A SÚBITA e imprevista retirada de Cândido naquela fatal noite de anos, tinha
sido um novo golpe para o coração do velho pai de Mariana.Anacleto vira sair da sala sua filha pelo braço do mancebo, apanhara um raio de cólera dardejado contra ambos pelos olhos de Salustiano, e combinando estas observações com o desaparecimento de Cândido, parecia-lhe que sua filha, cedendo à inexplicável influência daquele, tinha uma parte qualquer no triste acontecimento.
Muito ocupado com os desgostos e temores que lhe causava Mariana, deixou passar a noite e os dois dias que lhe seguiram, sem desafiar explicação alguma.
Depois do primeiro serão, que teve lugar, passada a noite de anos, um novo pensamento encheu a alma daquele bom pai, que não teve mais tempo de lembrar-se de Cândido.
Henrique viera pedir-lhe formalmente a mão de Mariana. O casamento ficara ajustado, e com geral assentimento determinou-se que se efetuaria antes de um mês.
Na noite do seguinte serão, Anacleto apresentou os noivos a seus amigos; e então lembrou-se outra vez que faltava na sala alguém a quem votava estima leal e bem merecida.
No outro dia chamou Mariana a seu quarto, e interrogou-a seriamente sobre a ausência de Cândido.
A viúva contava que mais cedo ou mais tarde se trataria disso no “Céu cor-derosa”, e tinha-se preparado para não atraiçoar-se deixando entrever a verdade.
Respondeu a seu pai com segurança e calma. Ela não sabia nada que pudesse ter relação com esse fato; sentia mesmo muito que um moço tão recomendável assim se tivesse retirado do “Céu cor-de-rosa”.
O olhar penetrante e desconfiado do velho esteve, durante toda a conferência, constantemente fito no rosto de Mariana, e não pôde apanhar o mais leve indício de fingimento. A verdade estava fechada no coração da viúva com uma porta de ferro. – Estou determinado a ir ao “Purgatório-trigueiro”, disse Anacleto olhando sempre fixamente para sua filha.
– Creio que é o melhor passo a dar, respondeu ela sem hesitar.
– Devo pedir uma explicação a esse moço.
– Sem dúvida, tornou a viúva; ninguém melhor do que ele pode esclarecer este mistério.
– Supões que me cumpre esperar ainda alguns dias?... perguntou o velho observando.
– Ao contrário, disse Mariana, penso que meu pai deve ir falar-lhe hoje mesmo.
– Bem... irei esta noite.
A filha de Anacleto apreciava com justeza o caráter de Cândido para temer que ele declarasse o que havia ocorrido; e sobretudo jogava ainda com a probabilidade do silêncio do mancebo, porque, mesmo quando falasse, ela contava com o extremoso amor de seu pai para ser perdoada.
Ao começar da noite Anacleto dirigiu-se ao “Purgatório-trigueiro”.
Começou conversando com a velha Irias, a quem pediu explicações a respeito da ausência de seu filho adotivo.
A resposta da velha Irias foi uma e única: – Ele está lá em cima, e melhor do que eu poderá dizer se teve razões para retirar-se.
Anacleto fez-se anunciar a Cândido.
Quando o moço vinha descendo a escada, Anacleto começou a subi-la dizendo: – Sou sem-cerimônia, meu caro, e quero antes ir conversar lá em cima.
O velho e o mancebo acharam-se a sós defronte um do outro.
– Adivinha certamente o motivo que me traz aqui?... perguntou Anacleto.
Cândido não sabia fingir, e respondeu: – Talvez.
– Pois então... ia dizendo o velho.
– Mas, é melhor que o exponha o senhor, interrompeu o mancebo; é possível também que eu esteja enganado, e que nossos pensamentos, que supomos reunidos em uma só idéia, se achem pelo contrário bem afastados um do outro.
– Não; não estão.
– Enfim, sou eu quem deverá ouvir as causas de uma visita que, em todo o caso, muito me lisonjeia.
– Meu caro, disse Anacleto, eu ponho as formalidades e as etiquetas para o lado, quando converso com aqueles de quem sou amigo; e nós o somos.
Cândido abaixou a cabeça em sinal de agradecimento.
– Ou pelo menos, tornou o velho, eu o sou seu.
O moço tornou a repetir com a cabeça o mesmo sinal de há pouco.
– Deixemo-nos pois de longos rodeios, e vamos já ferir de face a questão. O senhor retirou-se de minha casa de um modo singular: de duas uma, ou alguém lá o ofendeu, ou o senhor nos ofende; e em todo caso uma explicação se faz necessária.
Cândido empalideceu a próprio pesar, e ficou pensando.
– Estuda para responder? perguntou o velho.
Com um sorriso fraco e triste respondeu o mancebo.
– Agradeço-lhe, senhor, a delicadeza com que me trata, e o interesse que eu não mereço; mas que, apesar disso, mostra por mim.
– Não se trata de agradecimentos, nem de delicadezas e nem de interesses: o caso é simples, meu caro; alguém o ofendeu em minha casa?...
– Ninguém, disse o mancebo, rindo-se amargamente como há pouco.
– Então como devo eu explicar o que ocorreu. e está ainda ocorrendo?...
– Explique como quiser, senhor; explique pela minha má cabeça.
– Como é isso?...
Cândido pensou alguns instantes e começou depois a falar.
– Eu errei em não ter agradecido, em não haver fugido de aceitar o oferecimento que V. Sa. me fez da sua casa...
– Quê?...
– Ah! senhor! eu direi tudo. Invejar a ventura dos outros é um crime; mas forçar um infeliz a ter diante dos olhos e constantemente o quadro da felicidade alheia, é quase rir de seus tormentos! – Então...
– Sua casa é um céu de prazeres e... de virtudes; estar porém ali um desgraçado que não pode fruir esses prazeres, e, que, se acaso tem uma ou outra virtude, não a pode mostrar para ser por ela estimado, é o martírio de Tântalo... a causa creio que foi essa; eu me retirei por isso.
– Sr. Cândido, há nas suas palavras alguma coisa que se parece com a ironia, e há no seu coração algum sentimento que quer sair e não pode, porque o senhor impede.
– Não... não... tudo se diz em uma palavra; eu sou infeliz, e tenho consciência de o ser. Além da realidade de meu infortúnio, senhor, a natureza deu-me ambições, deu-me desejos que não posso realizar, e que por conseqüência me atormentam.
– Devo falar-lhe com franqueza, sr. Cândido: entendo que a sua posição na sociedade não é a melhor possível; que seus merecimentos lhe marcavam um lugar mais alto nela. Compreendo mesmo que um moço pobre, que vê o mundo cheio de gozos e delicias que não lhe é dado gozar, tem até certo ponto razão para entristecerse durante algumas horas; olhe porém à roda de si, sr. Cândido; que número imenso de homens não está aí diante de seus olhos com mil vezes mais razão para lastimarse?...
quantos tiveram como o senhor a felicidade de receber uma educação proveitosa e acurada?... já não é alguma coisa a superioridade da luz do seu espírito? O moço sacudiu a cabeça, e disse: – Já confessei que sou ambicioso; e demais, a educação agiganta as privações.
O mendigo contenta-se com um pedaço de pão velho para comer, e com um capote feito em pedaços, e com a porta de uma igreja para dormir; mas o mendigo não sonha com a felicidade como sonha o moço que estudou, e que tem imaginação e ardor. Não é ouro o que eu desejo, senhor... a riqueza que eu peço a Deus não é de metal, nem de bilhetes do banco; a minha riqueza é a do coração. Se muitas vezes falo com amargor do poder do dinheiro, é porque me revolto quando vejo acima do talento, da honra e do mérito, o ouro! mas não é o ouro que eu ambiciono.
– Não o compreendo, disse Anacleto.
– O que me acanha, o que me obumbra, o que me faz nascer desejos de fugir para essas florestas virgens de minha pátria, é a pobreza de afeições em que vivo.
Ah! Sr. Anacleto!... eu sou o último, o mais miserável mendigo dos melhores amores!.
– Que quer dizer? – Pois então? como é que um homem como eu não há de sentir apertar-se-lhe terrivelmente o coração, quando, comparando-se com os outros homens, se acha o somenos de todos eles?... pois não há de doer-me o aspecto da felicidade de uma família, comparado com o meu isolamento?... Em sua casa, em toda a parte onde há homens e mulheres, eu vejo um moço brilhante de mocidade, de talento, de ardor e de ventura; pensa que é isso o que eu invejo?... não; também sou moço, tenho também alguma inteligência, e também fogo no coração; o que eu invejo é o olhar de gênio benfeitor, é o olhar de bênção, senhor, com que um velho pai se revive naquele moço; é o carinho, a doçura angélica com que uma terna mãe o festeja; é a doce amizade com que uma boa irmã o abraça; e então, senhor, quando eu penso que nunca cheguei a gozar, nem gozarei um olhar assim de um bom pai, nem um carinho de mãe, nem uma meiguice de irmã, não é verdade que tenho bastante razão para considerar-me desgraçado?... não é verdade o que eu digo? não sou eu o último, o mais miserável mendigo dos melhores amores?...
– E o remédio agora, meu pobre Cândido?! disse Anacleto meio comovido.
– Remédio para curar radicalmente a minha dor não há nenhum; para minorála é a solidão, é o retiro. Aqui, senhor, no fundo deste quarto eu não vejo essas cenas de felicidade doméstica, não tenho ao vivo diante dos olhos o quadro daquilo que em vão desejo. Ficarei pois aqui, senhor, enquanto esta boa velha carecer de meu braço; desde o momento porém em que ela fechar os olhos, o meu destino é outro.
O moço respirou, e prosseguiu: – Não conheci meus pais; minha mãe é a natureza; pois bem, irei viver onde a natureza é mais bela, irei adorá-la nos seus vivos encantos. Aborreço a sociedade dos homens. O campo... o vale... a montanha... os precipícios... a floresta virgem... o rio caudaloso é um espetáculo bem belo!... ah! sim! o campo... o vale... os precipícios... a floresta virgem... e o rio caudaloso são meus irmãos; têm como eu por mãe somente a natureza.
Cândido tinha-se exaltado tanto, que Anacleto deixou-o sossegar para continuar a conversação que havia encetado.
– Tem ainda muito fogo, sr. Cândido, disse o velho, é muito moço, e sua imaginação avulta os seus pesares. Respeito-os porque são de nobre origem; mas tenho o direito dos anos para dizer-lhe que pecam por excessivos. – Embora...
– Procurar ser feliz é ao mesmo tempo um dever do homem.
– Quando há esperança.
– E quem não a tem?... quando foi que ela nos abandonou?... eis-me aqui velho e cansado... eis-me aqui à borda do túmulo com os olhos fitos em Deus, e uma esperança no coração.
O mancebo olhou para o velho.
– Sim! não se admire. Uma grande esperança, e depois desta virão ainda outras. Uma grande esperança, a de ver feliz minha filha.
– Sua filha! repetiu Cândido.
– E então não é uma nobre esperança? – Bem doce! – E quem lhe diz que não terá ainda uma igual?...
– Eu não; eu hei de completar o meu destino. Fui arrojado do mundo com desprezo... quando abri os olhos, abri-os entre os estranhos... não conheço os meus; eu sou – só; – compreenda bem esta palavra, sr. Anacleto; é uma palavra, um nome de duas letras que revela toda a minha história, o meu passado, o meu presente, e o meu futuro – só! – completarei a minha sina. Farei a viagem do mundo sem um companheiro do meu sangue – só!... sempre só!...
E como se essa palavra tivesse realmente a significação que lhe ele dava, como se ela fosse a sua divisa, Cândido ainda uma vez repetiu com voz sonora e profundamente melancólica: – Só! – sempre só! Mostrou-se Anacleto impaciente; e, depois de coçar a cabeça por vezes, tornou: – Não temos feito nada, meu caro. Vim aqui saber a razão por que deixou de ir à minha casa de um modo tão singular; e já temo bem retirar-me sem levar explicação alguma.
– Porventura não tenho eu dito bastante? esse ato é filho de uma excentricidade minha.
– E no entanto o que pensarão de nós ambos os nossos amigos?...
– Os seus amigos podem pensar o que quiserem a meu respeito: para mim é isso indiferente.
– E para mim?...
– O senhor lhes dirá que eu sou um louco, que me condeno a um inferno que eu mesmo tenho criado para atormentar-me. O senhor lhes dirá se quiser: “Aquele moço tem uma cabeça desarranjada, deixa a nossa sociedade agradável...
obsequiadora e feliz, pela solidão e pelo isolamento: ele quer estar só... sempre só”.
– E se eu lhe rogasse que de novo freqüentasse a minha casa?... tomasse parte nos nossos prazeres?... fosse de novo um de nossos mais constantes companheiros dos serões?...
– Eu teria o imenso pesar de não poder servi-lo, respondeu com tristeza indizível o moço.
– Paciência, disse Anacleto; resta-me ao menos a convicção de que nunca o ofendi voluntariamente, e que fiz tudo o que estava de minha parte para provar-lhe a estima em que o tenho.
O velho ergueu-se pesaroso e quase ressentido.
Cândido apertou-lhe a mão com ardor, e disse: – Não me desestime por isto... creia que o que faço, é o que devo fazer; creia que o que eu disse, é o que eu devia somente dizer... e o senhor, que é um dos poucos homens cuja mão me tem sido oferecida com lealdade e franqueza, sinta por mim antes piedade do que ressentimento.
– Serei o mesmo sempre; respondeu o velho dispondo-se para sair.
– Uma palavra ainda.
– O quê?... perguntou Anacleto.
– É um novo obséquio que lhe quero pedir. Provavelmente minha ausência tem admirado também a sua família – Sem dúvida.
– Eu lhe rogo que em meu nome lhe ofereça minhas desculpas, e em particular à senhora sua filha. Quisera que ela tivesse conhecimento da obsequiosa visita que recebi: do que se passou entre nós, e do que enfim julguei dever responder, explicando o meu procedimento.
O velho olhou para Cândido como desconfiado do motivo desta última recomendação.
– E a ela, e a todos, senhor, que possam mostrar-se curiosos das causas de minha irrevogável resolução, poucas palavras bastam para explicá-la, e para arredar de sua pessoa e de sua família a menor suspeita de uma ofensa ainda involuntária feita a mim, é de sobra dizer: “ele completa a sua sina – só... sempre só –”.
ERA na tarde de domingo.
Anacleto e Mariana, obrigados a ir fazer uma visita de etiqueta, tinham acabado de sair para voltar antes de duas horas.
Celina e Mariquinhas subiram ao segundo andar e entraram no quarto da primeira.
Sentaram-se defronte uma da outra, junto da pequena mesa sobre a qual escrevera a “Bela Órfã” no dia antecedente.
Estavam ambas as moças vestidas de branco, e eram ambas muito bonitas.
Celina, porém, mostrava-se meio perturbada e confusa; apoiou o cotovelo na mesa, descansou o rosto na face palmar da mão, e fechou um pouco os olhos como se quisesse dormir.
Era Mariquinhas três anos mais velha que a “Bela Órfã”, tinha dezenove anos; mas dera-lhe a natureza, com um gênio alegre e brincador, com uma tendência para faceirice e ambição de agradar, tanto talento, tanta viveza e tão fino instinto para viver no mundo e conhecê-lo, que pouco mais de quatro anos de vida de assembléias, de teatros e de reuniões tinham sido de sobra para ela dissecar a sociedade e suficientemente apreciá-la no que na sociedade há de relativo a uma moça bonita e solteira.
Mariquinhas tinha mesmo orgulho do que ela chamava – sua experiência.
Discernia com suma habilidade a simples delicadeza do galanteio, o galanteio da paixão que se improvisa, e a paixão que se improvisa do verdadeiro amor.
Com sua experiência, pois, ela adivinhara que Celina estava já pagando o seu tributo de coração; e vindo nesta tarde ouvi-la confidencialmente, não quis esperar que sua amiga começasse a falar.
Conheceu que a “Bela Órfã” se achava perturbada e vergonhosa; e, querendo antes levá-la sem sentir ao principal objeto que as reunia do que começar logo a tratar dele, dirigiu-lhe a palavra em primeiro lugar: – Estamos aqui mais à vontade, d. Celina; creio que ninguém nos virá perturbar...
– Ninguém...
– É que as moças têm mais necessidade de conversar em segredo do que os homens; creio mesmo que de cada vez que uma moça solteira fala à vista de muita gente não deixa decorrer seu perigo.
– Mas por quê?...
– Ora... porque vivemos em um mundo notável, principalmente por suas contradições a respeito de nós outras. Dizem que somos fracas e frágeis; por conseqüência não é verdade que deveria haver muita desculpa para nossos erros?...
– Sim.
– Pois a nós é que se não perdoam tênues faltas; uma leviandade é quase um crime. E às vezes uma simples palavra dita com a maior inocência deste mundo desafia escarcéus tais, que é melhor não falar, d. Celina.
– Oh! parece que é assim.
– Ah! os homens e as mulheres!... olha; as aparências são em verdade todas em nosso favor. Somos flores que se cultivam, belas estátuas que se admiram, lindas santinhas que se adoram... nas aparências, d. Celina.
– E a realidade? – Oh!... isso é outra coisa. Os homens entenderam lá a seu modo a teoria das compensações; bem vês que nos não podiam dar tudo... guardaram o bom para si.
Ninguém os chamará tolos por isso.
– E nós somos então...
– Ora... nós?... nós somos o que eles querem que nós sejamos; também!...
olha, d. Celina, durmo todas as noites com um sossego que não há igual.
– E todavia ninguém dirá que isso se passa assim.
– Em parte nós temos a culpa.
– Como?
– Com sistema, com arte, mesmo com esta nossa fraqueza, nós poderíamos, apesar de tudo, valer muito, e conservar um poder que fazemos por abandonar. Eu
sou moça, mas observo; às vezes quando me rio, estou pensando bem seriamente.– E o que observas?... no que pensas?...
– Observo o sistema de vida que seguem minhas camaradas logo que se casam, e penso que eu havia, que eu hei de seguir um outro bem diverso.
– É um segredo que guardas para ti só?...
– Não, eu o quisera dizer a todas as do meu sexo; ou me engano muito, ou faríamos uma revolução; d. Celina, eu sou reformista... quero a reforma do sistema doméstico.
– Como é isso?...
– Eu te vou dizer.
– Espera... disse a “Bela Órfã” erguendo-se; não sentiste chegar alguém à porta do quarto?...
– Não... mas vai ver sempre.
Celina chegou à porta, olhou para um e outro lado, não viu ninguém.
– Enganei-me, disse ela sentando-se de novo; fala agora, eu te escuto.
Mariquinhas começou a discorrer: – D. Celina, eu não quero falar de uma moça que vive pobremente em solteira, e vai pobremente viver depois de casada cercada de privações e de filhos.
Para essa, a misericórdia de Deus e a virtude, e gratidão de seu marido. Essa, coitadinha, já está por si mesma na posição em que mais se sofre física e moralmente, por si e por seus filhos. Eu quero somente falar naquelas que, podendo conservar-se de cima, no seio da felicidade, lançam-se por terra aos pés do infortúnio.
– Pois bem, disse Celina.
– Uma jovem senhora, bonita, moça como tu, ou como eu, que não é rica, mas que também não é pobre, que teve educação, que se estima, que é delicada, e que deseja fazer-se amar: o que faz ela?...
– O que faz ela?... perguntou Celina repetindo a frase de Mariquinhas.
– Encontrou um mancebo ardente, extremoso e belo; simpatizam ambos; falemos agora a verdade, d. Celina, como procede a moça? defronte de seu toucador empenha todos os esforços para se tornar mais bela, seus cabelos estão sempre atados primorosamente... há perfumes nos seus vestidos, fogo em seus olhos, graça em seus sorrisos, espírito em suas palavras, amor em toda ela, diante dele canta apaixonadamente; para agradar-lhe estuda com fervor a música, o desenho, a literatura, a dança, tudo; consegue o belo triunfo, faz de um namorado um escravo; seus pais aplaudem a escolha de seu coração... esse homem é enfim seu marido.
– E depois?...
– Depois?... essa moça não se lembra mais que a paixão esfria... oh! é incrível!... ela mesma trabalha involuntariamente por esfriá-la. De manhã seu marido a vê com os cabelos desgrenhados diante dele, erguendo-se do leito com os pés nus... o piano passa fechado meses inteiros... o canto lhe desagrada... o desenho a aborrece, ela não lê mais, não sorri, nem olha, nem fala, como sorria, olhava e falava dantes. E, se alguém lhe lança em rosto essa metamorfose, ela responde: “Consegui o que queria, o pássaro já está preso”. E a louca não pensa que o pássaro que pretendeu foi o amor desse homem, pássaro que vai fugir bem depressa.
– É assim, disse a “Bela Órfã”.
– Entretanto, continuou Mariquinhas, acontece o que devia acontecer: o coração do marido espanta-se daquela repentina mudança; procura ver de novo a bela moça de lindos cabelos, de escolhidas vestes, de olhar de fogo, de espirituosas palavras, de gracioso sorriso; e achando pelo contrário uma menina descabelada, sem graça, sem espírito, sem arte mesmo, recua... esfria, e às vezes desanima; e então grita a mulher contra a inconstância do homem. Falemos outra vez a verdade, D. Celina, o homem não tem culpa... a mulher que ele amava não é certamente essa, que então assim se lhe mostra.
– Oh! tens razão; é assim mesmo, exclamou Celina.
– E depois, qual é a vida que vive daí por diante a esposa?... uma vida de mentiras e de fingimento nas assembléias, e de frieza ou de indiferença em casa. Em casa toma a posição de criada grave de seu marido; por suas mãos a toma. Tem por prazer a costura, e por ofício determinar o almoço, o jantar e a ceia. Quando o marido chega da rua ralha com ele... quando o marido sai ralha com os escravos; donde lhe veio esse mau humor?... do ciúme!... acredita que já não é amada!... quem teve culpa disso?... ela mesma, que se fez outra.
– Continua, d. Mariquinhas.
– Ora agora, prosseguiu a moça, eu acho tão fácil, tão belo, tão nobre seguirse uma vida absolutamente oposta a essa!... uma vida que faria ao mesmo tempo o encanto do marido e a felicidade da mulher.
– Dize... dize.
– Mesmo depois de casada, a moça não se enfeita com esmero para ir a uma assembléia?... quais são os pensamentos que a ocupam quando ela está defronte do toucador?... Dois, principalmente: primeiro, não ser sobrepujada, não parecer menos bela que as outras senhoras; este sentimento nasceu conosco, e nos acompanhará em todas as épocas de nossa vida; o segundo, é o desejo de agradar, por que, sem ofender nem levemente sua pureza de esposa, uma senhora pode querer, e quer agradar. Pois não é, d. Celina, uma contradição indesculpável, um erro que custa a defender, o esmerar-se uma senhora casada em agradar, em parecer bela aos outros, e esquecer-se, e não fazer um só esforço para mostrar-se bonita aos olhos de seu marido?...
– Sem dúvida; sem dúvida.
– A moça que acaba de casar-se, não tem necessidade de mudar muito em suas relações com o homem que recebe por marido. Seu melhor empenho, seu maior triunfo estaria em continuar a ser a namorada de seu esposo. Pode parecer que seja isso muito difícil, mas eu não o creio.
– Então como? fala.
– Por que não há de a moça empenhar para prender seu marido os mesmos meios de que ela se serviu para encadeá-lo quando se amavam solteiros?... quando de manhã aparecer-lhe, apareça-lhe penteada, vestida com simplicidade, mas sem negligência, com seu vestido apertado, fresca, louçã e bela, que, ou eu me engano muito, ou ganhará um abraço de seu esposo; gostava ele de ouvi-la cantar?... pois cante ainda, e cada vez mais aprimore sua voz. Dava-lhe prazer o piano? a harpa?...
pois estude novas músicas, e em relação com o gosto do homem que ama; e converse com ele como dantes, meiga e pudibunda, e ao mesmo tempo amorosa; e, finalmente, sem deixar-se cair no ridículo (que seria então muito pior), obrigue a seu marido a ser ainda seu namorado à força de namorá-lo. Seria isto um impossível?...
– Eu não sei, mas, fala ainda.
– E sobretudo o pudor, d. Celina!... o pudor da senhora casada não deve diferir muito do pudor de uma virgem; de cada vez que uma esposa se veste diante de seu marido, perde um ano do fogo de amor.
– Oh! deve ser assim! – O amor vive de mistérios, de imaginação, de segredos, de véus, de dificuldades, de oposição e de fogo; a realidade é fria como o gelo, a realidade o mata; a esposa deve aparecer aos olhos do esposo sempre pudibunda e recatada.
Esse pudor, esse recato, esse rosto que cora, é uma espada cujo gume não se dobra nunca; assim ela será sempre bela, sempre nova para seu marido, cuja imaginação lhe dirá que ele não a compreendeu toda ainda, que o seu tesouro de inocência é inesgotável... e o amor não se há de acabar nunca, se na mulher houver sempre esse pudor que arremeda o da virgem, e no esposo houver sempre esse respeito que jamais falta a um homem delicado. O rubor da face de uma moça é tudo; uma senhora que cora ouvindo votos de amor de seu marido, não pode recear nem frieza, nem indiferença.
– Oh! D. Mariquinhas, exclamou Celina muito seriamente, d. Mariquinhas, tu és sábia.
Escutando a ingênua exclamação de Celina, Mariquinhas desatou a rir.
– Então eu te faço rir?...
– Pois então?... não me chamaste sábia? – Mas é que tu dizes coisas que devem ser bem verdadeiras.
– Estimo que te aproveitem.
– A mim? – Sim, algum dia poderão aproveitar-te.
A “Bela Órfã” sacudiu tristemente a cabeça e respondeu: – A mim, não.
– E por quê?...
– Porque eu não me hei de casar.
– Ah! queres ser freira? tens vocação para o claustro? Celina abaixou a cabeça.
– Dizem os homens que as moças têm duas maneiras muito notáveis de responder afirmativamente; que quando abaixam a cabeça e guardam silêncio, ou quando respondem simplesmente – não sei, – querem dizer que sim; mas eu sou capaz de jurar que desta vez tu, abaixando os olhos, d. Celina, quiseste dizer que – não.
– Começas a gracejar? – Não, Deus me livre; a tarde deve acabar como principiou, séria e filosófica.
Olha, d. Celina, há pouco me chamaste – sábia; – agora eu digo que somos duas filósofas. Quem nos ouvisse teria de achar-nos bem modestas.
– D. Mariquinhas! – Vamos ao que importa: eu te fiz uma pergunta, e não quiseste responderme; hei de arrancar-te a resposta à força. Fizeste há poucos dias dezesseis anos, d.
Celina; eu sou mais velha três anos...
De repente começou Mariquinhas a rir-se muito.
– De que te estás rindo assim? – Ora... de uma coincidência.
– Qual!...
– Tu hás de ser toda tua vida uma pobre inocentinha, e em toda tua vida precisarás de uma mestra bem complacente.
– Começas outra vez? – Não, é verdade. Lembra-te que na noite em que fizeste treze anos, aqui, neste mesmo quarto, uma boa amiga foi tua mestra, e te explicou com bastante habilidade o que era certo sentimento que ignoravas; o que era amor.
– Oh! que bom tempo! disse Celina suspirando.
– E hoje, neste mesmo quarto, uma outra boa amiga tua te está dando lições de filosofia amorosa.
– Acabaste já?...
– De falar sobre a coincidência, acabei, mas agora vou tratar do que muito nos importa.
– Pois fala; mas não gracejes.
– Tens dezesseis anos, d. Celina, continuou Mariquinhas; és bonita, mesmo bem bonita, deram-te muitas prendas, deves ser sensível, e por conseqüência não te achas com vocação para o claustro.
– Por quê?...
– Porque já sabes o que é amar um homem, porque muitos cavalheiros sem dúvida já se prostraram diante de ti, já te juraram um amor imenso... desesperado...
eterno... que há de passar além da morte; já te declararam muito positivamente que tua indiferença é capaz de matá-los...
– Oh! basta... que quer dizer isso? – Quero dar-te um conselho de amiga.
– Qual?...
– Que não tenhas medo de que esses senhores se deixem morrer por tua causa.
– Ora, d. Mariquinhas...
– Que não acredites neles...
– Certamente que não.
– Escuta: quando um homem se chegar a ti e começar a fazer o elogio de tua beleza, como se fosse um poeta que recitasse um cântico, e depois a jurar amor, constância, paixão e ardor por toda a eternidade, desconfia dele; os homens que mais falam são os que mais mentem.
– E os que não falam?... perguntou Celina.
– Esses não dizem nada, respondeu Mariquinhas com ingenuidade.
– Ora, tornou a “Bela Órfã” com um movimento de desagrado, disso já eu sabia.
– Então o que é?...
– Dizes que não devemos acreditar naqueles que falam muito e juram sempre; bem. E naqueles que de longe nos olham medrosos... tristes... modestos... mas que nos olham com fogo, e que abaixam a cabeça quando suas vistas se encontram com as nossas? – Esses, respondeu Mariquinhas, das duas uma, ou amam deveras, e pela primeira vez na vida, ou são piores que todos, são hipócritas.
Fez a “Bela Órfã” um novo movimento de impaciência.
– E como distinguir?... perguntou ela.
– Estudando-os em seu proceder.
Celina calou-se.
– Tu tens uma história para me contar, disse Mariquinhas abraçando-a.
– História?...
– Sim: a história de um moço triste e modesto que te ama, que nunca te falou de amor, mas que te olha com olhos de fogo.
A “Bela Órfã” corou.
– Somos duas amigas... quase da mesma idade; que pejo é esse? – Eu não sei.
– Fala.
– Não ouviste outra vez rumor à porta? – Qual! é a tua imaginação.
– Vou ver sempre.
Celina foi de novo à porta do quarto; olhou para um e outro lado, e não viu ninguém.
– Fala agora.
– Ah! D. Mariquinhas! exclamou Celina caindo nos braços da amiga; eu sou bem infeliz!...
CELINA estava muito comovida.
– Anima-te! disse Mariquinhas.
– Tu já amaste? perguntou aquela.
– Agradecida pelo cumprimento, respondeu-lhe a amiga. Com que, tendo eu apenas dezenove anos, entendes que já não posso responder senão pelo passado? – Pois bem, d. Mariquinhas, tu amas? – Vamos mal: eu vim para perguntar, e não para responder.
– Mas tu amas? – Desconfio que sim.
– Pois somente desconfias? – És muito simples, d. Celina.
– Por quê? – Porque ainda não sabes que entre nós, as moças, desconfiar, neste assunto, é saber de certo.
– Ah!...
– E tu? – Eu?... então se tu amas deves ter sofrido muito.
– Sim... sim... sempre se sofre mais ou menos; e tu?...
– Eu também.
– Conta-me isso.
– Não se pode contar o que eu sofro.
– Mas por quê? – Parece que não é nada, e é muito: é uma dor... um desassossego... um abalo interno que se não pode explicar.
– Pois basta que me contes a história do teu amor; farei idéia de tuas penas pelas minhas.
– Eu penso que amo...
– Sim... compreendo... desconfias que amas.
– Mas olha, d. Mariquinhas, eu não amei por minha vontade... foi sem sentir...
– Sim... sucede a todas nós isso mesmo.
– Foi pouco a pouco que esse sentimento entrou no meu coração... eu não desconfiava disso, aliás saberia combatê-lo...
– Debalde! – Quando me veio ao pensamento que eu poderia estar amando... quando caí em mim, oh!... tudo foi em vão... era já muito tarde.
– Tal qual sucedeu comigo.
– Chorei muito, d. Mariquinhas, chorei muito... uma noite inteira... e tu? – Eu? – Sim; tu choraste também muito? – Eu não, d. Celina.
– Mas por quê? – Por duas razões; primeira, porque eu desejava amar.
– É possível?! – Eu fazia uma idéia muito engraçada do amor; há porém muitas moças que pensam como eu. Pensava que o amor era para uma moça o mesmo que a boneca para uma menina, um passatempo inocente, um brinquedo que se deixa quando nos aborrece, e nada mais; por isso eu desejava amar.
– Que louca! – Depois, eu não devia também chorar; não tinha de quê; o homem que eu
amei era e é digno de mim.– Certamente não foi por pensar o contrário disso que eu chorei, respondeu Celina corando.
– Então por que foi? – Também não sei. Ficava só neste quarto pensando... fantasiando tantas coisas... tantas coisas... depois ia, sem saber por que, tornando-me triste... triste... até que desatava a chorar.
– E depois? – Depois que chorava, eu me sentia um pouco mais aliviada de uma dor que não se pode dizer como é; continuava a pensar... a fantasiar outra vez... de novo me entristecia, e de novo chorava.
– Pobre d. Celina!...
– Olha; e nem uma só vez me tenho rido...
– Mas essa tristeza? – É a um tempo muito amarga e muito doce; se me dessem a escolher uma festa, um baile, um belo passeio, uma noite de teatro, ou uma hora de solidão, de isolamento com a minha querida tristeza, eu te juro, d. Mariquinhas, que preferiria essa hora de pranto a essas noites de prazer.
– Eu compreendo...
– Oh! pensar nele, exclamou Celina, que se ia exaltando pouco a pouco; pensar nele!... ter sua imagem dentro do coração, e ao mesmo tempo diante dos olhos!... estar ele ausente, e eu vê-lo ao meu lado... ouvir a sua voz tão doce! tão meiga! tão melancólica! sentir o toque de sua mão que me causa um abalo indizível; o roçar de sua roupa com a minha em uma curta passagem, que me faz estremecer vivamente... vê-lo andando garboso e engraçado, ouvi-lo a cantar um hino de amor tão terno... não existir nada disso, e estarmos vendo e ouvindo tudo isso... oh! é muito! faz com que instintivamente ergamos mãos ao céu, e clamemos: “bendito seja Deus que nos deu a imaginação, para na ausência vermos e ouvirmos assim aquele a quem tanto amamos!...” – Tens razão, d. Celina! – Oh! é sublime! prosseguiu a moça; isso é tão belo, tão encantador, tão mágico, que eu fico às vezes uma hora inteira, mais de uma hora, em contemplação, enlevada nessas delícias, nessas imagens, entre o céu e a terra, porque esse estar assim, esse gozo tem por força alguma coisa de celeste. E por fim, d. Mariquinhas, sem querer, sem sentir, no meio desse sonho de vigília, sem sofrer dor alguma, não sei por que mesmo as lágrimas caem em rios de meus olhos...
– E choras? – Pranto bem doce! é bom quando se chora assim!...
– Meu Deus! – Tu não choras nunca assim, d. Mariquinhas? – Nunca.
– Infeliz! disse a “Bela Órfã” olhando com piedade para a amiga que a
escutava admirada.– Eu infeliz? por não chorar? – Oh! sim!... porque há certas lágrimas que dão um prazer que está acima de todos os prazeres! – Então tu és bem ditosa? – Não.
– Como, pois, esse prazer? – Ah! não me sacia nunca.
– E então...
– Eu sou como aquele que está devorado por ardente febre: com fervor leva aos lábios um copo d’água... esgota-o... e de novo mata-o a sede. Amar é também uma febre... não é? – Eu já não digo palavra, respondeu Mariquinhas; estás mais adiantada do que eu.
– É porque tu não amas.
– Mas nota que tenho observado muito.
– Engano! amor não se observa... sente-se! – Todavia tu és contraditória, d. Celina.
– Como? – Começaste queixando-te de tuas lágrimas, e acabaste abençoando-as.
– É porque nem todas são da mesma natureza. A imaginação, que não é nossa escrava, a imaginação, livre, independente como as aves da floresta virgem, se às vezes me oferece um quadro de esperança, de amor e de saudade, outras vezes, d.
Mariquinhas, cria fantasmas que atemorizam, fantasmas horríveis que bradam a meus ouvidos... que entoam o hino infernal, o hino do desespero resumido em uma palavra fatal...
– Qual? – Impossível!...
O som com que a “Bela Órfã” pronunciou essa palavra foi tal, que tanto ela como Mariquinhas se deixaram ficar caladas durante algum tempo, tristes e pensativas.
No entanto serenou o ardor que fizera Celina exprimir-se com tanta viveza, de modo que, quando Mariquinhas quis continuar a conversação, já a achou perturbada e comovida como no princípio.
– Mas, d. Celina, ainda me não disseste o que eu desejo principalmente saber.
– O quê? – Quem é o venturoso mancebo que tanto merece de ti.
A “Bela Órfã” hesitou.
– Se eu não quisesse saber também tudo quanto se tem passado entre ele e ti, continuou Mariquinhas, abster-me-ia de fazer-te esta pergunta.
– Por quê? – Porque não acho muita dificuldade em adivinhar o nome daquele que amas.
– Já o adivinhaste, d. Mariquinhas?
– Ora!...– Desde quando? – Desde antes de teus anos.
– Foi na verdade bem cedo, respondeu Celina; porque então eu mesma apenas o suspeitava.
– Não duvido; isso acontece. Mas então dizer-mo? – Para que, se tu já sabes? – Seria possível que eu estivesse em erro.
– És muito viva para te enganares.
– Pois bem, dir-te-ei eu o nome, é porém com uma condição.
– Qual? – Se eu acertar, hás de confessá-lo.
– Sim.
– Chama-se...
Celina olhou para Mariquinhas.
– Cândido.
A “Bela Órfã” abaixou a cabeça.
– Adivinhei? – Adivinhaste, murmurou a moça.
– Levanta a cabeça; conta-me o que tem havido; não foi para isso que nos reunimos hoje? Celina pensou um momento e disse: – Sou uma louca.
– Tu?...
– Sim; mas ao menos a minha loucura poderá agora ser-me útil.
– Como?...
– Escrevi o que se tem passado comigo...
– A história do teu amor?...
– Sim...
– Um romance?! – Não... uma verdade.
– Como não?... pensas que os romances são mentiras?...
– Tenho certeza disso.
– Neste ponto estás muito atrasada, d. Celina; os romances têm sempre uma verdade por base. O maior trabalho dos romancistas consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contemporâneos não cheguem a dar os verdadeiros nomes de batismo às personagens que aí figuram.
– Pelo que ouço, d. Mariquinhas, tu já escreveste! – Não, mas conversei já com um moço que escreve. Vamos porém ao nosso caso; deixa ver o teu romance.
– A minha história, tornou Celina, que abrindo a gaveta da mesa tirou algumas folhas de papel, e entregou-as com mão trêmula a Mariquinhas.