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Os Romances da Semana

Joaquim Manuel de Macedo

O FIM DO MUNDO

O Fim do Mundo em 1856 não é certamente um romance ; faltão-lhe todas as condições para merecer esse titulo : foi um simples artigo de occasião que appareceu publicado no folhetim do Jornal do Commercio de 13 de Junho de 1856, que então por ventura chegou a agradar, e agora não terá merecimento algum ; contemploo porém n'esta collecção, nem mesmo saberei dizer porque... talvez para avolumar com algumas paginas mais o meu pequeno livro.

Como se hão de lembrar muitos ainda, estava -44- annunciado um cometa, para o anno de 1856, e não poucos terroristas, improvisando-se prophetas, determinavão o dia 13 de Junho de 1856, como o prazo fatal de um horroso cataclysmo, cujo resultado seria nada menos que o fim do mundo.

O famoso conego de Liège celebrisou-se por esse agouro sinistro.

Muita gente acreditou nos agoureiros, e no Brazil não faltarão credulos, que virão com indizivel terror aproximar-se o dia 13 de Junho.

Foi esse o motivo do artigo que então escrevi, e que agora reproduzo n'esta pobre collecção.

Fiz representar como protogonista, ou como narrador, n'esse artigo o senhor Martinho Corrêa Vasques, que é um actor muito conhecido e estimado no Rio de Janeiro. Foi uma liberdade que tomei, e de que elle me fez o favor de não se offender.

Hoje, relendo essas breves e risonhas paginas que em 1856 escrevi, sinto verdadeira tristeza, porque n'ellas encontro de mistura com innocentes gracejos os nomes de pessoas, algumas das quaes a morte já arrancou do -45- mundo, e entre elles o do meu amigo o commendador Manoel Moreira de Castro, de quem sempre recebi provas de estima e confiança extrema.

O que então nos fez rir, fez-me entristecer agora.

Não importa : ahi vai.

O FIM DO MUNDO

EM 1857 I Estava reservada ao Martinho a triste obrigação de escrever a lugubre historia do cataclysmo por que passou a cidade do Rio de Janeiro, e por que muito provavelmente ha de ter passado o mundo inteiro no fatal dia 13 de Junho.

Eu sou o novo Noé que sobreviveu ao novo diluvio! e sou ao mesmo tempo o Moysés do seculo das luzes que deve referir o infausto caso do fim do mundo no anno de 1857.

Não fui d'aquelles estouvados incredulos que — 48 — zombarão da prophecia do conego de Liège ; tive sempre a maior veneração pelos conegos, e não havia de ser em uma questão de cometa que o Martinho duvidasse da palavra de um conego.

Também não me contei no numero dos terroristas e dos aterrados, que, esperando, pelo fim do mundo no dia 13 de Junho, não pensarão em escapar ao dilúvio, e resolvêrão-se a morrer immoveis e caladinhos como carneiros.

A idéa de acabar como capão, peru, ou leitoa em dia de banquete me revoltava deveras. « Que! disse eu a mim mesmo, conversando com os meus botões; que! o Martinho, que tinha direito a considerar-se immortalisado pela fama, ha de assim sem mais nem menos perder a sua immortalidade, reduzido a torresmo pelo fogo da cauda de um cometa? » Dizem que a diligencia é mãi da boa ventura : a industria humana pôde vencer quasi o impossivel: puz-me a reflectir, a imaginar, a combinar; gastei n'isso mais tempo do que qualquer dos meus collegas em estudar a sua parte n'um drama novo, e por fim de contas dei um pulo, bati palmas, exclamei como Archimedes : Eureka! Eureka era o meio que eu tinha descoberto para livrar-me das rabanadas do cometa e sobreviver ao cataclysmo.

— 49 — II O meu primeiro pensamento foi organisar uma companhia que tivesse por fim fazer construir uma estrada de ferro para o mundo da lua; mas abandonei esse projecto porque com a noticia da nova empreza poderia o banco do Brazil lembrar-se de elevar ainda mais a taxa de juros, e Unhamos o diabo na praça, ainda antes deapparecer o cometa.

Meditei depois sobre a construcção de uma segunda torre de Babel, pela qual pudesse eu subir aos planetas e esconder-me no seio de Venus, ou pelo menos em uma das azas do caducêo de Mercurio : não me faltavão materiâes paraa obra; porque a torre de Babel é torre de confusão, e eu podia consequentemente arranjar muito bons architectos no corpo legislativo ; mas tive também de rejeitar esta idéa, considerando que, publicada ella, encontraria eu logo algum outro pretendente competidor, e dava-se então um caso de duplicata, em que não é de regra que o bom direito seja attendido.

Tornei a pensar, a reflectir, a combinar, e dei emfim o meu salto de alegria, e mesmo de e de gravata ao pescoço (porque isto succedeu exactamente á hora de ensaio no theatro de S.

Pedro de Alcântara, portanto sem estar em menores, ou núsinho em pello, como Archimedes, soltei o meu brado enthusiastico: Eureka! Guardei muito em segredo o meu projecto, e esperei ancioso pelo dia 13 de Junho, e para que não me faltassem recursos pecuniários para a minha longa viagem, fiz o meu beneficio no theatro de S. Pedro na noite de 9 de Junho isto é, quatro dias antes do cometa. E fiquei esperando.

50 — — 51 — III A noite de 12 de Junho foi clara e formosa, como o rosto das amadas de todos os poetas passados, presentes e futuros.

Em redor das fogueiras de Santo Antônio os rapazes namoravão, os velhos fallavão em conciliação, as moças tiravão sortes, e as velhas com.ião batatas, apezar de serem as batatas a alimentação mais diabólica e ruidosamente indigesta que se conhece. Os sinos devão o signal da meia-noite. Começava desde esse momento o dia 13 de Junho : era o dia do cometa.

Eu estava com todos os órgãos dos meus sentidos, menoso olfato, exclusivamente occupados a esperar o bicho caudato. Não esperei muito.

—52— IV A peça de artilheria e as bandeirolas do veterano Gabizo annunciárão incendio.

Erão cinco minutos depois da meia-noite.

O Sr conselheiro Mello officiou a toda pressa ao Sr. ministro da guerra, participando-lhe que avistara a pontinha da cauda do cometa.

Meia hora depois o Sr. Dr. Capanema foi accordado na Estrella pela campainha do telegrapho electrico, e recebeu e transmittiu para Petropolis a tremenda noticia.

A uma hora da noite o Jornal do Commercio publicou e espalhou um supplemento dando conta ao publico da funesta apparição.

O Sr. José Maria dos Reis fez pregar annuncios nas esquinas das ruas, declarando que alugava telescopios a todos os curiosos.

A população começou a sobresaltar-se; as ruas enchèrão-se de gente, as senhoras, como de costume, principiarão a gritar e a fazer matinada.

O ministerio, o conselho de estado, os sena— 53— dores e deputados reunirão-se, e celebrarão sessão secreta no imperial observatorio astronomico, cujo director pediu que o dispensassem da presidência da grande assembléa, porque estava todo occupado em admirar o formoso o immenso dragão aéreo.

Estes astronomos parecem poetas ! No meio de toda esta confusão puz eu os pés fia rua, e disse : « Martinho ! é chegada a hora da acção; faze o teu dever. » E fiz.

Aluguei um telescopio ao Sr. Reis, e observei o cometa; era um bicho enorme, e vinha-se mostrando do lado do norte, e dirigindo-se para o sul.

Bem, pensei eu ; assim como o capoeira quebra o corpo tratando de livrar-se de uma facada, assim eu escaparei da cauda do comenta, fugindo em direcção opposta áquella que elle segue.

E tratei logo de realisar o meu projecto.

Não havia tempo a perder.

Cemeçava-se a perceber o cometa sem o soccorro de instrumentos opticos.

Por ordem da policia, que despertara rabujenta, apagárão-se todas as fegueiras, e apezar disso já se sentia calor como no mez de Janeiro.

Deitei a correr.

Entre as companhias de seguros não achei uma de seguros aerios; contentei-me pois com a de seguros Maritimos e Terrestres, e segurei-me deveras : por este lado estava arranjado.

Principiei a minha obra, que devia ser nada menos do que uma escada que me levasse á pequena distancia da lua, contando dahi por diante fazer o resto da viagem em uma bem arranjada machina de balões de crinolina, que com antecedencia preparara. Qualquer outro no meu caso talvez procurasse construir a sua escada de cima do Cornado, da Gávea, ou do mais elevado ponto —56 — da serra dos Orgãos; mas eu, que tinha calculado tudo, comecei a construcção da minha de cima de montanhas muito mais importantes e das quaes talvez ninguém se lembrasse.

Peguei no Monte-pio, e carregando com elle sobre os hombros, encarapitei-o sobre o Monte de Soccorro ; já tinha portanto duas montanhas uma sobre outra, e dahi foi que comecei a arranjar a minha escada.

Tomei como base ou primeiro degráo da escada o Banco do Brazil ; com a alta de juros, só esse banco valia por mil degrãos ; em cima do Banco do Brazil colloquei o Banco chamado Rural e Hypothecario, e trepei pelas hypothecas como um macaco pelos ramos e raminhos da mais alta arvore ; sobre o Banco Rural puz o Banco Mauá, sobre este o Banco Agricola, sobre o Agricola o Banco industrial e Agricola, sobre o Industrial e Agrícola o Banco do Rio de Janeiro, e em cima de todos elles accom-modei a Caixa Hypolhecaria, que também me prestou um alto e excellente degráo. Banco, sobre banco já eu tinha uma escada enorme : é verdade que os tres últimos bancos ainda precisavão de alguma obra para entrar em serviço activo ; mas a necessidade era urgente, e eu aceitaria mesmo um banco de pé quebrado.

Se não fosse o medo do cometa, creio que -57- dado muito boas risadas com os furores, raivas e desespero do aristocratico Banco do Brazil, ao ver-se por baixo de tanto banquinho democratico; eu o ouvi bradar dez vezes sem tomar folego : « Vou levantar os juros ! vou levantar os juros ! » mas, sem lhe dar resposta, fui cuidando em salvar-me do cometa.

Em um abrir e fechar d'olhos entrei pelos dormitorios dos prophetas, ou accendedores de caz, ajuntei todas as suas escadinhas, e merce d'ellas fui subindo pelos ares acima.

O medo emprestava-me azas, e eu voava como um passarinho : quando cheguei á ultima escadinha, lembrei-me de olhar para baixo.

Olhei, e nada vi.... um mundo immenso , mas um mundo com um enorme rabo estava entre mim e a terra.

Era o cometa ! Esse monstro horrivel tem um ponto de contacto com os vaga-lumes, que são uns pobres bichinhos da terra ; tanto elle como estes trazem fogo na extremidade posterior do corpo; mas os vaga-lumes são suros, e o cometa desenrola uma cauda tão comprida como o orçamento da despeza geral do imperio quando lhe addicio não os additivos.

Respirei.

Comprehendi que tinha escapado são e salvo do fatal cometa : o fogo de sua cauda devia estar abrasando a terra, que lhe ficava por baixo ; mas a mim que estava de cima-, apenas me causava uma sensação de calor um pouco forte.

Estive pensando durante alguns minutos no que me cumpria fazer, e vendo que já não corria perigo de morrer queimado, assentei que era conveniente esperar, e não expôr-me a viajar para Venus ou Mercurio nos meus ba lões de crinolina, que ás vezes pregão suas peças a quem os trazem.

Emquanto estive pensando, o cometa continuou a sua derrota, e foi-se ! Mas eu achava-me tão alto que não pude descobrir a terra, nem mesmo cora o auxilio de um binoculo que tinha trazido comigo.

—59— VIII Com a retirada do cometa o calor cessou e foi substituido por um frio horrivel.

Constipei-me ; comecei a espirrar, e senti a mais dolorosa impressão, vendo que não havia alli uma alma caridosa que me dissesse dominus tecum ...

O isolamento é terrivel; aquelles que repetem que antes só do que mal acompanhado nunca se virão como eu isolado e a quatro braças da lua.

Porque eu olhei para cima e vi quasi assentada sobre o meu nariz a lua, que por signal estava cheia e tinha uma cara de bolacha de marinheiro.

O frio redobrava : a neve do Franccioni é brasa ardente em comparação da neve que chovia sobre mim alli ao pé da lua.

De repente cahirão-me as unhas : não me incommodei muito com isso; porque nunca tive idéa de vir a ser thesoureiro ; mas aterrei-me pensando que me podia cahir também o queixo, e um homem de queixo cahido não se pôde tolerar, nem mesmo quando é namorado.

Puxei o relogio ; era meio-dia, exactamente a hora dos ensaios do theatro de S. Pedro de Alcântara. A força do habito destruiu todas as minhas hesitações ; não pude resistir, pareciame que me cstavão multando por faltar ao ensaio, e atirei-me pelas escadinhas.

Commetti a incivilidade de não me despedir da lua.

Desci como um raio. É de regra que se desce sempre mais depressa do que se sobe ; até os ministros de estado conhecem a verdade d'este principio de physica, elles que de ordinario poucas verdades conhecem.

Cheguei á terra ás duas horas menos um quarto, e quasi que me esbarrei no chão, porque encontrei todos os bancos roíos ; apenas se conservara inteiro o Branco do Brazil : é que os monumentos levantados pela sabedoria atravessão os seculos e resistem aos mais formidaveis cataclysmos.

Fiquei portanto sabendo que o mais seguro degráo de escada por onde se pôde subir, é o Banco do Brazil.

Olhei para todos os lados, e vi a cidade do Rio de Janeiro reduzida a um ermo. Todas as suas casas estavão intactas, e apenas havião perdido as vidraças, que o calor excessivo tinha derretido; não havia mudança alguma, nem se ouvia ruido algum, mas não se sentia vida.

O cometa era sem duvida partidista exclusivo do progresso material, porque destruiu todos os homens e todos os animnes, respeitando, porém, e deixando illeso tudo quanto era puramente material, tudo quanto tinha existência sem ter vida.

O cometa era materialista, vermelho.

Aqui e alli eu encontrava homens e mulheres estendidos nas calçadas, de cócoras ou em pé nas esquinas, ou sentados ás portas das casas ; mas todos petrificados.

Tive medo d'essa horrivel solidão; gritei, e ninguém me respondeu ; um suor frio correu-me de todo o corpo. Desatei a correr de olhos fechados até o theatro de S. Pedro de Alcântara.

O theatro estava aberto : entrei: no saguão avistei o bilheteiro sentado na sua casinhola privilegiada, tendo as mãos cheias de bilhetes de platéa. Tinha morrido como um heróe no seu posto de honra.

Tres cambistas estendidos na porta do botequim deixavão ver cada um a seu lado uma garrafa vazia: novos heróes que havião passado á eternidade com intrepidez britannica.

Entrei na platéa, e vi no tablado a companhia petrificada ao ensaiar a scena do combate das Minas de Polônia. Tive dó de ver o Manuel Soares, morto e reduzido a estatua, representando em minha falta o papel que eu fazia : coitado ! morreu em meu lugar ! Deus lhe falle n'alma.

O ponto estava com o dedo indicador apontando na peça a nota vai-se e com effeito foi-se ! É o que se chama morrer a proposito.

-63- X Sahi desconsolado e affiicto do theatro; mas, apezar da minha afflicção, senti que tinha uma fome de todos os diabos. Entrei na Fama do café com leite : o Braguinha morrera com a penna na mão improvisando versos á gloria do seu botequim : é uma alma que foi parar ao Parnaso, e a esta hora está se banhando na Ilypocrene para se vingar dos ardores por que passou ; os freguezes do Braguinha achavão-se em redor das mesas, e um dos caixeiros expirara deitando manteiga derretida em um pão Napoleão: comilhe o pão, que achei um pouco duro, bebi café com leite que ainda fervia, e não tendo a quem pagar o almoço, e não querendo ficar em divida, rezei um padre-nosso pelo amo e caixeiro já defuntos, e sahi precipitadamente.

Doeu-me o coração ao entrar na Petalogica, que, como se via, tinha acabado em sessão magna. O Paula Brito estava encostado a uma mesa, com os olhos fitos em um numero da Marmoia, em que zombara do cometa; o bacharel Gonçalves morrera com um enorme abano na mão; o meu collega José Romualdo jogando estoicamente uma partida de xadrez com o barão de Tautphoeus, que se achava a ponto de dar chec e mat no adversario ; e o Viegas dando conta das ultimas noticias do cometa. Chorei pelos meus consocios, e fugi.

Achei me, sem saber como, no paço da camara municipal; os heróicos vereadores morrerão em sessão aberta, e em discussão calorosa, e exactamente no momento em que o Sr. Lobo pronunciava um discurso ad hoc.

Vi um papel nas mãos do presidente da camara e tive a curiosidade de o ler : era um officio em que os fiscaes declaravão que desde as dez horas do dia tinha seccado toda a lama que havia nas ruas da cidade, e pedião por isso augmento de ordenado. Felizmente não houve tempo de despachar a petição.

O cometa encontrara na camara vitalicia os anciãos da patria na mesma posição em que os gaulezes acharão os senadores romanos. Um veterano liberal tinha o braço estendido para um conservador vermelho, e lhe offerecia a mão em signal de paz e conciliação ; o conservador, depois de algumas ceremonias que ainda se lhe notavão no expressão physionomica, estendera também o seu braço ... os dedos d'aquellas duas mãos patrióticas estavão quasi a tocar-se.

quando o rabo do cometa passou entre elles, e ficarão ambos os anciãos petrificados e com a conciliação no ar, entre o polegar de um e o indicador do outro, como se fora uma pitada de tabaco mutua! Sobre a perna de um outro senador encontrei' um bilhetinho, convidando-o para uma reunião conservadora, com a declaração de que haveria n'ella sorvetes por causa do calor.

Fatigou-me esse passeio lugubre em que andava, e tive vontade de colher algumas noticias a respeito do cometa e dos seus estragos. Dirigi-me ao Jornal do Commercio.

Penetrei na sala daredacção, e a primeira figura que se apresentou a meus olhos foi a do Dr. Macedo morto, conservando porém derramada no semblante a satisfação que sentira ao ver que estava livre de escrever a Semana do domingo, que era o dia seguinte.

O Emilio Adet passara d'esta para melhor vida no meio dos seus trabalhos, e achava-se estendido entre nuvens de folhas de papel, que continhão uns tres ou quatro discursos de deputados : o Emilio Adet teve um passamento panamentar : morreu coberto de bravos, apoiados e applausos.

O Castro estava sentado na sua mesa, e ainda conservava a penna entre os dedos ; os vidros dos seus óculos havião-se derretido com o excesso do calor; mas seus olhos estavão fitos na folha de papel em que escrevia — 68 — Erão as noticias ou era o boletim do cometa que elle preparava para o Supplemento do Jornal. Foi com lagrimas nos olhos que li o que se segue : « SEIS HORAS DA MANHÃ. » « O cometa vem-se approximando com rapidez incrivel; o calor augmenta a cada minuto; os sorvetes e as ventarolas estão por um preço fabuloso. » « OITO HORAS. » « Reunirão-se as camaras extraordinariamente; mas permittiu-se a todos os representantes e espectadores das galerias estar em mangas de camisa. » « NOVE HORAS. » « A policia mandou espalhar pelas ruas da cidade todos os folies que encontrou nas ferrarias e casas de fundição : os pedestres e accendedores de gaz occupão-se em tocar folles.

No thesouro publico deu-se ordem par que os empregados entrassem de chapéo na cabeça e casaca abotoada : é uma medida que está em harmonia com a anterior que tinha banido os chapéos.

DEZ HORAS

Ha febre na praça : as acções de todas as companhias sobem espantosamente; ha uma alta geral; querem todos morrer, provando que são homens de acções. » « ONZE HORAS. » «O cometa está quasi não quasi sobre nós ; no rua do Rosario vendem-se todos os queijos assados ; das bicas das esquinas e de todos os chafarizes, a agua corre fervendo. — Conciliárão-se definitivamente os partidos politicos. — As pessoas magras ainda se movem e fallão : o nosso amigo Pitada queixa-se muito do calor, mas ainda se suppõe com forças para resistir. Aquellas que pelo contrario são gordas, já estão prostradas e quasi moribundas ; o Sr.

Camara, que chegara ante-hontem de Petropolis, acaba de morrer. » « MEIO-DIA. » « Hoc opus hic labor est, chegou a hora suprema.

» -70- XV Tudo portanto estava acabado! eu era o unico vivente que se achava na cidade muito leal e heroica; oh! tive vontade de chorar desesperado, como Mario nas ruinas de Carthago! Via-me prodigiosamente rico : tinha palacios, pertencião-me o thesouro publico, os cofres de todos os usurarios, possuia riquezas incalculaveis: era porém uma espécie de Adão sem Eva, e ainda em cima um Adão, que, em vez de habitar no Paraiso, devia morar em um cemitério descommunal! Arrependi-me de haver fugido do cometa: mil vezes antes morrer assado do que sobreviver a um tal cataclysmo para ficar em isolamento e na mais completa impossibilidade de ser o tronco de uma nova geração! Ah Martinho! Martinho! como poderás viver sem aquelle amado e respeitavel publico que te applaudia no theatro, que te encoraja com seus bravos e suas palmas, como ?...

Fazendo estas afflictivas reflexões cheguei á rua do Conde, e por curiosidade entrei na casa da policia.

Triste espectaculo ! O chefe de policia morrera no acto de pagar o subsidio mensal devido a uns dous publicistas independentes, que estavão em pé também petrificados, com os braços estendidos e as mãos abertas para receber os cum quibus. Se houvesse ainda alguém que pudesse olhar para aquellas duas nobres figuras, e reparasse em seus labios entreabertos, adivinharia logo, como eu adivinhei, que os illustrados publicistas tinhão sido torrificados no momento em que dizião : Venha, a nós ..

Deixei a policia, e para distrahir-me quiz tomar o fresco no campo da Acclamação. O espirito de classe obrigou-me a penetrar no barracão do Provisorio.

Subi ao salão ; e que scena havia de se offerecera meus olhos?... Ah!... todas as constas da companhia lyrica tinhão morrido no meio de um ensaio! desgraçadas!... liavião feito pausa final... eterna.

Aquellas flores viçosas e bellas ! aquelle formoso grupo de encantadoras fadas !...

aquellas nymphas, ou divindades de belleza arrebatadora e de voz de rouxinol, coitadinhas ! estavão todas prostradas e sem vida; mas nem uma so dellas se esquecera de morrer em posição grave e composta.

E diante d'ellas em pé, como em extasis, porém morto e bem morto, destacava-se a figura do meu amigo Dionysio, de batuta na mão e com o mais terno e suave dos olhares cravado no grupo encantador! — 73 — Ah Dionysio ! foste mais feliz do que eu! morreste abrasado por dous fogos : fogo do cometa e fogo de amor ! sempre é uma consolação morrer assim. Requiescat in pace.

Quando eu acabava de proferir estas palavras em louvor e honra de meu amigo Dionysio, de subito e inesperadamente, escuto uma voz murmurar: — Quem falla ahi em amor ?...

Dei um salto : era uma voz humana, o mais apreciavel dos thesouros para mim ; e mais ainda, era uma voz feminina, era a Eva que eu, pobre Adão, ardentemente desejava para bem da humanidade, que não se devia extinguir.

Oh! não se pôde fazer idéa da minha sorpresa, da minha alegria, do meu arrebatamento ! Procurei a bocca por onde havia passado aquella voz, e vi inclinada sobre uma cadeira em um canto do salão, mas quasi moribunda, uma joven corista, e que corista !... a senhora X. P. T.

O., um demoninho tentador que se apaixonara por mim em 1846 em certa noite em que me ouviu canfar a ária do baleeiro.

Corri a ella, abracei-a, suspirei, chorei, e ato cantei-lhe um pedaço da ária predilecta.

— Ainda vive alguém?... perguntou-me com voz sumida a divindade.

— Eu só, eu só ; respondi-lhe ancioso: eu só, que serei o teu Adão, porque tu vas ser a minha Eva.

A corista deu um muxoxo, fez um momo, e fechou os olhos.

— Vive ! vive!... é necessario qui vivas!...

— Para que?... tornou-me ella.

— Para não se acabar o mundo, minha filha; para arranjarmos um artigo additivo á humanidade, que está em risco de se extinguir de todo.

Olha, minha corista, o destino do globo terráqueo está nas nossas mãos.

— Ora!... nem ao menos eu acharia com quem cantar um coro...

— Cantaremos um duetto, menina! — Não... não... de que me serviria viver ?...

que poderia eu ser ainda ?...

— Minha mulher, pequena! — Tua mulher ?... ora essa!... se eu fosse agora tua mulher... como tu és o unico homem no mundo, nem ao menos eu poderia pregar-te um mono! E inclinando a cabeça... exhalou um suspiro, que me pareceu o ultimo.

Abracei-me desesparadamente com a corista : chamei-a pelo seu nome, ajuntando a este todos os epithetos ternos, amorosos e poéticos, de que se usa nas comedias ; beijei-a dez, cem, mil vezes, beijei-a tanto, e tanto, que por fim de contas a corista abre de novo os olhos, sorri...

suspira... solta uma risadi-nha magana, e...

levantando-se de repente, escapa dos meus braços, e deita a correr pelo salão fora.

Estava visfoTque eu devia correr atraz d'ella: reuno todas as minhas forças, dou um arranco, e...

Acho-me no chão gemendo com uma horrível dôr nas costellas.

Reconheci que acabava de sahir do dominio de um sonho tão longo como penoso, que me fizera cahir da cama abaixo no momento em que ia correr atraz da corista.

E apezar da dôr que sinto nas costellas, dou graças a Deos ; porque hoje é o dia 13 de Junho, e não ha de acabar-se o mundo.

O MARTINHO

O ROMANCE DE UMA VELHA O ROMANCE DE UMA VELHA I.

D. Violante é uma respeitavel senhora, veneranda Epaminondas do sexo feminino, que a tal ponto leva o seu amor á verdade que nem ao menos encobre que já completou sessenta e um annos de idade. É uma mulher prodígio que não soffre de ataques nervosos quando sòa a seus ouvidos o nome — velha.

Tem havido no mundo velhinhas capazes de abrasar corações, e até mesmo cidades ; por uma velha chamada Helena foi abrasada Troya, e Ninon de Lenclos ainda aos oitenta annos de idade inspirou ardente paixão a um mocetão.

Mas as Helenas e as Ninons são raridades, e D.

Violante também o é, mas de outro genero. D.

Violante aos vinte annos, isto é, na flor da sua mocidade, era uma mumia; aos sessenta e um transformou-se no mais feio bicho : é horrivel!...

A vista d'esta declaração, é positivo que não ha um só homem bastante animoso para lembrar-se de pedir noticias de D. Violante, e para interessar-se por ella : pobre velha !... está condemnada á morte previa do geral esquecimento... talvez repitão já a respeito d'ella um epigrammatico parce sepultis ! Está morta... não ha duvida.

Entretanto essa respeitável senhora, apezar de ser feia como uma fúria, herdou ha alguns mezes uma fortunasinha de trezentos contos de reis ! Surrexit... resuscitou a defunta.

Quantos corações apaixonados não ardem já em desejos de rolar aos pés da boa velha, a ver se ella os levanta carinhosa e os embrulha no papelorio dos trezentos contos !...

Um estudante de dezoite annos, um poeta que nunca poude aprender as quatro operações d'arithmetica, e um artista que sonha com a gloria, estão jurando que nunca se lembrarião de bater palmas na escada da casa de D. Violante.

São tres anachronismos que não podem representar a epocha actual : uma cabeça de estudante, uma cabeça de poeta, uma cabeça de artista fazem tres cabeças que sommadas apresentão em resultado uma grande cabeça cheia de vento e igual a zero.

Trezentos contos de reis!... trinta e seis contos de renda annual cahindo na palma da mão sem usura e sem trabalho !... um homem sentado na sua poltrona e no mais doce farniente, fumando o seu coronel — porque hoje em dia já se fumão coroneis, e o dinheiro a chover-lhe em cima!...

trezentos contos de reis! isto é, boa cama e boa mesa, amigos a fartar, amantes a escolher, um coupé, cavallos de raça, theatros, bailes, uma excellencia de facto, formosura de direito, sabedoria de improviso, nobreza de encommenda... oh ! eis ahi uma realidade sublime! Vale bem a pena carregar com uma velha furia por trezentos contos de reis ! Mentira ! ninguém pôde ser furia tendo de seu trezentos contos de reis.

D. Violante é um anjo.

Vamos fazer uma visita a essa interessante senhora... contemplemol-a de perto... ouçamos a sua voz, que forçosamente' deve ter a suavidade e a harmonia do tinir do ouro.

Vamos.

D. Violante está com a cabeça mettida em uma touca e o nariz atravessado por uns oculos : sentada em uma cadeirinha baixa, depuzera sobre a mesa que tem perto de si, um livro, a historia do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, que pela duode-cima vez estava lendo, e conversava com sua sobrinha, a jovem D.

Clemência, que viera passar o dia com ella.

Dezoito annos, belleza, graça, espirito, faceirice, sensibilidade, inexperiencia, credulidade e esperança, eis o que é D.

Clemência. Não póde, apezar de tudo ser uma perfeição, e ha de ter por força seus defeitosinhos ; sobre-sáe porém. n'ella um unico defeitosão ; não é um dedo aleijado, nem olho vesgo, nem nariz torto, mas é peior do que tudo isso junto, é uma noiva sem dote ; o pai ganha bastante para viver e tratar com decencia sua família ; mas por isso mesmo a sua carteira anda sempre tão magra como os cofres da câmara municipal da corte. Já se vê que é uma carteira ordinariamente affectada de phtisica.

A theoria das compensações estava alli assentada sobre o elegante penteado da moça e entre as pregas amarrotadas da touca da velha.

Achava-se travada a conversação : D. Violante não era impertinente nem severa, D. Clementia não era timida nem hypocrita fallavão ambas portanto com expensão e liberdade.

A scena passava-se no dia 20 de Setembro, dous dias depois do baile da inauguração do Cassino, e a romanesca joven descrevia com enthusiasmo aquella festa esplendida e brilhante.

— Ah Clemência! disse emfim a velha; também por uma noite de baile fallas com um fogo que me parece de mais.

— É porque no baile está o maior e o mais bello triumpho da mulher ; é porque no baile a mulher é rainha e conquistadora, avassalla corações,faz dos homens escravos,e esquece horas que passão voando, no meio de hymnos e de suspiros, e de apaixonadas confidencias, que enchem a alma de esperanças e o futuro de flores... em uma palavra, é porque a mulher tem todas a sua felicidade dependente só de amor, e porque em um baile tudo e a cada instante lhe está repetindo — amor ! amor !...

— Que dizes tu ?... amor ?....

— Sim, minha tia, e um amor puro e santo, o amor que realisa os seus queridos sonhos, e assegura o seu futuro, o amor que aperta os laços mimosos do hymenêo.

— Estás muito enganada, minha sobrinha; esse amor de que fallas, era, sim, o amor do meu tempo ; mas desde muito que fugiu espantado da cidade do Rio de Janeiro... hoje em dia ninguém mais sabe amar... ninguém mais ama n'esta cidade interesseira e prosaica...

— Misericordia, minha tia ! — A civilisáção e o progresso matarão o amor!...

— E um paradoxo...

— Vou demonstrar o que digo.

Uma velha a raciocinar sobre o amor parece talvez uma alma do outro mundo a querer tomar parte nos gozos dos vivos ; não importa : devemos ouvil-a.

D. Violante pretende provar que ninguém mais ama em uma cidade onde ha moças que contão só de primeiros amores, ás vezes, uma duzia, e homens que têm cada dia da semana destinado para uma namorada, como os pedintes de irmandades, que têm uma opa differente para cada dia da semana.

Já se vê que é injustiça e embirração de velha ; mas deixemol-a fallar.

— Minha sobrinha, escuta : o amor é uma espécie de systema representativo que sern opposição degenera, e torna-se em agua morna ; o amor vive de desejos que por muito tempo flammejão debalde, de esperanças que morrem e revivem, de saudades que o alimen-tão na ausencia ; o amor brilha na adversi- 85- dade redobra de força diante dos obstaculos, e é todo magia e encanto quando se occulta na sombra e no mysterio. O amor foge da luz sem ser coruja, adora o segredo das negociações pendentes sem ser ministro dos negocios estrangeiros, maldiz da publicidade sem ser chefe de policia, e salta por cima das regras ordinarias, do direito e dos leis sem ser poder executivo.

— E que mais, minha tia ? — No outro tempo, no meu bom tempo, o amor tinha por seu ninho predilecto a cidade do Rio de Janeiro : e porque?... eu te digo : porque o amante para ver a sua amada esperava um momento propicio roubado á vigilância dos pais e tutores desconfiados ; e para fazer-lhe chegar as mãos um bilhetinho amoroso, vencia mais trabalhos que Hercules. Então havia a distancia, a ausencia, e portanto a saudade : havia um espaço immenso, um muro enorme que impedia que os amantes se fallassem, e amor industrioso dava voz e eloquencia ás flores, e o botão de rosa e o cravo branco, a saudade e a sempre-viva, a flor de laranjeira e a perpetua, dizião mais e melhor do que um discurso de copo d'agua na camara dos deputados. Havia emíim opposição e receios, esperança e temores, sombra e mysterio, e portanto havia amor.

— E agora, minha tia ? — Agora tudo isso acabou ; os pais mandão as filhas fazer sala aos mancebos que os visitão, e os bailes empurrão-as para os braços dos namorados fingidos : d'antes a difíiculdade consistia em aproveitar uma hora de conversação; hoje um moço e uma moça tratão de amor em casa, nos theatros e nos bailes, como dous agiotas que na praça do commercio conversão sobre os lucros prováveis das acções de uma empreza, em cujos resultados elles mesmos não acreditão.

— É demais ! — Qual! é de menos : já não se póde amar no Rio de Janeiro, repito ; a civilisação e o progresso espantarão o amor: a ausencia e a distancia, e portanto a saudade, desapparecerão com a estrada de ferro, que em duas horas põe em frente um do outro dous mal chamados amantes, que vivem separados a dez leguas : já não ha noite, nem sombra, nem pódet haver mysterio na cidade ; a illuminação a gaz dissipou de uma vez para sempre as trevas ; ninguém mais se lembra de escrever uma cartinha de amor, nem de mandar um recado disfarçado em algumas flores ; hoje quem não tem tempo de dizer em alta voz o que pretende á sua namorada, vai a um jornal, e manda publicar nos artigos a pedido tres ou quatro linhas desenxavidas com duas ou tres iniciaes em cima, e outras tantas em baixo, e está escripta a missiva de amor !... minha sobrinha, agora não ha mais amor, ha calculo ; não ha mais amantes, ha calculistas; não ha mais amadas, ha calculadas.

— Então, actualmente o amor...

— É uma operação de arithmetica...

— E o casamento...

— Un negocio ..

— Minha tia vive longe da sociedade moderna, e a julga com uma prevenção que a leva ao erro.

Fuja d'este retiro a que se con-demnou, volte ao mundo elegante e bello, e mudará de opinião.

Resolva-se , minha tia, resolva-se a freqüentar comigo o Cassino, o Club Fluminense, os bailes, os theatros... — Não... não...

— E porque ?...

A velha desatou uma gargalhada medonha, e respondeu : — Porque não quero roubar-te os namorados que te requestão.

Por sua vez a moça rio, e rio tanto que D.

Violante enfiou.

— De que te estás rindo, louquinha?...

— Da sua idéa, minha tia.

— Com franqueza, pensas então que seria impossivel que chegássemos a ser um dia rivaes? — Com franqueza, penso.

— Quantos pretendentes tens, minha sobrinha? — Tres.

— É pouco ; mas não importa : ficarás sem um só d'elles.

— E quem m'os ha de tomar ? — Eu.

A moça tornou a rir, e mais ainda.

— Eu, repetio a velha.

— Vossa mercê, minha tia ? — Eu mesma : vou freqüentar os teus bailes e os teus theatros, e hei-de ir a elles de touca e de oculos, como me estás vendo..

— E julga que será amada ?...

— Amada, não ; calculada sim.

— Que extravagancia, minha tia ! — Hão-de preferir-me a ti, vel-o-has.

— A mim ?... moça e bella ?...

— Duvidas ?...

— Não duvido, estou segura.

— Pois bem, apostemos ! — Apostar?...

— Sim; aposto que íicas sem um só dos teus apaixonados.

— Pois bem ; aposto.

— E aquella que perder — Recolher--se-ha ao convento da Ajuda — Coitadinha da freira!... exclamou a velha.

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