ela. Mas agora, sentadas ambas em um sofá, e livres de seus atavios, com a liberdade da solidão, independentes das prisões das modas, esquecidas de si próprias no doce enleio da amizade, Honorina e Raquel se dispunham para encetar a conversação que tanto desejavam; e, todavia, ainda em silêncio se conservavam, e já uma vez tinha cantado o galo.

O silêncio de Honorina não era difícil de explicar-se: havia nela por força todo esse belo receio, todo esse encantador acanhamento de virgem, que, quando ama pela primeira vez, hesita e treme ao falar de seus sentimentos à própria amiga de seu peito, e até cora, quando pensa consigo mesma... nele.

Mas Raquel?... a jovial e feliz Raquel, por que não compreende a hesitação da pobre Honorina?... por que também docemente melancólica deixa ir correndo assim a noite?...

O galo cantou segunda vez; e Honorina, como para a todo custo dar princípio à conversação, disse:

— Que dia! Raquel, que dia enfadonho passamos!...

— Eu o sinto, Honorina; melhor valera se sós o tivéssemos gozado.

— Oh! é verdade... e tanta gente... e esses homens!

— Que te perseguiram, não é assim?...

— É que eu sou bem infeliz, Raquel; não bastava Otávio, que me diz tantas coisas; que me obriga a ouvi-las; que se enche de esperanças, que eu não alimento!... eram precisos ainda mais dois que me atormentassem todo o dia com suas loucas palavras e ridículas ações!...

— E que remédio tem uma mulher, senão às vezes deixar-se requestar por tolos?... quem diz tolo, diz vaidoso.

— Oh! mas é necessário ter ou vaidade de mais, ou então um espírito muito miserável, para que eles não compreendam que eu desprezo formalmente seus obséquios!

— Porém, quem te manda desprezá-los?... pelo menos podias animar o velho... um velho namorado, Honorina, serve muito para a gente rir-se...

— É... que... eu não posso rir-me!...

— Por que, Honorina?...

— Raquel!... exclamou a moça, escondendo por instantes o rosto no seio da sua amiga.

— Fala, Honorina; desafoga-te comigo.

Passou-se ainda um momento de silêncio, em que o rosto de Honorina se foi tornando cor-de-rosa; depois ela falou:

— Raquel!... Raquel!... tu não sabes o que se tem passado comigo desde aquela fatal noite, em que conversamos, ambas encostadas nessa janela; lembras-te daquele papel, que achamos e lemos na manhã do dia seguinte?...

— Lembra-me... sim.

— Pois eu tenho involuntariamente recebido outros da mesma natureza, que trazem todas essas palavras que eu pronunciei, falando-te de amor, escritas... repetidas, como a divisa de um cavalheiro, ou como o estribilho de um hino de triunfo...

— E o homem que as escreve?...

— Oh!... esse homem?... eu o tenho visto... eu o tenho ouvido... e eu não te posso dizer ao certo qual é o seu verdadeiro rosto, nem qual é o som de sua voz!...

— Mas o que tu dizes, Honorina, é ainda bem ininteligível!...

— E, todavia, é a própria verdade; o homem que me escreve é um ente que muda de aspecto, de voz, de vestidos, de condição, de ofício e de tudo, segundo as circunstâncias em que me quer aparecer.

Raquel chegou-se para mais perto de Honorina, como não querendo perder uma só palavra do que lhe ia dizer a amiga.

— Lembras-te que te mandei pedir, continuou Honorina, que me enviasses um cabeleireiro para me toucar no dia do sarau de D. Tomásia?... tu me tinhas respondido que às cinco horas da tarde o cabeleireiro se me apresentaria...

— E então?...

— Pouco depois das quatro aparece aqui um homem para pentear-me; um homem que não dizia uma só palavra, vestido de mil cores, com o rosto muito vermelho, com os cabelos ruivos, um homem que beijou minhas madeixas, que roubou-me um anel delas, e que inopinadamente deixou-me ainda destoucada; Raquel... era ele!...

— Mas o cabeleireiro que eu te mandei?...

— Chegou depois; exatamente às cinco horas da tarde. Ouve mais: de volta do sarau, somos trazidas aqui por um jovem marinheiro, rude, grosseiro... malvestido... com cabelos pretos tão longos como hirtos; no meio da viagem, enquanto meu pai dormia, e eu receosa dele fingia dormir, apanha uma de minhas luvas, que o vento levantara, beija-a, guarda-a junto do coração... e ao chegar à praia, vendo que eu buscava a minha luva, ma entrega, tendo posto dentro dela um papel; Raquel... era ele!...

— E esse papel, Honorina?

— Estavam nele escritas as palavras fatais... o meu imprudente pensamento sobre o amor... aquilo que eu te disse, Raquel, pensando que ninguém mais me ouvia!...

— E depois?

— Tu te recordas, Raquel, daquele jovem loiro que no sarau de D. Tomásia sentou-se no terrado defronte de nós?... Raquel! Raquel! tu te recordas de seu sonho?... tu te lembras o que ele disse sobre uma sempre-viva?...

— Oh!... muito!... muito, Honorina!... eu me lembro muito!

— Pois bem... eu não pude dormir... a imagem desse moço esteve sempre diante de meus olhos! eu passei o resto da noite febril... ardente... desassossegada!... eu comparava o amor desse moço tão singular, mas tão respeitoso, que ele temia fazer corar de pejo o objeto de seus cuidados, com esse amor misterioso... noturno... e talvez terrível do homem que me persegue!... eu comparava aquele rosto melancólico e doce... aqueles belos cabelos loiros com o semblante vermelho ou agreste, com os cabelos ruivos ou pretos que no outro tinha visto!... comparava sua voz branda e comovida com a voz áspera, grossa e desagradável do bateleiro... ah! tudo isso era um paralelo cruel para o desconhecido que me amava!... Agitada... com a cabeça em fogo... aflita enfim, eu me ergui, à primeira luz do dia... abri aquela janela... levantei a vidraça... Raquel!... eu achei aí um papel, e sobre ele a sempre-viva!... a sempre-viva!...

— E o papel?... o que dizia o papel?... perguntou Raquel violentamente comovida.

— Lê tu mesma, disse Honorina, mostrando-lhe um breve escrito, que desde que se fora sentar tinha fechado em uma mão.

Raquel devorou rapidamente as poucas palavras escritas nesse papel, e entregou-o de novo a Honorina com mão visivelmente trêmula.

— Portanto, continuou esta, o moço loiro era ele!

— Sim... sim... era ele... eu o deveria ter previsto!...

Honorina abafou um suspiro.

— E a sempre-viva?... perguntou Raquel.

— Ei-la aqui! disse Honorina abrindo a outra mão.

— Tu a guardaste?!... e então foi o mesmo que responder eu também te amo!...

— Oh!... não me olhes assim Raquel, não me olhes com esses olhos tão ardentes, se não queres fazer-me abaixar os meus, e fechar-me a boca!...

— Enfim... tu guardaste a sempre-viva, Honorina?

— Não... não fui eu!... escuta. Acabando de ler essas palavras, que aí vês escritas, confesso que hesitei um momento; mas depois... eu dei um passo para a janela... estendi o meu braço... eu ia... eu devia deitar fora a sempre-viva, não é assim, Raquel?...

— Sim... sim...

— Mas... soprava uma branda aragem... o favônio da manhã, Raquel!... eu vi que cedendo a seu sopro... a sempre-viva rolou sobre a janela até cair a meus pés!...

— E depois... tu a guardaste?...

— Oh! Raquel! aquele zéfiro matutino tão fresco, tão doce, me pareceu então enviado pelo céu!... tu sabes, tens dito mil vezes, que eu tenho uma imaginação de louca, que à força de uma organização toda inflamável e de uma educação recebida na solidão, longe do mundo e dos homens, meu pensamento não se acomoda com o gelo das realidades e vive do fogo das quimeras; pois bem! será mais uma quimera; mas naquele instante eu pensei que o zéfiro que fazia rolar a flor para meu quarto, era como a mão do destino, que me arrastava para aquele homem! nos meus delírios... na exacerbação em que me achava, Raquel, eu contemplei a sempre-viva, que tinha tombado a meus pés, e sem ter ânimo para lançá-la fora... temendo mesmo cometer um sacrilégio, se o fizesse, eu disse, desculpando-me a mim mesma: — Oh!... ainda bem que não fui eu... foi o teu sopro, meu Deus!...

— O sopro de Deus!... balbuciou Raquel.

— O sopro de Deus!... sim... o sopro de Deus!...

— E, portanto, ele cantava ainda agora um pensamento que tu só podias compreender!...

— Mas Raquel... Raquel, como é que esse homem ouviu o que eu murmurei baixinho escondida no meu quarto?... pois então ele está também em toda a parte, assim como se veste de todos os semblantes?...

— Quem sabe... talvez ele estivesse mesmo de longe... talvez ele visse rolar a sua flor à força do zéfiro... e então pensasse também, como tu pensaste em um sopro de Deus!

— Mas podem acaso ter duas almas, ao mesmo tempo, um só e igual pensamento?...

Raquel respondeu com voz sumida e melancólica:

— Quando se amam, Honorina; porque já não há dúvida que tu amas...

— Oh! Raquel!... eu tenho medo de o pensar!...

— Como tu és feliz, Honorina!... disse docemente Raquel.

— E ele?... e ele? fala-me tu dele, Raquel.

— Minha bela vaidosa, que queres, pois, que eu diga?

— Se tu pudesses dizer-me, Raquel; se tu o soubesses!... é que há uma eterna pergunta no meu coração, e uma dúvida cruel dentro do meu espírito!... quem é ele?... quem é esse homem?...

— Posso eu sabê-lo?

— Será um moço ou um velho?... será um belo jovem ou um homem que faça medo?... qual é o seu rosto? qual a sua voz? quais os seus cabelos?...

— Pois duvidas que seja o moço loiro, Honorina?

— Sim, Raquel, ele foi o moço loiro de alguns momentos!... eu tenho ainda no meu espírito aquela graciosa cabeça... eu sinto ainda o fogo ardente de seus olhos... eu vejo, Raquel, eu vejo sempre aquele triste sorriso, que ele derramava em seus lábios... soa sempre em meus ouvidos, ainda mais docemente que o seu canto desta noite, aquela voz suave e comovida, com que ele dizia — eu amo!... muito!... como ninguém amou ainda!...

— E então, que queres tu mais, linda ambiciosa?...

— Raquel, Raquel, eu tenho medo, que assim como foi uma mentira aquela cabeça ruiva de ridículo cabeleireiro, assim como foi uma máscara ilusória aquela cabeça hirta de selvagem marinheiro, eu tenho medo, Raquel, de ver esvair-se como um sonho a minha mais bela ilusão... eu tenho medo de que aquele engraçado semblante de mancebo seja ainda um semblante emprestado, de que seus belos cabelos loiros sejam ainda uma pérfida cabeleira!...

Raquel não pôde deixar de sorrir-se do inocente receio de sua amiga.

— Sim... tu te estás rindo de minhas loucuras... perdoa-me, perdoa-me; porque eu estou talvez a ponto de ir ser bem desgraçada...

— Tu, Honorina, desgraçada?... e por quê?...

— Pois já te não lembras do que outrora me dizias?... Raquel, desgraçada; porque eu penso que já amo.

— Mas quando sabes que és amada?...

— Porém, isto é quase amar uma idealidade... uma sombra, que, quando pensamos tocar com o dedo, desaparece a nossos olhos!... isto é viver em um sonho eterno...

— Oh!... exclamou Raquel apertando a mão de Honorina, esse homem estudou bem a mulher de quem queria ser amado!... ele foi direito ao ponto mais fraco... atacou... e venceu!

— É porque eu sou uma mulher bem fraca, não é assim?...

— Não: é porque tu tens uma imaginação muito ardente, um coração muito cheio de fogo!... é porque tu terias amado a Torquato, como Eleonora, e a Camões, como Catarina de Ataíde!... e esse homem, que não tem certamente podido ser poeta para vir ajoelhar-se a teus pés, com sua lira nos braços, a oferecer-te a glória de um renome; que não tem certamente podido ser um herói para com os louros na fronte deslumbrar teus olhos e cativar teu espírito... esse homem, sagaz, sem dúvida, apelou para o mistério, chamou a seu favor o que achou que podia parecer-te maravilhoso... apresentou-se diante de ti coberto com um véu para te fazer desejar rompê-lo... trouxe uma centelha em seus olhos... atirou-a sobre a tua imaginação... ateou-a... venceu... é amado!...

— E tu, Raquel, terias resistido, não é assim?...

A pergunta pareceu contrariar a Raquel, que, depois de hesitar um momento, como se abafasse um gemido, respondeu:

— Honorina, não se trata de mim agora.

— Sim... sim, eu sei... terias resistido; porque tu não és como eu... tu és prudente.

— Oh!... e de que vale a prudência, Honorina?...

— A experiência e sábios conselhos de teu pai te armaram de uma fortaleza que nenhuma outra teve ainda... teu coração para amor está forrado de aço... tu só és sensível à amizade...

— Pelo amor de Deus, Honorina, não fales de mim agora!...

— Tu podes sofrer sem estremecer o olhar atrevido de um homem fixado uma hora inteira sobre teu rosto... tu zombas do poder dos olhos... tu és surda para as palavras de amor... a influência de um homem não chega nunca a teu espírito!... tu és feliz... bem feliz!...

— Honorina!... Honorina... tu ignoras o mal que me estás fazendo!...

— Eu te invejo, Raquel!...

— Desgraçada!... tu não sabes o que dizes!...

— Oh! eu me lembro bem daquelas frias palavras que uma vez me disseste!... eu as decorei: porque elas me espantaram! porque seu pensamento, enunciado por uma mulher, me pareceu um milagre... tu disseste...

— Não... não... Honorina, não as repita...

— Tu disseste: — Amor é uma vã mentira!... amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a imaginação nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... amor não é mais que a flor de um só dia, que se abre de manhã, e antes da noite está murcha!...

— Perdão!... perdão!... Honorina; pode ser que eu me tivesse enganado!...

Honorina olhou espantada para Raquel, ouvindo suas últimas palavras.

— Raquel! exclamou a moça, tu me deves um segredo!

O semblante de Raquel tornou-se pálido, semelhante ao de uma moribunda: seus olhos se fecharam, como para não deixar que os de Honorina fossem nos seus beber o arcano que ela escondia; e, parecendo haver tomado uma repentina resolução, disse tremendo:

— Honorina, eu também amo.

— Amas?... amas?... e a quem?...

— Tu vais corar, Honorina!...

— Dize, dize...

— A um homem casado.

— Desgraçada!... exclamou Honorina abraçando sua amiga.

Sorriso amargo e irônico se derramou pelos lábios de Raquel, ouvindo a exclamação da moça.

Raquel havia mentido.

Fonte: www.biblio.com.br

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