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Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

Capítulo XLIII
Mariana e Rodrigues

Mariana, com os cabelos eriçados e os braços estendedidos para diante, recuou espavorida, como se lhe tivesse aparecido um espectro.

O velho Rodrigues entrou vagaroso e sossegado.

— Quem é?... perguntou a viúva aterrada. Quem é o senhor?

— Sou o guarda-portão do "Céu cor-de-rosa", senhora.

— E ouviu tudo?... balbuciou a mísera.

— Não, respondeu o velho. Eu não precisava ouvir nada. Desde vinte e um anos que eu sei tudo.

Mariana deixou-se cair quase desfalecida sobre o sofá.

Rodrigues vivamente comovido aproximou-se da infeliz mulher, e repetiu:

— Eu sei tudo,

A viúva sacudiu dolorosamente a cabeça, e murmurou

— Não... não... é impossível!

O velho, em pé diante de Mariana, descansou a mão sobre o encosto da cadeira e disse:

— Mulher! tens sofrido muito.

— Oh! sim!...

— Vaidosa, tu és ferida na tua vaidade.

— Oh!... sim!...

— Rainha, tu te tornaste escrava.

— Oh!... sim!..

— Caráter forte, intrépido, e até insolente, tu te rebaixas hoje, tu te revolves no pó, tu tremes de palavras que se di­zem em segredo.

— É verdade!

— Mulher destemida, tu és hoje a mais covarde entre todas.

— É certo.

— Tão covarde que te queres despojar da vida!...

— Oh!...

— Cristã, tu olvidas as leis de Cristo!

— Oh!...

— Aí, no teu seio, tu escondes um instrumento de morte.

— Senhor!...

— Eu tinha os olhos sobre ti, mulher; eu vi tudo. E sabes o que te acovarda?... sabes o que te leva ao desespero? sabes o que te empurra para o túmulo? oh! tu o sabes, tu o sentes... é a consciência do crime.

— Meu Deus!..

— Não há véu bastante denso para esconder de todo os delitos. Tarde ou cedo... tudo se descobre; e muitas vezes um homem que cometeu um crime abominável, e que se julga impune, porque acredita que todos ignoram a ação nefanda que praticou, vai passando pela multidão com a cabeça levantada, sem saber que outro está apontando para ele e dizendo: "Ali vai um malvado!"

— Oh! é verdade!

— Mulher, desde muito que eu sei a tua história. Eu a sei mesmo muito melhor do que tu; vou repetir-ta... escuta.

— Não... não...

— É preciso que me ouças; quem sabe se dentro em pouco não estarás de joelhos a meus pés? escuta.

Mariana escutou com o rosto abrigado entre suas duas mãos.

O velho Rodrigues começou:

— No fim do ano de 1822, a cidade do Rio de Janeiro vivia a vida do entusiasmo e das festas; a independência estava proclamada, os ferros coloniais tinham sido quebrados com desprezo; o congresso nacional, a assembléia constituinte ia em breve reunir-se, e trabalhar na execução da grande obra; levantar o majestoso monumento. O povo entusiasta da liberdade festejava a liberdade; os saraus seguiram-se uns aos outros; o prazer estava em toda a parte.

Mariana exalou, involuntariamente talvez, um suspiro de saudade.

— E no meio de mil formosas donzelas, que davam vida a essas festas, havia uma jovem senhora, uma moça que acabava de sair da infância, e que fazia o orgulho das sociedades e o martírio das outras moças.

Mariana sentiu apertar-se-lhe o coração.

— Era uma jovem extrema e perigosamente encantadora; era morena, tinha os cabelos e os olhos negros e brilhantes, e o rosto cheio de viveza e malícia, o pescoço garboso como o de um cisne. E toda ela era bem feita; formosa e bem feita, que arrebatava. E tinha um olhar magnífico, fixo e ardente como o do tigre, um sorrir meigo e carinhoso que enfeitiçava; uma voz harmoniosa e tocante, e, finalmente, um andar que provocava. Era uma mulher perigosa e terrível... era capaz de ser o anjo da salvação, ou o demônio da perdição de um homem. Essa mulher imensamente encantadora chamava-se Mariana.

E Mariana suspirou de novo.

— Objeto de todas as atenções, os mancebos a rodeavam e festejavam de mil modos; os pais davam parabéns ao pai da feliz moça; e as moças a invejavam; e as casadas tinham os olhos fitos em seus maridos por causa dela; e as mães a malqueriam por causa de suas filhas; porém Mariana, orgulhosa de seus encantos, passeava por entre aquelas senhoras, e por entre todos aqueles homens, como o sol que faz o seu giro no espaço, escurecendo as estrelas e espalhando sua luz por toda a parte.

E a viúva suspirou ainda uma vez.

— Ídolo de tantos, ídolo de todos os homens pelo menos, a indiferença de um era insulto para essa moça tão bela como vaidosa; era um insulto de que ela sabia vingar-se, trabalhando por prender maniatado ao seu carro o insolente que se esquecera de vir queimar incenso aos pés da princesa das festas. Essa moça queria escravos adoradores, e presunçosa aceitava todos esses cultos, concedendo às vezes um olhar a este, um sorriso àquele, uma palavra meiga àquele outro, mas não dando o seu amor a nenhum.

— Foi assim, murmurou a infeliz.

— Todavia apareceu nas sociedades um homem que não se lembrou e correr aos pés de Mariana, não era uma criança, nem um velho; ninguém lhe daria menos de vinte e seis anos nem mais de trinta; estava livre, tinha coração; e portanto devia pretender agradar à bela moça; esse homem não curou disso. Melancólico e abatido, sempre vestido de luto, parecia tão ocupado com suas mágoas passadas, que não tinha tempo de admirar a beleza do dia. Esse foi a princípio julgado uma fera bravia por Mariana, e portanto indigno de suas costumadas vinganças; depois, ela mudou de opinião; entendeu que era um montanhês mal-educado; depois acreditou-o insolente e orgulhoso; e depois...

— Provoquei-o!... balbuciou Mariana.

— Provocou-o, repetiu o velho. Leandro (era o nome desse homem) despertou às provocações da bela moça; viu... viu então, e observou pela vez primeira esse dilúvio de encantos e de graças, que a natureza tinha acumulado nessa mulher, e não pôde resistir à necessidade de admirá-la. O amor tinha algum tempo antes aberto no coração de Leandro profundas feridas, que ainda não haviam cicatrizado; e pois, ele fugiu de Mariana como de um perigo, de uma tentação, de um encanto insidioso.

— Ofendeu a minha vaidade!

— Sim, ofendeu a vaidade da mulher altiva; e ela jurou ser, a todo o custo, dona daquele coração. Desde o momento em que concebeu um tal propósito, Mariana esqueceu todos os seus antigos adoradores, e, sem o pensar, queimou incenso por sua vez aos pés de um homem...

— Amei-o!

— Sim; a vaidade de Mariana fé-la amar a Leandro. Todos os meios de sedução de que ela podia dispor foram postos em campo... o homem não resistiu; Mariana e Leandro amaram-se.

— Oh! foi assim mesmo!

— À primeira hora de declaração do amor, seguiram-se dias de embriaguez e de felicidade inconcebível, e seguiu-se uma noite de paixão delirante... de prazer feroz...

— Oh! basta.

— Teve lugar em um dos arrabaldes da corte uma brilhante festa campestre; havia um sarau no meio das flores... um jardim iluminado... um lago cercado de luzes... um bosque de arbustos floridos adiante... encanto em toda a parte. Leandro e Mariana acharam-se presentes à festa: dançaram juntos, e foram juntos passear pelo jardim. Esqueceram o mundo e os homens... lembravam-se unicamente de seu amor... e primeiro vagaram por entre as flores... depois conversaram espelhando-se nas águas sossegadas do lago... e depois entraram no bosque...

— Oh!

— O interior do bosque era sombrio; fora soava a música terna e maviosa; dentro exalavam-se embriagadores perfumes; mas... outra vez o bosque era sombrio... senhora! Leandro e Mariana perderam-se no bosque.

— Perderam-se!... balbuciou dolorosamente a viúva.

— Quando voltaram, para de novo tomar parte na festa, Mariana estava pálida, e Leandro mais que nunca apaixonado.

— Ele sabe tudo! disse a pobre mulher.

— No dia seguinte, prosseguiu o velho, Leandro foi visitar o pai de Mariana, e pediu-lhe a mão da bela moça; o casamento foi ajustado; deveria celebrar-se daí a um mês. No entretanto Leandro e Anacleto ligaram-se, como bons amigos.

— Ah!... por bem pouco tempo!

— É verdade; a intolerância política veio logo separá-los. Com efeito, o ministério da independência, o gabinete Andrada acabava de cair; homens acusados de simpatia pelo antigo sistema subiram ao poder; a população dividiu-se em dois campos inimigos, e a exaltação dominou em ambos. Anacleto extremava-se defendendo as velhas idéias, Leandro representava as novas, que pouco antes haviam triunfado. Um dia o velho e o moço encontraram-se defronte um do outro em completo antagonismo; o exaltamento de ambos inspirou-lhes palavras desabridas, e o pai de Mariana, estendendo o braço, mostrou ao noivo de sua filha a porta por onde devia sair para não tornar nunca mais à sua casa; ficaram inimigos irreconciliáveis.

— Oh! foi assim!

— Anacleto ordenou a sua filha que esquecesse para sempre o feroz republicano; e a desgraçada, que já não tinha o direito de esquecê-lo, não teve ânimo de cair aos pés de seu pai e de confessar-lhe que havia cometido um erro, e que sentia fortemente as conseqüências desse erro. Mais ainda; Anacleto fez-se perseguidor de Leandro, que se viu obrigado a viver oculto durante alguns meses dessa época tão calamitosa. No entretanto, senhora, tinham chegado do campo dois amigos de Leandro, dois amigos que não hesitaram em dar a vida por ele; o infeliz abriu-lhes o seu coração... contou-lhes tudo; e João e Rodrigues, os dois amigos, tomaram sobre seus ombros o encargo de observar Mariana, de velar por ela...

Mariana levantou um pouco a cabeça.

— Como lamentavas tu, mulher vaidosa, a desgraça do homem que te amava?... como choravas tu, mulher imprevidente e louca, a tua própria desgraça?... alegre e festiva, tu te embriagavas de novo com os prazeres da corte... os saraus... os passeios... a vida de loucuras continuava sempre!... parecias até esquecida de ti mesma. Ah! sim! mulher, a tua cabeça não se lembrava de teu seio.

Mariana tornou a esconder o rosto entre as mãos,

— O teu viver exasperava o infeliz Leandro, que não podia estar a teu lado, e que, escondido, via-te apenas pelos olhos de seus dois amigos. Ele compreendeu que não serias nunca uma esposa extremosa e devotada em corpo e alma a seu marido; e todavia o pensamento único que o ocupava, a idéia que lhe roubava o sono, era a dívida imensa que te ficara devendo. Suspirava pela liberdade para salvar-te; sabendo que sorrias no mundo, que sorrias, mulher, tu que devias chorar, o infeliz chorava em dobro... chorava por ti... e por si.

Mariana não disse nada; conhecia-se porém que estava sofrendo muito.

— No entretanto, prosseguiu o velho Rodrigues, o tempo corria... as perseguições continuavam, a assembléia constituinte tinha sido dissolvida... os mais extremados patriotas deportados. Leandro não podia ainda aparecer. Foi então que soubemos que Mariana havia deixado a corte para passar algum tempo com uma velha parenta estabelecida na roça. Compreendemos o fim da viagem, e um dos amigos de Leandro, eu, senhora, fui encarregado de seguir Mariana. Compenetrei-me da delicadeza de minha missão, e, decidido a tudo arrostar, tive uma conferência particular com a ve­lha parenta da amante de Leandro.

— Basta! balbuciou Mariana; vejo que nada ignora... nem do que falta... mas basta.

Sorriu tristemente o velho, e prosseguiu:

— Rodrigues e a velha parenta deram-se as mãos, e velaram de comum acordo; e queres saber, mulher, qual foi o primeiro resultado dessa vigilância?.. foi descobrir-se que havia em uma das gavetas do toucador de Mariana um frasquinho cheio de um líquido sinistro... a décima parte desse líquido contido no frasquinho sobejava para afogar uma criança... e a mãe dessa criança também.

— Oh!...

— Pois, passado um mês, Mariana fez a sua primeira experiência; bebeu a décima parte daquele líquido, e, contra sua expectativa, passou às mil maravilhas.

— Senhor...

— Passado outro mês... segunda tentativa; e o mesmo resultado ainda...

— Então...

— Ah! o outro mês era realmente para temer-se. A mulher louca e vaidosa empunhou o frasquinho, levou-o aos lábios, e esvaziou-o todo. Devia ser a morte o que ela tinha bebido.

— Meu Deus!...

— Ao anoitecer... dores... ânsias horríveis... no fim de algumas horas perda completa de sentidos... ficou como morta.

— Oh!... por que não morri, meu Deus?!

— Senhora, quando aquela mulher abriu outra vez os olhos, a natureza falou antes da vaidade. Ela abriu os olhos e exclamou com dor imensa: — meu filho!... — e a velha parenta, que a pouca distância a observava tristemente, respondeu: — nasceu morto.

— Ah!...

— Porém no dia seguinte, às onze horas da noite, senhora, a borrasca ribombava... a chuva caía... os elementos estavam desenfreados... e um homem envolvido em longa capa negra foi bater à porta de uma pobre casa na cidade do Rio de Janeiro. Dentro dessa casa estavam rezando aos pés de Nossa Senhora das Dores uma mulher velha e uma escrava. A porta foi aberta; o homem entrou, lançou a capa fora de seus ombros, e em nome da Santíssima Virgem Mãe de Deus, aquela mulher recebeu e adotou uma criança recém-nascida.

— E essa criança?... exclamou Mariana com um grito desesperado.

— Era teu filho, Mariana!

A viúva soltou um brado arrancado do âmago do coração, e caiu aos pés do velho Rodrigues.

— O licor do sinistro frasquinho havia sido trocado.

— Meu filho!... meu filho!... bradava a pobre senhora.

— Mas desde que Leandro soube que a alma de Mariana concebera o horrível pensamento de um infanticídio, e tratara de realizá-lo, aborreceu-a tanto quanto a havia amado.

— E meu filho?... onde está meu filho?... perguntava Mariana desesperadamente.

— Essa criança foi criada com desvelo e ternura; nada lhe faltou nunca... ao sair da infância partiu para a Europa...

— Educava-se lá quando seu pai morreu...

— E meu filho?

— Na véspera do dia de sua morte, Leandro fez sair todos de seu quarto, e ficou só com seus dois amigos. "João, Rodrigues, eu vou deixar-vos o meu filho. Eu podia fazer testamento, e reconhecer por meu filho esse pobre inocente, que ambos conheceis. Mas ele pode morrer antes de chegar à idade em que deverá receber a herança que lhe compete, e eu teria infrutiferamente publicado um erro de minha mocidade, e dado assim a conhecer a uma mãe desnaturada o filho, que ela pensa ter assassinado. Pensei melhor, quanto a mim." Leandro mandou-nos abrir na gaveta e tirar dela um papel que designou, uma carta que estava fechada. "Eis aqui, continuou ele, uma carta que fareis chegar cautelosamente às mãos da filha de Anacleto. Vai aí dentro toda a nossa correspondência do tempo de amor e de esperança. Agora este papel, meus amigos, é a última prova que vos dou da minha amizade. Este papel é o escrito de reconhecimento de meu filho, que vós ides assinar como testemunhas, guardar para depositar em suas mãos, quando ele fizer vinte e um anos." João e eu assinamos e guardamos então o escrito de reconhecimento de teu filho, mulher.

— Oh! exclamou Mariana; mas que me importa isso?... que tenho eu com essa história? ouviu, senhor, eu quero meu filho!

— Leandro morreu, senhora, continuou Rodrigues sem atender a Mariana; e ficaram seus dois amigos velando sempre sobre o pobre moço. Ele voltou da Europa, e eu tive o pensamento de trazê-lo ao teto em que morava a sua mãe.

— Oh! sim!... sim!... disse a viúva com as mãos postas.

— Para consegui-lo vim aqui pedir, como um pobre velho sem meios, o lugar de guarda-portão do "Céu cor-de-rosa. Dali, daquele alpendre, velei por teu filho, mulher! dali, daquele alpendre, concebi o projeto de trazê-lo para junto de sua mãe, fazendo-o esposo da mais bela das virgens, esposo de Celina...

— Oh!... bradou Mariana, em cujo espírito tinha brilhado um raio de luz.

— E agora, mulher, teu filho? teu filho já tem vinte e um anos... ama a Celina; e tu, mulher, queres matar a mãe do mísero mancebo, porque não pudeste conseguir roubar-lhe o coração da amada! sim, queres suicidar-te!

— Meu filho!... meu filho!... meu filho!... bradava Mariana andando como louca pela sala.

— Tu o enxotaste já uma vez para longe desta casa!

— Meu filho!...

O movimento que havia, e o ruído que se fazia na sala, impediu que Rodrigues e Mariana ouvissem os soluços de alguém que se achava escutando junto da porta.

— Mas enfim, mulher, continuou o velho, tu tens sido já bem castigada!... agora...

— Eu quero meu filho!

Mariana falava por entre lágrimas; seus cabelos estavam soltos, seu olhar brilhante, seu rosto enrubescido, e sua voz alterada.

— Escuta, disse o velho,

— Ouvi demais, exclamou ela com força. Não escuto nada... não quero... não posso. Eu quero ver meu filho... quero abraçá-lo... quero beijá-lo... quero... oh! meu filho é o anjo que me salva! meu filho é o perdão de meus pecados, que eu não merecia, e que Deus me concede!... ah!... não preciso que me guiem... eu conheço, eu sei quem é. Eu sei onde está meu filho! vou vê-lo, vou buscá-lo! meu filho!...

E, quase delirante, atirou-se para a porta.

Batiam nesse momento desesperadamente.

Rodrigues, com os olhos lavados em lágrimas, e soluçando fortemente, deu volta à chave.

A porta abriu-se, e ele entrou...

Mãe e filho caíram ambos de joelhos, e abraçaram-se um com outro chorando, e exclamando ao mesmo tempo:

— Minha mãe!...

— Meu filho!...

O filho de Mariana era Cândido.

Capítulo XLIV
Filho e irmão

Eles continuavam abraçados misturando suas lágrimas e seus carinhos. Era um tesouro insondável, uma riqueza enormíssima, que ambos acabavam de obter do céu.

Cândido achava finalmente o objeto daquele amor santo de seu coração; abraçava sua mãe.

Mariana encontrava inesperadamente no mundo uma criatura que supunha ter ela mesma feito desaparecer do mundo: abraçava seu filho.

Não havia mais vácuo no coração do mancebo, nem fantasma na imaginação da mulher.

Choravam ambos; suas lágrimas porém eram bem doces; eram lágrimas de uma felicidade que se não mede: felicidade tão grande que não lhe bastam os lábios por onde sai em sorrisos, que lhe são precisos também os olhos por onde em lágrimas se derrama.

Completava o quadro a figura nobre do velho Rodrigues.

Aquele moço e aquela senhora abraçados, e de joelhos juntos daquele velho alto e respeitável, pareciam talvez dois amantes trocando votos do mais terno e puro amor à som­bra de uma árvore secular e majestosa.

De repente, e com um movimento rápido e forte, Mariana desenlaçou-se dos braços de seu filho e recuou dois passos.

— Minha mãe!... exclamou o mancebo com os braços estendidos para ela.

Mariana lançou a mão ao seio, e tirou de dentro o embrulho de arsênico.

— Era a morte!... disse ela, lançando o papel no chão e pisando-o com força. Entre meu filho e meu peito estava ainda um crime de permeio! agora sim... estou livre... estou bela... estou pura!... o amor de meu filho lava todas as minhas culpas.

E atirou-se de novo nos braços de Cândido.

Aquele prazer, a felicidade era tão grande em ambos, que Mariana esquecia Henrique, e Cândido não se lembrava de Celina.

Mas ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou junto ao alpendre do "Céu cor-de-rosa".

— É ele! disse o velho Rodrigues.

— É ele! disse erguendo-se Cândido, que já sabia tudo.

— Agora pode chegar, disse por sua vez Mariana erguendo-se também.

Com efeito pouco depois entrou na sala Salustiano, que pareceu admirar-se de achar Mariana acompanhada de duas pessoas.

O irmão de Cândido estava mais pálido que nunca.

— Pensava encontrá-la só, senhora, disse ele.

— Enganou-se; eu quis que duas pessoas testemunhassem o que se vai passar entre nós dois, respondeu a viúva levantando nobremente a cabeça.

Salustiano chegou-se para uma janela.

— Se é uma traição o que se me prepara, tornou ele, lembre-se, minha senhora, que ainda não é noite fechada, que muita gente está passando por baixo desta janela, e que ao primeiro sinal de emprego de força, eu farei presente de uma folha de papel ao primeiro que passar.

Mariana sorriu e disse:

— Descanse, meu caro senhor, tudo se concluirá em perfeita paz; vejo porém que me lembrou a tempo do que me devia ter já lembrado: a noite começa, e estamos quase às escuras.

Deu dois passos para a porta do corredor e disse:

— Luzes! tragam luzes!

Cândido de um lado e Rodrigues do outro, observavam a cena de braços cruzados.

A sala achou-se bem depressa iluminada.

— Nada de cerimônias; sentemo-nos. Vejamos, meu nobre senhor, apresente-nos o seu ultimato.

— Senhora!...

— Nada de interjeições; sobretudo, eu tenho pressa.

— Pois bem, senhora; eis aqui um contrato de casamento, ao qual só falta a assinatura de sua sobrinha.

Mariana recebeu o contrato, e depois de seriamente examiná-lo, disse:

— Pouco entendo de direito; todavia, creio que o tabelião e as testemunhas deveriam ter-se achado aqui.

— É possível que o desejasse?

— Certamente; e como faltou essa formalidade, que me dizem ser de modo mui positivo recomendada pela lei, peço-lhe licença para, em nome de minha sobrinha, rejeitar este papel.

Salustiano mordeu os beiços e disse:

— E terei eu também licença para mostrar aqui, e em toda a parte, um outro papel que trago no meu bolso?

— Aqui é desnecessário, respondeu Mariana sem hesitar; porque sabemos ambos que o sr. Rodrigues tem inteiro conhecimento desse papel, e o sr. Cândido já não ignora sobre que ele trata.

— E lá fora? perguntou Salustiano elevando a voz.

— Lá fora, senhor, poderá mostrá-lo a quem bem lhe parecer. Mas já que se quer dar ao incômodo de tornar público um erro de meus primeiros anos de moça, ofereço-me para facilitar-lhe a prova viva e documental desse erro.

— Eu a tenho no meu bolso, senhora.

— Quero dar-lhe outra muito melhor.

— Melhor ainda? e qual?

— É meu filho, disse a viúva apontando para Cândido.

Salustiano ficou estupefato.

Cândido aproximou-se dele, e oferecendo-lhe a mão, disse com acento comovido:

— Meu irmão...

A voz de Cândido despertou Salustiano, que, soltando uma risada de escárnio, exclamou:

— Impostor!

Cândido corou até a raiz dos cabelos, e recolhendo a mão que havia estendido, cruzou de novo os braços.

Mariana apertou entre as suas uma das mãos do mancebo, dizendo-lhe:

— Não cores assim, meu filho; que importa que teu irmão te desconheça, se tua mãe te abre os braços?... vem... eu quero apertar-te contra meu seio diante dele; vem!

E depois de abraçar apertadamente seu filho, continuou dirigindo-se a Salustiano:

— Vê bem que já não receio o veneno da sua língua. Acabou-se o senhor, desapareceu a escrava. Agora eu o desafio orgulhosa!

— Ainda quando o que se representa aqui não fosse uma miserável comédia, respondeu Salustiano, ainda quando o que está dizendo tivesse todos os visos de verdade, acredita, minha senhora, que toda a esperança de vingar-me estava perdida para mim?

— Oh!... ainda?...

— Pois bem... o sr. Cândido é seu filho? qual é o nome do pai de seu filho?

Mariana fez um movimento.

— Senhor...

— Não responde?... tanto melhor. Irei perguntar ao sr. Henrique...

A viúva empalideceu; lembrou-se do amor daquele que o inesperado aparecimento de seu filho fizera esquecer tanto tempo. Duas lágrimas eloqüentes penderam das pálpebras de Mariana.

Cândido com um olhar cheio de amor e de profundo sentimento, mostrou compreender a significação destas lágrimas.

— A resposta de Henrique, senhora, será pronta e nobre; não preciso dizer qual seja...

— Embora... balbuciou, como gemendo, a mãe de Cândido, olhando ternamente para seu filho.

— Deixarei Henrique, senhora, prosseguiu Salustiano, e hei de vir fazer a mesma pergunta a um honrado velho que vive de amar sua filha... que a julga pura, que...

Mariana soltou um grito; Cândido ia dar um passo, mas ela atirou-se entre ele e Salustiano.

— Embora! exclamou com fogo, embora! perca-se tudo! rompa-se este casamento que deveria fazer a ventura do resto da minha vida! derrame ainda meu pai lágrimas amargas por minha causa; mas renegar meu filho? afastá-lo de meus olhos? negar-lhe o meu seio? nunca, nunca! agora, senhor, antes de todos está meu filho.

E chorando lágrimas de amor, abraçou-se estreitamente com Cândido.

— Bem, senhora, disse Salustiano tomando o chapéu, eu me retiro... tudo está decidido entre nós.

Cândido tinha sentido vibrar todas as cordas do coração de sua mãe; compreendeu que ia ser a causa de seus tormentos e de sua desgraça; e fazendo um violento esforço, desprendeu-se dos braços que o apertavam, e lançando-se adiante de Salustiano, exclamou:

— Uma palavra, senhor!

— O que temos? perguntou com desprezo o moço.

— Conhece a letra de seu pai?

— Sim.

— Pois veja.

E tirando do bolso uma folha de papel, que mostrava ter estado por muito tempo guardada, Cândido abriu-a aos olhos de Salustiano.

Era o escrito pelo qual Leandro reconhecia Cândido por seu filho.

Salustiano quando acabou de ler, tremia da cabeça até aos pés, e estava pálido como um finado.

— Eu sou seu irmão, disse Cândido.

Salustiano não respondeu.

— Metade da fortuna de que se acha de posse pertence-me de direito,

Salustiano, com os lábios brancos e convulsos, olhou com um olhar espantado e feroz para aquele que lhe estava falando.

Cândido voltou o rosto para Rodrigues e perguntou:

— Diga-me, sr. Rodrigues, sabe pouco mais ou menos quanto devo receber do sr. Salustiano?

— Um milhão, respondeu o velho.

— Pois bem, tornou Cândido com todo o sangue frio:

— Sr. Salustiano... meu irmão, eu dou-lhe um milhão pela carta de minha mãe.

O velho deu um passo...

Mariana ficou extática...

Salustiano continuou a olhar espantado para Cândido,

— O caso é simples, continuou Cândido: o senhor não conseguirá nunca desposar aquela que pretende; ao muito fará infrutiferamente a desgraça de minha mãe. E para que isso, senhor? para que procurar um remorso? acabemos com isto. Eis aqui uma vela que arde, acendamos nela nossas duas folhas de papel. Um queima um escrito que lhe dá um milhão, outro extingue uma carta que vale uma desgraça. Senhor, outra vez, o caso é simples: trata-se de um milhão!

Salustiano instintivamente lançou a mão ao bolso e tirou dele um papel.

Os dois mancebos aproximaram-se um do outro; Salustiano estava desfigurado, Cândido risonho e animado.

— Senhor, disse este, permita que minha mãe examine se é essa a carta de que se trata.

Salustiano chegou-se a Mariana que, depois de ler a carta, respondeu:

— É ela mesma,

— Senhor, continuou Cândido dirigindo-se a seu irmão: jura pela sua honra, pela salvação de sua alma, e pelas cinzas de sua mãe e de nosso pai, que nunca abusará deste segredo?

— Juro, murmurou Salustiano.

— Então... ao fogo!

Chegaram-se os dois moços para junto da luz; mas o velho Rodrigues, suspendendo Cândido, exclamou:

— Mancebo, lembra-te que vais queimar um milhão.

Cândido, com o mais eloqüente silêncio, apontou com a mão esquerda para sua mãe, e deixou cair a direita sobre a luz.

Enquanto as duas folhas de papel ardiam, Salustiano olhava para as chamas com a estupidez de um idiota, e Cândido com o sorrir de um anjo.

Só restavam cinzas... Mariana lançou-se com entusiasmo sobre Cândido.

— Meu filho!

Cândido recebeu-a de joelhos.

— Agora eu! disse uma voz.

Todos olharam: era João que acabava de entrar na sala.

— Que é isto?...

— É a vingança! bradou de.

Salustiano deixou-se cair aterrado sobre uma cadeira.

— Falsário!... falsário!... exclamou João sacudindo o processo subtraído a Jacó, diante dos olhos de Salustiano. Falsário! falsário! eis aqui a vingança!...

— O que quer dizer isto? perguntou Cândido a Rodrigues.

Breves palavras do velho explicaram tudo.

Cândido avançou para João.

— Meu bom amigo, eu sou o filho de Leandro, eu sou o herdeiro da amizade de cem anos.

A voz do moço era doce e tão terna, como foi o olhar que João lançou sobre ele.

— Em nome de meu pai, em nome da sagrada amizade que doravante há de ligar-nos até a morte, João, meu amigo, dá-me esse processo!...

João ficou imóvel, arrasaram-se-lhe os olhos d?água.

Cândido estendeu o braço e tirou-lhe o processo das mãos... sem que o velho fizesse a menor resistência.

— Por mais que queiras, João, disse Rodrigues comovido...? tu não podes ser mau...

Cândido tinha-se chegado outra vez junto da luz, e quei­mava o processo.

— É meu irmão, disse de soluçando.

CONCLUSÃO

A FELICIDADE e o prazer estavam sorrindo de mil modos no "Céu cor-de-rosa".

Cândido freqüentava de novo e mais assiduamente que nunca a casa de Anacleto; dirigindo-se a Mariana, tratava-a por — minha senhora; — mas sua voz tinha um tom de indizível ternura.

Mariana estava bela e deslumbradora como em seus primeiros dias de ventura; chamava o mancebo como dantes — sr. Cândido, — porém seus olhos ardentes e amorosos lhe davam ao mesmo tempo o mais carinhoso dos nomes.

Anacleto não podia compreender aquela metamorfose; mas respeitava o segredo da felicidade de sua filha, tanto quanto havia respeitado outrora o de seus tormentos.

Celina sorria para a vida... amava, era amada, e enfim esperava ser feliz; que lhe importava o mais?...


Chegou o dia destinado para o casamento de Henrique e Mariana.

Tudo estava pronto: o altar, o sacerdote, os dois amantes e os convidados.

Só faltava Cândido. Debalde o esperaram por muito tempo.


Na manhã desse dia Cândido, ao erguer-se do leito, recebeu da mão de Irias uma volumosa carta a ele dirigida.

Abriu e leu a carta curioso.

"Meu irmão: — Deste-me uma grande lição de virtude: mostrar-te-ei que a não gastaste mal comigo.

"Eu era um moço perdido, sem nobreza, sem generosidade e sem amor do que é verdadeiramente belo. Provarei que, com o exemplo da honra, soube conhecer os meus erros.

"Meu irmão, quando eu tornar a aparecer a teus olhos, não te envergonharás de me apertar a mão. Eu parto, para onde não sei ainda.

"Voltarei talvez um dia... quando o estudo, a meditação, as lágrimas, e as viagens tiverem gasto todos os meus remorsos, e me disserem que já não sou o mesmo.

"Voltarei digno de meu irmão; digno daquele que fez arder a meus olhos um milhão e um processo.

"No entretanto, meu irmão, eu te deixo a minha casa, confio-te a riqueza que nos deixou nosso pai. Acompanham a esta a escritura e todas as disposições necessárias para que tomes a direção da casa, como seu administrador-geral e meu sócio.

"Não é possível recusar, meu irmão; em nossa casa te esperam, e quando receberes esta, já estarei longe do Rio de Janeiro.

"Adeus, meu irmão. Eu te agradeço me teres feito bom... me teres feito cristão.

"Adeus! até um dia.

"Teu irmão, — Salustiano."

Acabando de ler a carta, Cândido vestiu-se apressadamente, e saiu agitado. Encontrando João e Rodrigues, contou-lhes o que havia, e correram todos três em procura de Salustiano.

Perderam quase todo o dia em inúteis indagações; finalmente descobriram que o mancebo tinha tirado um passaporte e que se embarcara ao romper da aurora em um navio europeu.

Os três amigos correram à praia... tomaram informações; um inconveniente inesperado demorava o navio por algumas horas. Cândido, Rodrigues e João atiraram-se dentro de um bote e mandaram remar com toda a força para o navio.

Já não estavam longe... reconheceram em pé sobre a tolda, com os olhos embebidos na cidade que ia deixar, o infeliz Salustiano. Cândido soltou um grito de prazer; era-lhe possível arredar seu irmão daquela triste viagem.

Salustiano ouviu o grito... lançou os olhos sobre o batel... e estendeu os braços...

Mas o navio abriu de repente as asas... e gracioso deslizou sobre as águas.

— Adeus! gritou Salustiano, agitando seu lenço branco, adeus! até um dia!

— Adeus! respondeu Cândido chorando.


Eram nove horas da noite quando, em companhia de João e Irias, Cândido entrou no "Céu cor-de-rosa".

O sarau já tinha começado.

O mancebo desculpou o melhor que pôde sua ausência, dirigindo-se a Anacleto e Henrique.

Correu depois aos pés de Mariana, e, aproveitando um momento, disse-lhe toda a verdade em duas palavras.

Faltava Celina.

A "Bela Órfã" saudara com sorriso de amor a chegada de seu amado, e não podendo esconder sua perturbação, saiu da sala e fugiu para o jardim.

Mariana compreendeu o olhar de Cândido que se voltava a-lhes por toda a sala, e apontando para a porta do corredor, disse sorrindo:

— No jardim.

Cândido voou para o jardim.

Celina estava em pé junto de uma roseira.

Os dois amantes ficaram defronte um do outro perturbados, suspirando, e sem dizer palavra durante muito tempo.

Quando enfim Cândido ia pronunciar a primeira frase de amor... ouviu-se uma voz melancólica e trêmula que cantava perto:

"Era um dia um mancebo, que ardente

"Pobre vida esquecido vivia;

"E uma virgem formosa, inocente,

"Que outra igual não se viu, não se via.

"Quem separa o ardor da beleza?...

"Um abismo fatal: — a pobreza."

Cândido e Celina reconheceram a voz do velho Rodrigues e ficaram suspensos escutando o romance da virgem.

Finalmente o bom velho chegou à última estrofe do romance e cantou:

"E o mancebo, que tinha tentado

A paixão que nascia abafar,

Hoje a ela de todo curvado

Stá cos olhos no céu a clamar:

"Quem não fora nascido; — ou então

"Quem colhera o terceiro botão!..."

Cândido, sem pensar talvez no que fazia, repetiu como um eco o último verso da estrofe.

"Quem colhera o terceiro botão..."

A "Bela Órfã" compreendeu o pensamento de Cândido; tirou da roseira um botão de rosa e o ofereceu ao feliz mancebo.

Dava-lhe o seu coração.

Cândido recebeu de joelhos o presente de amor.

— Parabéns!... disse uma voz doce.

Os dois amantes voltaram-se e viram junto de si Mariana e Henrique.

Ficaram ambos confusos.

— Não se perturbem, exclamou Mariana: nós aprovamos o vosso amor.

Depois, dirigindo-se a Henrique, continuou:

— Olha, Henrique, não são bem dignos um do outro?...

Henrique sorriu.

— Queres tu que os adotemos por nossos filhos?...

Henrique abriu os braços a Celina.

— Minha filha!... disse o esposo de Mariana abraçando a "Bela Órfã".

— Meu filho! exclamou Mariana com um grito d?alma.

— Minha mãe! respondeu Cândido caindo-lhe aos pés.

— Graças a Deus! disse o velho Rodrigues, que acabava de mostrar-se.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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