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Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

Tudo mais ficou como estava; e a roseira com os dois botões que lhe

restavam.

E logo depois eu vi, não um batel, mas um carro que vinha saindo dentre os montes e navegando pelo lago.

O carro era todo de prata e puxado por grandes cavalos negros, riquissimamente ajaezados, que bufando, nadavam, como se fossem peixes. Os criados venciam em magnificência e luxo aos marinheiros do batel. Outra vez riqueza e brilhantismo; mais riqueza ainda do que há pouco.

E saltou no prado o dono do carro de prata. Vinha coberto de vestes muito ricas e muito lindas e tinha o peito cheio de brilhantes medalhas; mas apesar disso eu vi que seu olhar estava amortecido, seu rosto pálido e rugoso e suas mãos já trêmulas: era um velho.

E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte da roseira.

Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo e vi-o tremendo de susto e me olhando com expressão de dor tão profunda que desatei a chorar desolada.

O dono do carro de prata não quis ver as minhas lágrimas...

Com ar também pretensioso, mas com passos mal seguros, aproximou-se da roseira e colheu o segundo botão... era o do lado direito.

Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo... o botão se foi abrindo...

abrindo... abrindo... as pétalas de rosa se foram uma a uma transformando em penas de mil cores, até que todo o botão se metamorfoseou em passarinho, que se escapou das mãos trêmulas do velho, e voou direito para o céu.

O meu anjo soltou um grito de prazer, e o carro e o velho desapareceram como o batel e seu dono.

Tudo mais ficou como estava. Somente a roseira é que tinha dois botões de menos.

Só restava o terceiro botão.

Veio vindo enfim por entre os dois montes e navegando pelo lago, não um batel, nem um carro de prata puxado por cavalos negros, mas uma grande cesta formada por um belo tecido de rosas, e conduzida por formosas garças que traziam suas asas brancas fora d’água.

Soou de novo a música maviosa e doce, e as garças exalaram por seus bicos aromas deleitosos... mas dessa vez eu não adormeci entre os perfumes e as harmonias.

E saltou no prado um mancebo tão bonito... tão bonito... com seus cabelos negros e ondeados, e um sorrir que era todo meiguice e ternura!... não havia nem riqueza, nem magnificência: havia graça e beleza.

E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte que da roseira.

Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo, e o vi como nadando entre a dúvida e a esperança, e olhando ora para mim, ora para o mancebo, com ternura tanta, que eu fiquei também ansiosa e anelante, olhando ora para o meu anjo, ora para o belo mancebo, que eu já temia ver passar sem colher o botão de rosa, que único restava.

O moço da cesta florida pareceu adivinhar minha esperança e sorriu com um

sorrir tão meigo!...

Com ar gracioso e leves passos aproximou-se da roseira e colheu o terceiro botão...

Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo, o botão se foi abrindo...

abrindo... abrindo... até deixar patente todo o seu seio... Não havia pétalas de rosa...

lá estava o meu coração...

O anjo, que tinha o rosto de minha mãe, bateu as asas, e baixando o vôo, veio beijar-me nos lábios... e voou depois para o céu...

E o mancebo correu a mim para beijar-me também; porém eu tive medo, muito medo desse beijo e soltando um grito... despertei.

Era dia.

Fiquei ainda uma longa hora na cama, pensando no meu sonho...

E desde então eu amo os botões de rosa sobre todas as flores; não quero nenhuma outra flor no meu cabelo. Tenho por eles uma espécie de culto. Porque sempre me parece estar vendo o meu coração encerrado em um botão de rosa.

CAPÍTULO XI VELANDO E SONHANDO

AO BAFEJO dos zéfiros, e ao clarão do luar, uma jovem e um mancebo

velavam à mesma hora.

Essa hora era sossegada, muda, misteriosa e bela: era além da meia-noite.

Depois de muito tempo, depois de tanto tempo que já a velha Irias se não lembrava do dia em que pela última vez fechara as janelas do sótão do “Purgatóriotrigueiro”, abria-se enfim aquela dessas janelas que deitava para o fundo, e junto dela sentara-se um mancebo.

No “Céu cor-de-rosa” duas mãozinhas brancas e delicadas tinham levantado uma vidraça; e uma jovem encantadora se recostara a essa janela, que era a de seu quarto, e que se abria para o jardim.

Esses dois jovens, que não podiam ver-se, ficaram aí silenciosos... meditando.

Respiravam ambos uma atmosfera perfumada pelas exalações das flores do jardim do “Céu cor-de-rosa”.

E os pensamentos que deixavam escapar essas duas almas virgens, subiam talvez ao céu nas asas de faceiras auras embalsamadas de aromas.

O mancebo, que ali estava meditando, tinha apenas vinte anos, e a moça contava somente dezesseis.

Em que pensavam eles?...

Tão moços, tão novos, com a ligeireza da adolescência, com o frescor e doçura da primavera da vida, por que estão, e como podem eles dois estar presos a uma só idéia, pensativos e melancólicos?...A meditação pertence à velhice; e todavia aqueles dois mancebos, com os olhos no céu e o coração na terra, meditavam também.

----------------------------------------------------------------------------------- Celina e Cândido começavam a pagar um tributo sagrado que à natureza se deve... sem querer... sem pensar em tal, eles deviam prender-se pelos pensamentos primeiro, e finalmente pelo coração...

Tinham-se retirado as visitas, os amigos que haviam formado o último serão do “Céu cor-de-rosa”; a “Bela Órfã” achava-se enfim a sós no seu quarto, onde duas horas antes contara a suas amigas o sonho do botão de rosa...

Três anos antes, também em uma noite, ela conversara com duas amigas, e depois viera deitar-se pensativa e triste como o fizera agora Mariana entrou no quarto de Celina, e abrindo as cortinas do leito, deu-lhe um beijo e disse: – Dorme bem, Celina.

E retirou-se. Uma lágrima rolou pelas faces da “Bela Órfã”.

Três anos antes ela estava deitada como então, e fora sua mãe quem lhe viera beijar, e dissera: – Dorme bem, Celina.

A semelhança dessas duas noites, a coincidência dos fatos, excitaram tanto a imaginação da moça, como a entristecia a diferença que ela notava em algumas das pessoas que representavam nesses fatos.

E como há três anos antes, ela ficou refletindo, não querendo refletir; primeiro muito triste... muito triste, pensando em seus pais que já não viviam... e depois levada por sua alma muito longe... muito longe... como a flor que cai na torrente, e que por ela é carregada até onde não pode prever...

Depois ela se lembrou de seu sonho... seu belo sonho, em que um envoltório de pétalas de rosa lhe escondia o coração, e um anjo com o rosto de sua mãe velara por ela.

A “Bela Órfã” teve vontade de sonhar de novo... fechou os olhos, ao menos para ver sua mãe com vestes de querubim.

As diversas cenas daquele sonho de virgem, que todo transpirava anjos, inocência e flores, se foram representando na imaginação fervente da “Bela Órfã” como se ela estivesse vendo tudo...

Primeiro o formoso prado de tapete cor de esmeralda, com seu outeirinho verde e caramanchão florido, com seus montes de palmeiras, e seu lago de águas límpidas e de areias de ouro.

Depois a multidão de encantadores meninos com suas cestas de flores, e a música que vinha do céu, os perfumes que embriagavam...

Depois o seu coração arrancado, plantado e regado com suas lágrimas, e as risadas dos meninos que fugiam...

Depois o anjo com o rosto de sua mãe, que vinha velar pelo seu tesouro, guardar o coração de sua filha.

E a roseira que crescia... e os botões que nasciam... E o rico senhor do batel de prata, que desaparecia...

E o velho do carro majestoso que se sumia...

Faltava o mancebo da cesta de flores...

Em vez dele, como por encanto ainda, como por um novo sonho, a despeito da vontade de Celina, que estimava talvez admirar de novo no lindo mancebo de cabelos negros e ondeados, e olhos pretos e brilhantes... em vez dele... se foi erguendo à margem do lago um túmulo sem pompa, cuja única inscrição eram três letras – P. A. – e um C. –, e junto desse túmulo, que era em tudo semelhante ao que ela vira no dia de finados erguido à memória de seus pais, estava rezando ajoelhado um mancebo pálido e melancólico, que lhe estendia a mão e a convidava para ir rezar com ele...

Esse mancebo tinha o rosto do filho adotivo da velha Irias...

Celina esteve muito tempo embevecida como contemplando essa nova aparição...

Pareceu-lhe enfim notar que o mancebo a olhava com vistas tão ardentes... tão fascinadoras que penetravam até o fundo de sua alma, que a faziam estremecer toda, e lhe lançavam no coração um desassossego indizível: teve medo... e sentando-se no leito, soltou um pequeno grito.

Receou depois ter despertado sua tia: escutou... ela ressonava brandamente.

Celina passou então a mão pela fronte, e sentiu que estava em fogo. Parecia que um calor abrasante a sufocava. Ergueu-se, e envolvendo-se em leves vestidos, dirigiu-se à janela, abriu a vidraça, e... ficou meditando.

Por que é que sua imaginação transformara a última, a mais bela cena de seu querido sonho, em uma cena tão solene e melancólica? e por que principalmente em vez do mancebo de cabelos e olhos negros, lhe mostrava agora Cândido, tão pálido, tão triste? Por que é que Cândido a. olhava de um modo tão singular, e por que tremia ela mesma à força desse olhar, e sentia no coração esse desassossego tão grande?...

Como é que os olhos do homem podem ter influência sobre o coração de uma moça?...

Celina fazia essas perguntas a si mesma, e depois procurava lembrar-se do que em realidade sucedia entre ela e esse mancebo. Cândido estava sempre afastado dela quando vinha ao “Céu cor-de-rosa”; quase nunca lhe dirigia a palavra; jamais, se alguma vez lhe falava, atrevia-se a erguer os olhos até seu rosto; mas às vezes também Celina olhando de repente para ele, o encontrava devorando-a com vistas ardentes e magnéticas, com olhares que a faziam estremecer e ficar desassossegada.

Por que era que acontecia tudo isso?...

A “Bela Órfã” começou depois a observar-se a si mesma, a estudar o que se passava dentro dela, e principiou pouco a pouco a decifrar um grande mistério.

A primeira vez que encontrara esse mancebo, encontrara-o em uma posição caridosa, e em uma ocasião solene. De joelhos, junto ao túmulo de seus pais. Orava de certo por eles já mortos, e talvez por sua filha ainda viva. Naturalmente encontro de semelhante gênero produziu viva e profunda impressão em seu ânimo, e nunca mais se poderá apagar nele a imagem dessa triste, mas consoladora cena. Celina sentira, desde o primeiro momento, gratidão imensa pelo procedimento de Cândido.

A velha Irias e o mancebo tinham vindo no dia seguinte agradecer-lhe um pequeno serviço, que ela lhes havia prestado no anterior. Durante a visita pudera examinar o jovem, a quem era agradecida; e seu rosto pálido, mas expressivo, sua melancolia tocante, suas maneiras urbanas e modestas, atraíram sua atenção, e ao muito, pode ser que também a sua simpatia.

Mas Celina tinha ouvido dizer que o mancebo habitava no sótão do “Purgatório-trigueiro”, e desde então nunca mais passeou no seu jardim à hora primeira do dia, com a mesma ligeireza de vestidos, e de modos como dantes.

Debalde, porém, olhava para a janela do sótão... jamais lhe aparecera o rosto pálido de Cândido.

Depois o mancebo começou a freqüentar o Céu cor-de-rosa”; e aquela sua habitual melancolia, aquele seu passar de horas inteiras afastado de todos, alheio aos prazeres, sempre triste ou abatido, como se fora consumido por um intenso e acerbo pesar, e aqueles olhares de fogo, que de relance dardejava sobre Celina, a faziam perguntar a si mesma: “por que ele está sempre triste?... por que motivo me olha de modo tão singular?...” É incontroverso que o coração das moças chega ao amor subindo ordinariamente por uma escadinha, cujo primeiro degrau se chama curiosidade.

Aqui houve em parte uma modificação dessa regra. Porque se acaso Celina ama a Cândido, o primeiro degrau da escadinha deve chamar-se – gratidão – e o segundo, então, curiosidade.

Nesse estado dos acontecimentos, e do que dentro dela se passara e se estava passando, Celina lembrou-se ainda que nas noites de serão, em que Cândido se demorava em aparecer, ela se achava descontente, olhava a miúdo para a porta da sala, e ao menor ruído de uma pessoa que entrava sentia um movimento que, ou era uma mistura de esperança e de temor, ou uma sensação que ela não podia explicar a si mesma; e se enfim o mancebo chegava, seu descontentamento como por encanto desaparecia, do mesmo modo que resistia a todos os seus esforços e a acompanhava durante o resto do serão, se Cândido faltava a ele.

Lembrava-se que lhe inundava o coração um prazer imenso quando o moço a ela se chegava, e lhe dizia a tremer algumas palavras; e não sabia por que, tendo às vezes de responder-lhe, tremia também e corava...

Lembrou-se enfim, depois de mil outras lembranças, do serão que houvera nessa noite; dessa primeira vez que com Cândido dançara, da perturbação de ambos durante toda a quadrilha; dos monossílabos que lhe ouvira; e do fundo do coração agradeceu ao bom velho e seu avô, que lhe fizera conhecer nessa noite quando é que é belo o dançar.

De tudo isto era preciso tirar uma conclusão... a lógica do coração estava provavelmente oferecendo à “Bela Órfã” uma conseqüência positiva e inquestionável, que apenas os véus da inocência podiam encobrir ainda, quando ela foi arrancada de suas cogitações por uma voz sonora e doce, que entoava, posto que em tom baixo, um canto melancólico.

Ela escutou... o canto saía do sótão do “Purgatório-trigueiro”.

A voz que cantava era a de Cândido.

A noite mais bela, mais feliz dentre todas as noites da vida do mancebo, era aquela que se estava passando.

Ao terminar o serão deixou o “Céu cor-de-rosa” com saudades, mas sem aquela acerba amargura que o obumbrava sempre.

O coração do mancebo estava repleto de felicidade e de esperança, e seu pensamento cheio de belas imagens.

Estava Cândido em uma dessas noites de magia em que a vida se desenha toda em tintas cor-de-rosa... noites de mentira, em que a imaginação nos pinta tão fácil tudo que ambicionamos! Um bom velho, cujos pés ele quereria beijar agradecido, lhe marcara, durante cinco minutos, um lugar junto daquela que era em sua opinião a mais perfeita das criaturas. Aí ele bebera o ar que ela respirava, mais perfumado ainda que o aroma das melhores flores. Aí tivera ele sobre as suas duas mãozinhas mais brancas, mais livres que as penas de uma garça; ali ouvira ele frases, monossílabos tão melodiosos como harmonias moduladas por um anjo.

E depois, por detrás das cortinas de um leito virgem, que era como o brando cálice da flor, que nele se deitava, ouvira Cândido a revelação do sonho de uma donzela. Sonho que todo inteiro respirava amor; mas um amor tão puro, tão poético, tão celeste, qual só caberia no coração de um querubim...

Oh! como realmente ficaria a cabeça daquele pobre mancebo, que tinha também imaginação ardente, escutando aquele romance enfeitiçado, onde o coração de uma virgem se transformava em botão de rosa, que não podia ser colhido nem pela riqueza, nem pelas factícias grandezas sociais, mas e somente pelo mérito distinto e real?..

Portanto, para aquela meiga pomba do Senhor Deus, para Celina, a pobreza não era um crime, não era – morféia. – A riqueza, embora mal adquirida, não era o tudo que governa o mundo. O belo, isto é, o mérito e virtude, que são as grandes belezas aos olhos de Deus, o belo é que podia ganhar o – pomo da ventura – colher o botão de rosa! Portanto, não lhe estava fechada a porta daquele paraíso. Não havia ali no alpendre do “Céu cor-de-rosa” um demônio com uma bolsa por coração, que, ao querer um pobre penetrar naquele santuário de amor, lhe bradasse com a voz sinistra dos demônios da época: “aqui não entras!” Portanto se ele fosse nobre e ativo, se trabalhasse, se procedesse como homem de honra, se com estudo profundo e incessante mostrasse que tinha capacidade e engenho, se com a observação das leis da religião de Cristo somente (porque as dos homens ou são essas mesmas leis enunciadas com mais difusão, e apropriadas a diversas especialidades, ou são leis falsas e bárbaras), trilhasse sempre as vias da virtude, podia, tinha o direito de pretender o pomo da ventura, de colher o botão de rosa. A felicidade enchia, pois, a alma de Cândido. Já um abismo não o separava de Celina; já não se envergonhava de confessar a si mesmo que a amava. Orgulhava-se antes de amá-la e com o coração na terra preso aos pés da “Bela Órfã”, e a alma voltada para o céu, e toda embebida na bondade imensa do Criador, ele concebia a mais lisonjeira das esperanças; e a cifrava em uma palavra sagrada: – Deus.

Em um momento de explosão de ardor e esperança, o mancebo saiu da janela, e sentando-se junto à mesa, escreveu durante muito tempo com a rapidez e o ardor de um poeta entusiasmado.

Quando acabou de escrever correu ao lugar onde estava há tanto tempo esquecida a sua harpa e abraçando-se com ela: – Oh! minha harpa! exclamou; minha querida companheira das tristezas e das saudades, vem outra vez emparceirar-te comigo; mas sê-me agora parceira na esperança.

Então com prazer imenso e sofreguidão notável, encordoou o instrumento, afinou-o prontamente, e sentando-se de novo à janela, cantou em meia-voz...

Era essa a voz que surpreendera Celina no meio das revelações que ela a si mesma estava fazendo dos mistérios de seu inocente coração.

A “Bela Órfã” estendeu um pouco o pescoço, e aplicou apurada atenção.

Infelizmente as auras da noite levavam os sons para o lado oposto, e o cantor noturno parecia empregar bastante cuidado para não elevar a voz, que era doce, maviosa e tocante.

Um único verso do canto pôde ser ouvido distintamente por Celina: ela corou escutando: “Quem colhera o terceiro botão!” ----------------------------------------------------------------------------------- No dia seguinte a “Bela Órfã” amanheceu e passou todo o dia pensativa e absorta.

E o filho adotivo da velha Irias caiu de novo em sua habitual melancolia. A noite de esperanças tinha sido uma hora de mentirosas imaginações... com a volta do dia ele encontrara a realidade... a sua desgraça.

CAPÍTULO XII A VELHA

A TARDE estava no seu começar.

Cândido, que nesse dia se recolhera muito mais cedo do que costumava, e que subira ao seu modestíssimo aposento, ouviu gemer a escadinha do velho sótão sob o peso de alguém que vinha subindo; pouco depois mostrou-se além da porta uma cabeça branca, brilharam dois olhos verdes, e a velha Irias disse: – Venho conversar, meu filho.

Isto dizendo entrou e foi sentar-se na cama do mancebo, a quem deixou a cadeira, que única havia no sótão.

Estiveram ambos guardando silêncio por algum tempo; o moço pensativo, e como sempre melancólico, e a velha com as rugas do semblante menos salientes, talvez pela expansão de algum prazer.

– Não te admiras, perguntou finalmente Irias, de me ver, a mim, velha, que me vou despedindo da vida, e me avizinho da morte, alegre e prazenteira, ao pé de ti, moço, que ainda olhas para diante, e tens um futuro para viver, e estás contudo tão abatido e triste?... esta velhice que sorri junto da mocidade que geme, é uma coisa pouco comum na natureza, não?...

– É assim, respondeu Cândido; seja qual for a razão disso, eu dou graças a Deus pelo prazer de minha mãe.

– Mas também é preciso que tu saibas o que hoje não sabes ainda, e o que todavia se envelheceres, sentirás como eu sinto. A velhice, meu filho, a velhice, que o mundo chama egoísta, não tem alegrias por si, sabe somente alegrar-se pelos outros; os pais sorriem com a ventura de seus filhos; e aqueles que não têm filhos, amam sempre, e muito, alguém, e sorriem com a ventura do seu alguém.

– Portanto, alguém que minha mãe estima muito, acaba sem dúvida de alcançar uma boa ventura? ...

– Ou pelo menos não está longe de alcançá-la.

– Outra vez graças a Deus, minha mãe.

– Pois agora dá graças ainda urna terceira vez, porque já deves ter adivinhado quem é o meu alguém: quem é esse que eu amo como se fora meu filho, e que está em vésperas de uma grande ventura.

Cândido olhou fixamente para a velha e ficou como espantado, esperando que ela pusesse bem claro o seu pensamento.

– Sim, tornou Irias; é de ti mesmo, é de ti mesmo que eu falo.

– De mim mesmo, senhora?! – Sim; de ti mesmo.

– Uma grande ventura para mim?...

– Quantas vezes queres que to diga?...

– E não estais zombando?...

– Não, de modo nenhum.

– E essa ventura...

– Adivinha-a.

O mancebo, com um sorrir convulsivo nos lábios, com os olhos em lágrimas, cheio de ardor e de felicidade, com as mãos postas e trementes, e um pouco curvado para a velha, exclamou: – Vós descobristes minha mãe! Sua exclamação foi um grito saído d’alma. Irias respondeu meio sentida: – Não é isso.

Cândido, como fulminado por um raio, abandonou-se dolorosamente na cadeira, e disse: – Vós zombastes de mim, senhora.

– Pois além dessa, não há mais nenhuma esperança em teu coração?..

– Nenhuma, nenhuma absolutamente.

A velha talvez para deixar a Cândido tempo de serenar-se, guardou silêncio por alguns minutos, e prosseguiu depois: – Pois espero, Cândido, que sejas feliz bem cedo.

– Vós esperais, não duvido; mas quantas vezes na vida a esperança não é somente uma ilusão?...

– Meu filho, eu devo dizer-te que essa misantropia que te amortece, esse desespero que te vai consumindo, ofende a Deus Nosso Senhor.

– Deus lê no meu coração, e sabe que eu nada esperando dos homens, nesta vida, espero tudo dele na outra.

– E te julgas com razões bem fortes para nada esperar dos homens, e te dizeres tão sem remédio desgraçado? – Creio que sim, minha mãe.

– Creio que não, meu filho.

– Oh! senhora! quereis que eu não veja o que tenho diante dos olhos, e que eu não sinta o que me pesa dentro da alma?...

– Não; mas quero que um quadro, que é somente triste, não o faça tua imaginação pavoroso e horrível.

– Sim... tendes razão, exclamou o mancebo com um sorrir de acerba ironia; tendes razão... eu sou muito feliz!.

A velha fez um movimento de impaciência.

– Eu sou muito feliz! tornou o mancebo com nova amargurada ironia.

– Cândido!...

– Sim! muito feliz!... pois então?... é verdade que a minha vida foi um crime, meu nascimento um documento desse crime, meu primeiro vagido o sentimento de um castigo; é verdade que, apenas vi a luz, fui por minha mãe repelido... enjeitado...

lançado fora por minha mãe!... Mas que importa isso!... Sou muito feliz! Irias ficou em silêncio olhando para Cândido, que continuou: – Tinha, porém, havido um erro na minha fortuna: repelido por minha mãe, achei eu uma mulher que me deu seu leite, a metade de seu pão, e todo o amor de seu coração; eu vos achei, senhora. Mas, para corrigir-se esse erro, aos treze anos de idade, um homem que não era meu pai, certamente, um homem de cujo semblante austero e vestidos negros hei de lembrar-me sempre, arrancou-me de vossos braços, lançou-me dentro de um navio, e no dia seguinte eu vi desaparecer a meus olhos a terra de minha pátria!... Por conseqüência eu sou muito feliz! A velha parecia de plano querer que o mancebo fosse derramando toda sua amargura para depois falar por sua vez, e foi portanto ouvindo silenciosa aquela história que, sem dúvida, já tinha ouvido cem vezes.

– E lá na terra estranha, prosseguiu Cândido, lá, quando eu começava a compreender que vivia, e que era homem, para que nada eu compreendesse, minha vida era um mistério, e entre os homens todos era eu um homem isolado, só, sem um laço no mundo, sem uma doce recordação no passado, sem uma impressão

deleitosa no presente, sem uma esperança passageira no futuro. Sim, o navio que me levava aportou às terras de Portugal; uma família carinhosa, mas que eu não conhecia, me foi a bordo receber. Cresci, desvelaram-se em educar-me; essa família, que pouco tinha para si, deu-me mais instrução que a seus filhos; nada me faltava, e eu não podia saber donde tanto me vinha. Oh! senhora!... exclamou o mancebo, esquecendo a ironia amarga com que até então falara, será pois felicidade essa

riqueza no meio de tanta miséria?...

A velha não respondeu.

– Oh!... compreendeis vós acaso como é que soavam na minha alma esses nomes sagrados de – meu pai! minha mãe! – que chegavam às vezes a meus ouvidos, saídos do coração de meus camaradas, que tinham mãos de pai para beijar, e um seio de mãe para recebê-los?... com que dolorosa impressão, eu, desterrado da mais bela das pátrias, via no meio das agitações políticas, no correr dos perigos, os homens animar-se e progredir, arrostar tudo pela glória da terra de seu berço, e entusiasmados ferver-lhes o sangue ao só escutar dos hinos patrióticos?... e compreendeis enfim, senhora, como se me enregelava o coração, quando eu pensava nesse mistério indecifrável que envolvia o meu passado e obscurecia o meu porvir?... Órfão e desterrado, sem saber nem ao menos de mim mesmo, eu devia considerar-me muito feliz não é assim?...

A velha obstinava-se em não cortar o fio das reflexões do mancebo.

– Pois no meio dessa minha tão grande felicidade, senhora, vinha um menino que me era parceiro nos estudos e nos brincos, e me perguntava: “Cândido, quem é teu pai?...” Vinha depois logo outro que me falava assim: “Cândido, tu não tens mãe?...” Vinha logo após um terceiro que me dizia: “Cândido, por que tão pequeno deixaste a terra onde nasceste?” E eu só lhe respondia: não sei!. E vinham depois um, dois, vinte outros que me perguntavam: “Como te chamas?... Cândido, de quê?” E eu que não tinha nome de família, eu que sou só no mundo, lhes respondia sempre: – Cândido – só. – E sabeis, senhora, o resultado de tudo isso?... é que apoderou-se de mim a convicção de que eu era, de que eu sou o somenos de todos os homens; porque entre todos os homens não há um só que, como eu, não tenha pai, não tenha mãe, não tenha nome, nem passado, nem futuro!... oh!... que até me quiseram roubar aquilo que a ninguém se nega... uma pátria!...

Irias nem se moveu à vista do exagerado quadro daquela desgraça, que a imaginação ardente do mancebo traçava com tintas tão medonhas. Cândido falou ainda.

– Quereis, senhora, que vos repita ainda outras provas de minha pretendida felicidade?... quereis que eu pise minhas feridas? eu o farei. Aos dezoito anos de minha idade vestiram-me vestidos negros, enrolaram de fumo o meu chapéu; e quando eu perguntei o que queria isso dizer, responderam-me: “Morreu teu pai!” Ouvistes bem, senhora?... era meu pai que tinha morrido; meu pai, que nunca me havia abençoado! A velha não pronunciou uma só palavra.

– Depois deram-me uma bolsa cheia de ouro, embarcaram-me em um navio, e... se houve dia em que o prazer do coração correspondesse ao sorrir dos lábios foi aquele em que eu vi de novo as terras de minha pátria! oh!.. meu primeiro e meu único dia de ventura foi esse; e antes desse, e depois desse nenhum outro. Eu caí em vossos braços, corri a ver os lugares, testemunhas de meus brincos infantis; mas passada a hora do entusiasmo... achei o vazio dentro de mim. Eu era ainda como dantes, e como hoje, Cândido – só. – Eu não tinha encontrado minha mãe! O moço respirou e prosseguiu: – Porque é preciso que vos diga, senhora, no meio de minhas reflexões e mágoas, longe da pátria, quando eu pensava no mistério de meu nascimento e no segredo de meu nome, uma esperança me animava; eu contava de volta à terra de meu berço achar os braços de minha mãe abertos para me receber! ah! e eu não achei minha mãe!... eu a chamo debalde ainda!..

A velha fez um movimento quase imperceptível, e que podia exprimir desagrado daquela mágoa do mancebo; o qual surpreendendo esse movimento, respondeu-lhe: – Não sou ingrato, não, senhora, mas perdoai-me, vós não sois minha mãe.

Será preciso para que vos sossegueis, que eu vos diga o que é no entender de minha alma uma mãe?... pois bem, ouvi-me. Uma mãe, senhora, sente nove meses antes de todos a existência de seu filho, e primeiro que ele nasça, ela sofre já muito por ele.

Se seu estado é a realização de um voto de amor sagrado e puro, ela ainda assim volve os olhos da esperança para a morte, do ventre para o túmulo!... Se pelo contrário é o efeito, a prova viva de um erro, então se torna em incessante tormento que vai crescendo pouco a pouco, e cada vez mais com o correr dos meses; que espreme o suco de sua vergonha, que rói e dilacera sua sensibilidade com a consciência de uma falta insanável. E todavia ela ama seu filho que ainda não nasceu, maldiz sua cabeça que errou, e abençoa seu ventre que concebeu! Depois, quando ele nasce, que tesouro há aí que possa pagar o fervor da oração com que a mãe, cruzando as mãos sobre o seio, encomenda seu filho à misericórdia do Senhor Deus?... que possa pagar o fogo sagrado de seu primeiro olhar de mãe?... a pureza angélica de seu primeiro sorrir de mãe!... a doçura inefável de seu primeiro beijo de mãe?... Oh!... uma mãe rasgaria suas carnes como o pelicano para alimentar com seu sangue e à custa da própria vida o filho de suas entranhas! uma mãe jamais desama seu filho, nunca o repele, nunca o enjeita; e essa sociedade desalmada e imoral, que faz de uma fraqueza um crime, que olha um filho como um remorso, que se rebela contra a natureza e contra Deus, que arranca do colo materno pobres e inocentes criancinhas, lavadas em lágrimas de sangue de suas mães!... não! não! e não! minha mãe me amava por força, me adorava como o seu anjo, olhava-me... sorria para mim, me beijava e me chamava – meu filho! – Foi a sociedade desalmada e imoral quem me arrancou à força de seus braços! Cândido falava, repassado de tamanha dor, que Irias apesar de seu propósito, ia consolá-lo quando ele prosseguiu: – E debalde, senhora, debalde eu me quero levantar contra essa sentença de ferro que me separa de minha mãe. Não há nem ao menos um pirilampo no caminho de minha vida, um pirilampo só que me dê alguma luz para que eu vá terrível e audaz arrasar esse mistério de meu berço. Sim! eu iria... pois que ninguém pode ter o direito de separar-me de minha mãe, e ela não há de nunca envergonhar-se de seu filho! oh! mas tudo é em vão. Há longos anos que eu não penso, que eu não cogito de outra coisa. Quando vou à igreja, quando rezo de joelhos, pensais, senhora, que eu peço a Deus honras e fortuna para mim neste mundo e a salvação de minha alma no outro?... não, mil vezes não. O pensamento, o objeto de minhas orações, é sempre um e único; o que eu peço a Deus é ela, sempre e só ela... é minha mãe.

E dizendo isso, o mancebo prosseguiu com voz comovida e terna: – Porque se eu achasse minha mãe, queimaria, se eu fosse rico, toda minha riqueza para poupar-lhe um desgosto... e ainda mesmo quando tivesse uma dor imensa no coração, havia de rir-me para não vê-la chorar e daria a minha vida para não deixá-la morrer. Minha mãe, senhora, minha mãe! eu não quero nem esposa, nem filho, nem riqueza, nem glória; eu prefiro a tudo minha mãe! E cruzando as mãos sobre o peito, Cândido terminou dizendo com acento profundamente religioso: – Deus me ouça! – Tens razão, meu filho, disse enfim Irias, depois de alguns instantes.

– Portanto, senhora, reconheceis que, embora involuntariamente, zombastes de mim ainda há pouco?...

– Não, Cândido.

– Como não, senhora?...

– Porque nesta vida deve o homem, quando não pode conseguir o que mais deseja, consolar-se com algum desses outros mil benefícios e favores, que Deus espalhou com profusa mão sobre o gênero humano.

– Quereis explicar-vos, senhora?...

– Não é só uma mãe a mulher que se ama extremosamente na vida.

– E então?...

– Ama-se a escolhida do coração... ama-se a esposa.

– Que quereis dizer; senhora?... exclamou o mancebo estremecendo todo.

– Quero perguntar-te se não concordas em que um moço, como tu és, triste, desvalido e pobre, pode achar consolação e fortuna na posse de uma mulher que ame? – Entendamo-nos, respondeu Cândido serenado. Um moço que for como eu, triste, desvalido e pobre, e que também tiver feito o mesmo juízo que eu faço a respeito da pureza e da dignidade do homem, pode sim achar consolação e uma fortuna toda moral na posse da mulher que ame e por quem for amado, mas não calcula nunca a sua fortuna positiva e material sobre esse dado.

– Era pouco mais ou menos isso o que eu queria dizer.

– E para concluir o quê?...

– Que tu deves amar...

– Eu amar?! bradou o mancebo erguendo-se; eu amar?! e com que fim?...

– Para ser menos desgraçado. – Que conselho, minha mãe!... não reparais que há veneno dentro dessa taça de ouro que me trazeis aos lábios?... eu amar? um pobre amar? pois não vos lembrais de que a pobreza é como a morféia, repugnante e fatal?... a quem queríeis que eu amasse?... a uma moça desvalida e pobre, como eu; única que poderia ter olhos para me olhar?... qual seria o resultado desse amor?... cobri-la com meus andrajos?... dar-lhe metade do pão de amargura, para matar-lhe a fome?... e um copo cheio de lágrimas para saciar-lhe a sede? haveria felicidade nesse amor?...

– Abençoado fosse ele por Deus; que o trabalho do homem daria de sobra o que para viver-se é preciso.

– Ou então, continuou Cândido sem atender à boa resposta que lhe dera a velha; quereis que eu fosse por aí, com a mentira no coração e no rosto, farejar onde houvesse um cofre de ouro pertencente a uma mulher bela ou não, que pouco importava isso; pretendesse agradar-lhe, e lhe jurasse amor e ternura, e iludisse a seus pais e a ela, e a arrastasse aos pés do altar, e mentisse perante Deus! e mentisse perante Deus, repito! Não, não, minha mãe, nem ao menos isso é possível; um homem pobre já não chega ao pé de uma mulher rica. A pobreza é a morféia.

– Não se trata disso, Cândido, tornou Irias; é preciso somente que ames. Ama, pois pobre ou rica a mulher que amares, se for honesta e bela, far-te-á ditoso.

– Ama!... disse o mancebo. Manda-se amar, como se o amor fosse o brinco de um instante, como se o amor dependesse de nós e não dos outros; oh! se fosse assim, eu não amaria nunca! – Então tu amas já?... perguntou Irias, fixando no mancebo seus olhos verdes e brilhantes.

– Quem disse que eu amava? respondeu Cândido enleado.

– Amas já?...

– Quereis zombar de mim outra vez, senhora? – Amas já?...

– Minha mãe...

– A verdade... a verdade... somente a verdade!...

– Que quer dizer, pois, isto? – Amas já, Cândido?...

– Não... disse tremendo o mancebo.

– Tu me mentiste hoje pela primeira vez em tua vida, disse com austeridade Irias.

– Senhora! – Tu amas, e amas perdidamente.

– Basta... basta de zombarias, respondeu Cândido perturbado.

– Ao romper de todos os dias pela fresta daquela janela, tu segues com os olhos o objeto de teu amor...

– Minha mãe!... minha mãe!... bradou o mancebo tão espavorido como se acabassem de romper o segredo de um crime horrível por ele perpetrado.

– Tu amas a neta do sr. Anacleto! continuou Irias.

– Silêncio!... balbuciou o infeliz.

– Amas a “Bela Órfã”!...

Cândido ocultou o semblante entre as mãos e a velha prosseguiu com voz animadora e doce: – Esse teu amor, tão cheio de angélica pureza, que nunca os lábios do amante tocaram a ponta dos brandos dedinhos da amada; tão inocente que apenas, e a pesar teu, na presença de Celina lho dizem teus olhos, e na ausência o sonho de tua imaginação, deve ser agradável a Deus, que ama a pureza e a inocência.

– Ah! minha mãe! murmurou o mancebo.

– Ama, que és já, ou bem cedo serás amado. E tu e ela sereis talvez aos olhos de Deus como dois pombos que de longe se namoraram, e que, de asas abertas, com o pensamento no céu, e os olhos um no outro, esperam o aceno de um anjo para voar, a ajuntar-se num só ninho, seguros da ventura com a bênção divina.

– Ah! minha mãe! repetiu o mancebo erguendo a cabeça e mostrando o rosto enrubescido pelo mais belo pejo, e talvez com alguns átomos de esperança.

– E a passagem da vida que hoje tendes, continuou Irias, para a vida que deveis não tarde viver, será como a poética transição da noite escura e duvidosa para o dia claro e fulgente, que um sol fulguroso abrilhanta, e zéfiros perfumados suavizam.

– Oh! senhora, é que vós esqueceis sempre que eu sou um pobre, e que para o pobre não há esperança de felicidade tão suprema como essa que me mostrais! – Não, não, mancebo; tu mentes a ti próprio. Examina o teu coração, procura bem, e lá acharás a esperança cifrada em uma única palavra, que é o moto sagrado e sublime da alma do justo.

– E essa palavra, essa esperança qual é?...

Irias levantou o braço, e apontando para cima com seu dedo indicador, grande e emagrecido, disse: – Deus.

Sentiram nesse momento que alguém subia a escada do velho sótão, e logo após a velha escrava de Irias apareceu, e disse: – A família do sr. Anacleto.

Cândido não pôde conter um grito de surpresa.

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