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Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

Capítulo XXXI
Eu Exijo! — Senão...

Ao tempo que o amor de Cândido e da "Bela Órfã" vacilava entre dúvidas, e ia vivendo a vida de todos os primeiros amores, ora animando-se com um sorrir de esperança, ora estremecendo diante de uma quimera, de um receio, ou de um fraco contratempo, caminhava o amor de Henrique e de Mariana ao seu desejado termo.

Poucos dias faltavam para que viesse o himeneu coroar aquela constância com que se haviam sabido amar os dois.

Aproximava-se a noite do dia em que o jovem do "Purgatório-trigueiro" despertara ao bramir da tempestade.

Sucedera a uma manhã feia e borrascosa uma tarde amena, fresca e bela. O céu estava claro, a atmosfera leve, a natureza em horas de magia.

Mariana achava-se só na sala do "Céu cor-de-rosa"; Anacleto saíra; Celina tinha ido despedir-se do dia entre as flores do seu jardim.

Meio deitada no sofá, em voluptuoso abandono, com os olhos quase completamente cerrados, com os lábios levemente dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos, a interessante viúva contemplava em sua imaginação o quadro da ardente felicidade que a esperava; fruía de antemão todos os prazeres, todas as delícias com que durante tão longos anos debalde sonhara.

Seu mundo estava ali... dentro dela; dentro dela, em sua imaginação, reunia em belo grupo todos os entes que amava; conversava com eles, sorria para seu pai, recostada ao seio de Henrique.

Nem uma só nuvenzinha escura naquele imenso céu belo e sereno que estava criando; era uma dessas horas mágicas, que em vão se procura nos dias que se passa na terra, horas que se vive meio-dormindo, meio-acordado, quando se está só, e se está sonhando...

Era uma dessas viagens encantadas, viagens longas, de dezenas de anos e de milhares de léguas, que se faz com os olhos fechados, com o sorriso nos lábios, sem mudar de posição, e às vezes em uma só hora, em cinco minutos, ou mesmo em rápidos instantes.

Estava pois Mariana embebida naquele mar de gozos imensos, naquele mundo de abstrações deleitosas, quando...

Talvez mesmo passava nesse momento por diante de seus olhos a mais cara de suas imagens, porque ela apertou as mãos com indizível ardor contra o coração, e exalou um anelante suspiro, quando soou o rodar de uma carruagem que parou à porta do "Céu cor-de-rosa".

A viúva soltou um pequeno grito e ergueu-se inopinada­mente.

O mundo abstrato acabava de esvaecer-se; a realidade fria e pesada chegava.

O rosto expansivo e belo de Mariana contraía-se dolorosamente.

Tinha reconhecido o rodar daquela carruagem: aquela carruagem trazia-lhe um tormento sempre que parava junto do alpendre do "Céu cor-de-rosa".

A porta da sala abriu-se.

— O sr. Salustiano! disseram.

— Que entre! murmurou a viúva.

E o rosto de Mariana tomou uma nova expressão; tornou-se frio, mas sossegado.

Salustiano entrou, e veio sentar-se junto da viúva.

Encontravam-se ainda uma vez a sós esse homem e essa mulher que se aborreciam tanto.

— Parece que um anjo benfazejo me protege, disse Salustiano. Sempre que desejo falar a V. Exa. sem testemunhas, uma ocasião própria se me oferece.

— Hoje então...

— V. Exa. se admirava talvez de me não ver há muito tempo, não é assim?... perguntou sorrindo o mancebo.

— Oh! não; respondeu secamente Mariana; V. Sa. deu-nos o prazer de passar conosco o último serão; foi ainda há dois dias.

— A resposta não parece das mais lisonjeiras; mas também é porque me não fiz compreender; eu dizia que V. Exa. talvez já se admirasse de me não ver procurar alguns momentos em que pudesse falar-lhe a sós.

— Também não. Pensava ao contrário que V. Sa. já tinha exigido de mim tudo quanto exigir podia, e que pela minha parte eu já me havia mostrado obediente demais.

— Demos que assim fosse; não quereria porém V. Exa. pedir-me a entrega de alguma coisa que julgasse pertencer-lhe?...

— Confesso que não pensava em tal. Confiava na sua honra, e julgava que não seria preciso pedir-lhe o que o dever ordenava a V. Sa. que me entregasse.

— Oh! mil vezes agradecido; V. Exa. pela primeira vez em sua vida parece acreditar na honra do mais humilde de seus escravos.

— Senhor... de que serve aqui a ironia?

— Já vejo, minha senhora, que conserva todas as suas antigas disposições; ama a verdade e a singeleza sobretudo.

— Entendamo-nos, senhor, disse Mariana com sangue frio. Devo crer que não foi simplesmente para zombar de mim, que teve a complacência de vir hoje a esta casa.

— Oh! não, por certo.

— Pois então fará o obséquio de explicar-se. Estamos sós. O que quer de mim ainda?...

— Primeiramente eu vinha depositar aos pés de V. Exa. os mais sinceros parabéns pelo seu próximo casamento.

— Agradecida.

— Oh! eu tenho uma inveja desesperada de um noivo de moça bonita. Acreditará V. Exa.?... estou louco por casar-me.

— Felizmente para V. Sa. o remédio é fácil.

— Então aconselha-me?...

— Que se case.

— Esse é o meu desejo, certamente; e como em V. Exa. se concentra toda a minha esperança, eu não hesitei em correr a seus pés.

— Senhor...

— Falemos com clareza: não ignora que amo a sua sobri­nha.

— Sei ao mesmo tempo que minha sobrinha não o ama.

— É verdade; disse com sangue frio imenso Salustiano, E se eu tivesse podido agradar à "Bela Órfã", acredite V. Exa. que dispensava completamente a sua intervenção.

— E não tendo podido agradar-lhe, senhor, a minha intervenção será sempre improfícua.

— Tenho a certeza do contrário,

— Estou hoje convencida de uma verdade que V. Sa. adivinhou antes de todos; minha sobrinha já ama.

— É uma dificuldade, convenho, mas...

— Quereria por acaso ligar-se a uma senhora que amasse a outro?...

— Sua digna sobrinha, minha senhora, tem a educação da virtude.

— Oh! mas a educação da virtude abafa, porém não mata nunca o amor! a mais nobre, a mais pura das virgens que se desposasse com um homem, amando ao mesmo tempo a outro, sem querer, a despeito de esforços inauditos, seria infiel na alma a seu esposo.

— Mas uma virgem cristã...

— Uma virgem cristã não desposa o homem que não ama. Deus proíbe esses laços sem nobreza. São laços ilegítimos. Em tal caso, ou não há verdadeiro casamento, ou o casamento é um sacrilégio.

— Quantos sacrilégios tem portanto havido neste mun­do?... disse Salustiano.

— Não é uma razão para que continue a havê-los,

— Pode ser que V. Exa. tenha toda razão; tornou o moço descansando uma perna sobre outra. Mas o pior é que, ou eu me engano muito, ou me acho desesperadamente apaixonado; e conseguintemente surdo à voz da razão, cego à luz da verdade, vinha dizer a V. Exa. que eu teria o maior prazer deste mundo se no dia do seu casamento se assinassem as escrituras do meu.

— Creio que não conseguirá o que pretende. Minha sobrinha é mais forte e decidida do que parece, e meu pai ama-a muito para querer sacrificá-la.

— V. Exa. nada fará por mim?...

— Eu não posso fazer nada.

— Sejamos francos, minha senhora; pela última vez, sejamos francos; demos cartas para jogarmos a última partida.

A voz de Salustiano tinha mudado de tom, como seu rosto tomara uma expressão fisionômica toda nova, era o senhor que se erguia diante da escrava.

No semblante de Mariana apenas uma ligeira contração dos músculos labiais atraiçoou seus padecimentos interiores.

— Sejamos francos, disse Salustiano; eu sei que a minha presença nesta casa é incômoda a todos; sei que seu pai me aborrece, que sua sobrinha me despreza e que a senhora me odeia como a vítima odeia o algoz.

Mariana não pronunciou uma só palavra, não fez mesmo o menor sinal, o mais leve movimento para desmentir Salus­tiano.

O mancebo prosseguiu:

— E no entanto, senhora, tudo parece ser disposto por um poder superior para que eu me ligue a esta casa.

— Poderes superiores, senhor, concebem-se de diversas naturezas, observou Mariana.

— Um feliz acaso, já o tenho dito muitas vezes, continuou Salustiano, pôs a mais soberba e orgulhosa das mulheres sob a dependência do mais fraco e humilde dos homens.

— Que humildade!...

— Mas tudo devia ser compensado; e assim como esse feliz acaso me deu aqui o caráter de senhor, o meu coração e o meu amor me faz curvar a cabeça como um escravo.

— E o que mais? o que mais?...

— Eu vim mesmo encontrar nesta casa recordações da minha infância. Há alguns meses um velho ocupa aqui o lugar de guarda-portão, e esse velho, senhora, viu-me nascer, viu-me crescer, e apenas depois da morte de meu pai deixou a minha casa.

— É possível?! exclamou Mariana. Um traidor! um es­pião!...

— Não; nada de injustiças, respondeu Salustiano. Eu e esse homem não fomos, nunca, amigos; e, além disso, acho-me hoje no caso de poder dizê-lo, porque tenho sabido velar por meu amor. O velho Rodrigues é protetor do jovem Cândido; ele entra todos os dias no "Purgatório-trigueiro", e, ou o ciúme não sabe adivinhar segredos, ou esse maldito velho tem concebido o pensamento de ligar o seu protegido à "Bela Órfã".

— Enfim, senhor...

— Enfim, senhora, estamos hoje dependendo um do outro: somos dois furiosos inimigos, que uma dependência mútua pôde tornar amigos devotados. Uma palavra diz tudo: um documento por uma mulher, senhora!...

— Que audácia!...

— Trocaremos, no mesmo dia, a mão de uma jovem bela por meia folha de papel de peso.

— Que sarcasmo!...

— Oh!... mas não é simplesmente meia folha de papel de peso! é um nome que se pode atirar ao meio da rua... é uma reputação que se pode nodoar para sempre...

— Senhor!...

— Escolha.

— É uma infâmia!...

— Embora; fará com que sua sobrinha seja minha esposa?...

— Nunca!

— Bem; vingar-me-ei.

— Embora! exclamou Mariana com ardor; já me tenho curvado demais, já tenho arrastado meu rosto pela terra muitas vezes, já tenho comprometido a salvação de minha alma. Minha alma que se purgue de seus erros, que expie suas culpas na humilhação e nos tormentos que me esperam!

— Oh! como lhe parecer.

— Já tenho sido fraca demais! minha reputação... não tem sido ela quase que nodoada já? não consenti, porventura, que se persuadissem que eu amava um homem que aborreço? eu, mulher casada, não passei por namorada de um moço sem nobreza? não se lembra, senhor, dessa terrível noite em que um cravo rajado passou de meu peito para seu paletó?... que disseram todos? disseram uma calúnia; mas quem teve culpa dessa calúnia foi a minha fraqueza.

Salustiano levantou os ombros e sorriu.

— Ainda há poucos dias, senhor, para não revolver mais o passado, ainda há poucos dias não pratiquei uma indignidade?... não caluniei minha inocente sobrinha fazendo um honrado mancebo acreditar que ela o desprezava por ser pobre? não bati com a porta de minha casa no rosto desse mancebo?... oh! o que quer mais?... o que pretende ainda?... devo eu ser miserável toda a minha vida? não repara que uma vida assim é pesada como um fardo enorme? não! não! e não!... faça o que lhe parecer: perca-me, mas pela minha parte basta de humilhar-me ante um homem sem generosidade.

— Bem, disse com frieza Salustiano; posso então fazer da carta que está em minhas mãos o uso que me parecer?...

— Que indignidade!...

— Não responde?

— Faça o que quiser.

— Oh! vê-se bem que a senhora não se lembra do que escreveu há vinte e um anos passados!

— Senhor!

— Cuida que nesse papel existe apenas a confissão de uma falta que às vezes o mundo desculpa?... não, senhora! ali se confessa um erro e um crime!

— Senhor!...

— Um crime que horroriza a natureza... um crime pelo qual a justiça de Deus há de condená-la a penas terríveis, e a justiça dos homens pode arrastá-la ao banco dos condenados, ao cárcere, ao patíbulo mesmo!

— Senhor...

— Oh! quem diria que esta mulher orgulhosa e insolente, que se apresenta em toda a parte com a cabeça tão levantada, carrega sobre a cabeça o mais horrível dos crimes?.

— Miserável!

— Sim... sim... miserável embora; mas este miserável pode aparecer com o rosto descoberto!... senhora, tudo está decidido: eu rompo o seu casamento, eu mato a sua ventura, eu me vingo!

Mariana arquejava.

— Primeiro irei ter com o homem que loucamente a ama, e mostrar-lhe-ei a sua carta... ou... se não... ah!... que idéia!..

O mancebo soltou uma risada. Mariana não achou em seu furor uma palavra para dizer-lhe.

— Tudo pode acabar em paz, minha senhora, disse com fingida amabilidade Salustiano: não haverá nem banco de condenados, nem cárcere, e muito menos patíbulo; a senhora casar-se-á com aquele que ama, e eu desposarei a jovem que adoro.

Mariana ficou olhando, e o terrível moço prosseguiu:

— Dispenso também a sua intervenção; achei um belo meio... que estupidez a minha!... deveria tê-lo há mais tempo lembrado. Aparece apenas um inconveniente: há um velho que talvez morra de desgosto... paciência.

Mariana estremeceu.

— Amanhã, senhora, terei uma hora de conferência com o honrado, austero e amoroso sr. Anacleto. Quando eu o deixar só levarei a certeza de ser o esposo de Celina, e ele ficará mudo e terrível, pálido como um cadáver, e se falar, falará para amaldiçoar sua filha.

— Oh!...

— Porque ele há de saber (há de saber pela própria letra da senhora), que a filha de seu coração, que a orgulhosa e bela Mariana, no meio das mil loucuras de seus primeiros anos, amou um homem... e amou tanto... tanto... tanto... que perdeu-se por ele!...

Mariana escondeu o rosto entre as mãos.

— Há de saber mais, que depois de cometida a primeira falta, cometeu ainda um crime abominável; há de saber que sua filha, em resultado de um momento de embriaguez, tinha de ser mãe; que inspirada pelo demônio, não o foi; não foi mãe... porque... porque...

— Oh!... bradou Mariana.

— Porque matou seu filho.

Sucederam a essas terríveis palavras alguns momentos de silêncio. Mariana estava convulsa, tinha os lábios pálidos, o rosto cadavérico, as mãos estendidas para diante, e trêmu­las como se quisesse defender-se de algum objeto; e com os olhos pasmos e terríveis, parecia talvez estar vendo diante dela a imagem do filho que havia assassinado.

Depois de algum tempo ela murmurou fracamente:

— Infanticídio... infanticídio...

Soltou um grito e desatou a chorar.

Salustiano, insensível e silencioso, esperou muito tempo que Mariana sossegasse um pouco. Quando a viu menos so­bressaltada, disse-lhe:

— Então, senhora?...

— Perdão, senhor; balbuciou a desgraçada pondo-se de joelhos.

Salustiano ergueu-a, fê-la sentar e continuou:

— Nada do que ouviu será sabido. No dia em que eu me casar com sua sobrinha, queimaremos juntos a carta fatal.

— Mas o que é que eu devo fazer?... perguntou a mísera viúva.

— Primeiramente fazer com que esse mancebo que mora no "Purgatório-trigueiro", desapareça destes lugares; conseguir dele uma carta para sua sobrinha, carta em que se apague toda a esperança de amor.

— Oh! mas isso é impossível.

— Nada é impossível, senhora.

— Porém de que modo conseguir isso?...

— Uma mulher que se ajoelha e chora aos pés de um homem consegue tudo, principalmente quando esse homem é um moço.

Mariana abaixou a cabeça.

— Depois, prosseguiu Salustiano, convirá que seu pai se interesse a meu favor, convirá que a "Bela Órfã" ouça os seus conselhos, e até os seus rogos; e, em último caso, é preciso que se imponha.

— E se ela resistir?

— É uma criança; resistirá ao princípio, chorará depois, e cederá no fim.

— Está bem.

— Não voltarei a esta casa, concluiu Salustiano levantando-se, senão na véspera de seu casamento, e então... ou se hão de assinar as escrituras do meu, ou... a senhora o sabe...

Salustiano saiu.
Meu Deus!... meu Deus!... exclamou Mariana dolorosamente; eu não pensava qu e a minha desgraça fosse tão grande!... eu não me lembrava de ter escrito a confissão do último crime!... Oh!... isso foi loucura... e a loucura que me fez escrever tal, é o primeiro castigo da Providência!...


Quando Salustiano deixou o "Céu cor-de-rosa", o velho Rodrigues estava sossegadamente sentado na porta do alpendre... mas não cantava como de costume.

Capítulo XXXII
No jardim

Nessa mesma tarde em que Mariana fora perturbada e arrancada do seu belo sonhar de alegres fantasias pelo rodar de uma carruagem, e ao mesmo tempo que na sala tinha lugar uma cena dolorosa e terrível, no jardim do "Céu cor-de-rosa" outra se apresentava mais doce, mais terna, mais cheia de esperanças.

Celina, fiel aos inocentes amores de sua infância, pois que, como dizia, tinha amado nessa idade feliz o primeiro raio do sol e as flores, estava sentada no banco de relva do caramanchão, melancólica e pensativa.

Tinha na mão direita um botão de rosa, que acabava de colher; ás vezes olhava para ele e suspirava; às vezes deixava cair a cabeça e meditava; às vezes enfim, corando de si mesma, erguia a cabeça e lançava os olhos para o lado esquerdo...

Ao lado esquerdo, e dominando o caramanchão, estava uma pequena janela do sótão do "Purgatório-trigueiro".

Celina era uma dessas jovens de imaginação viva e ardente, que a natureza cria como para serem estrelas do céu dos poetas. Essa viveza, esse ardor de imaginação transpirava em tudo...

Aquele sonho do botão de rosa... aquele coração que se escondia em um envoltório tão inocente e tão puro... aquele amor começado por uma oração; aqueles laços que se tinham apertado aos olhos de Deus e à face de um túmulo; aquela história que ela mesma escrevera em uma hora de feliz melancolia, tudo enfim demonstrava que na alma dessa moça havia o quer que seja de poesia, de amor do belo, de modo de ver de artista.

Mas se essa viveza, se esse ardor de imaginação era ainda um encanto de mais na "Bela Órfã", encanto que a tornava dobradamente encantadora, era ao mesmo tempo uma lente mágica que agigantava seus infortúnios e seus pesares.

A imaginação faz do poeta o mais feliz e ao mesmo tempo o mais desgraçado dos homens; porque na fruição de prazeres e no sofrimento dos desgostos o poeta goza mais do que há, e sofre o dobro do que em realidade existe.

Celina achava-se neste caso.

E ela nessa tarde, como em todas as dos últimos dias, estava sentada no banco de relva do caramanchão meditando tristemente, quando a passos vagarosos e com semblante prazenteiro se aproximou do lugar onde se achava a moça o velho guarda-portão.

Celina olhou para ele com doçura, e quase com esperança. Aquele homem de ordinário acertava de lhe falar sobre o jovem do "Purgatório-trigueiro".

— Sempre triste!... disse o velho.

— Pois então... murmurou a moça, devo acaso estar alegre?..

— Digo que não há razão... para tão longas melancolias.

— Quando talvez julgam mal de mim... disse corando a "Bela Órfã".

— Ele já conhece toda a verdade.

— Quem lha expôs?...

— Não fui eu.

— Mas quem foi?...

— Senhora, abusaram de um segredo... roubaram-lhe uns papéis... uma história de amor...

— Meu Deus!...

— Nessa história do seu amor a sua justificação estava completa...

— E então...

— Aquele que lha roubou levou-a ao "Purgatório-trigueiro", e entregou-a ao sr. Cândido...

— Oh!...

— Ele portanto não pode mais julgá-la ingrata e má: a sua história contou-lhe tudo.

A "Bela Órfã" levantou a cabeça, e com o rosto todo rubor de vergonha, exclamou ajuntando as mãos:

— Porém de hoje em diante julgar-me-á leviana... sem nobreza de sentimentos... sem modéstia... talvez mesmo sem este pudor que agora me está queimando o rosto!

— Não, não, respondeu o velho; o sr. Cândido também sabe que se pode furtar papéis.

— Como?...

— Depois que ele acabou de ler a sua história escreveu quase toda a noite, e adormeceu sobre a mesa onde escrevia. A tempestade desta manhã o despertou, e quando o pobre moço foi pôr em ordem os seus papéis, achou de menos um...

— Qual?

— O que ele tinha escrito depois de ler a sua história.

— E quem o furtou?...

— A velha Irias, senhora.

— Oh! mas com que fim?...

— Para pagar-me o trabalho de lhe haver furtado a sua história.

— Ah! Sr. Rodrigues...

— Nada de repreensões! disse o velho interrompendo Celina; a senhora e aquele mancebo são meus filhos... eu amo a ambos, e quero que ambos se amem.

A voz do velho Rodrigues teve naquele momento um não sei quê de tão doce e tão solene, que a "Bela Órfã" abaixou a cabeça e ficou em silêncio por algum tempo.

Finalmente, não se achando com ânimo de repreender o guarda-portão, Celina contentou-se com dizer em voz muito baixa:

— Mas agora... a minha história... eu a quero.

— Eis o que pude obter... disse o velho tirando uma folha de papel do bolso, e entregando-a a Celina.

A moça recebeu automaticamente o que lhe dava Rodrigues, e viu que logo depois o bom velho se retirava como chegara, com passos vagarosos, mas com semblante sossegado e prazenteiro.

— Os meus papéis!... a minha história!... exclamou Celina logo que se viu só.

E abrindo o que lhe deixara o velho Rodrigues, de repente soltou um pequeno e abafado grito de admiração.

Ficou muito tempo hesitando. Corou e empalideceu, e hesitou de novo muito tempo; mas, finalmente, leu.

A imaginação ardente de Cândido tinha produzido um canto arrebatado e cheio de fogo. A história do amor da "Bela Órfã" havia arrancado o coração do mancebo do abismo de profunda tristeza onde arquejava, e feito raiar em sua alma o belo sol da esperança com esses raios puros e brilhantes, mercê dos quais a vida do homem parece nadar em mar de luz, de magia, e de supremos gozos.

Os entes privilegiados em quem a natureza acendeu essa chama sagrada, a que se dá o nome de poesia, amam, cultivam o objeto de seus amores, aborrecem, e demonstram o seu aborrecimento de um modo especial, de um modo que é só deles e de seus irmãos no engenho. Os artistas e os poetas amam e vingam-se como nenhuns outros no mundo. Amam e vingam-se com a pena, com o pincel, no papel e no mármore... imortalizam seu amor e sua vingança.

Às vezes uma hora de fogo para esses homens é mais profícua do que um século para os outros.

Cândido tinha tido uma dessas horas felizes: derramara enchentes de poesia no cântico da esperança, e convertera em hinos de amor seu coração agradecido.

Celina havia começado a ler receosa e trêmula; pouco depois o fogo que animara o poeta foi ardendo também na alma da virgem, que finalmente cedendo aos impulsos da natureza, acabou por ler com paixão e entusiasmo os jura­mentos de amor daquele que ela amava tanto.

Quando a "Bela Órfã" chegou ao fim da última página, era já a hora do crepúsculo, hora voluptuosa e fantástica, em que não é dia nem noite, hora de sonhos e de quimeras certamente; sonhos e quimeras porém, que todas as realidades desta vida não podem pagar nunca.

Celina docemente recostada no banco de relva do caramanchão ficou meditando muito tempo. Não via mais os arbustos cobertos de flores, que tinha diante de si; não ouvia mais o ruído que fazia o favônio brincando com as flores. Estava vivendo no mundo encantado da imaginação; estava vendo a figura graciosa de Cândido, vibrando as cordas de sua harpa, e ouvindo sua voz harmoniosa e terna entoar o canto do poeta amoroso, como na noite de seus anos:

"Iguais são no fado que têm a cumprir,

"Iguais num mistério a bela e a flor;

"Se a flor tem perfume, que o prado embalsama,

"É délio perfume da bela o amor."

Os olhos da bela moça ora se fitavam sobre um objeto, que ela então nem via, ora vagavam indiferentes e incertos... até que uma vez...

Celina fez um movimento e lançou os olhos sobre a janela do "Purgatório-trigueiro"... a janela estava aberta, e junto dela um jovem belo e gracioso embebia suas vistas na encantadora figura da moça... era ele... era Cândido.

O filho adotivo de Irias havia chegado à fresta da janela, vira a "Bela Órfã" lendo, conhecera os seus papéis, e arrebatado de prazer e de entusiasmo abrira a janela, e tinha ficado em terno êxtase, devorando com olhares ardentes os encantos daquela que adorava.

Celina ergueu-se um pouco... não mostrou nem pejo nem espanto. Cândido lhe aparecia em um momento de fogo imenso de imaginação. Nem ela nem ele estavam em si: o poeta e a bela acima do mundo... acima dos homens, viviam nessa hora no espaço encantador que as almas habitam em completa independência da matéria.

Com os olhos fitos um no outro, como dois magnetizados, com os lábios dilatados por doce e terno sorriso, eles ficaram olhando-se muito tempo... muito tempo... vivendo, amando-se pelos olhos!

Nem uma palavra de seus lábios... nem um movimento de seus braços... para quê?... o que poderiam dizer e significar eles?...

As almas de ambos patenteavam-se, conversavam, juravam de mil modos um amor puro e celeste naquele olhar fixo e ardente com que os dois amantes se estavam devorando.

O magnetismo de amor os dominava.

À face do céu e à luz do crepúsculo celebrava-se ali um himeneu encantado.

O templo era o jardim; amor era o sacerdote, as testemu­nhas eram os favônios e as flores.

Os noivos eram aqueles dois corações; desde esse momen­to Cândido e Celina ficavam sendo esposos na alma: não se haviam dado as mãos; mas tinham-se enlaçado pelos olhos.

Capítulo XXXIII
O aniverssário

Àquele dia tão cheio de acontecimentos de imensa importância para os amores de Mariana e Celina, tinha de seguir uma noite não menos fértil.

Eram oito horas.

A voz da velha Irias acabava de chamar a Cândido para cear.

O mancebo, alegre como nunca o estivera em toda sua vida, desceu as escadas do velho sótão, e entrando na saleta do "Purgatório-trigueiro", encontrou sua mãe adotiva risonha e prazenteira, como em nenhuma outra noite se mostrara a seus olhos.

Era talvez uma noite de festa aquela que se estava passando na pobre casa; sobre a mesa havia dois pratos a mais; contra todos os antigos hábitos uma garrafa de vinho e dois copos se apresentavam aos olhos de Cândido; e para que nada faltasse, um vaso de flores naturais à mesa.

— O que é isto, minha mãe?... perguntou Cândido sor­rindo.

— É uma noite de prazer, meu filho, respondeu a velha; e graças a Deus que o teu rosto se está parecendo com o meu coração; sorriem ambos. Estás alegre hoje?...

— Oh! muito! muito!... tanto que tenho medo do meu prazer.

— Por quê?...

— Porque receio sentir-me dobradamente infeliz ao depois.

— E qual é o motivo de tua inesperada alegria hoje?...

— Minha mãe, eu vos peço perdão; mas é um segredo do meu coração.

— Pois bem... eu o respeito.

— E será igualmente um segredo do vosso, o prazer que vos transpira no rosto e que em tudo mais se demonstra em nossa velha casa?...

— Segredo ou não... eu to direi.

— Quando?...

— Mais tarde.

— Bem... esperarei; mas dir-me-eis hoje?

— Sim; depois de cearmos.

— Pois ceemos.

A velha e o moço sentaram-se, e começaram a comer com a melhor vontade.

— Minha mãe, disse Cândido, nunca me senti tão feliz!...

— Nem eu tão alegre, meu filho; bendito seja Deus!...

— Qual de nós terá razão?

— Nós ambos.

Acabado o primeiro prato, a velha encheu os copos, e disse:

— Cândido, bebamos este copo de vinho pela causa do meu prazer e pela tua ventura.

— Oh! sim! minha mãe!...

— À saúde desta feliz noite! exclamou a velha com as lá­grimas nos olhos.

— Sim... sim; e também à felicidade da tarde que passou!

Os copos esvaziaram-se.

A ceia prolongou-se até às nove horas. A velha e o man­cebo conversavam alegremente. Nunca uma noite igual se havia passado no "Purgatório-trigueiro".

Quando terminada a ceia, a velha escrava de Irias acabava de retirar-se, Cândido lembrou à sua mãe adotiva a promessa que lhe tinha feito.

— Já ceamos, minha mãe; e eu estou ansioso de conhecer o vosso segredo.

— Ainda não... creio que ainda é cedo. Que horas serão?...

— Mais de nove.

— Pois espera até as onze.

— Por que então?

— É uma puerilidade. Quero começar a falar às mesmas horas em que me bateram à porta.

— Em que vos bateram à porta?...

— Sim.

— E para quê? perguntou Cândido curioso.

— É a minha história... é o meu segredo.

— Vós aguçais a minha curiosidade, minha mãe!

— Tanto melhor.

— Falai por quem sois!

— Às onze horas da noite.

— E até lá o que faremos?

— Eu, respondeu a velha, pensarei no presente que me trouxeram a essa hora.

— E eu?...

— Tu... ora... tu podes muito bem pensar na tua ventura da tarde que passou.

— Dizeis bem, senhora!... exclamou o mancebo.

E fechando os olhos, com os lábios dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos... pensou em Celina, até...

Até as onze horas da noite.

Quando os sinos deram o sinal dessa hora, Cândido, como despertando de um sono feliz, exalou um profundo suspiro, e abrindo os olhos, viu Irias sentada diante dele:

— Onze horas! disse o mancebo.

— Sim, é tempo, respondeu a velha; eu vou falar...

Irias e Cândido respiraram e arranjaram-se em suas cadeiras, como se aquela tivesse de contar, e este de ouvir uma dessas longas histórias que se contam nas noites de inverno. E a velha falou:

— Há vinte e um anos...

— Há vinte e um anos?! exclamou o mancebo interrompendo Irias; há vinte e um anos?! não é essa a minha idade?

— Creio que sim.

— A vossa história tem pois relação...

— Saberás, se me quiseres ouvir.

— Falai, disse Cândido torcendo as mãos com vivos sinais de impaciente curiosidade.

A velha continuou:

— Era noite; mas não como esta, que vai indo fresca e bela com seu majestoso e claro luar. Era uma noite de tempestade; a chuva caía a cântaros... os relâmpagos acendiam com intermitência cheia de temores um fogo infernal que cegava; os trovões faziam estremecer os móveis e as casas...

— Má noite!... murmurou pensativo o mancebo; má noite!... que presságio!...

— Que é isso? disse Irias; fazes-te melancólico?

— Não é nada, continuai.

— Eu estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora das Dores... rezava tremendo pelos navegantes... e por mim. Nossa escrava respondia às minhas orações... a tempestade... a trovoada continuava cada vez mais horrível, quando às onze horas...

— Às onze horas...

— Uma mão pesada e forte bateu à porta de nossa velha casa... corremos ambas, eu e a escrava: "quem é?.." perguntei.

— Abra pelo amor de Deus; disseram da rua.

— Abri.

Recuei espantada diante de um vulto que entrou: era um homem alto e envolvido em longa capa negra.

— Nada receie, disse ele sem se desembuçar.

— Quem é o senhor? e o que quer de mim?... perguntei.

Em vez de responder-me, o homem fechou a porta por onde acabava de entrar, e ao som dos trovões... perguntou-me:

— A senhora é cristã?

— Eu rezava quando o senhor bateu, respondi.

— Pode-se rezar e não crer, tornou-me. Pergunto se é cristã, se sabe sê-lo.

Por única resposta mostrei-lhe a imagem de Nossa Senhora das Dores, a cujos pés tinha eu estado há pouco.
— Nossa Senhora das Dores! exclamou o homem desconhecido: o símbolo da maternidade! a mãe de todos os homens!... de joelhos pois, senhora.

Eu me ajoelhei de novo diante da imagem, e o desconhecido prosseguiu:
— Em nome da mãe de Deus, que é também, e principalmente, a mãe dos órfãos e dos pobres, aceita, mulher, como teu filho esta infeliz criança recém-nascida, que não tem por si no mundo senão o olhar piedoso que do alto do céu está sem dúvida lançando sobre ele a Virgem...

— E tem tudo portanto! acrescentei eu com o coração cheio de fé.

O desconhecido lançou para trás a capa, e entregou-me uma inocente criancinha recém-nascida, que acabava de fazer o seu passeio no mundo ao clarão dos relâmpagos e ao som dos trovões.

Recebi-a de joelhos como estava; era tão galante essa criança! jurei amá-la como se tivesse saído de minhas entranhas; jurei pela Santa Virgem, que seria sua mãe.

A criança dormia tão sossegada!

Olhei para a imagem da Senhora... pareceu-me que sorria... que me estava animando com um olhar protetor...

A chuva tinha parado... os trovões não se ouviam mais: era sem dúvida um milagre de Nossa Senhora.

Examinei a criança... era um menino.

— Como se chama este menino? perguntei.

— Ainda não tem nome.

— Que nome lhe darei?

— O que quiser.

— Sua família?

— Pois não está vendo que é um enjeitado?

— Bem, eu o adoto; é meu filho.

— Deus lho há de pagar, disse o desconhecido. Mas a senhora é pobre... eis aqui com que pagar-lhe a ama. Depois... se ele viver, uma mão misteriosa cuidará em sua educação; como um amigo incógnito velará por ele.

E deixando sobre a mesa uma bolsa cheia de ouro, o desconhecido envolveu-se de novo em sua capa, abriu a porta e desapareceu.

A noite já estava bela e clara; bela e clara como o dia.

Fiquei só com o menino.

— E esse menino, disse tristemente Cândido, esse menino era eu.

Examinei-o todo, continuou a velha; e nem uma letra em suas roupinhas para designar sua família, e nem um sinal em seu corpo para fazê-lo conhecido de seus pais.

— Oh!... é minha mãe, senhora? perguntou Cândido.

— Abençoada seja essa noite, exclamou a velha sem atender a seu filho adotivo. Tu, Cândido, foste crescendo ao pé de mim sempre belo, feliz e engraçado. De ano em ano, à mesma noite, às mesmas horas, o homem desconhecido, embuçado em sua capa negra, vinha agradecer-me os cuidados que o meu amor gastava contigo, e deixar-me ora uma bolsa repleta de ouro, ora uma carteira contendo soma considerável em relação às pequenas despesas que me obrigavas a fazer.

— E esse homem nunca falou?... nunca disse nada a respeito de meus pais?

— Nunca. E tu eras tão pequeno, que jamais me veio à lembrança contar-te a história dessa noite. Depois, quando chegaste aos treze anos de idade, esse homem te veio arrancar dos meus braços... e sabes quanto tempo estivemos se­parados?

— Oh! eu o vi então! esse homem de roupas negras... eu me hei de lembrar sempre...

— Voltaste, continuou Irias, e é esta a primeira noite de teus anos que passamos juntos depois da tua volta. Quis referir-te o que se passou nessa noite, que começando em tempestade, acabou tão bonançosa. Oh! foi uma bela noite! bem feliz!... bem ditosa para mim.

— A noite em que me enjeitaram! balbuciou o mancebo.

— Todos os dias agradeço a Deus a felicidade de me haver feito tua mãe, porque tu és a consolação e amparo da minha velhice.

— Obrigado, senhora.

— Porque tu me amas como eu te amo.

— É certo.

— Porque tu me fazes ditosa, e hás de ser ditoso também.

— Ah! quem sabe?!

— Hás de o ser. A Senhora das Dores presidiu à hora feliz em que te eu adotei; tu és seu filho também... confia nela.

— E minha mãe?! exclamou o mancebo.

— E que outra melhor mãe do que ela?...

— Oh! nenhuma; mas aquela que me concebeu tem di­reito ao amor do meu coração!... oh! minha mãe!... minha mãe... para que eu enxugue suas lágrimas se ela chora...

— Espera.

— Tanto tempo!

— Espera; confia na Santa Virgem, a quem te recomendei quando te recebi em meus braços; a Santa Virgem te mos­trará tua mãe...

— Oh! que eu a veja!...

— Bateram na porta.

— Batem... disse a velha.

— Quando eu pedia minha mãe!...

Bateram de novo.

— É talvez ele.

— Quem?...

— O desconhecido.

Cândido lançou-se para a porta, que se abriu imediata­mente.

Entrou um vulto preto.

— É ele! exclamou a velha.

— Não, respondeu Cândido; é uma senhora de mantilha.

Capítulo XXXIV
A mulher de mantilha

A mulher de mantilha que tinha acabado de entrar, ficara em pé e silenciosa junto da porta.

Trazia tão fechada a mantilha, que apenas se podia descobrir os olhos, que eram negros e brilhantes.

— Minha senhora, disse Cândido, aqui está uma cadeira.

A desconhecida estendeu fora da mantilha um braço perfeitamente torneado pela natureza, e com uma mão delicada e fina tomando a de Cândido, puxou para si o mancebo com voz muito baixa disse:

— Eu preciso falar a sós com o senhor.

— Comigo? a sós?...

— Sim.

— Prefere conversar aqui mesmo, ou quer antes subir ao meu quarto?...

— Prefiro o lugar onde mais livremente puder falar-lhe.

A voz da desconhecida estava trêmula. Cândido pretendia debalde lembrar-se em que ocasião e onde tinha ouvido uma voz que se parecia com aquela. Sentia ao mesmo tempo uma curiosidade imensa de conhecer essa mulher que a tais horas e por tal modo o viera procurar.

— Minha mãe, disse ele voltando-se para Irias, a senhora quer falar-me sem testemunhas; eu vos peço licença para subir com ela ao sótão.

— Meu filho, respondeu a velha, a casa é tua; dá a mão à senhora.

Cândido ofereceu a mão à desconhecida e a guiou pelo corredor à escadinha do sótão.

A velha acompanhou a ambos com um olhar curioso, que se podia traduzir assim: que mulher será essa?... que relação haverá entre ela e Cândido?...

Uma única e fraca luz estava acesa no sótão do "Purgatório-trigueiro", e logo que aí entraram os dois, Cândido ia acender outra vela, mas a desconhecida o susteve, e disse-lhe:

— Basta a que existe.

O mancebo compreendeu que aquela mulher contrafazia a voz. Pretenderia ela não se dar a conhecer?...

— Perdoai, senhora, a desordem deste quarto, disse Cân­dido.

A desconhecida, sem responder à desculpa que lhe dava o moço, tomou uma de suas mãos entre as dela, e apertando-a fortemente, perguntou:

— O senhor é sensível?

— Prezo-me de o ser, senhora.

— Oh! sim; eu o sabia; mas há na natureza humana horas de inexplicáveis inconseqüências; horas em que um coração de malvado se dobra como a cera; e em que, também, um coração sempre cheio de piedade se mostra duro como a rocha.

— E o que pretende significar então com o que acaba de dizer?...

— Quero saber que hora é esta para o seu coração; porque eu preciso de toda a caridade de uma alma cristã...

— Senhora... uma palavra diz tudo: eu chorava quando lhe ouvi bater à porta.

— Chorava?

— Oh! chorava lágrimas de amor.

— Senhor, seria uma indiscrição perguntar-lhe por quê?

— Não, não; antes eu quereria dizê-lo a todos; eu chorava por minha mãe.

— Pois... eu pensava... o senhor...

— É certo, exclamou Cândido; é verdade! eu sou um mísero enjeitado!

— Mas então...

— Oh! é que, apesar de ser enjeitado, houve forçosamente um homem que foi meu pai, e uma mulher me concebeu! esse homem, senhora, é já morto... disseram-mo. Eu sou órfão de pai; mas minha mãe!... essa, diz-me o coração que ainda vive... e eu amo-a com todo este fogo de amor que Deus acendeu na minha alma! ...

— Sem conhecê-la?.

— Que importa? este amor não se gasta, não se esgota; este amor é como o fogo do sol, sempre o mesmo, ou cada vez mais ardente. Quando eu encontrar minha mãe... oh! que amar esse de então!

— É assim... é assim... tem razão, murmurou com voz comovida a senhora de mantilha.

— Uma mãe!... disse Cândido ternamente; uma mãe!... um ventre de mulher abençoado por Deus! oh! senhora, a maternidade é tão sublime, é tão sagrada, que foi por ela que Jesus Cristo se pôs em contato com os homens; foi pela maternidade que Deus salvou-nos!... amaldiçoado seja aquele que não ama a sua mãe.

— E chora?... perguntou a desconhecida chorando também.

— Oh! sim! eu choro... sempre, e muito.

— Por que, senhor...

— Porque eu me lembro que minha mãe pode ser desgraçada... porque talvez ela precise de um braço a que se arrime para fazer a perigosa viagem deste mundo, e eu não a conheço, não lhe posso estender meu braço... enxugar-lhe as lágrimas... ou chorar com ela!

— É assim!...

— Quando, senhora, eu encontro por essas ruas uma pobre mulher doente... mendicante... exposta aos insultos da gente desmoralizada... sendo talvez o objeto do desprezo de muitos... quando de noite, aproveitando as trevas, eu vejo passar junto de mim uma mulher envolta, como a senhora, em negra mantilha, estendendo, vergonhosa, uma mão emagrecida e trêmula para receber a mais chorada esmola... e eu me lembro que tenho no mundo uma mãe, que é por força uma mulher, que não é impossível que seja uma dessas que eu encontro. Senhora!... eu não sei nesses momentos o que desejo... eu toco quase ao desespero... desejo morrer... e não me mato somente porque sou cristão.

Ficaram ambos em silêncio por alguns instantes; ambos chorando, até que Cândido levantou a cabeça, e enxugando as lágrimas, disse:

— Desculpe-me, era a senhora quem devia falar, e eu a tenho ocupado falando-lhe de mim. Eu escuto.

— Não, respondeu a desconhecida; eu precisava ouvi-lo para animar-me.

— Pois bem; agora cabe-lhe dizer em que lhe posso ser útil.

— Senhor, disse a desconhecida, o amor de sua mãe é o único que existe em seu coração?...

— O único, não; eu amo a minha mãe adotiva; devo gratidão a algumas pessoas; e mesmo... amo mais alguém.

— Mas qual de todos esses amores será o maior, o mais poderoso?

O mancebo hesitou; mas depois respondeu com força:

— O de minha mãe.

— Seria capaz de sacrificar-se por esse?...

— Tudo.

— E se alguém lhe viesse pedir um obséquio tão grande que importasse um sacrifício, pelo menos temporário, e lho pedisse em nome de sua mãe?...

— Senhora...

— Se esse serviço que lhe viessem pedir, não o pudesse o senhor fazer sem ferir-se no coração, sem sentir doer-lhe a corda mais sensível dele; mas se, apesar disso, lho pedissem em nome de sua mãe...

— Eu não compreendo...

— Mas se no cumprimento de tal favor estivesse a salvação de uma mulher, que tem talvez idade de ser sua mãe...

— Senhora! fale...

— Oh! é o senhor quem deve falar agora: o que faria?

— Eu não sei de que se trata.

— É um favor imenso, que lhe venho pedir em nome de sua mãe...

— Eu o farei; se a minha honra, se a delicadeza não...

— Nada de condições.

— É impossível obrigar-me de outro modo.

— Em nome de sua mãe...

— Por minha mãe já eu jurei ser honrado e ser honesto...

— O que eu peço, senhor, não se opõe à sua honra.

— Servi-la-ei.

— Basta por alguns dias enganar um coração, martirizando o seu... eis aqui o sacrifício.

Cândido sentiu um calafrio terrível coar-lhe por todo corpo; pareceu adivinhar o que dele queriam, e exclamou:

— Mentir?!

— Por breves dias... mas dessa mentira depende a vida de uma infeliz mulher.

— Mentir! isso não, senhora.

A desconhecida abafou um grito doloroso, que lhe saía do peito.

— De que se trata, senhora? perguntou o mancebo com voz alterada.

A desconhecida, mostrando tomar uma resolução, ergueu-se e perguntou:

— Senhor, já aborreceu alguém em sua vida?...

— Não.

— Nem conserva a lembrança de nenhuma ofensa? nem se apraz de vingar-se quando lhe ofendem?

— Não, não.

— Sabe perdoar?

— Sou cristão.

— Oh! perdoar deve às vezes custar muito.

— Deve ser bem doce.

— Em uma palavra, senhor, tem piedade de uma mulher infeliz?

— Senhora... senhora... sou filho, filho amante, e não conheço minha mãe.

— Basta.

A desconhecida tomou o braço do mancebo, aproximou-se da mesa onde estava a luz, e arrancando de sobre si a mantilha, caiu de joelhos.

Cândido soltou um grito de espanto: acabava de reconhecer a filha de Anacleto.

— Senhora! erga-se...

— Não! não! pelo amor de Deus deixe-me ficar de joelhos.

— É impossível... eu não devo...

— Mas eu quero... e não direi nada... e ver-me-á sair como uma miserável condenada, se quiser obrigar-me a levantar-me.

— Senhora...

— Não... não!... em nome de sua mãe, por todos os seus amores juntos, outra vez pelo amor de Deus deixe-me falar de joelhos.

O mancebo cruzou os braços, e ficou ali em pé, com a cabeça caída para baixo, olhando para aquela mulher que de joelhos, com os braços apertados em cruz contra o peito, e com os olhos cravados no chão, começou a falar:

— Senhor, senhor, o que eu lhe venho dizer e pedir não se diz, não se pede senão a um homem de honra, de piedade e de religião.

— Fale, senhora.

— Eu devo parecer-lhe uma mulher má e intrigante; e todavia eu sou apenas muito desgraçada; ouça-me como um padre ouve no confessionário.

— Fale sem receio, minha senhora.

— Senhor... ia dizendo Mariana.

— Espere, disse Cândido interrompendo-a.

— A viúva levantou a cabeça, e por entre suas lágrimas viu o mancebo dirigir-se à escada e examinar se alguém os escutava. Abaixou de novo a cabeça quando Cândido voltava para ouvi-la.

— Estamos sós; pode falar.

Mariana principiou então a dizer com voz trêmula:

— Na primavera de minha vida, senhor, eu fui tida por formosa, e conhecia-me por sensível. Amei... a história do meu amor começa como todas as do mesmo gênero; mas acaba como as mais desgraçadas. Seduziram-me, senhor... e abandonaram-me! oh! mas o meu infortúnio se tornou mais doloroso hoje porque sei que uma de minhas cartas, exatamente uma em que eu lançava em rosto ao meu sedutor o estado em que me deixava, caiu nas mãos de um homem sem generosidade e sem nobreza, que com ela joga contra mim.

— Oh! esse miserável..

— O senhor o conhece; é um mancebo que freqüenta nossa casa; é...

— Salustiano...

— Esse mesmo. Oh senhor! que procedimento abominável o desse presumido jovem!... eu esqueço tudo quanto se tem passado entre nós dois, para dizer somente a minha desgraça.

— Relação comigo? exclamou Cândido.

— Salustiano, desde muito tempo que ama minha sobrinha, e que debalde trabalha por se fazer amado. Ultimamente, com seus olhos de amante zeloso, descobriu que Celina já amava... oh! adivinhou a verdade: o senhor sabe a quem minha sobrinha amava.

— Ah! senhora.

— Não o increpo. Ela e o senhor são dignos um do outro; mas o amante infeliz jurou levantar uma barreira entre os dois... e essa barreira... a pesar meu... a despeito de todos os esforços, essa barreira sou eu.

— É possível!...

— Com a carta em que eu confesso meu crime, ele me governa como senhor. Com o poder que lhe dá essa carta, ele me disse uma noite: "eu quero que as portas desta casa se fechem ao sr. Cândido!" E eu fui pedir-lhe que me levasse ao jardim, e lá menti, senhor, caluniei minha sobrinha, caluniei meu próprio coração... ousei significar-lhe que a sua presença nos incomodava... despedi-o de nossa casa, e depois fui chorar atrás de uma porta como uma louca!... oh! senhor! perdão! perdão! em nome de sua mãe!...

— A senhora não é criminosa, disse Cândido tristemente; é infeliz...muito infeliz.

— Mas o plano do monstro falhou. Apesar da sua ausência Celina o aborrecia como dantes, quando hoje...

— Hoje... repetiu Cândido.

—É preciso que eu diga tudo. Eu caso-me, senhor, ou pelo menos deverei casar-me antes de oito dias. Pois hoje Salustiano se apresenta em minha casa, e diz-me: "o meu! casamento com sua sobrinha seguirá de perto ao seu: eu o exijo! Se não...

... Oh! com estas palavras é que ele termina sempre.

— É incrível!... exclamou Cândido.

— Minhas observações, minhas súplicas, minhas lágrimas o não comoveram; e formalmente ordenou-me que eu viesse aqui pôr-me de joelhos a seus pés, e pedir-lhe, senhor, como lhe peço, que salve a meu pai, e que me salve!

— Salvá-la? e como?...

— Oh! é preciso ter muita coragem para pedir o que eu peço! é um sacrifício... mas estou de joelhos...

— Diga, senhora.

— O seu amor é que me mata! exclamou Mariana. Celina e o senhor me perdem...

— Ah! meu Deus! bradou Cândido apertando a cabeça com as mãos, porque acabava de adivinhar o que se lhe ia pedir.

— A carta fatal será minha, prosseguiu Mariana, se o senhor quiser deixar de aparecer a Celina por um mês ao menos, e escrever-lhe um bilhete mentindo, senhor!... mentindo... matando-se...

— Diz bem... matando-me...

— Oh! por piedade! exclamou a viúva abraçando-se com as pernas do mancebo; por compaixão! pelo amor de sua mãe!... não me deixe assim morrer desonrada...

— Senhora... mas eu hei de dizer que não amo a esse anjo de beleza e candura... a essa pomba celeste?...

— Senhor... senhor... eu tenho arrastado meu rosto pela terra, que pisam os seus pés... eu peço misericórdia!

— Sacrificar... cooperar para que se sacrifique uma virgem cheia de encantos e virtudes a um monstro... oh! é um crime!

— E eu? e eu então!...

— É um castigo! a Providência pune de mil maneiras neste mundo. Se eu pudesse sofrer só, senhora, para dar-lhe todo sossego, toda ventura que deseja, eu sofreria sem hesitar; mais uma moça inocente! enganá-la, e enganá-la quando apenas foi hoje que comecei a acreditar na possibilidade de um futuro, que seria a vida do paraíso?!

— Oh! pois bem, disse com voz concentrada e terrível a viúva; nada de piedade... nada de misericórdia para mim... eu sei bem que não as mereço; porém meu pobre pai!

— O sr. Anacleto?...

— Amanhã... depois de amanhã... daqui a três ou quatro dias, ao muito, o meu terrível inimigo se apresentará diante do cansado e amoroso velho. Eu o estou vendo, senhor, magro... pálido... melancólico... com a cabeça branca, embranquecida pelos cuidados que comigo teve, e pelos desgostos que lhe eu tenho dado; ele estende temeroso a mão para receber uma carta, que o monstro lhe vai entregar... oh! ele a lê... é a desonra de sua filha... é a mão da maior desgraça que o empurra para a cova... oh! o pobre velho não pode mais com a vida... ve-me chorando, e perdoa-me!... mas chora, por sua vez! o resto da vida que ainda tinha ele o desfaz em lágrimas! chora e morre!...

— Ah! senhora! que imagem!

— No entanto, senhor, nós ficamos no mundo; prosseguiu com ironia desesperadora a viúva. Celina é sua... o amor os liga... a religião soldou os laços; mas quando ao anoitecer o sr. Cândido voltar para casa no meio dessas mulheres doentes... andrajosas... trazendo no rosto a cor amarelenta da miséria, ou melhor, senhor, a cor de todas as misérias; magras, abatidas, mendicantes; aparecerá um vulto mais tocante que todos aqueles vultos... ao menos para o sr. Cândido. Serei eu, senhor! estenderei a minha mão para receber um vintém... e depois... vagarosa... desvairada... louca, eu me irei retirando e balbuciando duas palavras que resumirão toda a minha história!... crime e miséria!...

— Basta, senhora!

— E de noite, senhor, no leito de amor, mesmo junto de Celina, a hedionda figura da mendiga há de aparecer na sua imaginação, e ainda mais... a mendiga há de estar apontando para um sepulcro... o sepulcro há de se ir abrindo... e de dentro dele irá saindo branca... branca a cabeça de um velho... e o rosto deste velho há de ir aparecendo horrivelmente contraído diante da miséria da mendiga!... serão dois espectros... um pai e uma filha! um pai morto de desgostos... uma filha perdida pelo crime e pelos remorsos! serão dois espectros, senhor, Anacleto e Mariana.

— Basta, senhora!... exclamou de novo Cândido, cuja imaginação ardente dava cores ainda mais vivas ao horrível quadro que lhe traçava a viúva.

— Piedade!... misericórdia!... dizia esta sem cessar, abraçando-se com as pernas do mancebo.

— Oh! meu Deus! meu Deus!...

Um pensamento novo e atrevido, uma dessas idéias rápidas, brilhantes, felizes, dignas somente de uma imaginação de mulher, brilhou nos olhos de Mariana.

Ela ergueu-se, enxugou as lágrimas, e com voz segura perguntou a Cândido:

— Que idade tem, senhor?

— Vinte e um anos.

— E eu tenho trinta e seis, disse ela.

— Que quer dizer?...

Mariana, com os olhos em fogo, e um sorrir nervoso, murmurou com voz trêmula e vagarosa:

— Mancebo, sabes tu se eu sou tua mãe?!

Cândido soltou um grito surdo, que lhe saiu do íntimo da alma.

— Senhora, pela vida de seu pai, exclamou ele depois de vencer a primeira e profundíssima impressão que as palavras de Mariana lhe produziram. Diga-me a verdade; de que idade cometeu essa falta de que se acusa?...

— Aos quinze anos, respondeu Mariana com tom grave.

— Quinze para trinta e seis... vinte e um!... é a minha idade!...

— Sem dúvida: teria vinte e um anos! balbuciou lugubremente e a tremer a viúva.

— Oh!... é certo!... a senhora deveria ter um filho?...

— Deveria! respondeu Mariana; e tremia convulsivamente: deveria!

E a idéia do maior dos seus crimes dava mil punhaladas no coração da infeliz mulher.

— Meu Deus!... meu Deus!... quem sabe? quem me arranca desta dúvida?...

— Senhor, disse a viúva, não procurará aparecer a Celina?...

— Não!... não!...

— Está pronto a escrever o bilhete?

— Sim... estou pronto.

— Sente-se e escreva; eu dito.

Cândido sentou-se; tomou papel e pena, e escreveu o que lhe ditou Mariana.

Senhora. Eu parto; eu fujo para sempre de vossos olhos; tenho remorsos... fingia amar-vos... iludia uma inocente moça; os remorsos abriram-me os olhos. Per­doai aquele que antes quer parecer ingrato do que con­tinuar a ser um monstro. — Cândido.

O moço escreveu sem hesitar; assinou com a mão firme, fechou o bilhete, e voltando-se para a viúva entregou-o e disse:

— Eis aí a morte do mais puro dos amores. Mas agora, em troco do que acabo de fazer, protesta dizer-me a verdade a respeito do que lhe vou perguntar?

— E primeiro o senhor jura que cumprirá o que me prometeu, qualquer que seja a resposta que eu lhe der?...

— Juro.

— Pela alma de seu pai?

— Pela alma de meu pai.

— Pelo amor de sua mãe?...

— Pelo amor de minha mãe.

— Bem: pode perguntar.

— Senhora, diga-me, em nome do céu, é verdade tudo quanto dizia há pouco?...

— É verdade.

— Senhora! exclamou Cândido caindo aos pés de Mariana, vós sois minha mãe!..

— Oh!... pobre moço!... balbuciou a viúva.

— Vós sois minha mãe!... continuou ele beijando a barra do vestido de Mariana; vós sois minha mãe! desde muito o coração dentro do peito mo dizia; sem saber por que, eu vos amava com um amor cândido e belo, como somente é o amor filial; eu vos olhava com santo respeito; a vossa voz soava dentro de minha alma; vossos sorrisos me animavam! quando eu pensava em minha mãe, vossa graciosa figura se desenhava diante de mim!... em meus sonhos de filho vinha um anjo, e apontava para uma mulher, cujo rosto estava coberto com um véu, e me dizia "eis aí tua mãe". Eu corria para essa mulher, arrancava-lhe o véu, e o rosto que eu via era o vosso. Ah! vós sois minha mãe!... bendito seja Deus! vós sois minha mãe!...

Mariana sacudiu tristemente a cabeça, e respondeu:

— Não sou sua mãe.

— Onde está pois vosso filho?...

A viúva tornou a tremer da cabeça até os pés, e, apontando para cima, disse:

— Está no céu.

— Morto!...

— Sim, morreu...

Mariana deveria ter dito — matei-o; por isso sua resposta foi como um surdo gemido.

Cândido ficou petrificado.

A viúva envolveu-se de novo em sua mantilha, e despediu-se dizendo:

— Eu o deixo; um dia Deus lhe pagará o que vai fazer por mim.

E partiu.

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