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Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

CAPÍTULO XIII O VELHO

MAS ANTES de acompanharmos os habitantes do “Céu cor-de-rosa” em sua visita ao “Purgatório-trigueiro”, justo é relatar uma cena ocorrida na mesma tarde, e talvez ao mesmo tempo em que sucedia a que acabamos de referir. Era a hora da

sesta.

Pouco mais ou menos como acontecera a Cândido, que viu mostrar-se além da porta do seu velho sótão uma cabeça branca e dois olhos verdes, assim também Celina, que na hora da sesta se achava sentada junto do seu piano e começava a deleitar-se no estudo de suas músicas, viu aparecer uma cabeça branca e brilhar o olhar malicioso do velho guarda-portão.

Mas é verdade que ainda não se tem idéia nem se fez conhecimento com o velho guarda-portão.

Também poucas palavras serão de sobejo para que se faça uma idéia perfeita desse personagem.

A índole humana e piedosa de Anacleto, tinha dois ou três meses antes do começo desta história, chamado para o “Céu cor-de-rosa” um homem pobre e velho; e para que menos pesasse a este o benefício que recebia, Anacleto o envolveu sob a capa de um emprego, que em sua casa lhe dava. O velho Rodrigues foi pois ali reconhecido como – guarda-portão, – e estabelecendo o seu quartel-general no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, via amanhecer e anoitecer em completa inação.

O guarda-portão da casa de Anacleto era portanto um criado sem exercício, uma praça-morta pouco mais ou menos. Passava os dias retirado em um dos ângulos do alpendre, e só às noites, em que claro luar e doce frescor de aragem sucediam a algum calmoso dia, deixava o pobre homem seu eterno posto por algumas horas, e sentando-se à porta do alpendre, cantarolava por entre os dentes algumas antigas baladas.

Era o velho Rodrigues um homem de cerca de sessenta anos, alto e de formas musculares; tinha os olhos pequenos, mas espertos, e o nariz aquilino. Os cabelos, que estavam já muito brancos, deviam ter sido de cor castanho escuros no tempo da mocidade, e corredios como eram, desciam então até quase encontrar-se com as sobrancelhas, que se mostravam espessas e cerradas; de ordinário apresentava-se este homem vestido de calças de brim escuro sem presilhas, e com bolsos aos lados de jaqueta do mesmo pano, e algumas vazes com um quimono de baeta preta sobre esta.

E, ou porque o velho Rodrigues fosse homem de poucas conversas, e dificilmente acessível para certa qualidade de gente, ou porque muitos notassem no seu hábito de resguardar-se de dia em um canto do alpendre e de só aparecer em algumas noites à porta deste, assentaram os garotos das circunvizinhanças de chamá-lo por acinte – o Coruja; – de modo que, quando em suas noites de escolha o velho se mostrava, e começava de cantar suas antigas baladas, era às vezes interrompido pelos gritos de – Coruja! coruja! – que lhe soavam ora de um, ora de outro lado da rua, acompanhados de risotas e motejos.

Mas tão pouco se dava disso o guarda-portão, que começava e concluía sem se interromper um velho solau, passava por uma balada, depois para outra e outra, até não poder mais de cansado, enquanto os garotos riam-se desmedidamente daquelas desusadas cantigas.

Pelo mesmo tempo, porém, em que começou esta história, sofreram também os hábitos do velho Rodrigues uma pequena modificação. Foi ela devida ao amor que dedicava à música.

Era costume do velho Anacleto e de sua filha sestear algum tempo depois do jantar; e a “Bela Órfã”, então mais que nunca em liberdade, ia sentar-se ao piano e olhando para a porta, viu a cabeça branca do velho Rodrigues, que a escutava.

– Que faz aí, sr. Rodrigues? perguntou ela docemente.

– Escuto, respondeu o velho.

– Pois então é melhor ouvir de perto; entre.

O velho abriu a porta e entrou.

– Sente-se.

Rodrigues sentou-se junto do piano.

– Gosta de música? perguntou a moça.

– Oh! muito! muito! – Sim: é verdade... também eu lhe tenho ouvido cantar à porta do alpendre.

– Que cantar! que canto eu?... cantigas tão velhas como eu, ou de- certo mais velhas ainda; que as aprendi no colo de minha mãe quando ela me fazia adormecer ouvindo-as.

– E que, portanto, devem ser bem caras ao seu coração.

– Decerto; mas só ao meu coração.

– Também não é assim, sr. Rodrigues, porque, pelo menos eu, tenho muitas vezes ficado esquecidamente à janela, ouvindo suas cantigas melancólicas e ternas.

– Está zombando de mim, senhora? – Oh não! não! e tanto que lhe proponho o ensinar-me algum de seus velhos romances.

– Hoje ninguém mais gosta disso.

– Gosto eu, e lhe peço que nos ensine.

Depois de um teimoso recusar da parte do velho Rodrigues, conseguiu enfim a “Bela Órfã” o que pedia. E desde então, em todas as horas de sesta, o guardaportão lhe ia cantar um solau ou uma balada, e em troco Celina fazia ouvir suas mais belas peças.

E havia beleza nesse cantar do velho.

Rodrigues, com seu trêmulo barítono, com sua coroa de neve na cabeça, e sua melancolia do declinar da vida, parecia ainda mais próprio para a execução daqueles cantos do passado.

E havia também, apesar de tudo, muito interesse nesses mesmos cantos do passado.

A balada, o solau, o romance nacional é o canto do coração e da natureza.

Não é seu único mérito o ter sido com eles que outrora nossas mães nos embalavam no berço e nos adormeciam no colo. É principalmente porque há neles a música, a cor e o falar da pátria; é porque eles cantam o caro que se passou na terra que nos viu nascer; porque enfim a balada, o solau, o romance nacional é como nós filho de uma só terra, é nosso irmão.

Celina tinha de tal modo tomado gosto por esse gênero de música, que a presença do guarda-portão em seus estudos da tarde já era para ela uma necessidade.

Por isso, foi com vivo movimento de prazer que ela viu mostrar-se à porta da sala a cabeça branca e o olhar malicioso do velho Rodrigues. – Ah! exclamou; entre, entre, meu bom mestre de baladas; então, que teremos hoje?...

– Quase que já esgotei tudo quanto sabia, respondeu o velho.

– Pois então repitamos tudo quanto já ouvimos.

– Esses pobres cantos ouvidos mais de uma vez perdem talvez todo interesse que podiam ter merecido.

– Não; não. Vamos, sr. Rodrigues. Escolhamos um dos que já foram mesmo mais cantados. Por exemplo – Lindóia.

– Esse não...

– A Tamoia feita escrava?...

– Também não...

– O Sino do Colégio?...

– Cantei-o já três vezes.

– Escolha então o senhor um outro.

– Pois bem, senhora, cantarei – o Sonho da Virgem.

– Oh! esse ainda não o ouvi eu.

– É um romance moderno, feito ao molde dos antigos.

– Pois bem; vamos a ele.

O velho começou com voz pausada e melancólica a cantar assim:

Era um dia um mancebo que ardente Pobre vida esquecido vivia, E uma virgem formosa inocente,

Que outra igual não se viu, não se via.

Quem separa o ardor da beleza?...

Um abismo fatal: – a pobreza.

O mancebo a donzela adorava?...

Quem o sabe?... ninguém dele ouviu.

Em seu peito esse amor sepultava, Se o amor em seu peito nutriu, E se amava, era triste esse amar; Era um mudo e terrível penar.

E se amava, quem disso curou?

Quem ouvira do pobre o gemido?...

Se o seu peito um ai só desatou, Foi um ai no deserto perdido.

E podia alta e nobre donzela Ver um pobre chorando por ela?...

O que é feito da virgem, do pobre?...

Quando o dia voltar to direi.

Negro manto da noite nos cobre.

Ela dorme... mas ele... não sei.

É na terra das trevas o véu; Vagam sonhos... misteriosos do céu.

Eis a virgem... num vale formoso, De tapete de relva coberto, Assentada em outeiro mimoso Vendo um lago, que mora ali perto: Cobre-a teto de mil trepadeiras, Há dois montes, que c’roam palmeiras.

Vêm dos montes meninos amores, Em seus braços cestinhas trazendo; Tiram delas e espargem mil flores Sobre a virgem, que os olha tremendo; E os amores seus jogos seguindo Vão brincando, dançando, e se rindo.

Soa um canto dormente, mavioso, Que entoado no céu parecia, Já das flores ao bafo oloroso, E perfumes o ar rescendia: E a donzela, que tanto sentiu, Entre eflúvios e cantos dormiu.

E um menino com seta afiada Rasga o peito da virgem então, E com hábil mãozinha apressada

Rouba o puro, feliz coração.

E a ferida nem sangue jorrou, Nem doeu, antes logo sarou.

Despertou a donzela assombrada

Com os clamores do bando loução.

E a chorar desatou desolada Vendo o roubo do seu coração.

E o cruel, o fatal roubador Foi na terra plantá-lo, qual flor.

A donzela chorava... chorava...

E os meninos as mãos ajuntaram.

E correndo pra onde ela estava,

Nas mãozinhas seu pranto apararam; E vão todos com gesto apressado A regar, o que estava plantado.

E nasceu um arbusto mimoso...

E do céu um anjinho baixou, Que fiel, vigilante, piedoso Pela virgem constante velou.

E esse anjinho amoroso, que vela, Tem o rosto da mãe da donzela...

Já o pranto da virgem secou, E o arbusto nascido cresceu; De folhinhas mimosas se ornou;

O seu caule de espinhos se encheu.

Coração de uma jovem formosa Brotou linda roseira viçosa.

Os meninos fugiram pra o monte, Três botões a roseira brotou, Dois aos lados um doutro defronte,

E o terceiro superno ficou.

Estava ali no envoltório da flor Um segredo, um mistério de amor.

Veio então pelo lago descendo Um batel, que em riquezas primava, Tudo quanto ia nele se vendo De tão rico e brilhante ofuscava; Té que em terra seu dono saltou; E a donzela, que o viu... trepidou.

Era rico; mas torvo no olhar, E feroz, no sorrir causa susto; Veio vindo... e enfim té parar Mesmo junto do flórido arbusto; E a donzela pra o seu anjo olhando, Soluçou; porque o viu soluçando.

O seu braço monstruoso estendeu Pra roseira o opulento senhor;

Dos botões o da esquerda colheu...

Soa um grito de susto, e de dor;

E o tirano sem nada escutar O colhido botão vai beijar.

Porém pára espantado... sentido...

Frio... pálido espectro ficando, Que o botão encantado, colhido Vai-se todo mirrando... mirrando...

Esvaiu-se... mais forma não tem, E o batel e seu dono também.

Veio então pelo lago chegando Belo carro de prata formado, E rinchando, bufando, nadando Os ginetes, que o trazem puxado, Té que em terra seu dono saltou, E a donzela, que o viu... trepidou.

Era rico; mas velho e cansado Todo em rugas o rosto mostrou; Veio vindo a um bastão arrimado,

Té que junto do arbusto parou.

E a donzela pra o seu anjo olhando, Soluçou, porque o viu soluçando.

O seu trêmulo braço estendeu Pra roseira o tão velho senhor,

O botão da direita colheu...

Soa um grito de susto e de dor, E o tirano sem nada escutar O colhido botão vai beijar.

Porém pára espantado... sentido...

Frio... pálido espectro ficando; Que o botão encantado, colhido Vai-se em linda avezinha tornando...

Bate as asas... pra o céu já fugiu; Velho, e carro... quem foi que os sumiu?...

Veio enfim pelo lago descendo,

Não um carro, nem rico batel.

Nem riquezas, nem luxo trazendo Vasos d’ouro repletos de fel; Mas somente uma cesta de flores, Que teceram benignos amores.

Já o ar outra vez rescendia, E outra vez doce canto se ouviu;

Entre eflúvios e a terna harmonia.

A donzela porém não dormiu.

Belo jovem em terra saltou; Por que a virgem não mais trepidou?...

Era lindo o donzel... tão formoso...

Seu sorrir tem feitiços de amor; Veio vindo... e parou cobiçoso Como em êxtase olhando pra flor: E a donzela pra o seu anjo olhando, Suspirou, porque o viu suspirando.

O seu braço gracioso estendeu Pra roseira o dileto de amor,

O terceiro botão já colheu...

Não se ouviu mais o grito de dor.

E o mancebo com fogo, e paixão Vai beijar o colhido botão.

Porém pára... enlevado... perdido...

O presente de amor contemplando, Que com tanta ventura colhido Pouco a pouco se vai desfechando, E oferece, em lugar de botão, Da donzela o feliz coração...

Bate as asas o anjo contente, E primeiro baixando o adejo, Da donzela tão pura, inocente,

Vai nos lábios deixar santo beijo.

E saudoso alça então vôo seu Para sua morada... no céu.

E o mancebo feliz... belo... ardente Corre à virgem com vivo fervor, E sem ver, que ela é toda inocente, Quer também dar-lhe um beijo de amor,

Mas a virgem tremeu... não ousou...

E um grito soltando... acordou.

O que é sonho?... é verdade ou quimera!...

O que é sonho?... é a alma que vela, Que vagando por mais alta esfera Do porvir os arcanos revela?...

O que é sonho?... futuro sem véu?...

O que é sonho?... – mistério do céu.

Mas que é feito da virgem, do pobre?...

Já o dia voltou – Vou dizer: Seu amor denso véu inda cobre; Que ele ama não posso esconder; Porém teme... receia... não diz; Porque é pobre, por isso infeliz.

E a donzela formosa, inocente, Inda livre, inda isenta de amor, A ninguém ganhar dela consente De seu sonho um botão,., uma flor; Pois no rubro virgíneo botão, Julga ver seu feliz coração.

E o mancebo, que tinha tentado A paixão, que nascia, abafar, Hoje a ela de todo curvado Está com os olhos no céu a clamar: “Quem não fora nascido; – ou então “Quem colhera o terceiro botão!...”

Longo tinha sido o cantar do velho, e durante todo ele mil e diversas

sensações havia experimentado a “Bela Órfã”.

Um segredo de seus mais belos dias, o primeiro romance de sua alma de moça estava revelado.

Quem o revelara? E sobretudo havia ali naqueles versos a expressão e a confissão de um amor profundo mas temeroso... era o poeta que amava a bela.

O primeiro pensamento de Celina foi perguntar ao velho Rodrigues o nome do autor daquele romance; corando porém diante de sua consciência de virgem hesitou...

O velho estava em pé diante dela com seus olhos pequenos, porém penetrantes, fitos em seu rosto, e obrigando-a a abaixar a cabeça.

Enfim, Rodrigues rompeu o silêncio.

– Está triste, senhora?...

– Não! respondeu ela.

– Mas também ninguém a julgará alegre.

– Também não estou alegre.

– Ah!... está pensativa.

Celina olhou para o velho guarda-portão, e o achou sorrindo maliciosamente.

– De que se está rindo assim? perguntou.

– É porque estou adivinhando o pensamento que a ocupa.

– E qual é?...

– Deseja saber a história do meu romance, o nome da virgem inocente e do mancebo pobre, não é assim? – É verdade, respondeu Celina hesitando.

– Pois eu vou satisfazê-la.

A “Bela Órfã” corou, – Não sei o nome da virgem, disse o velho.

– E o do mancebo?... perguntou Celina respirando.

– Esse eu o sei. É um jovem modesto e cheio de mérito, porém pobre; ele ama apaixonadamente, ama como nenhum outro poderá amar mais do que ele; mas o seu amor morreria no silêncio de seu quarto se uma generosa e traidora mão não roubasse nesse romance a confissão dele tão extremosa e tão pura...

– Mas quem é ele?...

A bela queria conhecer o seu poeta.

O velho Rodrigues estendeu a mão para o lado do “Purgatório-trigueiro”, e apontando com seu longo e trêmulo dedo, disse: – É o sr. Cândido.

E como se tivera concluído uma comissão importante, de que se encarregara, saiu da sala com passos vagarosos.

A “Bela Órfã” ficou pensando muito tempo no mesmo lugar, e quando se levantou disse como falando consigo mesma: Deveria ter adivinhado... anteontem à noite, quando eu meditava, ele também meditou... e cantou depois, sem dúvida, este mesmo romance; porque eu me lembro de ter ouvido distintamente dizer a sua voz: – Quem colhera o terceiro botão!...

CAPÍTULO XIV O MOÇO E A MOÇA

APROXIMA-SE a hora encantada do crepúsculo vespertino.

À calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, sucedera uma dessas tardes frescas e belas, que fazem as delícias dos países tropicais.

Uma multidão imensa pejava as alamedas, os dois pequenos largos, e o terraço do Passeio Público da boa cidade do Rio de Janeiro. Era como uma tarde de festa. Entre os novos concorrentes que a todo o instante formigavam, quatro vieram enfim que atraíram a atenção de muita gente. Eram um homem e uma mulher velha; e um homem e uma mulher moça.

Vinham os dois últimos adiante, e seguidos pelos velhos. Tão facilmente se lia a serenidade no semblante destes, como a perturbação no dos primeiros.

Estava a moça muito corada, e quase ansiosa; e o moço pelo contrário, muito pálido, e como que abatido. Traziam ambos os olhos no chão, e não se diziam palavra. Eram porém ambos bonitos; a moça principalmente era muito bela.

Vinha ela de vestido de escomilha cor-de-rosa e em corpinho, com os cabelos à napolitana; não trazia nem brincos, nem adereço, nem pulseiras, mas sim lindíssimos braços nus, pois que o vestido era de mangas curtas, e ao mesmo tempo tão comprido, que apenas às vezes se descobria a ponta envernizada de suas pequeninas botinas. Uma fita azul, larga de dois dedos, e enlaçada na cintura, era ao demais o seu único ornato.

O moço vestia sobrecasaca e calças de merinó preto, gravata de mesma cor, e colete de fustão branco lavrado. Tinha fechando-lhe o peito da camisa, um simples botão de ouro pequenino e liso; trazia os cabelos muito curtos, chapéu de castor preto, e botins de couro de bezerro.

A velha estava vestida toda de preto, e tinha na cabeça um chapelinho da mesma cor, mas de palha, com enfeites de fitas roxas.

O ancião enfim, vinha de sobrecasaca de pano cor de rapé, gravata preta, colete e calças brancas, trazia uma grossa corrente de ouro, muito fora da moda, prendendo o relógio, e pendendo de uma fita negra, sua grande luneta de aros de prata. Tinha na cabeça um chapéu de patente, e calçava sapatos ingleses.

Seguiram estas quatro personagens a rua, que em linha reta vai do portão do Passeio terminar-se no largo principal, e defronte do outeiro artificial chamado comumente – Cascata. – De caminho foi o velho cumprimentado como amigo por alguns. Trazia a moça muito no chão os olhos para o ser também. Ninguém todavia deu sinal de conhecer a velha nem o moço.

Os dois velhos conversando um com o outro sem cessar, nada ouviram do que se poderia estar dizendo em derredor deles. Outro tanto não acontecia aos mancebos que, em silêncio caminhando, tinham por conseqüência mais apurada a atenção.

Já por vezes lhes tinha chegado aos ouvidos ora um elogio à beleza da jovem, ora as meias palavras e o ruído das risadinhas de duas moças ao apuridar-se; quando ao passarem por junto de dois mancebos, disse um deles: – Olha... aí vão dois irmãos ou dois noivos.

– Nem uma nem outra coisa, respondeu-lhe o companheiro.

– Por quê? – Porque se fossem irmãos conversariam, e se fossem noivos se estariam dizendo finezas.

– Então são namorados.

– É o mais provável.

A perturbação do moço e da moça foi tão visível então, que não pôde escapar aos olhos de seus observadores.

Depois de alguns passos mais, a moça disse ao seu companheiro com voz quase sumida: – Conversemos... senhor...

Mas foram indo sempre calados como até então.

Desde porém que aquelas palavras chegaram aos ouvidos da moça, qualquer fraco ruído, o sussurrar de uma conversa a pouca distância travada, tudo, em uma palavra, a assustava; tudo lhe parecia estar repetindo aquele insulto feito à sua inocência: – São namorados.

Chegaram enfim aquelas quatro personagens ao largo principal, e ladeando-o pela direita, entraram no caramanchel desse lado, e sentaram-se nos bancos de pedra.

Ficaram então todos quatro descansando em silêncio debaixo daquele belo teto de jasmins da Índia, e como se a melancolia dos dois moços se houvesse propagado aos velhos, estiveram estes tristes e suspirando, até que o ancião quebrou inopinado o silêncio, dizendo: – Então... que quer dizer isto?... vimos passear e divertir-nos, e estamos tristemente olhando uns para os outros?...

– Parece, respondeu a velha, que estes meninos nos pegaram sua tristeza.

– Não, tornou aquele; não mintamos a nós mesmos: queres saber, Celina, por que nossa velha amiga se tornou de súbito melancólica?... quer saber, sr. Cândido, por que me sucedeu o mesmo?...

Os dois mancebos levantaram pela primeira vez os olhos, e os fitaram em Anacleto, como dizendo cada um deles: – quero.

– É que nos estamos lembrando do passado! disse Anacleto.

Irias murmurou tristemente: – É verdade! é isso mesmo.

– É que vemos ir-se tudo mudando em torno de nós. É que sentimos irem morrendo uma a uma todas as testemunhas de nossos gozos dos belos anos... e aqui mesmo, a não serem essas árvores copadas que resistem ao tempo, e essas duas pirâmides, que não sei por que milagre não se lembraram ainda de lançar por terra, nada, nada mais haveria do que era nosso! tudo teria morrido... tudo estaria mudado, pois que até se matam os nomes...! – É verdade! tornou a velha.

– Vós, mancebos, não sabeis nada disto! houve no entanto um tempo, uma época como outra não haverá nunca mais para esta cidade. Eu era tão moço como vós, e vi e gozei tudo isso; havia paz e ventura para todos, e cada noite era uma noite de festa. Os moços saíam tocando e cantando pelas ruas suas músicas suaves; as famílias reuniam-se em uma só família para gozar prazeres inocentes; dormia-se com as portas abertas, e nunca um malfeitor entrava por elas... Tudo porém acabou, e este mesmo lugar, onde tão belas horas se passavam, já talvez nem delas lembrarse pode, porque enfim tudo está mudado... vossa civilização matou tudo isso! Ninguém respondeu.

– Vistes, continuou Anacleto depois de curto silêncio, vistes aquela rua que vem direito ao portão deste passeio?... vós hoje chamais – das Marrecas – e nós chamávamos então – das Belas-noites: – compreendeis o que significava este nome?... era a demonstração viva do prazer, da felicidade que fruía a multidão imensa de ambos os sexos, que passava por essa rua para entregar-se a gozos puros aqui. Sobre estas grandes mesas, junto de uma das quais estamos, ceavam famílias a quem os laços de amizade ligavam, e nas quais havia às vezes um mancebo e uma moça que não tarde se ligariam por outros laços mais doces ainda. Oh! quantas vezes debaixo deste caramanchel, ou em um passeio, ali por aquelas ruas sombrias e solitárias, não teve origem um terno sentimento, que foi logo depois fazer a felicidade de duas criaturas!...

Uma leve onda de rubor passou ligeira por sobre as faces de Celina, ao mesmo tempo que Cândido se fez mais pálido ainda.

Irias, até então distraída, começava a observá-los, fitando ora na moça, ora no mancebo seus olhos verdes.

Anacleto prosseguiu: – Que é feito daqueles nossos dois pavilhões quadrangulares com sua estátua de Apolo coroando o do lado direito, e com a de Mercúrio o do esquerdo?... vossos dois torreões octogonais poderão fazê-los esquecer?... desconfio muito que não; pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da direita com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo branco, todos formados de diversas cores; com suas sobreportas de baixos-relevos de pássaros de nossa terra, feitos à custa de suas próprias penas. Pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da esquerda com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo azul, todos formados, não já de penas, como o outro, mas de lindas conchinhas, com suas sobreportas ornadas de relevos de peixes de nossos mares, feitos à custa de suas próprias peles; tudo isso era belo, era bem acabado, era obra de gênio; mas tudo isto está morto e morto ficará, porque vós não tendes para ressuscitar tantas belezas o homem que nós tínhamos, o nosso –Xavier dos pássaros. – Sim! sim!... tudo está mudado. Mudou mesmo a índole, mudaram os hábitos, e é outro hoje e espírito da população.

– É verdade! disse ainda a velha Irias; mas tendo sempre os olhos fitos ora em Cândido, ora em Celina.

– E nós, que isso sentíamos, que por tudo isso passamos, sofremos agora ao visitar estes lugares, onde tanto gozamos, uma melancolia profunda, uma saudade imensa do nosso passado e ao mesmo tempo uma dor aguda e terrível, quando pensamos que os prazeres, as belas festas, os jardins, e os edifícios têm todos mudado de face, todos caídos, todos enfim morrido, que daquela época nós e poucos mais restamos, e que quando também morrermos só teremos do nosso tempo algumas folhas de árvores seculares, para cair sobre a tumba que nos cobrir.

Ficaram de novo todos quatro em silêncio por algum tempo, e ainda tristemente, até que Anacleto de novo falou. – Mas vós também estais tristes, e todavia vossa tristeza em nada se pode parecer com a nossa! o que vos acanha, meus filhos?... não podeis chorar o que nós choramos, porque não bebestes na taça de nossos gozos: chorais sobre o presente porventura?... porém, meus filhos, não sentis que o futuro se está sorrindo sempre para a mocidade?...

– Às vezes não, disse o mancebo falando pela primeira vez.

– Ás vezes não?! tornou Anacleto. Sim; ele tem razão: às vezes parece que o homem traz de dentro do ventre materno a sina de sofrer sempre, de sempre chorar, e não rir nunca nem uma só vez na vida! Mas será crivel que o senhor pertença ao número desses homens desgraçados?...

– Pertenço, sr. Anacleto, respondeu Cândido, pertenço a número daqueles que sofrem... e calam.

Anacleto olhou com interesse para o mancebo, e não julgando a propósito encetar uma conversação sobre tal assunto naquele lugar, disse pouco depois: – Meus filhos, passeai... se amais a multidão, lá está terraço cheio de povo; se preferis o silêncio, tendes as alamedas sombrias... ide...

– E vós, meu avô?... perguntou Celina.

– Eu fico. Tenho muito de que falar à sra. Irias. Somos dois velhos que estamos voltados para o passado; ide vós, pois, que tendes o rosto para o porvir.

– Oh! não, tornou a moça; nós queremos ficar e ouvir-vos... preferimos isso...

Anacleto pegou levemente na mão de Celina, fez com que a moça se erguesse, e entregando-a a Cândido, disse: – Não, eu quero ficar só com a sra. Irias; e o sr. Cândido, Celina, é um cavalheiro honrado e nobre, que pode passear a sós contigo. Ide! Celina tocou com a ponta de seus dedinhos o braço que lhe oferecia Cândido, e saíram ambos do caramanchel; ela, como no princípio, muito corada, e ele muito pálido.

Foram os dois mancebos para o caminho do terraço; a multidão pareceu talvez a ambos uma defesa contra sua própria perturbação. Quando eles subiam a escada do extremo direito do terraço, Irias ainda tinha sobre ambos fitos os olhos, e os acompanhava com um sorrir eloqüente; mas ao vê-los chegar ao último degrau, Anacleto estendendo o braço, e apontando para Cândido, disse a Irias: – Estamos em completa liberdade; e eu posso desvanecer-me de merecer a sua confiança. Diga-me, senhora, quem é aquele mancebo que leva pelo braço minha pupila e neta?...

– O que quer saber, senhor? pergunta-me pela história de sua vida, ou por suas qualidades?...

– Penso ter bem apreciado as últimas; mas ignoro tudo da primeira.

– Também o que eu sei não poderá satisfazer-lhe.

– Diga-me sempre.

Começou Irias a falar, em voz porém tão baixa, que não a pudemos ouvir.

No entanto, Cândido e Celina tinham-se entranhado no coração da multidão.

Nas portas dos torreões, sobre os bancos de mármore e azulejos que entremeiam a bela cortina que guarnece em quadro o terraço, sobre o parapeito de grossas grades de ferro, que olham para o mar, subindo enfim pelas quatro escadas, havia sempre multidão. Celina pensava que melhor se esconderia no meio dela; Cândido era escravo da inércia, iria para onde o quisessem levar, e sobretudo respeitava o desejo de uma senhora.

Mas Celina se iludira. Um homem sim, uma mulher não, nunca se esconde na grande concorrência, porque, onde existe uma mulher, principalmente moça e bela, todos os olhos se fitam sobre ela.

Que importa que a mulher traga os olhos baixos? os observadores perguntam e indagam por que ela os não traz levantados; porém se os trouxer bem erguidos, os observadores hão de indagar ainda por que os não traz ela no chão.

Mas quase ao tocar a extremidade esquerda do terraço, quando o par incompreensível tinha atravessado todo aquele extenso quadro sem dar fé das belas jovens, e elegantes mancebos que por ali vagavam, Celina, no momento em que se voltava para repetir o mesmo passeio, viu em um volver de olhos os mesmos dois mancebos, que já uma vez tinha encontrado, e a haviam feito corar, e que ora a observavam de uma das janelas do torreão esquerdo.

Um dos observadores tinha o braço levantado, e mostrava-a com o dedo.

Ambos se estavam rindo como de inteligência.

A brisa da tarde trouxe aos ouvidos de Celina as mesmas palavras da outra vez: – São namorados.

A perturbação da moça redobrou; ela compreendeu que havia alguma coisa de singular neles dois. Lembrou-se desse silêncio obstinado que ambos guardavam, dessa melancolia que os fazia notáveis, e temendo já a multidão, ao chegar à primeira escada do centro que desce ao lado da cascata, ela deixou o braço de Cândido e disse: – Desçamos, senhor... vamos passear... conversemos... por quem é...

conversemos.

Cândido levantou os olhos e viu o rosto de Celina ainda mais embelecido pelo rubor do pejo... uma leve excitação nervosa lhe fazia palpitar com força o coração, e lhe inundava o seio de voluptuosidade. Cândido respondeu tremendo: – Conversemos; e ficou ainda calado.

– Oh! vamos passear pelas alamedas... leve-me para as menos freqüentadas...

eu aborreço a multidão... mas conversemos! – Vamos para as alamedas... murmurou Cândido.

Os dois mancebos que observavam desde o princípio Cândido e Celina, perderam-nos de vista ao voltar de uma alameda.

Cândido e Celina passeavam a sós.

Temendo a multidão como a um inimigo, procuravam as ruas solitárias; aí reinava o silêncio; as árvores cruzando seus ramos deixavam apenas passar raios de uma luz duvidosa... sopravam brandos favônios, que vinham travessos entender com as folhas, beijar as flores, e espalhar os perfumes, que das últimas roubavam...

Celina já se havia esquecido dos dois mancebos... e pensava sobre o romance

que nessa tarde lhe havia cantado o velho Rodrigues...

Cândido lembrava-se do que ainda há pouco tinha ouvido da velha Irias.

Não conversavam... não se diziam palavra... fechava a boca de ambos esse pudor angélico do primeiro amor; mas o primeiro amor diz tudo no seu eloqüente silêncio, diz mil vezes mais do que em seus longos discursos dizem esses amores velhos, gastos, que já não têm originalidade nem pureza, e que falam muito porque sentem pouco.

O primeiro amor respira virtude e castidade: é a exalação do sentimento puro e santo que Deus soprou em nossa alma... exalado esse, os outros são feios arremedos, que nunca se podem parecer com ele.

O primeiro amor não fala... quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito... diz tudo.

Cândido e Celina não falaram, mal se olharam; suspiraram porém, tremeram.

Ao crepúsculo recolheram-se ambos ao caramanchel, onde Anacleto e Irias conversavam ainda.

Em todo passeio Celina só observou um fenômeno: quando sua mão tocava menos de leve o braço de Cândido, o mancebo estremecia involuntariamente.

Cândido pôde apenas notar, que se alguma vez seus olhos encontravam os de Celina, a moça corava muito, e mostrava-se enleada.

E no fundo do coração ambos se haviam perguntado, o mancebo, por que era que aquela moça corava?... a moça, por que era que aquele mancebo tremia?...

Eles se amavam.

As quatro personagens de que temos falado, deixaram enfim o Passeio Público.

Quando de volta se achavam exatamente defronte do “Purgatório-trigueiro”, um carro puxado por dois cavalos brancos se despedia do portão do “Céu cor-derosa”, e passou perto deles.

– O carro do sr. Salustiano, disse a velha Irias.

A noite escondeu um movimento de despeito, e um olhar de cólera que escaparam ao velho Anacleto.

Entraram todos quatro no “Céu cor-de-rosa”.

CAPÍTULO XV O SENHOR E A ESCRAVA

MEIA HORA depois que Anacleto e Celina tinham saído para se dirigirem ao Passeio Público, um carro parou junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e Salustiano

apeou-se dele.

Mariana, que o recebeu, estava só na sala.

Apresentou-se Salustiano com ar triunfante; a filha de Anacleto estava pelo contrário pálida, mas com semblante desdenhoso.

Sentaram-se ambos muito perto um do outro. Houve um curto silêncio, e Salustiano falou primeiro: – Enfim, estamos um momento a sós, minha senhora!

– É verdade, respondeu com voz segura Mariana, eu preparei este momento.

– Como?...

A viúva levantou-se, foi fechar a porta da sala, e tomando de novo o seu lugar: – O senhor mo havia exigido, disse; no serão de anteontem despediu-se de mim com estas palavras: “depois de amanhã, às cinco horas da tarde!” não foi assim...

– Ah! Sim... creio que sim, respondeu Salustiano, fingindo que se lembrava.

– E eu para obedecer-lhe, menti a meu pai; convidei-o para passear hoje à tarde, e na hora de sair queixei-me de um pequeno incômodo, e forcei-o com rogos a fazer o passeio só com minha sobrinha.

– V. Exa. é a mesma bondade!... disse o moço com insolente ironia.

– Oh! não! senhor; falemos seriamente; não há bondade da minha parte, nem polidez da sua. O caso é simples: aqui está um senhor e uma escrava.

A firmeza com que Mariana pronunciou essas palavras obrigou Salustiano a fazer um movimento de admiração.

– Porque, continuou ela, eu compreendo perfeitamente o que sejam as cerimônias, e as etiquetas em uma assembléia; mas quando se acham a sós, e cara a cara, duas pessoas que se procuraram adrede para tratar de uma questão cuja base, apesar de ser um segredo, é de ambos conhecida, para que, senhor, estar com vãs palavras encobrindo uma triste verdade?... para que vestir em belas roupas um horrível esqueleto?...

Mas enquanto Mariana assim se exprimia, retomara Salustiano seu sangue frio habitual, e já com seu insolente e costumeiro sorriso nos lábios, respondeu em tom de gracejo.

– É, minha senhora, que eu tenho minhas tendências para diplomata.

– Menos isso, senhor, tornou Mariana; pode sim um homem, imprevistamente dono do segredo de uma mulher, impor-lhe, por preço de seu silêncio, condições indignas; isso será apenas vilania... baixeza de alma; mas ridicularizar essa mulher, senhor?! oh já não é só vilania, é infâmia! – Senhora! disse Salustiano.

– E preciso é que me conheça bem, que faça justiça a meu caráter. Se tenho tremido, se me tenho humilhado a seus olhos nas sociedades, é porque me curvo ante a pureza dos outros, e nunca porque dobre os joelhos ao seu poder. Quando estivermos sós, eu hei de conservar-me sempre na minha posição, alta, elevada muito sobre a sua; porque a vítima é sempre menos infame do que o algoz. A quem eu temo, a quem eu respeito, não é o senhor, é as almas nobres.

– Senhora!...

– Nada de falsas posições entre nós, continuou a viúva: o que somos ambos, ambos o estamos vendo. Eu sou uma mulher indigna, e o senhor é um homem baixo e vil. Suponhamos agora que nenhum de nós tem pejo, e falemos claramente um ao outro como dois sicários que tratam de um crime. Eis aqui como deve passar esta hora entre nós dois: creio que torno tudo muito fácil. O que quer o senhor de mim?...

Aquela mulher alta, bela, morena, de olhos cheios de fogo, orgulhosa e veemente, dava incrível força a suas palavras; com seu olhar ardente humilhava Salustiano, que ficou de novo espantado e em silêncio junto dela.

A viúva repetiu a pergunta que já havia feito.

– O que quer de mim, senhor?! – Confesso, senhora, disse Salustiano, que não vinha preparado para uma conversação da natureza que parece desejar; todavia, pois que assim o quer, esforçar-me-ei por mostrar-me sem pejo, e falar-lhe como um sicário que com outro conversa sobre um crime.

– Bem; é isso mesmo: o que quer, pois?...

– Primeiramente quero saber quem é este mancebo que tão assiduamente freqüenta a sua casa, e a quem ouço dar o nome de Cândido.

– Sei que se chama Cândido.

– E mais nada?...

– E mais nada.

– Vamos mal, senhora; não vi, como desejava, satisfeita minha primeira pergunta; desvaneço-me porém de esperar que uma exigência, que agora farei, será completamente e cedo cumprida.

– E o que exige o senhor?... perguntou Mariana.

– Que as portas desta casa sejam fechadas a esse mancebo.

– Quem abre e fecha as portas desta casa a todas as pessoas não é a filha, é o pai.

Salustiano levantou os ombros e disse: – Embora; eu o exijo.

Mordeu Mariana os lábios de despeito, e depois perguntou: – E por quê?... e para que havemos de fechar as portas desta casa a esse infeliz moço?...

– Já o disse uma vez, senhora, porque eu o exijo.

– Oh!... e crê que há de ser humildemente obedecido, não é assim?...

– Tenho a certeza disso.

– Senhor! senhor!... exclamou a filha de Anacleto; não compreende que isso é já muito abusar?... oh! um cavalheiro zombando, insultando uma mulher, porque sente que ela não tem por si quem a defenda; que existe abatida com a consciência de um crime! Mas um cavalheiro deve sentir que quando chega a exaltação, quando mais não pode sofrer, quando enfim determina vingar-se, uma mulher vale o dobro de um homem; porque de ordinário o homem sabe somente matar, e a mulher sabe também morrer.

Salustiano começava a rir.

– O senhor se está aí rindo porque não sente que estas palavras pronunciadas por uma senhora à face de um cavalheiro eqüivalem à maior das afrontas que um homem pode fazer a outro... mas deve rir-se... o senhor tem consciência de não ter generosidade nem honra.

Salustiano continuava a rir.

– O senhor se está aí rindo porque se persuade que sempre que estivermos juntos, haverá um senhor para mandar, e uma escrava para obedecer, não é isso?...

– Talvez.

– Sim... talvez ainda por algum tempo, mas um dia...

Aí se interrompeu Mariana, e encarando de perto Salustiano, prosseguiu: – Qual é porém a razão por que as portas desta casa se hão de fechar a esse mancebo?... tem o senhor concebido algum projeto, diante do qual se levante ele?...

que projeto é o seu, portanto? creio que ainda me assiste o direito de fazer tais perguntas.

– E eu tenho a certeza de que não preciso descobrir o alvo a que atiro, para ser satisfeito no que pretendo.

– Ah! senhor! isso é já demais.

– Estou falando, senhora, na suposição tristíssima de que nenhum de nós tem pejo, e somos como dois sicários que tratam de um crime.

– Oh! pois bem, exclamou com violência Mariana; vamos ao fim: pensa que não vejo o que se passa diante de meus olhos?... quer que lhe trace o painel de seu comportamento para comigo, e que lhe exponha seus últimos projetos?... ouça pois.

Salustiano descansou uma perna sobre a outra com inaudito sangue frio, e disse: – Ouvirei, senhora; note porém que se vai fazendo tarde.

Mariana começou.

– Um acaso funesto, um acontecimento talvez determinado por Deus, para castigo de um crime que eu cometi, depôs em suas mãos um documento que prova esse crime. Quando eu soube que semelhante documento existia em seu poder, foi no meio de uma festa, no seio dos prazeres, dos quais o senhor mesmo me foi arrancar dizendo-me – és minha escrava!... – Oh! eu tremi realmente! e vejo bem que tinha razão de tremer: tremi, porque desde então havia no mundo um homem que possuía o meu fatal segredo; tremi, mas nunca pensei que esse homem abusasse tanto, e de maneira tão indigna, de uma pobre mulher sem defesa.

– Vai-se fazendo tarde, senhora, repetiu Salustiano.

– Senhor, senhor; já se não lembra acaso do que conosco se passou nos primeiros tempos de nosso desgraçado conhecimento?... lá nessas sociedades que foram o meu delírio, a minha fascinação; lá nessas assembléias eu me supunha admirada e querida; porque, confessarei tudo, tenho ainda hoje orgulho de ser bela; lá mesmo foi o senhor perturbar meus inocentes gozos; lá ostentou diante de seus amigos que merecia um amor que eu lhe não tinha, que eu lhe não podia dar; lá ostentou ter subjugado, ter conquistado o coração da mulher casada; e eu que observava isso, eu que sentia como as mulheres murmuravam contra mim, e os homens pareciam ter piedade de meu marido; eu que via o monstro da calúnia erguer-se contra minha fama de esposa fiel; eu... eu sorria ou corava, à vista de todos, quando o senhor se aproximava de mim ou me oferecia o braço convidandome para um passeio; porque, enfim, eu era sua escrava!... Em resultado o senhor era um homem infame e eu uma mulher covarde.

– Vai-se fazendo tarde, senhora, tornou Salustiano.

– Não havia, não podia haver amor entre nós. Desde o primeiro dia em que nos encontramos, eu o aborreci, e o senhor nunca chegou a amar-me. Por que, pois, fazia crer a seus companheiros de devassidão, de orgias, e de calúnias, que eu era pouco fiel a meu esposo e sensível ao seu amor?... não sabe por quê?... o senhor era um homem infame! e eu por que não sabia vencer minha tão grande fraqueza?... por que não mostrava ao mundo, a meu marido, a todos, o homem indigno que zombava de mim e trazia em torturas a minha vida?... eu já disse a razão ainda há pouco: porque eu era uma mulher covarde.

– Lembre-se que é tarde, senhora! – E agora?... sabe o que se está passando entre nós?... persuade-se de que eu não tenho já adivinhado a razão por que se atreve a exigir que seja expulso desta casa um nobre mancebo, que tem sabido merecer nossa amizade!... escute: há uma menina que é bela, bela com todo o esplendor e viço da mocidade; bela ainda mais por sua modéstia, e suas virtudes; uma menina cujo nome o povo abençoa, e que todos como que de ajuste a julgam encantadora. É um coração virgem; e perturbar a tranqüilidade desse coração, ganhá-lo com sua linda inocência, é uma conquista que deve encher de orgulho a qualquer desses moços fátuos e sem moral, que desonram a época em que vivem, fazendo glória da desventura das mulheres. Pois bem: o senhor tem lançado os olhos sobre essa menina, que é minha sobrinha.

– É verdade! exclamou Salustiano; eu a amo! – Amá-la! oh! não, senhor; não desdoure assim o mais nobre dos sentimentos humanos... um homem vil não ama.

– Senhora! – Mas, sendo por ora infrutíferos todos os seus esforços, conhecendo que até hoje nenhuma impressão tem feito no coração da modesta virgem, o senhor foi procurar uma coisa que explicasse essa indiferença de Celina, e lançou os olhos sobre um mancebo honrado, nobre, cheio de recomendáveis qualidades, que não nos fez ainda um só momento arrepender de o haver recebido em nossa casa. E julgando que esse moço é o único obstáculo a seus pretendidos triunfos, ousa vir aqui exigir de mim que lhe feche as portas de nossa casa! não é isso? não tenho adivinhado tudo?...

– Sim... é isso mesmo: faz-se-me preciso que Cândido não volte mais nunca ao “Céu cor-de-rosa”.

– E acredita que Celina será por tal meio menos indiferente à sua improvisada paixão?... ah! senhor, a virtude e um amor santo deram o leite a essa menina. A natureza dela e a sua se repelem; lembre-se que ela é um inocente anjo, e que não há simpatia possível entre um bom anjo e um demônio. E seria possível que nós lhe sacrificássemos minha sobrinha?...

– Eu o pensava, senhora.

– Oh!... tem a vencer primeiro a antipatia de Celina, o aborrecimento do velho Anacleto e o ódio de Mariana.

– E porventura não tenho eu alguma coisa a meu favor?...

– Um dia se há de quebrar essa arma!...

– Senhora, disse Salustiano endireitando-se na cadeira; tenho-lhe escutado sossegadamente; justo é que me ouça agora do mesmo modo.

– Mas vai-se fazendo tarde, senhor.

– A senhora pretendeu ter adivinhado meus sentimentos e não conhece ainda metade deles; quero dar-lhe idéia de mais alguns. Sim, o documento que possuo, me tem colocado na posição de senhor e a tem posto na de escrava. E eu, eu que sou rico e feliz, considero-a como uma de minhas riquezas, como a mais interessante carta do meu jogo dos prazeres da vida; e abuse ou não, hei de divertir-me jogando com essa carta, dela me servindo para ganhar as mais difíceis partidas. Sim! ostentei-me seu apaixonado e seu preferido, e o mundo em que vivemos acreditou que eu era amado e feliz.

– Oh! mas isso foi uma calúnia desse mundo, e uma infâmia de sua parte! – Agora que já por muito tempo gozei a felicidade do parecer amado por uma senhora encantadora, quero realmente ganhar a posse de uma outra não menos bela.

Amo, e ame ou não, quero que a “Bela Órfã” seja minha esposa. E sabe quem me há de ajudar nesse empenho?... sabe quem, se preciso for, há de levar a “Bela Órfã” de rastos aos altares, e forçá-la dizer – sim – ao sacerdote?... é a senhora.

– Eu?! – Sim, porque atualmente eu tenho mais do que o documento de um crime; tenho um sentimento poderoso, por cuja existência e triunfo a senhora há de fazer tudo. Tenho um amor, cujos laços hei de quebrar, se não for ajudado e feliz em minhas pretensões.

– Senhor!...

– Esse amor que não morreu com um viajar de três anos, que resiste ainda, que hoje aparece e se mostra tão belo, tão cheio de esperanças, hei de eu matá-lo, senhora! ...

Mariana não pôde dizer nada.

– Se acaso uma barreira se levantar entre mim e sua sobrinha, eu também saberei levantar uma barreira que separe Mariana de Henrique.

– Senhor! – Oh! a senhora sabe bem se eu posso, se eu tenho ânimo de o fazer... e eu o farei.

– Sim! sim! eu o sei: o senhor é capaz de tudo.

– E portanto a senhora há de necessariamente coadjuvar-me no meu

empenho... por interesse próprio, para que eu não mate o seu amor...

– É muito! – Para que eu não atire um documento terrível aos olhos do seu amante, aos olhos do público; um documento que a condena como... de que nome quer a senhora que eu me sirva?...

– Senhor!... senhor!...

– Por ora, pois, cumpre-lhe somente despedir desta casa a esse homem que eu detesto. Com razão ou sem ela, ame ele ou não a sua sobrinha, seja ou não amado enfim, eu não peço, eu quero que esse mancebo deixe de vir aos serões do “Céu corde- rosa”. Senhora, repito a palavra com que começamos a tratar desta questão: – eu o exijo! e pronunciarei depois dessa a palavra que deve terminar todas as nossas discussões doravante: – se não...

– Oh! senhor! retire-se! exclamou Mariana com desesperação; retire-se! deixe-me em paz.

Como dissemos, a porta da sala tinha sido fechada no começo desta conferência.

No momento em que Mariana exclamava – retire-se! – um velho de quimono preto se afastou mansamente detrás da porta, e recolheu-se a um canto do alpendre.

Salustiano, e Mariana despediram-se enfim... como dois sicários que acabavam de tratar de um crime.

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