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Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

Capítulo XXXIX
No alpendre

Logo que Rodrigues saiu, João entrou para o quarto deste, cerrou a porta e esperou a volta de seu irmão, meditando sobre os meios de realizar um projeto que desde muitos dias, e então mais que nunca, o ocupava.

Chegou Rodrigues, e adivinhando onde se recolhera o irmão, abriu a porta e entrou.

O velho guarda-portão estava triste e abatido.

— Então?... perguntou João.

— Nada.

— Não te havia eu prevenido de que serão inúteis todos os teus esforços?

— Paciência, mas fiz o que devia.

— E agora ainda quererás suspender-me?

— Não; convém que aquele moço seja abatido.

— Bem: tomo isso à minha conta.

Ficaram os dois velhos pensando durante algum tempo, e depois João perguntou:

— E a respeito do outro, que novidades há?

— Ontem à noite fez ele vinte e um anos.

— Eu o sei.

— À meia-noite bateu à porta do "Purgatório-trigueiro" uma mulher de mantilha, que o foi procurar.

— E essa mulher...

— Era Mariana.

— O que queria dele?

— Não sei bem, mas parece que conseguiu muito, porque ao romper do dia de hoje cheguei ao "Purgatório-trigueiro" muito a tempo...

— A tempo de quê?

— De desmanchar um projeto de viagem a mais extravagante do mundo. Cândido ia partir.

— Para onde?

— Ele mesmo não sabia dizer.

— Rodrigues, aquela mulher é o diabo em pessoa.

— É muito desgraçada, João.

— Por culpa dela: tu foste sempre mais piedoso do que eu.

— Não, tu és que te finges mau.

— Está bem; e então não conseguiste saber o motivo dessa viagem?

— O nosso pequeno teimou em ocultá-lo.

— Mas por fim, cedeu e ficou.

— Sim; porém custou-me muito. Foi-me preciso tocar-lhe na corda mais sonora de seu coração.

— Ah! já sei, falaste-lhe em sua mãe.

— É verdade.

— Pobre rapaz!... e como vai ele de amores?

— Olha, João, eu não o entendo. Até ontem à meia-noite era todo ardor, paixão e esperança.

— E hoje?

— Não quer ouvir o nome da "Bela Órfã".

— E esta!...

— A mulher da mantilha dobrou muito à sua vontade aquele coração.

— Quando eu digo que ela é o diabo!

— Infeliz! treme diante do mundo. Salustiano é um espectro que a assombra; obedece-lhe como a um senhor.

— Cedo eu a livrarei desse fantasma.

— Como?

João ficou olhando por algum tempo para Rodrigues, e depois disse:

— Está bem... era um segredo que eu queria guardar para mim só, mas vou dizer-to.

Rodrigues escutou curioso.

— Tens um belo vizinho ali defronte, disse João.

— Sim, é o celebre Jacó... aquele nosso escrivão do processo.

— Pois sabe que é muito meu amigo.

— Teu amigo?... e tu apertas a mão de semelhante ho­mem?

— Aperto.

— João!

— Nada de repreensões. Escuta: observei que o tal Jacó ia de vez em quando ter com Salustiano; ficavam a sós por algum tempo, e depois o escrivão retirava-se muito alegrezinho, e o outro ficava por algumas horas de mau humor.

— E a razão?

— Um dia consegui ficar em posição de ouvi-los, e apanhei-lhes o segredo. O escrivão é duas vezes infame.

— Como?... explica-te.

— Infame, porque recebeu dinheiro para queimar um processo, e por isso perdeu o ofício, e infame outra vez, porque o processo não está queimado.

— E então?...

— Ele o guarda.

— Oh! mas isso é o diabo.

— Pelo contrário, eu julgo que é excelente. Já te disse que tenho estreita amizade com Jacó.

— E que pretendes fazer?

— Ir morar com ele.

— E esperas conseguir isso?

— Com dinheiro tudo se consegue daquele homem. Vou alugar-lhe um quarto em sua própria casa.

— E depois?

— Depois os papéis estão lá, e hão de ser meus, custe o que custar.

— Falar-lhe-ás nisso?

— Deus me defenda. Salustiano deve tê-los pago bem, para que ele mos quisesse ceder!

— Olha, João, se te vás meter nalguma...

— Deixa o caso por minha conta; mas que é isto?...

Ouviu-se uma voz terna e melancólica, que começava a cantar o romance do "Sonho da Virgem".

"Era um dia um mancebo, que ardente,

"Pobre vida esquecido vivia;

"E uma virgem...

O velho Rodrigues sorriu.

— De que te ris?... perguntou João.

— É que este canto me está chamando. A "Bela Órfã" tem que me confiar.

— Pois vai, adeus!

— Não, espera; pode ser que convenha que saibas o que ela tem para me dizer.

João ficou outra vez só no quarto de Rodrigues.

Uma hora depois voltou o velho guarda-portão.

— Que novidades há? perguntou João.

— O caso vai-se complicando.

— Então, que temos?

— A tal mulherzinha de mantilha obteve do nosso pequeno uma carta para Celina.

— Bravo! provavelmente o rapaz desmanchou-se todo em juramentos de amor.

— Ao contrário, declara a nossa "Bela Órfã" que a não ama, e que não quer iludi-la por mais tempo.

— E esta!... que dizes a isto?

— Fiquei com a cara à banda, João!

— Que disseste à pobre menina?

— Que desconfiasse e que esperasse.

— Realmente foi boa resposta.

— Agora vamos sair, João.

— Para onde?

?Tu para casa de Jacó, e eu para o "Purgatório-trigueiro".

— Vamos.

Os dois velhos separaram-se à porta do alpendre. João entrou na casa de Jacó, e Rodrigues foi conversar com a velha Irias.

Capítulo XL
O "coração" de Jacó

Estava correndo a segunda noite depois daquele dia em que João tinha sido lançado fora da casa de Salustiano.

Eram cerca de dez horas.

Na acanhada saleta de jantar da casinha que ficava fronteira ao "Céu cor-de-rosa", estavam três personagens ceando alegremente, sentadas ao redor de uma pequena mesa: eram Jacó, Helena e João.

O antigo agente da casa de Salustiano tinha calculado bem com o gênio interesseiro do ex-escrivão; logo que se separou de Rodrigues apresentou-se na casa de Jacó com a bolsa na mão e foi imediatamente recebido e instalado no melhor quarto da casa.

Logo na primeira noite, João ofereceu a seus hóspedes uma excelente ceia. Jacó era amigo de bom vinho, e Helena, ou por condescendência, ou por que quer que fosse, gostava de tudo de que seu marido gostava. Portanto comeu-se e bebeu-se até alta noite.

Na que se estava seguindo, repetiu-se a mesma cena.

No entretanto conversavam.

— Mas, como ia fazendo notar, disse João, parece que o destino foi quem decidiu que nos ajuntássemos; eu fui um dos que cooperaram para sua desgraça, e portanto era justo que viesse ajudá-lo a sofrê-la.

— Não nos lembremos disso, disse Helena.

— Sim, afoguemos os pesares com vinho.

— Vá feito! exclamou Jacó; à saúde da boa amizade.

E apenas esvaziados os copos, João os encheu de novo, porém com vinho diferente.

— Esta mistura de vinhos é que ontem me fez mal, obser­vou Helena.

— Ora, saúde... um dia não é todos os dias...

— Apoiado! bradou Jacó.

— Comamos um pouco deste bolo inglês para fazer lastro.

— Vamos a ele, que está excelente!

— Eu já pedi a uma comadre minha a receita dos bolos ingleses; mas a maldita egoísta deu-me uma como a cara dela.

— Perdemos uma dúzia de ovos, meu caro João.

— Deixe estar, sra. Helena, que eu lhe hei de trazer a verdadeira receita dos bolos ingleses.

— Oh! Sr. João, não faz idéia do gosto que me dará.

— Sr. Jacó, lá vai a saúde da sua boa senhora!...

— À razão da mesma!

Jacó e Helena, pouco habituados a beber vinhos de diversas qualidades, começavam a demonstrar uma alegria e vivacidade muito significativa.

— Que vinho delicioso! disse o escrivão.

— Tem vinte e cinco anos de sepultado.

— Ah!... eu logo vi...

— Mais um copo.

Os dois não se fizeram rogar.

— A propósito, disse João, ontem o sr. Jacó começou a contar-me uma história que infelizmente não pôde concluir.

— Qual?

— A história de uma grande trovoada doméstica. Uma briga entre marido e mulher, a conseqüente separação dos sujeitinhos, e depois a sua recente conciliação... que diabo! eu fiquei espantado de o ouvir contar as coisas como se as tivesse testemunhado, e ainda mais me espantei quando disse que tinha documentos disso no "coração".

— Quando?... ah!...

Helena soltou também a sua risada.

— Ele não entende o que é o meu "coração"!...

— É verdade... confesso que não posso adivinhar semelhante charada.

— É segredo de família, e portanto...

— Basta... já não quero saber. Vá um copo de vinho aos segredos de família.

— Vá!

João, que desde a noite anterior concebia as melhores esperanças de realizar o plano que trouxera em mente quando viera morar em casa de Jacó, deixou passar cerca de um quarto de hora, durante o qual fez com que o ex-escrivão e sua mulher esvaziassem ainda mais dois cálices de vinho, e depois disse:

— Mas, tornando, como lá se diz, à vaca fria, devo notar que não são muito concordes em um ponto da tal história.

— Em qual?

— O sr. Jacó diz que o casal brigado e separado reconciliou-se em conseqüência de uma carta muito cheia de lamúrias e de tolices, escrita por um deles.

— É certo!

— Foi tal qual.

— Sim; mas ontem o sr. Jacó sustentou que a carta estava assinada pela mulher, e a sra. d. Helena jurou que era do próprio punho do marido.

— É da mulher.

— É do marido.

— Então em que ficamos?

— Não faltava mais nada?... uma mulher abaixar a cabeça a um homem!...

— Pois digo-lhe eu que a carta é da mulher! exclamou Jacó, dando na mesa um forte murro.

— É mentira, sr. João!

O velho soltou uma gargalhada estrepitosa.

Jacó e Helena, extremamente espiritualizados, teimavam um com o outro com desespero e furor. João, em vez de apaziguá-los, os desafiava cada vez mais com suas gargalhadas.

— Ferve-me o sangue quando esta mulher do diabo teima comigo!

— Este homem, sr. João, não abre a boca que não minta! é um inimigo das mulheres...

— Pois se a carta é da mulher!...

— É do marido!

— Oh! senhora... não teime...

— Tenho dito; é do marido.

— A senhora não sabe que eu tenho a carta no meu "coração"?..

João fez um movimento.

— Pois, se lhe parece... eu não tenho medo...

Jacó olhou para João com ar ainda meio temeroso.

— Deixemo-nos disto, disse este; acabemos com esta contenda; vá à saúde dos bons esposos!

Os copos esvaziaram-se de novo; daí a algum tempo João tornou:

— Mas vamos: a carta era da mulher ou do marido?

A embriaguez de Jacó e Helena já então era completa; gaguejavam ambos, falando ao mesmo tempo.

— É da mu... lher...

— É do ma...ri...do...

— Quem fala verdade? decidamos.

— Eu...

— Eu...

Os dois disputantes ficaram desesperados outra vez.

— Eu vou... bus... car... o "co... ra... ção"!... exclamou Jacó.

Helena respondeu-lhe com um insulto, e o escrivão, cambaleando e segurando-se pelas paredes, dirigiu-se ao seu quarto.

No entretanto, e para que Jacó não se deixasse ficar no quarto, pois que tudo se podia esperar do estado de embriaguez em que se achava, João, instigando Helena, fazia com que a mulher injuriasse em alta voz a seu marido.

Jacó apareceu de novo à porta da pequena saleta.

João lançou um olhar cheio de curiosidade, de dúvida e de esperança sobre aquele homem.

O ex-escrivão vinha abraçado com uma caixa de jacarandá, que se mostrava sob a forma de um coração.

Era de fato aquilo que ardentemente desejava ver o antigo agente de Salustiano: era o "coração" de Jacó.

— Até que enfim! murmurou João por entre os dentes.

E ergueu-se para ir ajudar a Jacó, que vinha cambaleando.

O ex-escrivão chegou finalmente à mesa, e indo depositar aí a caixa que trazia, debruçou-se sobre ela olhando meio risonho, e ainda meio desconfiado para João.

— Vamos decidir a questão, disse este.

— É do ma.... ri... do, balbuciou Helena.

Com um movimento de desespero o ex-escrivão desabotoou o seu infalível fraque roxo, abriu a camisa, e deixando ver um peito vermelho e cabeludo, foi com a mão mal segura tirar um cordão preto, a que estava presa uma pequena chave.

— Vejamos... vejamos... disse João todo desejos e es­peranças.

Jacó trabalhou por muito tempo para introduzir a chavinha na fechadura; porém, conhecendo que o não podia fazer, sentou-se de novo risonho, e disse gaguejando:

— Que... di... a... bo....não pos... so... pa... re... ce... me que... es.. .tou bê...ba...do

— Dê-me a chave, que eu abro...

O ex-escrivão soltou uma gargalhada, sacudiu a cabeça e tornou a enfiar o cordão no pescoço.

Também não vale a pena perder tanto tempo por isso, tornou João; acabemos o prazer desta noite com um último copo de vinho.

E encheu os copos. Jacó bebeu metade e entornou sobre a mesa e sobre si mesmo a outra metade.

Helena não bebeu, porque já dormia a sono solto.

O antigo agente de Salustiano deixou cair a cabeça, e pareceu adormecido.

Daí a pouco Jacó roncava como um endemoninhado.

No fim de um quarto de hora João ergueu-se, observou cuidadoso os dois esposos; abriu a camisa do ex-escrivão, tirou-lhe o cordão do pescoço, e introduzindo a chavinha na fechadura da misteriosa caixa, deu uma volta, e o "coração" de Jacó ficou por dentro patente a seus olhos.

A caixa estava cheia de papéis de todos os tamanhos e de toda natureza.

Cartas de família, escritos de amor, originais de antigos impressos, tiras de papel com algumas linhas escritas, mas cujo sentido era quase impossível decifrar, antigos processos... papéis judiciais... e uma multidão imensa de outros objetos enchiam o "coração" de Jacó.

O ex-escrivão tinha realmente dado um nome muito significativo àquela caixa: era o seu "coração".

Era o coração do homem mau, intrigante, maledicente. Dentro dele estavam os materiais com que ele podia acender a guerra entre famílias.

Jacó era um malvado, ou para melhor dizer, um mise­rável malvado.

João não se demorou em fazer observações sobre o que tinha diante dos olhos; foi passando um por um todos aqueles papéis, até que chegou a um processo.

— Ah! ei-lo aqui!... ei-lo aqui!... exclamou sem poder suster-se.

E folheando o processo chegou a um lugar em que havia um documento:

— A letra falsa!... disse.

E como se mais nada lhe importasse do resto; como se houvera completado a sua missão naquela casa, guardou o processo no largo bolso de sua sobrecasaca, fechou o "co­ração" do mau, pôs de novo o cordão no pescoço de Jacó, e indo ao corredor da casa despertou a escrava, mandou que lhe abrisse a porta da rua e tomando o chapéu, saiu.

Era mais de meia-noite.

Capítulo XLI
Mariana

Uma verdadeira guerra de emboscadas era a que estava declarada. Cada um dos combatentes tinha seu segredo, e por ele velava; alguns tinham dois segredos também: um que fazia alentar, e outro que fazia corar. Outros viviam suspensos e temerosos, vítimas e inocentes da intriga que fumegava.

João e Rodrigues, senhores das pontas daquela meada embaraçada, velavam, tendo os olhos fitos em Salustiano e Mariana; mas pareciam guardar ainda para si o — seu segredo querido, — que era talvez a história de Cândido.

Salustiano e Mariana esperavam e tremiam. Tinham que esperar. Ambos porém tinham ao mesmo tempo de corar.

A velha Irias ignorava porventura tudo? parece ao menos que sim.

Anacleto, Cândido e Celina eram aqueles que viviam suspensos e temerosos; eram eles as vítimas inocentes que se preparavam, porque o primeiro deveria chorar por sua filha, e os dois últimos por seu amor.

Henrique nada temia e tudo esperava. Estava quase a brilhar o dia de seu casamento.

Os acontecimentos se iam precipitando, e deixavam adivinhar que o drama corria para um próximo desfecho. O dia que sucedeu à noite de embriaguez de Jacó e de Helena, embriaguez que havia deixado cair o "coração" do ex-escrivão nas mãos do antigo agente da casa de Salustiano, foi de terríveis surpresas para o primeiro e para Mariana.

Salustiano soube na manhã desse dia que um documento importante, que o tornava criminoso público, havia caído nas mãos do homem que dois dias antes se declarara seu inimigo.

Concebe-se qual deveria ser o efeito dessa horrível notícia: era um raio que acabava de levantar-se sobre a cabeça do mísero mancebo.

A Providência castiga o crime por todas as maneiras: castiga-o mil vezes por seus descuidos e imprevidências. Aqueles que tinham comprado Jacó, poderiam e deveriam tê-lo visto queimar o processo e a letra falsa. A falta desse cuidado era agora um castigo que vinha sobre o crime que não deveria ficar impune.

Salustiano mandou deitar fora de sua casa o ex-escrivão, que acabava de lhe trazer a fatal nova, e ficou só... perdido em um mar de reflexões torturadoras... aterrado e furioso.

Depois lançou-se sobre sua secretária, e escreveu uma carta com rapidez e desesperação.


Por sua parte Mariana tinha aparecido naquele dia mais abatida que de ordinário. Um sonho terrível a atormen­tara toda a noite; acordara três vezes aos gritos de uma crian­cinha recém-nascida que lhe bradava: — minha mãe!

Depois do almoço retirou-se para o seu quarto, e ficou dolorosamente pensando... no futuro que a esperava.

Era um futuro bem duvidoso!... de um lado estava Celina, que não daria nunca sua mão a Salustiano; do outro lado esse mancebo abominável pronto para falar, e com uma folha de papel na mão. E sua primeira palavra era a desonra e esse papel era o corpo de delito da desgraçada viúva!... e para completar o quadro, via-se no fundo um mísero velho curvado pelos anos e pelos pesares, chorando com os olhos em sua filha, e descendo para dentro de uma cova funda como um abismo!

E depois de tudo isso a imagem de um mancebo pálido e melancólico... a imagem de Henrique tão belo, tão cheio do mais puro amor, tão capaz de fazer a ventura de Ma­riana!...

Pensava nisso, via tudo isso a infeliz mulher, continuava sempre a pensar e a ver, até que às onze horas da manhã uma escrava entrou em seu quarto e entregou-lhe uma carta que acabava de chegar.

Mariana abriu a carta e estremeceu ao ler a assinatura.

Era a carta de Salustiano.

Retirou-se a escrava a um aceno da viúva, que, apenas se achou só, leu a carta:

"Senhora, um acontecimento que pouco lhe importará saber qual seja, porque somente a mim diz respeito, acaba de obrigar-me a modificar minhas disposições. A escritura de meu casamento com a senhora sua sobrinha deverá impreterivelmente ser hoje assinada Às cinco horas da tarde terei o prazer de ir ao "Céu cor-de-rosa", levando comigo a escritura de que falo, e a carta, que com toda probabilidade espero deixar hoje em suas mãos. Tenho a honra de assinar-me, etc. — Salustiano".

Mariana ao princípio ficou petrificada, pálida e imóvel como um cadáver; depois com o rosto contraído, os olhos espantados e o corpo convulso, causaria piedade ao coração mais duro.

Era a sentença final que a mísera acabava de ler... O que lhe restava?... O que lhe cumpria fazer?...

Mas passada uma hora, a graciosa cabeça daquela encantadora mulher ergueu-se bela e orgulhosa; brilharam seus olhos com ardor imenso, suas faces se animaram com o rubor da vida, e um sorriso que se não podia bem traduzir, que tinha alguma coisa do rir terrível do desespero e do rir sossegado de um mártir cristão, raiou em seus lábios grossos e voluptuosos, deixando alvejar seus lindíssimos dentes.

Animava-a a idéia um novo crime: ela se exaltava com um pensamento sinistro.

— Vencerei... a meu modo!... murmurou ela.

E depois, por entre uma risada nervosa, e como filha da loucura, acrescentou:

— É um tigre!... é um tigre que pretende devorar-me!... livrarei minha alma de suas garras.. . deixar-lhe-ei o meu corpo... ah! sim!... o tigre que se farte no meu cadáver!...

A infanticida meditava no suicídio!...

Porém ela sentiu rumor. Ouviu os passos compassados de alguém que vinha subindo a escada: eram os passos de um velho.

Mariana correu a receber seu pai.

— Meu pai!... exclamou.

O velho recuou dois passos, como sobressaltado, depois cruzou as mãos e disse:

— Graças a Deus!

— Por que, senhor?...

— Porque enfim te vejo alegre, Mariana.

Foi com tão viva expressão de prazer que aquele bom velho agradeceu ao céu a alegria que estava brilhando no rosto de sua filha, que ela mesma não pôde resistir à dor que lhe causava a mentira que iludia seu pai.

Os olhos de Mariana arrasaram-se de água: a mísera começou a soluçar desabridamente, de joelhos, abraçada com as pernas do sensível velho.

— Minha filha! minha querida filha!... que é isto?... bradou então ele; por acaso enganei-me eu?... és sempre incompreensivelmente desgraçada?...

Mariana chorava ainda mais.

— Filha da minha alma, continuou Anacleto chorando também, fala! Derrama no meu coração os teus pesares... fala, pelo amor de Deus! Se tens um segredo, onde acharás para esse arcano mais bem cerrado túmulo do que o coração de teu pai?... Oh! fala!... A alma de um pai se abre piedosa às penas que te dilaceram, fala! se um tal silêncio continua, e continuam essas lágrimas e esse constante sofrer, cuja causa me escondes, eu não posso resistir mais... eu morro, decerto!

— Senhor... balbuciou a mísera.

— Ah! é porque tu não sabes o que é ser pai, Mariana; é porque ignoras que não há punhal que rasgue mais dolorosamente as entranhas de um pai do que as lágrimas de uma querida filha!... Fala, meu anjo, fala, meu amor, fala, minha filha!... Por que choras?... Tens porventura cometido uma falta?... A alma de teu pai é grande para te perdoar!... Ofenderam-te?... Fala, e meu trêmulo braço readquirirá as perdidas forças para vingar-te... O que tens? Vê que o teu silêncio faz mal a ti mesma... Lembra-te que esse mistério em que envolves a tua dor pode dar lugar a que alguém suspeite...

Com a rapidez do relâmpago desapareceram todos os sinais de dor ou de enternecimento, que em Mariana acabavam de mostrar-se. Tinha despertado a vaidade... a mentira.

A viúva ergueu-se.

— Então, minha filha?

— Nada sofro, meu pai.

— Mas que contradição é essa?... Chego e acho-te risonha; dou graças a Deus pelo teu contentamento, e cais a meus pés desfazendo-te em pranto; chorando também por minha vez, peço-te que fales; e tu te ergues altiva, com os olhos enxutos, e me dizes que nada sofres?! Como explicas isto?

A viúva pensou um momento, e depois respondeu tão sossegadamente como se fora a própria verdade que nos seus lábios falasse:

— Meu pai, disse ela, tenho-lhe causado imensos pesares...

— Não nos lembremos das dores passadas. O que eu quero saber é simples: o que te atormenta hoje?

— Remorsos.

— Remorsos?! exclamou Anacleto.

— Sim, meu pai; remorsos dos desgostos que lhe tenho causado.

O velho fitou por alguns instantes os olhos no rosto de sua filha; depois, sacudindo tristemente a cabeça, disse:

— Não é isso.

— Oh! é isso, meu pai, é isso mesmo. Fui desde criança uma louca, cheia de presunção e vaidade, a mais pequena contrariedade ofendia meu orgulho; um homem que deixasse de queimar incenso a meus pés me levava ao desespero; e depois, envergonhada de meus sentimentos, de minhas puerilidades, eu escondia a causa de minhas penas a meu pai, que chorava julgando-me desgraçada, quando eu era somente uma pobre louca.

— E mais nada? perguntou Anacleto.

— Muito mais, meu pai, muito mais; porém tudo se reduz pouco mais ou menos a isso.

— E ultimamente?

— Ultimamente eu era, eu sou louca como dantes; eu sou criança ainda hoje, meu pai.

E com um sorrir gracioso Mariana continuou:

— Devo confessá-lo?... pois bem: eu sou ciumenta, meu pai, perdidamente ciumenta. Estou para casar-me, e se Henrique olha duas vezes para uma senhora, faz-me estar triste um dia inteiro; se conversa com prazer com outra, sou capaz de chorar duas horas. Eu não disse já que era louca?

— E mais nada? perguntou Anacleto de novo.

— Pois o que mais, meu pai?

— Minha filha, tu não queres ainda confiar-me os teus pesares; não tens piedade deste pobre velho, que tanto te ama!... paciência!

Outra vez se encheram de lágrimas os olhos de Mariana.

— Choras ainda?... eis aí...

— Meu pai! eu lhe tenho feito sofrer muito; ainda hoje, ainda agora acaba de chorar por minha causa. Pois bem; eu lhe prometo que amanhã, que nunca mais me há de ver pesarosa.

Anacleto estremeceu todo e disse:

— Mariana!...

— O que tem, meu pai?

— O que acabas de dizer pode-se entender de dois modos: é um pensamento que pertence tanto à vida como à morte, e talvez que ainda mais a esta última.

— Morte!... disse a viúva rindo-se; pensar em morte uma moça que está em vésperas de casar-se?

— Ah! Mariana, quem te poderá compreender suficiente­mente?!

A viúva apertou a mão de seu pai entre as suas e per­guntou:

— Meu pai, encomendou as flores?

— Encomendei, respondeu o velho suspirando.

— Eu quero que o meu vestido de casamento esteja pronto amanhã.

— Está bem.

— Meu adereço de brilhantes?

— Também amanhã o terás.

— Como meu pai me ama! exclamou Mariana abraçando o velho.

Anacleto apertou sua filha contra o coração sem dizer palavra.

O velho sofria muito; apesar de todos os esforços que fazia a viúva, o olhar penetrante de seu pai lia-lhe a men­tira no rosto.

Ah!... se ele pudesse ler também o pensamento sinistro e infernal que pairava no ânimo de Mariana; se ele adivinhasse que debaixo daquele rosto tão belo e tão risonho, daqueles olhos tão ardentes e dentro daquela cabeça tão graciosa estava a idéia da morte... o suicídio!...

— Mas, disse Mariana, agora é que eu reparo... meu pai está vestido para sair.

— Sim; lembrei-me, apenas há uma hora, que faz hoje anos um de meus velhos amigos, e vou jantar com ele; vinha por isso dizer-te adeus.

— Não pretende voltar cedo?

— De ordinário a gente se demora mais nestes dias...

— Então a que horas?

— Às dez da noite, pouco mais ou menos.

Apesar seu, Mariana sentiu que lhe iam faltar as forças... tornou-se pálida e segurou-se a uma cadeira.

Infelizmente escapou isso aos olhos de Anacleto, que se dispunha já a sair.

— Meu pai, disse a viúva com voz muito comovida e suspendendo o velho, que já se achava na porta: meu pai, pro­meti-lhe que nunca mais me havia de ver pesarosa... pois bem; abençoe de coração a sua filha.

Anacleto voltou-se com os olhos úmidos, e abençoou Mariana. Depois saiu.

— Abençoou-me pela última vez! murmurou surdamente a viúva.

E ficou estática... pasma... aterrada. Tinha a morte na alma.

Capítulo XLII
Os remorsos

O crime mesmo, quando parece triunfar ou poder fugir ao castigo dos homens, envolto nas sombras dos mistérios, é ainda assim mil vezes mais desgraçado do que a inocência, que sucumbe.

A inocência é sempre bela, sempre pura, sempre anjo aos olhos de Deus, que vê tudo, que vê o bem e o mal. A inocência espezinhada pelos homens, ou com nobreza os despreza, ou chora doída de suas injustiças; mas seu coração se volta para o céu, e suas esperanças voam para a eternidade. Lá em cima o juízo dos homens é nada.

A inocência é a virgem encantadora amada por Deus. Ele lhe paga cada lágrima com um triunfo. A glória que a es­pera é tanto mais subida quanto mais doloroso foi o seu martírio cá embaixo.

E o crime?...

O crime é sempre duas vezes formidavelmente castigado, sem contar com as penas e tormentos a que o podem con­denar os homens.

É castigado uma vez cá em baixo, e outras lá em cima. A sentença não tem apelação, nem na terra nem na eternidade; porque quem sentencia é o juízo seguro, justo e se­vero de Deus.

Os castigos inventados pelos homens são nada. A que se reduzem esses castigos?... aos tormentos físicos, à dor. Tornam-se ineficazes, ou por momentâneos, ou porque o hábito de os sofrer os nulifica.

O que é a forca ou a guilhotina?... Uma hora de terror, e um momento de dor. O que e a prisão com trabalhos?... Perguntai aos galés se no fim de um ano lhes pesam os ferros como no primeiro dia; se no fim de dez anos os seus sofrimentos são os do primeiro ano?...

E depois, contra a polícia e vigilância dos homens tem o crime os ermos e as noites; e tem mil vezes, para vergonha da humanidade, uma proteção escandalosa, que o torna im­pune, embora em casos tais essa proteção deva ser conside­rada um outro crime... igual talvez ao primeiro.

Mas, graças a Deus, aí está sobre os homens, vigilante sempre, o olhar luminoso da Providência.

Não há ermos para esse olhar; os bosques sombrios, as cavernas, as altas penedias aparecem diante dele lisos todos como a superfície de um quieto lago.

Não há noite, não há trevas, não há mistério: esse olhar é o sol

Não há proteção possível; perante o alto juízo, quem protege um delinqüente é o delinqüente mesmo com o arrependimento sincero e profundo; com a prática de nobres e puras ações.

E esse juiz severo e justo castiga duas vezes. Cá... e lá. E os tormentos não são destinados ao corpo. O pó fica desprezado, quem sofre é a alma.

O juiz severo, justo e onipotente castiga lá... Em sua infinita sabedoria — ele sabe como. — Nós, míseros insetos diante dele, não podemos compreender esse castigar da oni­potência.

E cá, ele criou na alma do homem a consciência. A consciência é terrível!... a sabedoria de Deus fez cada homem juiz de si mesmo, e cada criminoso algoz de si próprio.

A consciência castiga com os remorsos. O corpo continua sempre desprezado. Os tormentos são ainda e sempre votados ao princípio que peca.

O ladrão não dorme o sono que regenera as forças; dorme um sono que fatiga; porque ele desperta cem vezes ouvindo o tinir do ouro que roubou, e outras tantas vezes vendo diante de si a imagem do carrasco.

O assassino ainda mais. Esse homem que, mercê da noite e da solidão, matou impunemente o seu semelhante, que enterrou seu cadáver às escondidas no deserto, e que vos parece viver sossegado e impune porque a justiça humana ignora o seu crime; esse homem... sofre mais do que sofreu sua vítima no momento terrível, em que viu erguido sobre o seu peito o punhal mortífico. Esse homem vela sempre... de dia e de noite um fantasma o persegue e maldiz; sua som­bra tornou-se um espectro. Ele vê a cada passo a sepultura que abriu; vê o cadáver que enterrou; escuta o som do soquete com que calcou a terra... E vê erguendo-se da cova vingativo e formidável o esqueleto do morto.

Sabes quem é o pintor que prepara esse quadro formidável?... É a imaginação escravizada pelos remorsos. Os remorsos não são outra coisa mais do que o castigo que Deus impõe ao crime aqui na terra.

A infinita sabedoria de Deus quis que o homem se punisse a si mesmo; e o homem, com efeito, a si próprio se atormenta com esse aparelho de horríveis torturas, a que se dá o nome de remorsos.

A desgraçada filha de Anacleto estava sendo a prova viva desta verdade eterna.

Mariana era uma mulher enormemente criminosa. Não tinha ainda comparecido como ré diante de nenhum tribu­nal da terra; mas o castigo de Deus torturava a mísera.

Tinha remorsos.

Como havia essa mulher sido levada à perpetração de um crime horroroso? Ela, filha de um homem bom, irmã de um homem virtuoso, tendo diante dos olhos constantes exem­plos de piedade e religião?... Como?... Ah! não pre­cisais ir pedir uma resposta ao péssimo da natureza humana, com que erradamente pretendeis explicar os efeitos das paixões que não foram combatidos desde o berço.

Quereis saber por que Mariana ousou tanto?... Per­guntai à vaidade.

A filha de Anacleto, lindo anjinho na infância, encantadora moça depois, bela senhora ainda então, cheia de graças e de espírito, havia sido criada sempre no meio de uma atmosfera de fatais lisonjas. Respirou um ar de mentiras desde o princípio. Com esse ar habituaram-se os seus pulmões; a verdade que fosse um pouco menos lisonjeira seria capaz de sufocá-la. Objeto de um amor extremoso e cego da parte de seus parentes; objeto de culto e de adoração dos estranhos, Mariana julgou-se a princesa da formosura, empunhou orgulhosa o cetro da beleza; ergueu a cabeça acima de todas as suas contemporâneas, e, cheia de vaidade, queria fitos em si todos os olhos, absortos diante dela todos os homens, e curvos a seus pés todos os amores.

Perder essa posição seria morrer.

Mas ela amou. Amou, e foi fraca. Amou, e um dia viu que o seu trono ia ser despedaçado; que o cetro ia escapar de suas mãos; que os cultos e as adorações tinham de desa­parecer para ela; que ao muito ela seria daí por diante objeto de comiseração e piedade; porque enfim, ela tinha amado e sido fraca; tinha murchado em seu rosto a mais bela das flores, a flor da inocência, e a natureza falava em voz alta dentro de seu seio...

A mísera lembrou-se então desse mundo encantador que a adorava como rainha, e que bem depressa se ergueria rebelado e furioso para arrancar-lhe o cetro de rosas...

Que partido havia a tomar?

Um meio lhe sugeria o espírito; um meio que a livrava das humilhações. Era um meio extremo... e desesperado; era o suicídio. Mas o mundo se mostrava a seus olhos tão belo... tão feiticeiro!... e ela tinha apenas quinze anos de idade!... qual é a moça de quinze anos que não ama loucamente um mundo que sorri de joelhos a seus pés? morrer, não. Aos quinze anos Mariana não se achou com bastante força para matar-se.

Que outro partido restava?... A resignação.

Ainda há pouco, tinha falado o amor do mundo para repelir a idéia da morte. Agora, contra a idéia da resignação, ergueu-se o amor de si mesma levado a excesso; ergueu-se a vaidade. Resignar-se a quê?... a passar de rainha a vassala?... não ganhar nunca mais um só desses olhares ardentes e puros que corações anelantes dardejam sobre o rosto da inocência?... resignar-se-ia, quando passasse pálida e dolorosa, ouvir dizer — coitada! — quando ela estava acos­tumada a escutar — formosa!... oh! era muito para Mariana. A mulher vaidosa escolheria antes a morte que a resignação.

E com efeito, a filha de Anacleto não se quis resignar ao triste papel que lhe marcavam as conseqüências do seu erro. Primeiro esperou que o homem que a iludira a salvasse; quando não pôde mais esperar nada desse homem, esperou do tempo... ela mesma não sabia o quê; mas esperava sempre.

Quando porém o tempo correu tanto que tinha já corrido bastante... Mariana despertou assombrada ante o espectro sinistro de uma desgraça iminente.

Falou outra vez a morte... falou outra vez a vaidade... a resignação ficou sempre vencida. As paixões triunfaram sempre.

A mísera teve um dia de desespero, de febre... um dos mais fatais demônios que tentam perder o coração humano, a vaidade, soprou um pensamento horroroso... abominável na alma da desgraçada mulher; esse pensamento era uma infâmia... era um crime... mas realizou-se.

Foi um infanticídio.


Mariana era sempre rainha.

O segredo de sua honra tinha escapado aos olhos do mundo. Os homens não podiam julgá-la criminosa...

Mas o olhar de Deus estava sobre ela terrível e severo.

Mas a lei eterna da Onipotência se estava cumprindo à risca. A delinqüente se punia a si mesma; a mãe desnaturada era o algoz de si própria.

Mariana tinha remorsos.

No movimento belo, encantado, estrepitoso de um baile, quando tudo era prazer, perfumes e flores; ao som dos instrumentos, que executavam a música viva de uma valsa; ao som das doces lisonjas que dez cavalheiros murmuravam a seus ouvidos, Mariana via a imagem de uma criança recém-nascida, que jazia morta no meio da sala. Ouvia a natureza exalando um gemido pungente... e ouvia maldições e pragas, que mil bocas invisíveis estavam proferindo con­tra ela...

Depois vinha um menino louro, travesso e belo brincar a seu lado... então ela se lembrava!... e essa lembrança era terrível; era um punhal de lâmina envenenada... era o cas­tigo de Deus.

A sua vida foi sempre assim, sempre triste e fria dentro do coração, embora os lábios sorrissem obedecendo ainda à vaidade, que os mandava sorrir. Era uma vida partida em duas bem distintas uma da outra: uma, a vida exterior, que era a mentira, que lhe brincava no rosto; outra, a vida interior, que era a verdade, que lhe roía o coração. Resumidas e combinadas ambas essas vidas, davam em resultado a pior de todas: a vida de desgosto de si mesma.

Ao menos, porém, estava no meio de tudo isso, triunfando, a sua vaidade.

Ela era sempre rainha.

Mas uma noite... em uma dessas noites de festa, de ardor, de prazeres fugitivos, um mancebo se apresentou junto dela, deu-lhe o braço, e aproveitando um passeio, pronunciou a seus ouvidos duas palavras somente.

O terrível mancebo sabia tudo!...

A rainha caiu do seu trono... uma palavra só daquele mancebo a podia tornar objeto de sarcasmos e de maldições...

E a vaidade ainda triunfou. Mariana ainda se não quis resignar; e para continuar a ser incensada naquele mundo, que era tudo para ela, sujeitou-se a representar daí por diante o triste papel de escrava de Salustiano.

O resultado de tudo isto já não se ignora. Mariana estava sofrendo também o castigo de seu crime, imposto pelo poder de um homem.

E o seu destino tocava um terrível extremo. A hora fatal batia.


A desgraçada filha de Anacleto havia ficado em seu quarto pasma e aterrada logo depois que seu pai a deixou só.

Agora é o começo da tarde.

Mariana havia descido, e achava-se sentada no sofá, na sala de visitas do "Céu cor-de-rosa".

Tinha vindo esperar Salustiano. No entretanto meditava.

O aspecto da triste viúva trazia em si um não sei quê de sinistro. Seus supercílios, bastos e negros, estavam dolorosamente enrugados de modo que quase se confundiam um com o outro. No entretanto, e apesar disso, seus olhos brilhavam, mas não com o fogo da vida... todas as suas feições se achavam contraídas, e quando ela falava, notava-se em sua voz alguma coisa que se não podia explicar, mas que produzia uma impressão sobremodo desagradável.

Estava toda vestida de branco, mas trazia cingindo-lhe a cintura uma fita negra, cujas pontas caíam até o chão. Essa fita era lúgubre.

Conservou-se muito tempo na mesma posição, imóvel e indiferente a tudo. Parecia haver medido perfeitamente o fundo do abismo aberto debaixo de seus pés, e como que penetrada da certeza de não poder salvar-se dele. Não es­tava sossegada, estava inerte.

Mariana tinha tomado todas as medidas para não ser incomodada por testemunhas importunas naquelas horas. Seu pai deveria voltar bem tarde; e a rogos dela, Celina prometera não descer ao primeiro andar senão quando fosse chamada.

E, portanto, ela esperava somente uma pessoa; esperava Salustiano... a morte.

Depois de algum tempo de sinistra imobilidade e mudez, a viúva levantou a cabeça que tinha um pouco inclinada, e, como se falasse a alguém, murmurou com voz pausada:

— Eu lhe disse um dia, que ele se não lembrava de que se os homens sabem matar, as mulheres sabem morrer.

Sorriu terrivelmente, e disse:

— Provar-lhe-ei.

Sorriu de novo, e ainda mais terrivelmente; depois tirou do seio um pequeno embrulho de papel; abriu-o com mão firme e olhou; o que havia dentro era um pó branco.

— Arsênico!... balbuciou a mísera com ironia amarga e despedaçadora: arsênico!... o único amigo que nesta crise me acompanha e me salva é um pouco de arsênico!...

Guardou de novo o embrulho no seio, e depois prosseguiu:

— Vejamos se ainda me lembro do que li.

Ela pareceu recordar-se de alguma coisa, e foi repetindo compassadamente.

— Sabor acerbo e metálico... constrição de garganta... soluços... síncopes... resfriamento do corpo... sede... vômitos... prostração... delírio... convulsões... morte!...

Passado um instante perguntou a si mesma:

— E depois?!

E respondeu a si mesma com um tom horrivelmente lú­gubre:

— Depois, a eternidade.

E estremeceu da cabeça até os pés.

Ficou por algum tempo muda, e como que aterrada; mas enfim começou a dar um livre curso a seus pensamentos.

— O suicídio!... o suicídio!... que quer dizer o suicídio? Quer dizer que um homem ou uma mulher tem horror de si mesmo, julga-se demais na terra, acusa-se perante si pró­prio, sentencia-se, condena-se e executa-se!... Oh! tenho eu o direito de matar-me?... Dizem que não; mas o mundo não tem também o direito de cuspir-me no rosto.

— Mas a religião proscreve o suicídio... e o que faço eu?... troco um martírio horrível por outro mais horrível ainda... troco os martírios da carne pelos tormentos da alma... troco o mundo pelo inferno!

A mísera soltou uma risada nervosa.

— Ainda bem! prosseguiu; ainda bem que o sei... o inferno me pertence.

O rosto de Mariana tomou uma expressão medonha... ela murmurou no meio de uma dilatação de lábios, que não era riso, que era quase uma convulsão horrorosa:

— Eu sou um demônio... eu matei meu filho!...

Respirou dolorosamente e continuou:

— O suicídio! oh! sim! este é o meu segundo suicídio; pois então? não matei eu a carne de minha carne?... não derramei o sangue do meu sangue?... sim; esta é a segunda vez que eu mato; ainda bem que é a derradeira. E eu devo realmente desaparecer do mundo; onde me havia esconder amanhã? entre os homens?... quem?... eu?... a infanticida?... oh! os homens lançariam sobre mim os cães... eu não sou da sua espécie... eu não tenho alma, ou então tenho alma negra!... deveria ir ocultar-me nas brenhas?... oh! também não... lá os tigres amam seus filhos; eu sou mais feroz que os tigres.

"O que me resta é bem claro; neste mundo resta-me um sepulcro... no outro espera-me o inferno.

"Este mundo dar-me-á mais do que devia; porque o ca­dáver da mãe que mata seu filho há de tornar estéril a terra onde se enterrar. O outro mundo dar-me-á o mais que pode... o que eu mereço.

"Ah! eu me amaldiçôo a mim mesma!

"É preciso que eu morra; sim... esta mão, que deveria estar mirrada, ia tocar a destra de Henrique... a mão pura de um mancebo honesto e honrado; oh! o crime é conta­gioso... eu ia infectá-lo... o meu amor é hediondo; eu sou para as feras mais sanguinárias o que as feras mais sanguinárias são para os homens.

"É preciso que eu morra.

"E meu pai?!"

A mísera arrancou das entranhas um gemido pungentíssimo; desenhava-se a seus olhos a figura dolorosa do pobre velho, morrendo, a chorar ajoelhado sobre sua cova.

— Meu Deus! meu Deus! exclamou, de joelhos e com as mãos levantadas. Meu Deus! não me perdoeis embora os horríveis pecados, que tenho em minha nefanda vida come­tido; mas perdoai-me, senhor da minha alma, perdoai-me as lágrimas que meu pai tem chorado e vai ainda chorar por mim; perdoai-me, meu Deus, os desgostos de que tenho en­chido aquele amoroso coração! meu Deus! meu Senhor! valei a meu pai na dor imensa que ele vai sofrer!

Depois ela ergueu-se, e como se devesse estar vagando de tormento em tormento, como se tivesse antes de chegar o termo fatal, a morte, de passar por mil torturas, Mariana apertou as mãos contra o seio, e murmurou chorando:

— E meu filho?...

E prosseguiu por entre soluços:

— Meu filho, que hoje deveria ser um belo mancebo, que me levaria pelo braço à igreja e aos passeios, que me consolaria em minhas aflições, que me defenderia... que daria a vida por sua mãe!... oh! para que fui eu fazer-me a mais infeliz de todas as criaturas?!

"Meu filho! meu querido inocente!... meu belo anjinho! ah! se ele vivesse, ver-me-ia eu hoje reduzida a tanta miséria?... louca... criminosa que fui; troquei a vida de meu filho por um pouco de arsênico! crime duas vezes... demônio sempre!

E apertando a cabeça com as mãos, a mísera, tendo os cabelos já caídos desordenadamente, começou a vagar a largos passos pela sala, exclamando de um modo horroroso:

— Eu o matei! eu o matei!

Finalmente pareceu serenar. Veio sentar-se de novo no sofá; mas quem lhe visse o riso estúpido, que lhe enfeava os lábios, quem lhe notasse os movimentos sucessivos, rápidos e inconseqüentes, compreenderia que um excesso de dor punha em desarranjo as idéias daquela infeliz mulher.

Ela sentou-se, pois, e daí a pouco com uma espécie de alegria que era capaz de fazer chorar, disse baixinho:

— Ninguém o sabe... ninguém o sabe; só ele.. o mau; porém ele me verá morrer e guardará segredo; ainda bem... ainda bem... ninguém o sabe.

— Eu o sei, senhora! disse uma voz rouca.

Mariana ergueu-se convulsa, lançou-se sobre a porta da sala e perguntou desesperada:

— Quem está aí?

A porta da sala abriu-se.

Apareceu o velho Rodrigues.

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