A casa em que morava Salustiano, e que ele havia herdado de seu pai, rico e honrado negociante, estava situada em uma das mais freqüentadas e comerciais ruas da cidade do Rio de Janeiro.
Importa tão pouco saber o nome dessa rua como descrever essa casa. É de sobra dizer que ela era de dois andares, e que no segundo andar tinha Salustiano estabelecido o seu gabinete particular, com o qual se comunicava o quarto em que dormia.
No dia que seguiu a noite amarga em que Mariana tanto tempo se deixara ficar ajoelhada aos pés de Cândido, estava Salustiano em seu gabinete ocupado em examinar diversos papéis e livros mercantis, trabalho em que o ajudava um velho alto, de rosto vermelho e de cabeça calva.
Esse velho chamava-se João, e era o agente principal da casa de Salustiano.
João era um homem de poucas palavras, de olhar atrevido, de gênio de fogo, de coração bom, e de têmpera de ferro.
Pela volta das onze horas apareceu um caixeiro à porta do gabinete, e disse:
— Está aí o sr. Jacó.
— Que entre para aqui, respondeu Salustiano.
O caixeiro retirou-se,
— Sr. João, continuou Salustiano, suspendamos este trabalho. Tenho que falar a sós com o homem que acaba de ser anunciado. Desça ao primeiro andar e logo que se retirar aquele que nos veio interromper, suba de novo para continuarmos a trabalhar.
O velho, sem dizer palavra, limpou a pena com que estava tomando notas, prendeu-a atrás da orelha, e saiu.
Quando ia descendo a escada, vinha subindo o homem que se anunciara.
O caixeiro que acompanhava o homem reparou que, contra todos os seus hábitos, o velho João tratou aquele sujeito com familiaridade e vivas demonstrações de estima.
Os dois apertaram fortemente as mãos, disseram finezas e mostraram-se mutuamente amigos.
Era um fato admirável na vida de João.
Finalmente o recém-chegado foi introduzido no gabinete de Salustiano, e o caixeiro deixou os dois a sós.
O homem sentou-se na cadeira em que antes estivera sentado João.
Era ele baixo, um pouco gordo, e um pouco calvo; tinha olhos vivos, e mostrava-se alegre. Vinha vestido de fraque roxo abotoado até em cima, e de calças pretas. Calçava botinas de cordovão de lustro, e chamava-se Jacó.
Já não pode haver dúvida nenhuma; era o escrivão que morava na rua de... exatamente defronte do "Céu cor-de-rosa".
Travou-se entre Jacó e Salustiano a seguinte conversação:
— Muito bem, senhor Jacó: o senhor é sempre pontual.
— É um hábito da vida passada; quando eu era escrivão, chegava à casa dos juízes sempre dez minutos antes da hora das audiências.
— Não é esse o seu único mérito: o senhor é capaz de descobrir o maior segredo deste mundo.
— A vida passada! a vida passada! o tino, a prática dos interrogatórios...
— Vamos pois; que notícias me dá?
— Poucas, porém boas.
— A elas, meu caro.
— Ontem, depois das onze horas da noite, a lua estava clara como o dia...
— Dispenso todos os segredos que o senhor possa ter descoberto na lua.
— Hábitos da vida passada! nos corpos de delito o luar é uma circunstância que sempre se faz notar... as vezes importa muito.
— Adiante.
— Bem: pouco depois das onze horas da noite saiu do alpendre do "Céu cor-de-rosa" um vulto de mulher...
— Oh!
— Envolvia-se em uma mantilha: era com efeito uma mulher.
— Está bem certo disso?
— Sim; o andar era majestoso e engraçado... aquela mulher nunca tinha usado mantilha.
— Por quê?
— Porque envolvia-se nela como em um xale. Mas o andar, que era majestoso e engraçado, era ao mesmo tempo tão delicado, as passadas tão curtas e ligeiras, que não podia deixar de ser o andar de uma mulher.
— Bem; e depois?
— Foi direitinha à porta do "Purgatório-trigueiro".
— Ah!
— Tirou debaixo da mantilha e estendeu para fora um lindo braço, e com formosa mão...
— Então viu também que o braço era lindo, e a mão formosa?
— Sem dúvida; porque em um dos dedos dessa bela mão havia um anel de brilhantes.
— Oh! que homem admirável; até nisso reparou! como pôde ver esse anel?
— Brilhou, como só brilha uma pedra de alto preço.
— Está bom... deixemos o anel.
— Ao contrário: o anel é uma circunstância muito importante. Ele só, vale uma prova no libelo acusatório.
— Por quê?
— Porque a viuvinha recebeu há três dias da mão de seu noivo um anel de brilhantes, e não o tirou mais do dedo.
— Como soube disso?
— Uma escrava da viuvinha o contou lá à senhora.
— Por conseqüência?
— Por conseqüência recaem todas as suspeitas sobre a viúva.
— E que mais?
— A mulher de mantilha bateu à porta do "Purgatório-trigueiro", abriram-lha, ela entrou, e esteve lá mais de uma hora.
— E depois?
— Voltou para o "Céu cor-de-rosa".
— Não sabe mais nada?
— Sei que a tal senhora tirou a mantilha dentro do "Purgatório-trigueiro".
— Isso importa pouco; mas como o soube?...
— Porque, quando ela foi para lá, a mantilha arrastava pelo lado esquerdo, e quando voltou, estava muito mais curta desse lado, e ia varrendo a rua pelo outro.
— Sabe só isso?
— Não: sei ainda mais alguma coisa.
— Vá dizendo.
— O velho coruja vai todos os dias conversar com a velha bruxa.
— Ontem?
— Esteve lá ao anoitecer.
— Hoje?
— Para lá foi ao romper do dia.
— De que tratou?
— Sempre do amor do enjeitado e da órfã.
— De que trataram hoje? o que disseram?
— Não pude saber: o diabo da velha, quando o coruja entrou, mandou a negra fazer as compras para o almoço.
— Tem ainda alguma coisa a esse respeito para dizer?
— Por hoje mais nada.
— Então pode voltar depois de amanhã às mesmas horas.
— Serei pronto. Nunca me esqueço o quanto convém ter em lembrança os dias de aparecer nos casos de apelação.
— Estamos justos.
As últimas palavras de Salustiano significavam uma despedida; mas Jacó ficou firme em sua cadeira com o semblante prazenteiro, e os olhinhos vivos como sempre.
Salustiano pareceu incomodar-se com a demora de Jacó, e disse:
— Quer mais alguma coisa?
— É provável.
— Diga.
— Quero que me dê cem mil-réis.
— Oh! há três dias que lhe dei igual quantia.
— Sim, respondeu o ex-escrivão soltando uma risada; mas V. Sa. esquece-se de que agora temos dois negócios.
— Dois? como é isso?
— Pois então?... agora tem V. Sa. de pagar-me o trabalho de ser o espião de polícia e dos seus amores.
— Convenho.
— E depois... aqueles papéis...
— Oh! o senhor é exigente demais! por aqueles papéis, disse Salustiano empalidecendo, deu-lhe meu defunto pai por uma só vez quatro contos de réis.
— Sim... sim... mas por causa daqueles papéis estive na cadeia oito meses e perdi o meu querido ofício.
— E faltou à sua palavra!
— Como é isso?...
— O senhor havia recebido quatro contos de réis para queimar o processo.
— Assim era eu tolo! aqueles papéis são verdadeiras letras de dinheiro, que eu tenho a juros.
— E nem ao menos se lembra de que já não poucas vezes o tenho liberalmente socorrido?
— Sim; mas V. Sa. tem obrigação restrita de pagar-me perdas e danos.
— Em uma palavra e para acabar de todo com estas questões, o senhor quanto quer receber de uma vez por esse processo?...
— Cedendo-lhe todo o direito que tenho a ele?
— Por certo.
— Chama-se a isso queimar a minha fortuna, disse sossegadamente o ex-escrivão.
— Enfim...
— Enfim... dar-lhe-ei esses papéis com a mão direita, exatamente no momento em que V. Sa. me depositar na esquerda uma quantia igual à que me deu o senhor seu pai.
— Quatro contos de réis! é muito!
— Então não temos nada feito. Conservarei o processo.
— Oh! mas é preciso acabar com isto; quando volta o senhor aqui?
— Já disse que dou grande importância aos dias de aparecer: depois de amanhã virei receber as suas ordens.
— Traga-me o processo.
— Dar-me-á os quatro contos? Sim.
— Palavra de honra?
— Sim.
— Bem. Às ordens de V. Sa.
— Até depois de amanhã.
— Mas ah! disse Jacó suspendendo-se, pois que já ia saindo, falta ainda alguma coisa.
— O quê? perguntou Salustiano.
— Os cem mil-réis.
— Ainda!
— São juros vencidos; a satisfação do principal é conta à parte.
— Depois de amanhã...
— Perdoe-me V. Sa., mas eu preciso hoje dessa quantia.
Salustiano arremessou-se para dentro do seu quarto; Jacó estendeu o pescoço, e viu o mancebo abrir uma carteira de jacarandá já meio usada, e tirar dela alguns bilhetes.
Salustiano, na agitação em que estava, deixou a chave na carteira, e voltou ao gabinete com o dinheiro.
— Eis aqui os cem mil-réis, disse ele entregando os bilhetes a Jacó.
O ex-escrivão, apenas recebeu o dinheiro, tomou o chapéu, fez uma profunda cortesia ao moço, e foi saindo.
Salustiano o seguiu de perto, e desceu com ele as escadas.
Pouco depois de haverem os dois deixado o gabinete, entrou João.
O velho ia sentar-se na cadeira que pouco antes havia ocupado, quando notou que a porta do quarto de Salustiano estava aberta.
Dirigiu-se imediatamente para o quarto, e apenas chegou ao limiar da porta, soltou uma exclamação:
— Enfim!
E lançou-se para a carteira. Abriu-a, apertou com o dedo polegar uma mola que havia do lado esquerdo, e no fundo da gaveta desse lado abriu-se um escaninho.
Com prontidão e destreza tirou o velho alguns papéis, que aí se achavam. Eram pela maior parte cartas.
João as foi examinando, e passando por elas sem abrir, até que parou em uma que não tinha sobrescrito.
— 12ª! exclamou o velho; enfim!
Abriu a carta e leu:
"Senhor, maldita seja a hora em que nos vimos. Esse amor fatal com que eu vos amava, e que fingistes votar-me para que eu me perdesse, se já desapareceu para nós, a nós deve ter deixado o tormento dos remorsos. Vós me fizestes a mais desgraçada, e eu me fiz a mais criminosa das mulheres. Vós me perdestes, e eu ia ser mãe, e não quisestes ser diante dos homens o pai de vosso filho. Pois bem, sabeis o que eu fiz? tremei... horrorizai-vos: eu matei meu filho; dentro de meu ventre cavei-lhe a sepultura. Agora... preparemo-nos. Teremos de dar contas a Deus, vós da honra, da inocência de uma mulher, e eu da vida de um inocente. Senhor... somos dignos um do outro; nasceram para se encontrar no mundo vós e
Mariana."
— Enfim, repetiu o velho guardando a carta no bolso.
— Enfim!... bradou Salustiano lançando-se sobre João.
O velho recuou dois passos.
— Que veio fazer aqui? perguntou o moço.
— Vim realizar o que desde muito premeditava, respondeu friamente o velho.
— Que tirou daquela carteira?
— O que não lhe pertencia.
— Uma carta!
— Sim.
— Restitua-ma.
— Não.
— Oh! Sr. João!...
— Não, já disse.
— É porque não sabe que essa carta é tudo para mim.
— É por essa mesma razão.
— Por bem ou por mal, senhor, eu hei de reconquistar essa carta.
— Veremos.
— O senhor abusa do respeito que sempre lhe consagrei.
— E o senhor desonra o nome de seu pai.
— A carta!
— Nunca.
Salustiano atirou-se sobre o velho; os braços de ambos se entrelaçaram; e lutaram.
Longa foi a luta, e por fim triunfou o mancebo.
Com um joelho sobre o peito de João, Salustiano bradou-lhe:
— A carta!
— Nunca! respondeu o velho com voz sufocada.
O moço, apesar de todos os esforços de João, lançou a mão no bolso deste, e apoderou-se da carta.
Deixou então livre o seu adversário, e erguendo-se estendeu o braço, e mostrou-lhe com o dedo trêmulo a porta:
— Para sempre fora de minha casa! disse em desordem, e a raiva no coração. O velho respondeu:
— Sim; mas não para sempre; porque hei de voltar para vingar-me.
E saiu.
Rodrigues estava no seu posto, no alpendre.
Achava-se sentado e meditando em um canto dele.
A sua mão esquerda via-se meio cerrada a porta de seu quarto.
De repente entrou no alpendre, apressado e arquejando de fadiga, um homem que trazia as vestes em desordem, e pintada no semblante a mais viva agitação.
O velho Rodrigues ergueu-se surpreendido, e dando dois passos para o recém-chegado, exclamou:
— João!
A personagem que acabava de entrar atirou o chapéu a um canto, e sentou-se na cadeira, da qual se tinha levantado Rodrigues.
Esses dois homens eram os mesmos que em certa noite Jacó vira sentados e conversando à portaria do convento da Ajuda.
Vistos agora à luz do dia e ao pé um do outro, admiraria a semelhança de seus semblantes. A única diferença que se podia notar, era ser João muito mais sangüíneo.
João e Rodrigues eram irmãos gêmeos.
— João! exclamou de novo o velho guarda-portão; que é isso?... o que tens?...
— O que tenho?... respondeu o antigo agente da casa de Salustiano; tu me perguntas o que tenho? é a raiva dentro do coração; é a vingança inspirando projetos infernais.
— Mas como?... fala!...
— Disse tudo.
— Porém vingança contra quem?
— Contra o falsário... o ladrão! murmurou surdamente João.
— Oh!...
— Sim... contra ele.
— É filho dele! disse com voz repreendedora Rodrigues.
— E também filho dela!... acrescentou lugubremente João.
— Embora! tornou o primeiro: juramos protegê-lo, lembra-te.
— Sim... sim... disse o outro com terrível acento: protegê-lo... amá-lo... ainda que ele te pise com suas botas, e te cuspa no rosto! não?!
— Como é isso?
— É assim mesmo.
— Pois ele ousou...
— Tudo, respondeu João com voz surda.
— E tu?
— Tenho sessenta anos... já não sou o mesmo; antigamente atacava cara a cara, e vencedor ou vencido, tudo estava acabado, acabada a luta. Hoje não: estou velho... minhas juntas se acham enferrujadas... lutei com um mancebo, e ele ganhou a partida; mas agora também o caso é outro... não esqueço como dantes. O forte pode bater-se braço a braço; o fraco espera atrás de uma esquina!
— João!
O irmão de Rodrigues soltou uma gargalhada nervosa e horrível; uma dessas gargalhadas filhas do furor e do desespero.
— João! queres ser um vil assassino no fim de teus dias?
— Não! bradou o outro, não!... pois é só atrás das esquinas e com a faca, com a arma da traição que se vingam os fracos?... outra vez não! eu quero estar livre... quero passear à minha vontade pelas ruas!... oh! quem sabe se eu não terei de cumprimentar um galé? ...
— João!...
— Sim; já o disse: vê-lo-ei com prazer arrastando as cadeias dos criminosos públicos!... não pertence ele de direito ao seu número?... sim; pertence... cometeu um crime vergonhoso.
— Graças a Deus, João, o fogo consumiu as provas dessa loucura.
— Graças a Deus, Rodrigues, as provas existem ainda, e eu hei de apoderar-me delas.
— Que estás dizendo?... é verdade o que acabas de dizer?.
— Sem dúvida.
— Como chegaste a saber disso?... como hás de conseguir.
— É o segredo da minha vingança.
— Nada de vingança, irmão.
— Fui ofendido demais.
— Conta-me o que houve, eu te escuto.
— Para quê?...
— Quero aconselhar-te, João.
— Eu não vim pedir-te conselhos.
O velho Rodrigues deixou cair a cabeça tristemente, refletiu alguns instantes, e depois perguntou:
— Com que fim pois vieste ver-me?
— Tenho que dizer-te.
— Fala.
— Meu irmão, até hoje de manhã um só pensamento nos ocupava. Doravante nossos desígnios são distintos. Até hoje pensávamos somente em fazer bem. Tu continuas sempre com a mesma idéia, eu porém estou determinado agora a fazer mal.
— Adiante, disse Rodrigues.
— Vim pois dizer-te o que descobri, o que sei, o que pretendi, e não pude fazer, para que tu fiques trabalhando para completar a obra que começamos juntos, e que pela minha parte não posso levar ao cabo.
— Então o que há?
— Salustiano está com efeito de posse da décima segunda carta.
— Decerto?
— Eu a vi.
— Tu?...
— Eu a li... tive-a em minhas mãos!
— Oh!...
— Trabalhávamos eu e ele em seu gabinete particular. Anunciou-se um homem que tu conheces bem, e ele quis ficar a sós com esse homem. Desci. Meia hora depois os dois desceram por sua vez, e eu subi de novo... a porta do quarto de Salustiano estava aberta, entrei... a carteira velha tinha a chave na fechadura, abri-a... toquei no segredo da primeira gaveta do lado esquerdo, e a décima segunda estava lá!...
— Bravo! bravo!... exclamou o velho Rodrigues, sem lembrar-se do que antecedentemente lhe dissera seu irmão.
— Enfim!... exclamei eu, continuava João; e abrindo essa carta fatal, li-a de novo; mas quando já guardava-a no bolso... uma voz terrível soou a meus ouvidos, e um braço forte veio deter meus passos.
— Ah!...
— Era ele, Rodrigues; e durante algum tempo lutamos ambos desabridamente... enfim a mocidade venceu...
— A carta?
— Ficou outra vez em suas mãos!
— Oh!...
— Os pés do mancebo pisaram o rosto do velho!...
— E a carta?... a carta?... exclamou Rodrigues.
— Está lá.
— Insolente moço!... e ele não tremeu?
— Tem ouro.
— Oh! desgraçado!...
— Sim... desgraçado... imprudente!... ele há de tremer, porque eu me hei de vingar.
O velho Rodrigues deixou cair de novo a cabeça, e pareceu abismado em profundas reflexões.
João ficou olhando para ele e refletindo também.
Ambos aqueles velhos meditavam; o primeiro pensava nos meios de chegar a uma completa harmonia; o segundo sonhava com a vingança.
Levantaram a cabeça ao mesmo tempo. Rodrigues exalando um longo suspiro. João desprendendo um surdo gemido.
Era o acordar da paz e da guerra.
— João, disse Rodrigues, sabes de quem me estava lembrando?
— Não; de quem?
— Dele.
— Do insolente?
— De seu pai, João.
— E eu de sua mãe, Rodrigues.
— João, perdoemos aqueles que estão na eternidade.
— Sim, mas castiguemos os maus que pesam neste mundo.
O velho Rodrigues sacudiu a cabeça, suspirou de novo, e depois cruzando as mãos sobre o peito, disse com voz terna e comovida:
— João, pela memória do nosso bom amigo perdoa a injúria que recebeste de seu filho.
João conservou-se muito tempo em silêncio olhando para seu irmão, que, melancólico e piedoso, tinha ainda as mãos cruzadas sobre o peito, como se estivesse orando.
— Rodrigues, murmurou enfim o velho, esse atrevido mancebo calcou o pé sobre o meu ventre!
Por única resposta duas grossas lágrimas correram pelas faces enrugadas do velho guarda-portão.
— Que é isso, homem?... perguntou João.
— Não é nada, respondeu Rodrigues; isto não é nada... choro... há bem tempo que não o faço.
E depois balbuciou dolorosamente:
— Pobre amigo!... está morto!... não pode valer a seu filho...
E as lágrimas começaram a cair-lhe de quatro em quatro.
Alguns momentos depois os dois velhos choravam juntos e abraçados um com o outro.
— Perdoas-lhe, João? perguntou finalmente Rodrigues.
— E esse pobre Cândido, irmão?!
— Devemos fazê-lo feliz, é verdade.
— Mas aquela carta...
— Podíamos prescindir dela; porém nesse caso teríamos uma mulher desgraçada... e criminosa.
— Que nos importa... é um castigo.
— Não, de modo nenhum, João; eu espero ainda tudo da Providência.
— Bem, crês então que devemos cruzar os braços?
— Também não; escuta: eu vou falar a esse presumido moço que te insultou.
— E para que fim?... que lhe irás dizer?
— Contar-lhe-ei ainda uma vez a nossa história.
— Rir-se-á dela.
— Lembrar-lhe-ei o crime que cometeu...
— Zombará de ti, Rodrigues.
— Hei de assustá-lo com teus projetos de vingança.
— Rir-se-á de novo.
— Exigirei por preço de nosso silêncio e como condição para vencer o teu ressentimento, a entrega da carta fatal.
— Mandar-te-á lançar na rua pelos seus escravos.
— Não, João; ele há de entregar-me a carta.
— Nada conseguirás.
— Nesse caso justiça será feita.
— Bem.
— Adeus, João; dentro de duas horas estarei de volta.
— Eu te espero, respondeu João.
O velho Rodrigues tomou o chapéu e dirigiu-se à casa de Salustiano.
Pouco mais ou menos à mesma hora em que o velho Rodrigues se dirigia à casa de Salustiano, uma escrava desceu do segundo andar do "Céu cor-de-rosa", e entrando na sala do primeiro, onde se achava Celina, disse-lhe que sua tia pedia-lhe se podia subir ao seu quarto para dar-lhe umas palavras.
— Diga-lhe que já vou, respondeu a "Bela Órfã".
E, pouco depois, subiu a escada vagarosamente, e pensando no que poderia ter dado motivo para tal conferência.
Celina não podia aborrecer a ninguém; mas, desde que soubera da cena, que no jardim tivera lugar entre Mariana e Cândido, começara também a desconfiar muito de sua tia.
Mariana estava em seu quarto, pálida, abatida e pensava, sentada em uma cadeira de braços. O franzimento de sua fronte, seus olhares às vezes amortecidos, às vezes pasmos, e sempre cravados no chão, e finalmente um não sei quê descuido em seu penteado e em seus vestidos pareciam revelar que uma dor profunda e transidora a atormentava.
Também as ricas e grandes senhoras padecem no fundo da alma! por detrás desses brilhantes adereços e custosas jóias, que lhes ornam e cobrem o colo, está às vezes aberta uma ferida que lhes vai até o âmago do coração; e esses lábios que sorriem tão graciosos, estão mil vezes a ponto de ser desmentidos pelo pranto dos olhos; e essas palavras de prazer e felicidade, que se dizem nas assembléias, fazem às pobres míseras que as pronunciam uma acerba e terrível ironia! elas rindo-se tanto e tão à força, e sendo tão desgraçadas na alma! Dourado vaso, que encheram de fel, cofre aprimorado, que esconde perigoso arcano... aí tendes a imagem de todas essas que são como Mariana.
Escravas sempre da vaidade, as mulheres acham sempre na vaidade os seus tormentos e o seu castigo. Lutam anos inteiros umas com as outras, e têm por armas os vestidos e as jóias, os sorrisos e os olhos. E uma se dói, recebe um golpe cruel somente porque o vestido da outra é mais belo; e não dorme uma noite inteira porque apareceram uns olhos pretos que valem o dobro dos seus!... mas isto é nada; o que é tudo é a vaidade dos sentimentos, que obriga a rir com o céu nos lábios tendo o inferno dentro do coração; que obriga a fingir-se venturosa quando se é desgraçada!... Estar em torturas, e dizer — sou feliz! — enganar o mundo por causa do mundo, e para ser invejada e não parecer vencida, nem mesmo nos mimos da fortuna!... tanta riqueza vestindo tão grande miséria!...
Deve ser bem amargosa vida!...
Porém Mariana sentiu que subiam a escada e conheceu as pisadas de sua sobrinha. Imediatamente uma revolução completa se operou nela; sua fronte desenrugou-se, seus olhos ergueram-se e brilharam. Em um momento, e com toda essa habilidade que caracteriza as senhoras, fez desaparecer todos os descuidos de seu toilette, e enfeitou os lábios com um sorriso angélico. Era, embora sua sobrinha, uma moça bela, e portanto uma rival que chegava. A mulher infeliz e abatida cedeu o lugar à senhora das festas e dos prazeres; a verdade foi abafada; a mentira ergueu-se.
Celina entrou, Mariana mostrou-lhe com o dedo, e com graça indizível, uma cadeira defronte dela; e, vendo-a assentada, esteve por alguns momentos contemplando-a com expressão de enlevamento e prazer, até que a "Bela Órfã", como para escapar àquele olhar, perguntou:
— Por que me está olhando assim, minha tia?...
— Oh! porque tu és a minha vaidade, Celina! Olha, quando te contemplo... lembro-me do que fui... parece-me que ainda estou nos dezesseis anos defronte do meu toucador, rindo-me vaidosa e louquinha, contente de mim mesma mãe e namorada de meus próprios encantos.
— Senhora...
— Não é verdade que dizem por aí que eu fui bem formosa?
— Dizem que minha tia ainda o é.
— Lisonjeira!... oh! mas enfim, eu conheço que não devo assustar a ninguém.
— Então...
— Todavia os dezesseis anos! os dezesseis anos! nesse tempo se está na flor da vida e no viço das graças! ninguém é feio aos dezesseis anos!
Depois de alguns instantes de silêncio a viúva prosseguiu dizendo:
— Para mim a vida de prazer e de encantos está em vésperas de acabar; para ti é agora que começa. A primavera da idade com esse rosto tão belo, com esse olhar tão puro, Celina, faz sempre as delícias da mulher. Ainda não sentiste que para ti são guardadas todas as atenções?... ainda não notaste como te olham ardentes, como te falam tremendo, como te escutam em êxtase? Celina, aí está a prova solene de tua formosura. A moça bela é o delírio do mundo. Ah! que se aos dezesseis anos tivesse a mulher a experiência dos trinta, então com a beleza conseguiria tudo... honra... fortuna... posição... tudo!...
— Ainda bem, minha tia, que as moças não são ambiciosas.
— Não, não o são. O amor as ocupa demais para que elas o fossem. Embriagadas com os deleitosos perfumes que vêm arder a seus pés; cheios os ouvidos de verdades e de lisonjas; a cada passo que dão ouvindo uma exclamação de agradável surpresa; no teatro sentindo cem óculos lançados sobre seus rostos; em toda parte vendo adoradores escravos; e em breve tendo mesmo já no coração uma simpatia que vai crescendo e acaba por amor; elas não têm, elas não podem ter outra idéia que não seja a de ser belas, outro desejo que não seja o de ser amadas, e outro futuro que não seja tudo esperado de um amor com que elas sonham de dia e de noite, e que, desgraçadamente, não se realiza nunca.
— Nunca?...
— Nunca, Celina.
A "Bela Órfã", suspirou involuntariamente.
— Já suspiras, Celina?... quem sabe se eu não estive fazendo o teu retrato?... pois bem; sou tua tia... quase tua tutora, e portanto devo aconselhar-te; mas para bem fazê-lo preciso é antes ganhar uma confiança de que ainda não me julgaste merecedora, entrar no teu coração, ver o que nele se passa, para depois dizer o que convém.
Mariana, fingindo ignorar o segredo de amor de sua sobrinha, queria levá-la pouco a pouco a um fim que tinha no pensamento, e pelo qual promovera aquela conferência.
Porém Celina desconfiava de sua tia; guardou mais que nunca o seu segredo, e nada respondeu.
— Então ficas muda?... perguntou a viúva. Será possível que penses em fazer-me crer que ainda não sonhas belos sonhos de amor, tendo já dezesseis anos de idade?...
— Muito moça ainda, não é assim?
— Por certo que não és nenhuma velha; e contudo estás em idade de casar.
— Tão cedo?...
— Não no nosso país, Celina, onde tudo é rápido e precoce. Enfim, eu sou tua tia, meu pai é teu tutor, e por dever santo e respeitável devo procurar para ti um estado... uma posição.
— Obrigada, minha tia.
— Temos entendido que é tempo de te casar, não só para fazer a tua ventura, como para completar a nossa missão e conseguir o nosso sossego.
— Para o vosso sossego... eu creio, mas para minha ventura!...
— Para tua ventura também, sim; e graças a Deus, meu pai e eu não somos duas crianças como tu és, Celina.
— Por que, minha tia?
— Porque, na questão da escolha de um marido, tu cortarias todas as dificuldades com o coração, e nós decidiremos tudo com o juízo.
— Ah! sim!...
— Um marido é o homem que deve acompanhar-nos toda a vida...
— Provavelmente, minha tia.
— O homem de quem tomamos o nome, a posição e as amizades.
— Eu o pensava já.
— E portanto, quando se trata de uma escolha dessa natureza, toda a prudência se faz necessária.
— Sem dúvida.
— Nós queríamos para teu marido um moço bonito, de boas qualidades, de bom nome e de boa fortuna.
— Às vezes é difícil achar-se tanta coisa junta.
— Tivemos a felicidade de encontrar um que preenche nossos desejos...
— Ah! então já, minha tia?... sem que eu ao menos o suspeitasse?
— É verdade; um interessante mancebo veio pedir-nos a tua mão.
— Realmente foi um pouco apressado... nem ao menos procurou conhecer a minha opinião.
— Já sabes quem é?...
— Não, senhora.
— Vê se adivinhas.
— Não pretendo incomodar-me com isso.
— Por quê?... perguntou Mariana, que se ia impacienetando um pouco.
— Por nada, minha tia, respondeu secamente a "Bela Órfã".
— Estás zombando comigo, Celina?...
— Não, minha tia.
— Queres que te diga o nome desse moço?...
— Se lhe parecer conveniente.
— É o sr. Salustiano.
— Ah!
— Tens que dizer alguma coisa?
— Nada... eu, nada. Minha tia é que um dia me disse que aborrecia o sr. Salustiano como se aborrece um malvado.
Escapou aos olhos de Celina um movimento rápido de Mariana.
— Eu estava em erro, disse esta sem hesitar.
— Apesar disso, minha tia, e apesar de todas as grandes e nobres qualidades que ornam esse mancebo, sou obrigada a declarar, desde já, que não serei sua mulher
— Por quê?... perguntou a viúva.
— Porque amo a outro, respondeu sem hesitação nem temor a "Bela Órfã".
Mariana ficou por alguns momentos olhando para aquela fraca e modesta menina, que pela primeira vez a surpreendia com um sinal de caráter decidido e forte.
— Amas, já?... perguntou enfim a viúva.
— Já o declarei, senhora.
— E a quem amas, minha pobre Celina?
— Ao sr. Cândido.
— E ele?...
— Ama-me também.
— Infeliz!... tu foste enganada!...
Celina não demonstrou nem surpresa, nem receio, nem desgosto. Desconfiava de tudo quanto lhe dizia Mariana; deixou-se ficar em silêncio, olhando e sorrindo para sua tia.
— Duvidas do que eu digo?...
— Muito, senhora.
— E se eu te der uma prova?...
Celina continuou a sorrir meigamente. Mariana lançou a mão ao bolso de seu vestido, tirou dele uma pequena carta, e entregou-a à "Bela Órfã".
Celina abriu a carta e leu-a. Seu rosto cobriu-se de mortal palidez. Era a carta que a mulher de mantilha havia conseguido de Cândido.
— E agora?... perguntou cruelmente Mariana.
— Agora?... não sei... duvido ainda, respondeu a custo, e erguendo-se a "Bela Órfã".
— Onde vai, Celina?
— Preciso recolher-me e ficar só, senhora.
Celina já estava na porta.
— E o sr. Salustiano?
A moça voltou-se e respondeu quase com altivez:
— Ainda quando isto não seja efeito de uma nova calúnia, senhora, eu nunca serei esposa desse homem por quem se mostra interessada.
— E saiu.
Por sua vez Mariana empalideceu e ficou de novo muda, pensativa e abatida.
No mesmo gabinete em que, poucas horas antes, escreviam João e Salustiano, foi que Rodrigues achou este último ainda agitado pela cena que tivera lugar.
O velho entrou com ar solene e grave, e cumprimentou o mancebo com um simples movimento de cabeça.
— Pode sentar-se, disse secamente Salustiano.
— Obrigado, disse Rodrigues, estou bem de pé.
— Como lhe parecer. Dirá então o motivo que me deu a honra de sua visita?
— A visita de um pobre velho não honra... incomoda.
— Deixemo-nos disso, disse o moço, tenho que fazer; diga o que quer.
O velho guarda-portão sorriu amargamente daquele modo incrível, e daquele árduo desprezo com que era tratado por Salustiano.
— Então?! tornou este.
— Venho contar-te uma história, mancebo.
— Crê o senhor que tenho tempo de sobra para gastar ouvindo suas histórias?...
— Oh! que sim! rico senhor! baixando à sepultura, teu pai te repetiu com voz já sumida as mesmas palavras, que mil vezes te havia dito nos tempos da vida: — ouve, meu filho, ouve e obedece a João e a Rodrigues, como se fosse a mim que obedecesses.
— E a que vem isso?
— É preciso portanto que ouças a história desses dois velhos, e a de teu pai também; porque enfim... o moço vai de novo indo no mau caminho!
— Senhor!
— Mancebo! escuta: não é por mim, é por ti que eu aqui venho. O raio está levantado sobre tua cabeça e prestes a desfechar-se... eu quero mostrar-te o meio de vencer a tempestade: escuta.
A voz do velho tinha um não sei quê de lúgubre e terrível, que causou impressão profunda em Salustiano, o qual, como para esconder a comoção que ela acabava de produzir em seu ânimo, sorriu à força, e disse:
— Portanto, escutemos o profeta.
Rodrigues fingiu não ter ouvido a zombaria do moço, e, cruzando os braços sobre o peito, em pé, defronte de Salustiano, começou a história assim:
— Noutro tempo, mancebo (bastantes anos já são passados), haviam nesta mesma província do Rio de Janeiro, e em um dos seus municípios de serra acima, dois jovens belos, ardentes, e generosos. Tinham ambos a mesma idade, vinte e cinco anos; seus pais haviam morrido e lhes deixado ricas heranças. Pedro e Paulo se chamavam eles. Não eram parentes; achavam-se no mundo sós e com um destino em tudo semelhante. Paulo tinha apenas um tio que dele não gostava; Pedro não conhecia parente algum. Esses dois moços encontraram-se pois no mundo tão iguais, tão semelhantes, que se abraçaram um com o outro, juraram amizade eterna, amaram-se como irmãos gêmeos, misturaram seus prazeres e seus pesares; de modo que aquele que ofendesse Paulo teria ofendido Pedro, e o que fosse amigo deste seria por força também amigo daquele.
— Até aí nada de novo, meu caro, disse Salustiano, e, para poupar-lhe palavras, declaro que já sei que esse Paulo era meu bisavô, e esse Pedro o respeitável avô do sr. Rodrigues.
Sem dar atenção ao que acabava de dizer Salustiano, o velho continuou:
— Esses dois amigos amaram ao mesmo tempo duas interessantes jovens; casaram-se no mesmo dia, e cedendo ao ardor da idade, e às instigações de falsos amigos, votaram-se ambos a uma vida de prazeres e de loucuras, que eles não pensavam de acabar um dia. Os banquetes eram sucedidos por outros banquetes, e somente interrompidos pelas caçadas, pelas pescarias, e por mil outros prazeres. Levaram muito tempo assim, até que chegou um dia em que Pedro foi ter com o seu amigo, e disse-lhe:
"— Paulo, temos andado mal; os meus bens chegam apenas para os meus credores."
"— Pedro, disse o outro, acordamos tarde; eu devo também tudo quanto possuo."
"— Que faremos agora?"
"— Primeiro que tudo pagar a quem devemos."
— Os dois amigos chamaram os seus credores, satisfizeram suas obrigações como homens honrados que eram, e acharam-se com uma simples e pobre casinha para ambos, com uma mulher e um filho cada um deles, com duas espingardas, dois cães de caça, uma canoa, uma rede e mais nada.
Sorriram ambos, olhando um para o outro, quando inventariaram os restos de sua antiga riqueza.
Os antigos companheiros de festas e de seus prazeres desprezaram os dois amigos; eles riam-se ainda.
Eram dois homens de grande coração, de muito orgulho, e de imenso valor.
Pedro nada tinha que esperar; Paulo nunca se lembrou que lhe restava um tio.
Unidos sempre, esses homens embarcavam-se na leve canoa, e os férteis rios do Brasil lhes davam peixe para suas mulheres e seus filhos.
Outras vezes, seguidos dos dois únicos amigos que tinham ficado sempre fiéis, de seus dois cães, Pedro e Paulo embrenhavam-se nessas matas verde-negras, que cobrem numerosas lagoas sem interrupção; aí, ao lado um do outro, com seus cães ao pé e suas espingardas no ombro, impávidos e frios, eles esperavam a hora em que começariam a combater com o tigre e o javali.
Cem vezes Pedro salvou a vida de Paulo; cem vezes Paulo livrou da morte a Pedro; e depois, rotos, feridos, cobertos de manchas de sangue, eles voltavam à sua pobre casinha curvados sob o peso das vítimas de seu valor e de sua destreza.
Mas um dia, no meio dessa vida de trabalhos e de perigos, chega a notícia da morte do tio de Paulo, e outra vez a riqueza para este.
Paulo era o herdeiro de seu tio.
"— Somos ricos outra vez, disse este ao seu amigo; vamos para nossa casa. E agora saberemos ajuntar para nossos filhos."
"— Vamos, respondeu Pedro sem vexame."
Começaram de novo os dois amigos a gozar vida de abundância e de sossego; porém nada mais de banquetes, nem de festas.
E quando eles morreram deixaram seus dois filhos unidos como se fossem dois irmãos gêmeos.
O filho de Paulo tinha ficado rico, e o seu amigo era apenas senhor de medíocres teres; mas essa diferença da fortuna não mudou nada a amizade que os ligava.
Amaram-se constantemente como seus pais; como seus pais casaram-se no mesmo dia. Um deles teve um fruto de seu himeneu; foi um belo menino que se chamou Leandro! foi o filho do rico.
— Meu pai, murmurou Salustiano.
— O outro teve dois filhos gêmeos e uma filha, que se chamavam João, Rodrigues e Emília. Fomos nós, sr. Salustiano.
— Eu o sei.
— Quando nossos pais morreram, bem cedo!... ficamos no mundo, herdeiros dessa amizade pura e sagrada, que era a honra de nossas famílias e que fazia admiração das outras.
Salustiano não disse nada.
— Com orgulho, com a consciência cheia de prazer, de verdade, e de sossego, nós dizíamos: — seremos como nossos pais! — oh! não desmentimos nunca!... fomos os derradeiros, é certo... porque minha irmã morreu e meu irmão e eu não temos filhos; e porque o sr. Leandro teve um filho que se não parece com seus antepassados.
— Senhor!
— Silêncio, mancebo!... eu tenho o direito de te repreender! fui o irmão da alma de teu pai... sou um dos últimos herdeiros da amizade de cem anos!... Abaixa os olhos diante de mim, porque tu não serás nunca como foram os teus e os meus, e como somos ainda, meu irmão e eu. Silêncio, mancebo; quem fala aqui não é o pobre velho Rodrigues, é a voz da amizade de cem anos.
O moço, a pesar seu, abaixou a cabeça.
O velho prosseguiu:
— Sim... honra a nós; nós fomos como os nossos: Leandro, João e Rodrigues eram um só homem, e Emília, dez anos mais moça do que nós e seis do que Leandro, era a menina dos olhos de todos três, era o brilhante que se preparava para a coroa de alguém que fosse digno de ajuntar-se conosco. Emília era bela, pura, ingênua como um anjo, com seus olhos pretos, suas faces pálidas, e seu corpinho débil... pobre Emília!...
O velho enxugou com a face dorsal da mão direita duas grossas lágrimas que estavam pendendo de suas pálpebras. Depois continuou:
— Leandro apaixonou-se de uma jovem senhora, tão linda como vaidosa, tão rica como pouco nobre. Tarde conhecemos esses defeitos; aliás, o nosso amigo não teria sido esposo de Matilde.
— Fala de minha mãe, senhor? disse Salustiano erguendo a cabeça.
— Bem o sei, tornou o velho prosseguindo. Depois de casar-se, Leandro pediu-nos que consentíssemos que Emília fosse morar com sua mulher; nossa irmã tinha então dezesseis anos. Consentimos. Passaram os primeiros meses sem que suspeitássemos, sem que coisa alguma pudéssemos recear. Cedo, porém, começou Leandro a experimentar os excessos e efeitos de vaidade de sua mulher. Sua casa se tornou em um inferno; sua vida foi um martírio constante. O único lenitivo que achava para minorar seus sofrimentos o nosso pobre amigo, era vir depositar suas mágoas em nossos corações, e ir chorá-las ao pé de minha irmã.
O velho respirou, e depois disse ainda:
— Tua mãe, mancebo, aborreceu os amigos de teu pai: ciumenta e louca, viu uma rival em minha irmã, e inspirada pelo demônio, esquecida de tudo quanto é nobre e generoso, concebeu um pensamento infame!...
— Senhor!
— Na manhã de um domingo, depois do sacrifício da missa, que se celebrava na capela da fazenda de Leandro, estando a casa cheia, diante de meu irmão e de mim, mesmo à vista de seu marido, ela enxotou de sua casa a minha irmã, cobrindo-a de impropérios e de maldições, dizendo contra ela calúnias que a nodoavam! Oh! sim, mancebo, a língua de tua mãe desonrou a minha irmã! Disse que uma virgem era uma mulher impura!... Disse que seu marido a desprezava por minha irmã... Disse tudo... tudo... disse tanto, que Emília caiu desmaiada nos meus braços.
Salustiano não pronunciou uma só palavra em defesa de sua mãe. O velho continuou:
— Levamos a pobre moça desmaiada como estava para nossa casa. Mancebo, quando minha irmã tornou a si, estava doida! Infeliz! Vagava horas inteiras e sem cessar, interrompendo-se apenas para levantar a voz bradando — é falso!... — e vagava de novo, corria ajoelhando-se, erguia as mãos ao céu, e bradava — é falso! — lançava-se em nossos braços, chorava, soluçava, e por entre seus soluços deixava escapar o seu grito de inocência — é falso. — Ah! mancebo! mancebo!... um mês inteiro se passou desse modo, e no fim desse mês ela expirou em nossos braços murmurando ainda a triste frase — é falso! — Mancebo! mancebo! quem fez enlouquecer, quem fez morrer nossa irmã?...
Salustiano não respondeu nada.
— Foi tua mãe. Pois bem: a Providência tomou o cuidado de vingar-nos; Matilde não gozou o doce prazer de beijar seu filho. Mancebo, tu custaste a vida de tua mãe; ela morreu alguns momentos depois de te haver dado à luz.
— Infeliz! balbuciou Salustiano.
— E em nossos corações, prosseguiu o velho, a santa e imaculada amizade de cem anos teve força bastante para fazer com que João e Rodrigues carregassem ao colo o filho da assassina de Emília. Sim! porque o filho de Matilde era também de Leandro. Mas o nosso amigo tinha recebido terríveis golpes; a lembrança de Emília o atormentava; a morte de sua mulher, que apesar de tudo ele amara extremosamente, veio aumentar seus pesares; lembrou-se da corte, sempre cheia de ruído, de festas e de prazeres, e enfim, resolveu-se a deixar a vida do campo. Vendemos quanto possuíamos, e viemos estabelecer-nos aqui. Mancebo, o resto de nossa vida tu sabes... é uma história de vinte e cinco anos de cuidados gastos contigo, pois que tinhas apenas um ano quando deixaste os campos onde nasceste. Dize pois, não te lembras nunca do amor com que te tratavam os dois amigos de teu pai?...
— Senhor...
— Eras um menino indócil... passaste a ser um moço extravagante e altivo. Dize pois, mancebo, já te esqueceste de que uma nódoa... a desonra te ia manchar, e de que fomos nós os que te arrancamos, te salvamos da infâmia?
— Basta! exclamou Salustiano corando.
— Ninguém nos ouve aqui, tornou o velho; podemos falar sem receio. Para alimentar teus vícios ousaste furtar uma firma... teu nome foi escrito no rol dos criminosos... e quem te valeu então?... quem comprou um escrivão sem honra, que se prestou a queimar o processo?... quem pagou ao homem cuja firma tinhas imitado?... lembra-te, mancebo, que fomos nós, João e Rodrigues; porque teu pai queria que o filho indigno sofresse a pena merecida... lembra-te que fomos nós que suspendemos a maldição que dos lábios de um pai austero ia cair sobre o filho pervertido.
— Senhor! senhor!...
— Sim... conseguimos o teu perdão; e quando a morte veio arrebatar-nos o nosso amigo, as últimas palavras que te dirigiu, foram essas, que já mas ouviste hoje: "ouve, meu filho, ouve e obedece a João e Rodrigues, como se fosse a mim que obedecesses".
— É preciso concluir, senhor!
— Morto teu pai, uma nobre missão chamou-me longe desta casa. Meu irmão porém ficou velando por ti. Mancebo, como pagaste ao amigo de teu pai os extremos que gastou contigo?...
— Respeitei-o, disse Salustiano, respeitei-o até ontem.
— E hoje?
— Hoje o ofendido fui eu.
— E qual a ofensa?... pretender meu irmão arrancar de teu poder um papel que te não pertence?... que direito tens sobre aquela carta?... que uso queres fazer dela?... ah! mancebo, o amigo de teu pai vem dizer-te que isso que tens no pensamento, e que cuidas realizar, mercê dessa carta, é uma infâmia.
— Senhor!
— Mas ainda é tempo de voltar atrás; os olhos da amizade dos cem anos ainda te olham com piedade. Em nome de teu pai João te perdoa; em nome de teu pai eu te venho chamar para o caminho da honra. Mancebo, dá-me a carta da filha de Anacleto.
— Oh!... eu tinha adivinhado o motivo da sua visita, sr. Rodrigues.
— E então?
— É impossível conseguir de mim o que pretende. Reconheço os serviços que lhe devo, respeito os velhos amigos de meu pai, mas não posso abandonar assim a única esperança...
— A esperança de quê?
— De alcançar a posse da mulher que adoro.
— Não a alcançarás nunca.
— E essa carta, senhor?!
— Essa carta fará a desgraça de uma mulher, e mais nada.
— Mas essa mulher terá meios de fazer-me esposo de Celina.
— Não, não; porque haverá quem se levante entre a virgem pura e nobre, e o mancebo pervertido...
— E quem ousará?...
— Eu.
— Bem, sr. Rodrigues, veremos.
— E a carta, infeliz moço?...
— Nunca!
— Mas quando a vingança do ofendido vier cair sobre tua cabeça?...
— Nada receio.
— Pensa bem, mancebo: daqui a uma hora nada poderá salvar-te... pensa...
— Estou decidido, senhor.
— Então toda a esperança de conciliação está perdida?
— Toda.
— E as conseqüências?...
— Embora.
— Fiz quanto pude, disse o velho com voz lúgubre; agora nada mais há que esperar.
Salustiano sorriu.
Rodrigues ergueu o braço direito como apontando para o céu, e saiu dizendo:
— Justiça será feita.