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Os Romances da Semana

Joaquim Manuel de Macedo

II

Era uma noite de baile.

Não diremos onde e quando foi celebrada essa festa profana : devemos respeitar as conveniencias e esconder entre os véos do mysterio tudo quanto possa revelar os verdadeiros nomes das personagens que figurão na historia, cujo fio vamos seguindo.

Estavão no baile a nossa feia velha D. Violante e a nossa linda joven D. Clemencia, e, como satellites d'este bello planeta, achavão-se também no baile os tres pretendentes, que ella chamara os seus tres namorados, e que D. Violante reputava tres calculistas.

Tres namorados !...

Pois então que admira isso?... uma bella moça não vale menos do que uma pasta ministerial, e cada pasta ministerial tem mais de trinta pretendentes que a namorão com desespero.

E que mal vai em que uma moça seja requestada não só por tres, mas ainda por dez ou doze namorados?... a moral fica salva desde que ella não corresponda a mais de um, e é — 91 — cousa assentada e facto reconhecido que não ha uma unica senhora que attenda aos cumprimentos apaixonados de mais de um, de cada vez.

Vamos á historia.

Mas esperem um pouco : lembra-nos agora que ainda não dissemos uma só palavra a respeito dos taes pretendentes de D. Clemência.

Cumpre-nos conhecel-os.

Um é o socio novo de uma casa commercial, que nascera e vivia por milagre do credito : este namorado chama-se Antônio.

O segundo é um Doutor, mocetão ainda, e com balda de estadista : chama-se Ambrosio.

O terceiro é um elegante do passado, e do presente, e que ainda espera sêl-o no futuro ; chama-se Claudiano.

O Sr. Antônio é homem positivo ; sente e sabe que tem o coração palpitando por baixo da algibeira onde guarda a carteira ; tem seu geito para a poesia, e pretende escrever um poema heroico á arithmetica, reservando o mais sublime dos seus cantos para a conta de multiplicar; sujeita tudo no mundo ás regras do deve e ha-de haver, e tem consciencia de que deve uma boa duzia de contos de réis e que ha-de haver uma noiva com um dote sufflciente para arranjar-lhe a vida. O doutor, se é medico não tem doentes, se é advogado não tem clientes, e portanto cheio de patriotismo deseja curar as enfermidades ou pleitear sobre as causas do Estado ; para isso falta-lhe somente uma escada que o leve as altas regiões do poder, e não sendo nem afilhado, nem parente de potestade eleitoral alguma, anda á caça de uma noiva rica bastante para com seu dote tornal-o sabio e benemerito.

O Sr. Claudiano não quer nem quiz jamais saber de commercio nem de política; foi, é, e será um exclusivo adorador das damas, adora todas, adora as ricas e as pobres, as costureiras e as fidalgas ; mas sobretudo morre de paixão por quatro, que são as de páos e de espada, de copas e de ouros.

Aos vinte e cinco annos herdara grandes cabedaes, aos trinta e cinco achou-se sem vintém, e aos quarenta e cinco está coberto de dividas ; ardendo porém sempre em seu amor pelas damas, trabalha por encontrar uma dotada com quem se case, e que lhe proporcione os meios de continuar a render tributos de vassallagem ás quatro predilectas.

Assim pois a velha D. Violante não andou muito errada em seu conceito; são tres calculistas os tres pretendentes da sobrinha.

Sendo porém tres calculistas, como lembra rão-se elles de declarar-se namorados de uma moça pobre?...

A explicação é simples : ha namorar e casar.

Os calculistas, e são tantos... tantos!... não casão com as mulheres que recebem á face da joreja : casão com o dote que ellas lhes trazem; o dote é o essencial, a mulher um annexo que o calculista carrega porque não tem outro remedio ; tomando a cousa debaixo de um ponto de vista grammatical, o casamento é um período, no qual o dote é a oração principal, a mulher a oração subordinada, e o amor a oração incidente.

Entre os calculistas, quando se trata de algum amigo que acaba de casar-se, nenhum pergunta se desposou alguma senhora virtuosa e bella.

— Casou bem?... pergunta um a outro que lhe entende a giria.

— Menos mal, responde o parceiro; casou com tantos contos de dote.

Então?... digão : quem é a noiva n'este caso ?...

é a mulher ou o dote ? E a esta pouca vergonha chama-se ter juizo.

Eis ahi o que é casar. Namorar é muito differente. Os calculistas namorão muitas vezes para se divertir. O verbo divertir é n'este caso um ver dadeiro insulto feito ás senhoras ; mas quem as insulta é somente aquelle ou são aquelles que se divertem com ellas.

O caso é que este divertimento é muito commum.

Namorão uma moça pela mesma razão porque vão ao theatro, ao jardim botânico, a uma parada da guarda nacional em dia de grande gala; namorão por passatempo ; e o amor está em tal caso tão longe do namoro, como estão as idéas religiosas longe do espirito do maior numero d'aquelles que açodem a ver passar uma procissão.

Seguindo estas theorias, os calculistas preferem naturalmente namorar uma moça bonita a perder o seu tempo com uma feia, e não receião comprometter-se por isso : acabada a hora destinada ao passatempo, os calculistas ficão frios como o gelo : os olhos mais bellos e mais ardentes do mundo, sendo olhos de moça pobre, por mais settas que dardejem, não ferem aquelles corações. Achilles mergulhado na lagoa Estyge ficou vulneravel pelo calcanhar, porque o calcanhar escapou ao banho ; os calculistas nem pelo calcanhar podem ser feridos, porque sabem viver perpetua e incessantemente mergulhados, totalmente mergulhados no golphão da cubiça, e de um interesse que muitas vezes é sordido.

Eis aqui explicado o segredo do namoro dos tres pretendentes de D. Clemência.

Pobre moça !... está de certo condemnada a entrar para o convenio d'Ajuda.

Basta de explicações : continuemos a historia.

Era, como dizíamos,- uma noite de baile.

Antônio, Ambrosio e Claudiano estavão juntos a conversar perto da porta de um gabinete que communicava com a sala : sem incommodar-se com o furor do ciume, todos tres admiravão as graças e a belleza de D. Clemência, que estava sentada defronte e ao lado de sua tia.

D. Clemência mostrava-se mais formosa que nunca : o seu toilette era simples, mas admivel de bom gosto.

D. Violante destacava-se no meio de todas as senhoras pelo ridiculo de sua figura : trazia n'essa noite oculos de quatro vidros, e uma touca ornada de fitas de todas as cores, e de laços de todos os feitios. Os tres namorados conversavão.

— Realmente, a D. Clemência é sublime ! disse Claudiano, sublime como um trinta e um batido de tres azes!... que mocetona! é pena ser pobre.

— É verdade!... acudio Antônio; é uma flor sem perfume... é como um banco sem fundo de reserva metallico.

— Tal e qual, observou o doutor ; é como um ministério cujo programma é magnifico, mas que não tem maioria nas camaras.

— E que espécie de macaca enfeitada é aquella que está ao lado de D.Clemência?perguntou Antônio.

Os dous em vez de responder desatarão a rir.

D. Clemência acompanhava de longe a conversação dos tres : comprehendeu primeiro que era d'ella que tratavão, e logo depois adivinhou que sua tia era o objecto de crueis zombarias.

Aproveitando aquella opportunidade, convidou a velha a seguil-a, e sahindo da sala, foi entrar no gabinete por uma outra porta.

— Para onde me levas, menina?... perguntou D. Violante.

— Quero mostrar-lhe os meus tres pretendentes.

— Ah! os meus tres futuros namorados...

— Seja assim ; mas venha de manso para que elles não nos vejão logo.

D. Clemência parou junto dos tres amigos que continuavão a conversar, mal cuidando que as duas senhoras os podião ouvir.

— Com effeito, dizia o doutor, é a velha mais feia que tenho visto em minha vida ; sahindo ao lado de D. Clemência, parecia-me um demonio arrastado por um anjo ! — Devião mandal-a para o musêo como raridade, e arrumal-a na sala das mumias, observou Antônio.

— Se aquella mulher fosse dama de algum naipe, exclamou Claudiano, eu juro que nunca pegaria em um baralho de cartas.

D. Clemência arrancou a velha do fatal gabinete, e disse-lhe ao ouvido : — Eis ahi os meus tres pretendentes, minha tia.

A moça tinha sido demasiadamente cruel; mas procurava assim vingar-se das pretenções de D, Violante; esta porém impávida, insensivel aos sarcasmos que ouvira, respondeu á sobrinha, dizendo: — Prepara-te para ser freira, Clemência.

— Ainda ! — Mais do que nunca; aquelles homens serão meus escravos antes de quinze dias.

As duas senhoras entrarão de novo na sala e forão occupar as mesmas cadeiras que tinhão deixado, e quasi ao mesmo tempo uma filha do dono da casa sentava-se junto dos tres amigos.

— Minha senhora, disse o doutor, será ver dade que V. Ex. quiz, além de extasiar-nos com a magnificencia do seu baile, sorprehender-nos também com a exposição de uma raridade espantosa, de um animal ainda mais feio do que o gigante Adamastor ?...

— Que quer dizer, Sr. Doutor ?...

— Quer dizer, minha senhora, acudio Antônio, que todos nós estamos doudos para saber que bicho é aquelle que está sentado junto de D.

Clemência.

A moça mordeu os labios para conter uma risada.

— V. Ex. convida almas de outro mundo para os seus bailes?perguntou Claudiano.

— Mais respeito, meus senhores, respondeu a joven: aquella senhora é tia de D. Clemência, e se nunca achou marido, foi porque somente ha pouco tempo, e depois de velha, veio visital-a a fortuna, trazendo-lhe de presente trezentos contos de reis.

— Trezentos contos de reis!... exclamarão todos ao mesmo tempo.

D. Violante percebeu a exclamação, e fallando ao ouvido da sobrinha, disse-lhe : — Repara bem, menina; os teus tres pretendentes vão começar a achar-me formosa.

A musica soou n'esse momento, annunciando uma quadrilha.

— Trezentos contos de reis... tinhão exclamado os tres calculistas, ouvindo a informaçãoque a respeito de D. Violante lhes dera a filha do dono da casa.

E logo depois, embebendo os olhos cubiçosos na touca e nos oculos da velha, todos tres a um tempo e como de ajuste, murmurarão baixinho, suavemente, e saboreando a doçura das palavras que pronunciavão : — Trezentos contos de reis!...

E cahírão em profunda meditação.

Não ouvirão mais a musica brilhante que soava, não sentirão o doce contacto dos vestidos magníficos que passavão, roçando ás vezes pelos seus joelhos, não se moverão ao ruido gracioso de confidencias mysteriosas que perto d'elles se fazião... nada mais os occupava, nada: os tres grandes philosophos da modernissima escola meditavão profundamente, tendo porém os olhos sempre embebidos na touca e nos oculos da velha.

E a sua meditação era a mesma, era iden tica : achavão-se todos abraçados com uma só idéa.

Que admiravel solidariedade... na essencia erão todos tres um só : divergião apenas nos detalhes : erão pouco mais ou menos como qualquer dos nossos ministerios, parlamentares por excellencia, nos quaes os ministros são solidários em tudo quanto diz respeito ao amor do bello, e brigão sempre entre si nas questões do detalhe.

Erão solidarios na paixão ardente que já lhes estava inspirando a velha, e pensavão todos tres como se fossem um só, dizendo cada um comsigo mesmo : — Uma velha bem velha é preferivel a uma moça bem moça, quando são igualmente ricas, se se trata de casamento : é preferível, porque a velha naturalmente não exclue a moça, e esta naturalmente èxclue aquella. — Sim; uma moça tem uma longa vida diante de si, e não morre nem á força de bailes e de theatros, e nem á força de ceias e de vigilias ; e portanto uma moça quer dizer um casamento sem viuvez, isto é, um dote só !... Chama-se a isto meia fortuna. A uma noiva bem velha carrega-se de brilhantes, leva-se incessantemente ao theatro e aos bailes, e lá dáse- lhe sorvetes quando o calor é mais intenso, trata-se de cercal-a de mil fingidos cuidados ; na mesae de noite principalmente, pede-se lhe que coma muito, e de muitos pratos, e ás duas por tres vem uma boa indigestão, leva o diabo a velha, fica uma pingue herança, e vai-se procurar então a moça rica : chama-se a isto dous dotes — uma fortuna inteira. — Não ha nada como uma velha bem velha e bem rica!..

E portanto o bicho, o animal ainda mais feio do que o gigante Adamastor, a alma do outro mundo, a macaca enfeitada, não é isso, não ; não é : pelo contrario é um anjo Até aqui a solidariedade.

A divergencia nos detalhes era muito natural.

O Sr. Antônio pensa que casando com D.

Violante ganhará tanto como se quebrasse duas vezes : vê avultar o seu credito na praça, premedita organisar uma empreza de lucros problematicos para os accionistas, e seguros para si, e suspira, lembrando-se dos gozos e das glorias de capitalista.

O Dr. Ambrosio vê-se deputado ; dá sota e basto na Camara; arranja empregos para os parentes, e duas ou três sinecuras para si; não vota em opposição nem pelo diabo, e com uma consciência em leilão, e com uma bocca aberta e capaz de engulir o mais monstruoso dos pães de ló da mesa do orçamento, alto e bom som de clara que é um homem indepen dente, porque tem uma fortuna de trezentos contos.

O Sr. Claudino imagina-se jogando o Zansquenet tres noites por semana, e parando contos de reis em todas as damas ; e outras tres noites vê-se cercado de jovens espirituosas que o admirão, que o festejão, que o amão, e que o fazem atraiçoar a sua velha.

E quem paga tudo isto... as glorias do capitalista — a independencia do estadista — as orgias do dissoluto... é a fortuna de trezentos contos de reis de D. Violante.

Ah !... se as velhas tivessem juizo!...

A meditação dos três sublimes calculistas tinha durado meia hora.

Hão-de talvez pensar que foi pouco tempo para tão longas reflexões.

Ora !... em menos de meia hora também um deputado ou um senador escreve em cima da coxa uma emenda ou um artigo additivo, que põe em desordem a administração publica, ou em largo tributo o suor do povo.

Defronte dos tres calculistas, D. Violante cuidadosae attentaos observava, provocando a cada momento a vaidosa sobrinha, que nem sequer tolerava a idéa de uma lucta seria com sua velha tia.

Pobre moça! acreditava mais no seu espelho do que no cofre de ouro de D. Violante.

_ Menina! disse a velha; quem já teria ido dizer aos teus tres pretendentes que eu sou solteira e possuo trezentos contos de reis?...

— Porque, minha tia ? — Ora porque!... não vês como elles me estão devorando com os olhos ?...

— Estão admirando a sua touca, minha tia, respondeu a moça sorrindo.

— A touca, e também os oculos, embora ; mas qualquer dos três morre já de amores por mim.

Clemência olhou para Violante, e vendo a seriedade com que ellafallava, não poude conter uma risada.

— Ah! tu zombas de mim, infeliz vaidosa? pois bem : eu queria poupar-te ainda esta noite ; uma vez porém que me desafias, juro-te que te has de retirar do baile com o desespero no coração.

— Que vai então fazer ?...

— O que tu fazes ; corresponder aos requebros e cumprimentos dos teus tres namorados.

— Minha tia... veja o que faz... não se exponha ao ridiculo...

— Que ridiculo! a riqueza é uma cousa muito seria, minha sobrinha, e ninguém, ri de um cofre de ouro, ainda mesmo que elle faça caretas.

— Já vio algum cofre fazer caretas ?...

— Tola, o cofre de ouro sou eu ; e quem te vai roubar os tres namorados não é a velha, é o seu dinheiro.

— Minha tia faz umaidéa dos homens...

— Amais justa que é possível : o mundo ou a sociedade, Clemência, transformou-se em um immenso mercado, onde tudo se compra e principalmente maridos.

— Ah! meu Deus ! — É verdade : não dansas hoje com aquelles senhores?...

— Danso : a terceira quadrilha com aquelle que está calçando as luvas...

Era o Sr. Antônio.

— A quarta com o que está roendo as unhas...

Era Claudiano...

— E a quinta com aquelle que está com as mãos sobre a barriga.

Era o Dr. Ambrosio : o futuro estadista, o homem de bossa politica, que já então afagava a barriga!!! A velha começou a cumprir a sua palavra e com horriveis tregeitos e mal arrajados sorrisos foi pagando os olhares enternecidos, que sobre ella dardejava cada um dos tres apaixonados de Clemência.

A terceira quadrilha ia principiar.

O Sr. Antônio veio offerecer o braço a Cle- mencia, e aproveitou a occasião para dirigir um eloqüente cumprimento á velha, que lh'o pagou com uma phrase animadora.

Antônio e Clemência collocárão se na quadrilha perto de D. Violante, que ficara sentada : Antônio voltando-se um pouco podia vêl-a e até fallar-lhe : esqueceu-se pois das contradansas e do seu formoso par...

Clemência a principio divertio-se com a contemplação em que estava o seu cavalheiro ; em breve porém acabou por irritar-se.

O Sr. Antônio perdia pelo menos dous compassos em cada contradansa ; uma vez offereceu a mão a D. Violante em vez de offerecel-a a Clemência, e outra atirou desastradamente com o leque da linda moça no meio da sala.

Clemência, acabada a quadrilha, sentou-se visivelmente incommodada.

— Que tens, menina ?... perguntou-lhe a tia.

— Eu, nada... mas aquella homem é mais grosseiro do que eu podia suppôr...

— Qual grosseiro ! é a paixão que já lhe faz andar a cabeça á roda,..

— Paixão por quem, minha tia ! — Pelo meu dinheiro, está visto : olha, a tua rival não sou eu, nem a minha touca; é a minha fortuna.

Clemência voltou o rosto.

Na quarta quadrilha a formosa moça foi ao menos mais feliz : Claudiano, apezar de lançar de vez em quando amorosas vistas para Violante, portou-se como um cavalheiro delicado e cheio de cortezia : também, acabada a quadrilha, Clemência pagou-lhe com, usura concedendo-lhe um longo passeio.

No entanto, a cadeira cm que se sentava Clemência, foi por momentos occupada pelo Dr.

Ambrosio.

— V. Ex. não dansa? perguntou elle á velha.

E, o que é mais, perguntou sem rir.

— Oh! não zombe de mim; respondeu ella, quem se animaria a dansar com uma velha ?...

— Velha!... exclamou o doutor; V. Ex.

calumnia os seus trinta a trinta e cinco annos.

— Tenho sessenta e um, meu senhor.

— Sessenta e um! é incrivel!... mas também Ninon de Lenclos era moça aos oitenta annos, e creio que ainda dansava n'essa idade. — Ora...

— Conceda-me V. Ex. a honra de uma quadrilha...

— Senhor!...

— V. Ex. deve ser um anjo dansando... e eu julgar-me-hei no paraiso, se tiver a gloria de ser o seu cavalheiro.

— Está fallando seriamente ? — Eu juro pelos seus encantos, minha senhora...

— Pois bem... dansaremos a quinta quadrilha.

Era a quadrilha ajustada com Clemência.

— A quinta... balbuciou o doutor ; se pudesse ser outra...

— Ah! eu logo vi que era victima de uma zombaria...

— De modo nenhum... mas é que eu estava engajado para a quinta quadrilha com...

— Como lhe parecer ; mas já agora, ou ha de ser a quinta ou nenhuma.

— Pois seja a quinta, minha bella senhora, exclamou promptamente o doutor.

Entravão n'esse momento na sala Claudiano e Clemência.

O Dr. Ambrosio levantou-se para deixar livre a cadeira de Clemência.

A velha lançou os olhos Claudiano, e vio-lhe no peito um ramosinho do violetas.

Ora, Clemência tinha na mão um bouquet de violetas : a origem do raminho era pois evidente.

— Feliz de quem passeia n'um baile ! disse a velha quando Clemência sentou-se.

— A felicidade será de quem puder passear com V. Ex., observou Claudiano.

— Pois façamo-nos mutuamente felizes, respondeu Violante, levantando-se e tomando o braço de Claudiano, que estremeceu ao con-tacto da mão da velha.

Os dous sahírão da sala.

O passeio durou cerca de vinte minutos : no fim d'elle Violante veio sentar-se ao lado da sobrinha, e agradaceu com a mais refinada amabilidade a Claudiano, que se retirou enthusiasmado, depois de beijar a mão da velha.

Passarão alguns instantes de silencio : Clemência não ria mais.

De súbito D. Violante tocou-lhe no braço e perguntou-lhe : — Gostas muito das violetas, menina ?...

Clemência voltou-se e corou até a raiz dos cabellos, vendo no mão de sua velha tia o raminho de violetas que estivera no peito de Claudiano.

Era a segunda victoria que Violante alcançava n'aquella noite: era a segunda derrota que Clemência experimentava n'aquelle baile.

Mas a musica soou...

— Ao menos agora trata-se de um homem de lettras, disse comsigo a bella moça ; e por tanto o triumpho será meu... Pobre D.

Clemência! esquecia-se de que as lettras se descontão !... O Dr. Ambrosio approximava-se...

— Clemência ia já levantando-se para aceitar o braço do cavalheiro, quando vio que sem a menor ceremonia elle offerecia a mão a Vilante.

A moça deixou-se cahir sentada na cadeira como fulminada por um raio.

— Não dansas esta quadrilha ? perguntou-lhe a velha terrivel.

— Oh!... ainda bem que a não danso! exclamou Clemência; reconheço que me rebaixaria muito se a dansasse !...

— Minha Senhora, disse o doutor Ambrosio a Violante, a musica nos chama... a gloria me espera...

— Não, não, tornou a velha: minha sobrinha está incommodada, e vai de certo retirar-se : não posso deixar de acompanhal-a.

E também por sua vez o Dr. Ambrosio retirouse desapontado.

Era a terceira victoria da velha, e a terceira derrota da moça.

Tres vezes o ouro triumphára da belleza n'aquella noite.

IV

É facil a qualquer imaginar que noite amargurada e dolorosa passou a pobre Clemência, depois da tríplice derrota que soffrêra no baile.

A sua vaidade de moça formosa tinha sido profundamente ferida, porque nem lhe era dado rir-se e zombar dos triumphos da velha.

Violante, mais habilmente do que se devia esperar, tinha collocado a questão no seu verdadeiro pé, dizendo: « Clemência, a tua rival não sou eu, é a minha fortuna » ou por outra: « a lucta é entre a formosura e a riqueza. » E a riqueza estava arrancando todos os louros á formosura.

Apenas chegada á casa, Clemência correu a fechar-se no seu quarto, e indo buscar um retrato que tinha de sua tia, e em que o daguerreotypo com a sua reconhecida fidelidade reproduzira a velha com todos os traços feissi-mos do seu semblante, e ainda com a touca e os oculos de que usava, a moça fixou-se de fronte do toucador, e ora olhando para a sua propria e encantadora imagem, ora para o retrato de Violante, exclamava de instante a instante : __ E poude vencer-me!... e poude vencer me! E uma vez que apertou convulsivamente o retrato em suas mãos, sentio maguados os finos e delicados dedos... Olhou, e vio que essa impressão incommoda era devida a uma preciosa cercadura de brilhantes que ornava o retrato.

— Os brilhantes !... disse ella; é isso mesmo ! são os brilhantes que me ferem e que me fazem gemer ; são estas pedras que brilhão mais do que os meus encantos e do que as minhas virtudes !...

Oh ! minha tia tinha razão ! O pranto não pôde correr sempre, a colera e o despeito abrandão-se pouco a pouco, principalmente no coração de uma moça, que nunca deixa de sorrir á esperança.

As dez horas da manhã do dia seguinte, Clemência levantou-se menos afílicta e mais resignada.

— Agora o que cumpre, disse ella gracejando comsigo mesma, é não perder a aposta para não entrar para o convento d'Ajuda : sim, cumpre que minha tia não ganhe a aposta : porém como ? Ora... sempre hei de achar um meio...

— E desatando os seus formosos cabellos, começou a pentear-se e a meditar.

Ah ! uma moça defronte do toucador, quando não tem um theatro, um passeio, um baile que a espere, e que com suaves e carinhosas mãos principia a brincar, a anellar, a alisar, a festejar seus cabellos, que sabe que são bellos, é a mais esquecida e também a mais occupada e feliz das creaturas.

É portanto excusado dizer que Clemência meditou até depois do meio-dia, e quando concluio o seu penteado estava animada, risonha, e com um ar de malícia que tinha alguma cousa de sinistro para a velha tia, ou pelo menos para os tres calculistas.

Quinze dias correrão depois d'aquella noite de baile em que tanto soffrêra a vaidade de Clemência.

Violante havia escripto no fim de umo semana á sobrinha, communicando-lhe que a triplice paixão que a sua fortuna inspirava, ia em muito bom caminho : que em breve contava receber tres pedidos de casamento, e que portanto cumpria que Clemência se dispuzesse a entrar com a maior brevidade para o convento da Ajuda, conforme a condição da aposta feita entre ellas.

A moça não mais se admirou das faceis conquistas realisadas por sua tia, mas também não se incommodou com a noticia : tinha concebido um plano que lhe parecia seguro para não perder, ou pelo menos para não deixar Violante ganhar a aposta, e assim limitou-se a responder a Violante, pedindo-lhe que a prevenisse do dia em que tinhão de effectuar-se os pedidos de casamento.

No fim dos quinze dias cujo correr mencionamos, Clemência recebeu de sua velha tia um bilhete contendo estas unicas palavras : « Vem jantar comigo amanhã, sem falta. » É portanto amanhã, disse comsigo Clemência.

E é desnecessário accrescentar que não faltou ao convite.

— Então, minha tia, é hoje o dia feliz do seu triplice e completo trimpho ?...

Sim ; hoje receberei os meus tres pretendentes, que cada um por sua vez, ou todos ao mesmo tempo, me hão de pedir em casamento.

— E n'estes ultimos quinze dias...

— Tenho sido cantada em prosa e verso; já recebi um soneto aos meus oculos, uma ode á minha touca e um discurso em que se demonstra o poder dos meus encantos.

— E gostou ? — Do discurso principalmente; achei-lhe no entanto um unico defeito: em lugar de encantos, o autor do discurso devia ter escripto em contos. Se assim o fizesse, eu o preferiria aos seus dous rivaes pelo merecimento da sinceridade e da franqueza.

— Espera por conseqüência os seus tres pretendentes hoje...

— Sim, os teus tres namorados...

— ... e para abater-me ainda mais, quiz fazerme testemunha da sua brilhante victoria, e para isso mandou-me convidar...

— Pois não mandaste pedir que o fizesse ?...

— Não, minha tia; eu somente pedi que me previnisse do dia marcado para sua dita: não me queixo porém do que praticou comigo, e antes lhe agradeço.

— Ainda bem.

— E então, casa-se, minha tia ?... casa-se deveras ?...

— Não sei; tu que dizes ?...

— Sou ruim conselheira ; mas, em todo o caso, pretende tomar hoje mesmo uma resolução definitiva ? — Resolve tu por mim.

— Qualquer que seja a sua decisão, se ella hoje fosse dada, estaria decidida a nossa aposta, e teria de entrar para o convento...

— Assim o penso.

— ..... porque, ainda quando se não qui-zesse casar, nem por isso teria menos roubado os meus tres namorados...

— Exactamente.

— Pois bem : eu não resolvo cousa alguma por isso mesmo, mas vou fazer-lhe um pedido.

— Qual?...

— O de uma dilação...

— Como ?...

— Peço-lhe que hoje receba os pedidos de casamento que lhe vêm fazer os seus tres namorados, mas adie por oito dias a resposta que lhes deve dar.

E com que fim me pedes isso ?...

— Espero por minha vez roubar-lhe os tres noivos nos oito dias que vão passar.

— Louca ! vaidosa !...

— Peço-lhe oito dias...

— Não, oito dias é muito; dou-te por misericordia tres dias.

— Aceito.

— E contas ?. .

— Não entrar para o convento.

— Porque ? — Porque no fim de tres dias terei a meus pés os tres noivos da minha tia.

N'esse momento as duas senhoras sorrirão, ouvindo o rodar de três carruagens que entrarão na chacara.

O ruido que Violante e Clemência acabavão de ouvir, era com effeito o das carruagens que trazião os tres apaixonados da fortuna da velha.

O Sr Antônio, o Dr. Ambrosio e Claudiano ficarão sorprehendidos ao encontrar-se na mesma casa e a mesma hora, e cada um por sua vez olhou curioso e desconfiado para os outros, procurando adivinhar o motivo que alli os reunia, e bem depressa a sorpresa se transformou em vexame, achando-se todo tres em frente da formosa moça de quem se tinhão fingido namorados.

A sorpresa era facil de explicar.

Emquanto rendião finezas e falsos juramentos de amor a Clementia, os tres calculistas tinhão vivido em perfeita solidariedade ; não havia entre elles ciume possivel, e de accordo commum namoravão a bella moça, como bons amigos que se divertião em sociedade; desde porém que ouvirão a noticia dos trezentos contos da velha, esbarrarão diante da realidade, e cada qual quiz para si a interessante noiva dos 61 annos : Violante foi para elles o pomo da discordia, e cada um tratou de enganar os companheiros, manejando o seu negocio com o mais profundo segredo.

Qualquer dos tres se havia apressado a fazer o seu pedido de casamento muito mysteriosa e reservadamente; mas a nossa boa velha, que parecia conhecel-os bem, o sem mazára a todos para o mesmo dia e para a mesma hora, afim de vêl-os e de aprecial-os reunidos.

O vexame é que se torna um pouco difficil de ser comprehendido. O vexame importaria em tal caso pelo menos um resto de pudor, e pudor na desmoralisação não é muito admissivel : expliquemos pois esse vexame pelo resentimento da hypocrisia d'aquelles tres calculistas, que se vião desmascarados diante de Clemência.

Quem não se sentio vexada e nem se mostrou offendida, foi a sobrinha de Violante, que tinha tomado o seu partido e disposto um plano cujo resultado lhe parecia seguro.

Depois dos comprimentos de recepção e de uma hora de conversação cheia de banalidades, reinou silencio na sala por alguns minutos : era o momento critico que chegava ; os tres pretendentes estavâo em brazas : Violante aprazia-se em vêl-os assim. Clemência tomou a si, precipitar o desfecho.

— Adivinha-se, disse ella, que os senhores vierão aqui para o mesmo fim.

— Para o mesmo fim ?!!! exclamarão os tres a um tempo.

— Sem a menor duvida: pelos vestidos que trajão, pelo ceremonial com que chegarão, e pela emoção que mostrão, é caso grave ; é pois questão de enterro, ou de baptisado, ou de casamento, e como felizmente minha tia não morreu, como não é casada, e portanto não tem filhos a baptisar, segue-se que cada um dos senhores vêm pedil-a em casamento. Creio que adivinhei.

Antônio olhou para Ambrosio e Claudiano com cara de negociante agiota que encontra na praça em baixa completa as acções da companhia com que contava arranjar-se, e em sua colera nem reparou que Ambrosio tinha cara de politico ganhador que sente estar a ponto de perder a fatia de pão-de-ló que devia alimentar o seu acrysolado patriotismo, e que a cara de Claudiano fazia lembrar a do jogador a quem os parceiros dão o basta, logo depois de lhe ganharem todo o dinheiro.

Mas era preciso salvar as apparencias, e cada um dos tres, procurando fazel-o, suffocou o seu despeito o repetio o pedido de casamento á velha, deixando ouvir sublimes protestos de desinteresse e fervorosas juras de um amor violento e desinteressado.

Emfim, era indispensavel que Violante fallasse.

— Meus senhores, disse ella, eu sou sensivel á paixão que involuntariamente inspirei a tão dignos cavalheiros ; estou resolvida a casar-me com um dos senhores : a escolha porém é tão difficil que somente depois de muito reflectir conseguirei fazel-a ; rogo-lhes pois que voltem aqui no fim de 3 dias, na segunda feira: preciso, além d'isso, d'esses tres dias para tomar algumas disposições.

— Essas disposições, accrescentou Clemência, hão de importar um grande favor que vou dever á minha boa tia, e que eu desde já lhe agradeço.

Violante entendeu como poude ou como quiz as palavras da sobrinha, e os tres calculistas, que não as comprehendêrão, nem por isso deixarão de tomar nota do que acabavão de ouvir.

Os pretendentes, fazendo-se mutua justiça e reconhecendo que nenhum seria deixado só em campo, levantárão-se ao mesmo tempo para retirar-se.

— Os senhores não vão depois de amanhã ao Club Fluminense ? perguntou Clemência.

— Sim, minha senhora,. responderão tres vozes.

— Pois até o club, meus senhores !... Um momento depois estavão a sós Violante e Clemência.

— Menina, disse a velha, pareceu-me que dirigiste um desafio aos meus tres pretendentes.

— Não foi desafio, minha tia, foi apenas um aprazamento.

— E ousas ainda...

— Tudo : minha tia perdeu-se concedendo-me uma dilação de tres dias.

— Estás a ponto de endoudecer.

— Estou era vesperas de triumphar.

— Lembra-te da minha riqueza.

— O credito também é riqueza, e vossa mercê verá como eu vou ter credito na praça.

— Pois bem ; virás jantar comigo na segunda feira.

— Sim; e minha tia irá jantar comigo na terça.

Ao anoitecer, a tia e a sobrinha se separarão.

V

No dia seguinte Violante recebeu pelo correio urbano tres cartas anonymas.

Na primeira Ambrosio e Claudiano erão postos pela rua da amargura : suas familias, seu caracter e seus costumes erão horrivelmente despedaçados : em metade da carta predominava a verdade, na outra metade a calumnia espalhava veneno Na segunda as victimas erão Antônio e Claudiano, na terceira Antônio e Ambrosio.

Cada um dos pretendentes tinha escripto a sua carta anonyma.

O anonymo nunca é generoso, e muitas vezes é uma indigna mascara que esconde a face abjecta da infamia e da corrupção.

O anonymo é irmão do pasquim.

Mas deixemos observações que não vem ao caso, e prosigamos.

As tres cartas anonymas denionstrão que os tres pretendentes de Violante conservavão-se firmes no seu proposito, constantes no seu amor; não admira : o amor mais constante que geralmente se conhece é o amor do di_ nheiro ; é um amor que não esfria, e que pêlo contrario se exalta cada vez mais Entretanto, o que não se pôde bem comprehender, o que a propria D. Violante com toda a sua experiência de 61 annos não seria capaz de explicar, é a festa, a corte, o agrado, o affecto com que dous dias depois no Club Fluminense foi Clemência obsequiada pelos tres pretendentes á mão da velha.

Não foi um só, fórão todos tres que cercarão e renderão mil finezas á formosa moça, que a principio mostrou-se um pouco resentida, e afinal deixou-se commover por elles.

Dir-se-hia que cada um por sua vez se esforçava por demonstrar a Clemência que nunca deixara de morrer de amores por ella.

Antônio, Ambrosio e Claudiano forão iguaes no proceder, no fallar, e no requestar Clemência: erão tres homens com a mesma alma e o mesmo coração. Cada um d'elles mereceu da bella moça uma contradansa, uma valsa, e um passeio ; cada um d'elles, como se todos tres se houvessem para isso ajustado, declarou a Clemência, jurando por todos os santos do céo, que pedira Violante em casamento levado pelo desespero de não poder merecer a mão da formosa joven ; e o que esta respondeu muito em segredo a cada um d'elles foi um doce mysterio, que o Sr. Antônio encobrio cuidadoso do Dr. Ambrosio e de Claudiano, que o Dr.

Ambrosio occultou cora o maior empenho de Antônio e de Claudiano, e que Claudiano não diria a Antônio e ao Dr. Ambrosio, nem mesmo a preço de vinte cartadas felizes e consecutivas no lansquenet.

Ainda bem que a velha D. Violante não foi ao Club Fluminense n'aquella noite.

Parece que a moça preparava uma batalha decisiva contra a velha.

Quaes os seus meios de acção ?... o poder dos seus encantos triumpharia em fim da portentosa influencia dos trezentos contos de réis de D.

Violante?... Não é licito acredital-o.

Como então vai Clemência conseguindo operar tão notavel transformação no espirito dos tres calculistas ?...

É um mysterio.

Dizem que as moças não sabem guardar segredo: sabem, sabem : quando lhes faz conta, sabem.

Moças !... Pensão alguns que essas borboletas que adejão ligeiras e inconstantes, são incapazes de forjar planos intrincados e difficeis, e mais incapazes ainda de preparar uma vingança calculada e habil. Engano : quando se trata de amor, ellas todas são mais astutas do que o mais adextrado diplomata, e feridas em sua vaidade sabemvingar-se dextramente, e ás vezes sem piedade. São rosas, sim ; mas por ventura as rosas não têm espinhos ? ..

O dia da segunda-feira chegou, e Clemência não se fez esperar por Violante.

— A que horas devem chegar os seus tres pretendentes, perguntou a moça.

— Pois já te não lembras ?... ás duas horas, minha sobrinha esquecida.

— Ainda bem : temos tres horas diante de nós.

Então conta com elles minha tia ? — Não ha duvida possível, visto que não me tornei pobre de rica que era. Conto com elles e até lhes mandei preparar um bom jantar.

— Deus queira que não jantemos sós, minha tia — Incredula !...

A despeito das suas esperanças, Clemência estava um pouco receiosa ; Violante porém confiava na sua boa fortuna.

— Já tomou a sua resolução, minha tia ?...

— Caso-me decididamente, respondeu Violante, rindo.

— E qual dos tres prefere ?...

— Na questão de preferencia é que está o meu unico embaraço : creio que o melhor dos tres é o doutor...

Entrou n'esse momento um escravo na sala e entregou umac arta a Violante Vê o que contem esta carta, disse a velha á sobrinha. Clemência abrio e leu sem hesitar : « Minha senhora. — Com o mais profundo pezar e cedendo a circumstancias com que não contava, sou obrigado a desistir das minhas pretenções á mão de V. Ex. Não podendo ser o esposo, será sempre o mais obediente escravo de V. Ex. — O Dr. Ambrosio.

— E esta! ..exclamou Violante, tomado a carta da mão de Clemência e lendo-a quasi com incredulidade.

— É um de menos, minha tia : mas ainda lhe ficão dous.

— Sim, e preferirei o negociante que me há de augmentar a fortuna.

O escravo entrou outra vez com uma segunda carta.

Violante não deu mais a carta á sobrinha: abrio-a e leu : era do Sr. Antônio, e dizia pouco mais ou menos o mesmo que dissera na sua o Dr. Ambrosio.

A velha não pronunciou uma unica palavra : poz-se a arranjar a touca eos óculos.

— Lá se foi o segundo ! mas ainda bem que ainda lhe resta um ; observou Clemência.

— Sim... o peior de todos... o jogador que esbanjaria a minha fortuna em poucos mezes : está visto que esse não me voltará as costas...

e...

E o escravo entrou na sala pela terceira vez, trazendo uma terceira carta.

— Lê... lê, Clemência, porque eu não acreditaria nos meus oculos.

Clemência abrio a carta e leu : tal e qual como as duas primeiras, essa continha uma despedida formal e as desculpas de Claudiano.

— Todos tres!... exclamou a velha ; todos tres!... mas é inacreditavel!...

— Minha tia, a verdade não é sempre verosimil.

— Porém todos tres !... ah ! sim... adivinho — Adivinha o que ?...

— N'estes ultimos tres dias os calculistas descobrirão uma velha mais rica do que eu sou.

Clemência desatou a rir.

— De que ris ?...

— Da sua derrota, minha tia.

— Tu porém não venceste ..

— Quem sabe ?...

— Falia.

— Ainda é cedo: o seu dia foi hoje, segundafeira : o meu é amanhã, terça-feira.

— Mas então que faremos hoje ?. .

— Jantaremos sós, minha tia.

Não é preciso dizer que Violante foi bem cedo apresentar-se no dia seguinte na casa de seu irmão, que aliás a deixou só com Clemência sahindo a cumprir o seu dever de empregado publico.

A velha nem um só instante nutrira a idéa de casar-se : pretendeu dar uma lição á sobrinha; agora porém estava realmente curiosa para ter a explicação da sua derrota.

Apenas se achou a sós com a sobrinha, apertou-a para que lhe fizesse comprehender a deserção inesperada dos tres calculistas.

— Ao meio-dia saberá tudo, respondeu Clemência.

— Mas até o meio-dia que faremos ?...

— Vossa mercê já leu os jornaes de hoje ? — Eu não perco tempo lendo jornaes, menina.

— Pois faz mal, ás vezes acha-se a explicação de muitos factos.

— Que queres dizer ?...

— Nada, minha tia.

— Mas eu ardo de impaciencia...

— Porque ?...

— Porque não admitto que falhasse o meu principio.

— Qual?...

— O do poder do dinheiro na epoca actual.

— Pois socegue, não falhou.

— Então é certo que os tres calculistas descobrirão outra velha mais rica do que eu !...

— Não, senhora.

— N'esse caso falla...

— Ainda não... mas... está dando meio-dia ; não ouve ?...

— O que ? os sinos a darem meio-dia ?...

— Não : o rodar das carruagens que párão.

— E então ? — São elles.

— Elles quem ? — Os tres calculistas, sem duvida.

— Os tres !... e tu pensas...

— Que elles vem pedir-me em casamento.

— Tal e qual como aconteceu comigo ?...

— Com uma unica differença... disse Clemência rindo.

— E qual é ella ? perguntou a velha.

— E que eu não mandei preparar um banquete para offerecel-o aos meus pretendentes.

Com effeito, o Sr. Antônio, o Dr. Ambrosio, e Claudiano tinhão ao mesmo tempo feito parar á porta da casa do pai de Clemência as carruagens em que vinhão, encontrando-se na mesma escada.

— É celebre ! disse Antônio.

— É incrivel ! disse Ambrosio.

— É inaudito ! disse Claudiano.

apresentárão-se na sala já um pouco desapontados, e ainda mais o ficarão esbarrando com Violante, que os cumprimentou com ar sinistro, e emfim perdêrão-se de todo, vendo um sorriso malicioso brincando nos labios de Clemência.

— Meus Senhores, disse a moça, meu pai não se acha em casa ; mas eu posso ouvir e responder ás proposições que me quizerem fazer.

— Hão de ser curiosas ! observou a velha.

Os tres calculistas, fallando cada um por sua vez, disserão, como de costume, absolutamente a mesma cousa. Vinhão todos pedir Clemência em casamento, e cada qual animado por uma doce esperança que ella deixara accender-se em seu coração.

— É verdade, meus senhores : na ultima partido do Club Fuminense autorisei a cada um dos senhores em particular para vir hoje a esta hora que eu marquei, pedir-me em casamento a meu pai; arrependi-me porém de tel-o feito, e isso por uma razão muito simples. Os senhores fazião-me a corte desde algum tempo, e bem que eu nunca houvesse dado a qualquer dos tres direito algum sobre meu coração, vi de subito e com sorpreza que todos me voltarão o resto, e que se declaravão amantes apaixonados de minha tia, e pretendentes á sua mão ; outra vez, de subito, os senhores voltarão a curvar-se a meus pés, e fallárão-me todos em casamento ; semelhantes mudanças tão completas e tão rápidas devem ter uma explicação, e sem que os senhores m'a dêem, não receberão da minha bocca resposta alguma.

Os tres calculistas ficarão olhando-se mutuamente e corridos do papel que estavão representando.

— Tenhão a bondade de fallar, tornou Clemência.

Antônio, Ambrosio e Claudiamo explicarão o seu procedimento pelo poder dos encantos e da formosura de Clemência.

— Dizem a verdade?... perguntou ella.

Os tres calculistas jurarão com enthusiasmo que a paixão que sentião era profunda e invencivel.

— E insistem nas suas pretenções? Elles insistirão mais do que nunca.

Clemência voltou-se então para Violante e disse: — Minha tia, vou pedir-lhe perdão de um abuso que commetti, e provar-lhe que convém muito ler os jornaes.

— Que queres dizer ?...

— Quero dizer que ha dous dias appareceu nos diversos jornaes diarios da capital a noticia que vou repetir palavra por palavra : eil-a : « Ainda ha almas bemfazejas e parentes verdadeiramente dedicados. Uma nobre senhora de idade de 61 annos, que possuia uma fortuna de trezentos contos de réis, e tinha uma sobrinha moça, bella, porém pobre, vendo-se ultimamente instada por tres pretendentes á sua mão, e resolvendo-se a tomar um d’elles para marido, determinou antes de casar-se fazer, e de facto fez, doação de duzentos contos de reis á sua virtuosa e linda sobrinha, que ficou por esse modo ainda mais rica do que a tia. Esta boa e nobre parente é digna de todos os elogios. » — Que significa então isto ?...

— Ah ! minha tia, quer dizer que eu forjei uma noticia falsa; vossa mercê não me fez doação de um só vintém ; mas hoje isso me importa pouco, porque estes senhores amão-me apaixonada e desinteressadamente, e portanto...

— Como está corrompida a imprensa do paiz!... exclamou Ambrosio, eu vou chamar á responsabilidade todos esses indignos jornaes!...

E sahio desesperado da sala.

— Perdão, minha senhora, murmurou Antônio gaguejando; mas quem improvisa noticias destas, nunca poderá fazer a felicidade de um marido! -132- E tomando o chapéo, seguio a Ambrosiu.

— Oh! ainda bem que me resta o Sr.

Claudiano! disse Clemência rindo muito.

— Minha senhora, respondeu este, eu sou um companheiro fiel daquelles dous illustres cavalleiros, e visto que elles sahirão, está visto que não posso ficar...

Vendo retirar-se o ultimo dos tres calculistas, as duas senhoras começarão a rir com a melhor vontade.

Emfim Clemência poude conter-se, e perguntou : — Então qual de nós duas vai para o convento, minha tia?...

— Nenhuma, porque ambas perdemos.

— Diga antes que ambas ganhamos.

— Concordo; mas a minha opinião ficou sempre victoriosa. Hoje em dia não se ama no Rio de Janeiro : já não ha mais casamentos por amor, ha somente casamentos por dinheiro.

— Não, minha tia : em todos os tempos houve sempre homens nobres e generosos, e homens indignos e vilmente interesseiros, e o que toda a senhora deve pedir ao céo é que lhe depare por marido um dos primeiros, e que a livre e guarde dos segundos.

UMA PAIXÃO ROMANTICA UMA PAIXÃO ROMANTICA I.

Um estudante é um homem excepcional que não se parece senão com outro estudante. O seu viver, o seu pensar, o seu proceder tem pontos de notavel dissemelhança do viver, do pensar e do proceder dos outros homens.

Um estudante reputa-se membre de uma republica independente, na qual o chefe do Estado é o director da escola, e são ministros os lentes e professores, e não reconhece mais autoridade legal abaixo do bedel.

Um estudante é o mais altivo dos aristocratas : para elle são nobres os seus mestres, nobres os outros estudantes; e todo o resto da humanidade vale tão pouco a seus olhos que designa com o nome bicho tanto ao mendigo como ao millionario, tanto ao plebeu como ao mais graduado dos titulares.

Um estudante é poeta, ainda que não faça versos; não é pobre nem mesmo quando não tem um real de seu, e não é bastante rico, embora tenha uma mezada sufficiente para sustentar quatro ou seis estudantes ; nunca lhe falta e nunca lhe sobra o dinheiro.

Um estudante ri de tudo, e de tudo zomba : tem um coração tão grande que lhe chega para guardar dez amores a um tempo; tem uma imaginação tão feliz que engendra dez romances em uma noite, e uma esperança tão lisonjeira, tão bella e tão fallaz que não enxerga no futuro senão felicidade e gloria.

Um estudante é o Gabrion do inspector de quarteirão; é objecto de todas as considerações do subdelegado de policia que não quer graças com elle : é nas platéas dos theatros uma potencia altamente considerada; é sympathico aos olhos de todas as senhoras ainda moças, e.

temido por todas as senhoras já velhas.

Um estudante tem sempre uma declaração de amor á flor dos labios, e um epigramma na ponta da lingua. É franco e leal, mas ao mesmo tempo impertinente e desastrado; é generoso e ousado ; é tão docil que qualquer o domina, e violento e indomavel apenas de leve suspeita a idéa do dominio.

Um estudante é em politica sempre da opposição e em litteratura sempre da escola mais exagerada; em regra quer o que os outros não querem. Ama em primeiro logar a sua independencia, em segundo a originalidade, e em terceiro a todas as senhoras.

Um estudante é o melhor e o mais feliz dos homens; sabe que o é, vive como entende que deve viver, não troca a sua casaca velha pela farda bordada de nenhum ministro, nem a mesa de um collega pelo banquete do mais rico figurão ; tira partido de todas as circumstancias para divertir-se, e nunca se lembra de dar satisfações ao mundo.

Se nem todos os estudantes são assim, não é porque toda regra deva ter excepções, é somente porque ha homens que caminhão em sentido opposto da sua vocação.

Felizmente, o jovem, que é o heróe da historia que vou contar, é um verdadeiro estudante porque estuda, e porque tem todos os defeitos e todas as virtudes da sua classe.

Luciano acaba de ser approvado optime cum laude no quinto anno da escola de Medicina do Rio de Janeiro ; está habituado a esses triumphos academicos ; no imperial collegio de Pedro II onde ganhara o titulo de bacharel, tinha sido quatro vezes apontado como o primeiro entre os seus collegas de aulas, e quatro vezes pela mão do imperador havia sido a sua fronte coroada de louros.

E um bello mancebo de vinte-e dous annos : alto, fronte elevada, onde brilha a intelligencia, pallido, olhos ardentes, imaginação exaltada.

Como o anno de 1860.

Terminados os seus exames, Luciano deixa a cidade do Rio de Janeiro para ir passar três mezes de férias na casa de seu pai, rico fazendeiro do municipio de...

Luciano vai alegre de caminho para a roça ; leva porém algumas saudades e um receio no coração.

Vai alegre porque ama extremosamente a seus pais e arde em desejos de abraçal-os e de viver junto delles algumas semanas; vai alegre, porque deve encontrar-se com os seus amigos da.infancia, respirar doces auras na terra do seu berço, tornar a ver os campos, os bosques, os rios e as fontes que lhe lembrão mil gozos, mil travessuras, mil romancesinhos de criança.

Leva porém no coração saudades da escola e dos collegas, dos theatros e das festas, de algumas moças bonitas, a cada uma das quaes jurara um amor eterno, de uma corista da defunta companhia lyrica italiana com quem cantava duetos, e da confeitaria Carceller, onde todas as tardes costumava ir comer pasteis.

O receio que o acompanha, é mais serio ; desde dous annos seu pai procura convencel-o da conveniencia de um casamento que tem o grande defeito de ser muito prosaico ou poético demais, e Luciano teme com razão que novas instancias o continuem a obrigar a resistir á vontade daquelle a quem deve sempre obedecer.

Mas também é muito exigir ! Eugênio, que assim se chama o pai de Luciano, é intimo amigo de Guilherme, um rico negociante da corte, e possuidor de uma excellente fazenda que confina com a delle ; desde longos annos existe a mais perfeita intimidade entre ambos : tinhão-se casado no mesmo dia e aos pés do mesmo altar; suas esposas se tomarão tão amigas, como sabião selo os maridos, e por fim, tendo o céo dado um filho a Eugênio, e dous annos depois uma filha a Guilherme,os dous felizes pais, e as duas extremosas maiscompromettêrão-se mutuamente a casar Luciano com Dyonisia.

Esses pais amigos resolverão assim do futuro de seus filhos sem calcular com os caprichos de um coração de moça, com os ardores de um coração de mancebo, e com ura ou dous amores possiveis, que poderião fazer Luciano afastar-se de Dyonisia, ou ambos correrem em direccões oppostas.

Circumstancias imprevistas vierão tornar os dous pretendidos noivos quasi que absolutamente estranhos e desconhecidos.

Luciano só se poude lembrar de ter visto Dyonisia duas vezes : no primeira tinha elie cinco annos de idade, e a menina tres, e ficou furioso contra ella, porque fez-lhe em pedaços um lindo carrinho puxado por dous cavallos de chumho.

Na segunda vez, dous annos depois, o encontro não foi mais feliz ; a menina tinha-se tornado admiravelmente traquinas ; e além de perturbar todos os brinquedos do noivo, fazia-lhe caretas quando o percebia desapontado.

Então, aos. sete annos, Luciano á vista de seus pais, e dos pais de Dyonisia, disse a esta em. um momento de briga e de enfado : — Deixe estar que eu nunca hei de casar-me com você! E a menina desatou a rir e a saltar, exclamando: — Que me importa! que me importa !...

Os dous noivos nunca mais se tornarão a Ver, e até esse tempo Guilherme apenas uma ou outra vez tinha podido vir passar alguns dias em sua fazenda, dahi por diante uma distancia enorme o separou do seu amigo. Negocios da maior importancia o levarão á Europa, onde se demorou quinze annos.

Apezar desta longa separação, nem esfriou a amizade de Eugênio e Guilherme e de suas consortes, nem foi esquecido o ajuste do casamento dos filhos. Os dous noivos mandavão, sem mesmo o saber, lembranças e saudades um ao outro nas cartas dos pais, que parecião namorar-se em nome dos filhos.

A menina tornou-se moça, recebeu em França uma educação esmerada, e talvez se tornou um pouco romanesca ; o que porém se passava em seu coração, e o que pensava do projecto de casamento que seus pais acariciavão tanto, é um segredo que eu não posso descortinar. Quando sua mãi lhe fallava de Luciano, ella corava, sorria e calava-se.

Quem não se calava, era Luciano. A principio e emquanto foi menino, repugnou-lhe a idéa desse casamento, recordando-se das travessuras e das caretas da noiva: depois, quando cresceu em annos e acabou de estudar philosophia, tomou ao serio os direitos do homem, não comprehendeu mais um casamento que não tivesse por base o amor, acreditou que o fatal projecto era um attentado contra a sua liberdade ; revoltou-se pois, e declarou muito respeitosamente a seus pais que não se casaria com a Sra. D. Dyonisia.

As insistências provocarão dobrada opposi-ção de sua parte, e finalmente Luciano acabou por aborrecer Dyonisia.

A pobre moça era para elle um phantasma pavoroso que o perseguia por toda a parte : irritava-se só ao ouvir pronunciar o nome de Dyonisia.

E entretanto, e a pezar seu, não podia cha-mala feia : recebera o retrato de Dyonisia, e duas ou tres vezes que olhara para elle, não poude deixar de reconhecer que a moça era encantadora, teve medo de convencer-se demasiadamente dessa verdade, e fez presente do retrato á sua mãi; nunca mais o quiz vêr, esqueceu a imagem e continuou a aborrecer o original.

Esta revolta não era do coração, era da imaginação, e portanto mais violenta ainda, e tão violenta que levara Luciano a esquecer os deveres da mais simples cortezia.

Um mez antes dos exames do seu quinto anno, Luciano soube com verdadeiro pezar no paquete inglez acabava de chegar ao Rio de Janeiro Guilherme, com a sua familia, e foi bastante fraco para nem ao menos ir fazer uma visita ao primeiro amigo de seu pai; e recebendo deste por isso mesmo uma severa reprehensão e uma ordem terminante para ir abraçar o recémchegado, o estudante independente obedeceu, mas de um modo ainda mais reprehensivel : procurou Guilherme em sua casa de commercio, e merecendo um convite para ir jantar e passar alguns dias na chácara do negociante, desculpouse com os estudos prolungados do fim do anno lectivo, e nem uma só vez appareceu a Dyonisia.

De sua parte Guilherme pagou a Luciano a visita, e não o procurou mais.

Entrando no gozo de suas ferias e já de caminho fazenda de seu pai, o jovem estudante recebe uma noticia desesperadora : o seupagem que lhe viera trazer os cavallos para a viagem, annunciou-lhe que havia em casa grande alegria; porque Guilherme e sua familia tinhão na ultima semana chegado á sua fazendo, e que desde então os dous velhos amigos quasi que vivião juntos, vingando-se de quinze annos de separação.

O annuncio era pelo menos desagradavel. O estudante previo que tinha de entrar em novas luctas, de ser obrigado a encontrar-se com Dyonisia, de fallar-lhe e de tratal-a com a consideração que todo o cavalheiro deve a uma senhora, e finalmente de resistir ao mesmo tempo ás ordens e, mais do que ás ordens, aos pedidos de seus pais, e aos obséquios de uma familia interessada em chamal-o ao seu gremio.

Luciano concebeu mil projectos de opposição e de resistencia: lembrou-se de diversos typos que estudara nos romances e nos theatros; pensou em mostrar-se extravagante como o peior dos libertinos, frio como o mais profundo dos egoistas, grosseiro como um barão que tivesse começado por varredor de armazém ; mas por fim de contas, quando entrou no campo da fazenda de seu pai, desprezou como indignos todos esses planos, e disse cornsigo : — Nada... nada: hei de mostrar-me tal qual sou, e resistir com um simples — não quero — que é a expressão da minha vontade, e a prova da minha independencia.

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