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Remissão de Pecados

Joaquim Manuel de Macedo

TEATRO S. LUIS

Anda atualmente em cena neste teatro uma comédia em 5 atos do sr. dr. Joaquim Manuel de Macedo, a Remissão de pecados. Apesar da designação de comédia, segundo a idéia que geralmente se liga à palavra, não é esta uma composição ligeira principalmente destinada a recrear e divertir, ocupando-se ao mesmo tempo mais ou menos com a reforma dos costumes. A ação é toda dramática, envolvendo paixões fortes e situações violentas.

Remissão de Pecados escreveu o autor no alto da sua comédia, e com efeito encontramos aqui diversos pecados e pecadores remitidos ou perdoados uns pelos outros. Adriano consome no jogo a fortuna que lhe trouxera sua mulher, e quase esquece esta, que é um anjo de virtude e candura, pela louca paixão que lhe inspira uma criatura indigna. Destes dois feíssimos pecados e seus estragos é ele não sabemos se remitido ou remido pelas exortações e dinheiro de Clarimundo. Esta mesma remissão dá ocasião a que Clarimundo, oculto pai de Adriano, reconheça o filho e case com Úrsula, de quem o houvera, oferecendo-nos o quadro de mais dois pecadores perdoados. Apenas se poderia dizer que a remissão de tão grandes pecados é um tanto facilmente obtida.

Escrita no estilo brilhante e muitas vezes sarcástico do sr. dr. Macedo, a comédia abunda em bons ditos. Tem vários lances que impressionam fortemente, e delineadas por mão experimentada, as cenas sucedem-se naturalmente, mantendo vivo o interesse do espectador.

O primeiro ato passa-se numa casa de jogo, cujos tenebrosos mistérios são desvendados em toda a sua hediondez. É um belo quadro de costumes, em que se patenteiam muitas chagas sociais, entre as quais principiamos a perceber o fio da ação do drama, Fábio, no intuito de seduzir Helena, esposa de Adriano, já precipitara este na voragem do jogo, e agora forma um pacto infame com o dono da espelunca, Bráulio, que deve fazer com que Dionísia, uma rapariga perdida, que ele faz passar por sua sobrinha, induza Adriano, já apaixonado por ela, a raptá-la, a fim de que o escândalo dado pelo marido aplane o caminho ao sedutor da esposa.

O segundo ato passa-se no salão do Teatro Lírico, cena excelentemente pintada, e que não pode dar senão a melhor idéia do novo pintor do teatro, o sr. Rocha. A vista foi muito aplaudida, e com razão; a perspectiva é de uma ilusão perfeita, e se em alguma coisa peca é por excesso, sendo talvez demasiado o fundo. Aqui Clarimundo, que fora o tutor de Helena, começa a perceber, apesar dos protestos desta, que no casal nem tudo é felicidade. A pobre esposa, resignada e calada, sofre muito, e a vista de Dionísia vem aumentar-lhe o martírio.

Passamos para a casa de Adriano, onde temos uma bela cena entre ele e Helena, que não se queixa de ver esbanjados todos os seus haveres, mas só lamenta ter perdido o amor do esposo. Clarimundo obriga Adriano a prometer-lhe que se regenerará, refazendo pelo trabalho a sua fortuna, e restaurando a felicidade doméstica pelo esquecimento de Dionísia. Não se fiando, porém, muito nas promessas do pecador, ele exige de Cincinato, caráter estouvado, mas franco e leal, que faça desaparecer a rapariga levando-a consigo para qualquer parte.

Para execução deste plano voltamos no 4º ato à casa de jogo, onde o venal Bráulio e a não menos venal Dionísia aceitam sem dificuldade a proposta de Cincinato, que oferece maior quantia do que Fábio prometera. No momento da fuga ainda 2 Cincinato consegue fazer-se substituir por um amigo condescendente, livrando-se assim de um trambolho, e pregando uma peça a Bráulio, que perde o direito ao prêmio, visto quem devera pagar-lho dar-se por traído.

O fim, porém, está alcançado, e removida a serpente, Adriano no 5º ato volta aos braços da esposa. Clarimundo paga-lhe as dívidas, reconhece-o por filho, casa com Úrsula, como dissemos, e desce o pano, deixando todos felizes e contentes.

Expondo assim rápida e sucintamente o entrecho, é claro que não podíamos reproduzir todas as belezas do drama, derramadas pelo diálogo e pelo encadeamento das cenas. O mesmo desenlace assim exposto poderia talvez não parecer inteiramente satisfatório, mas para bem julgar um drama é mister vê-lo representar, quando é para isso que foi escrito. A representação pode dar-lhe um brilho e um encanto, de que somente com a própria vista se faz idéia. A indiferença do público é o maior inimigo com que lutam as letras; um drama firmado por um nome conhecido deveria despertar em todos a curiosidade de vê-lo ao menos uma vez; ficando então ao gosto de cada um voltar ou não, conforme a composição lhe houvesse agradado.

Cuidadosamente ensaiada e posta em cena com esmero e capricho, a Remissão de pecados foi representada de modo que não pode merecer senão elogios, traduzidos por nós em palavras como o foram pelo público em palmas à cena.

O sr. Furtado Coelho no papel de Cincinato criou um tipo delicioso, mistura feliz de estouvamento com as mais nobres qualidades do coração. Os srs. Amoedo (Adriano), Guilherme (Clarimundo), Paiva (Fábio), Gusmão (Bráulio), e as sras. Leolinda (Helena), Rosinha (Úrsula), e Virgínia (Dionísia) sustentaram bem as suas partes, formando um conjunto que agradou a todos. O sr. Graça no papel de usurário apenas estaria uns cinco minutos em cena, mas foi quanto bastou para arrancar aplausos gerais, tornando notável uma das personagens mais insignificantes do drama.

O autor, assistindo à segunda representação, foi vitoriado pelo público e agradeceu do seu camarote estas demonstrações não só de simpatia, mas também de merecida homenagem ao talento.

PERSONAGENS HELENA............................................................................................Ismênia ÚRSULA...........................................................................................Rosinha DIONÍSIA..........................................................................................Virgínia GERTRUDES....................................................................................

ADRIANO.........................................................................................Amoedo CLARIMUNDO............................................................................Guilherme CINCINATO.......................................................................................Furtado FÁBIO....................................................................................................Paiva BRÁULIO..........................................................................................Gusmão DEMÉTRIO.......................................................................................Pinheiro VENCESLAU........................................................................................Graça O DR.GONÇALVES..............................................................................Lima LOURENÇO.....................................................................................Caminha SILVEIRA..............................................................................................Costa D.DONALDO....................................................................................Timóteo José........................................................................................................Torres Criados da casa de jogo – Jogadores – Senhoras e Cavalheiros.

3 A ação se passa na cidade do Rio de Janeiro.

Época a atualidade.

ATO I Sala muito modesta; mesa com candeeiro a querosene; sofá; porta à esquerda, abrindo para aposentos interiores; outra à direita, comunicando com a sala de jogo; portas ao fundo, que abrem para a sala principal que, apenas se vê e onde há piano no qual se ouve tocar e cantar.

CENA I BRÁULIO, vindo da direita, FÁBIO, entrando pelo fundo.

FÁBIO (Para a sala do fundo.) – Cante muito; a sua voz dá-me felicidade (A Bráulio.) Como vai a sessão?... (Conversam ambos à meia voz.) BRÁULIO – Ameaçando tempestade: as cartas arranjaram-se e d. Donaldo na primeira tripa fez maravilhas: a segunda tripa começou agora.

FÁBIO – As cartas falhas são pois quatro, seis e o rei...

BRÁULIO – E nos baralhos novos, se os pedirem, passam a ser três, dama, e, principalmente, sete e às.

FÁBIO – Sei: e além de mim e do capitão há mais feitos?...

BRÁULIO – Nenhum: não convém estender a confiança mesmo entre os cavalheiros honrados, alguns têm o defeito de dar à língua por gabolice.

FÁBIO – Creio que me demorei bastante para excluir qualquer idéia de conluio; antes, porém, de ir jogar, urge dizer-lhe duas palavras: Adriano...

BRÁULIO – Não chegou até agora...

FÁBIO – Pouco importa: não é mais o jogo, é sua sobrinha que o deve escravizar, e a ocasião para a última cartada é agora; amanhã, ou ao mais tardar depois de amanhã, Dionísia se fará levar daqui por Adriano; depois de amanhã ou nunca.

BRÁULIO – O prazo é muito curto... mas...

FÁBIO – Basta que Dionísia queira e exija: Adriano já não se governa; o senhor sabe o que tem a ganhar; depois de amanhã ou nunca... disponha sua sobrinha... se quiser logo conversaremos; agora tenho pressa. (Vai-se pela direita.) CENA II BRÁULIO e logo GERTRUDES BRÁULIO – Gertrudes! (Entra Gertrudes.) é preciso que Dionísia hoje mesmo obrigue Adriano a estar pronto para levá-la consigo depois de amanhã à noite... e veremos até lá.

GERTRUDES – É coisa feita: o pobre rapaz está pelo beiço... então o senhor Fábio...

BRÁULIO – Acaba de dar-me as suas ordens em tom de meu amo... digo-te que me aborrece muito o ar que ele toma comigo; mas o diabo paga bem.

GERTRUDES – Arranjemos a nossa vida: durma eu quente e ria-se a gente.

BRÁULIO – Rir?... outros talvez podem rir: ele não; confesso... o nosso 4 procedimento... não é bonito; mas o de Fábio é mil vezes pior.

GERTRUDES – E para um homem limpo... de boa sociedade...

BRÁULIO – É de arrepiar os cabelos! arrastou o outro para o jogo, preparou-lhe arteiramente a paixão por Dionísia; fê-lo estragar a fortuna, agora vai manchá-lo com um escândalo público, e apanhando a mísera esposa um abandono, conseguirá talvez seduzi-la!... e é um homem destes que me fala com tanta altivez! GERTRUDES – Mas se ele paga bem...

BRÁULIO – Ele? com o dinheiro da irmã... e que me importa?... o certo é que paga; eis o essencial; o mundo é assim... o sr. Fábio faz dessas, e ainda mais, está lá dentro passando a perna a uma dúzia de jogadores paios, e ganhando de sociedade comigo, que arranjei as cartas, e amanhã há de chamar-me miserável e mesmo canalha, e meia capital do Império o festejará como homem de bem e nobre cavalheiro!... o mundo é assim: arranjemos pois a nossa vida; viva o dinheiro, venha ele como vier; anda, vai pôr Dionísia de sobreaviso... ainda...

GERTRUDES – E já, que aí chega o maldito Quebra-louça: parece que perdeu no jogo... bem feito! ( Vai-se pelo fundo.) CENA III BRÁULIO e CINCINATO, que sai da direita, assoviando.

BRÁULIO – Deu o basta, sr. Cincinato?...

CINCINATO – Questão duvidosa; mas com certeza fico para ceia: faça de conta que é pausa de suspensão; palpite de refrescar; em honra, porém, de meu nome romano, quando deponho a ditadura, pego logo na charrua: acabei de depor o lasquenet, quero uma garrafa de cerveja.

BRÁULIO – Vou fazê-lo servir... (Indo-se e volta à voz de Cincinato.) CINCINATO – Um momento: sou inimigo das falsificações de nacionalidades; temos tantas latas de sardinhas de Nantes de Jurujuba, tantas caixas de charutos de Havana da Bahia, tantas maravilhas de fora arranjadas cá dentro, como garrafas de cerveja Bass de Liverpool da Rua do Riachuelo, e de Munich mesmo da Baviera da Guarda-Velha; ora, em matéria de cerveja suspendi as garantias do meu patriotismo.

Quero uma garrafa de cerveja de Liverpool da Inglaterra.

BRÁULIO – Legítima! na nossa casa não há contrafações.

CINCINATO – Olhe que também não ataco a indústria dos letreiros que é a arte de vender gato por lebre: qual é mesmo o letreiro da sua casa?... “Casa de penhores de objetos de prata, ouro e brilhantes” e aqui há contrafações: atesto na fé do meu título; Cincinato Quebra-louça, assinado por cima de estampilha. Venha a cerveja.

BRÁULIO – Já podia estar servido. (Indo-se.) sr. Demétrio! como passou?...

(Cumprimenta e vai-se pela esquerda.) CENA IV CINCINATO e DEMÉTRIO, que entra pelo fundo DEMÉTRIO (Cumprimenta.) – Amável Cincinato...

CINCINATO – Adeus, prodígio.

DEMÉTRIO – Que é isso de prodígio? ... (Senta-se à esquerda.) CINCINATO – Vocês não me chamam Quebra-louça?... pela mesma regra eu te chamarei prodígio, e o és, palavra de honra: figurino de Paris no vestir; muçulmano no amor das ninfas mais caras; gastrônomo a romano da decadência; pagodista e jogador, como herdeiro do conde de Monte-Cristo, ofício, benefício, ou fonte de rendimentos 5 não constam do Almanaque de Laemmert: és prodígio ou não és?... (Entra um criado trazendo cerveja.) DEMÉTRIO – Sou um dardo que te atravesse. (O criado abre a garrafa.) CINCINATO – O pior é que os teus parentes prodígios vão abundando muito na capital! como se arranjam vocês?... despesas a abarrotar, receita conhecida zero, déficit jamais!... (Ao criado.) Não faz espuma, diabo! (A Demétrio.) Demétrio, tu deves ser ministro da fazenda...

DEMÉTRIO – Não jogas hoje? ...

CINCINATO – Infandum, regina, jubes renovare dolores! ...

DEMÉTRIO – Perdeste?...

UMA VOZ (Dentro.) – Levante! CINCINATO – Aquele grito é de algum caído.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu sou sete...

FÁBIO (Dentro.) – Eu sou dama.

CINCINATO – Milagre do lasquenet: o Fábio tornou-se dama.

DEMÉTRIO – Joga por fora. Quem ganha?...

CINCINATO – Prodígio, toma o meu conselho; não joga esta noite. Queres cerveja?... (Bebe e faz uma careta.) nem por isso.

DEMÉTRIO – Por que? ...

CINCINATO – É que chocou, passando a linha: traficâncias do equador...

DEMÉTRIO – Que me importa o equador?... porque aconselhas a não jogar? CINCINATO – Ainda caso de astronomia; descobri no horizonte a cauda de um cometa: do tamanho da língua dos lambedores da alfândega.

DEMÉTRIO – Quem é? CINCINATO – O adventício da penúltima sessão: d. Donaldo Cabalero Salzedo Cuencas da Silva Escalona de los Montes e Pincaros de Hermosa e de las Torres de Calatrava Bivanco de la Mancha Mançanares Barbuda e Rui de Aragão e Castella...

DEMÉTRIO – Basta... o espanhol?... e então?...

CINCINATO – Na primeira tripa lambeu-me trezentos mil réis que fui parando para experimentar... desconfiei da experiência e vim tomar cerveja por consolação...

DEMÉTRIO – E não pensas em desforra?...

CINCINATO – Nada: a desforra é rapariga muito provocadora, mas de ordinário quem vai atrás dela perde-se no caminho...

DEMÉTRIO – Pois eu te mostro como se faz frente ao espanhol (Vai-se) CINCINATO (Seguindo-o até a porta.) – Avante, prodígio! eu fico na retaguarda, que é a guarda reta dos generais prudentes. (Deita-se no sofá.) CENA V CINCINATO, que fuma e bebe cerveja, depois BRÁULIO DIONÍSIA (Cantando dentro.) – Casta diva qu’inargente Queste sacra, etc.

CINCINATO (Acompanhando com a mesma música.) – Bela moça qu’enfeitiças Esta casa do barato, Vem, consola o pobre paio Que pagou bem caro o pato.

DIONÍSIA (Dentro.) – Ah, bello à me ritorna Del fido, etc.

CINCINATO (Acompanhando.) – Ai, triste, o meu dinheiro Não volta ao bolso meu; Consola-me, Dionísia, 6 Dá-me um beijinho teu.

UMA VOZ (Dentro.) – Levante! OUTRA VOZ (Dentro.) – É o quinto rei à direita!... faz desconfiar! (Sussurro.) BRÁULIO (Entrando.) – Aqueles senhores fazem muita bulha por pouca coisa! CINCINATO – São republicanos que querem por força o rei à esquerda: é preciso denunciá-los à polícia.

BRÁULIO – E o senhor quer dormir em vez de jogar?...

CINCINATO – Efeitos da harmonia: sua sobrinha por excesso de afinação desafinou-me; ouvindo-a cantar a Casta diva, caí no sofá desafinado, isto é, desafinado no sofá.

BRÁULIO – É lisonja de cavalheiro amável... porém.... o senhor não joga mais hoje? ...

CINCINATO – Tranqüiliza-se; já concorri bastante para o barato: agora tenho outros cuidados... cerimônias à parte e segredo entre nós... ela é deveras sua sobrinha?...

BRÁULIO – Que pergunta! que supõe então o senhor?...

CINCINATO – Em fato de suposições o infinito é direito dos maliciosos; mas, na hipótese do parentesco, leve o diabo quem se arrepender... o sr. Bráulio quer-me para sobrinho honorário em casamento provisório com a terça parte do barato por dote temporário?...

BRÁULIO – O senhor abusa... e me obrigará talvez a pedir-lhe o favor...

CINCINATO – De não voltar à gaiola onde gorjeia o rouxinol?... veja o que diz, tio Bráulio... é isso?... veja o que diz...

BRÁULIO – Pois é isso.

CINCINATO (Bebe cerveja e levanta-se) – Ali defronte há um sobrado de dois andares com escritos: amanhã alugo-o e estabeleço ao primeiro andar não uma, porém três sobrinhas, e no segundo lasquenet na frente, e bacarat, vulgo pacão, nos fundos; concorrência dupla no andar de baixo e no andar de cima; condições de supremacia: em baixo as sobrinhas sem tio, em cima o lasquenet e o pacão sem barato; no primeiro andar vulcões número três, no segundo sorvetes grátis e à vontade para refrigerar. Tio Bráulio, concedo-lhe duas horas para merecer o meu perdão. E tenho dito. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha. ( Vai-se pela direita.) CENA VI BRÁULIO, e logo DIONÍSIA e GERTRUDES BRÁULIO (À porta do fundo.) – Vocês não têm peso nem medida: em toda parte mostram o que são.

DIONÍSIA – Não perco nada, mostrando o que sou, porque ainda ninguém me achou feia.

GERTRUDES – Mas que alvoroço é este?...

BRÁULIO – Como é que dás confianças ao Quebra-louça quando estamos quase a ganhar a demanda com Adriano? DIONÍSIA – É falso: eu a nenhum dou confianças; mas não sei como é que todos as tomam! quanto ao Quebra-louça, além de feio, é rio sem peixe; não me apanha corda.

BRÁULIO – E o atrevimento com que fala de ti?... propôs-me que o tomasse por sobrinho honorário, dando-te a ele em casamento provisório com a terça parte do barato por dote temporário:já se viu zombaria mais insolente?!! DIONÍSIA (Desatando a rir.) – Ah! ah! ah! ah! GERTRUDES – Por isso o descarado, quando passa por mim, sempre me trata 7 de mamãe Gertrudes! DIONÍSIA (Rindo.) – Ah! ah! ah! ah! BRÁULIO – E ris ainda! DIONÍSIA – Achei-lhe graça: é pena que o demônio seja tão feio.

UMA VOZ (Dentro.) – E escandaloso! há trapaça evidente!... (Sussurro.) LOURENÇO (Dentro.) – Não perdi, roubaram o meu dinheiro!... (Rindo.) BRÁULIO (A Gertrudes.) – Vai tocar! (Vai-se Gertrudes e logo toca.) CENA VII BRÁULIO, DIONÍSIA, LOURENÇO e depois GERTRUDES BRÁULIO – Sr. Lourenço... ainda infeliz esta noite...

LOURENÇO – Infeliz não, roubado! nunca fui jogador! mas... (olhando Dionísia.) a traição, fingindo-se amor, quis que eu tomasse o jogo por pretexto, e em breve o pretexto se tornou vício e a falsidade depôs a máscara; na sua casa tudo é infame! deixo neste golfão a fortuna que há um ano herdei de meu honrado pai... minha ruína é justo castigo; porque eu recebi a educação da honestidade, e menti a ela vindo aqui manchar-me com duas corrupções!... (Vai-se arrebatado.) BRÁULIO (Friamente.) – Amanhã à noite ele volta para jogar.

GERTRUDES (Entrando.) – Que furioso! fugi de medo...

D. DONALDO (Dentro.) – Trezentos mil réis! UMA VOZ (Dentro.) – Levante.

FÁBIO (Dentro.) – Eu sou rei.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu sou quatro.

GERTRUDES – Olha que em alguma noite o barato há de te sair caro.

BRÁULIO – Eu não obrigo a jogar.

VOZES (Dentro.) – O rei... quinze sortes!...

OUTRAS VOZES (Dentro.) – Há maço! há maço! venham baralhos novos! (Rindo.) CENA VIII BRÁULIO, DIONÍSIA, GERTRUDES, um CRIADO e logo SILVEIRA CRIADO (Correndo.) – Cartas novas...

BRÁULIO – Leva as que estão sobre a mesa do meu quarto. ( Vai-se o criado à esquerda.) SILVEIRA – Sr. Bráulio... uma palavra (A um lado.): perdi quanto trazia... filhofamília não ouso expor-me a alguma negativa, querendo jogar sob palavra... empresteme só duzentos mil réis... juro-lhe que em três dias...

BRÁULIO – Filho-família... estamos na mesma; porém... o seu relógio de ouro e o alfinete de brilhantes... note que é somente pelo desejo de servi-lo...

SILVEIRA – Oh! mas amanhã... amanhã... .meu pai...

BRÁULIO – E quem lhe diz que não se desforrará esta noite?... (Ao criado que passa.) Que levas aí?...

CRIADO – Baralhos novos. (Vai-se pela direita.) BRÁULIO – Vê? ... cartas novas... a fortuna deve mudar...

SILVEIRA (Tremendo e rápido.) – Aí os tem.... (Dá o relógio e o alfinete) BRÁULIO – Em um instante... (Vai-se pela esquerda.) VOZES (Dentro.) – Vejamos agora! DEMÉTRIO (Dentro.) – Cincinato! à desforra! 8 CINCINATO (Dentro.) – Não pegam as bixas: quero ver primeiro como corre a tripa.

DIONÍSIA (A Silveira tornando-lhe a mão.) – Para que joga?...

SILVEIRA (Confuso e rindo à força.) – Para apostar pelas damas.

GERTRUDES – Que te importa que o senhor jogue ou não? DIONÍSIA – Tão mocinho e tão bonito devia só amar. (Com doçura a Silveira.) Não jogue.

BRÁULIO (Voltando e dando a Silveira dinheiro e um papel) – O dinheiro e a cautela: há de ver que nos juros houve fineza de amigo.

SILVEIRA (Recebendo) – Obrigado... obrigado... (Vai-se pela direita.) DIONÍSIA – Nem se quer me disse adeus... pois que se perca...

BRÁULIO – Deixa o menino, perversa: tratemos de Adriano; Gertrudes já te preveniu do que há?...

DIONÍSIA – Estou ciente: favas contadas... Adriano é minha propriedade; já lhe pus feitiço; depois de amanhã fujo com ele... e, adeus, titio... por três meses pelo menos...

BRÁULIO – Estás bem certa de obrigá-lo a esse extremo? DIONÍSIA – Certíssima; mas da sua parte não se deixe lograr pelo Fábio que é bisca; olhe: dói-me servir ao trama de semelhante homem... cuidado com ele...

DEMÉTRIO (Dentro.) – O sr. d. Donaldo tem olhos nas unhas!... (Rindo.) D. DONALDO (Dentro.) – Que quer dizer? é uma injúria!...

VOZES (Dentro.) – Não! não! sim! sim! (Alarido.) BRÁULIO (A Gertrudes e Dionísia.) – Vai tocar! vai cantar! e fortíssimo! fortíssimo!... (Vai-se Gertrudes; Bráulio detém Dionísia pelo braço, vendo Adriano; Gertrudes toca forte e depois suave ao serenar o ruído.) CENA IX BRÁULIO, que logo se retira, DIONÍSIA, ADRIANO e SILVEIRA BRÁULIO – Senhor Adriano...

ADRIANO – Minha senhora... sr. Bráulio... chego hoje muito tarde...

BRÁULIO – E vem achar a sessão tumultuosa... porque, não sei...

UMA VOZ (Dentro.) – Ainda!... isto não é verossímil... as cartas foram preparadas... (Alarido.) SILVEIRA – Sou uma das vítimas... perdi o que não podia perder; mas é infame quem abusa da boa fé da gente honesta! (Grande alarido; Silveira atravessa a cena precipitado e vai-se.) ADRIANO – Que desordem!...

BRÁULIO – Perdão... vou seguir este moço para impedir algum ato de desespero. (Vai-se) DIONÍSIA – Onde esteve até agora? ...

ADRIANO (Aproximando-se) – Foi-me impossível vir mais cedo.

DIONÍSIA (Afastando-se.) – Atraiçoa ao mesmo tempo a esposa e a mim; a ela não me importa; porém a mim!... onde esteve?...

ADRIANO (Querendo tomar-lhe a mão.) – Dionísia.

DIONÍSIA – Não me toque! o senhor me trata indignamente: sinto o seu desprezo na liberdade em que me deixa...

ADRIANO – Ingrata! DIONÍSIA – Confessei-lhe as misérias da minha vida: porque não se contentou com o meu aviltamento?... para que me falou de amor, e me inspirou amor?... para que 9 me fez chorar arrependida do meu passado!... para que me levou a sonhar com o impossível?...

ADRIANO – Mas eu te adoro, Dionísia! DIONÍSIA – Que amor é o seu? ... amor baixo e vil que me abandona e me condena a ser escrava de outro homem!... isso é amor?... que amor é o seu? ADRIANO – Queres sabê-lo? é o amor violento e fatal, o amor crime, a paixão raiva! oh! é a pesar meu que te amo... adúltero possesso, eu me prendo a teus pés, demônio de fascinação!... maldigo de ti e te adoro, maldigo deste amor e sou teu escravo!...

DIONÍSIA – Que paixão!... eu porém toda do meu amor quis ser, pedi, peço ainda para ser só tua... só tua... e tu... e o senhor me obriga à mais vil infidelidade; porque me deixa em poder de um falso tio... amante que hoje abomino, e que...

ADRIANO – Ah!... tens razão... é para enlouquecer... mas, Dionísia,eu sou casado...e o dever... as conveniências...

DIONÍSIA – Portanto a minha infâmia e a sua hipocrisia!... não me sujeito a tal abjeção... depois que amei... oh! não me sujeito mais: não me queixo... sou o que sou pelo que fui; é irremediável... mas... sua e de Bráulio... .oh!...não! esqueça-me...farei por esquecê-lo...

ADRIANO – Esquecer-te?... eu?... Dionísia, tu me atordoas, me exasperas e sempre me dominas: eu te peço... dá-me algum tempo...

DIONÍSIA – Algum tempo?... para quem o pede?... para Bráulio... ou para si?...sr. Adriano, não acha que isto é indigno e vil?...

ADRIANO – Em oito dias te livrarei deste inferno... serás minha só...

DIONÍSIA – Oito dias?... que pressa! amada por Bráulio, posso esperar um ano...

ADRIANO – Dionísia! DIONÍSIA (Voltando-lhe as costas.) – Boa noite.

ADRIANO – Pois bem será como quiseres... quando quiseres... amanhã à hora da sesta de Bráulio receber-me-ás e marcaremos o dia...

DIONÍSIA – Amanhã?... sim...venha; mas com a condição de levar-me depois de amanhã para o teto mais humilde, onde caibamos nós dois... e onde eu seja tua só...

depois de amanhã... veja bem... tua só, meu Adriano... sim?...

ADRIANO – Oh!... perdição!...

DIONÍSIA (Abrindo os braços.) – Sim, meu Adriano?... sim?... tua só?...

ADRIANO – Sim!... sim!... (Abraça-a.) tu és como Dejanira e me arrojas ao vulcão! (Curva-se, beija-lhe a mão, Dionísia afaga-lhe os cabelos.) DIONÍSIA – Fica assim!...como és belo! como te amo! como serei feliz!...

ADRIANO – Feiticeira! fazes-me esquecer tudo! eis os pendentes que ontem me pediste (Tira do bolso uma caixinha e dá-a.) São do teu gosto?...

DIONÍSIA (Abrindo a caixa.) – Magníficos! para que tão ricos?... não quero que te arruínes por mim: lindíssimos!... mas, jura que depois de amanhã...

ADRIANO – Juro-o...

DIONÍSIA (Sorrindo.) – Vem, pois, amanhã à tarde... vem, formoso e feliz ladrão da sesta!... e agora, pobre ladrão da noite, queres beijar-me os olhos que dizes ser tão bonitos? ...

ADRIANO – Oh! minha Dionísia!... (Abraça-a e beija-lhe os olhos.) CENA X DIONÍSIA, que vai-se logo, ADRIANO E CINCINATO 10 CINCINATO – Eu sou míope: podem continuar que não vejo coisa que me espante.

DIONÍSIA – Ah! (Vai-se correndo e rindo.) ADRIANO – Importuno! CINCINATO – Ainda em cima do serviço que te prestei?... é caso em que água fria na fervura livra de pelação infalível. Esta Dionísia é uma espécie de polvo...

ADRIANO – É uma mulher alucinadora, e irresistível... Cincinato, meu amigo, meu irmão... é a fatalidade!... tem sido e são inúteis os teus conselhos... estou perdido...

CINCINATO – Ainda é tempo.

ADRIANO – É muito tarde... a miséria pelo jogo... o frenesi, a loucura pela paixão criminosa... oh! eu sou um desgraçado... eu reconheço o mal que faço e me arrasto para o abismo.

CINCINATO – Não dou um bilhete das barcas Ferry pelo teu juízo... eu quebro louça, porém, assim não.

ADRIANO (Pensando,) – E depois de amanhã... (Súbito.) vou jogar. (Indo-se.) CINCINATO – Hoje não jogas: há mouros na costa; o espanhol apurou a ladroeira: Demétrio e outros já estão a toda isca. Adriano! sê homem! foge desta espelunca... e volta para o lado de tua bela e nobre esposa...

ADRIANO – Para que a lembras?... sou algoz... eu sei... mas bem vês que desatino...

CINCINATO – Lá o ninho do amor puro... lá beleza, paciência, suavidade, virtudes... aqui... pior! vou caindo na sensibilidade e saio do meu elemento... Adriano! sabes onde estamos?...

ADRIANO – Em uma casa de jogo, cujo empresário é um miserável.

CINCINATO – Sim... casa de jogo magistral. Quadro primeiro: sala da frente iluminada a gás; mobília de mogno e piano de jacarandá; personagens, uma velha que toca, e uma moça que canta; a velha representa o papel de bumbo, pratos e campainhas para não se ouvir da rua a balbúrdia do fundo da casa; a moça namorando de dia e cantando de noite representa o papel de alçapão e isca para apanhar passarinhos.

ADRIANO – Impacientas-me... (Ruído dentro: soa o piano) CINCINATO – Em? lá está a velha no ofício. Quadro segundo: esta sala, escarpa do precipício, caminho do inferno, passagem do desespero, gabinete que medeia entre o frontispício da hipocrisia, e o interior da furna do vício, e uma vez por outra em cada noite, gaiola de passarinhos, a quem a moça, que canta, dá abraços e beijos por engodo, e os deixa com água no bico depois de depená-los muito à sua vontade.

Exemplo: certo episódio que vi ainda há pouco.

ADRIANO – Cincinato... pensas que algum outro homem...

CINCINATO – Não respondo: porque me perguntas no singular. Quadro terceiro: sala resplendente de luzes e carregada de sombras negras; mesa grande e cercada de jogadores risonhos poucos, turvos muitos, sinistros alguns, desconfiados todos; se não estão ao pau, estende-se a tripa: é o mesmo; voltam-se as cartas... há pulmões que não respiram... o estrabismo da suspeita entorta todos os olhos... a atmosfera é pesada... ouvem-se juras, insultos, rugidos... rola o dinheiro e evaporam-se fortunas, e na mesa horrível sem que o vejam, sem que o sintam, prepara-se o roubo do amo pelo caixeiro, a perversão do filho-família, que furtará as jóias de sua mãe e a firma de seu pai, a miséria da família pela ruína do seu chefe, a prevaricação do empregado público, a falência inexplicável do negociante, a desonra, a chave da prisão, o punhal ou o revólver do suicida... (Um jogador atravessa a cena em desespero e vai-se.) Vês aquele que furioso se retira? Adriano! é talvez esposo da mais honesta senhora, a quem reduz à miséria pelo jogo, e a desesperado abandono pela paixão adúltera e 11 vergonhosa...

ADRIANO – Cincinato! (Sussurro dentro.) CINCINATO – Escorreguei para o romantismo sentimental, mas volto ao meu elemento no quadro quatro que é o melhor. Quadro quarto: palácio do sono perpétuo na solidão da indolência; na sala do desmazelo há um leito de papoulas, e dorme nele per omnia secula seculorum... adivinha quem... (Sussurro.) ADRIANO – Quem? (Aumenta o sussurro.) CINCINATO – A polícia. (Forte ruído.) ADRIANO – E tu!... como estás aqui!...

CINCINATO – Eu quebro louça em toda parte. (Grande ruído.) Oh, lá! gritem sem receio que a polícia dorme sempre como o animal condenado por Maomé! (Voltando da direita.) O Demétrio já tem um dos olhos vermelho-brasa e o outro azul, como sangue de fidalgo puro. (Estrepitoso ruído.) ADRIANO – Que tempestade... vou ver...

CINCINATO (Segurando-o.) – Não hás de ir...

CENA XI ADRIANO, CINCINATO e BRÁULIO; canto e piano, alarido e movimento até o fim do ato.

BRÁULIO – Que é isto? (Vai à direita, volta à porta do fundo.) Fortíssimo! fortíssimo!... (A Adriano e Cincinato.) Que homens loucos! (Ao fundo.) Fortíssimo!...

CINCINATO – Não tenha medo, a polícia não desperta.

BRÁULIO (Ao fundo.) – Fortíssimo! (Corre à direita e quase o lançam por terra os que saem em tumulto.) CENA XII ADRIANO, CINCINATO, BRÁULIO, D. DONALDO, DEMÉTRIO, FÁBIO, JOGADORES: confusão, grita e música até o fim D. DONALDO – Caramba!... hei ganhado honestamente.

VOZES – Não! sim! ladrão! é falso! silêncio! (Vozes encontradas.) DEMÉTRIO – Silêncio! ouçam-me! quero falar! (Silêncio). Este homem roubounos e deve restituir-nos o nosso dinheiro... aqui está a tripa, onde há cartas falhas...

podem examinar... houve além disso feitos e olheiros... e todos viram há pouco a empalmação do... (Mostrando as cartas.) D. DONALDO – O senhor mente!...

DEMÉTRIO – Larápio!... (Atira com o monte de cartas sobre d. Donaldo, os jogadores seguram e separam os dois: confusão.) D. DONALDO – Perro! encomenda a tua alma, que eu hei de te matar dez vezes!...

BRÁULIO – A ceia! a ceia está na mesa! a ceia! a ceia! (Confusão.) CINCINATO (Na frente.) – A ceia!... o governo da casa contém os furores da maioria, falando-lhe à barriga! está em regra: a ceia! a ceia! FIM DO PRIMEIRO ATO ATO II Salão da frente do Teatro Provisório: portas ao fundo comunicando com 12 o corredor dos camarotes da segunda ordem.

CENA I FÁBIO E ÚRSULA, que entram FÁBIO – Que é isto, Úrsula?... deixaste arrebatada o camarote, como se fugisses ao bote de uma serpente.

ÚRSULA – Sim... eu vi, não uma serpente, mas um homem que eu supunha bem longe daqui: é ele... eu o reconheci no fundo do camarote de Adriano.

FÁBIO – Quem? ...

ÚRSULA – Clarimundo... o antigo tutor de Helena...

FÁBIO – Clarimundo! então chegou hoje no paquete do Rio da Prata: mas... que comoção, Úrsula! estás convulsa... (Chega uma cadeira.) ÚRSULA (Sentando-se.) – A surpresa... eu não esperava... oh!... esse homem...

FÁBIO – Tão profunda sensação!...(Úrsula estremece.) ah! já compreendo: receias que ele venha destruir a minha obra...

ÚRSULA – É isso mesmo... adivinhaste.

FÁBIO – Ora!... enriqueceu muito, negociando no Rio da Prata; mas por último arruinou-se em uma grande e desastrosa especulação: li há poucos dias cartas, em que ele se lastimava do seu infortúnio: pobre como chega não pode salvar Adriano, e por pouco que me auxilies, Helena abandonada pelo marido...

ÚRSULA (Em pé.) – Escuta aqui mesmo e já. (Olhando em torno.) Meu único irmão, meu único amor na terra, tenho-te amado com fraqueza de mãe... pobre e ocioso, jogador e libertino tens achado alimento para teus vícios na riqueza que herdei de meu marido...

FÁBIO – É melhor deixar esse sermão velho lá para casa.

ÚRSULA – Além do esbanjamento da minha fortuna, um dia me impuseste cruel sacrifício: pretextando intimidade de relações com Adriano, obrigaste-me a procurar a amizade de sua esposa; jurei-te que em outros tempos um abismo de ódio me separara da mãe de Helena: resisti, chorei; porém tu venceste.

FÁBIO – E daí? ÚRSULA – Oh! pérfido amigo de Adriano, tu me querias para vil instrumento da sedução de sua esposa; colocaste-me na mais triste posição, porque todas as aparências me condenam como tua cúmplice.

FÁBIO – E daí? ÚRSULA – E a minha consciência também me acusa, porque com o meu ouro pagas a perversão de Adriano, e eu, ainda imprudente, preveni Helena de paixão criminosa de seu marido.

FÁBIO (Rindo.) – E por último propuseste-lhe vir esta noite ao Teatro Provisório, no que Helena conveio logo, porque uma cartinha anônima levada pelo correio urbano já lhe havia anunciado em que camarote poderia ver a rival feliz.

ÚRSULA – Oh! Fábio... tu és mau e me sacrificas sem piedade; agora porém não me submeto mais: eu te peço... por quanto amor me deves, deixa em paz Helena, abafa essa paixão insensata e condenável; liberta-me de um remorso que me punge...

FÁBIO – Estás fora de ti... isso é nervoso, minha irmã...

ÚRSULA – Ingrato que me ridicularizas! vê bem: eu romperei o véu desta intriga... Helena saberá tudo, e ainda mais... eu me compadeço de Adriano, e posso vingar-me de ti, estendendo-lhe mão amiga, e desvendando-lhe os olhos...

FÁBIO – Que revolução!... o simples encontro inesperado de Clarimundo!...

ÚRSULA – Sim... é isso mesmo; Clarimundo conhece as razões da inimizade que 13 houve entre mim e a mãe de Helena, e na fraqueza imperdoável de tua irmã ele veria somente a perversidade do ódio velho... do ódio de além túmulo... do ódio da mulher demônio...

FÁBIO – Tens medo desse homem... (Aparece Bráulio à porta do fundo.) ÚRSULA – Medo!... oh!... seja medo... supõe o que te parecer... imagina embora que eu me confundo nos turvos segredos dessa sociedade brilhante, onde às vezes se escondem traições e vergonhas nas dobras dos ricos vestidos de seda; mas, eu to disse já, não abusarás mais de mim...

FÁBIO – Isso passa... são recordações da mocidade... pecados veniais do outro tempo...

ÚRSULA – Fábio! tu me insultas!...

FÁBIO – Estamos entendidos: Clarimundo é um inimigo demais, e tu uma aliada de menos; ele, porém, é homem sem dinheiro, baluarte sem pólvora, fortaleza sem soldados, e tu uma alma ingrata que me embaraças a felicidade com os teus casos de consciência. Zombo do inimigo e dispenso a aliada. Agora só preciso de um auxiliar, é Bráulio.

CENA II ÚRSULA, que logo se retira, FÁBIO e BRÁULIO BRÁULIO (A Úrsula.) – O último dos criados de v.ex.! (A Fábio.) Às ordens de v.s.

FÁBIO (Apresentando) – O sr. Bráulio...

ÚRSULA (Saudando com desdém.) – Ah...

FÁBIO – Estava então aí... de perto?...

BRÁULIO – Passava por acaso, quando ouvi pronunciar o meu nome; mas de perto, ou de longe sou como o diabo, acudo logo à primeira evocação.

ÚRSULA (A Fábio.) – Voltemos ao camarote.

FÁBIO (A Bráulio.) – Espere-me aqui um instante (A Úrsula.) Vamos, Úrsula.

ÚRSULA – Posso ir só. Fique. (Vai-se.) FÁBIO – O senhor escutava-nos... confesse.

BRÁULIO – É claro que ainda que estivesse escutando, não faria a confissão; mas eu não disputo o direito da suspeita: V.S. pode pensar o que quiser.

FÁBIO – Não se ofenda: nós somos bons amigos e a sua chegada foi muito oportuna; ontem à noite naquela desordem em que acabou o jogo, não pude informarme do que sua sobrinha conseguiu de Adriano, e agora é ainda mais urgente...

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