QUANDO, de volta do jardim, Cândido entrou na sala, Mariana e Henrique conversavam com fogo, e defronte deles Salustiano estava em pé de braços
cruzados, como quem espera por alguma coisa.Cândido não acreditara nas palavras de Anacleto; compreendera que as lágrimas do velho exprimiam antes um grande sofrimento moral do que uma dor física; por isso mesmo respeitava o segredo daquele padecer; mas observava curioso o que se passava então no “Céu cor-de-rosa”.
Estava-se aí tecendo uma dessas intrigas de salão... era uma mina que se abria; qual deveria ser a vítima?...
Moço e inexperiente, Cândido nada pôde concluir de suas observações: a assembléia toda se mostrava, como desde o começo da noite, alegre e festiva; Mariana sorria-se meigamente para Henrique; Celina estava bela e contente, mesmo mais contente do que ordinariamente parecia.
No meio de tanto prazer, como achar a origem de uma grande tristeza?...
O velho Anacleto chegou pouco depois, e Cândido ficou ainda admirado ao vê-lo prazenteiro dirigir-se a todos, gracejando com as senhoras e animando a sociedade já um pouco fatigada.
Na alma de Cândido apareceu este pensamento; “Quem sabe se alguns dos que se estão aqui rindo alegremente, não terão ido chorar, às ocultas, como o velho Anacleto?” Pela primeira vez em sua vida ele sentiu que, nas sociedades, o rosto se mascara com sorrisos... com olhares... e com palavras.
Henrique e Mariana separaram-se. Salustiano ia dirigindo-se ao primeiro, tendo porém os olhos fitos na filha de Anacleto, que, mal podendo conter um movimento de terror, foi direita ao lugar onde estava Cândido.
Salustiano voltou imediatamente à sua primeira posição.
Mariana falou a Cândido. Sua voz parecia comovida.
– Quer fazer-me obséquio de dar-me o braço? – Oh! com sumo prazer.
Um homem pobre agradece com tanto reconhecimento qualquer pequenina prova de consideração!...
– Para onde quer que a acompanhe, minha senhora?... prefere passear nas salas, ou ir ao jardim?..
– Vamos ao jardim.
Cândido observou que o braço de Mariana tremia.
Quando chegaram ao jardim, a viúva e o mancebo entraram no caramanchão, e ela, sentando-se no banco da relva, disse: – Sente-se ao pé de mim... conversemos.
Cândido sentou-se curioso; Mariana hesitava.
Aquela mulher, de caráter tão forte, ia cumprir as ordens de um homem que não era seu pai, nem seu marido, nem seu irmão. Agora fraca e humilde, desempenhava o papel de escrava, obedecendo ao aceno de seu senhor.
Esteve em silêncio por algum tempo a devorar seu cálice de amargura ali, naquele banco de torturas, onde pouco antes seu pai havia tanto chorado por causa dela.
Enfim, com esforço indizível tomou a mão de Cândido, apertou-a entre as suas, e disse: – Este mundo... este mundo, senhor, é um inferno!...
– Para os infelizes, senhora. – Oh! e onde estão os seus bem-aventurados?... ninguém julgue da paz do coração pelo sossego e prazer do semblante; quase sempre quando a alma chora lágrimas de sangue, os lábios sorriem e os olhos brilham!...
– Eu compreendo que às vezes sucede assim.
– Este mundo, sr. Cândido, é um tirano, um déspota inexorável, que todo ornado de prejuízos e de quimeras, impõe-nos o dever de respeitar seus prejuízos, e de adorar suas quimeras! e ai daquele que resiste!...
– É verdade... é verdade.
– Os homens curvam-se a idéias falsas e indignas deles, e as desenvolvem porque, enfim, força é ser escravo do mundo! – Não, isso não, minha senhora; o mundo não pensa, são os homens que, pervertidos e desmoralizados, concebem essas idéias. O mundo não tem culpa de ser assim, os homens o vestem com essas roupas.
– E o remédio?...
– O remédio é instruir e moralizar o povo.
– E enquanto ele não se instrui nem se moraliza?...
– Deve-se bradar com força contra aqueles a quem compete moralizá-lo e instruí-lo.
– Sim, mas o primeiro que se erguer contra um prejuízo que reina, será vítima, e ganhará em vez de palma de vitória a coroa de martírio.
– Embora. Sócrates morreu, porém suas idéias vingaram.
– E quem quereria ser Sócrates?.
– Oh! minha senhora, perdoe-me; mas julgo melhor fazer de outro modo a pergunta.
– Como?...
– Quem poderia ser Sócrates?...
– Pois aceito: quem poderia sê-lo?...
– Um bom governo.
A viúva pensou alguns instantes; a conversação ia tomando caminho contrário ao que ela queria levar; finalmente, começou de novo: – E enquanto a revolução moral não se faz, enquanto a sociedade não reforma os seus costumes, o que hão de fazer os homens, o que farão principalmente esses entes fracos, as mulheres, que desde que nascem até que morrem precisam sempre de um apoio na vida; o que hão de fazer, senão curvar-se a esses erros, a esses prejuízos?...
– Uma grande mulher responde por mim, senhora; Mme. de Stael – penso que foi ela – escreveu em um livro: “Os homens devem arrostar a opinião pública, e as mulheres curvar-se a ela”. Eu digo o mesmo dos prejuízos de que fala.
– Oh! mas é horrível! – Eu o sinto, minha senhora.
– Às vezes ter uma mulher, para respeitar essas indignas quimeras, de quebrar uma corda sonora de seu coração... às vezes ir parecer má, sendo benigna... dizer uma mentira, tendo na alma a verdade; é muito é horrível!
– Mas não é tanto assim, minha senhora; a mulher deve curvar-se diante do juízo dos homens só e unicamente até o ponto donde pode começar a ser ofendido o
juízo de Deus.– Pobres mulheres! às vezes o dito de uma criança é de sobra para perdê-las na opinião do público; e depois o discurso de um sábio não basta para purificar seu nome dessa nódoa imaginária! pobres mulheres, que precisam pesar suas palavras de cada vez que falam, ter cuidado com seus olhos de cada vez que olham... porque fazem de suas palavras e de seus olhos provas de erro, e até às vezes de crime! – Afeia demais a posição do seu sexo na sociedade, minha senhora.
– Não, isto é assim; eu, e todas, o temos experimentado. Há ocasiões em que um homem, que nos é indiferente ou só estimado como amigo, que nos respeita, que só por amizade pura e sem interesse freqüenta a nossa casa, põe, apesar disso, em dúvida a inocência de nossas afeições; e, sem o pensar, abre caminho à mordacidade, e presta uma vítima à calúnia! Cândido não respondeu. Ficou olhando para Mariana como querendo apanhar-lhe algum pensamento oculto, que acabasse de ressumbrar em suas últimas palavras.
Depois de hesitar também por algum tempo, a viúva continuou com voz muito comovida: – O senhor mesmo não tem escapado à maledicência.
– Eu? exclamou Cândido estremecendo.
– É verdade.
– E como?... e por quê? – Eu lho vou dizer... custa-me muito a fazê-lo, porque talvez o senhor se julgue ofendido; mas eu cumpro o meu dever... o meu desgraçado destino de mulher.
– Fale sem receio, minha senhora.
Mariana hesitando sempre, e sempre comovida, começou, pobre escrava, a cumprir as ordens de seu senhor.
– Sabe, que mortos os pais de Celina, foi o meu, como avô dela, nomeado seu tutor, que ele e eu recebemos a sagrada missão de velar por ela, e de fazer tudo por torná-la feliz?...
– Sei, minha senhora, respondeu Cândido que de novo estremecera ouvindo pronunciar o nome da “Bela Órfã”.
– Pois então, tornou Mariana, compreende a imensa responsabilidade, que pesa sobre nós?... compreende que sobre meu pai, e sobre mim recairá a culpa de qualquer falta que por minha sobrinha for praticada, ou da calúnia que contra ela ousarem lançar?...
– Compreendo, disse o mancebo recordando-se das lágrimas do velho Anacleto.
– Agora escute: esse povo insano, que não vive senão quando murmura, essa gente indigna, que quando não acha uma ação de que murmurar inventa-a para com ela alimentar-se; esse povo, essa gente quando vê um mancebo solteiro freqüentando a casa em que existe uma senhora que não é casada, não pergunta o motivo de suas visitas, não indaga a origem das relações que existem, brada, insulta, calunia! – Que quer dizer, minha senhora?...
– Quero dizer que desde as primeiras visitas que do senhor recebemos graças, eu me ufano de o declarar a todos, graças a nossos reiterados convites, minha sobrinha e o senhor tem sido vítimas da aleivosia.
– É possível?! – Ousam dizer que Celina e o senhor se amam e se correspondem, e que meu pai e eu protegemos esse amor...
– Mas é uma infame calúnia!... exclamou Cândido.
– E que importa ao mundo que murmura que o senhor e nós todos juremos que isso é falso?... que a sua presença nesta casa é devida somente a nossas repetidas instigações... que o seu comportamento aqui é nobre, é leal, é digno de um homem de educação?... o mundo continua a murmurar, como de fato tem continuado... vai de boca em boca passando a calúnia, e os últimos que a escutam já a recebem como verdade.
– Ah! senhora!...
Mariana hesitou, corando de si mesma. – Ousam dizer até... porque era horrível mentira, o que ia avançar; Cândido pensou que ela corava de vergonha disso que ousavam dizer, e falou a custo.
– Diga tudo, minha senhora, nada se deve esconder àquele que vai ser condenado.
– Ousam dizer que o senhor se gaba de merecer o amor de Celina a seus próprios amigos...
– Gabar-me a meus amigos?... eu sou pobre, minha senhora, muito pobre para ter amigos. Essa acusação é tão miserável que eu me rebaixaria se a combatesse.
– Hoje mesmo, e dentro de nossa própria casa a calúnia achou pasto para alimentar-se; ainda há pouco, quando o senhor cantava, houve quem visse muito fogo nos seus olhos, e uma declaração de amor no seu canto. No fim dele as amigas de minha sobrinha foram cercá-la, zombar, e dar-lhe irônicos parabéns pela sua futura felicidade.
Cândido sentia-se possuído de desespero e de vergonha; ansiado, faltava a seus pulmões ar para respirar; enxugava com o lenço suor copioso, que em bagas lhe descia pelo rosto. Seu coração estava comprimido por um pêso enorme; arquejava.
A viúva prosseguiu: – Minha infeliz sobrinha correu para mim desolada, e escondida comigo no fundo de meu quarto, chorou tanto e tanto, que me fez dó, e obrigou a um passo que me causa realmente muita aflição.
– Ela chorou, senhora?... perguntou Cândido torcendo as mãos com violência.
– Oh! sim! ela tinha razão; perdoe-lhe, pois. Ela pesou as conseqüências desses boatos, e teve medo.
– E teve medo!... balbuciou automaticamente o mancebo.
– Porque, senhor, se esses boatos não forem desmentidos de algum modo muito positivo, qual será o resultado deles? uma barreira se levantará diante do futuro da pobre menina. Nenhum homem de bem quererá pretender a mão, a posse da namorada de um outro, e, ou ela se casará com algum que não tenha sentimentos elevados... ou ficará eternamente solteira... o que é na verdade uma desgraça, ou, enfim, casar-se-á com o senhor.
– Ou enfim... balbuciou outra vez Cândido.
– Oh! mas eu tenho bastante conhecimento da generosidade de sua alma para acreditar que tudo isto lhe é tão doloroso como a ela; eu vejo que o senhor não se achando com forças, não podendo fazer a ventura de Celina...
A viúva hesitou outra vez.
– Não podendo... repetiu surdamente o mancebo.
A viúva respirou, animou-se, e prosseguiu.
– Porque o senhor é pobre... não tem bastante para si... e Celina está habituada a cômodos e prazeres, que enfim o senhor não a poderia fazer feliz... é pobre... e...
– Sou pobre... disse o mancebo com voz sombria e sacudindo a cabeça; é isso mesmo: eu sou pobre...
– E quando mesmo os senhores se amassem realmente, e o amor, operando um milagre que não seria o primeiro, fizesse com que Celina se julgasse feliz partilhando as privações da sua pobreza; essa felicidade duraria dois ou três meses, talvez mesmo um ano; mas passada a força da paixão... a realidade chegaria por sua vez, Celina choraria seus antigos prazeres, que o marido lhe não poderia dar em sua pobreza.
– A pobreza! – E o senhor também se havia de arrepender de havê-la desposado; porque talvez que um homem rico e feliz, um homem que ocupasse na sociedade uma posição que se visse...
– Que se visse!...
– A quisesse por mulher; e então é conseqüente, e eu creio que o senhor pensará comigo, que uma mulher no seio da riqueza, gozando os regalos que ela facilita, brilhando pela posição de seu marido, é mil vezes mais feliz, é sem comparação mais ditosa do que nos braços de um pobre, que não teria para dar-lhe senão lágrimas de amor no princípio... e no fim impertinências e dissabores de indiferença...
– Tem razão.
– Oh! não sou eu que a tenho, é minha sobrinha que a tem; minha sobrinha, que o estima; mas que não pode deixar de chorar a sua fama assim ultrajada por seu respeito... bem que o senhor não tenha para isso cooperado.
A viúva calou-se... Cândido não podia dizer palavra; ambos porém sofriam muito. O mancebo tragava fel de amargura, de vergonha e de desespero, e Mariana sentia-se devorada por violentos remorsos.
Mas era escrava: tinha obedecido a seu senhor.
Estavam já em silêncio há alguns minutos, quando ouviu-se o toque da meianoite.
Mariana ergueu-se, e disse: – Ah! meu Deus! que tempo estamos fora da sala... hão de ter reparado em
minha ausência... voltemos, sr. Cândido.O mancebo que se tinha deixado ficar sentado no banco de relva, respondeu com voz sombria: – Não; eu fico.
A viúva retirou-se a passos vagarosos e com a cabeça baixa; desaparecendo pela portinha que deitava para o jardim, ela encostou-se à parede do corredor e desatou a chorar, Quando Mariana acabava de sair do jardim, surgiu dentre alguns arbustos um homem alto e cuja cabeça alvejava de tão branca que era.
Chegou-se ao caramanchão, e dirigindo-se ao mancebo, disse: – Aquela mulher mentiu.
– Não mentiu! exclamou Cândido com violência, não mentiu! é a verdade! o mundo falou em seus lábios... tudo aquilo quer dizer – o homem pobre é um miserável... o contato do homem pobre mancha o rico... seu hálito é pestífero... o seu aspecto hediondo... a pobreza é a morféia! E acabando de pronunciar essas palavras, saiu correndo pela portinha do jardim.
Ficou só o velho Rodrigues.
O A MOR é a paixão das inconseqüências e dos absurdos.
A impossibilidade de bem defini-lo provém da mesma natureza desse sentimento. Tem-se escrito milhões de volumes sobre o amor, e a inteligência humana ainda o não retratou com todas as suas cores, porque sempre ele se mostra com uma nova nuança.
Fizeram-no parente da amizade, deram-lhe até o grau de seu irmão; mas se realmente tanto nela como nele há sempre um pendor para o objeto que nos é grato, diferem ambos em tudo que resta, tanto e tanto, que parecem mais inimigos do que deviam ser dois parentes tão chegados.
Diferem muito, diferem nos princípios e rios resultados.
O belo título de amigo adquire-se à custa de uma longa provação, que dura anos. Aglomeram-se obséquios sobre obséquios; é preciso que o tempo e o trato mútuo de dois homens tenha feito conhecer a ambos sua também mútua dedicação, e o desinteresse e a paciência, e até certo ponto conformidade de sentimentos, e de sentimentos que sejam nobres; para que no fim de tudo isso saia o nome de – amigo, – não da flor dos lábios, mas do âmago do coração.
O amor não é assim: às vezes é a obra de um instante tão breve como um suspiro.
Às vezes não se estuda a nobreza dos sentimentos da pessoa a quem se vai, sempre involuntariamente, amar; e nunca se espera por nenhuma prova de dedicação e paciência, e não se pode esperar por alguma de desinteresse; porque o amor é
terrivelmente interesseiro no seu gênero.Às vezes dois olhos pretos, dois lábios de coral, e um instante para vê-los, resumem toda a história de um grande amor.
Pois bem, aí tendes um amor e uma amizade: o primeiro, filho do temperamento ou da simpatia, ou do que quiserdes; o filho, em suma, de um curto momento em que não houve nem reflexão nem vontade; a segunda, sentimento refletido, criado pela dedicação, amamentado pela virtude, educado cuidadosamente durante muitos anos.
Aí tendes a amizade, virgem encantadora cheia de pureza, de formosura, de graça e de castidade; e o amor, menino impertinente, audacioso, exigente, importuno, teimoso... para dizer tudo, menino malcriado.
O que é que acontece no correr da vida de ambos?...
Acontece que o filho do momento, que devia ser o mais fraco, é o mais forte; que o menino malcriado, que devia ser menos tolerado, é de quem se sofre. muito mais.
A amizade para viver precisa que a ajudem: é a lâmpada do templo, cuja luz se extingue se lhe falta o óleo; é necessário que a dedicação, o desinteresse, a paciência, que já tanto se provaram, vão sempre de seu existir dando novas provas, para que a amizade subsista; para que a virgem não fuja envergonhada.
E o amor?... amai, e vede: aquilo mesmo que destruiria para logo a mais antiga e enraizada amizade, é quase sempre um incentivo que dá mais vigor e mais fogo ao filho do momento.
Amai, e vede: a mulher que vos plantou no coração esse sentimento, vos desafia com seus rigores; vos faz escravo de seus caprichos; com um desdém arranca lágrimas de vossos olhos, e com uma lágrima vos faz dobrar os joelhos.
Na amizade, a traição faz esquecer; no amor, a traição faz enlouquecer.
As diferenças que existem entre os dois sentimentos continuam ainda; e, como devia acontecer, compensam finalmente os triunfos que sobre a amizade dão no princípio ao amor.
O orgulhoso que de si mesmo tirava suas forças, que vivia de seus caprichos, de desdéns e de lágrimas, devia por força cansar mais depressa do que a virgem modesta, que caminhava cuidadosamente à sombra de mil cuidados e guiada pela virtude e pela dedicação.
O tempo é portanto a vida da amizade e a morte do amor.
E assim como vimos há pouco, que aquilo mesmo que podia instantaneamente matar a amizade, era para o amor incentivo que lhe dava mais vigor e lhe tornava mais intenso o fogo; veremos agora, em compensação também, que o princípio que anima a primeira é causa do resfriamento e morte do segundo.
Queremos falar do gozo, porque, embora de natureza distinta, tanto o amor como a amizade têm o seu.
Dois amigos gozam-se com a troca de seus sentimentos e de seus cuidados, gozam-se partilhando mutuamente os pesares e os prazeres um do outro, ajudandose na prosperidade e nos trabalhos da vida; e esse gozo anima o fogo do sentimento
que o dá, enraíza ainda mais a amizade que o promoveu.Agora o que acontece com o amor, perguntai a todos os esposos. Interrogai principalmente a todas essas belas moças, a quem se jurou paixão eterna; interrogai a essas... um ano depois de casadas.
Elas vos dirão o que desde muito tempo já foi dito – “o desejo é a medida do prazer”.
Ou, o que pouco mais ou menos exprime a mesma coisa – “a morte do amor está no gozo”.
Mas enquanto se não goza, flameja um desejo imenso que acende a imaginação, e os menores encantos são perfeições angélicas, e tudo é engrandecido e divinizado no objeto que se ama. Da mulher se faz um anjo.
Não há mais nada de terrestre nela. Houve uma metamorfose operada pela imaginação.
O desejo suspira às vezes como um favônio que brinca com as flores de manhã cedo; e logo depois brame como a tempestade, como o vento enraivado varrendo a floresta virgem.
Se há um abismo, o homem lança-se dentro dele; se lá dentro... se lá embaixo ele viu o rosto da mulher que ama...
Se há um muro de bronze, o homem trabalha uma vida inteira para lançá-lo por terra.
E nem os anos, e nem a ausência podem fazer esquecer a mulher que se ama.
Porque não houve gozo.
E pode a mulher ser caprichosa e ligeira; pode zombar, pode parecer inconstante, pode desdenhar, podem mesmo asseverar que ela é falsa; o homem estará preso a seus pés como um mísero escravo.
Porque não houve gozo.
É, com isto, e mercê destas considerações mil vezes já enunciadas de modo mil vezes melhor, que se explicava o amor extremoso e irresistível de que o jovem Henrique se achava possuído pela filha de Anacleto.
Henrique era um exemplo que se podia dar dos dois sentimentos que acabam de ser discutidos.
Laços de uma pura e virginal amizade o ligaram a Carlos. Grilhões de um amor tirânico e invencível o prendiam aos pés de Mariana.
A amizade porém dos dois mancebos era mais velha que o amor de um deles; e Carlos, com o zelo de um amigo fiel, tinha acompanhado todo o correr desse amor, que durante muito tempo se lhe figurou em abismo.
Com franqueza a lealdade combatera esse sentimento de Henrique durante seus primeiros tempos; apoiara sua viagem à Europa, e, apesar de ler o nome de Mariana em todas as cartas de seu amigo, só começara a falar dela nas suas quando começara também a viuvez da filha de Anacleto.
Depois da volta de Henrique à pátria, acompanhava-o ao “Céu cor-de-rosa”, e
observava...Os dois amigos estavam juntos na manhã que se seguia depois da noite dos anos de Celina.
Henrique achava-se pensativo e profundamente melancólico.
– Previ que estimarias ver-me hoje cedo, disse Carlos.
– Estimo ver-te sempre; que quer porém dizer a tua previsão? – Adivinhei que estarias pensativo e triste.
– Então adivinhaste também o motivo? – Também.
Henrique corou sem querer; ensaiou um sorriso, e perguntou: – E qual é?...
– Sou teu médico, Henrique, e vi que a noite de ontem deveria fazer-te mal.
– E fez-me.
– Portanto, fiz bem em vir conversar contigo: necessáriamente tens muito que dizer-me.
– Não; tenho ao contrário alguma coisa que perguntar.
– Vamos, pois.
– Que observaste ontem à noite, Carlos? – Provavelmente menos do que tu, Henrique.
– Menos do que eu?...
– Sim; porque eu examinei tudo com o olhar frio do observador, e tu viste tudo com os olhos enganadores da paixão.
– E então?...
– Então tu deixaste ontem o “Céu cor-de-rosa” com a convicção terrível de que tinhas um rival poderoso no jovem Salustiano.
– E tu?...
– E eu vim com a certeza de que a bela viúva detesta esse homem mais do que tu mesmo.
– É possível?! – Mas eu trouxe também a certeza de que entre ela e Salustiano existe um segredo, que é uma barreira que se levanta contra o teu amor.
– Oh!... mas esse fatal segredo...
– É um segredo... não o saberás... não o saberemos.
– Mas eu daria meu sangue... metade de minha vida para poder arrasá-lo.
– E nunca o saberás.
Henrique torceu as mãos com violência, e depois exclamou com acento de dor profunda: – Que eu não possa esquecer essa mulher! E começou a passear por toda a extensão da sala visivelmente alterado.
Carlos acompanhava-o em silêncio e com os braços cruzados, até que enfim Henrique principiou a desabafar seus sofrimentos, falando.
– É incrível! exclamou ele: como se pode explicar este sentimento que tem feito o constante padecer de minha vida?... como é que pode em mim tanto essa mulher, que nem a razão, nem a ausência, nem a amizade poderão conseguir fazerme esquecê-la?... como é que eu me prendo assim a uma rosa que me espinha; que me ofereço a um raio que me abrasa?! Oh! Carlos! Carlos! este amor é fatal como a maldição de um pai!...
– Eu to predisse: no seu começo fora possível vencê-lo; agora é tarde.
– Possível vencê-lo?! se não foras meu amigo, eu te desejaria um amor como este, para sentires como foi ele no seu começo; sabes o que é estar um homem devorado pela sede, e preso a uma coluna de ferro a dois passos de um rio de águas límpidas?... pois foi assim que eu vivi enquanto Mariana esteve casada; a minha sede era de amor, minha coluna de ferro era a honra, e essa mulher era para mim uma fonte de angélica pureza... oh!... foi muito horrível a minha vida!... foi muito horrível! Carlos guardou silêncio.
– E agora? prosseguiu o apaixonado mancebo; – agora que nenhuma consideração digna de respeitar-se opõe-se ao meu amor; agora que eu não me envergonho declarando-o à mulher que tanto pode sobre mim; agora que eu a ouço todos os dias dizer que me ama, há de vir um homem, que até hoje desprezei, ostentar a meus olhos o poder que exerce sobre ela?... isto não é uma tentação abominável?... dize Carlos, dize, isto não é uma tentação capaz de perder-me para sempre? Os olhos de Henrique flamejavam.
– O que queres dizer?... exclamou Carlos.
– Quero dizer, respondeu Henrique tremendo, que ontem à noite eu vi a mulher que adoro, levada pelo braço desse homem, pálida, abatida, trêmula como uma criminosa; e ele, arrogante, soberbo, terrível e feroz como um algoz; quero dizer que de então até agora eu tenho sonhado com um punhal... com a desonra...
– Insensato! bradou Carlos.
– Mais do que isso! – Compreendes bem todo o sentido das palavras que pronunciaste?..
– Perfeitamente.
– Serás capaz de repeti-las?...
– Sem dúvida.
– Henrique, disse Carlos com voz triste e grave; falas com o teu amigo, responde pois seriamente. Pensaste já uma só vez em realizar esse pensamento abominável?...
Henrique hesitou.
– Esse pensamento é um crime, tornou Carlos, mas eu sou teu amigo para to perdoar; responde pois, pensaste já uma só vez em realizá-lo?.
Henrique empalideceu como um moribundo, e disse: – Já... esta noite.
– Estás quase perdido! exclamou dolorosamente o amigo. a Henrique, escutando esse grito da amizade, atirou-se no sofá chorando desabridamente.
Carlos sentou-se, e refletiu durante muito tempo; o médico procurava um remédio para o seu doente; e o doente tinha medo daquele médico, que sempre se
havia oposto ao seu amor.No fim de meia hora, Carlos chegou-se para junto do amigo, e tocando-lhe no ombro, disse: – Sê homem.
Henrique levantou a cabeça.
– Tenho pensado bem, continuou aquele; não vejo razão para tão grande dor.
– Como? perguntou Henrique.
– A bela viúva te ama.
O mancebo suspirou, e disse: – E aquele homem?...
– É um vil... despreza-o...
– Era só isso o que tinhas para me dizer?...
– Não.
– Que mais então? – Cumpre que tudo isto tenha um termo; e quanto mais cedo, melhor.
– Que devo fazer?... eu não sei nada... desvairo e choro.
– Pois bem: irás ao “Céu cor-de-rosa”.
– Quando?...
– Hoje não; estás agitado demais. Irás ao primeiro serão.
– E depois?...
– Terás uma conferência com tua amada, e positivamente oferecer-lhe-ás a tua mão.
– E finalmente?... exclamou Henrique.
– Pedi-la-ás em casamento ao velho Anacleto.
– Tu mo aconselhas?... – bradou o amante abraçando com força a Carlos – tu mo aconselhas?...
– Sim! sim! respondeu este.
E depois continuou falando consigo mesmo: – Dos males o menor.
SE O OLHAR do observador pudesse chegar ao fundo do coração humano, esquadrinhar todos os seus escaninhos, arrasar seus segredos mais ocultos, ler nele como em um livro; teria, é verdade, muito de que horrorizar-se, muito de que espantar-se com a hipocrisia e malvadeza da humanidade; em compensação porém acharia um encanto indizível, examinando o coração de uma moça que começa a
amar pela primeira vez.Porque, se doçura imensa se goza já nessas rápidas e passageiras traiçõezinhas, que fazem ao pudor de uma virgem os suspiros que por entre os lábios escapam, e os olhares que com mal comprimido fogo dardejam os olhos; em que mar de inocência, de amor angélico, de candura e de graças se não banharia o pensamento do observador, penetrando no coração da virgem cristã?! Uma vida nova começa com o primeiro dia de amor. A aurora desse dia rubra com o pejo da moça, revela um mistério que ainda se não compreendia a noite passada.
De então por diante todos os pensamentos, todos os desejos, os brilhantes arabescos da imaginação, os sonhos, que a alma sonha acordada, o futuro, os risos, o pranto e a vida da virgem estão presos por correntes de rosas ao mistério que se revelou.
Foi o grito da natureza que soou, e que repercutiu no coração da donzela.
Mas a virgem cristã teve a educação da pureza, e tem o pudor da mulher.
Desde que concebeu a idéia do amor, desde que a sentiu, ouvindo o grito da natureza, corou de si mesma.
Por que cora?... por que esconde um sentimento que a natureza inspira?... por que cora?... perguntai-lhe. Ela responderá com voz quase sumida – não sei, – há de corar mil vezes mais, respondendo.
E a virgem que não corasse por mais formosa que fosse, seria como uma flor sem perfumes, ou uma alma sem pensamentos.
Mas a virgem pretende em vão esconder o amor que amanheceu no seu coração. Ela o esconde, e ele se revela, como ainda o perfume que escapa da flor, e ainda o pensamento que transpira da alma.
Observai a moça que começa a amar. Tudo é novo nela: uma revolução se operou em seu caráter e em suas ações; o seu físico mesmo se ressente; ela se torna mais encantadora.
Estudai a expressão de seus olhos; seus olhares são vagos, rápidos, às vezes langorosos... é belo vê-la olhar assim...
Melancólica e distraída, seus antigos prazeres a afadigam; esqueceu-se deles...
tem na mente um desejo novo...
Louquinha que amava as festas com seu ruído e bulício; que corria pelos prados; que brincava com as companheiras saltando, gritando, zombando; agora se esconde em seu quarto para chorar sem motiva, e depois, no jardim, fica uma hora parada defronte de uma flor...
Isso, e ainda muito mais que não será possível descrever completamente nunca, é a história da madrugada do amor, que todas as que foram moças gozaram, e que as que o não são devem gozar ainda.
Celina começava a experimentar todos esses fenômenos. A noite de seus anos rasgara, enfim, o véu da dúvida... No fim do canto do mancebo pobre ela havia compreendido que já o amava muito; que dentro do seu coração esse amor brotara e crescera sem que fosse sentido... Cândido era amado.
Mas por que se tinha ele retirado antes da terminação do baile? por que não aparecera desde então no “Céu cor-de-rosa”?
O amor de Celina começava com tormentos. Porque também é regra que no
amor uma dúvida é um tormento, uma suspeita é veneno.Com ansiedade esperou a “Bela Órfã” pela primeira noite de serão... devia vêlo...
Cândido, se a amava, não podia faltar... havia de vir por força...
Gastou o dobro do tempo que costumava, em seu toucador. Tinha vontade de parecer ao homem que amava a mais bela de todas as mulheres.
Chegou a hora do serão. Vieram pouco a pouco chegando todos aqueles que costumavam freqüentar o “Céu cor-de-rosa”.
Celina não podia arrancar os olhos da porta da entrada; por três vezes já, tinha ido à janela sob diferentes pretextos.
Apresentou-se Henrique... algum tempo depois apareceu Salustiano.
Os sinos tocaram nove horas da noite. Cândido não havia chegado.
Celina não pôde conter um forte movimento de impaciência e desagrado.
– Meu Deus! D. Celina, exclamou Felícia, o que é que hoje você tem? – Parece que esperava por alguém que não chegou, disse Mariquinhas; ela não tem tirado os olhos da porta da sala, – Oh! não! respondeu a “Bela Órfã”; é que hoje não estou boa... sinto um calor que parece febre; preciso respirar ar puro e livre. E dirigiu-se de novo à janela... ninguém vinha. Esperou cerca de dez minutos; mas sempre debalde.
A pobre moça sentiu então uma dor nova para ela; apertou-se-lhe o coração, como se uma mão de ferro a estivesse comprimindo com os dedos; e não podendo suportar o ruído que na sala reinava; parecendo-lhe as risadas que ouvia, os gracejos que se diziam, as músicas que se cantavam, e os olhares que lhe lançava Salustiano, um insulto feito à sua dor, aproveitou um momento de distração geral, e saindo da sala sem ser sentida, subiu para seu quarto, e atirando-se no leito, começou a chorar.
No entanto, Henrique havia oferecido o braço a Mariana, e passeavam conversando.
Chegaram-se ambos para uma janela, e vendo-se a sós Henrique falou à bela viúva: – Minha senhora, eu precisava falar-lhe a sós sobre um objeto de grande importância para nós ambos, julgará oportuno este momento?...
– Posso eu dar uma sentença sobre causa que não conheço? perguntou gracejando Mariana.
– Não haverá gracejo nem puerilidade no que eu devo dizer, tornou Henrique com tom sério.
– Mas é que eu não sei sobre o que devemos tratar.
Oh!... senhora!... será possível que não adivinhe qual será o objeto de que lhe quero falar?... não lho diz o coração há seis anos?...
– Para aqueles que se amam, disse Mariana abaixando a cabeça e a voz, todos os momentos e todos os lugares são oportunos e propícios.
– Então eu falo; e depois que eu falar, é que realmente ouvirei uma sentença.
Mariana levantou os olhos e viu a expressão apaixonada e séria do semblante de Henrique.
– Eu não lembrarei o passado, disse o mancebo: é a história de uma luta desesperada entre o dever e o amor, que eu não quero recordar, porque ainda me
causa terríveis angústias...– Oh! lembremo-lo sempre!... a sua memória é doce porque não desdoura...
foi um amor do espírito.
– Embora... mas se quiser, eu o lembrarei somente para dizer que esse amor que resistiu ao dever, que não morreu na ausência, é um amor que deve ser bem caro, senhora!...
– E tem ele sido mal pago, senhor?... nessa luta entre o dever e o amor, sofreria menos a mulher, para quem o amor é sempre mais ardente, e o dever era dobradamente maior?...
– E agora, senhora?... agora, que não há mais barreiras levantadas diante desse terno sentimento?...
– Agora?...
– Sim, agora?...
– Aceite como resposta, senhor, a mesma pergunta que acaba de fazer-me.
– Oh! pois bem; mas o que vemos na sociedade?... quem é que se apressa a desejar prender-se por laços sagrados?... é porventura o homem, que pode esperar dez anos sem perder na opinião dos outros homens?...
– Que quer dizer, senhor?...
– Quero dizer, minha senhora, que acreditando em suas palavras, julgando-me feliz e amado, eu me espanto de que a mulher que me ama, e que tem a certeza de ser por mim idolatrada, livre, tão senhora de sua mão como de seus pensamentos, não se lembrasse uma só vez ainda de me estender essa mão há tantos anos desejada, dizendo-me: – ei-la aqui! – Ah! senhor!...
– Quero dizer que tenho pensado comigo mesmo sobre a causa provável dessa frieza, e seguramente há erro em todos os meus juízos. Pensei, eu o confesso, senhora, que eu podia ter sido o objeto de uma zombaria de seis anos... que o amor, em que acreditava, era fingido...
– E teve duas vezes esse mesmo pensamento?... perguntou Mariana, deixando cair duas grossas lágrimas.
Henrique não viu felizmente as lágrimas da viúva.
– Não... não... esse pensamento duas vezes concebido seria capaz de matarme; esse pensamento foi certamente uma loucura; mas como essa, mil outras loucuras me vieram à cabeça, e finalmente uma, que foi a pior de todas, que é horrível!...
– Mas por felicidade nossa, senhor, não passará também de uma loucura.
– Pensei, disse Henrique voltando os olhos para a sala, que havia no mundo um homem que se opunha à minha dita... e que a mulher que eu adoro, obedecia à sua voz e tremia debaixo de seus olhos! Henrique encarou Mariana como querendo apanhar-lhe no rosto, no tremer convulsivo de um músculo, ou no espanto do olhar, um segredo que ela guardasse; mas apenas viu raiar nos lábios da interessante viúva o mais feiticeiro dos sorrisos.
Com serenidade, sangue frio e graça respondeu Mariana em tom alegre: – Quando eu dizia que era ainda uma loucura!...
– Uma loucura somente?... uma quimera, e mais nada.
– Sim... sim; somente uma loucura; mas uma doce loucura, que me agrada, porque a sua origem me é grata.
– Deus permita que eu fosse realmente um louco! Apesar da serenidade que afetava, a viúva sentia-se terrivelmente combatida interiormente pelas suspeitas de Henrique; a todo transe quis saber até onde tinham elas chegado.
– Porém, disse ela, para que ficar assim apenas conhecido por metade o juízo que fez a meu respeito?... arrependo-me de o haver interrompido.
– Ao contrário, senhora, fez bem em dar apressada um copo d’água ao homem morto de sede; tanto mais que o meu juízo parou aí... não pensei mais nada...
– Fala seriamente? não procurou conhecer esse homem que podia tanto em mim, nem descobrir a causa de sua admirável influência?...
– Não passei além do que disse.
– Oh! exclamou Mariana, Deus permita que os seus votos de amor sejam mais verdadeiros do que as suas últimas palavras...
– Por que, minha senhora?...
– Porque agora não disse a verdade. O homem do qual quer falar está ali na sala... seus olhos o procuraram ainda há pouco.
– É verdade, murmurou Henrique.
Mariana corou, e disse com violência mal comprimida: – E o senhor... o homem a quem eu distingui com o meu amor, o senhor que é um homem nobre, porque se o não fora eu o não amara, abaixou-se até o ponto de tomar para seu rival um miserável que não tem espírito nem beleza?... rebaixou-me, dando-me por amante um moço sem mérito e que eu detesto!...
– É possível...
– Oh!... eu sei amar melhor do que sou amada!...
Henrique apertava com ardor uma das mãos de Mariana; cairia a seus pés, se não pudesse ser visto por tanta gente que estava a alguns passos deles.
– Eu sei amar melhor, continuou a viúva. Porque ao menos eu não rebaixaria o homem que amo, julgando-o capaz de esquecer-me por uma mulher que não se pudesse comparar comigo!...
– Mas aquele homem por toda a parte a segue... e eu... ah! senhora, eu já disse que sou um louco.
O rosto de Mariana tomou ainda uma nova expressão fisionômica; radiou nele outra vez o prazer, e com acento gracioso respondeu: – Quando eu digo que amo, que me é grata uma loucura assim!...
– Que contradição, meu Deus! – Que quer?! a culpa não é minha; quando penso em levantar-me violenta e ressentida contra essa loucura, vem logo desarmar-me a imagem do louco!...
Henrique torceu as mãos apaixonadamente, e disse:
– Ah! senhora! eu quisera sentar-me em um trono para lhe dar metade dele...eu tremeria menos assim, porque o esplendor do meu diadema deslumbraria àqueles que ousassem erguer os olhos para aquela que se sentasse a meu lado! – E eu, pelo contrário, respondeu a viúva com seu encantador sorriso, quisera vê-lo no fundo de um horrível abismo para descer até lá, e ir viver debaixo de seus olhos; eu então não tremeria nunca... porque nenhuma mulher quereria descer como eu e esquecer o mundo pelo abismo.
O piano tocou nesse momento os primeiros compassos de uma valsa.
– Chamam-nos! disse Mariana.
– Sim... chamam-nos... mas com suas belas palavras ficou esquecido o fim principal de nossa conversação! Sereia encantadora que o homem não deve ouvir para se não perder!...
– Ah! porém eu compreendi tudo.
– Tudo?... talvez; porém não respondeu nada.
– Eis a minha resposta, disse a viúva.
E oferecendo a Henrique sua mão direita, acrescentou, abaixando os olhos e com voz comovida: – Ei-la aqui.
O mancebo apertou aquela mão delicada e bela com ardor e entusiasmo, e com os olhos úmidos de lágrimas de prazer, disse: – Amanhã virei pedi-la a seu pai! – Venha... eu o espero, respondeu a viúva.
Os dois entraram na sala ébrios de alegria e de amor.
A música viva e animadora de Strauss tinha feito voltar à sala mais alguém, que dela estava ausente.
Pouco tempo depois que Celina havia subido para seu quarto, deu Mariquinhas por falta da amiga, e adivinhando onde a acharia, correu ao segundo andar.
Quando entrou no quarto da “Bela Órfã” não pôde reter um pequeno grito de susto: Celina estava meio deitada em seu leito, e com o rosto coberto com um lenço chorava tristemente; seus cabelos se haviam desatado e caíam-lhe espalhados sobre o lindo colo.
Escutando o grito de Mariquinhas, tirou o lenço dos olhos, e sentando-se, perguntou agitada: – Quem é?...
– Sou eu, d. Celina, disse Mariquinhas aproximando-se; sou eu, que te venho perguntar o que querem dizer essas lágrimas.
A “Bela Órfã” passou a mão pela fronte e respondeu tristemente: – Já te não disse que não estava boa?... é a minha cabeça que sofre.
Mariquinhas olhou para a amiga por algum tempo, e depois tornou-lhe assim: – Sou alegre, d. Celina, tu me chamas maliciosa. d. Felícia diz que eu sou ligeira, e que não tenho juízo; mas olha, o que eu sei é que sou tua amiga.
– Eu te creio, d. Mariquinhas.
– Pois bem, sabe que compreendo alguma coisa de tua dor... não adivinho tudo, mas alguma coisa eu sei.
– Que queres dizer? – Que não é a tua cabeça que está sofrendo.
– Então o quê?...
– É o teu coração.
– D. Mariquinhas! – Basta! por agora nem mais uma palavra. Deixa-me arranjar teus cabelos...
teremos tempo para conversar qualquer destes dias.
– Mas eu...
– Silêncio! enxuga as tuas lágrimas. Que precisão há de que saibam lá embaixo que tu choraste?... sabes?... perguntar-te-iam, ou quereriam adivinhar por quê.
A “Bela Órfã” abaixou a cabeça, e Mariquinhas começou a endireitar-lhe o cabelo.
Quando acabava esse interessante trabalho, soaram embaixo os primeiros compassos da valsa.
– Ouves?... disse Mariquinhas.
– Sim, ouço.
– Pois vamos descer.
– Para quê?...
– Para dançar – Eu não dançarei hoje.
– Oh! tornou Mariquinhas; mas é necessário dançar, é necessário rir, é necessário fingir; porque a moça que não finge, sofre muito neste mundo que morde.
– Oh! que mundo!...
– Vamos.
– Espera; olha bem para mim; poderão descobrir nos meus olhos que eu estive chorando?...
Mariquinhas olhou de perto para Celina, foi aproximando o rosto, deu-lhe um beijo, e disse: – Teus olhos brilham... as lágrimas estão no coração. Desceram as duas amigas Quando, deixando a janela em que haviam conversado, Mariana e Henrique tornavam à sala, Celina e Mariquinhas apareciam também.
Eram dois amores que entravam ao mesmo tempo: o primeiro trazia a esperança nos olhos, e o segundo um tormento no coração.