– “História do meu amor”, disse esta lendo; ah! eu tinha adivinhado o título.
– Peço-te que leias para ti só; eu me envergonharia muito se te ouvisse ler alto.
Mariquinhas começou a leitura da história do amor de Celina.
A “Bela Órfã” acompanhava com os olhos todos os movimentos, todas as impressões que aquela leitura produzia em sua amiga, corando se esta sorria, animando-se, tremendo, e confundindo-se segundo as expressões fisionômicas da leitora.
Quando Celina viu que os olhos de Mariquinhas volviam-se correndo pelas últimas linhas da derradeira página, abaixou de novo a cabeça, envergonhada e confusa.
– Bravo, d. Celina! estás em bom caminho para romancista; mas repara que não podes aproveitar muito no nosso país.
– Não zombes.
– Falo séria; porém, dize que destino pretendes que tenham estes papéis?...
– Que destino?... o fogo.
– O fogo?! – Sim; queimá-los-ei, respondeu soltando um suspiro a “Bela Órfã”.
– Não; não cometerás um parricídio. Quando tua mão se erguer para lançá-los às chamas, tua alma, eu o juro, cantará os versos de Torquato: “Ah! não seria possível”.
– Pois então que poderia eu fazer deles?...
– Quem sabe?... estes papéis guardam-se. É possível que cheguem um dia às mãos do feliz mancebo que te moveu a escrevê-los.
– Oh! Deus me livre!...
As duas moças calaram-se de repente, sentindo que alguém subia a escada.
Celina guardou os papéis na gaveta donde os tinha tirado.
Apareceu uma escrava à porta do quarto.
– O que é?... perguntou Celina.
– O sr. Salustiano, respondeu a escrava.
– Dize-lhe que meu avô e minha tia saíram, respondeu “Bela Órfã”.
– Mas que nós descemos já para recebê-lo, acrescentou Mariquinhas.
– Não! – Sim! vai: dize-lhe que o vamos já receber.
A escrava desceu.
– Que queres fazer, d. Mariquinhas?...
– Conversar, divertir-me.
– Oh! porém tu me comprometes; este homem é um maldito impertinente...
– Melhor.
– Requesta-me... diz-me loucuras.
– Ótimo.
– Eu o aborreço.
– Por isso mesmo.
– Que queres pois?...
– Rir-me.
– Então entendes que devo...
– Zombar dele.
– Como?...
– Como te parecer.
– Mas eu não sei fingir.
– Pois desengana-o; isso também me diverte. Ainda não vi como fica o rosto de um desenganado.
– Tu és louca.
– Vamos! – Hei de arrepender-me deste passo.
– Ao contrário, prevejo que terás de agradecer-me. Vamos! Não te lembras que o sr. Salustiano nos espera? Mariquinhas tomou a mão da “Bela Órfã”, e levou-a quase à força para o andar inferior.
Quando as moças acabavam de descer a escada, correu-se a cortina que tapava a portinha do fundo, por onde se comunicavam as câmaras de Mariana e de Celina.
Um homem aproximou-se com precaução e cuidado da mesa, junto da qual tinham as moças conversado.
A gaveta dessa mesa estava fechada, mas Celina havia-se esquecido de tirar a chave.
O homem abriu a gaveta, tirou dela os papéis que continham – a história do amor da “Bela Órfã” – e saiu com tanto cuidado e precaução como entrara.
Esse homem era o velho Rodrigues.
ENTRARAM as duas moças na sala, e Salustiano, que se tinha recostado a
uma janela, voltou-se para recebê-las.Sentaram-se todos três.
Era bem de estudar-se a expressão fisionômica de cada uma daquelas três personagens.
Celina, que havia sido trazida quase à força para a sala, mostrava-se contrafeita e acanhada; sentou-se bem unida a Mariquinhas, cuja mão apertava como procurando uma defesa.
Salustiano esforçava-se para ostentar a impassibilidade de que se jactava; mas não podia esconder de todo a comoção que sentia na presença da moça que amava, e o quanto o contrariava uma terceira pessoa, que ele não queria encontrar ali naquela ocasião.
Mariquinhas completava o grupo. No meio dos dois desapontados aparecia risonho, belo e malicioso o rosto da interessante moça. Seus olhos vivos e travessos confundiam realmente Salustiano, que, a pesar seu, já não tinha sarcasmos para suas palavras, nem para seus sorrisos.
– Sinto havê-la incomodado... tinha dito Salustiano muito desenxabidamente.
– Oh! não, não nos incomodou, respondeu Mariquinhas; deu-nos ao contrário muito prazer.
– Seria isso possível?... perguntou o moço, fitando os olhos em Celina.
– Pois ainda duvida?... tornou a primeira.
– Perdão, minha senhora; mas considero tão subida essa felicidade que muito me custa acreditar nela.
– Ora esta!... eu achava a coisa muito simples! – Talvez para V. Exa.
– Digo mesmo que a sua visita foi um verdadeiro obséquio que V. Sa. nos fez.
– Lhes fiz?! V. Exa. fala em nome de mais alguém?... perguntou sorrindo-se o moço.
– Certamente: falo também em nome da minha amiga.
Celina apertou com força a mão de Mariquinhas.
– Ai! não me apertes a mão, d. Celina!...
– Ora, d. Mariquinhas, você está sempre brincando! – Mas, como eu dizia, V. Sa. nos fez um verdadeiro obséquio aparecendo aqui.
– Bem... suponhamos que V. Exa. não está apenas dizendo palavras muito lisonjeiras; suponhamos que eu tenho a vaidade de acreditar que fiz um verdadeiro obséquio a V. Exas. aparecendo aqui; devo porventura concluir que eu era esperado e desejado? Mariquinhas pensou um momento; sorriu-lhe a malícia nos lábios, e depois respondeu: – Esta d. Celina compromete as amigas terrivelmente! é capaz de conservar-se em silêncio um dia inteiro! – Tenha V. Exa. a bondade de responder por ela.
– Pois bem: digo que não era positivamente V. Sa. quem desejávamos ver.
– Eis aí o que eu não compreendo.
– Queríamos a presença de um de certos cavalheiros, e V. Sa. serve-nos a mil maravilhas.
– Posso saber para quê?...
– Para um estudo particular.
– Ora!... eis-me compreendendo ainda menos do que ainda há pouco.
– Trata-se de um segredo de moças.
– Bem... não perguntarei mais nada.
– Oh! pelo contrário, pergunte. Eu sou como as outras; quando tenho um segredo, fico louca para contá-lo a todos; na alma de nós outras, um pensamento que se não deve revelar não é um segredo, é um martírio.
– Então, o que é segredo?
– Para as moças?...
– Sim, minha senhora, o que é um segredo para as moças? – É uma coisa que se diz baixinho aos ouvidos de quase todos.
– Pois, nesse caso, minha senhora, peço a V. Exa. que, se me julgar digno disso, diga-me o seu segredo, ainda que seja baixinho.
– Oh! este pode-se contar em voz alta.
– Se portanto me supõe digno...
– Sem dúvida que o julgo; até V. Sa. nos há de servir de muito.
– Estou à espera, minha senhora.
– Trata-se de um romance...
– De um romance?! – Sim, de um romance, que d. Celina e eu estamos compondo.
– Parabéns, minhas senhoras; mas eu não sei... V. Exas. querem porventura um terceiro colaborador?...
– Qual?...
– Eu. V. Exa. tinha falado em mim.
– Deus nos livre! perderíamos a glória de autoras.
– Por quê? – Os senhores homens custam muito a julgar-nos capazes de escrever; e portanto era V. Sa. quem ganharia todas as honras da obra.
– Mas esse romance..
– É uma história de todos os dias e de todos os salões.
– Já está completa? – A invenção completamos hoje; mas a execução nos está dando muito que fazer.
– O que falta? – Quase tudo; atrapalha-nos grandemente uma das principais personagens.
– Por quê? – Pela dificuldade de descrevê-la; mas V. Sa. chegou muito a tempo.
– E então? – Então, é que enquanto nós conversamos, d. Celina vai tomando nota.
– Nesse caso eu...
– V. Sa. ou outro qualquer... V. Sa. é como quase todos...
– Obrigado, minha senhora.
– Cortou-me a palavra; não tem que agradecer-me, pois não sabe o que eu ia dizer.
– Adivinhei.
– Dou-lhe parabéns: veja se adivinha também o nosso romance.
– Não chego a tanto, minha senhora.
– Quer que lhe tracemos o esqueleto da nossa obra?...
– Terei muito prazer em ouvir a V. Exa.
– Não poderá fazer uma justa idéia do que será, pela falta dos episódios e dos diálogos.
– Oh! mas eu compreendo o que poderá fazer uma pena manejada por quem
deve à natureza tanto espírito como V. Exa.– Agradecida.
– Creia V. Exa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.
– Muito agradecida, respondeu Mariquinhas rindo-se, e sem dar mostras de doer-se da ironia com que Salustiano tentava feri-la.
– Era uma necessidade que desde muito palpitava, tornou Salustiano; o céu devia ao Brasil uma Stael, uma George Sand.
– Mil vezes agradecida; mas então V. Sa. não quer ouvir o nosso romance? – Estou pronto, minha senhora.
– Trata-se de amor.
– Eu o previa.
– É uma jovem senhora de cabelos castanhos quase pretos, olhos de safira, lábios de coral, rosto pálido, enfim, uma jovem senhora bela e muito parecida com d. Celina.
– D. Mariquinhas, basta!... isso é quase demais! disse a “Bela Órfã”.
– Quem fez a pintura da moça fui eu, e portanto posso falar. A respeito do protagonista falará então você.
– Continue, minha senhora.
– Pois bem: essa moça, a quem eu ainda não dei nome, ama um jovem modesto e bonito, e é por ele apaixonadamente amada; mas o jovem é pobre e acredita que sua pobreza é um muro de bronze erguido entre ele e a bela de seus pensamentos.
Salustiano empalideceu sem querer, ouvindo as últimas palavras de Mariquinhas. Começava a compreender o que queria dizer aquele romance.
– Acha-se incomodado?... perguntou Mariquinhas encarando Salustiano.
– Oh! não! pelo contrário,..
– Cheguei a pensá-lo, sr. Salustiano, porque V. Sa. mudou de cor.
O mancebo serenou, e respondeu sorrindo: – Ah! foi efeito da interessante narração de V. Exa. Sensibilizei-me...
realmente o seu romance é muito sentimental... toca no coração.
– Sim.. sim, tornou a moça; eu creio bem que ele tocará o coração de V. Sa.
– Mas, concluiu-se?...
– Certamente que não; ficaria sem sentido, sem pés nem cabeça.
– Era mesmo assim excelente... estava na moda; porém já que o romance não termina aí, quererá V. Exa. ter a bondade de contar-me o resto? – Pois não! com sumo prazer; temos, como eu dizia, uma moça bela e um jovem pobre que se amam muito... romanescamente; até aí não há senão um idílio; imaginamos pois, imaginamos não, foi d. Celina quem imaginou uma espécie de tirano de comédia, um outro namorado da heroína, um mancebo rico, honrado, e vaidoso de sua fortuna, que se vem erguer como uma barreira terrível entre os dois amantes.
Celina apertava a mão de Mariquinhas de instante a instante; mas não se atrevia a dizer palavra.
– E depois?... perguntou Salustiano.
– Depois as cenas se sucedem... deverão haver lutas domésticas, esperanças que morrem e revivem... jogo de afetos... e finalmente..
– Finalmente...
– Boa pergunta! por fim de contas triunfa o amor inocente e puro... triunfa a inspiração de Deus... o moço pobre alcança a mão da moça bela.
– E o outro? – O outro!... exclamou Mariquinhas dando uma risada; o outro deve muito provavelmente ficar com cara de tolo.
Salustiano mordeu os beiços. Mariquinhas prosseguiu: – Mas veja... estávamos em uma verdadeira dificuldade! – Qual?...
– Não sabíamos como descrever o tal sujeito rico, ousado e vaidoso...
– Ora! que modéstia a de V. Exa!... com tanta imagina, espírito tão atilado...
– Sim... sim... porém nós queremos seguir à risca a natureza... procurávamos pois um original, quando V. Sa. chegou.
– O último golpe acabava de ser dado tão diretamente que Salustiano corou até a raiz dos cabelos.
– Compreendo tudo, minhas senhoras!...
– Ora... pois o que compreendeu? Salustiano pensou alguns momentos, e depois respondeu: – Que devo também escrever um romance.
– Ah! disse Mariquinhas, então isto é contagioso?! – Creio que sim, minha senhora.
– Tanto melhor, tornou a moça rindo-se; creia V. Sa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.
– Agradecido.
– Eu estou pensando já no muito que poderá fazer uma pena manejada por quem deve à natureza tanto espírito como V. Sa.
– Muito agradecido.
– Era uma necessidade que desde muito palpitava; o céu devia ao Brasil um Cooper, um Walter Scott, um Dumas.
– Mil vezes agradecido.
– Quando começa a escrever?...
– Ora... já está metade escrito.
– Já!.. e então!...
– É o mesmo de V. Exas.
– O mesmo?... não... não... seria um triste roubo feito a duas pobrezinhas.
– Mas o meu romance, que se parece muito com o de V. Exas. até o meio, difere completamente no fim.
– Como? – No meu romance triunfa o moço rico, o ousado e vaidoso...
Celina ergueu a cabeça nobremente, e fitou os olhos em Salustiano.
– Crê então, que isso chegue a ser verossímil?... perguntou Mariquinhas.
– Não será somente verossímil, tornou Salustiano elevando a voz com incrível audácia, ha de ser também uma realidade.
– Bravo!... exclamou Mariquinhas; isto me está parecendo um desafio.
– Pois seja um desafio; veremos qual dos dois romances se realiza.
– Aceito, disse, levantando-se, a “Bela Órfã”.
O rosto de Celina estava aceso de rubor e de cólera: em pé, ela encarava Salustiano com olhos cheios de fogo.
– Minha senhora... ia murmurando o moço.
– Eu lhe disse que aceito o desafio, senhor!... exclamou Celina. Não é bem claro isto? Reinou então silêncio por alguns instantes, até que Salustiano despediu-se com seu sorrir sarcástico nos lábios, e saiu com o desespero e a raiva no coração.
– Bem bom! bem bom! disse Mariquinhas batendo palmas com uma alegria infantil.
– Fizeste mal, d. Mariquinhas.
– Pois sim... concedo, fiz mal; porém tu, d. Celina, fizeste muito bem.
– E agora?... quem sabe o que me espera?...
– Que nos importa o futuro? o futuro é de Deus.
– Mas eu preciso que me animem; eu sou fraca e sou só.
– Vem portanto animar-te... subamos ao segundo andar.
– Para quê?...
– Vamos ler de novo a história do teu amor.
– Oh!... sim!... tu és louca como eu, d. Mariquinhas; mas o que acabas de dizer deve ser verdade.
– Vamos pois...
– Vamos.
As moças subiram a escada correndo, como duas crianças travessas; entraram no quarto de Celina... abriu-se a gaveta onde deveria estar a história do amor da “Bela Órfã”...
– Os meus papéis!... exclamou esta.
– Que há então?... perguntou Mariquinhas.
– Eu os tinha posto aqui.
– É certo..
– Oh!... furtaram-mos!...
– Meu Deus!...
– Os meus papéis!... a minha história!... exclamou dolorosamente a “Bela Órfã”.
– Como pode ser isto?...
– Onde estarão eles?...
– Quem entraria aqui?... perguntou Mariquinhas.
– Eu não sei... eu não podia ver!... o que eu sei, o que eu vejo é que estou perdida. Oh! isto foi uma desgraça!...
– Quem sabe?... disse Mariquinhas com ar pensativo; também pode ser que seja uma felicidade.
O velho Rodrigues apareceu à porta do sótão do "Purgatório-trigueiro", e ficou aí parado alguns instantes.
Cândido estava só, e tinha os olhos fitos na porta; mas não dizia palavra.
Era porque o moço estava olhando, porém não estava vendo.
Há alguns homens no mundo que têm freqüentemente horas inteiras passadas assim; horas em que, concentrados em um mundo interior, nada vêem, nada ouvem, nada sentem do que se está passando ao redor deles.
Serão pobres loucos ou entes privilegiados esses homens?
Há muitos que deles se riem, ou que deles têm piedade. Deixá-los rir... deixá-los ter piedade.
O velho Rodrigues falou:
— Sr. Cândido!
— Quem é? perguntou o moço erguendo-se, e como despertando de um sono afadigado.
— Sou eu... um velho amigo.
— O sr. Rodrigues... ah! entre, sente-se.
— Não, preciso voltar já; é pouco o que tenho a dizer-lhe.
— Como quiser... eu lhe escuto.
— Sr. Cândido, foi bem triste a última vez que nos vimos; foi em uma noite de prazer e de dor; noite em que na mesma casa e ao mesmo tempo soavam cantos alegres e corriam lágrimas amargas.
— Já passou tudo isso... esqueçamos.
— Não; lembremos antes, mancebo. Nessa noite uma intriga foi forjada, e a calúnia venceu então a verdade.
— Senhor... para que falar nisso?
— Uma mulher caluniou a outra mulher. As portas do "Céu cor-de-rosa" lhe foram fechadas em nome da "Bela Órfã"... A mulher que intrigava, depois de lançar mortal veneno em seu coração, deixou-o só no jardim, e eu apareci então... e o que lhe disse? lembra-se?
— Não; tudo esqueci... o teatro, o drama, as personagens... tudo está esquecido; nem quero outra vez lembra-me.
— Oh! mas é preciso lembrar-se! ouça pois: eu apareci então, e disse: "aquela mulher mentiu!"
— Não mentiu! respondeu com força o mancebo.
— Foi isso mesmo o que me disse, sr. Cândido; mas eu jurei a mim mesmo provar-lhe que a "Bela Órfã" fora caluniada, e que o senhor ofendia a pureza, a virtude de uma inocente moça sustentando uma calúnia.
— Ah! Sr. Rodrigues... murmurou meio comovido o moço.
— Eu jurei que havia de confundi-lo com a verdade, e de castigá-lo com o arrependimento...
— Mas para quê?...
— Para quê? para que justiça fosse feita a uma interessante virgem; para que bálsamo consolador fosse derramado no coração de um desgraçado.
— E quem é esse desgraçado?
— É o senhor.
— Tem razão; eu o sou.
— Eu quero que a esperança amanheça de novo em sua alma... que arrependida sua alma se ajoelhe ante a imagem da mulher que amava tanto...
— Senhor... basta.
— Que o seu arrependimento e a sua esperança façam de novo falar a sua alma; que outra vez de joelhos ante a imagem da bela virgem a sua alma exclame com ardor... — eu te amo!
— Senhor, senhor, é preciso que eu lhe diga que considero meu inimigo aquele que me fala de amor?
— É uma loucura.
— Que o fogo da vergonha ainda queima meu rosto, quando me lembro do que comigo se passou nessa horrível noite?
— Mas o bafo da virgem há de apagar esse fogo.
— Senhor! nem mais uma palavra sobre ela.
— E as provas de sua inocência?
— Eu não as quero.
— Para condená-la sempre?...
— Não a condeno.
— E o amor que lhe tinha?...
— Eu amo a minha mãe.
— E o amor dessa pobre virgem?...
— Senhor!
— Esse amor angélico?! esse perfume de flor que se desabrocha?... esse amor...
— Basta... é demais.
— Não quer ouvir-me então?...
— Dispense-me disso, sr. Rodrigues.
— Não me acredita?.
— Não.
— E se eu provar o que digo?...
— É inútil.
— Embora, eu o provarei.
— Mas com que fim?... que lhe importa a minha desgraça ou a minha felicidade?...
O velho olhou fixamente para Cândido e disse com voz grave e pausada:
— Pode ser que me importe mais do que pensa. Quem sabe se o seu passado, que é tão escuro para todos, não é bem claro para mim?...
— Oh!... exclamou Cândido: fale pois!... eu lhe escuto...
— É tarde; eu já devia ter voltado.
— Mas...
— Eu lhe deixo estes papéis, sr. Cândido; peço que os leia... e que os guarde.
O velho Rodrigues tirou então do bolso algumas folhas de papel e as deitou sobre a mesa.
— O que contêm estes papéis?... perguntou Cândido com viva curiosidade.
— Uma história.
— A minha história?...
— Também é sua.
O velho retirou-se vagarosamente, e Cândido foi buscar uma luz, e abrindo a primeira página daqueles papéis leu:
HISTÓRIA DO MEU AMOR
Deverei eu ler estes papéis?... falou Cândido consigo mesmo. Não haverá aí veneno espalhado nessas páginas?... não será fraqueza ceder a um desejo que não passa de pueril curiosidade?... Não! estou determinado; pode rolar um século sobre essa mesa e não os hei de ler nunca.
Mas ele não podia arrancar os olhos dos papéis que lhe deixara o velho, e passados alguns minutos pensou já de outro modo; pensou assim:
— É que também, se eu os não ler, podem julgar que desconfio de mim mesmo... que tenho medo de amar ainda... que não sei triunfar de uma paixão de dois dias... é isso; podem julgá-lo. Pois eu lerei... mas hoje não; mostrarei a minha indiferença não lendo hoje; provarei que nada receio lendo amanhã; estou determinado.
E passado ainda um certo espaço, o mancebo mudou outra vez de resolução, e disse consigo:
— Mas isto, sim, é que é puerilidade! ler amanhã ou hoje, é sempre acabar por ler; e que tem isso?... que impressão me pode causar esta leitura?... e que me importa o juízo que de mim quiserem fazer?... eu sou pobre... eu sou só... eu sou portanto bem livre.
E abrindo a primeira página começou a ler.
HISTÓRIA DO MEU AMOR
I
Eu já fui como uma flor que se desabotoa; sou agora como uma pomba, que geme solitária.
Quem sabe o que eu virei a ser ainda?... pobre órfã que sou, o meu porvir está tão escuro!...
Até a idade de quinze anos eu fui como uma flor que se desabotoa.
Meus pais viviam ainda, e eu passava uma vida tão feliz....! eu era a florzinha de meus pais; o jardim que eu perfumava era o coração deles.
Meu pai me chamava o seu anjo; minha mãe dizia que eu era a sua alma; e eu via bem que eles sentiam isso que diziam.
As palavras de meu pai eram tão ternas!... os carinhos de minha mãe eram tão doces!... oh! palavras e carinhos, como esses... oh!... nunca mais.
Eu era tão feliz... de manhã erguia-me, dava graças a Deus, meu pai e minha mãe me beijavam, e depois eu ia brincar.
Como eu fui travessa! às vezes, quando me tornava por demais traquinas, meu pai se fingia enfadado, e me dizia: "Celina... aquieta-te... tu estás ficando feia".
E minha mãe me defendia dizendo: "deixa-a brincar; ainda é feliz!... quem sabe se há de ser sempre como hoje!.."
Oh! minha mãe adivinhava com o coração! o amor dos pais é assim... profetiza.
E meu pai se tornava melancólico; abraçava-me, beijava-me, e com os olhos úmidos de lágrimas me dizia: — vai brincar.
Oh! sim! bem feliz!... bem feliz!... a minha vida era um laço de cem amores. Eu amava a Deus, amava a meus pais, amava a meus parentes, amava os pobres, e amava as flores.
II
Amava as flores!.
Como e quando foi que começou esse amor, não sei bem explicar: quando pensei... já as amava.
No berço brinquei com flores... ensaiei meus primeiros passos para ganhar uma flor que minha mãe de longe me mostrava; quando pude correr, meu pai me deu um jardim.
Desde então, quando a aurora aparecia, já me encontrava no jardim; eu gostava do primeiro raio do sol.
Os primeiros raios do sol e as flores foram as camaradas que brincaram comigo na infância.
Eu amava as flores; gostava de acompanhar a vida de um botãozinho de rosa, que se ia desabrochando pouco a pouco, como um pensamento de amor na alma de uma criança.
Depois eu fiz treze anos, e na noite em que eu fiz treze anos, tive um sonho com flores: sonhei com um botão de rosa.
Que sonho!... é uma das doces recordações do meu passado; eis aqui como foi o meu sonho.
III
Eu pois acabava de fazer treze anos: era ainda como a flor que se desabotoa.
Mas quando completei o terceiro lustro, a morte esvoaçou ao redor de mim, e não me feriu, nem me matou. Oh! eu minto: matou-me duas vezes, porque de um só golpe me arrancou pai e mãe.
Por que não fui eu que morri, meu Deus?... eu, que nada era, nada sou, que nada serei no mundo?
Eu, que nesse tempo tinha somente sorrisos para a vida, e que, apesar disso, morreria sorrindo também; porque creio em Deus que me há de salvar!
Oh! que hora tremenda foi essa, em que eu tive de receber duas solenes bênçãos de despedida, lançadas pelas mãos já frias de meu pai e de minha mãe!
Oh! que hora tremenda foi essa, em que eu tive de partir em dois pedaços um adeus de agonia!
Não se morre de dor.
Eu vi morrer ambos... meu pai e minha mãe. Eu vi... e não morri então; eu os estou vendo... e não morro ainda.
Eu estava... tinham-me posto de joelhos junto ao leito de meu pai; era a hora terrível.
Meu pai voltou o semblante para mim e fitou os olhos no meu rosto...
Seus olhos brilhantes e pasmos pareciam querer saltar das órbitas sobre mim... oh! se ele não fora meu pai eu teria tido medo daquele olhar.
Sua boca se entreabria... seus lábios se moviam; mas ah! o desgraçado não podia falar.
Olhou... esteve assim olhando muito tempo... muito tempo, até que... oh! meu Deus!...
Duas lágrimas límpidas e brilhantes ficaram pendentes de suas pálpebras... sua mão direita apertou o peito no lugar do coração, e... sempre me olhando... sempre me olhando, meu bom pai expirou.
A vida... a alma lhe saiu pelos olhos. Oh! sim! porque ele morreu olhando para sua filha.
Lancei-me sobre o cadáver de meu pai: arrancaram-me daí; e sabeis para quê?... para ver morrer minha mãe.
Pobre de minha infeliz mãe!... não estava em si quando eu me ajoelhei junto dela; delirava.
Começou a brincar com os meus cabelos; passou depois os dedos sobre meus olhos, e, sentindo-os molhados de minhas lágrimas, levou-os aos lábios, sorveu as lágrimas de sua filha, dizendo:
— É bem doce!... é bem doce!...
Depois entrou a rir-se e a cantar. Que rir! que cantar aquele!... até então eu não sabia que a morte tinha também seus risos e seus cantos.
Continuou a rir-se e a cantar; a brincar com os meus cabelos, e a beber minhas lágrimas.
Houve um momento terrível! um tremor súbito e desesperado agitou convulsivamente todo seu corpo...
Cessou de rir-se e de cantar. Olhou-me... que olhar!... era um adeus que se dizia por mil modos nos seus olhos.
Tinha talvez desaparecido o delírio, mas ela já não podia falar.
Ouvi alguém, a poucos passos, dizer baixinho — é chegada a hora: — oh! compreendi tudo... soltei um grito.
Escutando esse grito, que me saiu do coração, minha mãe agarrou com suas duas mãos a minha cabeça, e com força indizível levantou-me, aproximou meu rosto ao rosto dela, uniu meus lábios aos seus, deu-me um longo e ardente beijo, e expirou.
A vida... a alma lhe saiu pelos lábios. Oh! sim, porque ela morreu beijando sua filha.
As almas de meus pais, antes de subir ao céu, tinham passado por mim: a alma de meu pai pelos meus olhos; a de minha mãe pelos meus lábios.
Como eu fiquei então!... não se diz.
Não se morre de dor.
E estava órfã.
Deixei de ser como uma flor que se desabotoa.
IV
Eu era uma pobre órfã.
Tinha começado a ser como a pomba que geme solitária.
Chorei! chorei muito! quando não tive nos olhos mais lágrimas para chorar, chorei saudades no coração; choro-as ainda. Mas resisti, e resisto, graças à educação que me deram meus pais.
Eles me ensinaram a ter fé e esperança em Deus; ensinaram-me, na prosperidade, a ser cristã: sou cristã na desgraça.
Quem crê em Deus, chora, mas resiste.
Eu chorei, e resisti.
Tenho esperança de ver ainda meus pais aos pés do Senhor Deus... não sei quando será; mas espero.
Esta esperança me anima. No entanto meu coração está sempre cheio de saudades, que não hão de acabar nunca.
Eu pois sou agora como uma pomba que geme solitária.
V
Passou-se um ano.
Um ano de lágrimas é muito tempo: é um século.
Passou-se mais tempo ainda; chegou o dia de finados.
Fui rezar no túmulo de meus pais.
Rezavam lá...
Oh! se soubessem como um coração de filha agradece uma oração que se reza por seus pais!...
Rezavam lá!... uma mulher e um homem.
A mulher era uma velha que eu conhecia; o homem não.... eu o via então pela primeira vez.
Mas esse homem... a velha ergueu-se, e eu lancei-me de joelhos no mesmo lugar que ela havia ocupado.
Fiquei junto desse homem que rezava por meus pais...
Oh! pela primeira vez que nos encontrávamos na vida, nossos pensamentos se uniam, se misturavam, e subiam juntos ao céu tão iguais... tão parecidos, como dois irmãozinhos gêmeos!...
Oh!... nós não nos havíamos visto nunca, não nos tínhamos olhado ainda, e nossas almas se correspondiam já, falando a linguagem do Senhor... rezando...
Ele ergueu-se enfim... e fugiu. Eu senti que ele chorava e soluçava.
Eu não sabia se ele era moço ou velho, bonito ou feio, rico ou pobre... e contudo desde esse momento eu amei esse homem.
Amei esse coração generoso que se fora ajoelhar junto ao túmulo de meus pais!
Esse homem amava portanto meus pais!
Era pois meu irmão no amor, meu irmão nas lágrimas e nas orações; quero... devo amá-lo. O mais sagrado dos laços uniu-nos aos olhos de Deus à face de um túmulo.
Eu o amo.
Quem é ele?...
VI
Enfim, já pude vê-lo de perto. Veio visitar-nos, acompanhando a velha Irias.
Ele é moço e pálido, é triste e modesto; é belo.
Parece que esconde no coração um grande tormento, que ninguém compreende, e que ele abafa.
Pálido, triste e silencioso, sua figura tem um não sei quê de gracioso e fantástico, que toca na alma e faz arder a imaginação.
Se ele passa por diante de vós, sem querer vós vos lembrais da sombra de um ramo de palmeira, quando um ramo de palmeira, em noite de claro luar, é impelido por brandos favônios.
Às vezes fica pensativo horas inteiras; torna-se alheio a quanto se passa em torno dele...
É belo vê-lo assim; parece que transportado contempla uma visão. Ninguém lhe fala, e ele sorri... se entristece... se espanta... e murmura frases ininteligíveis como se estivesse conversando com algum ser invisível.
Será um louco?... não: ele é um poeta; eu já sonhei que os poetas eram assim.
Eu gosto dos poetas.
Os poetas são homens que mal vivem neste nosso mundo, e que são senhores de mil mundos; habitam um espaço entre o céu e a terra, e falam a língua das aves e das flores, das montanhas e dos mares, dos fantasmas e dos anjos.
Os poetas são homens que sabem amar; os que não são poetas amam como todos, amam com esse amor comum que se vê todos os dias, que não tem nada de novo, que tem bem pouco de belo.
O amor dos poetas é de um fogo que se não acende na terra, é um fogo como o do sol.
Os poetas são irmãos do sol; eles são os astros que iluminam o mundo como o sol ilumina o espaço.
A luz que dardejam os poetas e o sol, vem da mesma fonte, é a mesma luz santa e pura; veio-lhes do céu saída dos olhos do Senhor Deus.
Eu amo os poetas.
VII
Ele se chama Cândido.
Tem continuado a visitar-nos; freqüenta os serões do "Céu cor-de-rosa"; meu avô o estima e minha tia também.
Eu tenho por ele um sentimento tão doce... tão sossegado, que me parece que assim é que se há de amar um irmão.
Quase nunca se dirige a mim... não conversa comigo... parece que se esconde, que foge de todos os olhos; por quê?...
Parece infeliz; gosto ainda mais dele por isso; a melancolia pode tanto na minha alma!...
Um homem melancólico vale mil vezes mais do que aquele que vive rindo-se constantemente.
Eu tenho pena dessa gente que anda rindo-se de contínuo.
Esses homens que vemos sempre a rir, a zombar, a dizer sarcasmos, a ridicularizar tudo, são como insultos que a natureza faz à terra.
A tristeza daquele mancebo tem alguma coisa de solene; ele está triste porque sofre.
Ás vezes de relance me olha... o seu olhar é então bem terno, e seus olhos quase sempre amortecidos têm nessas ocasiões um fogo...
Desde que pela primeira vez o apanhei olhando-me assim, eu senti alguma coisa de novo em mim... eu corei; por quê?... não será puerilidade corar por isso?...
VIII
Preciso conversar com o meu coração; dentro de mim se estão passando muitas coisas que ainda não compreendo; é uma série de contradições... um desejar sem querer, o que eu estou experimentando.
Como foi que eu comecei a amar este moço, que se chama Cândido, não é por certo um mistério. Vi-o de joelhos junto do túmulo de meus pais, e amei-o por gratidão; amei-o como se eu fora irmã dele.
Disse a todos que o amava assim; riam-se de me ouvir, e eu não corava.
Nos primeiros dias, quando ele me olhava, seu olhar passava por sobre meu coração, tão suave, tão doce, como o sopro do favônio sabre a rosa que acaba de desabrochar.
Depois... as sensações foram outras. Seu olhar não foi mais para o meu coração como o favônio para a rosa, é como a aurora para o céu; porque o céu se avermelha quando o dia amanhece, e meu rosto se enche do rubor do pejo quando ele me olha.
Por quê?...
Agora, quando ele está ausente, eu me aflijo, desejo ardentemente vê-lo chegar; quando ele se anuncia, meu coração palpita; quando ele entra na sala, minhas faces coram; quando ele se chega a mim, meus olhos se abaixam; quando ele me cumprimenta, eu não posso responder-lhe.
Por quê?...
Eu gosto de ouvir falar dele; mas não pronuncio nunca o seu nome. Sua imagem aparece nos pensamentos todos de minhas vigílias, e nas belas imaginações de meus sonhos; parece que a imagem desse mancebo é dona de minha alma.
Por quê?...
Oh! eu o estimo, e estando a seu lado, tremo; acho-o bonito, e tenho receio de olhar para ele; gosto de ouvi-lo falar, e nunca me animo a conversar com ele.
Por quê?...
Ah! por quê? por que, meu pobre coração? por que é que eu sinto que já não amo esse mancebo como se fora sua irmã? como é então que o amo agora?...
IX
Oh! que revolução se operou em toda minha vida, em todo meu ser!
Eu já sei que se ama a alguém que não é nosso pai, nem nosso irmão, e que não é nosso amigo. Eu sei enfim o que é amor. Quem mo ensinou?... foi o coração, foi a natureza, foi Deus.
O amor é uma flor que existe em botão na alma da virgem; o homem a quem se tem de amar é o sol que faz desabrochar essa flor.
E uma flor que Deus plantou dentro de nós, porque, quando a virgem nasce, já consigo a tem no coração.
Oh! eu já despertei a um belo grito; gritaram-me — ele te ama!... — pois eu deveria tê-lo adivinhado.
Sim! oh! sim!... eu devo crer que me ama. Por que também ele cora quando encontra meus olhos? por que também treme quando me fala?
Eu revolvo na minha alma quanto se tem passado entre ele e mim, como a mão de uma menina revolve buliçosa uma cesta cheia de flores.
Recordemos...
Uma noite... que noite! dançamos juntos... fui o seu par... nossas mãos tremeram... quisemos falar e não dissemos nada... ah! parece que fazendo assim é que nós dissemos tudo!...
Depois fui com duas amigas para meu quarto; contei-lhes a história do sonho do — botão de rosa: — ninguém me devia ouvir senão elas.
Em uma das tardes seguintes veio o velho guarda-portão dar-me a sua hora de música. Cantou um romance; esse romance era a história do meu sonho... a história do botão de rosa. Quem escreveu estes versos? perguntei eu. Foi o sr. Cândido; respondeu o velho Rodrigues.
Cheguei a crer que um gênio invisível velava em prol desse terno sentimento que nascia...
Fomos ao Passeio Público. Passeávamos juntos e sós eu e ele. Estávamos ambos tão perturbados!... éramos como dois criminosos; ouvi que alguém dizia — são dois namorados: — quase que morri de vergonha.
Oh! não é possível encobrir mais... não é possível..... a verdade deve-se dizer.
A flor que existia em botão dentro de minha alma abriu-se ao terno sopro desse mancebo; eu o amo!
Ainda não lhe disse, não serei capaz de dizer-lhe que o amo; já porém jurei a mim mesma que hei de amá-lo toda a minha vida.
Oh! sim! eu confesso... eu o amo.
Abençoem lá da eternidade meus pais o amor destes dois corações, que a primeira vez que se encontraram nesta vida foi de joelhos ao pé de seu túmulo.
Abençoem!...
Proteja o Senhor Deus estes dois corações que, antes de se acharem unidos pelos laços de um amor puro e santo, já se haviam identificado em oração, e caído juntos aos pés do Onipotente ligados pela mesma fé, pela mesma esperança e pelo mesmo pensamento.
Oh! sim! proteja.
Mas por que motivo ele, a quem eu amo, ele que me ama, foge de meu lado?... por que me não fala?... por que continua a mostrar-se tão triste como dantes?...
Eu devo então ser bem infeliz, pois que ele não pode mais ignorar que eu o amo, e todavia sua tristeza é sempre a mesma, sempre incurável.
E no entanto esse outro que me desagrada tanto quanto ele me é grato, esse outro impertinente e ousado não me deixa um instante, e ousa falar-me de amor mesmo diante daquele que amo.
Que diferença entre ambos!
Um é a modéstia, que receosa se afasta e se esconde, e que por isso mesmo é mil vezes mais bela.
O outro é a presunção que se ostenta, que se impõe e que depois de aborrecer-nos muito, retira-se pensando que nos deixa em êxtase.
Um é a palavra da virtude, que soa unicamente para louvar o mérito; é a gravidade do homem nobre, a pureza das almas cândidas.
O outro é a loquacidade do vício, não sabendo falar senão a linguagem venenosa do sarcasmo; lançando a calúnia, a sátira e o epigrama no meio da conversação mais séria e delicada. E quando não fala, o aspecto de um bufo ou de um malvado com seu rir constante, rir maledicente... rir venenos... ou rir estúpido.
Um crê na eternidade e em Deus, e crê na honra dos homens; o outro zomba dos mistérios e não acredita na honra de ninguém. Um é o néctar da virtude... o outro é a peçonha da víbora!...
Que diferença entre ambos!...
X
Já lá vai a noite de meus anos: contraditória, inconseqüente, como tudo mais que hoje comigo se passa, ela encheu a minha alma de prazeres e de pesares.
Pela primeira vez ele tinha de cantar no "Céu cor-de-rosa". Chegou a hora de seu canto... ele veio melancólico e gracioso e sentou-se defronte de mim.
Trouxeram-lhe uma harpa.
Aquele mancebo pálido e triste, com cabelos tão negros e mãos tão brancas, causou-me uma impressão que eu não posso bem definir; julguei estar vendo um desses quadros amorosos dos tempos romanescos da Idade Média.
Sua voz soou... que voz! seu canto saía-lhe da alma; era um canto de amor.
Seus olhos embebidos no meu rosto me estiveram repetindo o mesmo que no apaixonado canto dizia; eu era tão feliz!...
Estava orgulhosa do amor desse homem!
Estava suspensa... — não me achava na terra — aquele canto me erguia em suas asas harmônicas, levando-me para a região fantástica, onde mora a imaginação do bardo que cantava.
Terminou o canto... mas eu fiquei ouvindo sempre aquelas doces harmonias, como se um anjo mas estivesse repetindo aos ouvidos; era talvez o anjo de amor que cantava, e o coração amante que ouvia.
Depois ele saiu da sala; procurei-o todo o resto da noite com os olhos, com o coração e com o pensamento: não apareceu.
Por que se retirou ele?... eu tremo.
Oh! o meu amor é tão novo, tão inocente, tão anjo como uma criancinha recém-nascida e uma flor que acaba de desabotoar-se.
Ah! pobre mãe! como é fácil, apesar de tuas lágrimas, ver morrer ali no berço a criancinha de tua alma; ah! triste arbusto!... basta um instante de tempestade para que a tua flor caia por terra.
E o meu amor é como a criancinha, ou como a flor, eu tremo.
XI
Eu sou como a pomba que geme solitária; eu o sou... é bem verdade!...
Desde a noite de meus anos que nunca mais tornei a vê-lo; não será isso uma crueldade de sua parte?...
Que lhe fiz eu?... amá-lo?... só se foi esse o meu crime; mas ah! não merecia tão forte castigo.
Tenho chorado muito... já se me acabaram as lágrimas; agora escrevo, e agora compreendo que muitas vezes escrever é chorar com o coração.
Ai de mim! nem tenho quem me console. A ninguém ouso dizer por que choro; ninguém saberá a causa de meus tormentos; zombariam de minhas lágrimas.
Oh! é bem triste. Todos devem ter padecido o que eu padeço. Todos têm coração. Todos devem ter amado. Como é pois que se ousa ridicularizar as penas de amor?... não zombam de si mesmo aqueles que zombam delas?
E contudo eles se riem sempre!...
Paciência; sofrerei tudo em silêncio. E se isto não é um tormento passageiro; se o meu amor tão novo, tão puro, tão extremoso foi morto por um ingrato, guardarei os restos dele no coração, chorarei com a minha alma de joelhos ao pé desse coração, que foi a um tempo o berço e a sepultura desse amor, como uma mãe extremosa chora abraçada com a urna onde guarda os ossinhos de seu primeiro filho.
Tenho a cabeça perdida... falta-me às vezes o ar... às vezes os cabelos me pesam...
A sociedade me aborrece... que tenho eu com os prazeres de toda essa gente!... ninguém me compreende lá. Desejo estar só... muito só, conversando com as minhas saudades.
Agora a minha amiga é a noite; quando a lua é cheia e o tempo está sereno, eu passo horas inteiras refletindo à janela de meu quarto.
Nunca me acho só nessas horas; embaixo, no jardim, os favônios conversam com as flores ao mesmo tempo que eu falo com o meu coração.
As flores respondem aos favônios com a exalação de seus perfumes, como o coração me responde com as suas saudades.
É assim que passo as noites; os dias são muito tristes, porque já perdi meus antigos prazeres.
Nem mesmo a música me agrada... se vou tocar, paro no meio de uma harmonia para embeber-me toda em um pensamento, que ela desafia.
Não posso cantar... quase sempre choro. Agora, por exemplo, seria ocasião de ir ouvir o velho Rodrigues cantar suas velhas baladas; era a hora da sesta. Não irei.
Mas... lá soa a sua voz; ele canta...
É o romance do botão de rosa...
Eu vou...
XII
Já compreendi tudo.
A intriga me separa do homem que amo; a calúnia me nodoa... tudo está revelado.
Minha tia fez crer ao modesto mancebo que o seu amor me afligia; que eu supunha a minha reputação em perigo; que ele era pobre e por isso indigno de mim.
Fecharam em meu nome as portas do "Céu cor-de-rosa" no rosto do nobre mancebo. Oh! como não terá ele amaldiçoado a primeira hora em que me viu!
Todavia... antes assim...
Não sei quais sejam os desígnios de minha tia; agora, porém, sinto-me com forças de assoberbar a tempestade.
Sequem as minhas lágrimas.
Caluniam-me?... querem separar-me dele por meio da intriga?... pois bem; direi bem alto que o amo, quero que todos ouçam — eu o amo!
Amo-o tanto como amei já as meiguices de minha mãe, e a bênção de meu pai, e como amo ainda agora a memória de ambos.
É um amor puro e santo, que sai do âmago do coração, como um pensamento sai do seio da alma.
É um amor puro e santo que embeleza a minha vida, como a aurora que se vai sorrindo no céu, como um sorriso que se vai abrindo nos lábios!...
Oh! volta, meu amado, volta!
Volta, para que eu seja outra vez como uma flor que se desabotoa...
Volta, para que eu não seja por mais tempo como a pomba que geme solitária.
Volta!... eu te amo.
Quando o mancebo terminou a leitura da história do amor da "Bela Órfã", sentiu que uma revolução profunda e completa se havia operado em todos os seus sentimentos.
A paixão prorrompia de novo, o fogo mal amortecido pela intriga flamejava com dobrado ímpeto.
Os olhos de Cândido brilhavam, suas faces pálidas estavam enrubescidas, e seus lábios se dilatavam e sorriam ante o aspecto da felicidade.
Beijou mil vezes aquelas páginas, que guardavam os pensamentos, e por onde haviam deslizado os delicados dedos da "Bela Órfã"; apertou-as contra o coração exclamando:
— Eu sou feliz!... eu venço o meu destino!...
Lançou mão da pena e começou a escrever com o ardor e o interesse de um poeta apaixonado.
O que escrevia ele?
Ao romper do dia Cândido achava-se adormecido junto da mesa onde escrevera.
Despertou de repente ao zunido do vento.
Começava a bramir uma tempestade... o céu estava escuro; a chuva prestes a cair.
Cândido viu então os seus papéis desordenadamente espalhados pelo chão; alguns rolavam já pela escadinha do velho sótão; correu a apanhá-los e a pô-los em ordem.
Achou todos, achou mesmo toda completa a história do amor da "Bela Órfã".
Mas não achou o que ele havia escrito na noite que acabava de terminar.