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Remissão de Pecados

Joaquim Manuel de Macedo

CINCINATO (De joelhos toma e beija a mão de Helena.) – Perdão, minha senhora! beijo-lhe o santo dedinho indicador que mostrou a porta da rua ao diabo.

FIM DO TERCEIRO ATO ATO IV A mesma decoração do primeiro ato.

CENA I BRÁULIO e GERTRUDES BRÁULIO – Assim é que é: sessão cheia! pensei que o espanhol me tivesse desacreditado a casa, e hoje acudiu ainda mais gente! eu tinha chegado a calcular com a necessidade de mudar de acampamento.

GERTRUDES – Ora... a polícia aqui é tão boa! BRÁULIO – Em sinal de gratidão não falemos nela.

GERTRUDES – E Dionísia? em que ficamos?...

BRÁULIO – É uma entrosga difícil! quem diria que o Quebra-louça em um abrir 28 e fechar de olhos nos poria em revolução!... três contos de réis!... é um homem de bem: por mim estou resolvido a faltar a palavra ao Fábio, que é um impostor, e tanto mais que se arranja o negócio de modo que me deixam com cara de logrado, o que me serve para desculpar-me com ele.

GERTRUDES – Eu desconfio do Cincinato: é um estróina que se diverte a debicar-me.

BRÁULIO – Ele nos pagará: basta entregá-lo a Dionísia.

GERTRUDES – O pior é que Dionísia tem sua queda para Adriano.

BRÁULIO – Razão demais: isso indica ponta de capricho e ameaça de ligação demorada que não nos convém. O Quebra-louça há de desesperá-la em três dias, e não será capaz de sofrê-la três semanas: antes de um mês recolheremos Dionísia.

GERTRUDES – Então vou ralhar com ela, e convencê-la de que deve preferir o Cincinato. (Vai a sair) BRÁULIO – Ao contrário: vai dizer-lhe cobras e lagartos do Quebra-louça, e sustentar a candidatura de Adriano; mas fala sempre na riqueza do outro: verás que ela muda de parecer: vocês todas são uns demônios de contradição...

GERTRUDES – Ora o Cincinato! quando mal se esperava...

BRÁULIO – É um homem de ouro! paga à vista e ao portador: conquista como César, (Sussurro dentro.) começam...

UMA VOZ (Dentro.) – Basta, Cincinato? CINCINATO (Dentro.) – Jogo por fora para ter direito aos eclipses: faço um entre-parêntesis para avaliar o que ganhei na tripa.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Vai, malvado! BRÁULIO – Ele chega... deves ir tocar; daqui a pouco faze Dionísia cantar algum lundu provocador.

CENA II BRÁULIO, CINCINATO e GERTRUDES, que se vai.

CINCINATO – Adeus, mamãe Gertrudes! (Ao encontrá-la.) GERTRUDES – Que diabo de homem! (Vai-se.) BRÁULIO – Aborreceu-se de jogo? CINCINATO – Venho triste: feliz no jogo, infeliz no amor; não apostei que não ganhasse... vou perder com a bela Dionísia... não é?...

BRÁULIO – Tenha mais confiança em si: merece muito e sabe querer as coisas; é pena que não procure recomendar-se melhor a Dionísia.

CINCINATO – Eu tomei por caminho a linha reta: procurei chegar ao coração da sobrinha, fazendo escorregar a mão pela bolsa do tio; sou da escola realista: falei claro.

BRÁULIO – E eu lhe respondi que talvez arranjássemos tudo a contento.

CINCINATO – Talvez é o vago e o escuro: talvez é o animal que tem a cabeça escondida no sim, e a cauda enrolada no não. Eu fui mais positivo... no que falei, apresento... olhe... é só para mostrar... (Abre a carteira e mostra.) seis notas de quinhentos...

BRÁULIO – Novas e bonitas... vejo bem; mas podem se fazer as coisas decentemente... o senhor é escabroso... exprime-se de modo...

CINCINATO – Nítido e transparente: resolva a questão.

BRÁULIO – Dê as suas ordens para que esteja pronto e à nossa porta o carro à meia-noite. Hei de convencer Dionísia.

CINCINATO – Convença-a; porque o carro chegará às onze horas; tenho o 29 costume de preparar a couve antes da carne; mas pelo que me disse haverá em tal caso à sua porta dois carros para o mesmo fim, o de Adriano, e o meu: e se, por engano, a bela Dionísia... olhe, sr. Bráulio, tudo pode acontecer, menos somente uma coisa...

BRÁULIO – O quê? CINCINATO – Ficar o senhor com o meu dinheiro, e eu sem a rapariga: declaração formal. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha.

BRÁULIO – Pode estar tranqüilo: o senhor trata com um homem de bem.

CINCINATO – Isso está fora de questão; mas, em todo caso, há de ser como lhe disse: três contos de réis à portinhola do carro, estando o passarinho dentro.

BRÁULIO – De acordo; mas... o senhor nem respeita as conveniências...

CINCINATO – Quais? as suas?... e esta! quando lhe vou dar três contos de réis!...

BRÁULIO – Não é isso: é que o senhor nunca namorou seriamente Dionísia...

nem mesmo hoje...

CINCINATO – Como é que se namora sério?... o namoro sempre me pareceu passatempo ridículo... eu gosto do positivo.

BRÁULIO – Ajude-me: faça a corte à Dionísia sentimentalmente; ataque-lhe o coração.

CINCINATO – Sentimentalmente, e atacando-lhe o coração?... vá feito: protesto que hei de tocar-lhe na tecla.

BRÁULIO – Sobretudo não comprometa o negócio, fazendo alguma das suas costumadas estúrdias: é o seu único defeito (Soa o piano em prelúdio.) ouça... creio que ela vai cantar, deixo-lhe o campo livre. (Vai-se.) CENA III CINCINATO e, depois do canto, DIONÍSIA DIONÍSIA (Cantando dentro: lundu) – Bonita e marotinha.

Eu sou como andorinha Que, só, não faz verão.

Voando a sós no espaço, Cair quero no laço Que prende o coração.

CINCINATO (Canta.) – Caído e enrabichado Sou peixe, teu pescado, Com o anzol no coração.

Não fiques mais sozinha, Vem cá, minha andorinha, Vamos fazer verão.

DIONÍSIA (Rindo-se dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Canta.) O amor de uma andorinha Na sombra se amesquinha, Quer lúcido esplendor.

Voando a sós no espaço, Só cairei em laço De enleio encantador.

30 CINCINATO (Canta.) – Meu laço é um tesouro, Jóias, brilhante, ouro, Súcia, teatro, ceia, Sedas, e até veludo, Coques, anquinhas, tudo, E a bolsa sempre cheia.

DIONÍSIA (Canta dentro.) – Sou terna e já me inflama Aquela viva flama.

Que abrasa o coração: Pressinto que a andorinha Não fica mais sozinha. E vai fazer verão...

CINCINATO (Canta.) – Por mim estou em brasas...

Se queres, bate as asas, Me deixa ser ladrão; Vamos tecer um ninho, Voa, meu passarinho, Vamos fazer verão.

DIONÍSIA (Dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Rindo-se.) mamãe, já viu moço mais engraçado! (Cincinato vai para a frente, mas observa.) GERTRUDES (Dentro.) – Que te importa o moço?... tens às vezes modos que não parecem de uma menina recatada! (Cincinato põe a mão na boca para conter o riso e vendo que Dionísia vem, tira a carteira e põe-se a contar o dinheiro.) DIONÍSIA (Chegando.) – Ah! era o sr. Cincinato! que bela voz! CINCINATO – Minha linda senhora... a sua voz é que é estupenda mesmo quando não canta; mas devo confessar que neste momento me atrapalhou! DIONÍSIA – Como?...

CINCINATO – Fez-me errar a conta... eu dava balanço no capital e nos lucros desta noite e já não sei, se estava em cinco ou em sete contos... é claro que com a senhora a meu lado não me é possível somar... e ainda menos poderei multiplicar o dinheiro... diminuir há de ser fácil, não acha?... (Guarda o dinheiro que Dionísia olhava.) DIONÍSIA – O senhor é original.

CINCINATO – Dizem isso: mas eu não creio. Que formosa moça!... (Toma-lhe a mão.) Que mãozinha de cetim! (Beija-a.) DIONÍSIA – Deveras o senhor ama-me? ...

CINCINATO – Com furiosa paixão; eu, porém, sou franco e nítido: não sei alambicar finezas como o feliz Adriano... vou logo direito ao coração, e ao sentimento...

encantadora Dionísia! queres ajudar-me a devorar em poucas semanas o miolo desta carteira, e mais três dúzias de contos de réis que tenho depositados no tesouro?... é logo sim ou não para poupar emoções... sim ou não, andorinha?...

DIONÍSIA – O senhor ou brilha pela franqueza, ou perde pela zombaria.

Falemos seriamente: que pensa de mim, e como é o seu amor?...

CINCINATO – Penso que tens enganado a cinqüenta, e que contas comigo para enganar a cinqüenta e um. Eu te adoro apesar disso; mas não respondo pela constância do meu amor... fica a teu cuidado perpetuá-la.

DIONÍSIA – Mas o senhor fala ainda melhor do que canta! CINCINATO – É que conheço as claves, e canto conforme a letra, e o espírito 31 da música. Proponho-te um acordo filosófico e sentimental: tu amar-me-ás apaixonadamente enquanto eu tiver dinheiro para gastar, ou não te der o vento para outro lado; eu te adorarei, enquanto não me esfriar esta paixão eterna: em caso de arrependimento de qualquer dos dois... bons dias ou boas noites, e viva a liberdade! DIONÍSIA (Pondo-lhe a mão no ombro.) – És um anjo, meu Cincinato!...

UMA VOZ (Dentro.) – Isto é escandaloso!... (Sussurro.) CINCINATO – Aquilo não é conosco; podes tranqüilizar-te.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu jogo franco e liso... cem mil réis! CINCINATO – Aquilo sim, é comigo; franco e liso.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Aceito! CINCINATO – E tu aceitas, ladrão? DIONÍSIA – À meia-noite batemos as asas! CINCINATO – E saudades a Adriano! DIONÍSIA – Ora!... que bata a outra porta... é um tolo. Adeus! até meia-noite...

devo tomar algumas disposições... estou doida por ti. Meu Quebra-louça; conta comigo.

(Dá a mão a Cincinato e vai-se.) CENA IV CINCINATO, que acompanha DIONÍSIA até a porta, e volta coçando a cabeça, como contrariado, e DEMÉTRIO.

DEMÉTRIO – Esta casa é um covil de larápios! depenaram-me.

CINCINATO – E estão para me depenar: consola-te.

DEMÉTRIO – Acho-me em singular e doloroso embaraço...

CINCINATO – E eu!... nem fazes idéia... estou com uma corda ao pescoço...

DEMÉTRIO – Perdi quatrocentos mil réis...

CINCINATO – E eu daria oitocentos para livrar-me de ganhar certa partida...

DEMÉTRIO – Sofri indigna afronta...

CINCINATO – E eu acho-me dez mil vezes mais afrontado... tenho um pesadelo horrível...

DEMÉTRIO – Quis jogar sob palavra e torceram-me o nariz! foi um insulto!... e quando eu tinha a certeza de ir ganhar!... e quando eu tinha a certeza de ir ganhar!...

Cincinato... empresta-me duzentos mil réis? antes da ceia tos restituo.

CINCINATO – Prodígio, não me fales em dinheiro: é coisa que me irrita os nervos; olha, na primeira todos caem; na segunda, só os tolos; na terceira, só os doidos: jurei não passar contigo do segundo grau.

DEMÉTRIO – Por causa de alguns miseráveis centos de mil réis maltratas um amigo que por ti se tem comprometido em não sei quantas alhadas perigosas...

CINCINATO – Tu por mim nunca meteste prego sem estopa... tu... mas... ora esta!... que boa idéia!..

DEMÉTRIO – Empresta-me duzentos mil réis e me acharás pronto sempre a todos os sacrifícios da amizade; empresta-mos...

CINCINATO – Pois bem escuta, Prodígio: és capaz de quebrar louça hoje comigo?...

DEMÉTRIO – Sou: é experimentar.

CINCINATO – Não te empresto, dou-te já duzentos mil réis, e com eles ganha ou perde que pouco me importa; mas dez minutos antes da meia-noite a um sinal meu deixarás o jogo, receberás mais trezentos mil réis, e irás com uma bonita rapariga patuscar alguns dias fora da cidade, tendo para o resto desta noite hotel pago, e ceia a espera. Queres? 32 DEMÉTRIO – Que patifaria é essa? CINCINATO – A rapariga é de pouco mais ou menos; não há receio de intervenção policial. Os duzentos mil réis já sob compromisso de honra; (Contando o dinheiro.) os trezentos mil réis na hora aprazada... queres?...

DEMÉTRIO – Mas... se não há risco de bulha com a polícia, dinheiro e moça bonita é ouro sobre azul... eu quero...

CINCINATO – E ainda mais uma rapariga de truz e por quem andas de queixo caído...

DEMÉTRIO – Aceito sem restrições: moça e dinheiro aceito.

CINCINATO – Toma, Prodígio; (Dá-lhe o dinheiro.) verás que a estralada é ainda melhor do que imaginas... a rapariga é Dionísia... segredo! DEMÉTRIO – Oh!.. . será possível!...

CINCINATO – Facílimo: eu te explicarei tudo, e te darei as necessárias instruções... agora vamos jogar... (Indo-se.) DEMÉTRIO – É sublime!...mas explica-me...

CINCINATO – Temos tempo: vamos jogar? (Vão-se.) CENA V FÁBIO e ADRIANO, que entram.

FÁBIO – Aposto que se eu não chegasse, não deixavas Dionísia?...

ADRIANO – Hoje mesmo jurei não tornar a vê-la, e vim arrebatado cair a seus pés... esta mulher é a minha perdição... ah! se a visses e a ouvisses há pouco... é irresistível.

FÁBIO – Mas pareces aflito...

ADRIANO – Toca a hora de uma ação indigna, que repugna a minha consciência, e a que me arrasta o delírio da paixão; vou insultar publicamente minha mulher, dando a Dionísia casa e tratamento! É uma revolta contra a sociedade e contra Deus.

FÁBIO – Que puerilidade! até ontem exagerei as proporções e conseqüências do erro que vais cometer: porque era dever de amigo procurar impedi-lo; mas agora... digote a verdade; não praticas uma boa ação; o teu pecado porém é o mais comum dos pecados.

ADRIANO – E Helena?...

FÁBIO – Fará como tantas outras no seu caso: a princípio, lágrimas e desespero, logo depois, consolação nos teatros e bailes.

ADRIANO – Não! eu sinto que a minha traição será fatal a Helena! eu o sinto...

e ainda assim... Oh! basta o primeiro passo na ladeira escorregadia das paixões!...

imprudente, o homem conta demais consigo... cedendo a capricho insensato, ousa uma vez levar aos lábios a taça do vício... e a embriaguez lhe anula a vontade... deprava-lhe os sentidos... e o escravo do demônio, embalde o clamor da consciência, vai de rojo caminho de opróbrio e de condenação! FÁBIO – Eu conheço mais de cinqüenta maridos que rir-se-iam muito da tua ingenuidade! ADRIANO – Fábio! FÁBIO – Tua paixão por Dionísia é talvez um favor da Providência, porque te arrancará ao frenesi do jogo que te arruinou. Trabalharás, e, com o concurso da minha amizade, hás de reerguer o teu crédito abalado no comércio. Não torna a jogar: tens muito que despender com Dionísia...

ADRIANO – Tens razão; mas jogarei esta noite pela última vez, Meu Deus!... se 33 eu ganhasse muito hoje! FÁBIO – Adriano, cuidado! (Sussurro dentro.) ADRIANO – Pesa-me sobre o coração o depósito de seis contos de réis que amanhã não poderei restituir.

FÁBIO – Pela terceira vez te asseguro que o usurário me prometeu a espera de um mês... é negócio concluído...

ADRIANO – Meu amigo, tu me salvas... e nem pensas do que me salvas.

FÁBIO – Vou jogar... se absolutamente queres também fazê-lo, vem.

ADRIANO – Vamos... até a meia-noite... ah! se eu ganhasse muito!... (Vão-se.) UMA VOZ (Dentro.) – Eu jogo com as cartas viradas... cem mil réis na dama! CINCINATO (Dentro.) – O dote é provocador; mas eu prefiro ficar solteiro.

CENA VI DIONÍSIA e GERTRUDES DIONÍSIA – Coitado! adora-me, como um cãozinho à sua dona! se o outro fosse bonito assim!... o Cincinato é feio que espanta; mas tem a carteira tão cheia que faz gosto ver! GERTRUDES – E além da carteira tem quarenta casas de sobrado de dois andares para cima...

DIONÍSIA – Diabo do feio! Hei de ser um incêndio que lhe queimará em quarenta dias os quarenta sobrados. Há de me pagar caro o sacrifício do belo Adriano.

GERTRUDES – Esse é que é bom rapaz; já é porém um crivo de dívidas, é uma esteira velha de pobreza.

DIONÍSIA – Pois olhe mamãe, por mim não foi, comigo pouco despendeu: cinco vestidos de seda, um colar de pérolas e outro de brilhantes, dois pares de brincos, e uma flor das mesmas pedras, duas pulseiras, este relógio de ouro, um toilette completo de veludo carmesim, um leque de madrepérola, e este pince-nez... creio que não passou daí... eu o amo tanto que trago de memória os seus presentes...

UMA VOZ (Dentro.) – Cinqüenta mil réis.

CINCINATO (Dentro.) – Agora sim; eu sou dez.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Cincinato joga por fora para pescar de caniço.

CINCINATO (Dentro.) – O pior é que muitas vezes vocês me comem a isca.

GERTRUDES – Cuidado com o Quebra-louça, Dionísia. Vê como ele é ladino...

DIONÍSIA – Está destinado a viver num inferno... começarei por obrigá-lo a convidar Adriano para cear conosco três ou quatro vezes por semana...

CENA VII DIONÍSIA, GERTRUDES e BRÁULIO BRÁULIO – A hora se aproxima... os dois carros já estão à porta. Dionísia, não nos deixes por mais de um mês... eu irei fazer as pazes contigo... tu voltarás.

DIONÍSIA – Desta vez com toda a certeza; porque vou-me com um homem tão feio, que é mesmo de obrigação reduzi-lo em pouco tempo a cambista de teatro.

BRÁULIO – Sangue frio e rapidez na execução da fuga: Fábio não nos atrapalha, porque conta com o negócio, mas Adriano está com os olhos no relógio...

DIONÍSIA – Coitadinho! BRÁULIO – Dois minutos antes da meia-noite foge; acharás à porta da rua dois carros, sobe para aquele que é puxado por cavalos... olha, não te enganes.

34 DIONÍSIA – Bem: e depois? BRÁULIO – O Cincinato, levando o rosto coberto com um lenço branco que é o sinal ajustado, subirá a assentar-se a teu lado... o carro partirá, e... adeus pombinhos! feliz viagem, e boa noite.

DIONÍSIA – Com o diabo do feio!...

BRÁULIO – Que parvoíce! vai cantar, se quiseres: aposto! vamos.

GERTRUDES – Anda, afortunada rapariga! (Vai-se Bráulio para a esquerda.) DIONÍSIA (Indo-se e cantando.) Batendo a linda plumagem O amante passarinho Exala ternos queixumes Com saudades do seu ninho. (Vão-se pelo fundo.) CENA VIII CINCINATO e DEMÉTRIO – CINCINATO olha em torno cuidadoso.

DEMÉTRIO – Ora! quando o vento me soprava!... ganhei só trezentos e vinte mil réis.

CINCINATO – Tens, pois, quinhentos e vinte, e dou-te mais trezentos mil réis; levas dinheiro para oito dias de pagode rasgado: esta noite hotel ainda à minha custa, e amanhã sem falta segue com Dionísia para Petrópolis.

DEMÉTRIO – E se ela não quiser? ...

CINCINATO – Mostra-lhe a carteira e verás como ela aplaude o caso. Vai: espera na rua... o lenço branco no rosto... salta para dentro do carro, logo que Dionísia embarcar, e o mais o cocheiro sabe.

DEMÉTRIO – Esta é mesmo de Quebra-louça.

CINCINATO – Vai, feliz substituto! dou-te dinheiro e amor.

DEMÉTRIO – Hás de ver o desempenho!... adeus. (Vai-se pelo fundo.) CENA IX CINCINATO e BRÁULIO BRÁULIO – O Demétrio se retira cedo... parece que perdeu.

CINCINATO – Qual! ganhou: não faz idéia que perverso é ele! esta noite incomodou-me muito... digo-lhe que Demétrio e Dionísia se namoram... creio que os apanhei em segredinhos... e com certeza riram-se um para o outro com ar de inteligência!...

BRÁULIO – Dionísia é vaidosa e o senhor é ciumento: não faça caso disso. Ela está perdida pelo senhor; mas... é quase meia-noite: ultimemos a nossa transação particular.

CINCINATO – Os três contos de réis?... conte com eles à porta da rua, e quando Dionísia estiver dentro do carro. Sem o pássaro na gaiola não caio.

BRÁULIO – O senhor duvida da minha probidade? (Dá meia-noite.) Meianoite! CINCINATO – Um minuto para Dionísia descer a escada... e corro...

BRÁULIO – E o meu dinheiro?...

CINCINATO – À porta da rua... venha comigo...

CENA X CINCINATO, BRÁULIO e GERTRUDES 35 GERTRUDES – Dionísia foi-se...

CINCINATO – A pontualidade me enternece... vamos...

BRÁULIO – E o meu dinheiro? CINCINATO – À porta da rua, (Roda um carro.) um carro que parte... oh! vamos!... (Vão-se Cincinato e Bráulio correndo.) CENA XI GERTRUDES e ADRIANO ADRIANO – Dionísia!...

GERTRUDES – Já desceu: sem dúvida o espera; mas...

ADRIANO – Oh! (Quer correr e Gertrudes o impede.) GERTRUDES – Olhe que meu irmão correu a persegui-la... não se deite a perder.

ADRIANO – Deixe-me! ela me espera... (Partindo).

CENA XII GERTRUDES, ADRIANO, CINCINATO e BRÁULIO BRÁULIO – É uma infâmia!...

CINCINATO – Patifaria descomunal!... Dionísia fugiu com Demétrio! e o senhor... o senhor... (Em simulado furor.) ADRIANO – Dionísia! oh! Dionísia!... (Vai-se, correndo.) CENA XIII GERTRUDES, CINCINATO e BRÁULIO GERTRUDES – Minha filha!... não entendo...

BRÁULIO – Entende! você é abelha mestra! você entrou nesta pouca vergonha!... (Gertrudes fica espantada) entrou!...

CINCINATO – E eu!... atraiçoado... ameaçado no meu dinheiro... ferido no coração... o golpe foi profundo... ingrata Dionísia!... fica declarado que ela... e os senhores... firma industrial, Dionísia & Cia me assassinam... fica declarado... Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha. (Cai, fingindo desmaiar) ah!...

BRÁULIO – E ainda em cima a zombaria!... foi uma conjuração... o senhor me há de pagar!... é um estelionato!...

CENA XIV CINCINATO, GERTRUDES, BRÁULIO, CRIADO apressado.

CRIADO – Com urgência... com urgência... (Dá uma carta a Bráulio.) BRÁULIO (A um lado e Gertrudes lendo pelo ombro de Bráulio.) – “Por amor da bela Dionísia: dentro de meia hora a polícia cercará a sua casa; há denúncia de que aí está jogando um caixeiro que falsificou a firma do amo em letras que descontou na praça. Previna-se: queime este bilhete.” Inda mais esta!... a polícia!... (Corre para a direita.) GERTRUDES – Misericórdia!...

CINCINATO (Levantando-se.) – Dionísia foi presa?...

GERTRUDES – Não... não... é a polícia que vem cercar-nos a casa!...

CINCINATO – A polícia?... em casa de jogo?... a velha dormente?... oh! 36 enquanto ela pinta os cabelos, põe as anquinhas, e calça as botinas, eu toco a retirada em passo ordinário sem receio de encontro perseguidor. (Vai-se: ansiedade de Gertrudes.) CENA XV GERTRUDES, BRÁULIO, FÁBIO E JOGADORES todos em susto e desordem, falando precipitados e quase a um tempo.

VOZES – A polícia! a polícia!...

GERTRUDES – A casa já está cercada! VOZES – Tranque-se a porta! (Trancam-se as portas.) VOZES – O asilo do cidadão é inviolável.

GERTRUDES – Ouço passos na escada.

UM VELHO – Sou oficial da Ordem da Rosa e tenho honras de coronel... hão de respeitá-las...

UM JOVEM – É meu pai! é meu pai!...

UMA VOZ – Oh! que desgraça!...

VOZES – Que foi? ...

A MESMA VOZ – Um moço atirou-se da janela abaixo!...

VOZES – Infeliz!... é o caixeiro!...

OUTRAS VOZES – Fujamos pelos fundos da casa!...

BRÁULIO – Senhores!... a casa ainda não está cercada...

GRITO GERAL – Fujamos!... (Corrida geral.) FIM DO QUARTO ATO ATO V A mesma decoração do terceiro ato.

CENA I CLARIMUNDO, JOSÉ que entra, e logo CINCINATO CLARIMUNDO (Vendo José.) – Enfim! JOSÉ – O sr. Doutor já não estava em casa: deixei a carta.

CLARIMUNDO (Impaciente.) E Helena poderá esperar?...

CINCINATO (Entrando.) – Boletim da batalha de ontem...

CLARIMUNDO (A José.) – Vai-te. (A Cincinato.) Tu aqui?... e essa maldita mulher.

CINCINATO – Estamos livres dela: pensou que fugia comigo e achou-se em caminho com um substituto que arranjei do pé para a mão.

CLARIMUNDO – E Adriano? CINCINATO – Ainda não voltou?...

CLARIMUNDO – Desde ontem de manhã... o ingrato!... enquanto a esposa ameaçada talvez da morte.

CINCINATO – Dª. Helena! CLARIMUNDO – Passou horrível a noite: o médico deixou-a adormecida ao amanhecer; ela, porém, despertou uma hora depois em novo ataque nervoso, e esperem lá o doutor!... agora dormiu outra vez... embora... eu quero um médico à sua cabeceira.

CINCINATO – Em dez minutos está servido... (Tomando o chapéu.) 37 CLARIMUNDO – Merece confiança? (Para um carro.) CINCINATO – É moço; mas vale um velho sábio... um carro... e talvez o médico...

CLARIMUNDO – Que seja... vai buscar o outro... um há de ficar aqui.

CINCINATO – Vou como se fosse em velocípede. (Vai-se.) CENA II CLARIMUNDO, que acompanha Cincinato até a porta – ÚRSULA CLARIMUNDO (Ao ver Úrsula.) – Ah! minha senhora...

ÚRSULA (Entrando.) – Sr. Clarimundo. (Dá-lhe a mão) dª. Helena?... o seu médico, que também é o meu, acaba de dar-me notícias que me afligiram... e corri...

CLARIMUNDO – Que pensa ele?...

ÚRSULA – Por ora nada de positivo; porque, pelo que diz, nem pode fazer perfeito exame da doente no estado em que ela se achava..

CLARIMUNDO – É verdade... terríveis fenômenos nervosos...

ÚRSULA – E agora? como está dª. Helena? CLARIMUNDO – Dorme sossegada.

ÚRSULA – Se o permite, esperarei que ela acorde.

CLARIMUNDO – Oh! eu agradeço muito a v. ex. o interesse que toma por Helena... o dia vai ser talvez de amargurado pranto... v. ex. também há de chorar... pois que é sensível... quer ver... minha filha no horror dos seus tormentos... Adriano sobe a escada... venha... entre...

ÚRSULA – Sr. Clarimundo...

CLARIMUNDO – Por quem é... (Oferece-lhe a mão.) Desejo ficar só com Adriano.

CENA III CLARIMUNDO, que conduz Úrsula até à porta e volta severo de braços cruzados – ADRIANO pálido e desfigurado.

ADRIANO – Sr. Clarimundo... (Silêncio de Clarimundo.) foi-me de martírios a noite... (Silêncio.) tenho sofrido muito... (Silêncio.) porque me olha assim?... poupeme...

(Silêncio.) ah sr. Clarimundo... (Clarimundo vai fechar e tira a chave da porta do interior) Por que fecha essa porta?...

CLARIMUNDO – Ontem um homem que eu supunha honrado, e a quem ofereci o perdão de vergonhosos desatinos, prometeu-me solenemente não tornar a jogar, e ser digno de sua esposa; e ontem mesmo ele jogou, e mentiu à fidelidade conjugal, à honestidade, e ao brio: como é que devo hoje qualificar esse homem?...

ADRIANO – Sr. Clarimundo! v. s. me insulta!...

CLARIMUNDO – Fale baixo...

ADRIANO – Abusa do respeito talvez excessivo...

CLARIMUNDO – Desgraçado! Helena está em perigo de morte, e aos gritos do algoz.

ADRIANO (Correndo à porta.) – Helena!... (Volta.) a chave daquela porta!... a chave!...

CLARIMUNDO – Jogador desenfreado e vicioso, deixa que morra em paz a tua vítima antes de sentir a fome e o horror da miséria a que a reduziste! amante da mundanaria: adúltero ostentoso, o teu lugar não é mais ao lado da honestíssima esposa que ultrajaste, é no lodo do lupanar e nas orgias da devassidão!...

38 ADRIANO – Oh!... é muito!... é muito!... mas... a chave daquela porta! eu quero ver Helena...

CLARIMUNDO – De joelhos, réprobo da sociedade e de Deus! de joelhos! e verte lágrimas que te queimem tanto as faces, e rompe em gemidos, que te rasguem tanto o peito, que possam merecer o perdão da tua ignomínia!...

ADRIANO – Sr. Clarimundo! é demais!... quaisquer que sejam os meus erros...

as minhas loucuras, só meu pai poderia impunemente injuriar-me assim... proíbo-lhe que me fale desse modo! CLARIMUNDO – Teu pai!... teu pai se envergonharia de tal filho... teu pai te amaldi... talvez te amaldiçoasse... se eu fosse teu pai...

ADRIANO – Não! não!... meu pai não me falaria tão cruelmente!... meu pai se arrependeria de me haver deixado vinte e seis anos no deserto do desprezo e sem a sua bênção!... meu pai encontrando-me envilecido, culpado, se faria meu juiz; mas só para absolver-me num grito do coração!...

CLARIMUNDO – Desgraçado!... e tu... (Em crescente comoção.) ADRIANO – Não! não!... meu pai não seria execrador implacável; meu pai sentiria no seu seio os tormentos que dilaceram o seio de seu filho!... meu pai, revoltado contra mim, no ímpeto de cólera justíssima levantaria a mão para amaldiçoar-me; mas a sua mão descendo sobre a minha cabeça, faria o sinal de bênção...

CLARIMUNDO – Adriano!... ( Vivíssima comoção.) ADRIANO – Não! não! meu pai... ah! para que falou de pai ao enjeitado... ao proscrito da família, ao inocente condenado no ventre materno?... se eu tivesse meu pai! Oh!... meu pai não enjeitaria segunda vez o infeliz que não tem culpa de ter nascido!...

CLARIMUNDO – Adriano!... Adriano!...

ADRIANO – Não! não! não! meu pai, vendo-me na maior desgraça, na aflição mais despedaçadora, meu pai... oh!... meu pai não me amaldiçoaria, meu pai me estenderia os braços, me diria perdão!... choraria comigo... meu pai, que sem dúvida amou minha mãe, não me negaria a chave daquela porta... (Chorando.) meu pai...

CLARIMUNDO (Chorando também.) – Mas... eu sou teu pai!... meu filho!... eu te perdôo!...meu filho! ADRIANO – Oh!... oh!... meu pai!... (Cai de joelhos: abraçam-se.) CLARIMUNDO – Adriano!... meu filho!... meu filho!...

CINCINATO (Dentro.) – Eu e o meu doutor... (Clarimundo e Adriano enxugam as lágrimas, etc.) CENA IV CLARIMUNDO, ADRIANO, CINCINATO e o DR. GONÇALVES CINCINATO – O dr. Gonçalves...

CLARIMUNDO e ADRIANO – Sr. doutor...

GONÇALVES – Meus senhores... estou às ordens...

CLARIMUNDO – A nossa doente dorme depois de longo sofrer: teve esta noite vômitos, síncopes, delírio, e ataques nervosos que nos alvoroçaram; o sr. doutor verá o que receitou e lhe fez aplicar o seu colega assistente; nós, porém, queremos um médico, que vele ao pé da nossa querida Helena.

GONÇALVES – Esperarei junto dela pelo meu colega. O sono, sendo tranqüilo e reparador, é de bom agouro; mas também é em certos casos muito conveniente observar o sono.

CLARIMUNDO – Venha, sr. doutor; conte-nos seus raciocínios com a mais forte emoção moral... tenha a bondade de entrar... (A Adriano que se adianta.) Fica, 39 Adriano, eu to peço. (Vai-se com Gonçalves.) CENA V ADRIANO e CINCINATO ADRIANO – Vês?... eu sou um miserável condenado!... minha mulher está mal e me fecham a porta do seu quarto... isto quer dizer que eu fui o miasma da infecção...

que eu sou o assassino de Helena!.

CINCINATO – Tem paciência e espera: nas senhoras os nervos são revolucionários que fazem muito fumo com pouco fogo; cá por mim não te proibia a entrada na câmara de Helena; pelo contrário, para ressuscitar a moribunda receitava um abraço e um beijo do marido.

ADRIANO – Cincinato! (Vai a porta e volta com aflição.) CINCINATO – Falo sério; desde que se falou em fenômenos nervosos, fiquei mais esperançoso. Deus nos conservará dª. Helena... e com tanto que te cures também da...

ADRIANO – Basta...

CENA VI ADRIANO, CINCINATO e CLARIMUNDO CLARIMUNDO – Helena continua a dormir tranqüilamente; o doutor ficou à sua cabeceira, e exige que esperes o seu chamado para te mostrares a tua mulher.

ADRIANO – E que julga ele? CLARIMUNDO – Parece animado: observando o sono, a respiração e a fisionomia de Helena, mostrou-se contente...

ADRIANO – Oh! que ela viva!... é de sobra para meu castigo o que estou sofrendo; porque é castigo, é punição que Deus me inflige... (Batem palmas.) pode entrar.

CENA VII ADRIANO,CINCINATO, CLARIMUNDO e VENCESLAU.

ADRIANO – Ah! VENCESLAU – Criado muito humilde de v. ex.

CLARIMUNDO (A Cincinato.) – Quem é este maltrapilho? CINCINATO (A Clarimundo.) – Um ratazana... usurário petrificado...

VENCESLAU (A Adriano.) – Criado muito humilde que vem receber as ordens de v.ex. ... como não o encontrei no escritório...

ADRIANO – Desculpe; o meu amigo Fábio assegurou-me que se tinha entendido com o senhor sobre o nosso negócio...

VENCESLAU – O sr. Fábio nem me falou, nem me apareceu, e com a devida vênia, não havia de que falar; porque o prazo é fatal.

ADRIANO (Perturbado.) – Fábio!... é impossível!...

VENCESLAU – É tão possível, como é certo que o prazo fatal... chegou... e...

ADRIANO – Senhor... eu pensava... (Agitadíssimo.) tenha a bondade de acompanhar-me... (Indo.) VENCESLAU – Pois não! eu sou o mais humilde criado de v. ex.... (Indo.) CLARIMUNDO – Para que segredos inúteis? ... (A Venceslau.) senhor...

senhor...

40 VENCESLAU – Venceslau Inocêncio da Caridade para servir a v. ex.

CLARIMUNDO – Sr. Venceslau, o sr. Adriano não pode atender hoje a negócio algum... tem a esposa entre a vida e a morte!...

VENCESLAU – Que desgraça! juro que sinto minto... mas o prazo é fatal.

CLARIMUNDO – E quem lhe pede que sinta ou não sinta? (Consulta o relógio.) Ao meio-dia em ponto pode ir no escritório do sr. Adriano levantar o seu depósito de seis contos de réis. (Confusão de Adriano.) VENCESLAU – Humilde criado de v. ex.... como o prazo era fatal... ah! ah! ah! (Rindo.) eu não desconfiava... mas nos casos em que o prazo é fatal... humilde criado de v. ex.... (Vai-se.) CLARIMUNDO – Esperem-me ambos. (Entra no gabinete.) CENA VIII ADRIANO e CINCINATO CINCINATO – Coragem! o maior perigo vai passar...

ADRIANO – Oh!... e como!... este depósito... eu não tenho dinheiro...

CINCINATO – Tinha-o eu... não para o jogo, nem para Dionísia... tinha-o eu, e te esquecias de mim; mas o sr. Clarimundo não está pobre... é rico, e isso é muito melhor para nós ambos...

ADRIANO – Rico!... e salva-me!... (Silêncio.) mas... se não fosse ele...

Cincinato! há seis meses eu era o mais feliz dos esposos e o meu crédito igualava à minha probidade; vida serena em casa, estima geral no público, fortuna próspera abençoavam a minha honra, o meu amor e o meu trabalho: oh!... porque não morri há seis meses!...

CINCINATO – Para dª. Helena não ficar viúva... em toda esta meada eu sinto a mão de Deus sobre a cabeça do anjo.

ADRIANO – O jogo e uma mulher perdida, destruíram em breves semanas, como dois incêndios, a minha fortuna, a minha honra e mancharam o meu amor... e pelo jogo, que é vício aviltante, e por essa mulher, que todos podem comprar, hoje um usurário me faria recolher à prisão e marcar na minha fronte o selo da maior ignomínia; porque hoje ele poderia ter-me chamado... estelionatário... ladrão... Oh!... eu começo a pressentir que estou salvo; mas a vergonha e o opróbrio estão aqui! (Aponta o coração.) na consciência algoz.

CENA IX ADRIANO, CINCINATO e CLARIMUNDO CLARIMUNDO (Dando um papel a Adriano.) – Entrega esta carta de ordem à casa comercial a que é dirigida, e que a espera desde ontem: em meia hora no teu escritório, em uma aqui. Se tens a desgraça de dever a Fábio, manda imediatamente pagar-lhe: Cincinato, acompanha-o e volta com ele. Vai... apresenta-te... (A Adriano.) então?... vai! (Adriano ajoelha-se.) Que é isto? ...

ADRIANO (Trêmulo e comovido.) – Helena... que eu não vi... (Soluçando.) CINCINATO – Ele tem razão!... (Enternecido.) CLARIMUNDO (Comovido.) – Vem... um instante só... da porta do quarto...

(Leva-o pela mão; e logo depois volta, trazendo-lhe um pouco à força.) CINCINATO (Comovido.) – Querem atirar-me no sentimental... eu protesto.

CLARIMUNDO (Abraçando Adriano.) – Vai com Deus!... (Cincinato vai-se, levando Adriano.) 41 CENA X CLARIMUNDO e logo JOSÉ CLARIMUNDO (Acompanha os dois até à porta; enxuga as lágrimas; senta-se, parece sofrer; levanta-se, vai à porta do interior e chama com voz abafada.) – José! (Entra José.) Dize à sra. d. Úrsula que eu lhe peço o favor de dar-me uma palavra. (Vaise José; Clarimundo vai trancar a porta de entrada e senta-se até que Úrsula entra.) CENA XI CLARIMUNDO e ÚRSULA ÚRSULA – Aqui estou.

CLARIMUNDO – E Helena dorme ainda?...

ÚRSULA – Dorme: deixei a criada no quarto para que ela, no caso de despertar, não se assuste, vendo-se a sós com o doutor que lhe é desconhecido. (Clarimundo vai trancar a porta do interior) Porque tranca a porta?...

CLARIMUNDO – Para que ninguém perturbe a nossa conversação. v. ex. fazme a graça de sentar-se? (Aproximando sua cadeira.) ÚRSULA (Sentando-se.) – E o senhor? CLARIMUNDO – Ficarei de pé.

ÚRSULA – O senhor me confunde...

CLARIMUNDO – Confundi-la-ei talvez. O que me trouxe do Rio da Prata, minha senhora, foi o cuidado da sorte de Helena e de Adriano; a este vim achar arruinado pelo jogo e pela ligação com uma mulher corrupta; àquela encontrei resistindo nobremente a um plano infame de sedução e martirizada pelo conhecimento da infidelidade do marido. É v. ex. quem me pode explicar completamente estes fatos.

ÚRSULA – É uma inquirição! com que direito?...

CLARIMUNDO – Com o direito do passado que a acusa nas circunstâncias do presente! v. ex. não há de matar impune uma virtuosa esposa.

ÚRSULA – Senhor!... (Levantando-se).

CLARIMUNDO – Há vinte e seis anos v. ex., que então contava com dezessete, casou (Com abalo.) com um velho... miserável milionário... de quem enviuvou dois anos depois, herdando-lhe toda a fortuna...

ÚRSULA – Meus pais pobríssimos me impuseram esse sacrifício... sabe-o!...

CLARIMUNDO – Não me importa isso! mas v. ex, viúva, bela e rica, apaixonou-se pelo mais nobre e distinto cavalheiro, por Maurício de Araújo, que teria sido seu marido, se não fosse eu, que o arredei desse enlace, e que o fiz desposar a linda, a fiel e honestíssima Helena...

ÚRSULA – Sr. Clarimundo! CLARIMUNDO – Daí dois ódios... a mim, ódio à rival preferida! v. ex. não o pode negar, perseguiu Helena com a intriga, com o aleive, procurou nodoá-la, atentou contra a mais pura amizade e chegou ao ponto de denunciar-me a Maurício como o amante de sua mulher...

ÚRSULA – Oh!... eu o acreditei e tinha raiva, porque eu me supunha duas vezes ofendida... duas vezes... e era demais para uma mulher que havia sido amada! CLARIMUNDO – E agora?... eu fui desde vinte anos o tutor de Helena, filha da pobre Helena que morreu como seu nobilíssimo esposo há vinte anos; e agora? que explica esse ódio de além túmulo?... por que agora é v. ex. que se finge amiga de Helena, e é seu irmão que perverte Adriano, e que se empenha em seduzir-lhe a esposa?... por que agora é v. ex. que excita aos ciúmes da infeliz filha da sua antiga 42 rival, e é o seu dinheiro, minha senhora que paga as traições de Fábio, e o envenenamento moral de Adriano?... Úrsula! és tu, Úrsula, que estás assassinando Helena!...

ÚRSULA – Não! por Deus, eu juro que não! odiei Helena, a mãe, eu amo Helena, a filha... sr. Clarimundo, é verdade: Fábio me arrastou a esta casa... me comprometeu... me expôs a injustíssimas suspeitas... oh! tudo mais é falso... dou dinheiro a meu irmão, porque é ele só o único amor que me deixaram no mundo! mas eu não atraiçoei Helena! é falso!...

CLARIMUNDO – E Adriano... o pervertido...

ÚRSULA – Não sei... não sei... mas... Adriano... Adriano...

CLARIMUNDO – Verdade, Úrsula!...

ÚRSULA – É seu protegido... talvez seu filho... eu queria detestá-lo...e não posso! CLARIMUNDO – Úrsula!... tu foste má... tu és... tu mentes, e Deus te castiga, Úrsula! antes do teu casamento nós nos amamos.

ÚRSULA – Clarimundo! eu quero sair... abre-me a porta...

CLARIMUNDO – Houve em nosso amor uma hora de delírio...

ÚRSULA – Oh! eu quero sair.. . abra-me a porta, ou grito! CLARIMUNDO – O fruto do amor criminoso que se escondeu ao mundo, me foi confiado... depois a traição do casamento com a riqueza do velho milionário fulminou o meu amor... o que eu senti então foi ódio e raiva... Úrsula! eu te supus mãe desnaturada, e vinguei-me!... recebeste o anúncio da morte de nosso filho... mas...

ÚRSULA – E... então?... (Ansiosa.) CLARIMUNDO – Meu filho... não... não... tu foste má... tu és má... (Indo abrir a porta.) podes sair...

ÚRSULA – Oh! não!... fala!... não quero sair... acaba! CLARIMUNDO – Pois bem... eu menti... nosso filho vive!...

ÚRSULA – Meu filho!...

CLARIMUNDO – Castigo de Deus! tu lhe cavaste a perdição... procuraste perverter-lhe a esposa... armaste contra ele com o teu dinheiro a perversidade de teu irmão...

ÚRSULA – Adriano!... meu filho!...

CLARIMUNDO – Castigo de Deus! é completa a ruína de nosso filho, e hoje, atraiçoado por Fábio, perseguido pelos credores, já suspeito de um crime... a prisão... a desonra.

ÚRSULA – Oh! é falso! é impossível! inda há pouco ele estava aqui...

CLARIMUNDO – Sim e foi escapar à perseguição que o ameaçava aqui mesmo...

ÚRSULA – E tu que és seu pai... e tu?...

CLARIMUNDO – Não te disseram que estou pobre? ...

ÚRSULA – Oh! tanto melhor! eu ainda sou rica... eu somente o salvarei! onde está meu filho?... onde está?...

CLARIMUNDO – Úrsula! os compromissos são enormes...

ÚRSULA – Não excederão ao que possuo... e Adriano é meu filho... é... eu o sinto no coração... e tu não sabes talvez... mas tenho um sinal para reconhecê-lo... onde está ele?... depressa... eu quero ter a dita de salvar meu filho!...

CLARIMUNDO – Úrsula!... serás capaz de tão grande sacrifício?...

ÚRSULA – Tudo... tudo... tudo... e não é sacrifício... é glória... depressa...

CLARIMUNDO – Deus negou-te essa consolação: sou mais rico do que tu, Adriano está salvo.

43 ÚRSULA – Ah!... embora!... abençoado sejas!... abençoado em nome de meu filho...

ADRIANO (Batendo devagar) – José... abre, José! ÚRSULA (Querendo correr.) – Meu...

CLARIMUNDO (Detendo-a.) – Contenha-se: Adriano sabe já que sou seu pai, mas deve ignorar quem é sua mãe, até que Helena esteja livre de perigo. (Em meia voz.) ÚRSULA (Abatendo-se.) – Ah! ADRIANO (Batendo devagar) – José... José...

CLARIMUNDO – É preciso mesmo que ele a não encontre ao lado de Helena: profundamente ressentido da mais vil perfídia de Fábio, volta sem dúvida suspeitoso...

desabrido... e seria cruel para todos nós... e sobretudo para ti... Úrsula.

ÚRSULA – Meu Deus!... meu filho me aborrece...

ADRIANO (Dentro.) – Quem fala aí?... José! abre.

CLARIMUNDO – Confia em mim, Úrsula: entra neste gabinete e espera-me.

ÚRSULA – Tenha compaixão da mãe de seu filho. (Entra no gabinete.) CENA XII CLARIMUNDO, que abre a porta, e ADRIANO ADRIANO – Meu pai! e Helena? CLARIMUNDO – Não há novidade.

ADRIANO – Ah!... (Respirando.) mas quando cheguei à porta do quarto antes de sair, estava lá dª. Úrsula... já se retirou?...

CLARIMUNDO (Afastando-o do gabinete.) – Fala baixo: porque o perguntas?...

ADRIANO – Eu não quero a irmã de Fábio junto de minha mulher.

CLARIMUNDO – Mais baixo: que sabes de dª. Úrsula? ADRIANO – Acabo de abrir os olhos... fui indignamente comprometido e atraiçoado por Fábio; não creio que essa mulher seja alheia...

CLARIMUNDO – Simples desconfiança... eu também desconfiei; mas reconheci que fui injusto. Dª. Úrsula está inocente; deves respeitá-la.

ADRIANO – É irmã de Fábio: rogar-lhe-ei o favor...

CLARIMUNDO – Adriano... quero que ames e veneres essa senhora...

ADRIANO – Oh! mas é impossível!... meu pai... ela deve sair da minha casa.

CLARIMUNDO – Silêncio! És capaz de dominar-te para obedecer-me?...

ADRIANO – Meu pai...

CLARIMUNDO – Tu não podes fechar a porta de tua casa a dª. Úrsula... deves respeitá-la e amá-la, porque... silêncio... domina-te... ela é tua mãe... (Em voz muito baixa.) ADRIANO – Oh!... minha... (Grande comoção.) CLARIMUNDO – Silêncio! Há vinte e seis anos que eu a fiz acreditar na tua morte... agora escuta: as emoções do reconhecimento da mãe e do filho poderiam ser fatais a Helena; tu, Adriano, domina-te: filho do amor misterioso, não podes ser o primeiro a romper o segredo do teu nascimento, envergonhando tua mãe e abatendo-a na sociedade. Espera que Úrsula fale... é o seu dever de mãe, e o seu direito de senhora....

ADRIANO (Com esforço.) – Obedecerei... ela porém... (Com doçura.) minha mãe já sabe... que eu sou seu filho?...

CLARIMUNDO (Pronto.) – Não... e portanto bem vês que não podes... oh! sinto rumor lá dentro...

ADRIANO – Eu vou..

44 CLARIMUNDO – Espera a ordem do médico: o rumor não é de aflição... foi Helena que despertou... eu volto para levar-te. (Vai-se.) ADRIANO – Meu Deus...

CENA XIII ADRIANO e logo ÚRSULA ADRIANO (Aflito segue Clarimundo até à porta e volta a um sinal deste, passeia agitado; Úrsula sai, hesitando, do gabinete; silêncio de ambos... luta íntima...

Úrsula quer ir-se e volta... olham-se, tremem, ânsia de ambos: não podem mais conterse, atiram-se um ao outro.) ÚRSULA (Grito abafado.) – Meu filho!...

ADRIANO (O mesmo.) – Minha mãe!... (Abraçam-se.) ÚRSULA (Abre a camisa de Adriano e examina o peito esquerdo.) – Oh!... é meu filho! é meu filho!... (Abraçam-se: pranto de ambos.) CENA XIV ADRIANO, ÚRSULA e CLARIMUNDO CLARIMUNDO – Helena despertou... o doutor está rindo-se... ah! e os senhores aqui fora faltavam-me ambos à palavra!...

ADRIANO – Que felicidade meu pai! ÚRSULA – Que seja completa! oh Clarimundo! dá-me o pai de meu filho para que eu o apresente a todos! CENA XV ADRIANO, ÚRSULA, CLARIMUNDO, DR. GONÇALVES e logo HELENA, pálida, cabelos soltos e vestida de branco.

GONÇALVES – Parabéns! a moléstia revelou doce glória! a doente é uma esposa abençoada por Deus; e o marido, se foi leviano como dizem, tem o perdão pela dita, e vai em breves meses ser preso por mais um laço!...

ADRIANO (Correndo.) – Oh, minha Helena!... minha Helena!...

HELENA (Aparecendo à porta e abrindo os braços.) – Adriano!... meu marido!...

ADRIANO (De joelhos.) – Anjo de amor! de perdão! anjo de bem-aventurança na terra! CENA XVI ADRIANO, ÚRSULA, CLARIMUNDO, DR. GONÇALVES, HELENA e CINCINATO CINCINATO – Tudo feito! perdão, minhas senhoras... mas eu que por aqui arranjaram-se as coisas ainda melhor, do que eu as arranjei lá fora!...

CLARIMUNDO – O doutor fica sendo um amigo da família; Cincinato já o é; saibam pois o que em breve saberá a sociedade: Minha Helena! abraça o pai e a mãe de teu marido!...

HELENA – Ah! como sou feliz!... (Abraçam-se os quatro.) CINCINATO – Por esta não esperava eu!... mas eis aí como pode ter sua poesia um casamento de velhos... que disse eu?... perdão minha senhora, isto é só com o noivo! 45 ÚRSULA (Apresentando Helena e Adriano.) – Meu filho! adora-a!... Helena é santa... (Adriano abraça Helena.) CINCINATO – Se o é!... (Comovido.) Este milagre Deus fez só por ela!...

(Soluçando.) Estou fora do meu elemento... declaro-me enternecido e fica declarado: Cincinato Quebra-louça... assinado... por cima de estampilha.

FIM DO QUINTO ATO E DA COMÉDIA

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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