Os dois Amores

Joaquim Manuel de Macedo

CAPÍTULO I O “CÉU COR-DE-ROSA”

NINGUÉM há na cidade do Rio de Janeiro, que não conheça perfeitamente o largo da Lapa do Desterro.

Sobretudo, ele se faz notável pelas missas, que de madrugada se dizem em seu pequeno convento; por suas belas festas do Espírito-Santo com seu império sempre cheio de oferendas, e seus grandes fogos de artifício; e enfim, pela multidão imensa de povo, e pelos carros, ônibus e gôndolas, que incessantemente por aí transitam, indo ou vindo desses bairros aristocráticos, que ficam além do cais da Glória.

E, como para compensar esse ruído constante e essa concorrência de que falamos, o largo da Lapa tem por vizinhas algumas ruas pequenas, mas bonitas, que se podem chamar solitárias em comparação dele.

No ano de 1846, porém, os habitantes de uma dessas ruas, de cujo nome agora não nos podemos ou não nos queremos lembrar, mas que será fácil conhecê-la pelo que dela diremos, começaram a notar que ela se ia tornando muito freqüentada a certas horas do dia.

De tarde, quando já o sol não incomodava e a sombra e o frescor convidavam as moças a chegar à janela, viam-se passar primeira e segunda vez pela rua de...

numerosos mancebos, que trajavam com elegância e gosto, e que por seus modos e ademãs mostravam pertencer ao círculo feliz, que atualmente se conhece pelo nome do – bom-tom.

Deu isto muito que pensar aos sossegados habitantes da rua de.... até que finalmente certo dia um homem que ali morava, e que se chamava Jacó, apontando para uma casa, que ficava defronte da sua, disse em tom confidencial a alguns de seus vizinhos: – a causa é aquilo.

Também Jacó era a pessoa mais capaz de descobrir qualquer mistério. Pelo sim, pelo não, diremos já, em duas palavras, quem era ele.

Jacó tinha sido escrivão, e apenas há três anos havendo perdido o seu lugar por motivos que ele a ninguém dizia, mas que o fizeram viver na cadeia durante alguns meses, retirou-se do centro da cidade, onde habitava, e veio com sua mulher e uma escrava morar na rua de...

A casa de Jacó era térrea, e constava de uma porta e duas janelas de vidraça cobertas com cortinas brancas: a porta abria-se para um corredor ao lado direito do qual outra dava entrada para a sala.

Sem ter nada em que se ocupasse, Jacó vivia do fruto de seus antigos trabalhos, e sua mulher, para ajudá-lo nas despesas da casa, fazia um pequeno comércio de balas e confeitos, que a escrava vendia em um tabuleiro à porta do corredor.

Um homem baixo, um pouco gordo e um pouco calvo, com os cabelos que lhe restavam, já meio grisalhos, com olhos pequenos e vivos, tendo sempre no semblante uma alegria fingida, tomando rapé, e trajando constantemente um fraque roxo, abotoado até em cima, calças pretas, e botins de cordovão de lustro – era Jacó.

Uma mulher alta, gorda, com poucos cabelos, olhos pardos, rosto, e principalmente o nariz, que não era pequeno, muito vermelhos, com pés imensamente grandes, com voz fina, retumbante, e falando de contínuo – era a sra.

Helena, a mulher de Jacó.

Este par vivia na mais estreita união, e tendo pouco ou nada em que cuidar, gastava o tempo em descobrir mistérios.

Jacó tinha o seu posto de dia, sentado junto de uma das janelas, e só o deixava se supunha conveniente seguir a alguém; dali ele observava e adivinhava tudo: seu olhar vivo penetrava no interior da casa alheia, e seu ouvido apurado ouvia, apesar das paredes, o que se falava na dos vizinhos; se saía, apanhava e lia o pequeno escrito, que desprezado rolava no chão; e de noite, escondido atrás da cortina da janela, devassava as ruas, e escutava o que diziam aqueles que passeavam conversando.

Helena ajudava excelentemente seu marido nesse inocente passatempo: ela conhecia os escravos de todas as casas, praticava com eles, e dava conta a seu esposo das questões domésticas, dos segredos e das mais miúdas circunstâncias da vida alheia: o papel em que vinha da venda embrulhado o açúcar, era lido e estudado; e durante a noite uma das cortinas das janelas pertencia aos cuidados de Helena.

A intriga, a maledicência e mesmo a calúnia alimentavam este homem e esta mulher, que se tinham encontrado no mundo tão iguais, tão dignos um do outro.

Não era pois acreditável que a causa dos passeios desses mancebos por aquela rua, dantes tão pouco freqüentada, escapasse a Jacó e sua mulher.

Um dia Jacó disse: – a causa é aquilo.

E aquilo era uma casa de bela aparência, que ficava defronte da dele: casa muito conhecida, mesmo muito amada pelos habitantes da rua de.... ou melhor pelos habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro.

Era essa casa assobradada e sobremontada por um sótão, ou, se quiserem, por um meio sobrado com três janelas de peitoril, tendo o andar inferior cinco, todas porém igualmente de peitoril: do lado esquerdo dava entrada para ela um humilde alpendre, que levava, os que por ele praticavam, a uma escadinha de quatro degraus, pelos quais se subia ao primeiro andar: pela parte direita, e na extensão de três braças, erguia-se um muro, que ocultava aos olhos dos curiosos pequeno e gracioso jardim, e breve se terminava confinando com uma velha casinha. Nada portanto mais simples, nada menos romanesco do que o aspecto dessa casa; mas porque sua frontaria fosse toda pintada de uma bela cor-de-rosa, excetuando-se a cimalha e os caixilhos das vidraças, que eram brancos, os habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro deram-lhe o nome e teimavam em chamá-la com o título muitíssimo poético de “Céu cor-de-rosa.” Seria, porém, a cor da frontaria da casa, de que tratamos, a verdadeira causa de sua denominação quase sacrílega?... certo que não. O instinto do coração de um homem adivinha, para logo, que aí deve habitar uma mulher, provavelmente muito bela; porque esse nome de “Céu cor-de-rosa” tem em si alguma coisa de poético; e neste mundo tão por demais enganador e falso, e nesta vida tão por demais estéril e trabalhosa, o homem só encontra poesia e encanto onde respira a mulher. Por conseqüência, a cor da frontaria era o meio; a existência de uma mulher nessa casa, era a causa única de seu belo nome.

Com efeito uma moça, que a ser julgada pelo que dela apregoava a fama, era tão linda como nova, tão rica de encantos como pobre de anos, embelecia, tornava cheia de interesse a modesta habitação: centro para onde convergiam mil simpatias, tinha ela seu nome abençoado, sua vida mergulhada em uma atmosfera toda poética, seus hábitos e costumes, suas ações, sua casa, e quanto com ela estava em relação gozando honras romanescas, graças à imaginação fervorosa de um público idólatra.

Assim, já vimos com que nome tão altivo era conhecida a morada da feliz moça, e fez o povo mais ainda: para com uma antítese tornar dobradamente notável a conta em que tinha o “Céu cor-de-rosa”, aproveitou-se da existência da pobre casa, que junto do muro do jardim da primeira se via; e em castigo de sua miséria, pois que muito baixa, só havia nela de mais um sótão, que nem mesmo lançava janelas para a rua, e toda se mostrava já meio arruinada pela força dos anos, e bastante intrigueirada pelas desfeitas do tempo, deu-lhe o epíteto afrontoso de – “Purgatóriotrigueiro”.

Tendo por essa maneira feito notar a casa da moça querida com um nome sagrado, e a que lhe ficava contígua com uma alcunha de maldição, os entusiastas foram por diante com a sua antítese. Entenderam que o nome batismal da moça, não exprimindo nenhum dos sentimentos que por ela nutriam, não lhes podia servir para fazê-la designar; e então acertaram de chamá-la – “Bela Órfã”; – porque assim a tornavam por dois modos interessante: interessante aos olhos pela beleza e ao coração pelo estado; e enfim, chegou a vez da antítese cruel, e a uma pobre mulher setuagenária, que morava no “Purgatório-trigueiro”, foi lançado o insultuoso apelido de – “Velha bruxa”.

Depois, como para dar os últimos toques à apoteose da feliz senhora, eles estudaram os hábitos, observaram as ações e os passos da “Bela Órfã”, e interpretações e explicações tão poéticas como esse nome vieram completar o romance que a imaginação popular criava. Por exemplo: a moça tinha desde os mais tenros anos contraído o hábito de despertar com a aurora para passar a primeira hora da manhã no pequeno jardim do “Céu cor-de-rosa”; a explicação não tardou. “Há, diziam-se sorrindo uns aos outros os entusiastas, há uma paixão, e a mais decidida correspondência amorosa entre a “Bela Órfã”, e o sol; de ajuste despertam ambos à mesma hora para, livres de testemunhas, se irem namorar de manhã cedo, ele do alto dos céus, e ela do meio das flores”.

 

Pensamos haver dito bastante para que se compreenda, com que excesso era amada essa moça: e como não pretendemos fazer coro com a multidão, que a incensava com lisonjas tão exageradas, e pouca importância damos a esses exaltamentos populares, que, tantas vezes, basta um leve sopro para de todo apagar, ou mesmo dar-lhe direção absolutamente oposta: vamos dizer o que era ela em realidade, e do que com justiça se lhe devia; e se, no correr desta história, usarmos repetidamente de alguns desses epítetos mencionados, será porque o povo à força de repetir os nomes de sua escolha acabou por generalizá-los, de tal modo, que só por eles eram bem conhecidos os objetos que nomeavam.

Deus legou aos homens pensamentos grandes, importantes e sagrados, em sua passagem, de padecimentos para ele e de salvação para nós; em sua passagem por este mundo, dizemos, cada passo que deu, cada ação que fez, cada palavra que pronunciou, foi uma lição de virtude angélica, uma amostra do caminho do céu, um pensamento de santidade; e o cumprimento de cada um desses pensamentos é o emblema, o mote de cada classe da sociedade; entre eles, se fosse possível dar-se mais beleza a uma do que a outras idéias do Espírito Divino, seria um dos mais sublimes e difíceis – a caridade. – E os missionários dessa virtude angélica, são especialmente os médicos. A medicina é o sacerdócio da caridade.

O negociante de receitas, aquele que, mercê de seu título, anda por aí curando, se pode, os seus doentes, tendo em mira somente o pobre interesse; que só presta o seu conselho a troco de ouro; que morde nos outros médicos, como em concorrentes que lhe diminuem o ganho; esse, que não compreende o gemer da alma da humanidade; que não sabe o que é o sofrimento mal gemido, as angústias abafadas do homem pobre; esse, que enquanto receita com a mão direita, tem já a esquerda estendida para receber dinheiro; esse, que define a medicina – somente um meio de vida; – esse, que não entende que a religião de Jesus Cristo, a nobreza de sua ciência, e a honra do coração marcam-lhe o posto ao pé de quem geme, e não unicamente ao pé de quem paga; esse... é apenas um mercador de receitas.

Mas aquele que, no exercício da medicina, não faz distinção entre rico e pobre, e só vê indivíduos que de seus cuidados carecem; aquele que combate as enfermidades, disputando contra a morte dia por dia, hora por hora, instante por instante, o campo da vida; que invade corajoso a atmosfera da peste; que se expõe com marcial bravura ao contágio mortífero, respirando aqui ar miasmático e envenenado, banhando-se ali em suor fétido e peçonhento, para caridoso levar socorros a infelizes, de quem sabe não receberá um ceitil; aquele que nem mesmo desanima, nesse viver trabalhoso, ante o monstro que tantas mil vezes fere o coração do médico – a ingratidão; – que paciente se amolda à impertinência da infância, ao capricho da velhice e ao pudor da virgindade; que não conhece no homem só os padecimentos da matéria; que entende e fala também o idioma da sensibilidade, o eloqüente dizer da alma; aquele que tem na cabeça a medicina para curar, nas mãos metade do ouro que recebeu do rico para espalhar sobre a miséria da pobreza; nos lábios consolações salutíferas para com elas abrandar os tormentos do infeliz; e no coração uma sepultura para eternamente encerrar os segredos das famílias; esse sim... esse é médico.

E se acaso se orgulha de sê-lo, tem, de sobra, razão para orgulhar-se.

E se acaso se orgulha de sê-lo, tem, de sobra, razão para orgulhar-se.

Nobre, alta, importante, solene missão é essa!... e essa missão tinha sido cumprida à risca pelo dr. Paulo Ângelo.

A vida de Paulo Ângelo fora uma longa história de filantropia e caridade: compreendendo perfeitamente o ministério do médico, não se arredara nunca em nenhum de seus passos da linha de proceder que lhe cumpria seguir. Dias e noites gastara ele em fazer bem ou em preparar-se para fazê-lo a seus semelhantes, porque de dia eram suas horas votadas à observação e ao cuidado de seus enfermos; e de noite estudava, estudava sempre, pois que jamais pensava ser suficientemente sábio. Havia reconhecido que, assim como o homem moral, o homem físico é também um livro imenso, em que sempre se acham segredos novos para interpretar; e que lendo-se mesmo de contínuo até à última hora da vida, ainda assim não se tem lido bastante, ou antes nunca se chega à sua página derradeira.

Moço ainda, desposara ele uma mulher virtuosa e amável; e o céu abençoando sua união lhe fez presente de uma filha, que deveria fazer o encanto de sua velhice.

Ocupou-se desvelado em sua educação: possível e muito, lhe fora preparar-lhe uma herança elevada porque, médico hábil e afamado, exercia uma clínica vasta e rendosa; quase sempre, porém, metade do estipêndio do rico ficava debaixo do travesseiro do pobre.

No entanto, se seus cofres permaneciam vazios, as bênçãos do povo choviam sobre Paulo Ângelo e sua família, pois que sua esposa, obedecendo à própria índole, e seguindo os exemplos que ele lhe dava, cumpria também a santa virtude da caridade, com essa graça no bem-fazer, com esse segredo de ser beneficente quase brincando, de que somente são capazes as mulheres; e sua pequena filha amamentada com o leite da virtude, embalada no berço da beneficência, era um galante querubim, de quem Deus modelara o coração, e o amor o rosto.

Ia indo Paulo Ângelo em seu viver sossegado e ditoso, quando no começo do ano de 1844 foi vítima de seu próprio ministério: contraindo uma enfermidade contagiosa, trouxe o germe da morte para o centro de sua família, e em um mesmo dia os sinos da capital gemeram com seu dobre lúgubre por ele e por sua esposa.

Era um espetáculo bem triste ver famílias inteiras, de quem ele havia sido o benfeitor, acompanhar chorando seu carro fúnebre!... era uma cena despedaçadora vê-las ao derredor de seu féretro misturando lamentos e soluços com os hinos funerais dos sacerdotes.

E havia, com tudo isso, um objeto ainda mais triste, ainda mais lamentável do que todo esse espetáculo: havia uma órfã de quatorze anos.

Aos quatorze anos, pois, ficou quase só no mundo a filha de Paulo Ângelo. É verdade que um nobre e respeitável ancião, seu avô paterno, encarregou-se de sua tutela; que ela achou em uma bela e interessante senhora, filha de seu avô, e portanto sua tia, uma companheira e amiga. É certo, que firmes e não ingratos se mostraram alguns dos muitos antigos amigos de seu pai; por sem dúvida, que herdou ela toda a idolatria que votava a classe necessitada ao médico benfeitor. É verdade tudo isso, mas não será verdade, também, que ainda mesmo no centro da multidão está quase num ermo, que ainda mesmo no meio de mil riquezas está mais pobre que o último mendigo, aquele que perde de improviso o que mais ama no mundo? pois que sentimento há aí, que preencher possa o vazio deixado no coração pelo amor filial?... um só talvez, a saudade do que se perdeu: é ainda o mesmo sentimento modificado pela dor, e crismado com novo nome.

E pois essa interessante pombinha ficara só e ainda mal emplumada no ninho, onde não poderão jamais voltar os pais, apanhados tão de súbito pela morte. E pois essa criança de quatorze anos, fora cedo tocada pelo dedo pesado do infortúnio e escrevera seu nome na lista dessas criaturas infelizes e sagradas, que no mundo se chamam – órfãos; – sim, infelizes, porque têm perdido aquilo que a natureza pede incessantemente dentro do coração; sagradas, também, porque um órfão deve ser um objeto respeitado, como a alma de um vivo e o cadáver de um morto.

E como profundamente ressentida desse golpe inesperado que a viera ferir no tempo mesmo em que começava de bem compreender o que era, o que valia o amor dos pais, a filha de Paulo Ângelo, semelhante a essas flores que, açoitadas pela tempestade ao desabrochar, não morrem mas se desenvolvem abatidas e tristes, ia passando seus belos dias da idade da inocência alquebrada pela dor e pela saudade.

Mesmo depois de passado seu ano de luto, quando já o bálsamo do tempo tinha cicatrizado a ferida profunda de seu coração, ela teimava em viver uma vida de retiro e de esquecimento. Apenas uma ou outra vez podiam na manhã de algum domingo admirar a graça de sua figura ou adivinhar a beleza de seu rosto encoberto pelo véu com que se ornava, indo ao templo do Senhor; apenas, e raramente, uma ou outra vez podiam vê-la, para fugir logo, depois aparecer ao lado de sua tia em alguma das janelas do “Céu cor-de-rosa”; apenas, e ainda mais raramente, era uma ou outra vez enfim arrastada por seu avô e sua tia a essas sociedades brilhantes e embriagadoras, que fazem o delírio das moças, e que são, a um só tempo, o altar em que se elas adoram, e o labirinto em que um se elas perdem. Era seu viver como esse viajar etéreo de formosa lua melancólica, por noite nublada e feia, que surge por curtos instantes dentre nuvens carregadas, e logo depois novamente se mergulha, deixando apenas ressumbrar seus raios através dos véus de fumo do firmamento.

Não era por índole triste assim a filha de Paulo Ângelo; tinha, ao contrário, gênio brincador e alegre; mas a prematura morte de seus pais lhe embutira um ponto negro, uma recordação lúgubre na vida, e mil vezes, ou quase sempre no fervor de uma festa, ou no sonhar de lisonjeiras fantasias, o ponto negro lhe surgia, a recordação lúgubre vinha abismá-la. Por isso, notava-se de ordinário em seu rosto essa melancolia tocante que, como já disse alguém, é, até certo ponto, uma graça na dor.

Ela ficara pobre de bens; fora sua única herança o “Céu cor-de-rosa”; e, portanto, não podendo, como dantes, derramar benefícios e esmolas sobre aqueles tantos pobres, que seus pais chamavam – filhos, – e ela se habituara a chamar – irmãos; – achava em tal mais um motivo para ocultar-se, como já inútil; e às vezes escapava-lhe uma lágrima, pensando que poderia ser pesada.

Mas essa mesma vida de retiro e sossego, essa vida quase de mistério, redobrava o interesse que pela órfã se mostrava.

E ao mesmo tempo que ela, ao amanhecer cuidando de suas flores, durante o dia de suas músicas e trabalhos, e de noite triste e docemente refletindo, se supunha esquecida de todos, se acreditava, ao muito, objeto só de alguma terna saudade como a que se tem de um bom amigo de muito tempo perdido, os velhos protegidos de seu pai, os filhos da caridade de Paulo Ângelo, a fantasia romanesca do povo entusiasta celebravam a apoteose da interessante moça, criando para ela o “Céu corde- rosa”; dando-lhe o nome de “Bela Órfã”, inventando um “Purgatório-trigueiro”; fazendo habitante deste uma velha bruxa, e até enfim forjando uma paixão miraculosa entre a “Bela Órfã” e o astro do dia.

Ora, como é natural, a fama da beleza e das virtudes da “Bela Órfã” não se deixou ficar no bairro da Lapa do Desterro, e correndo por toda cidade, chegou também aos ouvidos dos senhores do bom-tom, que, começando por isso a freqüentar a rua de.. e conhecendo que no “Céu cor-de-rosa” não era a “Bela Órfã” a única beleza que havia, fizeram dessa rua o seu passeio de escolha, e desafiaram assim a curiosidade dos sossegados habitantes dela.

Como dissemos, essa curiosidade estava já satisfeita, o mistério tinha sido facilmente explicado. Jacó havia apontado para o “Céu cor-de-rosa”, e dito: – A causa é aquilo.

Agora, desviando-nos um pouco da porta do “Céu”, convém que entremos diretamente no “Purgatório”.

CAPÍTULO II O “PURGATÓRIO-TRIGUEIRO”

NO FIM do muro que defendia o jardim do “Céu cor-de-rosa”, estava, como já dissemos, o “Purgatório-trigueiro”.

Era uma velha casinha, cujas paredes se mostravam carcomidas pelo tempo: entrava-se por uma rótula em péssimo estado; havia ao lado desta, e pela parte direita, uma janela sem vidraças, mas com postigos que se abriam para os lados, e nada mais. Nem mesmo da rua se podia fazer uma justa idéia do pequeno sótão que, como envergonhado, deitava suas janelas para trás, e que apenas assinalava sua existência pela parte anterior, na elevação do telhado enegrecido e limoso, o que ainda mais afeava a antiga casinha, simulando corcova enorme de velha.

Aquela triste e miserável habitação tinha em si um não sei quê de repugnante; e todavia não era maldição, não era escárnio o que o povo votava ao velho casebre; era sim a cruel antítese, que a fazia conhecer por um nome afrontoso.

No entanto, a interessante moça do “Céu cor-de-rosa”, bendizia a existência daquela casinha, e pedia ao céu que jamais se lhe mudasse a moradora: justa razão tinha ela para assim o pedir.

A “Bela Órfã” gostava, e muito, de passar no jardim a sua hora matutina em completa liberdade; e seu jardim podia ser quase todo devassado pelo pequeno sótão da velha casa; mas a janela desse sótão, que podia incomodar a moça, não se abria nunca; e por conseqüência nenhum morador lhe devia ser tão agradável como essa pobre velha, que parecia amar a obscuridade, e tinha as janelas sempre fechadas.

Apesar do muito que pareça mau gosto, a despeito mesmo de que erro se julgue abandonar uma personagem ainda pouco conhecida, para nos irmos ocupar já de outras por sem dúvida baldas do interesse que terá podido merecer a primeira; perderemos de vista, por um momento, a “Bela Órfã”, para travar conhecimento agora com a velha bruxa. Ainda bem que não é pecado, neste caso, desprezar o caminho do “Céu”, a fim de penetrar no interior do “Purgatório”.

Eram oito horas da noite.

A saleta do “Purgatório-trigueiro” estava fracamente alumiada por uma única luz deposta sobre antiga mesa redonda, junto da qual tomavam café e pão a velha Irias e um mancebo de agradável presença, que deveria contar cerca de vinte anos; uma escrava da mesma idade que a primeira, esperava de braços cruzados, e a alguma distância, a terminação da ceia.

Irias era uma mulher setuagenária, alta, magra, de cabelos completamente brancos, de olhos verdes, que deveriam ter sido belíssimos, e que ainda aos setenta anos ela os conservava sempre repletos de fogo e de vivacidade: tinha ainda todos os dentes iguais, alvos e belos; vestia nessa noite um simples vestido de chita escura sem enfeite algum, e escondia os cabelos brancos por debaixo de um lenço de Alcobaça atado à cabeça.

O mancebo era de estatura regular. Tinha cabelos pretos e anelados e a fronte elevada e bela. Seus olhos pardos, que às vezes, por passageiros instantes, se acendiam e dardejavam olhares ardentes, mostravam-se de ordinário desmaiados e amortecidos; por baixo de suas pálpebras inferiores desenhavam-se olheiras roxeadas e filhas talvez da vigília e do estudo; a tez pálida desse mancebo condizia, enfim, perfeitamente, com o parecer melancólico e abatido e com o silêncio obstinado que guardava desde o começo da refeição; estava ele de calças brancas e com um lencinho de seda encarnada ao pescoço, e finalmente vestia um chambre de riscadinho azul abotoado até em cima.

Embora a melancolia devesse ser natural nesse mancebo, é provável que alguma coisa, fora do comum, nele houvesse naquela noite; pois que a velha Irias lhe lançava de relance vistas perscrutadoras e ele cem vezes tinha já estremecido, como por uma horripilação momentânea e súbita.

Terminada a ceia, a velha e o mancebo ergueram-se, rezaram, e tornaram a sentar-se, ao mesmo tempo que a escrava retirou de sobre a mesa o velho serviço.

Uma hora longa e muda passou então para aquele mancebo, que meditava, e para aquela velha, que observava.

O moço tinha deixado cair a cabeça até encostar a barba na mão esquerda, apoiando-se com o cotovelo sobre a mesa: parecia esquecido de si mesmo e só entregue a um profundo cogitar de recônditos pensamentos; pesadas idéias como que se lhe exalavam d’alma, e se lhe iam encrespar em sua fronte elevada, cujas rugas horizontais poderiam dizer-se ondas de um ânimo em tempestade.

A cena de concentração e de silêncio se foi prolongando mais e mais, sem que o mancebo pudesse arrancar-se dos braços de um pensamento em que, talvez a pesar seu, se achava embebido; e sem que também a velha ousasse despertar o moço daquele completo sono da matéria, que deixa a alma livre toda entregue a esse vivíssimo trabalho, que os homens chamam meditação.

O toque de recolher veio despertar o mancebo. O som dos bronzes pareceu tocar dolorosamente sua alma; e ele erguendo-se imediatamente, e sacudindo a cabeça como para espalhar o enxame de tristes idéias, que a pejavam, corou, olhando para Irias, e disse: – É tarde: boa-noite, minha mãe.

Tomou então uma vela, acendeu-a, e sumiu-se por um corredor estreito e úmido, no fim do qual encontrou a escadinha do sótão, que vagarosamente galgou.

A velha em silêncio o abençoou, e duas lágrimas grossas e brilhantes vieram pendurar-se das pálpebras de seus olhos verdes, semelhantes a gotas de orvalho prestes a tombar do ápice de duas folhas de uma árvore secular.

Mas quem era esse mancebo?...

Chegado a casa de Irias apenas há dois meses, fora recebido como um extremosamente amado filho; e logo após sua vida correu triste e misteriosa, desconhecida e abafada, como alguns desses lúgubres pensamentos noturnos, que no leito concebem, e que no leito se deixam até o repousar da seguinte noite.

Sem um único amigo; só, Cândido (este o nome do mancebo) deixava o pequeno sótão do “Purgatório-trigueiro” pouco depois do amanhecer, e voltava de novo a ele quando a noite desdobrava o manto das trevas sobre a cidade do Rio de Janeiro.

E ninguém tinha até então notado naquele mancebo, que duas vezes por dia passava triste e silencioso o limiar da porta do “Purgatório-trigueiro”. Apenas o par terrível o observava cuidadoso: Jacó o tinha seguido por vezes, mas parara vendo-o entrar em uma muito freqüentada rua da corte na casa de um advogado. Jacó, que fora escrivão, detestava a justiça agora, e tinha medo de quem com ela estava em relação; e portanto, mesmo para os dois maldizentes e curiosos vizinhos, a vida de Cândido era um mistério... o pesadelo de Jacó... o tormento de Helena.

E o resto de sua vida, à noite, era ainda um novo segredo até para a velha Irias; era um segredo sepultado dentro de antigo sótão.

E a filha de Paulo Ângelo, ao romper de todas as auroras, passeava negligente e descuidada pelo seu jardim, e mal podia adivinhar que a essas horas a janeleta fechada do triste sótão do “Purgatório-trigueiro” encerrava um mancebo em toda força dos anos, que então ali descansava, ou... quem sabe o que ele fazia? Mas quem era esse mancebo?...

É meia-noite. Uma luz pálida e fraca alumia uma rude câmara, cujas paredes mal rebocadas, e já aqui e ali fendidas, ameaçam desabar bem cedo. Tábuas já meio apodrecidas, e que rangem ao pisar de um pé menos leve, fazem o assoalho dessa câmara, que nem ao menos é forrada. No fundo vê-se uma pequena janela, e iguais a esta duas outras, que se abrem uma para cada lado. Todas três se acham fechadas.

Mas naquela, que fica à direita, uma fenda larga de três dedos deixa passar os raios da lua, que vem inundar o interior daquele aposento resfriado incessantemente pelas brisas da noite, que entram pela fenda da janela.

Vê-se ao lado esquerdo uma mesa pequena, e sobre ela tudo o que é de mister para escrever. Defronte dessa uma outra muito maior coberta de livros, de papéis e de estampas; não longe desta um leito baixo e estreito; a um canto uma harpa, cujas cordas, pela maior parte rebentadas, atestam o esquecimento de seu dono.

Eis o sótão do “Purgatório-trigueiro” todo completo.

Na hora em que fizemos a descrição da câmara desse sótão, a qual era o sótão inteiro, à meia-noite, um mancebo achava-se sentado junto da mesa pequena, e tinha o rosto caído sobre um livro, onde acabara de escrever algumas linhas. Seu braço direito estendia-se sobre a mesa, e ele apertava ainda a pena entre os dedos.

Cândido havia involuntariamente adormecido.

Quem se tivesse então colocado por trás do mancebo e lhe afastasse um pouco a cabeça, poderia ler uma página do livro da vida daquele homem. Este livro era o seu diário, a urna onde sepultava os pensamentos de cada um de seus dias.

Uma página apenas se oferece a saciar nossa curiosidade. Eis, pouco mais ou menos, o que estava escrito: “15 de setembro. – Hoje foi como ontem, e amanhã será como hoje. O porvir começa a desenhar-se a meus olhos sob a forma de um esqueleto. Não há nada novo na minha vida. É somente a mocidade, que tem por seu passado a infância, que ainda não geme nem medita, que goza já e ainda espera; é somente a mocidade quem se pode sorrir para a vida. E todavia eu que sou moço, moço dos melhores anos, eu me não posso sorrir para ela!... quando pois o farei?... quando for velho?...

mas o velho chora os erros do passado, o sofrimento do presente, chora a morte, que é todo o seu futuro, e enfim medita sobre a eternidade. Por conseqüência eu nunca hei de sorrir para a vida.” “16 de setembro. – Terrível sonho tive eu à noite passada. Dormindo, vi uma mulher, que se envergonhava de me olhar... era minha mãe!... eu a estive vendo, como se a houvesse algum dia conhecido... chorei ajoelhado a seus pés, e ela praguejou contra mim, porque eu sou a prova do seu erro. Amaldiçoou-me, porque eu sou para ela (talvez!) um remorso, que incessante a dilacera. Preciso repetir mil vezes, a mim mesmo, que isso foi um sonho. Porque achar minha mãe é a única esperança, que neste mundo tenho, e ser amado por ela, uma ambição desesperada.

Eu adoro a minha mãe sem tê-la nunca visto; daria minha vida por uma bênção dela.

Meu Deus! dai-me minha mãe!” “17 de setembro. – Há somente dois sentimentos capazes de encher toda a alma de um mancebo: são eles – amor e ambição –. Careço de bases para desenvolver qualquer dos dois. Para mim, portanto, não há felicidade possível. É horrível a vida do homem que tem um coração cheio de amor e carece de quem lhe aceite esse sentimento de fogo; que possui um pensamento repleto de nobre ambição, e não tem asas para voar ao ponto que mira. Disseram-me um dia que eu tinha talento e gênio; pois sim; suponhamos que se não enganaram. Tenho talento e gênio, mas não posso deixar a obscuridade; porque se eu sair em claro dia, o primeiro que me encontrar, perguntar-me-á – quem és tu? – e eu não terei uma palavra para responder-lhe. Tenho talento e gênio; porém se amar uma mulher, ela há de rir-se de minha audácia, de minha loucura, há de zombar do pobre que a ama; e se for também louca para chegar a amar-me, terá de descer muito para ir até o fundo do abismo onde a sociedade tem posto em exílio o homem pobre. Oh! é preciso pois passar pela vida sem gozar nenhum desses grandes afetos... sem ter pais, que me abençoem; sem ter esposa, com quem me identifique; sem ter filhos, em quem me sinta renascer. Oh!... só! sempre só.” “18 de setembro. – Não foi uma visão, meu Deus?... será possível que fosse realidade?... o que se está passando ainda agora, o que eu tenho na cabeça, o que eu sinto no coração não se exprime... não se descreve... não, é impossível; mas fica eternamente impresso na alma.” “19 de setembro. – Oh!... era... é realidade!” “20 de setembro. – Minha mãe, perdão! três dias passados, sem que eu vos desse mais que momentâneos pensamentos; foram três dias de embriaguez ou de sono; mas enfim eis-me despertado. Sim... dormi, porque cheguei a esquecer-me de minha posição e de minha desgraça; em castigo, porém, aqui estou eu agora mais desgraçado que nunca. O que eu sofro... as lúgubres idéias que me fervem no cérebro, não serão aqui exaladas. Não! eu tenho vergonha do que sofro; se aqui as escrevesse, e depois alguém a meus olhos lesse este papel, eu creio que morreria de pejo. E todavia eu precisava tanto de escrever!... quando se tem derramado em um papel aquilo que na alma se está sentindo, o coração de quem sofre como que fica livre de um peso enorme. Eia, pois!... escrevamos sempre... um nome só... não! um nome, não! Bastam duas letras – “Ce” –.” Com essas duas letras tinha-se exatamente terminado a página, de que copiamos os anteriores pensamentos.

Cândido havia parado de escrever; e provavelmente, sem querer, adormecera com o rosto caído sobre o papel, e os lábios sobre aquelas duas letras – Ce.

É possível que o seu último pensamento da vigília fosse o dar um beijo nas duas letras, que lhe pareciam ser tão caras.

Prolongou-se o dormir do mancebo até quase o amanhecer; hora em que, como se o próprio coração o despertasse, ergueu-se ele rápido, e foi até a fresta que havia na janela do lado direito.

A noite ainda não se havia de todo dissipado.

– Ainda é cedo, disse.

Mas ficou no mesmo lugar, olhando pela fresta; e dir-se-ia que esperava ver dali cair sobre a terra o primeiro raio do sol.

Pela fenda da janela, a que Cândido se chegara, e onde permanecia, devassava-se quase todo jardim do “Céu cor-de-rosa”. Ao fundo deste via-se um pequeno e gracioso caramanchão coberto de trepadeiras de mil espécies.

As auras da madrugada entravam pela fenda da janela do sótão, impregnadas de mil embriagadores perfumes, como o bafo de cem anjos, que a um só tempo respirassem.

À luz incompleta e duvidosa do começar do dia, tinha sucedido essa outra, que acompanha o primeiro rubor do oriente, que é como um sorrir de saudação e de amor, que o sol oferece à terra.

De repente Cândido estremeceu da cabeça até os pés; inclinou-se para diante, e sua perna direita recebeu todo peso de seu corpo. Operou-se então em seu semblante, e em todo ele, uma mímica expressiva e eloqüente. Os olhos vivos e animados pareciam acompanhar um único objeto com olhar apaixonado, ardente e cheio de fascinação magnética; rubor febril embelecia-lhe as faces... suas narinas se dilatavam pouco a pouco; a boca entreaberta deixava passar sua respiração suspirosa e comprimida, e ao mesmo tempo sua mão esquerda apertava o peito no lugar do coração, que palpitava forte e freqüente, como em uma hora de perigo; tremor nervoso, porém leve, agitava-lhe todo o corpo.

Tudo isso era a alma virgem de um jovem, que por suas mil bocas saudava a aparição de uma mulher formosa.

Com efeito abrira-se uma pequena porta, que do “Céu cor-de-rosa” deitava para o jardim, e uma mulher tinha-se misturado com as flores.

Era uma moça de dezesseis anos. Mercê da hora e do lugar, vinha ela em livre desalinho. Vestia um vestido azul-claro, leve, de mangas curtas, e comprido, como é moda ainda hoje. Cabelos castanhos quase pretos caíam bastos, longos e ondeados até um palmo do chão, de modo a fazer inveja a essas gregas, de quem fala Gemelli; sua fronte era branca e lisa; seus olhos azuis e belos, como os das mais belas mulheres do Norte. Fugitivo rubor lhe assomava às faces. Formavam sua boca breve e ornada de lindíssimos dentes, dois lábios úmidos e rubros, como o bico de uma trocaz. Seu nariz era bem feito como os das beldades da Circássia; e a seu colo altivo e branco como a neve seguia um seio alvo palpitante... perigoso de se contemplar...

Delgada e graciosa como a palmeira de nossos bosques, essa moça com cintura de georgiana, com suas mãozinhas delicadas e finas, com seus pés de menina, com todas as suas formas mimosas e puras, mostrava-se verdadeiramente encantadora.

Era uma dessas belezas delicadas e flexíveis, a quem um homem apertaria a mão muito de leve, e teria ainda assim mesmo medo de haver ofendido seus brandos tecidos; a quem um esposo beijaria no rosto com a ponta dos lábios, temeroso de desbotá-la com o simples toque deles; era um desses tipos de brandura delicado e fino, como uma violeta, um jacinto ou uma pétala de rosa.

Era a “Bela Órfã”.

A interessante moça passeou durante alguns momentos por entre suas flores; examinou o estado de seus arbustinhos mais queridos; enfim chegou-se a uma roseira e colheu um botão de rosa.

Tinha colhido a sua imagem.

Entrou depois no caramanchão e reclinou-se negligentemente em um banco de relva. Aproveitando a inclinação desse belo corpo, e ajudados pelo impulso dos zéfiros, os cabelos da moça derramaram-se sobre ela.

Quem a visse então debaixo daquele teto de flores, reclinada em um leito cor de esmeralda, com seu seio e seu colo cobertos pelas longas madeixas quase negras, com seu comprido vestido azul-celeste agitado pelas auras, com seu rosto tão belo como surgindo dentre aquela chusma de anéis de madeixas, a julgaria talvez uma encantadora fada, ou tomá-la-ia pela visão de um sonho.

A moça parecia esquecida de si própria na posição que tomara, quando um brando raio do sol que acabava de nascer veio refletir sobre seu rosto.

Então ergueu-se, e olhando como em despedida para suas flores, saiu do caramanhão, e pouco depois desapareceu pela pequena porta por onde tinha vindo.

O anjo acabava de entrar no céu.

Cândido, imóvel, silencioso e em êxtase, havia acompanhado com seu olhar magnético aquela mulher angélica em todos os seus movimentos. Vendo-a desaparecer, exalou um suspiro longo e doloroso, que talvez desde muito sufocava no coração; e enfim pronunciou vagarosamente com enlevo indizível e demorandose em cada sílaba, um nome, só um nome, como se esse nome fosse um hino completo, e em cada uma de suas sílabas achassem seus lábios melíflua doçura.

Ele disse pois baixinho e preguiçosamente: – Celina!

CAPÍTULO III A TIA DE CELINA

CELINA acabava de entrar na sala para entregar-se a seus estudos de música, que ela amava sobretudo, quando sua tia veio correndo para ela, e com uma explosão de alegria infantil exclamou abraçando-a: – Celina! eu sou feliz... imensamente feliz!.

A “Bela Órfã” deixou-se levar por Mariana até o sofá, onde se sentaram juntas a sobrinha muito admirada, e a tia rutilante de júbilo.

Mariana era uma dessas mulheres que ainda são moças aos quarenta anos.

Contava ela então trinta e seis, dizia que tinha trinta, e julgá-la-iam com vinte e cinco. Era um verdadeiro tipo de beleza dos trópicos; tinha os cabelos longos e negros como o azeviche, os olhos grandes, pretos e tão brilhantes como o sol do Brasil; o rosto perfeitamente bem talhado e de uma cor morena muito pronunciada.

O nariz era bem feito, e suas narinas cedendo às vezes a um ardor natural, se dilatavam com força; tinha lábios eróticos, e riquíssimos dentes; a boca um pouco grande, mas engraçada; abaixo de seu pescoço garboso e acima de seus seios pequenos e palpitantes, nem de leve se desenhavam suas clavículas; cintura delgada, braços grossos com perfeição torneados, mãos lindíssimas e pés de brasileira completavam os encantos dessa mulher.

Começando ela então a engordar, nada porém havia perdido da elegância de suas formas; ao contrário estava mais elegante ainda. Alta e graciosa, cada posição que seu corpo tomava tinha um encanto particular, cada um de seus movimentos acendia um desejo perigoso; seu olhar era às vezes um desafio, uma provocação; seu sorrir quase sempre uma magia poderosa, sua voz uma harmonia que ficava no coração para se ouvir sempre, ainda mesmo ausente dela: a voluptuosidade e o ardor estavam derramados em toda essa mulher, que deveria ter sido e era ainda objeto de cultos perigosos.

Sobretudo, Mariana sabia que era bela, e se ufanava de sê-lo. Quando um homem chegava-se a ela, havia de pagar-lhe por força o seu tributo de admiração, porque Mariana lho pedia com a provocação de seus olhos; e se o homem resistia, lho ordenava com a magia de seu sorrir, e enfim lho impunha com a harmonia de sua voz.

Viúva há três anos, julgara com sua vaidade de bela, que as vestes de luto não faziam sobressair seus encantos; e um simples lencinho preto que às vezes lhe ornava o colo, era menos um sinal de viuvez, do que um enfeite que a tornava dobradamente interessante. Aquele lencinho preto parecia estar dizendo “sou livre...

podem dizer que me amam”.

Mariana era finalmente a menina dos olhos de seu velho pai, e a amiga e companheira da “Bela Órfã”.

– Celina, eu sou feliz!... imensamente feliz!... tinha ela já três vezes exclamado depois que se sentara no sofá ao lado de sua sobrinha.

– Mas por quê?... o que há então minha tia? Ficou Mariana pensando alguns instantes, depois abraçou, e repetidas vezes beijou a “Bela Órfã”, e disse: – Olha... por isto; porque muitas vezes nós precisamos abrir o nosso coração a alguém que juntamente conosco chore nossos pesares, e frua nossos prazeres, é que te eu tenho dito mil vezes que nós nos devemos amar como duas amigas, ou melhor ainda, como duas irmãs que se amem muito. Para que estes nomes de tia e sobrinha?... chama-me Mariana, como eu te chamo Celina.

– Senhora...

– Sim... fiquemos nisto, continuou Mariana beijando de novo Celina; eu nunca mais te hei de responder quando me chamares como até agora – minha tia. – És muito mais moça do que eu, mas também podes olhar-me, não sou nenhuma velha, e somos ambas bonitas.

– Pois sim; eu prometo.

– E agora o que é que queres saber?...

– Por que se julga minha tia tão feliz.

– Não respondo.

– Ah!... perdão!...

– Pois pergunta de novo, disse a viúva rindo-se.

– Por que te crês tão feliz, Mariana?...

– Escuta: para responder-te daqui a um instante, eu preciso perguntar-te uma coisa: juras falar-me de coração?...

– Sem dúvida.

– Pois bem, Celina, sabes o que é amar... amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão?...

A “Bela Órfã” corou até a raiz dos cabelos, e sua perturbação aumentou-se quando viu que Mariana se estava rindo de vê-la assim.

– Oh! não te perturbes, não cores tanto. Lembra-te que estamos sós, e que somos como duas irmãs que se amam muito. Responde francamente: amas já alguém?...

– Não, Mariana.

– Falas verdade, Celina?...

– Falo verdade, respondeu a moça com os olhos no chão.

– Mas com dezesseis anos, tão bonita e tão viva que és, tu já deves ter pensado nesse sentimento de fogo, que mais cedo ou mais tarde sempre experimentamos; fazes já idéia do que seja amar um homem?...

– Não sei... talvez... tenho lido.

– E então?...

– Mas eu tinha perguntado por que te julgavas feliz, Mariana! – É porque amo, Celina.

– Eu o supunha.

– Tu o supunhas?... e a quem acreditavas que eu amava?...

Celina hesitou.

– Fala, disse Mariana.

– O sr. Salustiano.

Mariana fez um movimento de horror.

– Oh!... nunca! exclamou.

– Como!... pois não é? – Eu o detesto... eu o aborreço, como se aborrece um malvado.

– É possível? – Pobre menina!... tu ainda não sabes o que é o mundo. Vês-me rir para esse homem, vês como ambos conversamos e mutuamente nos festejamos, e como com outras pessoas, pensas que o amo e sou por ele amada. Pois bem: eu detesto esse homem, e ele sabe que eu o detesto.

Uma nuvem de imensa tristeza passou pelo rosto de Mariana há pouco expandido pelo prazer. Ela ficou muda e pensativa, até que Celina arrependida do que tinha dito, tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e falou-lhe docemente: – Está bem, Mariana, esqueçamos esse vaidoso mancebo, de quem também não gosto, e falemos sobre aquele que te é caro.

– Oh! sim! falemos!... exclamou, como despertando de um sonho, a bela viúva, em cujo semblante radiou de novo o prazer.

– Eu o conheço?...

– Creio que não.

– Muito moço, não é assim?...

– Trinta e dois anos.

– Bonito?...

– Oh! pelo menos eu o julgo tal.

– És amada?...

– Era, disse Mariana soltando um suspiro.

– Desde quando?...

– Há seis anos.

Celina tornou-se pela segunda vez muito corada, e sem poder ocultar um movimento de desgosto, disse: – Eras casada nesse tempo, Mariana.

– É verdade, respondeu a viúva. Escuta o que eu precisava dizer a uma amiga, , ara que ela ficasse conhecendo meu coração, e depois falasse muitas vezes comigo sobre o meu amor.

Celina fitou os olhos em Mariana, que começou logo a falar.

– A história da minha vida, Celina, se assemelha à de um número imenso de moças. Não te cansarei, pois, alongando-a. Aos quatorze anos já o meu espelho me tinha dito que era bela, e desde que o soube, sonhei, como todas nós sonhamos aos quatorze anos, sonhei como tu sonhas aos dezesseis, com um mancebo formoso e interessante, que o céu por força deveria ter formado de propósito para mim; que seria meu esposo, que me amaria com ardor indizível em meu primeiro dia de noivado, e que daí a cem anos, ele e eu, moços sempre, ele sempre com seus vinte anos, e eu sempre com meus quatorze anos, belos e felizes nos amaríamos com o mesmo ardor indizível do primeiro dia de noivado. Fui amada, requestada, e às vezes feliz. Recebi cem proposições de casamento. De seu lado meu pai rejeitou cinqüenta, que eram feitas por mancebos gentis, namorados, bailistas; e que, segundo dizia meu pai, sabiam tudo, tudo, menos trabalhar. Por minha parte rejeitei as outras cinqüenta que me eram dirigidas por nobres e ricos senhores de cabelos grisalhos e elegantes carruagens, que, em minha opinião, mereciam tudo, tudo, menos o meu amor. Enfim cheguei aos meus vinte e quatro anos... oh Celina! eu tive medo, quando um dia me lembrei que tinha já vinte e quatro anos e estava ainda solteira!...

Celina notando no tom sério com que Mariana pronunciou aquelas últimas palavras, não pôde deixar de sorrir-se.

– É porque tu não sabes, Celina, o que se passou então dentro de mim. Nas sociedades parecia-me ouvir dizer – coitada! – quando eu passava perto de um círculo de cavalheiros; eu julgava-me ofendida no meu orgulho, rebaixada na convicção que eu tinha de ser bela; bela sim, e mais bela que as outras, quando eu via entrar na sala pelo braço de seus maridos minhas companheiras de colégio, algumas mais moças que eu e nenhuma tão bonita como eu mesma me supunha!...

Oh Celina!... eu sentia que o sangue me estava subindo à cabeça naqueles terríveis momentos; concebia desejos de matar-me, e às vezes fugia para o toilette, e chorava como chora uma criança em desespero!...

A “Bela Órfã” começava a ouvir com interesse a relação daqueles segredos íntimos de um coração de mulher.

– Em outras ocasiões, prosseguiu Mariana, conversava-se familiarmente em uma roda de moças; passava-se da discussão sobre o último sarau a falar-se acerca de vestidos e modas, e enfim se sucedia cair a conversação a respeito de idades, era para mim um suplício acerbo obrigarem-me a dizer a minha. Eu mentia, Celina, eu dizia que tinha dezoito anos, e dentro de mim sofria horríveis torturas, vendo como aquelas que me conheciam, sorriam-se e beliscavam-se ouvindo-me mentir diante delas! – Uma vez, continuou a viúva, era em um brilhante sarau; Matilde, a minha melhor amiga, passeava conversando comigo; de repente parou, e como inspirada por um demônio, disse-me: – Ah! é verdade, Mariana, é preciso cuidares de casar-te; estás te fazendo velha!... – Oh!... então eu tive vontade de matar a minha melhor amiga. Fugi daquele sarau... disse que estava doente; meu pai trouxe-me para casa cheio de cuidados; eu corri a esconder-me no meu quarto, e passei a noite inteira chorando. No outro dia (foi certamente o meu destino, Celina) meu pai mandou-me chamar à sala; estava com ele um homem que eu havia encontrado algumas vezes mas que nenhuma atenção me merecera: esse homem vinha pedir a minha mão; meu pai deu-me a liberdade de responder, e eu, sem perguntar quem ele era, qual o seu nome e o emprego que na sociedade exercia, disse-lhe que – sim! – e passado um mês eu era mulher de um homem que não amava, e de quem podia ser filha.

– Mas foi uma loucura!... exclamou Celina.

– Oh! sim, foi, e caro tive eu de pagá-la. Eu tinha feito, sem o pensar, o sacrifício de minha vida; não me era porém então doloroso, porque meu coração estava livre... eu não amava. Mas parece que Deus quis castigar-me de pronto; porque Deus, Celina, não abençoa a união daqueles que se não amam. Logo na noite de nossas núpcias, meu marido me apresentou um mancebo de nome Henrique, e me convidou a abraçar nele o seu primeiro amigo; e nessa mesma noite, portanto, vi um homem que preferi a meu marido. E daí por diante todos os dias sempre esse mancebo belo, nobre, ardente, de olhos tão lindos, e um sorrir tão meigo, se apresentava diante de mim, ao pé de meu marido pálido, abatido, com os cabelos começando a embranquecer, sem espírito para compreender a mulher que desposara, e sem poder ser amado por ela! – Oh! devia ser horrível!... murmurou a “Bela Órfã”.

– Como chorei então a minha vida de solteira!... Sim, eu estava passando novos tormentos, tormentos dobradamente dolorosos. Dantes era a minha vaidade que me perseguia, mas que eu poderia vencer, e rir-me dela se tivesse sido menos louca; então era um poder mais forte, era o meu coração que se tornara meu inimigo, que me pedia o que eu não podia dar-lhe, e que, a pesar meu, a despeito de meus esforços para subjugá-lo, mesmo junto de meu marido e principalmente a seu lado, ele me bradava – amo Henrique!...

– E esse segredo terrível... ia perguntando Celina.