QUANDO Anacleto, Irias, Cândido e Celina entraram na sala do “Céu cor-derosa”,
já Mariana ali não se achava.Ou fosse para ocultar a perturbação, que por uma causa qualquer sentia, ou porque realmente se achasse fatigado, Anacleto convidou os dois habitantes do “Purgatório-trigueiro para cear com ele, e pedindo-lhes licença para descansar alguns momentos, dirigiu-se ao quarto de Mariana.
A viúva estava deitada e abatida. Queixou-se de que uma intempestiva e inesperada visita de Salustiano lhe exacerbara o incômodo de que poucas horas antes se tinha queixado.
Anacleto não lhe disse uma palavra; deixou-se cair em uma cadeira de braços e ficou triste e meditabundo, olhando para Mariana.
O pai desconfiava da filha.
Mas haviam ficado na sala a velha Irias, Cândido e Celina.
Estiveram descansando, sem encetar a mais simples conversação durante algum tempo; os dois moços conservavam a sua melancolia silenciosa do passeio.
Irias continuava a observá-los como fizera em toda a tarde desse dia.
Até que enfim ela mesma quebrou o silêncio, dizendo: – Continuais a estar tristes, meus filhos? – Não, minha mãe, acudiu prontamente Cândido, estamos apenas fatigados.
– Sim... passeamos muito, disse Celina.
– E no entanto, em todo vosso passeio estivestes do mesmo modo, continuou a velha; sabeis que essa tristeza dá muito que entender nos moços?...
A “Bela Órfã” corou vivamente; Cândido estremeceu a próprio pesar.
– Não é preciso corar tanto assim, minha boa menina. Por que estremeceste tão fortemente, Cândido? A observação da velha aumentou o enleio dos moços.
Irias pareceu deleitar-se vendo a ambos perturbados, e foi somente quando eles conseguiram serenar-se, que ela prosseguiu: – Ouvi-me: quando alguém vê dois jovens... um moço e uma moça, meditando tristemente, naturalmente vem-lhe vontade de compreender a causa dessa meditação; e coisa notável! quase sempre acaba por adivinhá-la.
Nada disseram os dois moços.
– Porque, continuou Irias, a alma da mocidade é inconstante, rápida e faceira; ligeira como o corpo que anima, ela se apraz de mudar a cada instante de objeto, de alimentar-se com impressões e pensamentos sempre novos e diversos. A alma da mocidade é uma borboleta no espírito. Não é assim a velhice; pertence a esta a meditação, pois que seu corpo já está cansado; e os sentidos fatigados de, por tantos anos, levar impressões a todos os instantes, mostram-se como que vagarosos por fraqueza e preguiça. A alma da velhice descansa sobre um pensamento, revolve-se dentro dele, porque também nisso lhe ajuda a tristeza, que de ordinário acompanha o velho, e que é morosa como convém ser quem medita. A juventude, repito, é naturalmente alegre, e a alegria é leve e brincadora; portanto, quando um moço e uma moça estão tristes, e meditam, quem os vê, por força os observa, porque nessa tristeza e nessa meditação deve haver algum mistério muito interessante para se estudar, e quem as estuda quase sempre adivinha.
– É noite fechada, disse Cândido levantando-se e aproximando-se de uma janela; é noite fechada; mas a lua, clara e brilhante...
– Deixa a noite e a lua, respondeu a velha cortando-lhe a palavra, e senta-te aí onde estavas para eu te dizer como é que se adivinha a tristeza e a meditação dos moços.
Deixou-se Cândido outra vez sentar, e Irias continuou: – Sobre que é que medita um moço quando passeia com uma jovem bela e espirituosa, ou se acha junto dela sentado?... é verdade que o homem tem no coração a ambição, que o faz desejar mil coisas, que lhe pode ao longe desenhar ricos castelos, extravagantes arabescos, palácios e venturas de diversas naturezas; mas é verdade, também, que naqueles momentos parece muito mais provável que medite sobre algum pensamento que tenha bastante relação com essa moça e ele mesmo.
Que pensamento será? qual é o que nesta vida põe em mais íntima relação as almas de um moço e de uma moça?... o observador, que de ordinário é um velho, lembrase do que com ele se passou no tempo do verdor dos anos, lembra-se de que não podem impunemente ver-se, e conversar, um mancebo cheio de ardor e uma donzela cheia de encantos; e finalmente o observador conhece que o moço medita sobre – amor. – A respeito da moça é ainda mais positivo.
– Senhora, disse timidamente a “Bela Órfã”, esta conversação me acanha.... 90 A velha pareceu não ter ouvido o que lhe acabava de dizer Celina e prosseguiu: – Em que pensará a menina de dezesseis anos?... ela não é ainda esposa para cuidar na constância de seu marido, e observar como é que ele olha, como é que ele fala às outras senhoras; ela ainda não é mãe para entregar-se toda inteira ao cuidado de seus filhos, para viver para eles de dia, e velar por eles de noite; em que pensará pois, ali sentada ao pé de um belo moço, ou com ele passeando?... pensará nos vestidos de suas bonecas?... no romance que está lendo?... meditará sobre sua lição de desenho?... sobre a cavatina que nessa noite pretende cantar?... sobre seus enfeites para o próximo serão? Mas nisso não medita a moça tristemente. Há, porém, para a jovem de dezesseis anos, que é ainda solteira, uma meditação acompanhada de tristeza, que não amarga, de melancolia que é doce como a saudade, e que se chama – amor: – sim, minha filha! sempre que a moça solteira está meditando, medita sobre amor. Vós ambos meditáveis esta tarde, e estais meditando ainda agora sobre amor.
– Senhora! exclamou Celina.
– Minha mãe! exclamou Cândido.
– Negais o que eu digo? perguntou a velha.
– Nego, disse rapidamente o mancebo.
– Enganou-se, respondeu com timidez a moça.
– Pois eu vou demonstrar que não; vou provar que conheço vosso coração mais do que vós mesmos; ou antes vou demonstrar isso somente à senhora, porque tu não podes negar, Cândido.
– Oh! minha mãe! por compaixão não abuse do meu estado! – Senhora, Deus e a educação da virtude, tinha até bem pouco conservado o seu coração em toda a virgindade da inocência. Até bem pouco a senhora sabia o que era o galanteio; porque nesses poucos bailes a que tem ido, e nas reuniões que se fazem em sua casa, os cavalheiros que lhe cercam, lhe dizem finezas, e provavelmente a requestam; tem pois ouvido muito falar em amor; não o compreendia, porém, porque não o havia sentido. Corava pelo que lhe diziam, mas não corava de si; também é só assim que pode corar a inocência.
Sem o pensar, Celina estava ouvindo atentamente o que dizia a velha.
– Enfim, senhora, este mancebo apareceu, seu desvalimento, sua pobreza, a palidez de seu rosto, que parece indicar íntimo sofrimento, sua melancolia habitual, que quase dá o caráter de verdade à suspeita de suas penas, eram suficientes para recomendá-lo à alma das virtudes; mas além disto seus tios o trataram com amizade e confiança; e sobretudo, a senhora quando o viu pela primeira vez, viu-o onde?...
como?... viu do meio dos túmulos e de joelhos, orando junto à urna que guarda as respeitáveis cinzas de seus pais.
– É verdade! é verdade!... exclamou a “Bela Órfã” com vivo acento de gratidão.
Uma onda de prazer indizível rolou sobre o coração do mancebo, e foi desfazer-se em leve sorriso, que dilatou por um momento brevíssimo seus lábios. – Desde então, prosseguiu Irias, desde esse momento, quando no silêncio de seu quarto, ou nas fantasias do seu leito, a imagem deste mancebo se lhe desenha no espírito, não é, a senhora deve-se estar lembrando, não é sob a forma de um lindo jovem, vestido de brilhantes e custosas galas... não, a senhora não o quer assim, não o quer fidalgo nem príncipe, não o quer rico nem deslumbrador, a senhora o quer, a senhora o vê sempre abatido, pálido e melancólico, de joelhos junto ao túmulo de seus pais.
– É verdade!... é verdade!... exclamou com lágrimas nos olhos a “Bela Órfã”.
Cândido, enquanto Celina atendia exclusivamente à velha, devorava com ardentes vistas as pérolas de ternura que se escapando dos olhos da moça, pendiam de suas faces viçosas, como gotas de água límpida, caídas em pétalas de rosa.
Irias continuou: – Depois, este mancebo começou a freqüentar o “Céu cor-de-rosa”, e a senhora, muito naturalmente, notou que nas reuniões que aqui têm lugar, os cavalheiros a cercam, a adulam e incensam, e que somente Cândido, exceção entre todos, se afastava e se deixava, e deixa ainda esquecer em um canto de sala. A senhora pretendeu explicar a si mesma uma tal singularidade, porque, primeiramente, a mulher é muito curiosa destas coisas, e depois enfim porque lhe doía que estivesse sempre longe de seu lado aquele que tivera o seu mesmo pensamento no dia de dor, e junto do qual se ajoelhara um momento no meio dos túmulos.
Ninguém interrompeu a velha; ela, porém, parou um instante para respirar e depois disse: – Mas para se explicar a si mesma essa singularidade, a senhora devia observar o mancebo, e em algumas das vezes que para ele olhava encontrou seus olhos que, de súbito, se abaixaram; bastou, porém, esse momentâneo encontro de vistas para a senhora espantar-se do ardor, do fogo com que Cândido a olhava. Esse fogo, senhora, incomodou-a a princípio; depois essa chama começou a propagar-se, e não tarde seu coração ardia também; mas por que ardia?... por que começou um desassossego indizível a perturbá-la? por que em seu jeito pensava nos abrasadores olhares do mancebo?... por que lhe escapava um suspiro na solidão?... por quê? a alma virgem da moça o não podia dizer.
Celina nada respondeu; estava porém espantada, porque a velha dizia o que realmente se havia passado dentro dela.
– Mas hoje, prosseguiu Irias, hoje era o dia das revelações dos mistérios do coração. A manhã deste dia correu como todas as outras; a tarde contudo foi muito diferente para ambos. Senhora, um amigo disse o que na sua alma se passava, e a senhora o não compreendia. Antes do passeio da tarde que acaba de passar, a senhora já sabia que entre a “Bela Órfã” e o mancebo desvalido se abria uma flor perfumada e bela: – era a rosa do amor.
Os dois mancebos ficaram como que petrificados.
– A senhora não tinha tido tempo de estudar a sua posição, e ainda que a houvesse estudado, o mesmo sucederia. A perturbação, o enleio, o pejo a acompanhou em todo o passeio. Avaliando já seus sentimentos, e levada pelo braço de um homem a quem amava, e por quem era amada, temia que uma simples palavra a pudesse trair, que os olhos dos observadores arrasassem o segredo de si própria... e corava... e meditava; e portanto a senhora meditava e medita ainda; porque ama.
– Ah! senhora!... exclamou a moça, escondendo o rosto com as mãos.
– Minha mãe! basta!... disse o mancebo fora de si: basta, ou eu me retiro.
– Não! fica! e se vale alguma coisa para ti a autoridade de mãe adotiva que em mim respeitas, fica! eu te ordeno que fiques!...
O mancebo ficou imóvel à voz da velha.
– E este mancebo, disse ela a Celina, apontando Cândido com seu trêmulo dedo, concebe a senhora como é que este mancebo lhe ama?... oh!... ele dirá que não, ele há de jurar que eu minto. E sabe por quê?... porque, escravo do mais nobre orgulho, ele não quer ser amado por uma mulher que possui mais do que ele.
Quereria, senhora, vê-la pobre e desgraçada, para lançar a alma a seus pés, e no entanto...
– Basta, minha mãe! – No entanto é a senhora o objeto de seus mais belos e caros pensamentos. Ao romper da aurora ele, da fresta da janela do sótão que habita, acompanha com os olhos todos os seus passos, quando a senhora vai passear por entre suas flores...
– Minha mãe!... silêncio!... exclamou o mancebo, caindo de joelhos aos pés da velha.
Celina respirava apenas.
– Durante o dia, continuou Irias, ele não pensa, ele não suspira, ele não vive senão pela senhora.
– Minha mãe!...
– De noite, se dorme, são seus os sonhos dele; se vela, ele vive ainda só pela “Bela Órfã”, e escreve hinos ao objeto de seus cultos...
– Minha mãe!...
– Negas isto?... perguntou a velha com tom grave.
– Nego! disse Cândido.
As três personagens no fervor dessa prática se haviam insensivelmente erguido, e se tinham chegado até junto do piano.
– Negas isto? repetiu Irias.
– Nego, respondeu outra vez o moço.
Então a velha, lançando a mão no bolso de seu vestido, tirou dele um papel, e o ia entregar a Celina; mas vendo que esta não o recebia, lançou-o sobre o piano, e disse: – Eis aí, senhora, a declaração de amor deste mancebo.
– Que é isto? perguntou Cândido.
– Os versos que escreveste em uma das noites passadas.
Ouviu-se nesse momento o tropel que faziam Anacleto e Mariana descendo a escada do sótão. Cândido lançava-se sobre o papel, quando Irias o susteve com sua mão musculosa e forte, dizendo: – Aquilo não te pertence mais.
Quando Anacleto e Mariana entraram na sala, Celina, trêmula e cheia de pejo, lançou seu lenço branco sobre o papel.
Depois, aproveitando um instante em que todos pareciam estar entretidos, ela, não tendo bolsos no vestido, escondeu o papel no seio.
Cândido viu isso.
Na hora de recolher-se, a “Bela Órfã” abriu esse papel e viu algumas folhas escritas: eram versos, e constavam de trinta e duas estrofes, tendo por título o seguinte: “O Sonho da Virgem”.
CONTRA todos os seus hábitos, o velho Rodrigues, guarda-portão do “Céu cor-de-rosa”, deixou às oito horas da noite o seu eterno posto do alpendre e desceu
por um beco que vai abrir-se no largo da Lapa.José e Helena, que estavam como sempre de espreita à janela, disseram um para o outro ao mesmo tempo: – Temos novidade.
O ex-escrivão, tomou imediatamente o chapéu, e saindo, apressou os passos até descobrir o velho Rodrigues, e o foi acompanhando de longe, e com todo cuidado para não ser por ele descoberto.
Helena ficou só, mas sempre vigilante à janela, observando o que pela vizinhança ocorria.
O velho guarda-portão, sem nunca olhar para trás, atravessou o largo da Lapa, e tomou pela rua do Passeio Público, deixou ao lado esquerdo a rua das Marrecas, venceu todo largo da Ajuda, e como quem se dirigia para a de S. José, foi indo sempre no mesmo passo, até que endireitou para a portaria do convento da Ajuda, e foi sentar-se nos degraus superiores.
Jacó coseu-se com a parede do convento, aproximou-se quanto pôde do velho, e finalmente, atirou-se ao chão, procurando ser tomado por algum mendigo.
O guarda-portão descobriu-o a tempo, e reconheceu o ex-escrivão; mas não deu sinal algum de o ter feito, e ficou quieto no mesmo lugar, cantarolando por entre os dentes uma de suas prediletas baladas.
Um quarto de hora depois o vulto de um homem alto veio-se aproximando do posto que Rodrigues tomara.
O velho chegou-se mais, enfim subiu também os degraus da portaria: era um velho pouco mais ou menos da mesma idade de Rodrigues.
– Adeus, João, disse Rodrigues.
– Boa-noite, Rodrigues! disse o recém-chegado tomando lugar e sentando-se junto do guarda-portão.
– Esperaste muito?
– Não, há um quarto de hora, apenas.– Que diabo! temos assim uns encontros, que melhor caberiam a dois ladrões, ou a dois namorados.
O guarda-portão sorriu e levantou os ombros, como quem queria dizer: – que nos importa? – Conversemos, disse o recém-chegado: que novidades há? – Que mau costume! murmurou Rodrigues; falas sempre com voz tão alta! – Pois então que há?...
– Apenas um curioso que nos espreita.
– E onde está então essa peça? Rodrigues apontou para Jacó, que fingia ressonar.
– Ora... é um pobre mendigo.
– Cala-te; é nada menos do que o celebre Jacó, que em outro tempo conheceste bem, e que hoje é meu vizinho, e tomou por sua conta espreitar todos os meus passos.
– Ui!... pois deveras?...
– Sem a menor dúvida.
– Vamos pô-lo dali para fora a pontapés.
– Para quê? basta que falemos baixo. Tenho pouco que dizer-te.
– Tens razão, tanto mais que me suponho em vésperas de tomar de novo conhecimento com ele.
– Como?...
– Vi-o entrar o mês passado lá em casa.
– E com que fim?...
– Não sei, mas hei de sabê-lo.
– É preciso.
– Vamos ao principal: conta-me o que há.
– Sim, porém torno a dizer-te que fales mais baixo.
Jacó não tinha até então percebido uma só palavra; apenas lhe chegava aos ouvidos um leve ruído; mas daí por diante ainda menos do que isso ouviu. João e Rodrigues eram para ele como dois mudos sentados ao lado um do outro.
Arrependeu-se de haver seguido o velho guarda-portão, e a posição incômoda que tomara era como um castigo de sua insana curiosidade.
Os dois velhos amigos começaram a falar um com o outro em voz muito baixa.
– Então o que há?... repetiu João.
– Realizam-se minhas previsões.
– Amam-se?...
– Ele, como um louco, como um rapaz de vinte anos, que ama pela primeira vez.
– E ela?...
– Ou já o ama também, ou está em muito bom caminho para chegar a isso.
– E já sabe que é amada?...
– Creio que o pensava desde alguns dias; ontem porém teve a certeza de o ser.
– Quem lhe revelou o segredo?...
– Este seu criado.
– Bravo, sr. Rodrigues; está representando um excelente papel.
– Pois que querias tu que eu fizesse, João?... duas crianças tolas como eles são precisavam de quem lhes abrisse os olhos. E, sobretudo, não é verdade que convém terminar os nossos trabalhos? não crês que basta de provação?...
– Eu não te crimino, Rodrigues; ao contrário acho que tens ido às mil maravilhas; tanto mais que dois trastes velhos como nós, devemos dar graças a Deus por podermos ainda prestar para alguma coisa neste mundo.
– Enfim eles se amam, repetiu Rodrigues.
– Era natural.
– Temos porém novidades cem vezes mais importantes.
– Vamos lá.
– Realiza-se também a minha última previsão: o outro igualmente a ama.
– Oh diabo! o caso vai-se complicando; e ela? – Despreza-o.
– Está no seu direito. E ele teima?...
– Faz mais do que isso.
– Então o quê? – Quer impor-se.
– Como?...
– Ora como!... pois não adivinhas?... com a misteriosa influência que exerce sobre a viúva.
– Quando eu digo que o caso se vai complicando! – Ontem o velho e a menina saíram a passeio. A viúva arranjou uma dor de cabeça, e deixou-se ficar em casa; daí a pouco chegou ele.
– Bem; e depois? – Fecharam-se na sala, e conversaram uma hora.
– E tu?...
– Ouvi tudo.
– Bravo! és um herói.
– Ele exigiu que a viúva fechasse a porta do “Céu cor-de-rosa ao pobre rapaz.
– Por quê?...
– Porque suspeita que a pequena o ama, e não quer ter um rival tão perto dela.
– E a viúva? – Negou-se a cumprir a exigência.
– E ele?...
– Declarou-lhe formalmente que se ela não a cumprisse, perdê-la-ia no conceito público.
– E finalmente...
– Separaram-se sem haver decidido coisa alguma.
– E o que concluis tu do que se passou?...
– Que dentro em pouco as portas do “Céu cor-de-rosa” serão fechadas ao moço pobre.
– E nada mais?...
– Concluo também que o outro sabe pelo menos metade do que nós sabemos.
– Ainda bem que ele sabe só metade; creio que não gostará quando vier a saber o resto.
– João, para mim é claro que a – décima segunda – existe em poder dele.
– É realmente a melhor maneira de explicar aquela misteriosa influência.
– E tu, nada absolutamente tens conseguido? – Nada.
– É pena; porque enfim, pode ser que essa arma com que ele joga, acabe por fazer muito mal ao nosso plano.
– Que queres?... tenho trabalhado muito; mas sempre em vão. Já corri e examinei um por um, todos os papéis da casa.
– E nada?...
– E nada; falta-me só a carteira velha do defunto.
– Quem guarda as chaves?..
– Ele, que de ninguém as confia.
– Diabo! é nessa: tem um segredo no fundo da primeira gaveta do lado esquerdo.
– Lembro-me bem.
– E então que fazes?...
– Que faço! o que tu farias: espero.
– Esperar é quase sempre o maior de todos os castigos.
– E que remédio, Rodrigues? a carteira está em seu quarto de dormir, e ele quando sai leva sempre a chave; parece que esconde ali um grande tesouro.
– Não se engana; mas hás de roubá-lo.
– Esperemos.
– Calaram-se por alguns momentos os dois velhos. Estiveram ambos pensando, e depois disse Rodrigues: – Ora dize, João, não parecemos dois decididos inimigos do tal sujeito? – Às vezes quer me parecer que sim: pelo menos praticamos como tais.
– Não... não... isso não: ouve; se fosse preciso, eu dera o resto de minha vida para fazê-lo verdadeiramente feliz.
– Às vezes quase que não merece nada. Foi, e será sempre desenfreado extravagante.
– O seu fundo porém é bom. Sucede de ordinário assim com todos os extravagantes.
– Pode ser que tenhas razão.
– Ultimamente não se tem portado tão loucamente, como dantes.
– Descansa para recomeçar.
– Basta. É tempo de nos irmos.
– Quando nos veremos outra vez? – Amanhã não pode ser: há reunião extraordinária no “Céu cor-de-rosa”; faz anos a “Bela Órfã”.
– Seja depois de amanhã.
– Pois bem: depois de amanhã; adeus.
Separaram-se os dois velhos. João sumiu-se voltando o canto da rua da Ajuda.
Rodrigues atravessou os mesmos largos e ruas por onde tinha vindo, e entrou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”.
Jacó, desesperado e furioso por não ter podido conseguir apanhar uma única frase da longa conversação dos dois velhos, voltou para sua casa em um verdadeiro estado da ebulição.
– Então, exclamou Helena apenas o viu entrar; que foi fazer o coruja?...
– Encontrar-se na portaria do convento da Ajuda com outro coruja, como ele, e com quem falou mais de uma hora.
– Sobre quê, meu caro Jacó?...
– São dois monstros, dois sicários, dois demônios...
– Então...
– Eu não pude ouvir nada; falaram em segredo; respondeu Jacó desatando profundíssimo suspiro.
Oh! malvados!... exclamou Helena.
E naquela noite os vizinhos de Jacó e de Helena foram mais que nunca vítimas da mordacidade, das calúnias desse par sem igual.
ERA A NOITE dos anos da “Bela Órfã”; noite de festa no “Céu cor-de-rosa”, e que deveria ser de inocentes gozos para os numerosos convidados, que enchiam
aquela feliz habitação.Além da casa, que estava toda brilhante de luzes, o jardim tão querido de Celina achava-se também iluminado, e patente àqueles que quisessem aí passear.
Não havia certamente no “Céu cor-de-rosa” o luxo deslumbrante das festas dos milionários, que gastam; em compensação, porém, o bom gosto transpirava em tudo.
Mariana ostentava sua beleza tão especial, tão deslumbradora, tão perigosa.
Celina, que era como a princesa da festa, levava, sem querer, sem pensar, vantagem sobre a bela tia.
Uma simplicidade feiticeira presidira, como sempre, o seu toucador. Seus longos cabelos estavam atados com graça indizível, mas tão pouco trabalho pedia aquele penteado, que adivinhava-se para logo que era o resultado da destreza de suas mãozinhas; agradava ainda mais por isso. Um pouco para o lado esquerdo de sua cabeça, aparecia um botãozinho de rosa, como surgindo dentre as tranças de madeixas.
Seu vestido era o único que lhe convinha.
Uma virgem pede um vestido branco. A cor branca exprime a alvura de sua alma, a inocência de seu coração. Qualquer outro vestido assenta mal numa virgem.
Além disto, uns sapatinhos de cetim, e mais nada. Para que quer enfeites a formosa donzela?... para que, se a natureza se incumbe de enfeitá-la com os mais interessantes adornos?...
Tudo na “Bela Órfã” respirava encanto, graça, candura e inocência: era um anjo.
Não há sacrilégio nesta comparação.
Quando a mulher reúne às graças físicas, virtudes cristãs, pureza e bondade, pode por um homem ser comparada a uma santa ou a um anjo.
A uma santa, em qualquer tempo, em qualquer condição, que esteja essa mulher; mas contanto que reúna os encantos de espírito que há pouco foram apontados.
A um anjo, porém, somente enquanto é virgem; porque só então na mulher transpira essa inocência que é por força vinda do céu; essa inefável pureza que não pode existir senão nos anjos e na virgem.
Os anjos são as virgens do céu, como as virgens são os anjos da terra.
Mas Celina tinha naquela noite um não sei quê de mais belo, de mais interessante em si, em seus modos, em seus olhares. Era um receio que se não compreendia, um pudor como nunca suscetível...
Quando teve de receber os cumprimentos de Cândido, cobriu-se seu rosto de uma onda de rubor... por que corava?...
Forçada a responder, sua resposta foi o murmurar de algumas frases trêmulas, quase imperceptíveis, que ela deixou passar por entre seus lábios, hesitando e tremendo... por que tremia?...
– Ah! D. Celina!.. tinha exclamado Mariquinhas, correndo para ela logo que entrou na sala. D. Celina! Estás hoje bela como nunca o foste tanto! – Deveras?... perguntou Celina alegremente.
Dantes não lhe importava tanto o parecer bonita, gostava de sê-lo, como todas as moças. Desde, porém, os últimos três dias, a “Bela Órfã” desejava redobrar os seus encantos.
– Olha, tornou Mariquinhas, falando-lhe ao ouvido; estás tão galante, que, se eu pudesse, fazia-me moço durante esta noite.
– Mas para quê?...
– Para amar-te.
– Ora...
– Para pedir-te um beijo.
– Meu Deus! respondeu Celina corando; se tu foras um moço não te atreverias a ofender-me pedindo-mo; e sendo moça como és, não mo pedes, e eu to ofereço.
Aqueles dois rostos tão novos e tão lindos aproximaram-se, e soou o ruído de um beijo.
– Não tem tanta graça como teria o outro, disse Mariquinhas sorrindo.
– Ah! D. Mariquinhas! Você é mil vezes maliciosa.
Felícia, e muitas outras senhoras moças e belas também, vieram cercar a “Bela Órfã”.
A música soou, convidando a dançar.
Os mancebos correram às senhoras; todas as contradanças, e mais ainda do que aquelas que se poderiam dançar nessa noite, foram pedidas e prometidas.
Insensivelmente a “Bela Órfã” correu com os olhos todos aqueles mancebos, como se algum procurasse entre eles... pareceu primeiro temer encontrá-lo, e depois entristecer-se por não vê-lo... realmente buscava ela alguém? Cândido não se apresentou para dançar.
Sem motivo algum plausível, Celina negou a todos a segunda quadrilha; ela mesma não sabia por que a negava.
No último serão a “Bela Órfã” tinha dançado essa contra dança ao lado direito de Cândido; quereria a moça repreendê-lo assim, por não vir pedi-la naquela noite de seus anos?...
Há na vida das moças em que a educação e a inocência podem mais que as idéias livres e desabusadas de algumas sociedades que tudo pervertem, fatos tão pequeninos, ações tão leves e ingênuas, pensamentos soltos ao acaso, mas que às vezes envolvem tão importantes mistérios do coração, que é possível que tudo quanto se estava passando interiormente em Celina, esses receios misturados de desejos, essas inconseqüências enfim, não fossem mais do que a voz da natureza, que a próprio pesar da “Bela Órfã”, ou sem que ela o sentisse, estivesse bradandolhe no coração: – eu já amo!...
Tinham por momentos cessado as quadrilhas e valsas. Respiravam os pares.
Duas senhoras haviam já, no intervalo daquelas, cantado.
– Então, Celina, disse o velho Anacleto, vindo direito à sua neta; já esqueceste uma promessa que te fizeram?...
– Que promessa?...
– A de se deixar ouvir aquele senhor, que como sempre lá está sentado no seu canto?...
– Ah! disse a “Bela Órfã”, como recordando-se.
– Vamos a isto, tornou o velho.
E indo direito a Cândido, o trouxe para junto das senhoras.
– Eis o nosso novo cantor... teremos uma estréia esta noite.
Houve um movimento de curiosidade.
– O que pretende deixar-nos ouvir?... perguntou uma senhora.
– Uma ária de Bellini certamente, disse outra.
– Não, minhas senhoras, ousarei cantar um romance.
– Em italiano?...
– Também não, senhora, em nossa própria língua.
D. Mariquinhas fez com os lábios um momo de desagrado. Tinha razão.
O gosto estragado da época, que se faz excessivo em tudo, o é também na música, e como tal deu ao canto italiano um triunfo, uma palma universal, lançou para fora de nossas salas todos os cantos pátrios, como desterrou das igrejas os hinos sagrados. Rossini, Bellini, Donizetti e Auber, têm entre nós um tríplice trono, no
teatro, nas salas, e na igreja.– Pois então faça-nos o obséquio de dirigir-se ao piano, disse uma senhora.
– Não toco esse instrumento, respondeu o mancebo. Costumava em outro tempo acompanhar-me de harpa.
– Harpa! murmurou Mariquinhas ao ouvido de Celina; harpa; o moço é romântico.
Apareceu um criado trazendo a harpa de Cândido, que tomou lugar perto das senhoras.
Naturalmente acanhado, o mancebo afinou o instrumento com a cabeça baixa, medroso de encontrar todos aqueles olhos fitos nele.
Salustiano colocara-se defronte de Cândido com decidida intenção de confundi-lo com seu sorrir desdenhoso e sarcástico, e com sua luneta firmada insolentemente.
Soou um harpejo moderado, sonoro e vibrante...
Cândido ergueu a cabeça e cantou... o rosto do mancebo estava muito pálido, sua voz trêmula, comovida, mas era uma dessas vozes de tenor, que, sonora e penetrante, chegava ao coração dos que ouviam.
Ele cantava, pois:
Iguais são no fado, que têm a cumprir, Iguais num mistério a bela e a flor; Se a flor tem perfume, que o prado embalsama, É délio perfume da bela o amor.
E a flor mais formosa, se não tem aromas, No vale esquecida desabre e fenece; E a virgem mais bela arrasta seus anos
Tristonha, isolada, se amor não conhece.Iguais são no fado a bela e a flor, Iguais no mistério, que vem revelar; A flor deve os campos de aromas encher, E a bela na vida amor cultivar.
E à rosa, que se abre fragrante, viçosa, Em gruta profunda de vale escondido, Por mais perfumada que seja, e se ostente, Que serve o perfume na gruta perdido?...
E à virgem formosa, que o anjo dos risos, Para encanto do mundo, ao mundo mandou; Que serve o amor, se um ente obscuro, Que o não merecia, foi quem ela amou?...
Faceiro favônio, que as flores namora, Na gruta profunda a rosa festeja; Depois pelos prados, de volta, voando, Da rosa os perfumes no prado lenteja.
E o jovem poeta, que em fogo se abrasa, Se da bela virgem amor mereceu, Nos hinos sagrados, que manda ao futuro, Eterna os encantos do amor, que valeu.
Iguais são no fado, que tem a cumprir, Iguais num mistério a bela e a flor; A flor quer favônio, que espalhe perfumes, E a bela um poeta, que eternize amor.
A voz de Cândido, a princípio trêmula e abatida, bem depressa tornou-se firme, normal e somente comovida, como lho estava pedindo o seu cantar mavioso e terno; desde logo o mancebo esqueceu-se do lugar onde estava, dos olhos que o cercavam, e dos ouvidos que o ouviam. Era um artista, e como o verdadeiro artista, indiferente a tudo mais, ele só via a bela que o inspirava; e todo, todo se entregava à inspiração. Com olhares ardentes embebidos em Celina, modulava seu canto
harmonioso, que parecia sair da alma.Em profundo silêncio a assembléia mostrava-se suspensa e em êxtase; quando o mancebo acabou, soaram frenéticos aplausos... a comoção era geral; por alguns momentos não se pôde fazer mais nada.
Celina tinha compreendido aquele cantar do mancebo. O rubor de suas faces, a agitação de seu seio a traía, e ainda mais seus olhos pregados na figura graciosa de Cândido, pareciam aí presos por um encanto invencível.
Salustiano o compreendera também; a pesar seu, ele, rico e orgulhoso, sentiase curvado ante a superioridade do talento. O gênio não pede, impõe respeito, e desafia inveja.
O triunfo de seu rival desenhou-se na imaginação de Salustiano, pronto e inevitável. A cólera, o despeito, todas as paixões que do ciúme se originam, ferviam em seu peito; e como se uma idéia sinistra acabasse de luzir-lhe na alma, ele deixou cair sobre Celina um olhar feroz e terrível, lançou a Cândido uma risada medonha, e cheia de um sarcasmo infernal, e foi direito a Mariana, que conversava com outras senhoras.
– Passeemos! disse ele com desdenhosa simplicidade.
Mariana levantou os olhos, e teve medo do aspecto de Salustiano.
– Passeemos! repetiu ele.
A viúva quis ensaiar um gracejo, que disfarçasse a perturbação que começava a sentir, e disse sorrindo: – Já se viu como é moda hoje em dia pedir-se um passeio a uma senhora!
– Passeemos!... tornou Salustiano.Mariana ergueu-se, e ainda para disfarce da perturbação, que nela ia crescendo, disse a suas amigas: – Não há remédio... a escrava levanta-se para acompanhar o seu senhor.
Ao atravessar da sala, Mariana encontrou o olhar de Henrique descontente, cuidadoso, e como lhe dirigindo uma queixa.
– E disse bem, senhora, murmurou a seus ouvidos Salustiano com voz grave e terrível; disse bem; a escrava levantou-se para acompanhar a seu senhor.
– Como?! exclamou a viúva; pois neste lugar, e a esta hora...
– Neste lugar, em toda parte, e a todas as horas eu hei de persegui-la sempre! – Oh! senhor!...
– Eu disse ser minha vontade que a esta casa não voltasse esse mancebo, que detesto; impus-lhe a obrigação de fechar-lhe as portas; e hoje.... ei-lo aí... devorando com os olhos a sua sobrinha...
– Mas é que meu pai...
– Sabe, senhora, que isso se chama abusar de minha paciência e desafiar-me? – É muito!... exclamou a mísera mulher.
– Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?..
A figura do velho Anacleto, nobre e respeitável, apareceu aos olhos de Mariana.
– Piedade! balbuciou ela: eis ali meu pai.
Salustiano arrastou a infeliz viúva para uma outra sala, e prosseguiu: – Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.
Mariana estava pálida como uma finada.
– No fim dessa hora estarei vingado.
– Perdão!... murmurou a viúva ajuntando as mãos como se quisesse orar.
– Pois então... senhora, hoje mesmo, e antes que termine o sarau, esse mancebo deverá ter para sempre deixado esta casa.
E abandonando Mariana, que foi cair quase desmaiada sobre uma cadeira, Salustiano voltou à sala.
FAZIA um calor abrasante; apesar dele, porém, as moças e moços
continuavam a dançar.Cândido deixou a sala, e dirigiu-se ao jardim. Queria ver aquele lugar feliz, onde pela primeira vez vira Celina; era o teatro de seu primeiro e único amor, devia ser-lhe grato.
Entrou como possuído de um santo respeito, devorou com os olhos todas aquelas inocentes flores, todos os dias regadas ao amanhecer por um ente tão belo e tão puro como elas mesmas; dirigiu-se depois ao caramanchão; mas força lhe foi parar diante dele.
Um velho com a cabeça coberta de cabelos brancos, ali estava sentado com o rosto caído entre as mãos, e chorando como um menino.
Era Anacleto.
Portanto, naquela festa estava a história do mundo. Estava o prazer de mistura com a dor, o riso de envolta com o pranto, e a felicidade com o infortúnio.
Na sala uma música alegre, viva e estrepitosa animava os moços; e no jardim um mísero velho desabridamente soluçava.
Cândido em pé, diante de Anacleto, não podia compreender uma tristeza tão grande em uma noite de festa, nem adivinhava o que lhe cumpria fazer naquele caso Anacleto, ocupado só com a sua dor, não tinha sentido aproximar-se o mancebo, e chorava, e soluçava sempre.
O que queriam dizer aquelas lágrimas do velho, que ainda há pouco se mostrara na sala tão feliz?... tão contente?... que contradição de sentimentos era essa?...
Era o segredo de um coração de pai.
Há na vida do homem um grande amor, cuja benéfica influência se experimenta ainda nos mais apertados lances. Um amor imenso, que, por assim dizer, enche toda a alma que o dá; amor único, sem interesse, porque às vezes é mesmo a um ingrato, que arranca lágrimas, a quem se ama: é o amor que um pai e uma mãe dão a seus filhos.
Porém nesse terníssimo afeto, pode-se talvez fazer uma distinção: um pai ama muito com o coração, mas ama também com a cabeça; uma mãe ama quase sempre só com o coração.
A grande missão da mulher é a maternidade; e, desde que é mãe, a mulher tem Deus no céu, e seu filho no mundo.
Uma mãe, em regra geral, sabe amar muito, e só cura de seu amor; vive de beijar, de contemplar seu filho; ela quase que o acredita um ente especial, que todos devem bem-querer, e ao qual nunca poderá tocar a mão pesada do infortúnio.
Extremosa, complacente, fecha os olhos aos erros de seu filho, não ouve aqueles que notam em suas faltas; e se seu filho é um desgraçado, ela é desgraçada com ele. E se seu filho é um criminoso, ela o adora no seio do crime, despreza o juízo do mundo; e que lhe importa o mundo!... Deus está no céu, e é grande para perdoá-lo; e na terra está ela, que é grande para amá-lo sempre.
Um pai não é tanto assim; olha também para o mundo em que vive; respeita seus prejuízos e quer preparar seu filho para esse mundo, no qual tem de passar a vida. A opinião dos homens significa muito para ele, e portanto dobra-se a ela.
Quando seu filho começa a representar um papel na sociedade, o pai segue-o constantemente com os olhos, anima-o com suas exortações, corrige-o com suas admoestações, dirige-o com seus conselhos, e enfim coroa-se também com os seus triunfos, e humilha-se com suas derrotas, O desvario de seu filho o enlouquece; a mancha, que vem nodoá-lo, cai-lhe no coração; é com ele solidário na glória e na vergonha.
Por seu filho tem um pai os olhos no mundo, e uma mãe os olhos no céu.
E coisa notável!... a natureza inspira sentimentos que quase chegam a parecerse com a ingratidão.
Um filho que deve tanto a seus pais; que antes de nascer causou já tantas dores, tantos tormentos a sua mãe, que depois de nascer bebe o leite de seus peitos; um filho, por cuja causa perderam seus pais tão longas noites, choraram lágrimas tão amargosas; um filho, ao pé do qual velam sempre por ele dois anjos, como duas Vestais pelo fogo sagrado; que tem sido o objeto de tão grande amor, de tão extremosos cuidados; um filho tem na sua vida uma hora que lhe é marcada pela natureza; que é hora da natureza sim, mas que é hora também de ingratidão.
Se esse filho é um homem, encontra cedo ou tarde uma mulher; e se é mulher, aparece-lhe um homem, pelo qual são deixados pai e mãe!... basta às vezes o olhar de um mancebo elegante, para plantar-lhe no coração um sentimento que vai depois na balança pesar mais que todos esses amores, que todos esses cuidados de vinte anos e de mais anos ainda!...
A roda vai sempre girando. Os que foram filhos chegam um dia a ser pais, e enfim, vem também o tempo em que eles sentem por sua vez o que fizeram outrora experimentar a seus pais.
Não sejam os homens acusados por isso... pois que todos seriam réus e ninguém poderia ser juiz. Os homens não têm culpa; a natureza é que é a ingrata; mas o fato é esse.
Solteiro, porém, ou casado, o filho continua sempre a ser o pensamento da alma de seus pais. É a luz que lhes brilha na vida. Quem foi que pôde já consolar aqueles que perderam um filho?... o tempo?... o tempo dá somente resignação; muda o nome, crisma a dor; em vez de aflição, chama-a saudade, mas os pais não esquecem o filho que lhes morreu senão quando morrem.
Porém, nada pode ser eterno: tudo tem um fim. E esse amor deve acabar um dia... acaba na sepultura.
É esta a mais ligeira idéia que se pode dar, muito de passagem, do amor paternal.
Se nem todos amam com a mesma força a seus filhos, amam-nos sempre e a natureza do afeto é a mesma.
Anacleto amava a Mariana como os pais que são mais extremosos e ternos.
Apenas saindo do berço, Mariana perdera sua mãe, e então seu extremoso pai, vendo-a tão pequenina já órfã, tão debilzinha e já sem um de seus gênios protetores, viu também nisso uma razão para amá-la em dobro.
Obrigado por sua viuvez a rodear sua filha daqueles ternos e miúdos cuidados, de que especialmente se ocupam as mães, perdendo noites por ela, às vezes embalando-a para fazê-la dormir, Anacleto tinha por sua filha reunido em si dois amores a um só tempo: o amor de pai e de mãe.
Desse modo Anacleto pôde estudar a fundo o caráter de sua filha; pôde ler na leve contração de um músculo de seu rosto o íntimo sentimento de sua alma, e distinguir a verdade e a mentira nos feiticeiros sorrisos de Mariana.
Mas o amor não dá somente prazeres, faz sofrer também pesares acerbíssimos. Não será até possível decidir se estes são devidamente compensados por aqueles. Há muitos amores que sorriem; mas não há um só que não chore.
A beleza de Mariana encheu de orgulho o coração de seu pai nos primeiros anos, pouco depois porém essa mesma beleza começou-lhe a ser origem de sérios cuidados; quando ele chegou a notar que sua filha, vaidosa de seus encantos, embriagada com o incenso de mil lisonjas, procurava ganhar escravos em todas as sociedades onde aparecia, não desanimava nem preferia nenhum de seus numerosos admiradores, e, em uma palavra, amava perdidamente o galanteio... o galanteio, que é quase sempre um obstáculo para a felicidade das moças, e uma recordação desagradável, que às vezes, já em muito nobre posição, as faz corar diante de um homem que vem visitar seu marido.
Então Anacleto desamava a beleza de Mariana, quisera antes vê-la cem vezes menos bela, contanto que fosse cem vezes mais discreta; porque enfim, uma filha nunca é feia para seu pai.
Quando Mariana casou, Anacleto sentiu-se livre de uma responsabilidade imensa; mas cedo encheu-se de novos e de mais importantes cuidados. Anacleto adivinhou o amor de sua filha e do jovem Henrique, e tremeu, e teve vontade de morrer; porque um pai faz-se por seu grande amor solidário na vergonha de seus filhos. E teve vontade de viver para velar por Mariana, para salvá-la e salvar-se daquele abismo.
Veio depois a viuvez de Mariana e com ela novos tormentos para o pobre velho. Um mancebo com quem ele antipatizava, parecia exercer sobre sua filha um império indizível. Com seu olhar penetrante, com suas vistas de pai, Anacleto via Mariana tremer diante de Salustiano... uma vez compreendeu que entre eles dois devia haver um segredo terrível; estudou inutilmente as ações e procedimento de ambos; daria metade dos poucos anos que lhe restavam para descortinar aquele arcano, mas não descobriu nada.
Enfim, chega Henrique, e outra vez aparece diante de sua filha. O amor daqueles dois corações não se tinha deixado morrer na ausência. Anacleto surpreende essa afeição ardente e dá-se parabéns porque Henrique é um nobre mancebo, que merece sua filha, e porque, além disso, vem livrá-lo do espectro que o assusta, vem lançar fora do combate a Salustiano.
Todavia, a despeito da presença de Henrique, Salustiano prossegue com seus antigos modos; Mariana continua, como dantes, a hesitar a seus olhos; portanto, nem o talismã do amor a pode salvar; e o pobre pai, que não conhece o abismo que o assusta, não tem o poder de avaliar o seu fundo, e treme ainda.
Um sarau é dado... festejam-se os anos de Celina, e nessa noite de prazer, na qual Anacleto adormecia suas mágoas, o mancebo importuno e terrível vem despertá-las.
O triste velho viu Salustiano aproximar-se de sua filha, conheceu no semblante dela que havia terror dentro de sua alma, e sem poder vencer-se, segue o par que passeia e conversa; apura o ouvido, e apanha algumas palavras.
– Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?... – tinha dito Salustiano.
E Mariana tremera e balbuciara uma frase que ele não pôde ouvir.
O terrível moço continuara: – Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.
Mariana estava desfigurada pelo terror.
– No fim dessa hora estarei vingado.
Anacleto não teve coragem para ouvir mais nada; luziu-lhe no ânimo a idéia de cair sobre aquele homem com suas mãos trêmulas, e afogá-lo ali mesmo... mas lembrou-se de que ele podia gritar... falar muito alto... e o pobre pai não sabia o que é que toda a sociedade reunida em sua casa chegaria a saber.
Com o coração despedaçado correu para o jardim, atirou-se ao banco de relva, e, cobrindo o rosto com as mãos, começou a chorar e soluçar desesperadamente.
– Oh! meu Deus! meu Deus!... exclamava ele.
E depois pensava consigo mesmo: será possível que aquela gente toda tenha os olhos fechados, que não observe e reprove o procedimento de minha filha?... que não leia na horrível palidez de seu semblante a prova irrecusável de um crime?...
que não esteja olhando para mim com piedade de meus cabelos brancos? – Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamava.
E depois, continuava a pensar consigo mesmo. Que crime terá praticado minha pobre filha?... porque a submissão, com que ela se curva àquele bárbaro, não é amor... não... eu conheço minha filha, ela detesta esse indigno mancebo; mas ele falou em vingar-se... disse que tinha em suas mãos os meios da vingança: oh! pois então a minha pobre Mariana é criminosa?... a filha do meu coração há de ser desgraçada?... ousaria ela manchar as cãs de seu pai?... a minha pobre, a minha querida filha... o meu anjo!...
– Oh! meu Deus!... meu Deus! exclamava.
E depois, continuava ainda a pensar consigo mesmo: ser pai é uma coisa muito triste; ter filhos é abrir a alma aos pesares!... oh! estes filhos, a quem damos a vida, nos matam!... estes filhos, a quem em pequeninos sustentamos pelas mãozinhas para fazê-los andar, e carregamos aos nossos ombros, vêm depois com as suas loucuras empurrar-nos para o túmulo!... oh! neste mundo não há missão mais difícil, mais cheia de lágrimas, do que a missão de pai!... e então eu... tão velho! com a cabeça coroada pela neve dos anos, trêmulo, sem forças, com os pés na cova, nem ao menos morrer consolado! o que eu pedia ao céu era fazer minha filha venturosa, e depois morrer... E há de agora a vergonha vir fechar-me os olhos?!... e morrendo, deixarei minha pobre filha do coração, só, desolada, desprezada pelos homens, e sem amparo no mundo!... isto é horrível... é capaz de matar de repente!
– Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamou chorando ainda com mais força o
infeliz velho.Cândido tinha estado muito tempo em pé diante de Anacleto, não querendo, enfim, perturbar aquela dor imensa em que o via engolfado; ia retirar-se, quando ao ruído de suas pisadas na terra o velho ergueu a cabeça.
– Quem é?... perguntou enxugando apressadamente as lágrimas.
– Sou eu, sr. Anacleto, respondeu Cândido. Minha curiosidade trouxe-me neste momento ao jardim; retirava-me porém já para não incomodá-lo.
– Incomodar-me!... então eu...
O mancebo ficou em silêncio.
– Chorava?... exclamou Anacleto soluçando de novo.
– É verdade.
Estiveram ambos por algum tempo sem dizer-se palavra. O velho chorando e Cândido tristemente observando-o.
– Sim, disse finalmente aquele: tenho chorado... muito, minha cabeça arde...
uma dor despedaçadora parece querer rebentar as fracas paredes deste velho crânio...
o que eu sofro é isso... é uma dor... eu estou doente.
– Oh? então por que não se apressa a medicar-se? eu vou chamar a senhora sua filha... sobretudo este ar da noite, o sereno pode fazer-lhe mal.
– Não... não quero... eu exijo que não chame ninguém... nem mesmo minha filha. Este ar da noite me faz bem... eu estou melhor, muito melhor; isto vai passar de todo. Basta que eu descanse... vá dançar, preciso ficar só.
Cândido ia retirar-se.
– Escute, tornou o velho: promete-me não dizer a pessoa alguma que eu estava incomodado?... promete-me?... veja que eu o exijo.
– Pois bem, senhor, nada direi.
– Sobretudo, meu filho, não diga a pessoa alguma que me viu chorando aqui.
Cândido retirou-se.
O velho, sacudindo tristemente a cabeça, disse: – Moço, se não compreendeste a minha dor, hás de compreendê-la um dia; – és filho; serás pai.