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O Primo da Califórnia

Joaquim Manuel de Macedo

CENA IX

ADRIANO (Só) – Agora sim, entremos em nós... conversemos um pouco com a consciência... estou em um perfeito juízo... estou, não há dúvida! Não me acho bêbado, nem doido! Tenho... ou tive um primo... na Califórnia... Paulo Cláudio Genipapo... na minha árvore genealógica, nos anais de minha família, eu encontro um tio, que enquanto vivo foi patrão de uma sumaca... chamava-se ele mestre Leonardo Genipapo... ora, quando se tem tido um tio, não é nenhum impossível, que depois a gente venha a ter não só um, como até cinqüenta primos... todos querem que eu seja o único herdeiro de um primo, que deixou milhões... a imprensa proclama isso por suas mil bocas... não é por conseqüência admissível, que todos se enganem... (Depois de um instante de silêncio) tolo, e muito tolo sou eu em não dançar, em não saltar por esta sala: é verdade! Sou rico! Tenho dinheiro! Sou milionário!... oh!... (Canta e dança)

Enfim, o senhor destino
Ser justo quis uma vez;
De suspirados milhões
Feliz herdeiro me fez.

Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!

Vejam já quantos amigos
Mal me deixam respirar!
“que cambada de marrecos
pega neles p’ra capar.”

Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!

CENA X
CELESTINA e ADRIANO

ADRIANO – Ah! és tu, Celestina?... vem ajudar-me a gozar esta alegria desordenada! Eu sou rico, Celestina, eu sou milionário!...

CELESTINA – Já o sei.

ADRIANO – Leste algum jornal?...

CELESTINA – Não; foi a senhora Beatriz.

ADRIANO – É o mesmo; ela é a verdadeira gazeta do quarteirão; mas desta vez a senhora Beatriz falou a verdade, o que certamente é um pouco extraordinário. Sim, eis aqui o jornal, o bem-aventurado jornal!... Celestina, tu vais ser feliz.

CELESTINA – Eu feliz!... pois vê, como sou criança; tua inesperada riqueza quase que me tem causado aflição.

ADRIANO – Oh! Não sejas tu a primeira que maldigas a minha fortuna: tu vais deixar o teu pequeno quarto para morar num sobrado cheio de espelhos de doze pés de altura!

CELESTINA – não sou ambiciosa: esta modesta câmara me viu tão feliz com o teu amor, que jamais a poderei deixar sem saudades.

ADRIANO – Oh! Os espelhos de doze pés de altura nada será ainda: terás móveis de mogno, ricas porcelanas, vasos de Sèvres, fortes-pianos e pianos-fortes; vestidos de seda, chapéus de plumas, xales de toquim, adereços de brilhantes, jóias preciosas, ouro, coralinas, esmeraldas, o diabo, Celestina, terás o diabo a quatro: e quando te virem passear comigo de carruagem, eles... esses sujeitinhos todos que nos torciam ainda ontem o nariz, hão de abaixar os olhos, e dizer: “Aquela moça deve estar bem contente por ter um amante; que com extremo tal a adora!”

CELESTINA – Um amante!... mas ainda esta manhã, Adriano, tu dizias um marido! Não é a riqueza, é a verdadeira felicidade que eu aspiro, Adriano, estarás tu mudado?...

ADRIANO – Eu mudado?... oh!... não... não... mas... Celestina, isso é puerilidade: um amante... um marido... veremos... mais tarde... veremos é simplesmente uma mudança de palavra.

CELESTINA – mas essa palavra, senhor, é tudo para a mulher honesta; reconheço já que a vossa nova posição vos tornou outro: a pobre Celestina não é mais a mulher que se vos faz necessária...

ADRIANO – Eu não disse isso... todavia, falas de um modo que...

CELESTINA – Tendes razão, senhor, eu compreendo, eu adivinho tudo! (Canta)

Pobre me olhavas
Digna de amor;
Mas hoje rico,
Mudas, senhor.

Eu sou a mesma,
Não mudarei;
Qual vos amava
Vos amarei.

ADRIANO – Mas, Celestina, que motivo...

CELESTINA – (Canta e chorando vai-se)

P’ra vós mudar,
No pobre quarto
Me ireis achar.

Constante e pura
Sempre serei,
Pobre de novo
Vos amarei.

ADRIANO – Que teima! Quem te disse que eu te desprezo?...

CELESTINA (Canta e chorando vai-se)

Rico vos deixo,
Pura me ausento;
Mas levo n’alma
Cruel tormento

Vossa ventura
Façam os céus.
Adeus... eu parto;
Senhor, adeus!

CENA XI
ADRIANO e FELISBERTO

ADRIANO – Celestina! Celestina! Eis aqui como são as mulheres! Deitam-nos sempre água na fervura.

FELISBERTO – Ainda eu!

ADRIANO – Senhor Felisberto, eu lhe rogo que para outra vez se faça anunciar; não se entra na casa de um homem da minha hierarquia, como aí na espelunca de qualquer...

FELISBERTO – Perdão! Mil vezes perdão: porém, um negócio da maior transcendência... (Enquanto Adriano procura uma cadeira e senta-se, diz Felisberto à parte) Tenho presentemente a certeza de que esta casa se acha no alinhamento da rua projetada, e portanto ela me é necessária por todo preço.

ADRIANO (Sentado) – Então que temos?...

FELISBERTO – Senhor Adriano, Vossa Senhoria me faz um grande mal.

ADRIANO – Deveras?...

FELISBERTO – Sim: acabo de sair da casa do senhor Pantaleão, que me assegurou ter vendido esta propriedade a Vossa Senhoria.

ADRIANO – É certo; e que mais?...

FELISBERTO – Mas é que Vossa Senhoria não sabe, que eu tenho absoluta necessidade desta casa: eu a desejo ardentemente... certas recordações de família...

ADRIANO – Sim... sim... tudo isso é muito possível; mas também eu tenho aqui minhas recordações, e portanto conservarei a propriedade.

FELISBERTO – Quê! Pois Vossa Senhoria não quereria ceder-ma!

ADRIANO – O que há de ser! Veio-me o desejo de representar o papel de proprietário: despediram-me tantas vezes de casas onde morava, que tenho vontade de pôr também os outros no meio da rua; é mais agradável ter inquilinos do que sê-lo; e olhe, não se pode aturar inquilinos! Põem um homem doido... não pagam ao senhorio!

FELISBERTO – E se eu desse por esta casa quatorze contes de réis?...

ADRIANO – Quatorze contos?... o que são nesta vida quatorze contos de réis?...

FELISBERTO – Oh! É dinheiro, que se custa a ganhar!...

ADRIANO – Ah! ah! ah!... a quem diz o senhor isso?...

FELISBERTO – Está bem, darei dezesseis contos à vista...

ADRIANO – Dezesseis contos!... (À parte) É verdade que todos me falam de milhões, que eu possuo, mas confesso, que não me desagradaria ter já e quanto antes alguns bilhetes do banco no bolso... (A Felisberto) – Pois bem.... quero ser condescendente... aceito.

FELISBERTO – Dentro em meia hora trago-lhe o dinheiro; é negócio concluído.

ADRIANO – Eu lhe dou a minha palavra... também... olhe: por ora é a única coisa que eu tenho para dar.

FELISBERTO

Ela me basta, honrado amigo.

FELISBERTO (Canta)

Que bom negócio,
Que vou fazer;
Oh que ventura!
Oh que prazer!

ADRIANO

Que chuva de ouro
Está-me a chover!
Oh que ventura!
Oh que prazer!

FELISBERTO

Parto depressa
Sem mais tardar,
E o seu dinheiro
Vou já buscar.

ADRIANO

Parta depressa
Sem mais tardar
E o meu dinheiro
Vá já buscar.

CENA XII
ADRIANO, só

Eu disse uma chuva... qual chuva! É uma inundação! É um dilúvio de prosperidade! Entremos na investigação das necessidades do nosso toilette, e primeiro que tudo ponhamos nossas antigas misérias no meio da rua! (Abre a gaveta e vê o relógio) oh! O que quer dizer isto!... o meu relógio?... o relógio, que eu havia empenhado no Monte de Socorro?... aqui anda obra do gênio do bem ou do pé-de-carneiro; mas... oh! Que raio de luz!... sim, é o gênio do bem... Celestina! Não há dúvida... foi ela... com o fruto do seu trabalho... sim, foi ela! E eu fiz chorar aqueles belos olhos! Ah! eu sou um rico orgulhoso e mau! Graças, porém a Deus, que tudo se pode ainda reparar. Senhora Beatriz! Senhora Beatriz! morta ou viva, e ainda que rebente no caminho, a senhora Beatriz irá buscar-me Celestina... senhora Beatriz! Ela me há de trazer a minha bela celestina! (Aparece Beatriz e Celestina, Adriano cai aos seus pés.)

CENA XIII

CELESTINA, ADRIANO e BEATRIZ. – CELESTINA recua, ficando ADRIANO de joelhos aos pés de BEATRIZ

ADRIANO (De joelhos e com os olhos baixos) – E eu cairei aos seus pés pedindo-lhe o meu perdão, e lhe direi: Tu que és bela como um anjo, pura como um raio de sol, meiga como a pombinha do vale, perdoa-me!... esqueci por um instante que tu eras cheia de graças, e se sentimentos nobres, e que só querias, antes de tudo, um nome, o nome daquele a quem amas... oh! Bem... eu te ofereço o meu nome e a minha mão! (Toma a mão de Beatriz e beija-a) Ah! tu me perdoas!... (Levanta a cabeça) Ora... e esta! Com que estava eu falando!... (Vê Celestina) Ah! tu estás aí!

CELESTINA – E te compreendi bastante, Adriano.

BEATRIZ – E eu também, senhor Adriano, e se não fosse tão escrupulosa já teria abraçado a Vossa Senhoria excelentíssima! (À parte) Nunca ouvi tantas ternuras do meu defunto Pancrácio.

ADRIANO (Mostrando o relógio) – Minha Celestina, eu adivinhei tudo!

BEATRIZ – Consegui retê-la no meu quarto: suas lágrimas puseram-me o coração em cinco pedaços, e como sei por experiência própria que os namorados brigam e fazem as pazes trinta vezes por dia...

ADRIANO – Mas agora, Celestina, tu me desprezas?

CELESTINA – Não, não, meu amigo, tudo está esquecido.

ADRIANO – Eu te desposo, minha Celestina, e a felicidade entrará em nossa casa com o ato do nosso casamento.

CELESTINA – E ficará para sempre morando conosco.

BEATRIZ (Limpando os olhos) – E eu ainda a chorar... vejam só! E isto me fazia esquecer, que hoje o excelentíssimo senhor meu amo tem sido procurado por toda a cidade em peso: tenho lá dentro um balaio cheio de cartas e bilhetes de visita: eu vou buscar. (Entra e volta logo)

ADRIANO – Que nova miséria será esta?...

CELESTINA – Não é miséria, Adriano; são os milagres do dinheiro, que é o senhor onipotente de quase todos.

BEATRIZ (Trazendo um balaio cheio de cartas e bilhetes) – Eis aqui as provas de que Vossa Senhoria excelentíssima tem a seu favor a opinião pública.

ADRIANO – Vejamos: misericórdia! Um balaio de cartas e de bilhetes de visitas!... Oh! Dinheiro! Oh! Miséria da humanidade!... ora, comecemos pelas cartas: (Tira uma e lê) oh! A primeira é do tal editor, que rejeitou minhas músicas: (Lê) miserável! Vê, Celestina, agora, agora ele me envia uma escritura, pela qual se obriga a imprimir pelo preço que pedi as mesmas composições que ontem rejeitava, sob pena de uma indenização de um conto de réis pago por aquele que se arrepender!...

CELESTINA – Que ventura! Tuas composições vão, portanto, aparecer! Tu vais ser conhecido... todos te vão aplaudir, e te fazer justiça.

ADRIANO (Depois de ler outra carta) Esta também não é má! Sou admitido na orquestra o teatro de S. Pedro de Alcântara pelo competente diretor com todas as condições por mim propostas: eis aqui o contrato assinado! Havia de ser bonito se eu aparecesse agora tocando tímpanos ou ferrinhos!...

CELESTINA – E essa carta?... será ainda algum novo obséquio?...

ADRIANO (Depois de ler) – Oh! Lá se é! Nada menos do que a empresa do Provisório que me compra a propriedade da minha ópera por dois contos de réis, e que se obriga a pô-la em cena dentro de um ano!...

CELESTINA – Oh! Isto sim é que é uma grande felicidade! Todos apostaram sobre quem mais faria para te colocar a salvo da pobreza!

ADRIANO – Sim! Agora que já de nada disso preciso, curvam-se todos ante o meu dinheiro: oh! Sim! Abrem-me os braços, quando já estou acima de seus favores: este mundo, Celestina, tem uma alma de bilhetes de banco, e um coração de monjolo!

CELESTINA – Paciência... é preciso sofrê0lo, porque é o mundo que temos... e pela minha parte por ora não desejo mudar-me para outro.

ADRIANO (Vendo e atirando fora os bilhetes de visita) - E esta nuvem de bilhetes de visita! Oh! Que povaréu, que multidão veio visitar os meus cinco milhões!... vejamos sempre; (Tira um) comendador fulano dos anzóis carapuça... Não conheço, fora com ele; (Outro) O Deputado... Misericórdia! Deputado é uma coisa que custa muito cara à nação; (Outro) o brigadeiro... Fora, que pode brigar comigo; (Outro) o doutor... Pior está essa! Doutores longe de minha porta; (Outro) Mr. De tal, cabeleireiro, tem pomada de urso e água dos amantes... Ao fresco; (Outro) pílulas vegetais... E esta! Pois já tão depressa não me querem dar pílulas a engolir?... (Outro) trastes, mármores e porcelanas... entendo! (Outro) frei Laverno faz os seus cumprimentos... Ah! é um frade!... chegou a minha fama aos conventos... rua; (Outro) o barão de qualquer coisa... Irra! Não posso mais!... (Atira com todos os bilhetes fora) Eis ali rolando pelo chão não sei quantos diplomas da vergonha humana!... desprezavam o artista e vêm beijar os pés do milionário!... Miseráveis! Vândalos!... isto ou é para desesperar, ou para rir!

CELESTINA – Pois então é melhor rir... riamo-nos!

ADRIANO – Vá feito... riamo-nos!... (Canta)

Vejam já quantos amigos
Mal me deixam respirar!
“Que cambada d marrecos
“Pega neles p’ra capar!”

Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!

CENA XIV

EDUARDO, ERNESTO, ADRIANO, CELESTINA, BEATRIZ e os amigos.

ERNESTO – Oh! Muito bem, Adriano; como vamos de fortuna?...

ADRIANO – Vinde, meus amigos, vinde tomar parte da minha alegria: eu estou nadando em um mar de ouro!

EDUARDO – Nós sabemos tudo.

ERNESTO (Tristemente) – Teu primo é morto, não é assim?...

ADRIANO (Como querendo chorar) – Ah!... é verdade!...

BEATRIZ (O mesmo) – Ah! é verdade! Era muito bom moço!

EDUARDO – Então estás muito aflito?...

ADRIANO – Sim tenho chorado... este é já o terceiro lenço; os outros ficaram ensopadinhos de lágrimas; e contudo eu conhecia muito pouco a meu primo... apenas nos tínhamos visto, quando mamávamos: porém, a morte é sempre uma separação dolorosa.

ERNESTO – Escuta, Adriano; tu és sensível?...

ADRIANO – Ao menos tenho essa pretensão, e as minhas lágrimas sinceras...

ERNESTO – E eras muito amigo de teu primo?...

ADRIANO – Oh! O mais que é possível...

ERNESTO – Abraça-me, pois, meu amigo, enxuga o pranto; ele não está morto.

ADRIANO (Estupefato) – Não... não... não... não está morto?!!

BEATRIZ – Não está morto?... isso era o diabo agora!

CELESTINA – Como o sabe, senhor?...

ERNESTO – Não está morto, porque nunca esteve vivo.

ADRIANO – Isto não é brincadeira; creio que é negócio muito sério!

ERNESTO – Ontem, aquecido pelo champanhe, tu te gabaste de ter na Califórnia um primo senhor de milhões...

ADRIANO – Eu... eu disse isso?... é possível; porquanto não me lembro de coisa alguma!

ERNESTO – E querendo zombar de nós, apenas nos lembraste a idéia de uma caçoada.

ADRIANO – Uma caçoada!... como?... este artigo do jornal?...

ERNESTO – Não passa de uma invenção nossa!

ADRIANO – Pobre outra vez!... (Caindo numa caixa) Eu... morro agora por força!

CELESTINA – Meu Deus! Adriano não está bom!

BEATRIZ – E eu a gastar políticas com um musicozinho tão ordinário! com uma bisca, com um farroupilha desta qualidade!... Vou já participar ao senhor Pantaleão. (Vai-se)

ERNESTO – Que é isto, Adriano?... sê homem: se tivéssemos previsto, que sentirias tanto um simples gracejo de amigos...

ADRIANO – Ah! meus amigos, eis aqui uma comédia muito capaz de acabar em tragédia... Eu estava tão feliz!...

CELESTINA – Eis-nos de novo em nossa boa mediocridade.

ADRIANO – Não! Não posso suportar semelhante desgosto! Isto é um salto mortal! É muito melhor atirar-me de uma janela abaixo! (Corre e esbarra-se com Felisberto)

CENA XV
FELISBERTO e os ditos

FELISBERTO – Oh! Que me rebenta o nariz!

ADRIANO (Submisso) – Eu lhe fiz mal... ofendi-o?...

FELISBERTO – Não foi nada... trago o dinheiro a Vossa Senhoria.

ADRIANO – A minha senhoria... a minha senhoria acaba de receber a sua demissão.

FELISBERTO – Não o compreendo, meu prezado amigo.

ADRIANO – Digo, que agora aparecem suas dúvidas a respeito do negócio.

FELISBERTO – Que, senhor Adriano! Vossa Senhoria quereria faltar a palavra!... (À parte) Diabo! E eu que já tratei a cessão da casa com vinte por cento de lucro!

ADRIANO – Não é isso, mas devo dizer...

FELISBERTO – Nada quero ouvir: tenho a sua palavra, e um homem honrado, senhor, não tem senão uma palavra: eis aqui o contrato de venda para assinar.

ADRIANO – Todavia...

FELISBERTO – Ah! senhor Adriano! É possível que tenha em tão pouco a sua palavra?...

ADRIANO – Senhor Felisberto!...

FELISBERTO – Esta hesitação me dá o direito de dizer o que disse.

ADRIANO – E o senhor não se arrependerá deste contrato?...

FELISBERTO – De modo nenhum.

ADRIANO – E aconteça o que acontecer não se queixará de mim?...

FELISBERTO – Eu queixar-me?... e de quê?... assine, tenha Vossa Senhoria a bondade de assinar.

ADRIANO (À parte) – Com efeito... posso bem fazer este negócio... a casa é minha, e eu ganho nesta venda quatro contos de réis; (Assinando) vamos, pois que o senhor o exige, eu assino.

FELISBERTO – Para lhe provar que o negócio me convém, ajuntei ao dinheiro, que lhe entrego, um recibo de conta que me devia, e portanto estamos quites.

ADRIANO (Recebe e conta o dinheiro) – Como?... minha conta também?... ah! Celestina, eis aqui um remorso de adversidade!

FELISBERTO – O que quer dizer com isso?...

CENA XVI
Os ditos, PANTALEÃO e BEATRIZ

PANTALEÃO – Isso é um horror! É uma ladroeira!... uma infâmia!...

TODOS – Que aconteceu?...

PANTALEÃO – O senhor músico, meu locatário, é vítima de uma mistificação! Ele é tão rico, como aqui, a velha Beatriz!

FELISBERTO – Que diabo é isto?... quem me dará um fio para sair deste labirinto!

PANTALEÃO – O fio é que eu continuo a despedir desta casa e de mestre da minha filha ao tal senhor Adriano Genipapo!

ADRIANO – Senhor Pantaleão! O senhor tem um coração abjeto... o senhor é indigno do nome de homem que usurpa!

PANTALEÃO – Parece-me que o senhor me quer insultar!

ADRIANO – Sair desta casa! Sairemos dela ambos, miserável taberneiro! Porquanto acabo de vendê-la ao senhor Felisberto...

PANTALEÃO – Eu vou levá-lo já ao chefe de polícia!

ADRIANO – Oh! Pois não! Irei mesmo com prazer; tenho que referir ao chefe de polícia uma certa história de monopólio de toucinho e carne fresca... Ah! já se cala?... acabemos com isto: senhor Pantaleão, eu lhe pago a casa que lhe comprei, e o mais que lhe devo e por minha vez, senhor, ouvi todos, ouvi: senhor Pantaleão, rejeito a mão de sua filha que ainda há pouco me ofereceu!

PANTALEÃO – Ah! ah! ah! e pensava, que eu ainda tinha as mesmas disposições?...

ADRIANO – Celestina, esta gente não tem vergonha, não?... (Outro tom) – Eu não sei se me devo rir deles!... miseráveis! Vós que me desprezais, lembrai-vos, que abaixastes a cabeça diante de mim! Estúpidos! (Outro tom) Estúpidos?... estúpido sou eu... eles pensam e praticam, como quase todos, isto é a moda... é a época... é o mundo... atualmente o que melhor se sabe do padre-nosso, é o venha a nós!

CELESTINA – Senhores, vós o vedes, vosso gracejo teve boas conseqüências...

ERNESTO – Tanto melhor para ele nô-lo perdoar.

ADRIANO – De todo o coração, que até vô-lo agradeço.

FELISBERTO – Mas então o único, que aqui fica com cara de pau, sou eu?... juro, que ainda não compreendi nada desta moxinifada.

CELESTINA – Pois é muito simples... o primo da Califórnia...

FELISBERTO – Não está morto?...

ADRIANO – Nem nascido, mestre Felisberto!

FELISBERTO (À parte) – Ai que cabeçada!... e a conte que ele me devia!

ADRIANO – Mas graças a esta invenção, graças à só presunção, de que me achava rico, fui cercado de respeitos, de obséquios, e de amigos; ofereceram-me casa, mulher e dinheiro!...

CELESTINA – Obrigaram-se a imprimir suas músicas, contrataram-no para uma orquestra, e compraram-lhe uma ópera!

ADRIANO – Puseram-me a salvo das privações da pobreza...

BEATRIZ – Ora, o que tem isso?... lembremo-nos do adágio antigo: a água corre para o mar.

ADRIANO

O dinheiro é um feitiço
Que a todo mundo enlouquece;
Aos ricos todos festejam,
O pobre nada merece.

CELESTINA

As senhoras melhor sabem
Do dinheiro o valimento;
Moça rica que tem dote,
Nunca perde casamento.

PANTALEÃO

O rico nunca tem frio,
Traz sempre a barriga cheia;
E até por coisas que eu sei
Jamais visita a cadeia.

FELISBERTO

Homem pobre é sempre feio
Bicho mau e desprezado;
Quem tem dinheiro é bonito,
É sábio, sempre engraçado.

CORO GERA

Dinheiro! Venha dinheiro!
Dinheiro é tudo na terra;
Dá prazeres, glória, amores,
Faz a paz e move a guerra.

FIM DO SEGUNDO E ÚLTIMO ATO

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