E esse segredo terrível... ia perguntando Celina.
– Este amor funesto e invencível, continuou Mariana sem atendê-la, eu o sentia ir crescendo mais e mais todos os dias; para cúmulo de minha desdita, para tornar-se mais iminente o perigo em que eu me achava, Henrique amou-me perdidamente. Oh! e nos momentos em que eu contemplava esse nobre mancebo a hesitar quando me falava; a lançar-me a furto olhares ardentes, a tremer quando me dava o braço, a suspirar involuntariamente se a meu lado se sentava, e tão forte e tão grande, e tão fiel a seu amigo, que nunca achava uma frase terna para me dizer, e que sempre tantos elogios tinha para fazer a meu marido; eu amaldiçoava os laços que me prendiam, concebia outra vez desejos de matar-me, e outra vez escondida no meu quarto, chorava como chora uma criança em desespero!...
– Oh! devia ser horrível! repetiu Celina.
– Uma vida como essa não podia ser por muito tempo carregada. Eu via Henrique ir definhando pouco a pouco, como um arbusto que vai morrendo com suas folhas já murchas, e suas flores caindo. Tive mil vezes vontade de lançar-me a seus pés, e lhe pedir que vivesse; veio-me mil vezes aos lábios a confissão do amor que lhe votava; mas, bendito seja o amor do homem virtuoso! aquele nobre silêncio do mancebo, aquele santo respeito com que ele me tratava, aquela fidelidade que ele tinha a meu marido, me sustiveram na posição de esposa honesta. Enfim, Henrique teve também medo de si, e fugiu-nos...
– Fugiu?...
– Sim, há três anos; seis meses antes da morte de meu marido, Henrique partiu para França. O que se passou no dia em que ele nos deixou, não posso bem descrever; sei que eu estava só quando Henrique veio despedir-se; sei que nenhum de nós pronunciou uma única palavra que não pudesse ser proferida em alta voz e diante de todos; mas sei também que apesar disso, ele levou a certeza de meu amor, deixou-me a certeza do seu; e lembro-me enfim, que nesse mesmo dia meu pai me pediu de joelhos, de joelhos, Celina, que eu tivesse piedade de meu marido, de seus cansados anos!...
– E agora?...
– Agora, Celina, tu mo perguntas?... exclamou Mariana com novo arrebatamento de prazer. Agora eu o amo como dantes, ou mais ainda; eu quero ser dele; eu o amo, ouviste, eu o amo! – Compreendo; mas...
– Mas o quê?...
– É que o teu prazer, Mariana, se mostra hoje tão grande como a distância que te separa de Henrique.
– Oh! não! graças a Deus, Celina, ele chegou... desembarcou ontem, e hoje escreveu a meu pai, pedindo licença para visitar-nos. Vê... lê comigo a sua carta.
Mariana tirou do seio um bilhete todo perfumado, e três vezes o leu a Celina.
– Portanto, hoje mesmo devo torná-lo a ver! Ah! Celina, se eu pudesse fazer me mil vezes mais bela!... porque eu amo... muito... muito... tanto, que seria capaz de dar a vida por ele, e capaz de matar a mulher que se atrevesse a amá-lo! A “Bela Órfã”, ingênua, inocente, sem ter jamais experimentado esses sentimentos desabridos e perigosos, que fazem falar com a veemência com que falava Mariana, olhava para esta, atônita e sem se atrever a pronunciar uma só palavra.
E também a viúva aprazia-se daquele silêncio. Quem ama e fala do seu amor, estima não ser interrompido, gosta de discorrer horas inteiras repetindo mesmo o que já disse mil vezes, e começando de novo a história que exatamente acaba de contar.
Finalmente Mariana sentiu que já tinha .o coração mais leve, ergueu-se, e abraçando ainda Celina exclamava: – Eu sou feliz! imensamente feliz!...
Quando um escravo apareceu à porta da sala, e anunciou o sr. Henrique, Mariana deixou-se cair de novo no sofá; e foi só depois de alguns instantes que disse com voz muito trêmula e comovida: – Que entre.
Levantou-se a custo para receber o antigo amante.
Era um homem alto e belo; seus olhos pretos lançavam olhares brandos que condiziam perfeitamente com o sorrir meigo e um pouco melancólico de seus lábios.
Tudo nele era nobre e sério; tudo nele desafiava simpatia: bem feito, trajando com gosto, mas sem extremar-se em modas; era enfim um belo, homem; um cavalheiro completo.
Entrou perturbado e trêmulo, como estava Mariana.
Depois dos primeiros cumprimentos, disse com visível comoção: – Cheguei ontem, senhora, e meu primeiro cuidado foi correr a depositar meus respeitos aos pés da viúva do meu melhor amigo.
– Obrigada, senhor, respondeu Mariana a tremer; é muito lisonjeiro para mim, que me coubesse aqui o seu primeiro cuidado. Vejo que se não esqueceu de nós...
– Oh!... nunca!... exclamou o mancebo animando-se.
– E também nós, senhor, nunca!...
Sem se poder explicar a razão, Celina sentou-se por seu turno perturbada, começou a corar muito e conheceu que não podia ficar ali mais tempo.
Aquela cena de amor como que ofendia sua inocência de virgem. Ela ergueuse e disse a Mariana: – Devo mandar participar a meu avô a visita do senhor?...
– Sim, murmurou a viúva.
Celina deixou a sala.
Henrique e Mariana ficaram a sós por cinco minutos. Mariana não era mais uma senhora casada.
Quando, no fim dos cinco minutos, entrou na sala o avô da “Bela Órfã”, Mariana já sabia que três anos de ausência não tinham podido arrefecer a paixão ardente que lhe votava Henrique.
Era um amor que recomeçava.
HÁ NO ANO dois dias que são verdadeiramente pomposos na cidade do Rio
de Janeiro: o de quinta-feira de Endoenças e o da comemoração dos defuntos.No primeiro deles adora-se o lenho sagrado, imagem daquele em que no Gólgota foi crucificado o Filho da Rainha das Virgens.
O segundo pertence à religião dos túmulos.
Pois com serem tão grandiosos e sublimes, tão cheios de íntima dor, e de tremenda verdade os pensamentos que presidem esses dois dias, ainda assim há neles sacrilégio e vaidade.
Há o sacrilégio dos homens e a vaidade das mulheres e de quase todos.
Uma multidão de mancebos corre um por um todos os templos na quinta-feira santa, e sem que os intimide nem contriste o aspecto solene das igrejas, o efeito dessas mil luzes que se queimam nos altares, e o profundo silêncio que neles reina; no meio dos poucos a quem um verdadeiro sentimento religioso afasta da terra e aproxima do céu, eles profanam o santuário requestando as mulheres e zombando dos mistérios.
E as mulheres, as mulheres em quem a religião, além de um dever, é ainda, mais que em todos, uma necessidade e um encanto, têm entre si muitas que olham a noite sagrada como o ensejo feliz de ostentar suas graças e suas galas; e lá mesmo, no seio dos templos, suas orações não chegam nunca ao céu, porque as desconceituam as murmurações que de envolta com elas caem na terra.
E o dia de finados, o dia de luto que os homens têm tornado de festa; o dia do pó, a recordação do nada que somos, é em nosso tempo a demonstração viva e solene do muito que pretendemos ser.
Uma palavra diz tudo: no dia da comemoração dos defuntos, a vaidade dos vivos levanta seu trono sobre o túmulo dos mortos.
E portanto ainda nesses dois solenes dias nós demonstramos crime e fraqueza.
Em quinta-feira de Endoenças nós somos sacrílegos.
Em 2 de novembro de todos os anos nós somos, pelo menos, vaidosos.
Havia chegado o dia 2 de novembro de 1846.
Tinha-se, pouco mais ou menos, passado mês e meio depois daquela manhã em que Cândido, da fresta de sua janela, observara em êxtase a “Bela Órfã” passeando no seu jardim.
Desde o romper da aurora que os bronzes de todas as igrejas da capital do Brasil gemiam com seu dobre lúgubre, longo e monótono.
Multidão imensa de homens e mulheres, todos vestidos de luto, saíam ou
entravam em turmas pelas portas dos templos como ondas negras.Apesar de sua vaidosa ostentação, de sua inoportuna riqueza, os jazigos ofereciam um aspecto sublime e melancólico: era o aspecto da morte.
O cemitério de S. Francisco de Paula estava semeado de túmulos e repleto de povo.
Os curiosos que o visitavam cediam à força do império da morte; obumbravam-se.
Os órfãos e as viúvas, os pais que haviam perdido seus filhos, choravam e rezavam.
A despeito das galas e do luxo de alguns imensos mausoléus, o pó, o nada humano parecia transudar por entre as molduras douradas, e uma caveira se mostrava triunfante de sobre as colunas de ébano.
Nos túmulos humildes, sem pompa de luxo, cobertos de roxos amarantos e tristíssimas perpétuas, como que o gênio da saudade estava aí sentado para intermediário entre a dor do vivo e a alma do- morto. O túmulo sem pompa era a expressão da saudade do vivo.
Porque, preciso é dizê-lo, a verdadeira dor é simples e singela; e a saudade que se não simula, a saudade que sai do coração, não tem necessidade de adornar-se.
Assemelham-se nisso às mulheres, que quanto mais feias mais se enfeitam para disfarçar seus senões, e quanto mais belas mais simplesmente se vestem para ostentar seus naturais encantos. Assim a dor e a saudade que se fingem, precisam de ornar-se muito, e as que são verdadeiras apresentam-se nuas... e sua nudez é imensamente sublime.
A melhor expressão de uma dor é o pranto. O mais rico ornamento dos túmulos é a caveira.
Os vestidos devem condizer com o corpo que se veste. Não há, não pode haver relação entre molduras, franjas douradas e um esqueleto.
Essa riqueza parece uma zombaria que a vida faz à morte. Essa riqueza destrói completamente a idéia tremenda que em tal dia deve ocupar o espírito dos vivos.
Porque à porta do cemitério o homem lê as terríveis palavras de morte: “Lembra-te, homem, que és pó, e que em pó te hás de tornar”. E dentro do jazigo de encontra ouro... ostentação... luxo...
Para que pois uma tão grande mentira em dia de tão grande verdade?... não sabeis? É porque o filho do rico tremeu quando viu que os ossos de seu pai não se podiam distinguir dos ossos do mendigo; e com as galas da vida quis esconder a igualdade do pó.
Embora... Ou no mausoléu, ou na simples urna funérea, estava sempre o triunfo da morte. Mesquinha diferença havia: um guardava o esqueleto do rico, a outra os ossos do pobre; mas de mistura um e outros, quem acertaria com a caveira do primeiro?
Havia aí mesmo nessa área tremenda, ouro, ostentação no exterior; pó e mais nada internamente. Por cima estava ainda a vida... a mentira; por baixo triunfava a
morte... a verdade.A linha terrível e anti-religiosa que com tão maus resultados divide os filhos de Deus em dois grupos, ricos e pobres: ricos que gozam e mandam; pobres, que trabalham e sofrem de contínuo, estava traçada aos olhos dos vivos; mas em seu hediondo aspecto as caveiras pareciam estar soltando disformes gargalhadas de escárnio contra pretensões vãs de uma vaidade impotente.
E pois, e apesar de tudo, havia aí no cemitério a igualdade dos mortos mal desfigurada pela desigualdade dos vivos.
E por entre esses mausoléus e esses túmulos, iam passando grave e tristemente aqueles que vinham chorar seus defuntos.
O silêncio dos túmulos era de instante a instante cortado pelos soluços dos vivos, e a sequidão do pó recebia as lágrimas da carne.
Às vezes uma virgem pálida e indiferente a tudo que a rodeava, banhada em pranto de saudade, se deixava ver de joelhos junto de um túmulo, como a sombra de um finado descansado sobre seus restos. No meio dessa multidão desolada, não se perguntava, adivinhava-se quais eram os pais, quais as mães que choravam seus filhos, porque essa dor profunda do coração fala mais alto e mais claro do que as outras.
Não era porém comum o ver-se sobre um túmulo deposta a roxa perpétua pela mão da simples amizade. Poucos se notavam os amigos de além-túmulo.
Mas lá em sombrio recanto havia uma urna humilde e modesta, onde um grande número de homens e mulheres se tinha ido ajoelhar e depor seus ramos de saudades. Ora um mancebo luzido e rico, quase sempre a pobre mulher envolta em negra mantilha, e o velho abatido e magro se fora curvar ante esse pó sem dúvida muito amado.
O túmulo como dito fica, era simples e humilde; tinha por inscrição na parte superior duas letras – P. A. – e logo abaixo delas uma outra – C.
Ultimamente uma velha magra, de cabelos brancos e olhos verdes, e um mancebo pálido, de cabelos pretos e olhos pardos, acabavam de ajoelhar-se junto do túmulo, e oravam profundamente.
Um homem, a quem o amor que se tributava àquele pó tão lembrado, parecia haver muito sensibilizado, esperou que a velha e o mancebo se erguessem para falarlhes; mas vendo que ambos por demais se demoravam, aproveitou um seu momento em que a mulher levantou a cabeça e tocando-lhe no ombro, perguntou: – Senhora, perdoe se a interrompo; mas por quem é que ora tão fervorosamente? – Pelos pais dos pobres, respondeu a velha.
– Como se chamavam?...
A mulher apontou para as três letras, e disse: – Paulo Ângelo e Celina.
– Ah! tem razão; por minha vez rezarei por eles.
A velha tinha já outra vez se mergulhado em suas orações.
Nesse momento aproximaram-se do túmulo um velho e duas senhoras; uma muito mais moça que se quis logo lançar de joelhos, e outra também moça ainda, que fez a primeira parar à força enquanto se não levantavam a velha e o mancebo.
Teve então lugar uma cena que atraiu a atenção de quase todos os circunstantes.
A primeira das recém-chegadas, que era tão jovem como bela, sustida à força por sua companheira, por entre um dilúvio de lágrimas, sufocada por seus soluços, encarava ainda assim com indizível mostra de gratidão a mulher e o mancebo que rezavam junto daquele túmulo.
E o velho pálido, com os braços cruzados e a cabeça caída, chorava muito, como chora um pai pelo filho amado que lhe morreu.
Finalmente a velha persignou-se e se ergueu. Um lugar ficou vazio; o moço levantava-se também por sua vez, quando a jovem escapando-se das mãos da senhora que a sustinha, foi... atirou-se de joelhos ao pé da urna funérea, exclamando: – Meu pai!... minha mãe!...
O mancebo, que acabava de levantar-se, escutando aquela exclamação dolorosa, e olhando para a pessoa que a soltava, começou por seu turno a soluçar desabridamente, e, sem querer talvez, pôs as mãos ainda em pé, e depois foi pouco a pouco curvando-se até ajoelhar-se de novo.
No entanto a comoção ou o acaso tinha feito com que se soltasse a mantilha que a velha trajava; e então aquela mulher alta, magra, com seus longos cabelos cor de neve caídos sobre uma saia de sarja preta, com as mãos postas e em pé por detrás daqueles dois jovens, completava um quadro da mais dolorosa eloqüência.
Conhecendo que também ela se fazia objeto da geral atenção, apontou para o túmulo, olhou com seus olhos verdes para a multidão e disse: – É o prêmio do justo.
E desfazendo-se em lágrimas, a velha envolveu-se de novo e rudemente com sua mantilha, e retirou-se apressada.
A esse tempo também o mancebo tinha já refletido sobre o que acabara de praticar, e espantado de si mesmo, aproveitou o instante em que todos os olhos acompanhavam a velha, para desaparecer por entre os túmulos.
À inteligência de ninguém será feita a injustiça de dizer-se, como revelando
um segredo, que essa mulher era Irias, e esse mancebo Cândido.Somente convém acompanhá-los em sua volta para o “Purgatório-trigueiro”.
A VELHA e o mancebo encontraram-se à porta do templo, e sem se dizerem palavra, dirigiram-se para o “Purgatório-trigueiro”.
Irias voltava comovida; Cândido absorto e preocupado caminhava a esmo.
Havia mês e meio que na alma de Cândido se desabotoara sobre uma bela flor, um pensamento novo e brilhante, que desde então sendo o seu eterno companheiro das vigílias do dia, e dos sonhos da noite, nesse momento em que tornava para o “Purgatório-trigueiro”, o ocupava exclusivamente.
Esse pensamento se debuxava na alma do mancebo sob a forma de uma mulher formosa.
Até bem pouco, Cândido, que sentia o coração cheio de amor, que pedia incessantemente ao céu sua mãe para saciar nessa mulher, que lhe dera a vida, toda sua ambição de amar e de ser amado, não tinha ainda adivinhado que além do amor filial um outro afeto há, ardente e poderoso, que enche a vida do homem, que lhe desvaira a cabeça e pode fazer dele um herói ou um demônio.
Cândido era uma criatura excepcional, um desses mancebos que tem podido viajar pelo mundo vinte anos sem sentir surgir-lhe em seu caminho a figura de uma mulher formosa que lhe fizesse pagar o tributo gracioso, que enfim o coração do homem paga sempre na vida.
Mas, ao romper de uma aurora, o mancebo lançou por acaso os olhos através da fresta de uma janela, e viu uma moça que, ao muito, poderia ser sua irmã; e para logo ele compreendeu, que, além de uma mãe, há no mundo uma outra mulher, a quem se pode amar muito.
E desde esse dia, em todos os outros, e à mesma hora, Cândido ia esperar que a “Bela Órfã” descesse ao seu jardim, e em êxtase a adorava, ou descuidadosa passeando por entre as flores, ou negligente repousando no banco de relva do caramanchão, envolvida na nuvem de suas madeixas.
Amava ele aquela mulher?... Cândido juraria que não. Em seu entender Celina não era uma mulher para se amar; era sim uma bela visão para se admirar extasiado.
No entanto, ele que pensava não amá-la, despertava, ao amanhecer, para contemplá-la; de dia por ela suspirava; dormia e a via em sonhos.
A mãe de Cândido tinha já uma rival no coração de seu filho.
Acompanhando Irias ao templo de S. Francisco de Paula, Cândido pagava também o seu tributo de gratidão aos restos do homem beneficente; e além disso, rezava pelo pai de Celina.
Mas, quando a órfã soltou seu grito de dor, e caiu de joelhos junto do túmulo de seu pai, Cândido, preciso é dizer, esqueceu o lugar onde estava, a multidão que o cercava, e o fim para que ali viera; e de novo ajoelhando-se ele o fez, instintivamente, não para deprecar por um finado, porém só em adoração àquela mulher formosa.
Mal chegou o instante da reflexão, ergueu-se e fugindo do jazigo e encontrando sua mãe adotiva à porta do templo, travou-lhe do braço e levou-a apressadamente pelas ruas.
O coração e a cabeça daquele mancebo estavam em guerra. A pesar dele, a despeito de seus esforços para enganar-se a si próprio, ele amava. E seu coração lhe pedia com ardor a posse dessa mulher encantadora... a primeira que tinha amado.
E sua cabeça lhe mostrava a sociedade despótica e tirânica empurrando-o para longe de Celina, erguendo entre ela e ele um muro de bronze, em cujo cimo estava escrito – impossível – impossível; porque o século pertence ao ouro, e o homem
pobre deve abafar suas afeições...Mas o coração que ama, não crê nessa palavra – impossível –; o coração não sabe que no mundo há ouro; não raciocina para depois amar: o coração ama, porque ama.
E todavia se Cândido fosse cair aos pés da “Bela Órfã”, se lhe pedisse seu amor e sua mão, a sociedade teria de perguntar-lhe: – Quem és tu?...
– Um pobre rico de honra.
E a sociedade havia de rir-se, e de responder-lhe: – não basta.
E viria depois dele um outro de quem se pudesse dizer – Um rico pobre de mérito.
E a esse responderia a sociedade: – é de sobra.
Atormentado por essas reflexões, que até certo ponto exprimiam nuamente a verdade, o caráter da época atual, Cândido caminhava a passos largos sem ver, sem ouvir, sem atentar coisa alguma.
Irias acompanhava a custo, e como que espantada, ao ardente moço. Tendo-lhe, como foi dito, caído a mantilha ao pé do túmulo de Paulo Ângelo, quando de novo nela se envolveu, colocou-a mal, e uma porção de seus longos cabelos brancos ficou flutuando sobre ela. E Cândido, levando-a estouvadamente, e caminhando sem reflexão, ora com Irias se esbarrava contra os que vinham, ora deixava que a pobre velha se salpicasse de lama.
Indiferente a tudo isso, surdo à voz de Irias, todo entregue a seu pensamento único, foi somente ao aproximar-se de sua pobre casa que Cândido se sentiu despertar por um grito de escárnio.
– Bruxa!... bruxa!... bradavam de todos os lados.
Entretanto também Celina se retirara da igreja de S. Francisco de Paula em companhia de seu avô e sua tia. A carruagem, em que vinha o velho e as duas senhoras, parou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e quando os três acabavam de apear-se, foram atraídos pelos gritos, que de todas as partes soavam.
Cândido e Irias viam-se cercados por uma chusma de garotos, que tomavam a velha para alvo de suas zombarias.
Como os cães que, em nossa terra, investem de preferência contra os negros, porque sentem o desprezo que se vota a essa classe desgraçada, a escória da sociedade, imitando os grandes, escarnecia da pobreza daquela mulher.
Jacó e Helena riam-se daquela cena de escândalo, como se ela fora uma cena de prazer público; e ambos eles excitavam, em voz baixa, os garotos que passavam perto de suas janelas, a continuar em seus insultos e redobrar os gritos que soltavam.
– Bruxa!... fora a bruxa!... bradavam uns.
– Lá vai a velha bruxa!... clamavam outros.
Alguns já tinham ousado chegar-se a suas vítimas, e a mantilha da velha estava feita pedaços.
Irias agarrava com suas duas mãos emagrecidas e nervosas o braço do mancebo que, tremendo de raiva e de vergonha, esquecia-se do que era, e queria lançar-se contra a canalha; e ao mesmo tempo que a velha, que o sustinha à força, apenas demonstrava o seu furor em um sorrir de desprezo, que deixava ver duas ordens de dentes iguais, alvos e brilhantes, e nas vistas de fogo de seus olhos verdes que simulavam do gato observado em noite escura.
– Minha tia! exclamou Celina, aquela é a velha Irias, e o moço, que a acompanha, o mesmo que orou junto do túmulo de meus pais.
– Sim... creio que sim, respondeu-lhe Mariana.
– Pois então nós não podemos consentir que sejam assim maltratados.
– Mas que faremos? – Eu vou acompanhá-los... à casa da velha Irias... é tão perto...
– Louca!... exclamou o velho.
Os gritos redobravam. As duas vítimas não podiam dar um passo. Irias empregava todas as suas forças para suster o mancebo.
– Eu corro a socorrê-los, meu avô, disse outra vez a moça com interesse.
– Não; não! Manda antes o criado.
– Eles não respeitarão a um boleeiro.
– E crês que terão respeito a uma menina?...
– Respeito não; mas talvez que tenham piedade.
Nesse momento uma pedra veio cair aos pés de Irias. Celina escapou-se do braço de sua tia, correu e colocou-se ao lado da velha.
O escárnio cessou como por encanto.
Pôde-se mesmo notar que aquela gente pervertida, sem moral nem educação, que ainda há pouco gritara furiosa, parecia como que arrependida de o haver feito.
Se pudesse, lançaria agora flores sobre a velha que acabava de apedrejar.
Jacó e Helena foram os únicos que murmuraram entre si daquele proceder da moça.
Celina acompanhou Irias e Cândido até a porta do “Purgatório-trigueiro”.
– Minha mãe, disse a moça beijando a mão de Irias, eu lhe agradeço as orações que rezou junto do túmulo de meus pais.
E depois voltando-se para Cândido, continuou: – Obrigada, senhor.
Cândido, pálido como um finado, estava em pé porque se agarrara à velha rótula.
Celina voltou-se para se retirar; e então Irias pôs suas duas mãos sobre a linda cabeça da moça, e disse: – Proteja Deus a filha dos pais dos pobres.
Quando Celina desapareceu no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, Jacó foi à janela onde estava Helena e apontando para a casa da moça, e depois para o “Purgatóriotrigueiro”, disse: – Helena, ali há coisa que é preciso descobrir.
NO DIA seguinte, e por volta das quatro às cinco horas da tarde, estavam
conversando na sala principal do “Céu cor-de-rosa” Mariana e seu velho pai.No ângulo anterior e direito da sala, e a poucos passos de uma janela, achavase sentado em excelente poltrona o ancião, que era de aspecto simpático e respeitável; deveria ter já passado dos sessenta anos; tinha os cabelos totalmente brancos, a fronte alta, o rosto pálido, finas e delicadas as mãos, e era um pouco magro. Estava envolvido em um robe de chambre de chita, vestia calças brancas, e calçava chinelas de marroquim verde.
Defronte do velho, tendo a cabeça descansada graciosamente sobre a face palmar da mão que se estendia no peitoril da janela, Mariana estava olhando para ele, e entretinham-se ambos em discutir uma questão que parecia interessá-los muito.
Anacleto, com os olhos fitos em sua filha, a escutava observando-a, e como que receava dar inteiro crédito a suas palavras.
Posto que adorasse a Mariana com indizível extremo, o velho que a tinha estudado desde a infância, conhecia perfeitamente o caráter de sua filha, e mil vezes com um olhar firme e penetrante, lia no coração dela o contrário do que lhe ouvia dizer.
Mariana tinha todas as boas e más qualidades de uma senhora da alta classe.
Nobre, altiva, e mesmo vaidosa, sabia, quando era conveniente, humilhar-se horas inteiras diante daqueles mesmos a quem detestava, para depois erguer-se veemente e orgulhosa. Ela misturava a audácia com a pusilanimidade, a mais inqualificável imprudência com um sangue frio que chegava a espantar. Sabia rir-se com os lábios quando chorava com o coração. Astuciosa, arrancava o segredo alheio e não confiava nunca o seu. Era capaz de rir-se à borda de um abismo, e de vir chorar numa sala de baile; e finalmente amava com ardor e odiava com extremo.
O semblante de Mariana sempre impassível, sempre o mesmo, dava a suas palavras uma força imensa de verdade, não deixando a ninguém ler-lhe no corar do rosto, no movimento dos lábios ou na expressão do olhar, o que se estava passando dentro dela: contudo Mariana tinha poucas vezes a virtude da franqueza. Podia enganar, sabia que o podia, e enganava.
Mas à força de viver com ela e de estudá-la, Anacleto era o único homem de quem não triunfava o sangue frio e a feminilidade de Mariana; o olhar do velho penetrava direito no coração da viúva; e diante de seu pai ela tremia e corava muitas vezes.
Conversavam ambos.
– Contudo, dizia o ancião, creio que ainda não é tempo de discutirmos sobre isto.
– Mas... não faz nenhum mal que desde já nos preparemos para quando
chegar a hora.– Sabes, Mariana, tornou sorrindo-se Anacleto: vai-me parecendo que estás mais adiantada neste negócio do que pretendes fazer-me crer.
– Não, meu pai, Salustiano ainda nada me disse; eu porém tenho meus olhos de mulher, e a experiência de trinta anos. Talvez que o tenhamos de ver bem cedo vir falar-nos.
– Pois deixá-lo vir.
– E que lhe diremos?...
– Dir-lhe-ei que volte no dia seguinte.
– E depois?... que faremos nós?...
– Nós?... provavelmente bem pouca coisa. Pela minha parte e quando ele tiver saído, chamarei Celina, expor-lhe-ei a questão; e se ela responder que não, diremos a Salustiano no dia seguinte: – não.
– Eu tenho bastante confiança na prudência da nossa “Bela Órfã”; mas não sei se seria justo deixar somente ao juízo de uma criança a solução de objeto tão grave.
– Querias pois, Mariana, tornou-lhe com seriedade Anacleto, que sem consultar a essa interessante órfã, dispuséssemos de sua mão, de seu futuro, de sua vida inteira?... suponhamos que ela não ama a Salustiano. Quererias tu que a sacrificássemos à paixão, aos caprichos desse homem!... oh! não, minha filha; os sacrifícios deste gênero são horríveis... eu os compreendo.
O velho olhou fixamente para Mariana, que sentiu passar por seu rosto uma onda de rubor; disfarçou, e depois de serenar, disse: – Pois bem. E se acaso Celina disser que sim?...
– Nesse caso ela ouvirá minhas reflexões.
– E meu pai dirá...
– Que esse homem não me agrada; que seu único mérito, a só recomendação com que se nos mostra, é ter herdado uma riqueza enorme acumulada por seu pai, homem laborioso e honrado, dir-lhe-ei que há no rosto desse mancebo alguma coisa que transpira baixeza de sentimentos; que há no sorrir constante de seus lábios um sarcasmo eterno, ou incurável toleima, que o torna antipático e pesado a quem o pratica.
– E por conseqüência?...
– Por conseqüência eu falarei horas inteiras para convencer Celina de que não se fará ditosa desposando semelhante homem. Se ela porém teimar... paciência; deixá-la-ei ir; e rogarei a Deus por ela.
– Vê-se bem que meu pai não olha com bons olhos para Salustiano.
– É verdade; ele reúne em si o egoísmo do inglês e a frieza do alemão; e não tem a honra nem de um nem de outro.
– Mas como então consente que esse homem freqüente tão assiduamente nossa casa?...
– Mariana, certas considerações, que os homens mutuamente se devem na sociedade, fazem que nem de nossa própria casa sejamos absolutos senhores. E além disso, não é por minha causa que Salustiano aqui vem.
– Por quem, então?...
– Não fui eu que o convidei, Mariana.
A filha de Anacleto fez-se pálida de súbito, e levantando a cabeça, perguntou: – Que quer dizer o senhor? Ficou Anacleto em silêncio por alguns instantes. Suportou com imperturbável sangue frio o olhar vivo, ardente e penetrante de sua filha, fito em seu rosto, e depois respondeu: – Nada.
Mariana deixou cair de novo a cabeça sobre a face palmar da mão, que ela estendia no peitoril da janela, e disse: – Felizmente que meu pai tendo a honra do inglês e do alemão, não tem contudo o egoísmo do primeiro.
– E por quê?...
– Porque a frieza do alemão, essa meu pai tem.
Anacleto sorriu e depois tomando um ar sério, falou à filha: – Enfim, Mariana, preciso é que nos compenetremos bem do que devemos a essa menina que nos foi confiada. Lembra-te de que ela é uma órfã, e de que seus pais foram em vida amados pelo povo, e deixaram um nome que é ainda hoje abençoado.
– É verdade.
– E portanto, nós temos primeiro sobre nossas cabeças Deus que nos observa atento. Porque órfão deve ser, e é a criatura predileta da Providência. O órfão é a criatura isolada que não tem pai para velar no seu futuro, que não tem mãe para morrer por ela, e que portanto deve ter os olhos de Deus fitos em sua fronte; fitos sobre seus tutores. Mariana, os olhos de Deus estão pois sobre nós ambos: velemos por Celina.
– Sim... velemos.
– Oh! e tenhamos compaixão... tenhamos piedade desses restos respeitáveis, dessas cinzas amadas de um pai desvelado, de uma mãe extremosa, que a morte precoce arrebatou à sua filha. De dentro do sepulcro seus esqueletos nos observam...
e de cima... da eternidade suas almas nos acompanham, e vêem como cuidamos nós da sagrada deixa que nos legaram. Mariana, velemos por Celina.
– Sim, meu pai, é assim.
– Oh! e tenhamos também cuidado com este povo que amou tanto aos pais da nossa pupila; não queiramos, ao passar pelo meio dele, ouvir suas maldições. Tu sabes como Celina é amada... tens ouvido que sua casa teve o nome de – Céu, e nós mesmos, acompanhando a gratidão popular, a chamamos “Bela Órfã”: até agora, pois, bênçãos... ah! temamos que chegue também uma hora de pragas. Mariana, velemos por Celina! – Sim... mas silêncio... eu sinto suas pisadas.
Com efeito, Celina entrou nesse momento na sala, e dirigiu-se a seu avô.
De ordinário melancólica, a melancolia era nela um encanto. Algumas vezes, risonha, o seu sorrir era um feitiço. Dessa vez Celina vinha com leve sorriso nos lábios.
– Sabe, meu avô? disse ela a Anacleto, a nossa boa vizinha, a velha Irias, lhe mandou pedir licença para visitar-nos, e agradecer-nos o que ontem por ela fizemos.
– Agradecer-te, menina, foi provavelmente o que ela mandou dizer. Pois então que venha...
– Sim, disse Mariana, vai mandar-lhe dizer que venha, nós ouviremos dela com prazer o teu elogio.
– Eu já respondi que viesse, em nome de meu avô.
– E fizeste bem... mas parece que chegou...
Ouviu-se ruído junto da porta da sala.
– Oh!... é ela!...
– Vai recebê-la, disse Anacleto.
A menina correu à porta.
– Entre! exclamou ela, nós a esperávamos com prazer.
A porta abriu-se em par. Celina não pôde reter um pequeno grito, e recuou dois passos.
Era Salustiano.
Elegante no trajar e nas maneiras, se não era bonito, não se podia dizer feio.
De estatura proporcionada, tinha cabelos castanhos, olhos pequenos mas vivos, e o rosto de uma cor pálida própria das constituições abaladas pelas enfermidades e vigílias; vinha vestido de bela casaca preta de abas muito largas; trazia ao pescoço linda manta de seda de cor, e vestia colete de chamalote branco, calças de pano preto sem presilhas, e excelentes botins envernizados; por debaixo do colete saía-lhe a cadeia do relógio, e dela pendia um enorme sinete.
Salustiano cumprimentou primeiro a Celina, sorrindo da surpresa que acabava de causar, e depois aproximou-se de Anacleto e de Mariana, que se haviam levantado para recebê-lo.
– Desculpe minha neta, disse Anacleto, ela contava ver entrar uma pessoa por quem ansiosa espera.
Celina olhou para seu tutor com indizível gratidão.
– Eu o compreendi logo, respondeu Salustiano. Não me posso julgar tão feliz que merecesse ver sua bela neta correr alegremente para receber-me.
– Ora... disse Mariana.
Anacleto e Celina não disseram nada.
Sentaram-se os quatro e começaram a conversar sobre objetos indiferentes.
Um observador que examinasse aquelas quatro personagens, teria muito que estudar nelas; e se entrasse no coração de cada uma, acharia ali um novo exemplo dessa superfície enganadora e falsa, com que a educação e a sociabilidade escondem às vezes sentimentos opostos e interior má vontade.
A conversação de Salustiano, que às vezes era mesmo agradável, quase sempre perdia muito por sarcástica e venenosa. Não poupava nem a ironia, nem o epigrama. Ele olhava com paixão e interesse para Celina; com presunção e orgulho para Mariana; com indiferença para Anacleto.
O ancião o tratava com aparente civilidade, mas havia sensível frieza em suas maneiras.
Celina tinha os olhos embebidos em seu avô. Parecia estar vendo nele o seu defensor; e como que fazia de conta que Salustiano não se achava na sala.
Mariana, à força de habilidade, conseguia fazer desaparecer todas essas sombras, e derramava enchentes de luz de seu espírito no meio daquele grupo.
Tratava Salustiano com indizível bondade e sustentava quase só todo peso da conversação.
No entretanto era Mariana quem ali mais aborrecia o presumido mancebo.
Esta cena era a mesma que se representava todas as vezes em que Salustiano vinha visitar aquela família, o que a miúdo sucedia.
Havia, devia de haver portanto um misterioso motivo que desse àquele presunçoso mancebo a força necessária para se impor ali de modo tão insólito.
Bateram palmas.
– Agora é sem dúvida ela, disse Anacleto; vai recebê-la, Celina.
A menina dirigiu-se à porta.
– E quem é ela?... perguntou Salustiano.
– Oh, senhor! Descanse... respondeu Mariana; não se incomode... é apenas uma velha.
– Ainda bem, tornou Salustiano rindo. Fazia-se necessária aqui para estabelecer um contraste.
À porta da sala apareceram então uma velha e um moço, Irias e Cândido.
Salustiano com um sorriso insolente, e com uma luneta ainda mais insolente, observava os recém-chegados, que vieram tomar assento.
Conversou-se sobre o acontecimento da véspera.
Irias tinha tomado por sua conta fazer o elogio da “Bela Órfã”, e relatou o caso com entusiasmo e gratidão. Quando chegou ao fim, Salustiano dirigiu-se a Cândido, e perguntou: – E o senhor o que fazia?...
– Ele?... queria lançar-se contra a canalha que me insultava, e o teria certamente feito se eu o não agarrasse com minhas mãos de ferro... porque eu sou velha... uma pobre mulher velha, disse Irias estendendo suas mãos compridas magras e nervosas; mas tenho força.
– E quando a senhora o não susteve mais, o que fez o senhor?...
– Quando ela me não susteve mais, disse Cândido, que havia corado até a raiz dos cabelos, já um anjo benéfico nos tinha salvado, e eu compreendi logo que para não ser indigno desse socorro deveria não descer até a canalha...
– Porque aliás... interrompeu com seu sorriso maligno Salustiano.
– Porque aliás, tornou Cândido ressentido-se, eu faria o que faz um homem de brio.
– E o que é que faz um homem de brio?...
– Pois o senhor não sabe? perguntou Cândido com acento muito significativo.
Salustiano corou por sua vez. Anacleto interrompeu os dois mancebos.
– Ora pois, disse ele; agradeçamos ao céu esse insignificante acontecimento, já que nos trouxe a vossa visita. Desde muito que conheço a nossa boa vizinha, mas nunca tinha tido o prazer de encontrar-me com o senhor.
– É meu filho adotivo, respondeu Irias; esteve muito tempo fora da terra, e apenas há dois meses voltou à velha casinha onde foi criado.
– Mora, pois, em sua companhia? – Sim... ocupa o nosso pobre sótão.
Celina olhou como admirada para Cândido, que fez um movimento de desagrado ouvindo as últimas palavras de Irias.
– Admiro-me de o não ter visto ainda, disse Mariana.
– Passa os dias fora de casa trabalhando, minha senhora, e quando se recolhe é já noite fechada.
– O senhor é operário?... perguntou Salustiano.
– Infelizmente não, respondeu Cândido, sou escrevente de advogado.
– Seja o que for, disse Anacleto, é um homem que trabalha, e por conseqüência digno da nossa amizade.
A conversação continuou por algum tempo ainda. Quando enfim a velha e o moço ergueram-se para sair, Anacleto disse: – Senhora Irias, nós somos conhecidos velhos; quanto ao sr. Cândido, declaro que simpatizei muito com ele e o quero ver assiduamente nesta casa. Somos vizinhos... seremos bons amigos.
CONCEDA-SE agora um olhar sobre o passado...
Era uma dessas belas noites de inverno dos países tropicais, onde, para vencer o frio, é de sobra o movimento e a lã.
A cidade do Rio de Janeiro estava em suas horas de poesia. A modesta fada do vale tinha sobre sua cabeça a lua cheia e graciosa que a inundava de luz; o orvalho noturno molhava-lhe as tranças; em redor dela animava-se a sua natureza opulenta e variada; e a seus pés dormia tranqüilo, ressonando apenas, seu mar de águas verde-claras, que simulava então um lago de pirilampos.
A natureza estava em festa. Os homens tinham também a sua. Ouvia-se o ruído de um sarau; mas não era no centro da alegre cidade, era no mais mimoso de seus arrabaldes.
O que havia de mais belo, de mais primoroso e rico na cidade do Rio de Janeiro, tanto pessoal como material, se achava reunido em uma elegante casa em Botafogo. Dava-se esplêndida festa; importa pouco conhecer a origem dela; o essencial é saber que havia uma festa.
A casa brilhantemente iluminada, ostentando riqueza imensa e luxo desmedido, era, apesar de vasta, pequena para a multidão que a pejava.
O jogo, a dança, a música exerciam ali seu império em salas diversas, e sobre vassalos diferentes.
Aqueles a quem a idade ou o estado afastava do amor, e enfim os poucos de todas as idades e estados que eram escravos da mais terrível paixão, prestavam vassalagem ao jogo.
Os outros todos corriam para as salas de dança e música: lá estava a mulher.
Haviam sobre cem ainda muitas senhoras.
O estrangeiro curvava-se gostoso sob o poder dessas vistas ardentes jogadas pelos olhos negros das brasileiras. Ali o árabe lembraria baixinho suas canções aos olhos das gazelas...
Mas no meio dessas mulheres todas, entre mais de cinqüenta virgens belas em todo fulgor de verdes anos, com todo interesse de sua intacta pureza, de sua quase angélica inocência, ainda assim levantava sua cabeça de rainha uma senhora já casada, e que não se podia dizer menina como as outras.
Alta, elegante, extremamente bem feita, de cabelos e olhos negros, cor morena, lábios grossos e belos dentes, ostentava uma beleza especial. Havia em seus modos uma mistura de segurança e nobreza que impunha respeito e admiração; de voluptuosidade e ardor, que desafiava lascivos desejos. Era uma beleza como que selvagem e perigosa. Essa mulher tinha sobretudo um olhar insolente, uma voz melodiosa, e um andar provocador.
Trazia ela os cabelos primorosamente penteados e ornados com uma preciosa borboleta de brilhantes; rosetas das mesmas pedras nas orelhas, e o colo cor de jambo, nu, para melhor ostentar sua perfeição; seu vestido era de seda cor de Isabel, e adivinhavam-se enfim dois pequenos pés presos em sapatinhos de cetim. Tinha na mão direita um ramalhete de violetas, e na gola do vestido, mesmo junto da axila, um cravo rajado, que exprimia um não sei quê de provocadora graça.
Não era uma incógnita: a assembléia toda conhecia o seu nome e respeitava-o.
Tão encantadora como honesta, contentavam-se com admirá-la.
Formara-se defronte, mas um pouco longe dela, um círculo de mancebos que faziam por mil maneiras o seu elogio, depois de haverem discutido e concedido a coroa de rainha daquela festa à bela senhora: – É um homem verdadeiramente feliz, disse um deles, o marido de uma tal mulher.
– Feliz por todas as razões, acrescentou um segundo.
– Como por todas as razões?... perguntou terceiro mancebo.
– Oh! pois será preciso explicar-me?...
– Bem entendido, se for de sua vontade.
– Pois bem: feliz porque possui uma mulher formosa.
– Convenho.
– Dotada de bastante espírito.
– Tenho ouvido dizer.
– Que é fiel aos laços que a ligam. – Devo crê-lo.
– Que ama a seu marido exclusivamente.
– Quem sabe? – Agora, meu caro, sou eu que tenho o direito de pedir explicações.
– Estou pronto para dá-las.
– Vamos, pois.
– Digo que estou fatigado de ouvir falar na pureza e lealdade daquela senhora.
Oh!... chamar-me-ão dissoluto... dirão que tenho a moral pervertida... pode ser; mas confesso que no ostracismo de Aristides votaria como o camponês que o desterrava por se achar cansado de ouvi-lo chamar – o justo.
– Com efeito!...
– E ainda mais: eu respeito muito as leis da natureza. Creio firmemente que todos podemos ser escravos do erro, e que portanto se a interessante senhora, que segundo creio, faz parte do gênero humano, ainda não errou, pode errar.
– Mas ao menos ainda não errou.
– Dá-me às vezes vontade de tentar... eu daria metade da minha riqueza para ser uma verdadeira tentação! Alguns sorrisos aplaudiram o leviano; um só dos que estavam no círculo moveu-se com sentimento de reprovação e disse: – Senhor, sou amigo do marido da senhora de quem se trata e me penaliza que com tanta ligeireza se fale dela em minha presença.
– Mas, meu Deus, ninguém a ofendeu aqui; eu falei somente no respeito que se deve às leis da natureza.
– Uma vida pura, senhor; um comportamento ilibado, merece alguma consideração. É uma mulher encantadora, convenho; ninguém contudo ousa lançarlhe em rosto a mais passageira leviandade, nem a menor tendência para o galanteio.
Se tem algum crime, é o de ser bela.
– Devia ter mais uma virtude.
– E qual?...
– A de se deixar amar.
– Senhor, vejo que cumpre retirar-me. Defronte um do outro por mais tempo, poderíamos perturbar o prazer e harmonia desta assembléia; porque eu respeito a amizade, e o senhor insulta uma mulher, por saber que as mulheres não se vingam.
Dizendo assim, o mancebo travou do braço de um amigo, e retirou-se para o fundo de outra sala.
– Henrique! disse-lhe o amigo, tu estás pálido como a morte.
– É porque tenho uma morte no pensamento, Carlos.
– Como?... que queres dizer? – Quero dizer que amanhã hei de bater-me com aquele insolente, a menos que ele sobre ser insolente, não seja também covarde.
– Estás louco, Henrique? – É possível... e desde muito.
Os dois moços ficaram em silêncio alguns instantes. Finalmente, Carlos, com voz grave e solene, disse: – Não te assiste o direito de vingar aquela senhora.
– Como?... não sou amigo de seu marido?...
– Sim; porém o tens ofendido dez vezes mais que o estouvado mancebo que falava há pouco.
– Ofendido?... eu?... de que modo?...
– Henrique, tu amas a mulher do teu amigo.
Henrique estremeceu vivamente, e depois respondeu em voz baixa, apertando a mão de Carlos: – É verdade; mas sei amá-la em segredo.
No entretanto continuavam a gracejar no círculo que pelos dois jovens havia sido deixado.
– Pois bem, disse o leviano, vou vingar-me nobremente daquele assomado mocinho, que daqui saiu há pouco.
– E por que meio?...
– Trabalhando por tornar a nossa rainha um pouco menos merecedora de sua dedicação e entusiasmo.
– É uma empresa um pouco difícil.
– Eu a reputo bem simples.
– E então?...
– Vou requestá-la.
– Quando começa?...
– Boa pergunta... já! – Para ser repelido.
– É provável que não; e para o mostrar... eis-me em campo. Adeus... rezem por mim...
– Uma palavra ainda...
– O que temos?...
– Uma concordata: se alcançar vitória, trar-nos-á uma violeta do buquê que ela cheira neste momento.
– Não; uma violeta é bem pouca coisa: trarei no meu peito aquele cravo, cujo pé deve estar fazendo cócegas terríveis na axila da nossa bela.
– Está dito.
– Adeus, pois... e outra vez rezem por mim.
O presumido mancebo foi direito até a cadeira em que se achava sentada a senhora morena.
– Minha senhora, disse ele, eu vinha declarar a V. Exa. que sou um consumado traidor.
– Sinto, senhor, não poder louvá-lo por isso.
– Estava ali com aqueles senhores falando mesmo a respeito de V. Exa.
– É possível.
– Julguei que V. Exa. estimaria saber o que dizíamos.
– Enganou-se; sou bem pouco curiosa. Se eram elogios, não sabendo deles, poupo-me a agradecimentos que às vezes me custam muito; se me desabonavam, furto-me ao desgosto de ouvir censuras que realmente, ainda quando justas, não agradam nunca.
– E se acaso se houvessem dito coisas que muito conviesse que V. Exa. as soubesse?...
– Pediria que as fossem referir a meu marido.
– E se o marido de V. Exa. não as devesse saber?... se mesmo cumprisse que ele as ignorasse sempre? replicou o mancebo.
– Não compreendo... mistérios tão assombrosos, mas que se tratam em uma sala de baile, ao compasso das contradanças, e em um círculo de moços, alguns dos quais devem ser bem levianos, são em verdade coisas muito incompreensíveis! – Se todavia V. Exa. quisesse arrasar esses segredos, achar o fio desse labirinto ou decifrar essa charada...
– Senhor... sou tão pouco inteligente!...
– Eu me obrigaria a aclarar-lhe tudo, desempenharia meu papel de consumado traidor, com a condição de V. Exa. aceitar o meu braço e dar comigo um passeio.
– Ah!... que tempo e que eloqüência que V. Sa. gastou para pedir-me um passeio!...
– E então?... V. Exa. será tão benigna que me não rejeite?...
– Mas eu estou tão cansada! – Vejo que é ser importuno insistir, mas insisto.
– Sinto que é ser incivil teimar, mas eu teimo.
– Teima em quê?...
– Em ficar sentada.
– Minha senhora, compreendo que para quem não tem a honra de ser de V.
Exa. conhecido, eu já pretendo muito; mas pode V. Exa. estar certa que eu não seria capaz de ofendê-la.
– Oh! não é isso, creia que sou pouco medrosa.
– Há pouco eu juraria o contrário.
– Pois passeemos.
Um raio de alegria terrível brilhou nos olhos do mancebo. Guardou silêncio por alguns momentos, e quando se achou fora da sala da dança, começou dizendo: – Quer V. Exa. que eu comece a ser traidor?...
– Ah! pois deveras temos uma história?...
– E no fim um verdadeiro mistério.
– Eu lhe escuto.
– Verá que vou trair a mim mesmo.
– Diga... diga.
– Sustentava-se, no círculo em que eu me achava, que V. Exa. era encantadora; todos concordaram e eu também.
– Só isso?...
– Engraçada; convieram todos, e eu também.
– Mais nada?...