NA NOITE dos anos da “Bela Órfã”, foi a velha Irias uma das primeiras
pessoas que reparou na ausência de Cândido.Depois de esperar inutilmente vê-lo entrar de novo na sala, perguntou por ele, e soube com espanto que se havia retirado.
Receando que algum incômodo grande e imprevisto tivesse sobrevindo a seu filho adotivo, despediu-se dos donos da casa, e deixando o “Céu cor-de-rosa” entrou no “Purgatório-trigueiro”.
Subiu ao velho sótão, a porta estava fechada. Bateu em vão primeira, segunda e terceira vez.
Espantada daquele silêncio que no sótão reinava, desenhando-se em sua imaginação já um grande infortúnio, Irias gritou com força: – Cândido! meu filho!... Cândido!...
Ouviu então os passos de alguém que da porta se aproximava, e Cândido respondeu: – Ide sossegar, senhora; não tenhais receio algum pelo meu estado... não estou doente.
A voz do mancebo tinha um não sei quê de assustador.
– Abre! disse a velha.
– Amanhã, senhora.
– Abre! eu quero que abras.
– Eu preciso de repouso.
– Abre! – Perdoai-me... mas esta noite não posso obedecer-vos.
– Abre, Cândido! exclamou a velha; abre em nome da mulher que te concebeu... abre em nome de tua mãe.
O mancebo pareceu hesitar ainda: mas logo depois deu volta à chave, e a porta abriu-se.
– Acertastes! disse ele; de hoje avante tudo por minha mãe... tudo... e só por ela.
Irias ficou extática diante de Cândido.
Não era mais aquele moço pálido, melancólico, abatido e fraco: seus olhos brilhavam de ardentes, suas faces estavam rubras, seus lábios às vezes convulsos, havia em todo seu semblante fogo e vivacidade; mas de sua fronte caíam gôtas de suor, e em seu aspecto, e em seus modos notava-se a agitação, e esse excesso de vida que acompanha os febricitantes.
– Que é isto?... que tem?... bradou Irias agarrando-lhe no braço.
– Quereis dizer que nunca me vistes tão belo, não é assim, senhora?...
respondeu o mancebo com um rir convulsivo, que fez estremecer a velha.
– Cândido!...
– Pois então?... não é melhor assim?... não estou mil vezes mais belo com este meu rosto enrubescido, com meus olhares flamejantes, com este ardor e este fogo, em vez de todo aquele gelo antigo? oh! aplaudi-me!... batei palmas!... eu triunfo!...
sou feliz!...
Uma risada nervosa terminou a delirante exclamação de Cândido.
A velha, que tinha entre as suas segura a mão do seu filho adotivo, disse com força: – Tu não estás bom... tens febre; eu vou chamar um médico.
De um salto colocou-se o moço diante da porta, e respondeu: – Aqui não entrará mais ninguém esta noite: para que um médico?... o que é um médico?... é o homem da vida, é o homem que deve esforçar-se para prolongar o mais possível a nossa existência, é o inimigo da morte; pois então para longe!... a vida é somente uma longa cadeia de tormentos: suas duas únicas realidades a definem com um gemido; porque o homem geme quando nasce, e geme quando morre; portanto aquele que tem por ofício estender esse longo aparelho de torturas, é um tirano. O médico é um homem mau... nada de médico! – Meu filho!...
– Não! não! eu não sou vosso filho, sabeis?... não quero que me chameis por esse nome... é um direito sagrado que usurpais! devo-vos muito, não é isso?... pois bem, tomai todo meu sangue... ou melhor, sede a senhora de meus dias: trabalharei enquanto viver para vos sustentar; serei vosso escravo, e ainda assim morrerei confessando que vos fico devendo muito; mas ah! não me chameis vosso filho! de hoje avante está isso decidido... não me chameis vosso filho! A velha começou a chorar. Cândido, que passeava a largos passos por toda a extensão de seu quarto, escutou enfim um soluço da pobre Irias; correu para ela, e achou-a sentada em seu leito, desfazendo-se em lágrimas.
– Vós chorais?... perguntou ele; que querem dizer essas lágrimas?... não confessei já que vos devia tudo? – Oh! não! vós não me deveis nada, respondeu a mísera velha.
A voz de Irias trazia o acento de tamanha dor, que abriu o coração do mancebo a seus naturais sentimentos. Esquecendo de súbito os tormentos que o faziam desarrazoar, caiu aos pés da velha, e de joelhos, abraçado com eles, exclamou: – Perdão! mil vezes perdão, se vos ofendi! amaldiçoada esteja a minha alma, fechadas lhe sejam as portas do céu, senhora, se uma só vez concebeu uma só idéia que pudesse ser inspirada pela ingratidão a vossos benefícios. Vós tendes sido tudo para mim! em vosso seio eu bebi o leite da vida... fostes quem ganhou o meu primeiro sorriso infantil! vós éreis pobre, não tínheis senão um pão, e me destes metade desse pão! e me destes vosso coração todo inteiro!... perdoai-me! perdoaime!...
que hoje depois de tanto sofrer seria demais para mim a convicção de ter movido vossas lágrimas! perdoai-me!...
A velha e o moço abraçaram-se apertadamente, misturando o pranto que derramavam ambos.
As lágrimas pareceram abrandar um pouco a excitação de Cândido: ele ficou, durante algum tempo, silencioso e pensativo diante de Irias, que não pronunciava uma só palavra, medrosa talvez de ver renovar-se o desespero de seu filho adotivo.
Finalmente foi Cândido quem rompeu o silêncio, dizendo tristemente: – Eu me lembro do que disse: pedi que não me chamásseis vosso filho.
– Não falemos mais nisso.
– Ao contrário, devemos falar; pois eu... eu que não quero deixar em vosso coração a mais leve dúvida a respeito de meus sentimentos, pedi que me não chamásseis vosso filho... foi um desvario produzido por minha exaltação: eu vos ofendi, porque não estava em mim; um remorso, que me tortura, fez-me delirar.
– Um remorso!...
– O remorso de uma grande falta que eu cometi, e da qual já comecei a receber o castigo.
– Como?... quando?... perguntou Irias.
– Desrespeitei um sentimento sagrado... quis cultivar na minha alma uma flor estranha ao pé de outra flor, que lá está plantada pela mão do Senhor Deus. Sabeis o que aconteceu?...
– O quê? – A flor estranha está murcha... está morta, disse com voz trêmula e dolorosa o mancebo; mas deixou para sempre na minha alma o germe de um tormento horrível... desesperado! Os olhos e o rosto de Cândido acendiam-se de novo: a velha começou a recear que sobreviesse algum acidente mais grave, e ia falar, quando o moço prosseguiu com voz cada vez mais repassada de dor: – Plantei em um vaso sagrado uma flor humana, quis equiparar um sentimento, que me veio do céu, com outro que achei na terra. O resultado é este; o vaso foi profanado... a flor humana feneceu... um remorso é o que dela me resta.
– Cândido! – Quereis dizer que não me tendes compreendido?... eu vos explico tudo; metade da culpa pertence-vos também; mas mal não vos quero por isso. Ouvi-me.
A velha não achou uma só palavra para dizer a Cândido, que continuou a falar.
– O amor dos pais vem do céu: é um sentimento tão grande, tão nobre, tão divino, que apesar de ser natural a todos os homens; de às vezes achar-se um bom filho em um mau cidadão; o Senhor Deus desceu do céu, misturou-se com os homens e quis que esse sentimento fosse dele também, fazendo-se filho de uma mulher. O amor dos pais nos anima, nos consola, nos exalta, nos aproxima de Deus.
Oh! eu nunca vi meus pais, e os amei com toda a força de minha alma. Quando soube que no mundo só me restava mãe, concentrei todos os raios da minha faculdade de amar nessa mulher, que eu tenho criado na minha imaginação tão bela como um anjo. Oh! minha mãe!... eu não tinha pensamento que não fosse dela; todos os meus desejos, todos os meus sonhos de venturas relacionavam-se com ela: oh!... eu pensava ser, mas não era desgraçado! porque no meio de meus dissabores, de minhas tristes vigílias, de meus sofrimentos e de minhas privações, a imagem de minha mãe me aparecia bela... amante... carinhosa; e, contemplando essa imagem, eu esquecia todos os meus infortúnios. Eu era pobre no mundo, mas com o meu coração rico deste amor, eu gozei muitas vezes delícias indizíveis; porque, quando eu me engolfava em belas fantasias a respeito de minha mãe, quando me sentia redobrar de amor por ela, oh!... parecia-me ver lá de cima, do céu, o Senhor Deus sorrindo para mim, mandar-me um anjo murmurar-me aos ouvidos – abençoado!...
– Abençoado!... repetiu a velha enxugando com a face dorsal da mão duas grossas lágrimas que dos olhos lhe caíram.
– Não é verdade que eu deveria contentar-me com esta suprema felicidade que gozava? felicidade que não há ouro que a compre!...
– Oh! sim! sim!...
– Pois o coração do homem é uma fonte de insaciável ambição; o homem é tão ambicioso de riquezas, de honras, e de empregos, como de afeições. Eu perdiame, porque sou como todos os outros.
– Como? que queres tu dizer?...
Cândido passou a mão pela fronte e prosseguiu: – Da fresta daquela janela vi uma mulher de quem eu não podia ser filho, e que eu amei tanto quanto amava e amo a imagem de minha mãe!...
– Que importa?...
– Que importa?! pois não é um sacrilégio igualar o sentimento da terra com um sentimento que foi digno de Deus?! oh!... pois não é uma ingratidão inqualificável amar a uma mulher a quem nada devemos, que muitas vezes nos não paga o nosso amor, que outras vezes é mesmo indigna de ser amada, e amá-la tanto quanto amamos aquela que padeceu por nós horríveis transes, aquela cujo sangue é o nosso sangue?! é sacrilégio, senhora, e é ingratidão. Eu fui sacrílego e ingrato! – Cândido!...
– Esqueci tudo por uma criança de dezesseis anos, que ao romper de uma aurora descobri por entre as flores daquele jardim. O momento que bastou para vê-la começou a pesar em meu coração tanto quanto até então tinha pesado minha mãe.
Esqueci minha pobreza, não me lembrei que aí por esse mundo um pobre é um ente à parte, que não deve comer à mesa com os ricos, que não deve amar a quem tem mais do que ele... esqueci tudo... de minha mãe, comecei a lembrar-me menos; no altar da minha alma coloquei duas santas... e quando orava, já não orava só por minha mãe!... fiz mais: deixei o silêncio de meu quarto, fui tomar parte nas festas de gente que não era pobre como eu; riram-se talvez de mim, mil vezes em cada noite!... eu diverti-os, cantei, para que me tolerassem ali... curvei-me... abaixei-me...
e nem assim me toleraram.
– Cândido!...
– A culpa foi também vossa, exclamou Cândido; quem vos inspirou o fatal pensamento de ir patentear o estado do meu coração àquela criança?... porque viestes tirar daqui os versos que eu escrevia em minha loucura?... oh!... eis aqui a vossa e minha obra!... tiveram piedade de mim: despediram-me, e não me mandaram correr pelos escravos, oh! foram piedosos! respeitaram a linha com que, em seus tratos e modos, distinguem um pobre de um cão!...
– Cândido!... é possível o que estais dizendo?...
– Pensais que eu me lastimo! ...continuou o mancebo; pois já não confessei que era um castigo? julgais que me resta algum ressentimento?... não: é um remorso o que me resta! – Oh! não é isso, exclamou Irias; não é isso o que te quero perguntar; o que eu desejo é saber se tu zombas, se estais em ti, se não inventas?...
O mancebo riu com um rir terrível.
– Eles despediram-te?...
– Como a um pobre se despede.
– Eles?... ela?! – Por que vos admirais?...
– Ela te ama.
Cândido tornou a rir mais terrivelmente ainda do que há pouco.
– Ela te ama! repetiu com acento de profunda convicção a velha Irias.
– Não! bradou o moço; não, e não! se é uma consolação que pretendeis derramar na minha alma, minha alma rejeita uma consolação em que não pode acreditar.
– É uma verdade, o que eu digo... uma verdade que o futuro te há de demonstrar.
– Então vós vos enganais, senhora; estais ainda menos adiantada que eu no conhecimento deste mundo, onde tendes vivido três vezes mais do que o desgraçado que adotastes.
A velha fez com a cabeça um movimento de impaciência, e ia falar.
– O que é, continuou Cândido sem querer ouvir Irias, o que é que vos prova o amor dessa moça?... quê?... não ordenar que me lançassem fora de sua casa no momento mesmo em que tivestes a imprudência de lhe declarar o meu amor?...
sofrer que eu para ela algumas vezes olhasse, e algumas vezes também ter olhado para mim?... engano e ilusão, senhora!... essa mulher é como as outras. A mulher se apraz de merecer o amor, a admiração da criança, do moço e do velho; todos eles incensam o amor-próprio, a vaidade mesmo, que é a corda mais vibrante do coração da mulher! amai-me! admirai-me! diz ela; porém pagar esse sentimento que querem inspirar com outro sentimento igual, é mui diverso do que isso. Quem confunde amor com vaidade dirá também, como vós dizeis, que eu fui amado pela neta de Anacleto.
– Então esse amor entra porventura na ordem dos impossíveis?.
– Dos impossíveis absolutos não; porém no pé em que se acha a sociedade, entra na ordem dos impossíveis morais.
– Como?... meu querido Cândido, que te falta para ser amado?...
– Falta-me aquilo que é hoje no mundo a primeira das virtudes; a virtude que encanta homens e mulheres; que abre-nos a porta dos empregos e das honras; que abre-nos corações ao amor... falta-me a virtude a quem se está rendendo um culto idólatra; falta-me a riqueza.
– Oh!...
– Pois então?... aquela mulher não tem olhos para ver que eu sou pobre, e vendo-o, não tem inteligência para compreender que amar um pobre é uma
loucura?... ela fez o que devia.– Desvairas...
– Não; estou calmo, falo com a frieza da razão. A mulher é vaidosa sempre, quer ser amada, admirada por sua beleza e por seus vestidos. Quer para seu marido um homem em alta posição para elevar-se ela também; quer estar de alto, coberta de sedas e de brilhantes, deslumbrando os homens e sendo invejada pelas outras mulheres. No casamento isto é tudo, e o amor é quase nada. E a mulher, que isto consegue, lá vai... incensada... feliz... deslumbradora... invejada... ainda que seu marido seja um ente abjeto e estúpido; que abjeto!... que estúpido!... não há abjeção nem estupidez onde há riqueza. Os altos funcionários, que nunca estão em casa para receber o artista de mérito, o velho soldado, e o honrado servidor do país, o estão sempre para ir ajudar a descer da carruagem o milionário analfabeto. Que queríeis que fizesse a mulher?... esqueceu a missão do céu; ornou-se com os prejuízos e as douradas vilezas da terra... embora... o mundo bate palmas!...
– Isso não é falso; mas é exagerado, respondeu tristemente a velha Irias.
– Oh! não... é a própria verdade, mal pintada ainda. Perguntai a todos os que sofrem, perguntai a vós mesma. A sociedade não tem pejo!... hoje despreza um moço humilde, sem educação, que vive em miséria, e que para viver se sujeita a trabalhar como um escravo, e que por isso mesmo é indignamente ridicularizado; bem... amanhã esse moço, que compreendeu a época em que nasceu, enxergou...
descobriu um meio que lhe oferece imensos... incalculáveis lucros; mas esse meio, sim, é que é desonesto; é que desdoura, é que rebaixa o homem diante da moral e da própria consciência... que importa?... o moço aproveitou-o... foi feliz. E depois de amanhã, senhora, quando o moço sai no seu belo carro, os grandes da terra, os nobres, os ministros e todos enfim o saúdam respeitosos, e vão depois festejá-lo...
curvar-se diante dele!... isto é mentira ou verdade?...
A velha guardou silêncio.
– Não se zomba senão do pobre; não se ridiculariza senão a ele. Dizei, por que é que sois o alvo de uma zombaria desprezível?... por que foi que vos lançaram uma alcunha insultuosa?... por que é que quando passais, a gente que vos vê sorri, e vos maltrata, lançando sobre vós um epíteto afrontoso?..
– Porque eu sou uma triste mulher velha, respondeu Irias.
– Não, senhora; é somente porque vós sois uma triste mulher pobre.
– Embora... embora; isso porém não me tira do meu pensar: a “Bela Órfã” te ama.
– Pois bem, ficai-vos com o vosso pensar.
– E eu hei de provar-te que tu te enganas com ela; e serás tu o primeiro que me virás confessar a injustiça que lhe estás fazendo.
– Será difícil.
– Freqüenta com mais assiduidade o “Céu cor-de-rosa”...
Cândido, que já se achava mais sossegado, tornou-se de novo rubro de despeito e vergonha.
– Eu não irei lá nunca mais... exclamou.
– Nunca mais?...
– E se lá tornasse merecia que me lançassem longe da porta como a um cão.
– Cândido!...
– Eu não irei lá nunca mais! repetiu com veemência o mancebo.
----------------------------------------------------------------------------------- E estava cumprindo à risca o seu propósito; dois serões haviam tido lugar depois da noite dos anos de Celina, e Cândido tinha faltado a ambos.
No começo da noite que se seguiu à do segundo serão, achava-se Cândido descansando no sótão do “Purgatório-trigueiro”, quando a velha escrava de Irias lhe anunciou o sr. Anacleto.
O VIVER da “Bela Órfã” estava sofrendo notáveis modificações.
Desde que Cândido deixara de aparecer no “Céu cor-de-rosa”, tornou-se mais constante e profunda a melancolia da moça.
De ordinário escondida no seu quarto, Celina comparava seus curtos dias de um amor nascente, com aqueles que estava passando de ansiedade e de dúvida, e conseqüentemente misturava saudades com lágrimas.
Os pesares desta ordem são mil vezes mais fortes e cruéis na mulher do que no homem, porque a sociedade impõe à mulher o dever de calar, e o homem pode sem corar desabafar-se contando-os, derramando-os na alma de um amigo. Ela portanto concentra a sua dor, revolve-se nela, devora-a em silêncio, o que dói mais certamente.
Sucedia isso a Celina. Apesar da amizade com que sua tia a tratava, não podia a moça esquecer-se da diferença de idade que havia entre ela e Mariana, e por isso, ainda quando pretendesse confiar a alguém os seus pesares, não se animaria nunca a escolher a viúva para confidente.
Em resultado a “Bela Órfã” fugia de tudo e de todos para viver com seu segredo, para pensar somente nesse amor que tão sem sentir lhe nascera no peito.
Todos os seus antigos e mais preferidos entretenimentos estavam esquecidos.
O piano não mais se abria, as músicas descansavam, os livros tinham sido aborrecidos; porque também às vezes a pobrezinha, pretendendo vencer-se, tomava um romance, lia uma página inteira, e no fim dela, conhecia que lhe era preciso ler outra vez, porque sua atenção se distraíra, mas a leitura se repetia uma e dez vezes e o resultado era sempre o mesmo. Lia apenas com os olhos... com o pensamento não podia.
Era melhor não ler.
Um único de seus antigos costumes conservou intacto: ao romper da aurora ia sempre ao seu jardinzinho colher um botão de rosa... quem sabe se ele a observava oculto atrás da janela?
Era sempre uma esperança a de ser vista assim tão abatida e tão triste.Até o velho Rodrigues perdera com as mudanças do viver da “Bela Órfã”; as sestas não se renovaram mais. E ele nem ouvia a doce voz de Celina, nem podia, acompanhado por ela, entoar suas baladas e antigos romances.
Foi indo assim a moça admirada de que ninguém, nem seu avô, nem sua tia, dissesse uma só palavra notando a ausência de Cândido, até que chegou a noite do segundo serão, depois da de seus anos.
O moço do “Purgatório-trigueiro” faltou a esse, como tinha faltado ao primeiro.
A aflição da “Bela Órfã” subiu de ponto. Ela conheceu que já tinha lágrimas que derramava em segredo, para esvaziá-lo; conheceu que lhe era absolutamente preciso, para ser consolada, falar a preço mesmo do que sofreria seu pudor de virgem.
Lembrou-se de uma sua amiga.
No fim do serão chamou Mariquinhas de parte, e disse-lhe: – D. Mariquinhas, no último serão você me havia dito que teríamos tempo de conversar sobre alguma coisa, em qualquer dos dias que se seguissem...
– Ah! é verdade, respondeu a amiga.
– Então? – Eu pedirei a meu pai que me deixe vir passar um dia contigo, d. Celina.
– Olha, depois de amanhã é domingo.
– Pois sim.
– Queres que eu peça a teu pai?...
– Não... ele me estima muito para me negar esse prazer.
– Então eu te espero...
– Depois de amanhã.
As duas amigas separaram-se.
No dia seguinte, e na hora em que a “Bela Órfã” tinha por costume ir cantar, e ouvir o velho Rodrigues, estava Celina encerrada em seu quarto e toda entregue a suas meditações.
– É-me preciso falar, pensava ela: não se pode viver assim em silêncio com a alma cheia de angústias, e condenada a não soltar um só gemido. Os homens têm o direito de chorar bem alto!... quando se diz o que se está padecendo, parece que o mal abranda um pouco...
Ela pensou alguns instantes, e prosseguiu: – Seguramente aqueles que escrevem, os poetas em primeiro lugar, devem achar bastante consolação escrevendo. Esses sim, não têm necessidade de um seio onde depositem os seus pensamentos, seus segredos e suas dores; eles têm uma amiga fiel e mais condescendente que nenhuma outra na sua pena; quando sofrem, escrevem, dizem o que têm no coração; exaltam-se, eternizam suas penas, suas desgraças, e nessa mesma eternidade acham um grande lenitivo para sua dor. Um poeta!... se ele ama, ele o diz nos seus livros, faz do que se passa em sua alma um romance; está dizendo que ama e a quem ama à face do mundo inteiro, e ninguém compreende o belo segredo que está derramado em todas as páginas de seu livro senão a pessoa que ele quer que compreenda!... oh!... se eu fora poetisa! E prosseguiu ainda: – Um poeta! um homem excepcional... o gênio tem por força em si alguma coisa de divino; assim como o oceano é no universo o que poderia dar a idéia do infinito, se a idéia do infinito se pudesse dar; o poeta arremedaria o poder da divindade, se esse poder chegasse a ser arremedado. Porque o poeta cria também o seu mundo, o seu universo; levanta palácios e abre cavernas; desprende as tempestades e faz belas auroras... oh!... que riqueza há aí tão rica como a imaginação de um poeta!... oh! se eu fosse poetisa!...
Respirou alguns instantes, e continuou: – Se eu fosse poetisa... não precisava tanto, se eu pudesse ao menos escrever algumas páginas, que eu mesma não me fatigasse, lendo-as, ao chegar ao fim da primeira... oh!... que felicidade!... eu havia de pintar o estado do meu coração...
exalar meus tormentos e minhas saudades nas páginas do meu livro... escreveria com lágrimas; porém depois, que consolação!... eu beijaria minha alma nas minhas letras, beijaria meus olhos nas minhas lágrimas...
Celina hesitou um momento, e depois disse: – Quem sabe?...
Ficou pensando ainda: – Não... não eu não escreveria nada que merecesse ser lido... iria descorar o quadro que existe traçado no meu pensamento... mas em suma, ninguém havia de ler o que eu escrevesse... era um livro que depois de acabado eu lançaria no fogo...
oh!... se eu pudesse escrever...
Ela tornou a hesitar e depois disse como da primeira vez: – Quem sabe?!...] A moça pensou ainda... parecia lutar entre um grande, um nobre desejo, e um receio, que, apesar de pueril, podia muito no seu ânimo. Enfim o nobre desejo triunfou.
A “Bela Órfã” ergueu-se do leito onde estava recostada, foi primeiro observar se sua tia estava no quarto vizinho... Mariana dormia.
Tomou então todas as disposições para escrever, e sentando-se junto de uma mesa, começou a trabalhar.
O fruto das inspirações daquela virgem de dezesseis anos devia ser cheio de pensamentos inocentes e puros: era talvez como uma flor que derrama na solidão perfumes agradáveis e leves.
Ao terminar a primeira página, a “Bela Órfã” parou de repente ouvindo a voz do velho Rodrigues.
O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” cantava, sem dúvida no fundo do alpendre, um romance já conhecido de Celina.
“Era um dia um mancebo que ardente “Pobre vida esquecido vivia, “E uma virgem formosa, inocente,
“Que outra igual não se viu, não se via.“Quem separa o ardor da beleza?...
“Um abismo fatal: – a pobreza.”
O velho Rodrigues parou no fim da primeira estrofe do romance.
Celina, que havia interrompido o seu belo trabalho para ouvir a voz do guarda-portão esperou debalde que ele prosseguisse, durante algum tempo.
Supondo, enfim, que o velho Rodrigues não prosseguiria em seu canto, tomou outra vez a pena, quando a voz de novo se fez ouvir:
“O mancebo a donzela adorava ....
“Quem o sabe!... ninguém dele ouviu.
“Em seu peito esse amor sepultava, “Se o amor em seu peito nutriu, “E se amava, era triste esse amar; “Era um mudo e terrível penar.”
O canto, como antes sucedera, parou no fim da estrofe.
– Que quererá isto dizer? perguntou a si mesma a “Bela Órfã”, por que é que o velho Rodrigues canta e se suspende no fim de cada estrofe?... esta é a hora em que mutuamente nos fazíamos ouvir. Quererá ele assim lembrar-me o que tenho esquecido?... mas por que escolheu, para chamar-me, o romance que exprime um segredo do meu coração?...
A voz fez-se ouvir pela terceira vez. Celina ergueu-se meio agitada.
O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” prosseguindo no seu canto, saltou pela terceira estrofe do romance, e cantava a quarta:
“O que é feito da virgem, do pobre?...
“Quando o dia voltar to direi; “Negro manto da noite nos cobre.
“Ela dorme... mas ele... não sei.
“E’ na terra das trevas o véu; “Vagam sonhos... mistérios do céu.”
A voz parou como até então fizera, e a “Bela Órfã”, guardando
apressadamente os seus papéis, saiu do quarto, desceu a escada, e entrou na sala.Não havia ninguém aí.
Celina sentou-se ao piano, e começou a tocar uma música terna e melancólica.
O velho Rodrigues apareceu à porta da sala, e aproximou-se com seu andar vagaroso.
– Tinha-se esquecido de mim, senhora, disse ele.
A moça abaixou a cabeça, e respondeu: – Tenho passado mal.
– Está doente?...
– Não estou boa.
– Acha-se hoje melhor? – Não.
– Talvez que nesse caso possa a música incomodá-la.
– Ao contrário.
– Quer cantar?...
– Não; quero ouvir.
– Escolha o que quiser, senhora.
A moça hesitou; mas enfim respondeu com a cabeça baixa: – O mesmo romance que estava cantando há pouco.
O velho Rodrigues começou de novo a cantar o “Sonho da Virgem”.
Quando o canto terminou, a “Bela Órfã” deixou cair a cabeça, e ficou pensativa.
Depois de algum tempo de silêncio, o velho perguntou: – Por que está triste assim? – Não sei; respondeu a moça.
– Faz-lhe mal ouvir este romance? – Não; faz-me bem.
– Mas essa tristeza deve ter forçosamente uma causa... qual é ela?...
– Eu não sei, tornou a moça enxugando uma lágrima.
O velho fingiu não ver essa lágrima, e prosseguiu dizendo: – Parece que a melancolia é a moléstia reinante da quadra atual.
– Por quê?...
– Tenho um bom amigo padecendo do mesmo mal.
A moça não disse nada.
– Um bom amigo, que a senhora também conhece.
– Quem é ele? – O sr. Cândido.
Celina olhou espantada para o guarda-portão, mas para logo abaixou os olhos rubra de pejo.
O velho deixou que a “Bela Órfã” serenasse, e depois continuou: – É um bom moço aquele sr. Cândido.
A moça não respondeu.
– Não pensa como eu? perguntou o velho.
– Penso, murmurou Celina.
– Pois o infeliz moço anda agora bem triste; e desgraçadamente com razão.
A “Bela Órfã” fez um leve movimento.
– Incomodo-a, senhora? – Não.
– Dizia pois que o sr. Cândido tinha bastante razão para andar triste...
ofenderam-no gravemente...
– Sinto isso, balbuciou a moça.
– E há de sentir mais quando souber que se serviram do seu nome para ofendê-lo...
– Do meu nome?... disse a moça estremecendo, e levantando ao mesmo tempo a cabeça.
– Do seu nome, repetiu o velho.
– E como? e por quê? eu não sei, eu não suspeito coisa alguma...
– Estou certo disso, senhora; mas o fato é grave, e eu não sei se cometo uma imprudência falando-lhe desse assunto.
– Não, não, fale; eu lhe peço que fale.
– Pois bem, eis aqui o que se passou: o sr. Cândido foi política, mas formalmente despedido desta casa.
– Quando?... exclamou com traidora comoção a “Bela Órfã”.
– Na noite de seus anos.
– E por quê? – Por sua causa.
– Por minha causa?... meu Deus!... disse a moça com lágrimas nos olhos.
– Sim, minha senhora: sua tia teve com o sr. Cândido uma entrevista no jardim; quer saber o que ela disse? que nesta sala zombava-se da senhora, dizendose que a senhora e o pobre mancebo se amavam...
– É falso!.. isso não é verdade.
– E que em conseqüência dessas zombarias fora a senhora queixar-se a ela de que seu nome estava exposto às calúnias e à maledicência por causa do sr. Cândido.
– Meu Deus! Meu Deus!...
– Que a senhora fizera notar que esse mancebo, apesar de suas boas qualidades, não estava pelo estado de pobreza em que se acha, na posição de pretendê-la.
– Oh! mas eu não disse nada.
– E finalmente, senhora, sua tia fez compreender ao pobre moço que a presença dele no “Céu cor-de-rosa” tornava-se incômoda e prejudicial à senhora.
– E ele?... perguntou Celina.
– Retirou-se, e não voltará mais nunca ao “Céu cor-de-rosa”.
– Acreditou em tudo?! – Como não acreditar, senhora?!...
– Oh! e me detesta!... e julga mal de mim!...
– Não! não; ele ainda não soltou uma só queixa.
– E como sabe o senhor de tudo isto?...
– Eu estava no jardim, ou perto dele. Estava em um lugar onde podia e pude observar quanto se passou.
– Oh! e então por que não jurou, por que não disse a esse mancebo que era falso tudo isso que avançaram contra mim?...
– Eu lho disse, senhora.
– E ele? – Não quis crer-me.
– Sim! sim! e tinha razão; exclamou por entre lágrimas a “Bela Órfã”; tinha muita razão!... quem poderia suspeitar que minha tia levantasse contra mim uma tão grande calúnia?! que quer dizer isto, meu Deus?... que mal tenho eu feito?... que significa esta intriga?... oh! e que juízo estará fazendo de mim esse nobre moço? como não terá ele amaldiçoado a hora em que pela primeira vez me viu?! – Não, tornou o velho; ele não há de amaldiçoá-la nunca.
– Minha cabeça arde, disse a moça sem atender ao guarda-portão: eu me perco... eu não sei o que faça; mas é terrível que eu deixe assim vingar uma intriga...
uma calúnia que me desdoura!... não, não é possível.
E voltando-se para o velho tomou-lhe uma das mãos, e apertando-a prosseguiu: – Sr. Rodrigues, eu devo-lhe amizade; sei que me estima; não consinta pois que tão injustamente estejam talvez praguejando contra mim. Eu sou uma pobre criança... devo fazer loucuras... mas nunca me lembrei de dizer o que disseram que eu disse. Vá, escute; se não julga haver nisso inconveniente, vá ter com esse moço, e diga-lhe da minha parte...
A virgem parou subitamente... cobriu-se-lhe o rosto de uma cor rubra, e ela estremeceu...
– Dizer-lhe o quê?... perguntou o velho.
– Nada! não lhe diga nada! tornou a “Bela Órfã” com tristeza profunda.
O guarda-portão ficou olhando admirado para Celina.
– Desculpe-me, disse depois a moça: uma calúnia deve ter bastante força para exaltar sua vítima, como eu há pouco me exaltei.
– E aquele pobre moço?...
– Saberá um dia a verdade, no entanto não posso esquecer-me do que devo à minha educação. Uma coisa só tenho direito de fazer..
– O quê?...
– Queixar-me-ei a meu avô, mesmo na presença de minha tia.
O rosto de Celina tinha tomado um tal aspecto de nobreza, sua voz um timbre tão forte, o seu olhar tanto fogo, que o velho Rodrigues esteve durante muito tempo olhando para ela sem dizer palavra – Perdoe-me, senhora, disse ele enfim; mas eu creio que não vai bem pelo caminho que pretende seguir.
– Por quê?... perguntou ela com voz firme.
– Porque, se há intriga como supõe, é um erro expor-se a ela com essa franqueza que a caracteriza. Os que intrigam trabalham sob o manto da noite, e para triunfar deles não basta a inocência, é necessária também a prudência. Senhora, não diga coisa alguma a seu avô, nem se atraiçoe diante de sua tia.
– Que devo pois fazer?... perguntou a moça olhando admirada para o velho.
– Guardar silêncio, respondeu este.
– Silêncio?... e até quando?...
– Eu lho direi. No entanto anime-se com a certeza de que tem amigos que velam por ele... pela senhora...
E o velho acrescentou com voz insinuante: – E que velam sobretudo pelo seu amor.
– Senhor...
– É inútil fingir comigo... eu sei tudo.
A moça cobriu o rosto com as mãos, envergonhada e sentida.
E o velho deixou a sala, cantarolando por entre os dentes o romance “Sonho da Virgem”: “Era um dia um mancebo, que ardente...”