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O Primo da Califórnia

Joaquim Manuel de Macedo

Ópera em dois atos

Foi à cena na abertura do Ginásio Dramático, em 12 de abril de 1855.

Imitação do francês

PERSONAGENS

ADRIANO GENIPAPO, jovem professor de música

PANTALEÃO, amigo taberneiro

FELISBERTO, alfaiate

ERNESTO, amigo de Adriano

CELESTINA

BEATRIZ, criada de Adriano

Dois amigos de Adriano

A cena passa-se no Rio de Janeiro

ATO PRIMEIRO

O teatro representa uma sala modestamente ornada; uma mesa com gavetas; um piano, um violão, papéis de música, etc.; uma porta ao fundo abrindo para a rua.

CENA PRIMEIRA

BEATRIZ (Em pé, engraxando um botim) – eis-me aqui pagando os meus pecados!... eu sou uma espécie de verbi-gratia das mudanças desta vida. No tempo do vice-rei chamavam-me a nenê da rua das Flores; quando o rei chegou, já eu era conhecida pela formosa Beatriz: depois que me apareceu o primeiro cabelinho branco, tiveram o desaforo de tratar-me por tia Beatriz; felizmente ainda a sorte me deparou um soldado inválido que quis casar comigo; mas veio a febre amarela, que deu baixa eterna ao meu querido Pancrácio, e eu fiquei viúva, e viúva sem filha, e sem vintém! Não tive remédio senão recorrer aos Diários, e anunciar uma criada para homem solteiro ou viúvo: tive a esperança de me tornar meia-dona de casa; mas por fim de contas fiquei simples criada, e criada muito ordinária: isto é, criada de um músico!... Eis aqui portanto a bota de um músico engraxada pelas mãos da formosa Beatriz!... Oh! Eu só conheço três coisas tão desprezíveis como as botas de um músico: uma barretina de soldado, um capote de estudante, e uma casaca de meirinho! E eu sempre a engraxar estas botas, botas de um músico, de um músico que tem a pouca vergonha de me estar a dever cinco patacas de despesas miúdas!... (Canta)

No tempo da ventura
Chamavam-me formosa;
E agora nem airosa
Alguém, que eu sou, me diz!...

Engraxa, engraxa as botas,
Engraxa, Beatriz!

Meus olhos, minhas faces
Cobriam de louvores;
E agora... adeus amores,
Já torcem-me o nariz!

Engraxa, engraxa as botas,
Engraxa, Beatriz!

CENA II
BEATRIZ E CELESTINA

CELESTINA – Bom dia, senhor Beatriz; o senhor Adriano não está em casa?...
BEATRIZ – sumiu-se logo depois do almoço: também é provável que não esperasse pela sua visita, porque a senhora tem passado dois dias sem aparecer.
CELESTINA – não me tem sido possível.
BEATRIZ – Sim... sim... entendo isto às mil maravilhas! E, quanto a mim, minha menina, julgo que faz muito bem em ir pondo o anzol a outro peixinho.
CELESTINA – O que quer dizer com isso, senhora Beatriz?...
BEATRIZ – Eu nem de leve pretendo ofendê-la; minhas intenções são muito boas; e olhe, menina, tal como aqui me vê, já tive meus trinta e seis anos de idade, e então cometi a fraqueza de deixar o meu coração prender0me na patrona de um cabo-de-esquadra; oh! Quanta sedução que tinha!...
CELESTINA – O que, senhora Beatriz?... a patrona?...
BEATRIZ – Não, menina; o cabo-de-esquadra.
CELESTINA – E deixou-se enganar por ele?...
BEATRIZ – Também não, e a prova é que ele me desposou; mas passei uma vida de trabalho e pobreza, porque o triste Pancrácio apenas tinha de mais que os outros cabos-de-esquadra uma pequena pensão; mas também tinha de menos que os outros uma perna... era a direita; logo a direita!... a mais bonita de suas duas pernas!...
CELESTINA – mas eu não compreendo que relação...
BEATRIZ – Não compreende?... mas, minha menina, a moral da história está mesmo saindo pela ponta dos dedos! Em uma palavra, moça e bela, como a senhora é, não deve votar-se sem mais reflexão ao amor de um mancebo, que não tem aquilo com que se compram os melões; olhe, o senhor Adriano padece a moléstia mais feia e mais terrível deste mundo.. tem a tísica das algibeiras.
CELESTINA – Ah! Era isso?... pois é precisamente porque Adriano é pobre, que eu gosto, quero e hei de amá-lo sempre e cada vez mais. (Canta)

Minh’alma foi sempre rude,
Nunca aprendeu a contar;
Não serve pra guarda-livros;
O que sabe é só amar!

O meu Adriano é pobre,
Mas não indigno de mim;
Eu amo a sua pobreza;
“Gosto bem de ser assim!”

BEATRIZ – Sim... sim... idéias romanescas, poesias, e pensamentos generosos; mas o diabo me leve se a senhora for capaz de fazer ferver uma panela no fogo com um soneto, ou com uma idéia generosa.
CELESTINA – Mas bem que o senhor Adriano não esteja em muito boa posição: o que prova que ele seja tão pobre, como a senhor o diz?...
BEATRIZ – Quando se está devendo cinco patacas a sua criada, minha menina...
CELESTINA (à parte) Pobre moço!... (A Beatriz) Eis aí como se faz uma acusação injusta!... ele me havia encarregado de lhe entregar essa quantia, e eu não tendo vindo aqui há dois dias, deixei de cumprir tal comissão. (Dá dinheiro)
BEATRIZ (recebendo) – É singular! Ainda ontem falei-lhe nesta continha, e ele nada me disse.
CELESTINA – Poder-se-ia ter esquecido, ou não quereria falar no meu nome.
BEATRIZ (À parte) – Aqui há coisa! Mas como já tenho nas unhas o meu dinheiro, fica o exame desta geringonça para depois.
CELESTINA – E Adriano sem voltar!...
BEATRIZ – Não pode tardar... foi dar lição de música à filha do senhor Pantaleão, o proprietário desta casa: isto basta para o fazer suar! A filha de um antigo taberneiro, ridículo, exigente, e vaidoso da sua fortuna! O ventas de mono não tem na boca senão – a sua fortuna!... – Porém... ouço os passos e a voz do senhor Adriano...

CENA III
BEATRIZ, CELESTINA E ADRIANO

ADRIANO (Que vem cantando)

Quem por não ter dinheiro
Não vive com prazer,
Não pode ter miolo,
Quer cedo envelhecer!

É tolo, é tolo, é tolo:
Eu não o quero ser.

Sou pobre como Job;
Mas faço o que convém:
Amar, e rir-me busco,
E passo muito bem:

Patusco, e bom
[Patusco,
Como eu não há
[Ninguém.

Bravo! Oh! Que boa companhia! Linda Celestina... é verdade, senhora Beatriz, queira fazer-me o favor de ir ver se eu estou escondido em algum canto do seu quarto..
BEATRIZ – E se não o encontrar lá?...
ADRIANO – Terá a bondade de esconder-se atrás da porta para agarrar0me de improviso, quando eu lá entrar.
BEATRIZ – Entendo... entendo... (À parte) Como é insuportável obedecer a um musicozinho de dó-ré-mi, quando já se foi mulher de um cabo-de-esquadra!
ADRIANO – Então?... não julga conveniente ir procurar-me?...
BEATRIZ (Indo-se) – Sim, senhor; pondo-me ao fresco. (à parte). É um músico desafinado!

CENA IV
CELESTINA E ADRIANO

ADRIANO – Bem; agora que a velha bruxa nos deixou em paz, permite que eu beije essa mãozinha de anjo. (Beija-a) Ah! Que louco que sou! Eu tinha assentado de pedra e cal que devia brigar contigo, e cometi a inconseqüência de te beijar a mão... veja só que tolo!

CELESTINA – Brigar comigo?... e por quê?...

ADRIANO – Porque de algum tempo a esta parte eu te vejo menos vezes.
CELESTINA – Adriano, é preciso que eu te dê tempo para trabalhar.

ADRIANO – Mas, amiga de minh’alma, eu só trabalho bem quando estás presente: teu olhar me inspira, o sorrir de teus lábios enche de fogo minha imaginação, teu falar meigo derrama doçura angélica em minhas melodias, teu coração me exala o suspiro, que quando estou só, procuro debalde... e se para completar um pensamento, ou pôr o remate em uma harmonia, uma nota me falta, acho-a sempre nas covinhas de tuas faces.
CELESTINA – Sim... sim... mas também tu me abraças muitas vezes e isso te faz perder o compasso.

ADRIANO – É possível. Conversemos, porém sobre outro assunto; por que motivo vejo eu em alta noite luz no teu quarto?...

CELESTINA – Luz?...

ADRIANO – Creio que não me enganei: dali descubro a tua janela: será, que me deixas de noite para ir celebrar um comércio clandestino com espíritos e duendes?... haverá feitiçarias em teu quarto?... hem, Celestina?... Celestina, fala; tira-me deste labirinto em que me vejo perdido.

CELESTINA – Ah!... sim... se tens visto luz no meu quarto... é porque... eu tenho medo de estar só de noite no escuro, e conservo acesa uma lamparina.

ADRIANO – Lamparina?... que má lembrança! Tens medo de ficar só de noite?... por que então me não chamas para te fazer companhia?...

CELESTINA – Que dizes, Adriano?... pois esqueces...

ADRIANO – é Verdade... é verdade... seria isso inconseqüente... inconveniente... prejudicial, e muito próprio para dar que fazer às más línguas: eu não sou assaz licencioso, Celestina, para brigar contigo por este motivo; e seu para ser teu inseparável companheiro não te ofereço já o meu nome, meus dois nomes até, Adriano Genipapo, é que não desejo que venhas partilhar comigo de pão mal amassado, o único que me concede este mundo patife!

CELESTINA – Mas quando se ajuntam dois, ajuda um ao outro a carregar a pobreza e reúne-se o pouco que cada uma ganha de sua parte.

ADRIANO – Sim... é isso... não há dúvida nenhuma; mas quando desses dois uma ganha somente – nada – e o outro de seu lado traz para o monte unicamente um – zero -, por mais que se somem as duas parcelas quinhentas vezes por dia, o resultado da operação dá sempre – coisa nenhuma – e isso é o diabo, Celestina!

CELESTINA (Suspirando) – Tens razão; é necessário esperar...

ADRIANO – Esperar... esperar... é exatamente o que eu recomendo aos meus credores; desconfio, porém, que tanto lhes recomendarei que esperam, que acabarei por não ter quem me fie um pão e uma gota d’água!...

CELESTINA – Coragem! Ninguém como eu tem mais direito a aconselhar a coragem: tu o sabes já; nasci no seio da riqueza; mas era filha natural, e quando meu bom pai morreu, os parentes dele e meus queimaram o testamento, e enxotaram-me para o meio da rua.

ADRIANO – E a vítima foi olhada como uma criatura desprezível! E os larápios, que queimaram o testamento, transformaram-se com a rica herança, que roubaram, em homens de bem e de gravata lavada!... É preciso confessar que o maior maluco deste mundo é o mesmo mundo!

CELESTINA – Fecharam-se-me todas as portas, e todos me repeliram; desanimava já, quando ouvi soar a meus ouvidos: “Eis uma mulher perdida!” Levantei a cabeça, e disse: “Não me perderei”: corri a uma igreja, e rezei por meu pais, e por mim; quando saí da igreja, tinha já o coração cheio de esperança e de coragem; trabalhei... sabia bordar, bordei; sabia desenhar, desenhei; cosi, copiei manuscritos, e música, e finalmente vi que podia com o meu trabalho viver independente de todos, e pura aos olhos de Deus; hoje desprezo os meus verdugos, amo-te, Adriano; mas amo-te honesta, casta e virtuosa para ser digna de ti quando me deres a mão de esposo, se o nosso amor for abençoado por Deus. Assim pois, Adriano, coragem! Coragem, e trabalho!

ADRIANO – Oh! Tu me animas sempre! E animemo-nos ainda mais agora, Celestina, porque aproxima-se o momento, que deve realizar nossos sonhos de ventura.

CELESTINA – Como então?...

ADRIANO – Meu editor me espera daqui a pouco para ajustar comigo o preço de uma composição que ontem lhe enviei, e ao mesmo tempo espero vender uma ópera ao teatro Provisório, e conto com um lugar na orquestra do teatro de S. Pedro.

CELESTINA – Se tudo isso se puder realizar...
ADRIANO – Realizar-se-á, estou seguro; tenho todas as condições que se requerem. (canta)

A fortuna é Qual moça galante,
Que nos traz em constante lidar;
Já provoca, já foge, e já volta,
Té que sempre se deixa apanhar

E contando já com o meu próximo adiantamento, receberei aqui visitas esta noite.

CELESTINA – E que visitas?...

ADRIANO – Alguns amigos camaradas de colégio: o que havia de ser, Celestina?... na última corrida de cavalos interessei-me por um maldito mouro de crinas brancas e de cauda preta; tinha-me esquecido que de um mau mouro não se pode fazer bom cristão, e ainda mais era um diabo de cavalo que pertencia a todos ao mesmo tempo, porque tinha todas as cores: era um cabalo que fazia furor, um cavalo da moda! Apostei por ele e perdi! Perdi um bolo inglês e doze garrafas de champanhe! Nunca mais confiarei em animais, que pertençam a todas as cores.

CELESTINA – E portanto pagas hoje o bolo inglês e o champanhe?...

ADRIANO – É verdade! Faço esse obséquio aos meus amigos: também eles têm-me recebido tantas vezes em suas casas, que hoje por minha parte quero também recebê-los: o pior é que os meus amigos são ricos, e eu pobre; oh!... não é inveja, é orgulho: quando eu vejo que eles se deitam sobre bilhetes do banco, e eu não possuo coisa nenhuma, Celestina, daria sem hesitar tudo, absolutamente tudo quanto possuo, para ter uma renda de cem contos de réis.

CELESTINA – Vou deixar-te em sossego para que te ocupes dos preparativos do teu bolo inglês; mas olha, toma cuidado em ti, Adriano; tu tens a cabeça muito fraca... não te adiantes muito pelo champanhe...
FELISBERTO (Entrando) Ora graças, que uma vez o encontrei!...

CENA V

ADRIANO, Que acompanha CELESTINA até à porta, e FELISBERTO

ADRIANO – Oh! Caro e preclaro amigo Felisberto!... (Acompanha Celestina).

FELISBERTO (à parte) – Exatamente... a nova rua, que a Câmara Municipal projeta abrir, deve passar por aqui, e se eu consigo comprar esta casa, hei de vendê-la com um lucro de trezentos por cento, pois que tenho bons padrinhos.

ADRIANO – Às ordens do meu amigo Felisberto!

FELISBERTO – o senhor adivinha sem dúvida os motivos que me trazem aqui...

ADRIANO – Oh! Incomparável alfaiate! Vem seguramente ver se tenho necessidade de alguma roupa; chega bem a propósito... a minha roupa mais nova mostra já os cordões diabolicamente, e exige a todo transe uma reforma.

FELISBERTO – E o senhor pensa...

ADRIANO – Em lhe encomendar roupa nova... pois que duvida?... tenho inteira confiança na sua tesoura magistral; o senhor é o alfaiate de minha confiança; não lhe pose retirar o meu voto.

FELISBERTO – Eu suponho; quando se é o alfaiate do corpo diplomático...
ADRIANO – Ah!... então o senhor é o alfaiate dos diplomatas?... por que não mo disse há mais tempo?

FELISBERTO – Tenho essa honra; porém, voltemos ao que mais importa; o senhor diz que quer roupa nova?... bem; mas a respeito da velha, que lhe fiz...

ADRIANO – Já não presta para nada, meu querido Felisberto!

FELISBERTO – Estou por isso; é, porém, necessário que nos entendamos acerca de...

ADRIANO – Da cor provavelmente?... é verdade; qual é a do último gosto?...

FELISBERTO – Não há cor dominante agora; mas não é isso... o que eu quero é que...

ADRIANO – Já lhe disse que o senhor é o alfaiate da minha confiança; escolha portanto as fazendas, corte, cosa, vista-me! Eu me entrego em suas mãos... Que mais pode desejar?...

FELISBERTO – O que eu desejo é que finalmente falemos sobre...

ADRIANO – Sobre os botões, não é isso?... meu amigo, prefiro os de metal, porque o metal...

FELISBERTO – Exatamente é por causa do metal que eu aqui venho; o meu metal, meu senhor, é muito raro... não aparece nunca... o meu cobrador já cansou de o procurar, e agora venho eu próprio a ver se sou mais feliz: então?... (Canta)

Está perdendo o seu tempo,
Se finge não me entender;
Pague já o que me deve,
Que eu tenho mais que fazer.

Não sou criado do povo;
Quem trabalha, quer comer;
Pague já o que me deve,
Que eu tenho mais que fazer.

ADRIANO – Qué!... será possível que por alguns magros réis o alfaiate do corpo diplomático se abaixasse a subir a um terceiro andar?... o alfaiate do corpo diplomático!... que miséria!... que miséria!...

FELISBERTO – Mas é que o senhor chama magros réis a uma soma de....
ADRIANO – Pare... pare... não pronuncie o total... lembre-se que sou músico, e que o som produzido por um total é capaz de esfolar-me os ouvidos!...

FELISBERTO – Senhor, basta de gracejos; creio que devo ser pago, visto que não seria com o único fim de lhe obsequiar, que há dois anos o tenho vestido dos pés à cabeça; lembre-se que está coberto com os meus panos?

ADRIANO – Alfaiate do corpo diplomático! Sabe música?...

FELISBERTO – Não, senhor.

ADRIANO – Em tal caso lhe farei ouvir uma composição, que deve elevar-me à imortalidade! Compreendo perfeitamente que enquanto não chega a imortalidade é necessário ter de que viver; mas não é tarde... sim, caro, preclaro, e preclaríssimo Felisberto; eu vou estrear na minha arte... o senhor já esteou na sua... a única diferença está nas nossas divisas; o senhor tem a tesoura, e eu vou ter a batuta... o senhor entende isto suficientemente, não é assim?... eu sou rapaz de consciência... O senhor deve ser um homem de paciência... eu... não pretendo enganar a pessoa alguma... oh! Não... nunca!... porém, por ora... falemos sério... (Batendo nos bolsos) Estou a tocar matinas!... por conseqüência, caro e preclaro Felisberto em suma.... em uma palavra... em último resultado... para dizer tudo... agora?... não pode ser; amanhã... veremos, espere sempre; (À parte) é impossível... ninguém satisfaz um credor melhor do que eu!

FELISBERTO – Senhor! Se se acha em más circunstâncias, tanto piro para a sua pessoa, quanto a mim, nada tenho com isso, nem pretendo intrometer-me em negócios alheios.

ADRIANO – Todavia convém que fique sabendo, que me vão imprimir uma magnífica coleção de composições musicais.

FELISBERTO – Faço idéia... algumas valsinhas...

ADRIANO – Nada... nada... coisa mais alta; vou concluir o meu ajuste com o editor, e espero em breve pagar-lhe a insignificante continha, que o senhor teve a baixeza de julgar tão elevada.

FELISBERTO – Porém, quando, senhor? Quando?...

ADRIANO – Mais cedo do que talvez espera.

FELISBERTO – Juro que não será mais cedo do que desejo.

ADRIANO – Oh! Que semelhança em nossos pensamentos, caro e preclaro Felisberto!

FELISBERTO – Adeus, senhor; como não nasci para andar toda a minha vida correndo atrás do seu dinheiro, cá lhe enviarei outra vez o meu cobrador.

ADRIANO – Ele achará a porta da minha casa tão aberta e franca, como para o senhor o está sempre a porta do meu coração

FELISBERTO

Preciso é pagar;
O triste credor
Não pode esperar;
Quem compra fiado,
E quer ser honrado,
De pagar os meios
Calcula e prevê;
Preciso é pagar,
Arranje com quê.

ADRIANO

– Preciso é pagar?...
O duro credor
Não pode esperar?...
Eu comprei fiado,
Quero ser honrado;
Mas que os meios faltam
O senhor bem vê;
Preciso é pagar?...
Não tenho com quê.

CENA VI
ADRIANO (só)

Preciso é pagar... boa dúvida! Que é preciso pagar, sei eu; mas como é que um homem sem dinheiro pode pagar suas dívidas? É o segredo que eles me deviam ensinar. Dinheiro... dinheiro... os diabos me levem se eu não o desejo mais do que eles: ora é boa! Tenho eu culpa de não ter nada de meu?... a fortuna é uma rapariga a quem tenho namorado toda minha vida, e a ingrata teimado sempre em dar-me de tábua; mas agora espero ficar às boas com ela. Corramos à casa do meu editor... fica perto... ali defronte; e o bolo inglês?... ah! Chamamos a impagável Beatriz... ei-la que chega a propósito... senhor Beatriz! Senhora Beatriz!...

CENA VII
ADRIANO e BEATRIZ

BEATRIZ – Aqui estou, senhor; mas por quem é, não me mande procurá-lo em parte nenhuma.

ADRIANO – Esta noite reúno aqui os meus amigos; vá ao hotel de França e receba lá um bolo inglês, e algumas garrafas de vinho, que lhe entregarão, e durante a minha ausência disponha tudo o que é necessário para esta solenidade um pouco extraordinária em minha casa.
BEATRIZ – O que é isto pois?... bolo inglês e vinho?... então o senhor tirou a sorte grande no vigésimo, que comprou no outro dia?
ADRIANO – Sim, modelo das criadas!... (Canta)

O diabo atrás da porta
Não devia sempre estar.

BEATRIZ – Mas que fortuna foi essa?...
ADRIANO – Minha sorte vai mudar.

Sinto já por tal ventura
O juízo a me voltar;
E a prova de que estou doido
É que chego a te abraçar!

BEATRIZ (Sem recusar) – Senhor Adriano, não comece com essas graças.

ADRIANO – Não tenha receio... Oh! Certamente deve confiar em si mesma... adeus... não esqueça nada. (Vai-se)

CENA VIII
BEATRIZ, e depois PANTALEÃO

BEATRIZ (Suspirando) – Sempre pensei que tivesse o atrevimento de me abraçar! Também de que me servia o abraço de um musicozinho das dúzias?... se eu não recuo tão depressa... mas deixemos estas asneiras. Uma ceia!... ainda trabalho... e depois deita-se a gente tarde... perde-se a noite... e isto acontece à Beatriz formosa, por causa de um músico de meia cara!... ora enfim vamos a ver o que se arranja. (Abre a gaveta) Bem... copos cinco, exatamente, e cada qual de sua qualidade: pratos... nove, entrando dois rachados: aqui há de tudo, desde a louça da China, até...

PANTALEÃO – Olhem lá em que ela se ocupa... dá de língua como deputado!... Velha rezingueira, é assim que cumpre o nosso contrato?... eu te pago meia moeda por mês, fora os caídos, para observares o procedimento da minha súcia de inquilinos, e entretanto um deles está pondo os trastes da porta para fora sem pagar o que legitimamente me deve, e eu nada sei do que se passa!... olha, que te suspendo o ordenado!
BEATRIZ – E quem é que está fazendo esse desaforo?...

PANTALEÃO – O locatário do terceiro andar, que acaba de fazer descer as escadas a dois enxergões e uma esteira!...

BEATRIZ – já sei o seu destino, senhor; os enxergões vão se encher de novo e a esteira, que já está muito velha, mandaram-na atirar à praia.

PANTALEÃO – Aceito a explicação; mas sustento o que disse: eu quero que não durmas, e que de dia e de noite observes o que se passa na minha propriedade: olha... põe-te alerta principalmente de madrugada: quando eu tinha as minhas duas vendas era de madrugada que eu fazia o melhor negócio com os pretinhos: aquilo, sim! Hoje era um cordão de ouro por meia pataca, amanhã uma colher de prata por quatro vinténs, depois de amanhã um anel de brilhantes por um martelinho de infusão de gengibre, que eu chamava aguardente... oh! Tudo isso sem bulha, sem matinada, e muito honradamente, muito honradamente!...

BEATRIZ – Senhor Pantaleão, eu cumpre como posso as suas ordens; mas Vossa Senhoria bem sabe que eu sou também criada do musicozinho...

PANTALEÃO – Tudo isso mudará, e principiarei hoje por mandar pôr os quartos na rua a esse insuportável arranha-notas...

BEATRIZ – Olhe, não hei de ser eu que me ponha diante dele para lhe impedir a retirada: pois o insolente não quis ainda há pouco dar-me um abraço?... e se eu não recuo tão depressa...

PANTALEÃO – Enfim... devo proceder desse modo; pois o que é esse músico?... um habitante de um terceiro andar: somente farroupilhas moram em tais alturas: dever-se-ia proibir os terceiros andares... eles só servem para alojar inquilinos que nunca pagam ao senhorio.

BEATRIZ – Eis aí o que é falar bem: cá eu sempre fui inimiga de canalha.

PANTALEÃO – Sim... é isso mesmo: essa gente que não tem real de seu é uma verdadeira canalha!... Mas agora deixa-me só, que ouço os passos do meu inquilino farroupilha: anda, vai-te!

BEATRIZ – Eu sou uma criada sempre pronta a obedecer a Vossa Senhoria por cuja felicidade rezo sempre nas minhas bentas contas! (À parte) é um jagodes muito ordinário; mas é preciso fazer-lhe cortesias, porque dizem que tem dinheiro, como farinha! (A Pantaleão) Sou uma criada de Vossa Senhoria Excelentíssima... (Vai-se)

CENA IX
PANTALEÃO e ADRIANO desesperado

PANTALEÃO – Usemos do meu direito de proprietário para tratar a este mequetrefe como convém.

ADRIANO (Atirando com o chapéu, e um rolo de músicas) – Estúpido editor! Falta-me à palavra! Recusa minhas músicas!... é necessário, diz ele, que eu tenha um nome... um nome!... um nome preciso eu para qualificar tão indigno procedimento!... e eu, que calculava com isso. (Sentidamente) obrigado a empenhar o meu relógio... a última lembrança de minha mãe! (põe uma clareza ou papel sobre a mesa) Porém, ele está seguro, e apenas puder tirá-lo do Monte de Socorro...

PANTALEÃO – Penso que, enfim, o senhor se resolverá a prestar-me dois minutos de atenção!

ADRIANO – Ah! É Vossa Senhoria, senhor Pantaleão?... perdoe-me, não o tinha visto... chegou muito a propósito...

PANTALEÃO – A propósito?... então está de maré cheia?...

ADRIANO – Sim; em maré cheia de tristeza... de angústias... de cólera... de...

PANTALEÃO – É moeda que não corre em minhas propriedades.

ADRIANO – Pois vejamos: o que quer o senhor de mim?...

PANTALEÃO – Duas coisas muito simples: primeira, despedi-lo de inquilino de uma das minhas propriedades; segunda, despedi-lo de mestre de música de minha filha Ifigênia Pantalôa.

ADRIANO (À parte) – Como via tudo a melhor! Queda!... em cima de queda, coice... em cima de coice... um dardo, que atravesse a esta súcia toda! Estou bonito! Estou mesmo a ver jurar testemunhas!... ( A Pantaleão) Suponho que tenho o direito de perguntar-lhe os motivos de duas despedidas tão súbitas, como intempestivas.

PANTALEÃO – Pois não! Eu lhe satisfaço: não me convém que o senhor continue a dar lições de música à minha filha, porque vejo que ela nenhum progresso faz; gasto em sua educação seiscentos mil réis por ano, e isto dura já há dez anos, o que perfaz a quantia de seis contos de réis, que com juros compostos, iam muito longe, e minha filha se vai tornando muito cara!

ADRIANO – E tenho eu a culpa de que Dona Ifigênia não tenha disposições para a música?...

PANTALEÃO – Quê! Pois a filha de um homem rico, de um homem que já teve duas vendas e que é hoje senhor de tantas propriedades, deixaria de ter disposições para a música?... ela tem habilidade... mesmo habilidade rara, o que lhe falta é um mestre de capacidade.

ADRIANO (À parte) – E ature-se lá um estúpido destes! (A Pantaleão) Então é este o único motivo por que sou despedido?...

PANTALEÃO – Além disso ela tem coração... esse coração tem suas fraquezas... e eu tenho reparado que minha filha quando olha para o senhor fica sempre vermelha como um camarão.

ADRIANO – Sim?... talvez aperte muito o espartilho.

PANTALEÃO – Em suas lições de desenho ela não faz um nariz, uma orelha, um olho, que eu não encontre o seu mesmo nariz, a sua mesmíssima orelha, e até o seu mesmíssimo olho!... em bom português: desconfio que minha filha está se apaixonando pelo senhor.

ADRIANO – É possível... e realmente isso não me faz mal nenhum.

PANTALEÃO – Mas a mim faz muito: eu, que já tive duas vendas, e que sou hoje senhor de tantas propriedades; eu que tenho uma certa posição, que sou capitão da guarda nacional, não havia de ir entregar minha linda filha a um pobre músico, que nem ao menos paga o aluguel da casa em que mora.

ADRIANO – Não briguemos por isso: pagarei o aluguel desta casa...

PANTALEÃO – Pagarei, pagarei, e pagarei, está o senhor a me dizer há três meses!... e eu devo afirmar-lhe que por este terceiro andar acabam de me oferecer mais quatro mil réis por mês, além do que o senhor me devia pagar, e portanto...

ADRIANO – Pois bem, eu cedo; dê-me um pequeno quarto, uma mansarda qualquer em relação com os meus poucos meios, e amanhã mesmo estarei mudado; pode crer: dou-lhe palavra de honra que em menos de um quarto de hora mudarei toda a minha mobília... a minha louça... os meus trastes de luxo... enfim, tudo... tudo...

PANTALEÃO – Devera?... eis aí um corretivo ao mau procedimento que tem tido comigo: há aqui por cima deste sobrado, um sótão em que o senhor se acomodará perfeitamente.

ADRIANO – Ah! É num buraco que fica aqui por cima?... pois está tratado; serve-me às mil maravilhas... vou transformar-me em rato... Que bom agouro... os ratos quando são grandes, são tão felizes e respeitados!...

PANTALEÃO – Mas insisto sempre no que lhe disse a respeito de minha filha, e quero que me pague o que me deve: preciso de dinheiro, senhor, e de muito dinheiro: vou entrar em negociações importantes; o monopólio da carne fresca e do toucinho é uma mina aberta, e os homens de bem não devem perder a pechincha; vou portanto abrir de novo as minhas vendas, e tornar a viver entre as pipas e os paios, e sobre as mantas de carne seca!

ADRIANO (À parte) – Donde nunca deveríeis ter saído, taberneiro de um figa!

PANTALEÃO – Não se esqueça do que acabo de lhe dizer; ficaremos amigos como dantes, logo que me pagar o que me deve! (À parte) minha filha apaixonada de um farroupilha: que humilhação!... (A Adriano) Jovem músico, locatário insolúvel, dinheiro quanto antes, e adeus... (Canta)

Da carne fresca e toucinho
No monopólio me empenho;
Chore o povo muito embora,
Eu com isso nada tenho;
Quero dinheiro e depressa,
Que o monopólio começa.

ADRIANO

Da carne seca e toucinho
No monopólio se empenha;
Em tais biltres é preciso
Que a polícia os olhos tenha;
Polícia, acode depressa,
Que o monopólio começa.

CENA X
BEATRIZ e ADRIANO logo depois

ADRIANO – “É necessário pagar; eu quero o meu dinheiro!” Tal e qual como aquele indigno alfaiate: “Meu dinheiro!” Que gente estúpida! Só tem na boca uma palavra, não sabe dizer senão isto: “Meu dinheiro!” é fastidioso... maçante... diabólico... vai-te, miserável taberneiro.

BEATRIZ (Trazendo uma cesta e uma bandeja) – Senhor, eis aqui o que me entregaram no hotel... vim carregada como um preto do ganho.

ADRIANO (Examinando) – Muito bem: bolo inglês... champanhe... vinho de Reno... madeira seco... Experimentemos este; afoguemos os pesares em copos de vinho (Bebe); não está mau!...

BEATRIZ – Mas como o vejo triste, senhor: ah! Adivinho, que já lhe deram a notícia...

ADRIANO – Notícia de que, mulher?...

BEATRIZ (Arranjando a mesa) – Eu sou discreta... porém, como não é mais um mistério... o senhor Juca do armarinho o tem publicado por todo o quarteirão.

ADRIANO – O quê?... o quê! Diga de uma vez, ande...

BEATRIZ – Enfim, ele é suficientemente rico para fazer a fortuna de uma moça: olhe, só em consultas gratuitas, tem ganho rios de dinheiro!

ADRIANO – Mas então o que há?... desembucha, velha dos meus pecados.

BEATRIZ (À parte) – Velha! Pois espera, que eu te curo. (A Adriano) Eu me explico: o doutor Oliveira, médico homeopata, que, como todos sabe, está muito rico, e que vende cada vidrinho das suas feitiçarias a cinco mil réis, fez suas proposições à senhora Dona Celestina, que depois de algumas dúvidas acabou por dizer, que sim.

ADRIANO – Celestina?!!! É uma ignóbil mentira!

BEATRIZ – O senhor está no seu direito duvidando; mas a notícia é oficial; falta só aparecer no Jornal do Commercio, e nos fatos diversos do Mercantil.

ADRIANO – Senhora Beatriz, retire-se, deixe-me!...

BEATRIZ – Senhor!

ADRIANO – Retire-se... retire... aliás...

BEATRIZ – Está furioso: tal e qual como o meu defunto Pancrácio quando tinha ciúmes de sua formosa Beatriz! (Vai-se)

CENA XI
CELESTINA e logo ADRIANO

ADRIANO – Esta velha mente! Mente por força! Mas não... deve ser verdade... as desgraças hão de continuar a cair sobre mim... todos devem abandonar-me... aborrecer-me: eu sou o mais vil dos homens, isto é... sou pobre!

CELESTINA – Meu Deus! Que tens?... ah! Eu o adivinho; o editor rejeitou tuas músicas...

ADRIANO – Sim, Celestina, ele faltou à sua palavra: é muito mal feito faltar à palavra que se dá, não é assim?...

CELESTINA – Sim, sim; é muito mal feito.

ADRIANO – Não é verdade, que quando se tem feito uma promessa, essa promessa se deve cumprir?...

CELESTINA – Sim, sempre; mas a que fim semelhantes perguntas?...

ADRIANO – Ah! Celestina! É que tu te condenas por ti mesma; tu me fizeste uma promessa sagrada... juraste que serias minha mulher à face da igreja, e agora?... oh!... mas não... tens razão... era necessário esperar... sabe Deus quanto tempo!... e ganhará com que dar-te belos vestidos de seda... que só teria para ti profusão de amor, e de ternos cuidados?!!! Pensas bem... é melhor um homem rico, que te encherá de brilhantes e de jóias preciosas; que te levará ao teatro, aos espetáculos, aos passeios em seu vistoso carro!... tens razão, Celestina; aceita o homem rico, esquece o pobre músico; somente uma coisa te peço: quando correres pelas ruas em tua carruagem, se encontrares o mísero artista, recomenda ao teu cocheiro, que o não salpique de lama... isso será um obséquio feito a quem morrerá pronunciando o teu nome.

CELESTINA (Chorando) – Adriano! Que acabas de proferir?... ah! Despedaçaste-me o coração.

ADRIANO (Cantando)

Não chores; podem no rosto
Traços de pranto ficar,
E esses sinais de amargura
Teu novo amor desgostar.

Tem valor, porque bem cedo
Para ti vindo a riqueza,
Esquecerá, sem remorso,
Quem te adora na pobreza.

CELESTINA – Ah!... Adriano... és muito cruel!

ADRIANO – Como?... ainda em cima sou eu que não tenho razão?... ora não falta mais nada!... tuas ausências, essa luz que em horas mortas vejo em teu quarto... esse maldito homeopata, que te faz propostas sedutoras: tudo isso será um sonho de minha imaginação?...

CELESTINA – Eu queria te ocultar a razão por que velo; mas já que me acusas, falo e provarei tua injustiça: essa luz que tens visto em horas mortas, esclarece minhas vigílias; eu aprendo a gravar música... se não me acreditas, posso mostrar-te os meus trabalhos...

ADRIANO – Celestina? É possível?...

CELESTINA – O meu bom Adriano... disse eu a mim mesma, merece ser feliz, e é desgraçado! Bem... eu não lhe serei pesada... ele tem talento; porém, não querem aceitar suas produções... pois eu as gravarei... nós as espalharemos pelo mundo... finalmente, far-lhe-ão justiça, e eu terei feito alguma coisa para lhe chegar mais cedo a glória e a fortuna, que por força deve ter um dia.

ADRIANO – Ah! Celestina! Tu tens tantas virtudes, como aquela jovem mulher que outrora conduzia pela mão a Belisário cego! Mas esse indigno homeopata...

CELESTINA – Ele quer casar comigo.

ADRIANO – Casar contigo?

CELESTINA (Dando uma carta) – Eis a minha resposta; eu lhe ia enviar; podes lê-la; a carta ainda não tem obreia.

ADRIANO (Depois de ler) – Recusas, Celestina?... tu recusas um brilhante futuro?...

CELESTINA – Sim; e queria também ocultar-te isso.

ADRIANO – Ah! Que eu não mereço um anjo, como tu és! Quanto mais sobre mim pesa a pobreza, mais tu te prendes à minha má fortuna: ah! Velha bruxa Beatriz de uma figa!

CELESTINA – Não falemos mais nisso.

ADRIANO – Ah! Que eu não mereço um anjo, como tu és! Julgado mal de ti, me oprime tão fortemente o coração, que me acho quase em termos de, por indisposto, transferir o bolo inglês, que ofereci aos meus amigos.

CELESTINA – Bolo inglês?... e o dinheiro?...

ADRIANO – Eu ainda tenho... uns... dezessete mil réis.

CELESTINA – Sim?... e como os arranjaste?...

ADRIANO – Como os arranjei?... sim... é verdade... foi... um caso muito engraçado; encontrei um amigo, que mos devia e que mos pagou; o procedimento certo que é pouco usado; mas... esta senhora Beatriz... (Indo à porta)

CELESTINA (Junto à mesa e vendo a clareza) – Uma clareza!... o seu relógio no Monte de Socorro!... ah! Eu compreendo tudo agora (Guarda a clareza)

ADRIANO – Sinto as pisadas da minha velha e insolente criada.

CELESTINA – Eu te deixo.

ADRIANO – Sem ressentimento, minha Celestina?...

CELESTINA – Oh! Sim! Amando-te mais ainda!

ADRIANO (Cantando)

Adeus, pois o meu ciúme
Ofendeu teu coração;
Mas do amor, que me consagras,
Alcancei fácil perdão.

O ciúme é um pecado,
Que sempre de amor provém:
Sem ciúmes não se ama;
Só quem não ama os não tem

CENA XII
ADRIANO e BEATRIZ que acompanha CELESTINA até a porta

BEATRIZ (pondo no piano copos, pratos, etc.) – Creio, que esta sirigaitazinha olhou-me assim com um ar de desprezo... isto já me vai passando os limites da familiaridade!

ADRIANO (Voltando) – Senhora Beatriz, a senhora é uma velha Prosérpina!

BEATRIZ – Prosérpina! Prosérpina!... e o senhor é um... é um... é um Prosérpino! (À parte) Entendo isto perfeitamente... a menina untou-lhe mel pelos beiços, e ele caiu como um patinho... como é crédulo, coitado!...

ADRIANO – Então tudo está pronto?... mas faltam duas facas...

BEATRIZ – Foram essas as únicas que encontrei na gaveta da mesa: e note que uma já está desconjuntada.

ADRIANO – Não importa: os meus amigos são ricos, e estão acostumados ao luxo; é bom que vejam um dia e bem de perto como se passa na pobreza: divertir-se-ão ainda mais com isso.

BEATRIZ – Devo, porém, dizer, que o meu defunto Pancrácio era bem pobre, mas quando queria dar o seu banquete, mandava-me pedir louça emprestada à mulher do sargento Luizinho...

ADRIANO – Silêncio! Sinto que sobrem os meus amigos: limite-se às suas funções; e que se não perceba, que eu discuto com os meus criados.

BEATRIZ (À parte) – Criados! Vejam como é insolente este farroupilha.

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