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Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

– Espirituosa; todos apoiaram, e também eu.

– E que mais?...

– Inconquistável; todos o afirmaram, menos eu.

– Menos o senhor?! – Sim, minha senhora; eu declarei que não havia mulher de quem algum homem se não pudesse fazer amado.

– E disse bem, porque eu amo meu marido.

– Perdoe-me; é que eu me não referia ao marido de V. Exa.

– Ah! senhor!... isso agora...

– Minha proposição foi geralmente combatida.

– Fizeram-me justiça.

– Mas eu fui por diante; sustentei quanto havia dito e jurei demonstrá-lo.

– E como, senhor?...

– Fazendo-me amado de V. Exa.

A senhora morena olhou espantada para o insolente que assim lhe falava e encontrou fitos em seu rosto dois olhares frios, mas impassíveis.

– Senhor!... disse ela com voz alterada.

– Jurei, prosseguiu o mancebo, que conseguiria isso hoje mesmo.

– É incrível tanta ousadia!...

– E que em sinal de minha vitória levaria no meu peito o cravo que está aí ornando o de V. Exa.

– Eu tenho pena do senhor, porque realmente me parece um pobre louco.

– Pena tenho eu de V. Exa., disse o mancebo apertando o braço da senhora.

Porque eu hei de daqui a pouco aparecer com esse cravo no meu peito; e daqui a pouco V. Exa. há de na sala que deixamos, pelo menos, fingir-se dócil a meus cumprimentos e grata a meus extremos.

– Cometi uma imprudência em aceitar o braço de um fátuo que não conhecia, respondeu com nobre altivez a senhora; mas o senhor vai já levar-me a meu lugar, se não quiser ver retirar-me só, e dizer em voz alta que qualidade de homem se atreveu a oferecer-me o braço.

– Tanta fereza!...

– Senhor... tornemos à sala... aliás...

– Pois bem... V. Exa. ouvirá primeiro duas palavras, e depois... veremos.

No fim de meia hora os dois entraram na primeira sala.

O cravo que ornava o peito da senhora, tinha passado para o do mancebo. Ele estava radiante; ela muito pálida.

Henrique quando viu o cravo rajado no peito do atrevido moço, deixou-se cair em uma cadeira, como fulminado por um raio.

Depois, passada uma hora, ergueu-se, e Carlos chegou-se a ele.

– Então, Henrique, pretendes ainda bater-te amanhã?...

– Não Carlos; mas parto para França no primeiro navio que der à vela.

Esta cena ocorrera no meado do ano de 1843.

A senhora morena que se havia tornado pálida, chamava-se Mariana.

O nome do mancebo fátuo que se fizera radiante, era Salustiano.

CAPÍTULO VIII O POBRE ENTRE RICOS

EM CONSEQÜÊNCIA das relações que com seus vizinhos entabulara inesperadamente, Cândido teve de modificar esse correr de vida a que se havia condenado. Se o emprego de seus dias era ainda como dantes todo votado ao

trabalho, parte de algumas de suas noites já ele passava fora do velho sótão.

O convite de Anacleto não fora simples fórmula de civilidade. Duas noites depois da tarde em que os moradores do “Purgatório-trigueiro” fizeram sua visita de agradecimento à “Bela Órfã”, Cândido recebeu um bilhete de Mariana, no qual, da parte de seu pai, o convidava para passar algumas horas no “Céu cor-de-rosa”.

De então por diante, força foi repetir a miúdo essas noites de serão, porque, ou novos convites de Anacleto vinham lembrar-lhe e chamá-lo para esse gozo, ou Irias o instigava a ir procurar a sociedade de tão bons vizinhos, mais que tudo porque contava que assim se poderia melhor destruir aquela acerba melancolia de seu filho adotivo.

E Cândido, que parecia abandonar-se a uma como que obediência passiva; que sempre mostrava corresponder de má vontade aos convites de Anacleto; que nunca deixava de resistir às instigações da velha Irias; que quando transpunha o alpendre do “Céu cor-de-rosa”, parecendo querer desculpar-se ante sua própria consciência, dizia entre si “não é voluntariamente, é só por condescendência que aqui venho”; Cândido, se não tivesse até então receio de estudar a fundo o estado de seu coração, sentiria o como lhe palpitava açodado, ao ele subir a escadinha da habitação da “Bela Órfã”.

Cândido estava na situação daqueles que, tendo o espírito mergulhado na dúvida e o coração nadando na verdade, mentem a si mesmos sem querer... sem sentir.

E todavia os serões do “Céu cor-de-rosa” deviam agradar ao jovem melancólico. Ali não o podia turvar nem o peso de uma multidão ruidosa, nem o cansaço de uma vigília prolongada. Os convidados eram poucos, escolhidos, e sempre os mesmos; e à meia-noite todos se retiravam. Até à meia-noite conversavase, jogava-se, e quase sempre o domínio dos serões era exercido pela dança e pela música.

O papel de Cândido era contudo muito limitado nos serões do “Céu cor-derosa”.

Ele nunca jogava; dançara à força uma ou outra vez, conversava quase sempre com Anacleto, e a respeito de música se desculpara como pouco entendedor da matéria.

Apesar, porém, de sua completa inação, era Cândido muito bem tratado no “Céu cor-de-rosa”. Anacleto o distinguia da maneira mais positiva; há um mês

apenas que vira esse mancebo e já parecia votar-lhe decidida e forte amizade.

Mariana o cercava de atenções e cuidados; Celina o tratava com angélica doçura. E a sociedade que costumava reunir-se no “Céu cor-de-rosa”, acompanhava ou fingia acompanhar os donos da casa nos sentimentos que pareciam nutrir por Cândido.

Um só homem do mancebo se afastava; um só homem ali concorria, que mostrava desestimar o pobre mancebo: era Salustiano.

Também de sua parte, Cândido pagava com extrema gratidão aquelas demonstrações de estima.

Ao pé de Anacleto seu coração se abria todo a esse nobre e expansivo sentimento que se chama amizade; sentimento elevado e belo, que um vil interesse não mingua e acanha, nem a baixeza do ciúme tolda e degenera.

Contemplando Mariana, a acerbidade de sua melancolia se aplacava, se mudava quiçá em doce tristura; ele achava naquela mulher um encanto poderoso, que o convidava a amá-la não com esse extremo ardor com que se adora uma amante, mas com a afeição sossegada e benigna que se tributa a uma irmã... a uma boa amiga.

Seguindo algumas vezes com os olhos a “Bela Órfã”, ele sentia... mas era esse o sentimento que ainda Cândido não ousara classificar. Ele olhava de relance apenas; ouvia-a com indizível enlevo; tinha de cor o eco de suas pisadas; mas não se atrevia a dizer a si próprio o que sentia por Celina.

Ao resto da sociedade pagava Cândido cumprimento por cumprimento, delicadeza por delicadeza.

Um só homem havia ali de quem o mancebo se afastava: era Salustiano.

Antipatia inexplicável tinha entre eles dois levantado uma barreira, ou cavado um abismo.

Por conseqüência, devemos concluir que, apesar da presença de Salustiano, o coração de Cândido agradavelmente se dilatava naqueles serões?... Antes de assim concluirmos, cumpre primeiro lembrar-nos de que Cândido era um moço pobre e sem nome, e em seguida estudarmos a fisiologia do coração do pobre, e a fisionomia da sociedade em que ele vive; sociedade geralmente pervertida, que repele sem discutir a pobreza e o desvalimento.

Estudemos, pois, e comecemos pela sociedade.

Pois que na vida moral e física do universo é tudo mais ou menos compensado, cumpria que, em paga de seus mil dissabores, provasse o homem pobre uma feliz compensação. Ele, que de tantas coisas carece na triste vida que vive; ele, verdadeiro Tântalo, que vê no mundo um mar de gozos, e a nenhum desses gozos pode tocar com os lábios; ele devia achar na sociedade daqueles que mais têm, uma hora de esquecimento daquilo que em vão deseja.

Mas o que é que todos os dias estamos vendo?...

Nós não queremos falar do homem intrometido que, pobre ou não, em toda parte aparece, arranca à força o seu quinhão em tudo, não querendo ver a cara má que lhe fazem, nem querendo ouvir a indireta insultante que se lhe atira ao rosto.

Falamos, criamos para dele falar, o pobre cheio de mérito e de pudor, que vê, que ouve, que observa, e que sente.

O que é que lhe dá a sociedade?... o que é que dá a ele, tão escondido por sua modéstia, que precisa de uma mão que o levante para aparecer, e ser visto?... o que é que lhe dá?...

Quereis ver como a semelhante respeito se caracteriza a sociedade?... Pois bem.

O pai de família segue esse homem com os olhos, e quase que se incomoda se ele olha para uma de suas filhas, porque o pai de família tem medo desse olhar do pobre; do pobre que não pode sustentar o peso de uma carteira, onde se julgue seguro o porvir de uma mulher.

O mancebo não procura, foge antes do jovem pobre, porque receia que sua amizade pesada lhe seja; que ele o ocupe alguma vez... ele, que nada tem para poder servi-lo um dia.

E aqueles que não são pais de família, nem mancebos, e que contudo são ricos, olham para o homem pobre por sobre o ombro, envergonhar-se-iam de lhe dar o braço num passeio, e quase que têm pejo de o considerar de sua mesma espécie.

A mulher... oh! mas em honra da verdade digamos aqui: a mulher é apenas que ainda retém alguma generosidade e nobreza no meio desta nossa perversão tão grande; a mulher está aí no jogo de altas inspirações e sentimentos elevados, envergonhando o homem todos os dias. Mas pode ir o pobre até a mulher?... como? se para chegar até ela é preciso vencer essa barreira de gelo, essa massa imunda que a prende como, se adiante da mulher está o homem?...

E quereis saber o que se pretende e se consegue com isso?... que uma linha divisória separe os filhos de Deus; que o mundo pobre faça seu ninho muito à parte, e não vá conspurcar o céu da riqueza, que a casa do rico não seja empestada pelo hálito do pobre!...

Erga-se embora o pai de família, e diga que nós mentimos; brade o mancebo, e jure que insolente aleivosia lhe levantamos. Realmente um ou outro pai de família, um ou outro mancebo desmente essa regra; mas o gênero humano aí está em totalidade demonstrando-a na prática de um modo abominável.

Será que o gênero humano esteja assim todo, todo pervertido?... não. Em regra geral, cada homem individualmente tomado, cada um de per si repele a teoria infernal, mas vai realizá-la na prática; porque cada um de per si diz que não é ele que há de emendar o mundo, e, em uma palavra, porque esse ente abstrato, pervertido, degenerado, imundo, a nossa sociedade enfim, aceita, abraça a teoria, e, como já dissemos, horrivelmente a pratica.

É por isso que a sociedade não discute entre o rico estúpido e o pobre instruído: a vitória cabe sempre ao primeiro.

É por isso que ela, sem pudor, deixa a um canto a pobreza honrada, e festeja, lambe os pés da riqueza, mesmo indignamente adquirida.

É por isso que a porta que se não abre ao pobre modesto e nobre, se escancara ante o milionário imoral, cuja presença em uma casa é ás vezes o anúncio da desonra.

É por isso... mas basta. E se a sociedade disser que mentimos, nós a mandaremos olhar para si mesma; e ela há de por força corar de vergonha, observando-se.

Ainda se o caminho da fortuna e da riqueza se facilitasse a todos os homens...

mas não; uma porta de ferro a fecha, e o pobre não pode vencê-la, porque não tem a chave que abre todas as portas... o dinheiro.

E agora pensareis que por isso maldizemos a sociedade geral?... que sobre os ombros lhe lançamos a pesada culpa de tanta miséria?... Não, mil vezes, não! Não deve ser maldita a sociedade geral; sê-lo deve somente a sociedade que governa.

Aí está o poeta nacional que brada: “Nasce de cima a corrução dos povos”.

E aí está a sociedade que governa, justificando o bradar do poeta: Com a impunidade espantosa do rico.

Com o patronato, o escândalo, e a servidão vergonhosa que se presta ao rico.

Com a preferência inaudita que em tudo se dá mil vezes ao rico sem mérito algum, sobre o homem que, sendo embora distinto, é todavia pobre.

O que queríeis que fizesse a sociedade geral?... ela hoje, como sempre, arremeda a sociedade que governa.

É o governo quem desmoraliza quem tem desmoralizado o povo; o erro vem daqueles a quem cumpria mostrar o bom caminho, caminhando eles mesmos adiante.

Mas seja de quem for a culpa, o resultado é sempre o mesmo. A sociedade, geralmente pervertida, repele a pobreza o desvalimento.

E agora compreendei conosco o homem pobre lançado aí no meio da sociedade que o rejeita. Entrai conosco dentro do seu coração para poder bem sentir o que se passa nele.

Em conseqüência desse constante sofrer, em conseqüência da inabalável firmeza com que a sociedade desenvolve o nefando programa da onipotência da riqueza, resulta que profundas e terríveis convicções se imprimem no coração do pobre. Ele se acha convencido que nas relações políticas não se dá jamais igualdade de lei entre rico e pobre, quer se deva “proteger”, quer “castigar”. Há iniqüidade sempre; porque para o pobre não há proteção, mas há castigo, e para o rico há proteção, há patronato, e há impunidade.

Nas relações domésticas, em conseqüência dessa depravação pública, tributase um culto espantoso à riqueza, e o homem pobre acha quase sempre naqueles que mais têm, ou desprezo, ou um esquecimento involuntário, que dói ainda mais, porque é a demonstração viva da própria miséria.

Sabeis qual é, e qual será o resultado de tudo isto?...

É que hoje o pobre não tem amor às instituições, nem confiança no governo; porque as leis servem somente de puni-lo, e o governo não cura de protegê-lo.

É que amanhã o pobre terá em desprezo a lei, e há de desconfiar da sociedade que governa; e depois de amanhã... e no futuro, num dia enfim que felizmente bem longe está ainda, o povo pobre que é muito mais numeroso do que o dos povo rico, perguntará àqueles que estão de cima – se ainda não é tempo de minorar-se o peso

de sua cruz, se o seu calvário não se acaba de subir nunca.

É que hoje o pobre indiferente e sofredor, carrega o seu peso silencioso como o camelo, e um dia mais tarde, – ai de nós se ele chegar! – levantará a cabeça, orgulhoso como o leão, e terrível como o tigre.

Não se diga que o mundo é hoje como fora ontem, e como será amanhã; não! No mundo tudo sobe e desce gradualmente, e neste caso é preciso convir que a perversão e a imoralidade tem ido subindo de grau em grau. Deus permita que também a paciência dos que sofrem não tenha ido igualmente de grau em grau subindo; porque então, quando o termômetro terrível marcar o último e mais alto grau de perversão, marcará também o último e mais alto de paciência.

E essa repulsão, esse desvalimento, o homem pobre encontra por toda a parte.

No corpo abstrato que representa a grande família, no alto corpo social recebe ele esses golpes terríveis e mortais, que ferem seus direitos naturais e civis, que destroem a igualdade do gênero humano, que dividem os filhos de Deus em dois bandos: – protegidos e repelidos.

E na pequena sociedade das famílias dos ricos, o homem pobre se atira a um canto; vê rir, vê brincar, vê gozar, vê ser feliz; e quase nunca ri, goza ou brinca, e jamais é feliz. Algumas vezes desprezado, quase sempre involuntariamente esquecido, ele fica ao canto com a convicção de sua miséria. Na pequena sociedade de que falamos, ele sofre pequenos mas repetidos golpes. Pequenos, mas que lhe doem muito, porque lhe vão ferir esses pontos mais dolorosos da sensibilidade.

E essa convicção da própria miséria, e de seu imenso desvalimento, tem tão grande influência no homem pobre, que às vezes mesmo em um círculo excepcional, mesmo na sociedade de alguns poucos que abominam a máxima diabólica, que sendo ricos não sabem esquecer involuntariamente o pobre, este não se anima a tomar para si um papel igual ao dos mais que ali estão, porque embora excepcional seja esse círculo, o pobre tem na alma a convicção de sua miséria e de seu desvalimento, e por isso se entorpece ou receia... acanha-se.

Era esta última a posição de Cândido nos serões do “Céu cor-de-rosa”.

Que importavam as demonstrações de amizade de Anacleto, as atenções e cuidados de Mariana e a doçura angélica de Celina?... que importava a atmosfera pura e leve que no “Céu cor-de-rosa” ele respira, se dentro de seu coração lhe estava pesando a profunda convicção da miséria do pobre?... portanto, ele se deixava ficar escondido em um canto da sala... do seu lugar... no lugar que geralmente na casa daquele que muito mais tem, se deixa ficar o que muito menos tem.

Mas aí mesmo, aí nesse retiro vinha esmagá-lo o peso do seu infortúnio. Daí ele via Celina cercada e lisonjeada por mancebos que podiam sorrir para ela, ouvia lhe dizerem baixinho o elogio de sua beleza, e depois irem cantar com ela duetos apaixonados; mancebos enfim, que podiam merecê-la; e ele via esses sorrisos, ouvia o murmúrio dessas palavras ditas de súbito... e não podia fazer outro tanto, porque, quem sabe se por única resposta a seus cumprimentos, Celina lhe perguntaria: – Quem és tu?...

E suponhamos que, graças à sua virtude e urbanidade, nada lhe dissesse Celina, não poderia essa menina perguntar dentro de si mesma: – Quem é ele?...

E não basta simples suposição para fechar a boca do homem pobre e desconhecido, que tem no coração um pouco desse orgulho sagrado que todo o homem de honra se ufana de ter?...

Portanto, os serões do “Céu cor-de-rosa” não ofereciam a Cândido o encanto imenso que em outras circunstâncias lhe ofereceriam. A razão disso estava nele mesmo.

Mas, enfim, um pouco à força dos convites de Anacleto, e das instigações da velha Irias, e um pouco à força dos convites e das instigações de seu próprio coração, Cândido era um dos mais assíduos freqüentadores do “Céu cor-de-rosa”.

CAPÍTULO IX UM SERÃO DO “CÉU COR-DE-ROSA”

A NOITE estava bela, a lua clara e brilhante e brisas suaves e frescas faziam esquecer a calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, que acabara de

passar.

Um grupo de curiosos e amadores tinha-se formado defronte das janelas do “Céu cor-de-rosa” e aplaudia os cantos agradáveis que ali eram entoados.

Um velho guarda-portão estava sentado à porta do alpendre da casa feliz.

Jacó e Helena observavam de suas janelas o que se passava e o que se dizia.

Dentro do “Céu cor-de-rosa” reinava a felicidade e borbulhava o prazer.

Cerca de trinta pessoas entre senhoras e homens, gozavam o serão daquela noite.

Mariana estava radiante porque defronte dela, e com os olhos embebidos em seu rosto, Henrique parecia crer-se ditoso.

Salustiano não se mostrava ressentido disso, e fazia a corte exclusivamente à “Bela Órfã”.

Cândido, um pouco afastado das senhoras, não parecia alegre nem triste; ia, a pesar seu, bebendo a largos tragos o terrível veneno d’alma que se bebe pelos olhos e se concentra no coração. Sem o sentir, ele ficava às vezes em êxtase, contemplando Celina do mesmo modo que pelo pensamento se prendia à vida dela inseparáve1, como a sombra de seu corpo. Longe da “Bela Órfã”, receando aproximar-se, esquecia-se de si próprio em aéreas meditações; ou outras vezes despertava cruelmente sacudido pela mão espinhosa do ciúme, que lhe mostrava um jovem conversando a sós com Celina, ou sorrindo para ela.

Os sinos tocaram nove horas.

– Oh! bem, disse Mariana. Há uma hora que cantamos; deixemos descansar aqueles que nos ouviram, conversemos também.

– A comandante das moças deu a voz de – liberdade! – ao seu batalhão, disse

um homem de meia-idade, que se supunha muito espirituoso.

– Então hoje não se dança aqui, d. Celina? murmurou ao ouvido da “Bela Órfã” uma interessante mocinha.

– Eu sei, d. Felícia! se você quer dançar, eu vou dizer a minha tia.

– Deus me livre! – Mas por quê?...

– Porque aqueles senhores haviam de pensar que eu morro por dançar.

– Que tem isso? pensavam a verdade.

– Sim... sim... porém pensariam também que eu gosto de dançar por causa deles... para conversar... para ouvi-los dizer muitas coisas...

– E não é por isso?... perguntou Celina sorrindo.

– Qual?...

– Então por que é, d. Felícia?...

– Ora, é porque a gente sempre gosta de se mostrar.

– Bravo, d. Felícia, exclamou outra moça, que se sentava perto de Celina.

– Ah! você estava ouvindo, D. Mariquinhas?... pois olhe, é muito mal feito vir escutar o que se está falando em segredo...

– Obrigado pela repreensão, minha senhora, disse um mancebo que delas se aproximava nesse momento; eu a recebo, porque, na verdade, a mereço.

– Oh! não; não era a V. Sa. que eu me estava dirigindo.

– É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.

– Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.

– Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos! – Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio! – E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia! – E que mistério... era um desejo imenso de...

– D. Mariquinhas! exclamou Felícia.

– Veja como ela cora... não.... não digo. Uma coisa espantosa... que pode produzir conseqüências tão desagradáveis...

– Deveras, minha senhora?...

– O senhor é de segredo?...

– Muito.

– Pois bem: d. Felícia...

– Diga.

– Quer dançar.

O moço não pôde deixar de rir.

– Pois que pensa, minha senhora?... disse ele; mesmo isso é um mistério: quem sabe a razão por que ela quer dançar?...

– Não é por nada, interrompeu Felícia. Eu não disse, eu não desejei coisa alguma; o que me parece é que d. Mariquinhas está doida por uma contradança.

– Lá isso também é verdade...

– Pois é fácil satisfazer seus desejos; eu vou tocar.

O moço dirigiu-se ao piano.

– Ah! d. Mariquinhas! tornou Felícia; você sempre está com disposição para gracejar!...

– Mas agora não foi gracejo, foi cálculo. Eu queria dançar. Olhe, está vendo aquele moço de óculos verdes?... pediu-me uma contradança no último serão e devo pagar-lha neste...

– Como anda você tão adiantada!...

– Qual! pelo contrário, atrasada... estou carregada de dívidas... em três bailes não pago o que devo.

– Bom, lá se tocam os compassos de prevenção... d. Leocádia já está bulindo na cadeira... que maldito costume tem aquela moça! – Coitada... é com razão. O exercício... o movimento a torna um pouco menos amarela.

As moças foram interrompidas por alguns cavalheiros que a elas se chegaram pedindo contradanças.

Mariana acabava de aproximar-se de uma janela. Salustiano foi ter com ela.

– Uma contradança... a que se vai dançar, minha senhora...

– Esta não é possível, já tenho par.

– A seguinte?...

– Também já a prometi.

– Ao mesmo cavalheiro da primeira, sem dúvida... disse sorrindo Salustiano.

– É verdade, respondeu Mariana sem hesitar.

– O sr. Henrique?...

– Ele mesmo.

– Bem, tornou Salustiano mudando de tom: hei de logo pedir-lhe um obséquio de outra ordem.

Henrique veio dar a mão a Mariana, lançando um olhar de desprezo a Salustiano, que o pagou com seu costumeiro sorrir sarcástico.

Salustiano passou ainda pelo desgosto de achar Celina engajada para lª, 2ª e 3ª contradanças; eram tantas quantas se costumavam dançar em cada serão.

A dança começou. Cândido não se tinha levantado, e conversava então com a velha Irias.

Anacleto chegou-se a eles.

– Que faz aqui, sentado e triste como um velho de setenta anos, este moço que não tem mais de vinte?...

– Estava repreendendo-o por isso, respondeu Irias. É uma cabeça cheia de teias de aranha; sabe cantar, e não se deixa ouvir; dança com graça, e o estamos vendo sentado.

– Pois ele canta?...

– Não o sabia, sr. Anacleto?...

– Disse-nos que pouco entendia de música.

– Olhem só que mentiroso! exclamou a velha: canta, e tem excelente voz.

– Minha mãe, disse Cândido, para que me há de estar comprometendo? – Canta, sr. Anacleto: o sujeitinho canta...

– Deixe-o estar, que o tomo de agora por diante à minha conta.

Terminara a primeira quadrilha.

– Venha cá, meu caro senhor, disse Anacleto tomando o braço de Cândido, venha cá, e fique sabendo que não gosto de caras tristes em minha casa.

O velho levou o mancebo até junto de sua neta. Cândido sentiu um calafrio geral coar-lhe por todo corpo.

– Celina, disse Anacleto, apanhei este maganão em um crime: é mentiroso, é hipócrita, e tudo quanto há de mau neste mundo. Sabe cantar excelentemente, e veio aqui dizer-nos que nada sabia de música.

– É, senhor, que eu... realmente...

– Adeus, meu caro, já não creio em suas desculpas. Celina, fazes anos daqui a quatro dias; tomaremos sem dúvida chá com nossos amigos na noite desse belo dia: não queres pedir alguma coisa ao sr. Cândido? A “Bela Órfã” entendeu o pensamento do velho, e disse ao moço: – Peço-lhe que nessa noite nos dê o prazer de se deixar ouvir cantar.

– E agora?... responda, meu cavalheiro.

– Cantarei, minha senhora, respondeu o mancebo a tremer.

– Tinha-se formado um círculo à roda de Anacleto, Cândido e Celina.

– Bem, bem, tornou o velho esfregando as mãos; mas resta que de tua parte agradeças de antemão ao nosso mentiroso o sacrifício que vai fazer por teu respeito.

– Mas eu não sei que espécie de agradecimento...

– Sabes o que ele me dizia há pouco? que desejava ardentemente dançar contigo a próxima quadrilha...

– Senhor... balbuciou Cândido.

– Homem, não me venha com novas mentiras; fale, quer ou não quer dançar com minha neta?...

– Minha senhora, disse o mancebo dirigindo-se a Celina; ouso pedir-lhe essa graça...

A moça hesitou primeiro, e enfim respondeu: – Com muito prazer.

Depois, levantando os olhos, viu diante dela Salustiano, a quem um quarto de hora antes tinha negado a mesma quadrilha que acabava de conceder a Cândido.

Desfez-se o círculo que estava formado defronte de Celina. Salustiano retirouse sem dirigir-lhe uma só palavra. As moças ficaram de novo livres da companhia dos homens.

– D. Celina, perguntou Felícia, por que é que aquele moço tremia tanto quando te falava?...

– Eu sei! é talvez por ser naturalmente acanhado.

– Restava sabermos se ele tremeria do mesmo modo falando a qualquer de

nós outras, acudiu a maliciosa Mariquinhas.

– Por quê?...

– Porque se não tremesse, tiraríamos uma bela conseqüência.

– Ma1iciosa!... disse Felícia, enquanto Celina fazia-se um pouco corada.

O piano chamou os pares à sala.

– Nunca houve piano que tocasse mais a propósito, tornou Mariquinhas.

Celina estava me contando, sem querer, umas poucas de coisas no rubor de suas faces.

– Ah! d. Mariquinhas!...

– Cuidado comigo... não hei de tirar os olhos de você, enquanto dançamos.

Dançou-se a segunda quadrilha.

Era a primeira vez que Cândido dançava ao lado de Celina. Uma mistura de prazer e de acanhamento, de satisfação imensa e de como dúvida do gosto de tão grande ventura, dava ao rosto do mancebo uma expressão nova, bela e interessante.

Acrescente-se a isso a perturbação de Celina, que se sentia devorada pelos olhos curiosos de Mariquinhas, e conceber-se-á a sensação que experimentavam os dois quando suas mãos se encontravam, quando se viam dançando defronte um do outro, esses dois jovens, uns dos quais não sabia dizer se amava, e o outro não compreendia ainda talvez o que era amor.

Em silêncio ambos, debalde uma e outra vez tentou Cândido encetar alguma conversação. Tudo se terminava em breves monossílabos pronunciados a tremer por qualquer dos dois.

A segunda quadrilha terminou; e no correr da terceira teve princípio um episódio que ocupou por alguns momentos a atenção da sociedade.

Em um passo mais rápido que Celina devia fazer, caiu-lhe do cabelo um botão de rosa, que foi a tempo apanhado pelo seu cavalheiro de vis-à-vis.

Terminada a quadrilha, o cavalheiro dirigiu-se à “Bela Órfã”, e mostrando-lhe o botão de rosa, disse: – Na Inglaterra, minha senhora, os grandes fidalgos quando jogam, desprezam o dinheiro que lhes cai no chão, e que enfim fica pertencendo ao criado mais feliz que primeiro o apanha. Levantei este botão de rosa que lhe caiu quando dançava; e dar-me-ei por extremamente venturoso se dispensar a flor que rolou a seus pés.

– Oh! é impossível! exclamou Celina com voz apaixonada; o meu botão de rosa!.. não... de modo nenhum...

– Devo crer que a minha pouca ventura...

– Não deve crer em nada... pouco ou muito feliz, teria sempre de ouvir a mesma coisa.

– Ah! compreendo: não quer dar flores a moço – O meu botão de rosa?... nem a moças.

– A sua melhor amiga...

– Não conseguiria arrancar-mo.

– Portanto este botão de rosa...

– É a flor... do meu coração.

– Feliz a mão que da roseira o colheu! – Foi a minha.

– Pode ser... devo crê-lo... no entretanto preciso é que me sujeite ao sacrifício de entregar-lhe um tesouro que eu poderia guardar impunemente.

– Faria uma ação má...

– Bem, minha senhora; eis aí o seu talismã... Deus lhe conserve o valor e as virtudes.

O cavalheiro entregou o botão de rosa, talvez com má vontade, e retirou-se.

Cândido, quando viu a pequenina flor passar do peito do moço para o cabelo de Celina, sentiu entrar-lhe a vida no coração.

– Oh! bravo, d. Celina! acudiu Mariquinhas; eis aí um botão de rosa que deve encerrar o mais interessante mistério.

– É certo.

– Foi dado? – Não; colhi-o.

– Quem plantou a roseira?...

– Não sei.

– Mas então como se explica esse ardor com que há pouco pedias o teu botão de rosa?...

– É que eu amo os botões de rosa; tenho predileção por eles, como você tem pelas violetas e d. Felícia pelos cravos brancos.

– Nada... aí há coisa.

Celina esteve algum tempo pensando, e enfim disse: – Talvez.

– Oh! pois então conta-nos. Eu sou louca por histórias em que entrem flores.

– Porém é uma tolice de criança...

– Não faz mal... conta.

– Aqui não.

– Vamos ao toilette.

– Pois bem... vamos... vem conosco, d. Felícia.

As três moças saíram da sala.

Anacleto, que tinha podido apanhar algumas palavras do que elas acabavam de falar, chamou de parte Cândido, e levando-o para dentro consigo, disse-lhe: – Vamos devagar... pregaremos uma peça àquelas três sujeitinhas, ouvindo contar uma história de rosas, que sem dúvida não terá pés nem cabeça, mas que enfim poderá servir para divertir-nos.

– No entanto Salustiano tinha achado ocasião de falar a sós com Mariana.

Chegou-se a ela e disse: Depois de amanhã pelas cinco horas e meia da tarde, terei a honra de visitar a V. Exa. Conversaremos durante meia hora sobre objeto tão importante, que eu tenho a certeza de que V. Exa. achará na riqueza de seu espírito meios de sobra para afastar daqui todas as pessoas que nos possam ser incômodas durante essa meia hora.

– Senhor!...

– Depois de amanhã, às cinco horas e meia da tarde.

CAPÍTULO X HISTÓRIA DO BOTÃO DE ROSA

EM LUGAR de ir com as duas amigas para o toilette, que era mesmo no primeiro andar, a “Bela Órfã” guiou-as para o segundo, e entrou com elas em seu

quarto.

Anacleto, levando sempre pela mão a Cândido, subiu também a escada, e entrou pé ante pé com o mancebo no quarto de Mariana.

As duas câmaras eram apenas separadas por uma delgada parede, e uma portinha as comunicava pelo fundo. A portinha estava simplesmente tapada com um leve reposteiro, ou melhor, com uma cortina de seda cor-de-rosa debruada de fita azul.

O velho levou o moço ao fundo da câmara, e com precaução e cuidado correu a cortina. O quarto de Mariana não tinha luz. No de Celina ardiam três velas em um candelabro de bronze.

Cândido viu primeiro um leito virginal defendido por cortinados de cassa branca, e através deles três moças encantadoras, cujas elegantes formas se desenhavam ainda na sombra.

E não pôde ver mais nada, porque Celina começava a falar.

A “Bela Órfã” pronunciou algumas breves palavras; mas olhando para as duas amigas e lendo-lhes no rosto a curiosidade com que estavam, corou, e hesitando, disse: – Ora... é uma puerilidade... um sonho de criança, que parece loucura contar.

– Não, não, d. Celina; conte sempre.

– Há de ser por força muito bonito.

– Sem dúvida; pois que além de tudo, é um sonho com flores.

Celina, com os olhos pregados no colo, principiou a contar a história do botão de rosa.

– Foi no dia em que eu fiz treze anos: jantaram e passaram a noite comigo duas companheiras de colégio, ambas dois anos mais velhas do que eu. D. Luisinha e d. Leopoldina. Leopoldina era viva como você, d. Felícia; Luisinha maliciosa como você, d. Mariquinhas.

– Obrigada pelo elogio, disse esta.

– Deixe-a falar, acudiu Felícia.

Celina continuou.

– Três moças que se conhecem desde a infância, que brincaram juntas, e juntas estudaram, têm sempre tantas coisas para se dizer, que a certa hora nós nos escapamos da sala, e fugimos para conversar sem testemunhas, escondidas no meu quarto. Foi neste mesmo quarto! disse a moça, cortando com um suspiro sua narração.

– Neste mesmo quarto! murmuraram como admiradas daquela coincidência, as duas ouvintes.

– Passamos muito tempo, prosseguiu a “Bela Órfã”, a rirmo-nos muito, lembrando-nos do passado e de nossas travessuras; e depois misturamos com essas alegrias tantas saudades... tantas... e tão grandes, que estivemos a ponto de chorar.

Depois sonhamos também com o futuro, e nossas cabeças de meninas o iam desenhando sempre tão bonito... tão bonito!... enfim tivemos vontade de falar no presente, e Luisinha deu-me um beijo e me disse: – Já estás moça, Celina! – É verdade, disse Leopoldina; já estamos todas três moças; e, continuou ela rindo-se, aqui para nós, somos bonitas.

– E como é bom ser moça, quando se é bonita, tornou Luisinha; os velhos nos admiram, as outras senhoras nos invejam, e os moços nos amam.

– Antes todos nos amassem, disse eu.

– Como ela é!... exclamou Leopoldina rindo-se muito.

Eu fiquei admirada daquele tanto rir, que me parecia muito fora de tempo.

– Em parte também eu sou assim, tornou Luisinha; não amo a ninguém ainda; mas quisera que todos bebessem os ares por mim. Quando eu passo junto de um homem, a quem vejo mesmo pela primeira vez, e ele me olha de certo modo e acompanha com a vista, ou me segue, eu gosto... confesso que gosto.

– Oh! sim, disse Leopoldina; mas é tempo de fazermos um ajuste.

– E qual? perguntei.

– Logo que uma de nós amar, di-lo-á em confidência às outras.

– Eu comecei então a pensar que havia algum grande mistério na vida, que essa palavra – amar – queria dizer.

– Pois bem, tornou Luisinha, eu estou pronta... é um belo ajuste; porque eu nunca terei vergonha de o dizer. Quando amar, hei de amar bem, e a quem bem o merecer.

– Sim!... e também eu, disse a outra.

– Não há de ser com seu ouro e suas riquezas que poderá um homem agreste, frio, e sem espírito, comprar o meu coração.

– Oh! sim!... exclamou Leopoldina.

– Nem há de ser o velho que poderia ser meu pai, quem, a preço de suas carruagens ou de sua brilhante posição na sociedade, de suas comendas ou de seus palácios, ganhará a minha mão.

– Oh!... sim!...

– Há de ser um moço... bem moço, pouco mais velho que eu... bastam quatro ou cinco anos; um moço bonito, com cabelos anelados, olhos brilhantes, dentes claros, sorrir gracioso, e mãos finas; com espírito cultivado, gênio alegre, e...., não precisa ser rico.

– Ora! para que dinheiro?... acudiu Leopoldina.

– E tu que dizes, Celina?... indagou Luisinha, dirigindo-se a mim.

Eu fiquei em silêncio por algum tempo. Mas enfim, corando muito de minha ignorância, perguntei: – O que é amar? Minhas duas amigas começaram a rir tanto... tanto... que por fim lhes causou piedade a perturbação em que me punha a hilaridade que eu provocara.

– Pois não sabes o que é amar?...

– Amo a meus pais, a meus parentes, a minhas amigas, e aos amigos de meus pais. O mais não sei.

– Coitada! murmurou Leopoldina.

– Pobre criança!... acrescentou a outra.

Eu me achava realmente confundida.

– Luisinha, explica-lhe o que é amar, disse Leopoldina.

Então Luisinha tomou uma de minhas mãos entre as dela, e me falou assim: – Celina, eu vou dizer-te o que é amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão, nem nosso amigo; escuta. Nem sempre pertencemos a nossos pais.

Chega um dia em que a nossa vida começa a correr de outro modo, e deixando aqueles que nos deram a existência, passamos a ser a eterna companheira de um homem, que nos deve amar e trabalhar para nós, que reparte conosco seus prazeres e seus pesares; que forma com sua companheira um ente só; que é o nosso melhor amigo, e mais do que nosso irmão. Ora pois, escolher, mesmo sem se querer, sem se sentir, mas escolher com os olhos e com o coração entre mil, entre todos um homem, ao qual desejamos pertencer desse modo; pensar nele de dia, sonhar com ele de noite, estar triste em sua ausência, tremer de alegria e de pejo a seu lado, resistir às ordens de um pai, que manda esquecê-lo, e lembrá-lo ainda mais depois disso, jurar ser dele ou de ninguém, e sofrer tudo por ele: eis aqui o que é amar.

– Ah! Celina! exclamou Mariquinhas interrompendo-a; a tua camarada tinha aproveitado muito no colégio!...

– Não a interrompas, disse Felícia.

Celina continuou: – Eu fiquei pensativa e admirada. Nunca me tinha vindo ao pensamento que se pudesse amar assim a um homem estranho.

Luisinha ainda se dirigiu a mim: – E agora, que já sabes o que é amar, Celina, é preciso que subscrevas ao nosso ajuste; que, nunca sejas a companheira de um homem a quem não tenhas amor; e que, finalmente, logo que chegues a amar, no-lo digas em confidência.

– Mas quem sabe se chegarei a amar desse modo? respondi eu.

Minhas duas amigas começaram a rir de novo; e Luisinha replicou: – Hás de chegar, Celina; o amor vem quase sempre contra nossa vontade e ainda contra nossa vontade se deixa ficar em nossos corações.

– E como sabes isso, Luisinha?...

– Ora! tornou-me ela; achei uma boa amiga que me deu as explicações que agora te estou dando.– Quem nos diz que ela ainda não ama?... disse Leopoldina.

– Ainda não. Mas vamos ao nosso ajuste. Tu subscreves a ele, Celina?...

– Subscrevo, respondi hesitando.

– Vamos jurar! exclamou Leopoldina.

Fizemos um juramento de moças. Juramos por nossa amizade e selamos o nosso pacto com beijos.

Descemos e entramos na sala, onde todos notaram que eu estava pensativa e um pouco melancólica.

Às onze horas da noite retiraram-se nossas visitas. Daí a pouco meu pai abençoou-me, e eu subi de novo para meu quarto.

Deitei-me. Minha mãe entrou, dirigiu-se a meu leito e como costumava fazer todas as noites, beijou-me e disse: – Dorme bem, Celina.

Achei-me só.

Começaram então a ferver em minha cabeça aquelas idéias que eu tinha pela primeira vez concebido. Foi-me impossível dormir durante muito tempo; julguei que delirava; pensei que ia ficar doida, porque às vezes me parecia ver ao redor de mim meninos louros e travessos, que corriam, saltavam, chegavam-se a meus ouvidos, diziam baixinho – amar! – e fugiam de novo correndo, saltando, e rindo-se muito; outras vezes era uma mão invisível, que estava escrevendo pelas paredes de meu quarto, e com tinta de fogo, essa mesma palavra – amar!...

Enfim, adormeci.

Mas o pensamento, que me governava acordada, não me deixou dormindo. A pesar meu, a idéia única que me ocupava até no sono, era essa mesma que me tinham feito conceber na palavra – amar.

Sonhei.

Eu estava em um vale coberto de verde grama: defronte de mim erguiam-se dois montes altos e povoados de lindas palmeiras; por entre eles prolongava-se um lago profundo, mas de águas tão límpidas que se lhe via perfeitamente o leito de areias de ouro.

O lago, que se continuava por entre os montes, vinha terminar-se no vale, e a poucas braças de um outeirinho, onde eu estava sentada debaixo de um caramanchão natural.

Não era dia nem noite; era a hora do crepúsculo.

De repente soou uma música doce e maviosa, como eu nunca tinha ouvido; e uma multidão de meninos semelhantes aos que eu imaginara acordada, todos eles lindíssimos, louros, muito claros e rosados, vieram com cestinhas de rosas nos braços dançar ao redor de mim.

A música soava sempre... sempre... e parecia que vinha do céu.

No fervor de sua dança começaram os meninos a lançar flores sobre mim; derramou-se na atmosfera um imenso perfume... deleitoso... embriagador... e a música soava sempre tão doce... tão bela, que eu me senti adormecer entre perfumes e harmonias.

Mas era um sono de encanto, no qual eu via tudo quanto se passava no vale...

Então o mais formoso daqueles meninos tirou dentre os cabelos, que eram fios de ouro, uma seta pequenina, porém muito aguda, chegou-se a mim, e rasgando-me o peito, arrancou-me o coração.

Eu não senti dor, nem correu sangue; a ferida de meu peito fechou-se de repente a um beijo que nela deu o menino; e não ficou cicatriz.

A música cessou imediatamente, esvaeceram-se de súbito os perfumes; os meninos bateram palmas e soltaram grandes risadas, e eu, despertando ao ruído delas, comecei a chorar muito por ver o cruel roubador levar o meu coração.

A poucos passos de mim o menino cavou a terra com a seta, lançou na cova que fez, o meu coração, e cobriu-o com a mesma terra que havia tirado.

E os outros que me viam chorar muito, vieram com as mãozinhas aparar minhas lágrimas, e foram com elas regar o meu coração que estava plantado.

Chorei ainda, e enquanto chorei eles regaram a terra; quando o meu pranto cessou vi ir nascendo um arbustinho no lugar onde o meu coração fora plantado.

Os meninos, mal perceberam que o arbustinho vinha brotando, correram para os montes batendo palmas e rindo muito.

Desceu então do céu um belo anjo, que veio voar à roda de mim, e depois pousou entre flores sobre o caramanchão. Esse anjo tinha o rosto de minha mãe, e olhava para mim tão piedoso!...

E o arbustinho foi crescendo... foi crescendo... era uma roseira. Começou a florescer e botou três botões: um do lado esquerdo, outro da parte direita, e o terceiro em cima.

Quando os botões estavam completamente desenvolvidos, eu vi um batel que vinha saindo dentre os dois montes e navegando pelo lago.

O batel era lindíssimo, as cortinas eram de franjas de ouro, as velas de seda, os marinheiros tinham cintas marchetadas de esmeraldas e diamantes; e o dono do batel vestia com riqueza tal, que só se vê em sonhos, e que não se pode explicar em desperto.

O dono do batel saltou no prado, e apesar de sua magnificência, tive medo de seu olhar, que era feroz, de seu sorrir, que era medonho, de suas mãos, que eram de desmesurada grandeza.

E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte da roseira.

Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo, e vi-o tremendo de susto, e me olhando com expressão de dor tão profunda, que desatei a chorar desolada.

O dono do batel não quis ver as minhas lágrimas...

Com ar pretensioso, com passo firme, aproximou-se da roseira, e colheu o primeiro botão. .. era o do lado esquerdo.

Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo... o botão se foi mirrando...

mirrando... mirrando... até que se sumiu de todo, e se esvaiu em um sopro, que simulou um suspiro.

O meu anjo soltou um grito de prazer, e o batel e seu dono desapareceram inopinada... inexplicavelmente.

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