O tempo das ferias ia correndo de um modo inteiramente diverso do que calculara o estudante, que por isso mesmo começava a sentir-se desapontado.
Luciano esperara ter de sustentar uma lucta incessante, oppondo-se aos projectos do seu casamento com Dionysia, e encontrara seus pais quasi indifferentes e semelhante respeito.
É verdade que no dia seguinte ao da sua chegada, Eugênio lhe fallára sobre aquelle assumpto; logo, porém, que ouvira suas primeiras palavras annunciadoras de opposição e de repugnancia, não só deixara de insistir, mas ainda lhe affirmára que não se affligia com isso.
E sua mãi, abraçando-o, lhe dissera ao mesmo tempo: « Não seremos nós, meu filho, que exigiremos jamais de ti um sacrifício doloroso : um casamento que te repugna, não poderia fazer a tua felicidade, que é tudo quanto no mundo desejamos. » Luciano receiára também ser obrigado a entrar em estreitas relações com a familia de Guilherme, e ter portanto de cumprir para com Dionysia pelo menos os deveres de cortezia; e no entanto apenas foi com seu pai visitar uma vez aquelle bom amigo, e ainda nessa oceasião não encontrou em casa nem Dionysia nem sua mãi; depois um incommodo soffrido por esta impedia as visitas que ella poderia fazer á sua amiga, a mulher de Eugênio, que pela sua parte nunca levou o filho em sua companhia quando ia á fazenda de Guilherme.
Por outro lado, o pai de Dionysia encontrandose muitas vezes com Luciano, jamais deixou de tratal-o com estima, e mesmo com carinho ; mas também nunca lhe dirigio uma unica palavra que fizesse lembrar a idéa daquelle mento, que tão afagada tinha sido pelo sentimento generoso da amizade.
A principio Luciano applaudio-se desta situação pacifica, que elle attribuio a uma victoria brilhante alcançada pela força da sua vontade : em breve, porém, começou a sentir-se fatigado de uma paz tão inalterável, e contrariado por não ver uma só demonstração de sentimento pela sua decisão que destruirá um plano de futuro.
Em seu orgulho estava convencido de que pelo menos o pai de Dionysia devia mostrar-se exasperado por não ter podido felicitar sua filha dando-lhe um noivo de tanto merecimento.
O contentamento ou a serenidade das duas familias pareceu-lhe indifferença, e a indifferença amargou-lhe como um insulto.
O estudante incommodou-se, e principiou a aborrecer-se das férias que estava gozando; queria ouvir dizer que Dionysia estava furiosa contra elle, e ninguém lhe fallava delia ; desejava que seus pais de novo se esforçassem por obrigal-o a casar com a tal noiva da infancia, e seus pais mostravam-se absolutamente esquecidos de semelhante projecto.
Os dias foram parecendo a Luciano pesados e tardos, e o máo humor do estudante tornou-se bastante sensível para que um dia seus pais lh'o fizessem notar, sorrindo.
Esse sorriso foi um tormento novo ; Luciano suspeitou que seus pais adivinhavão a causa do seu mal-estar, e revoltando-se contra essa idéa, que offendia o seu orgulho, resolveu-se a ostentar uma alegria que estava longe do seu coração, e a procurar no movimento e no trabalho uma distracção.
Ganharão com isso os doentes pobres das circumvizinhanças, a quem Luciano prestou com ardor os soccorros da sua sciencia; e com isso perderão os veados e as pacas dos bosques vizinhos, que forão perseguidos pelo estudante, que se tornou em um novo e infatigavel Nemrod.
Mas, pobre orgulhoso! a idéa de Dionysia, a lembrança e o nome da Sra. D. Dionysia forão perseguil-o no meio das suas nobres occupações de medico dos pobres e das suas caçadas fatigadores.
Na caça, as longas horas passadas em solidão na espera erão forçosamente aproveitadas pela imaginação dominadora, irresistivel, que traçava aos olhos do estudante quadros quasi nunca verdadeiros, e onde sempre apparecia a senhora dona Dionysia zombando dos desprezos do estudante, e essa imagem chegava ás vezes a ser formosa, e podia sem inconveniente parecer tal, visto que Luciano já nem de leve se lembrava dos traços physionomicos da sua antiga noiva.
Nas visitas dos doentes pobres a perseguição da senhora dona Dionysia tornou-se muito mais séria: parecia haver um accordo geral para recommendar a filha de Guilherme ao coração de Luciano.
Uma vez, o estudante encontrara abatido pela enfermidade um pobre velho a quem a miseria privava de todos os meios de tratamento, e quando no dia seguinte, ao fazer-lhe a segunda visita, lhe levava todos os soccorros precisos, achou o velho em um excellente leito, e sem mais experimentar a menor privação.
Quem precedera o estudante naquella obra de caridade?... Dionysia.
Uma infeliz e pobre viuva, que tinha perdido havia dous mezes seu marido e único protector, morrera dando á luz uma menina. Luciano chegara tarde para soccorrer a mãe, e nem pudera depois cuidar da recemnascida, porque esta tinha sido logo adoptada... por Dionysia.
Na humilde cabana a que chegava, o estudante, emquanto procedia cuidadoso ao exarne de um doente, ouvia perto o nome de Dionysia, abençoado pelos rudes, mas agradecidos lavradores, que a chamavão. — O anjo dos pobres.
Dominando-se ainda, o estudante mostrava-se indifferente aos elogios que ouvia; nunca dirigia uma pergunta sobre Dionysia; mas a sua imaginação recolhia pressurosa tudo quanto a voz da gratidão espalhava a respeito delia.
Um dia perguntárão-lhe : — Tem visto a moça bonita?...
— Quem é a moça bonita. ?...
— Ora ! é D. Dionysia.
— Não, respondeu Luciano rispidamente.
— Pois olhe, Sr. doutor, é tão virtuosa como bella : onde ella chega, entra o encanto dos olhos ea felicidade do coração.
— Que me importa! — Ainda hontem vimol-a passeiar a cavallo ! como estava linda ! levava um chapéo e um vestido... A mulher do Almeida, que sabe de modas como uma franceza, diz que aquella roupa chama-se vestido de amazona ; mas, seja amazona ou não seja, a moça arrancava os olhos da gente ! e como é boa cavalleira! o seu cavallo corre que parece um passarinho que vóa ! ah! senhor doutor ! V. S. e aquella moça...
O estudante imterrompeu o panegyrista de Dionysia, e retirou-se apressado.
De volta para casa, respirando o ar livre, entregue a si mesmo, e pela primeira vez seriamente reflectindo, consultou o seu coração e estremeceu reconhecendo que não sentia mais a antiga repugnância pela senhora dona Dionysia, e que, pelo contrario, se pudesse ao menos vel-a sem ser visto, fal-o-hia com verdadeiro prazer.
Não amava Dionysia ; mas...
Este mas era o segredo, a historia e a contradicção do seu orgulho...
Luciano teve medo de amar a filha de Guilherme.
Como continuar a desprezal-a, se ninguém mais se lembrava de o querer obrigar a amal-a?...
Agora, porém, como ir procural-a e vêl-a sem o abatimento do seu orgulho?...
E aquelle sorriso de seus pais ? .. confessar-se arrependido e vencido não era fraqueza indigna de um estudante ?...
Luciano ufanava-se de ter sido notavel estudante de logica, e determinou raciocinar sobre o seu estado com todos os preceitos da arte de reflectir : raciocinou pois por duas horas inteiras, e no fim dellas reconheceu espantado que dos mesmissimos principios tinha tirado cincoenta consequencias diversas e oppostas.
O estudante ainda não comprehendia que a logica do coração é mil vezes uma inextricavel meada de inconsequencias.
Assim, pois, descontente de si mesmo e sem ter acertado com o caminho que lhe cumpria seguir, Luciano entrou em casa; mas, ao tocar á porta da sala, parou de subito, ouvindo pronunciar o seu nome e o de Dionysia.
Eugênio conversava com Guilherme e o objecto da conversação era o projectado casamento de seus filhos.
Luciano escutou attento.
— Emfim, meu amigo, dizia Eugênio concluindo ; Deos nos ajude ; mas receio muito que a pertinacia inexplicavel de meu filho acabe por destruir de todo as nossas esperanças.
— E eu não receio nada, respondeu Guilherme; devemos acreditar que Luciano começa já a pensar muito seriamente em Dionyia, e eu aposto que antes de dous mezes morrerá de amores por ella. Temos empregado um systema admiravelmente combinado : o rapaz vai ficar preso na rede qne lhe armámos.
Luciano vio brilhar a seus olhos como uma luz no meia das trevas : o seu orgulho reanimou-se de subito; saudou a lucta que para elle principiava de novo, e ufano e decidido entrou na sala, e, depois de breves momentos de conversação, disse : — Perdão, meu pai; perdão, Sr. Guilherme : preciso recolher-me e dormir cedo, pois que me preparo para uma importante caçada amanhã. Dizem-me que o monte vizinho da fazenda do Sr. Guilherme é rico de pacas soberbas, e se não houver nisso offensa do direito de propriedade, protesto que nestes ultimos quinze dias que me restão de ferias na roça, o Sr. Guilherme ouvirá diariamente da sua fazenda nos tiros da minha espingarda os signaes das minhas victorias.
— Sabemos que é um excellente caçador.
— Determinei sel-o e fui : quando me decido a qualquer cousa, nem recuo, nem desanimo.
Luciano retirou-se.
Eugênio e Guilherme olharão um para o outro e puzerão-se a rir.
— Tem uma cabeça de fogo! disse o primeiro.
— E ao mesmo tempo tem a balda de todos os moços, que pensão sempre que enganão os velhos, observou o segundo.
O companheiro que nas suas caçadas mais agradava a Luciano, era Baptista, lavrador vizinho e compadre de seu pai, e que com os seus sessenta janeiros não se trocava em vigor, agilidade e destreza por nenhum dos velhos de trinta annos que vivem no seio dos prazeres da cidade.
Baptista era realmente o melhor dos companheiros que poderia ter encontrado o estudante : conhecia todas as florestas, como Luciano o Jardim Botanico e as ruas da capital: marcava todos os pontos dos bosques por uma arvore mais notavel, por alguma fonte, pedra ou furna que nelles havia : designava com certeza as melhores esperas, e os lugares mais se guros para se fazer uma caçada feliz, e, além disso, era a chronica viva daquellas circumvizinhanças; sabia dez mil historias a respeito da gente da terra, tinha sempre um caso novo que referir, e mordaz sem que fosse naturalmente máo, e somente pelo desejo de parecer engraçado, divertia sempre o estudante na ida — 155 — e na volta, e nas horas de reunião no fim das caçadas.
Baptista applaudíra muito a lembrança que tivera o estudante de ir cagar na floresta vizinha da fazenda de Guilherme, e mais alegre e fallador do que nunca ia de caminho enterrando vivos e desenterrando mortos.
Já havia dado conta dos nomes e da vida dos moradores de quantos sitios ião encontrando perto da estrada, quando, ao tomarem por um trilho que os levava á floresta, ao chegarem ao sopé do monte que buscavão, disse elle a Luciano: — Este bosquesinho que nos fica á mão direita separa este monte do campo da fazenda do Sr.
Guilherme, e pôde atravessar-se em um quarto de hora : se lhe aborrecer- a caçada, e preferir a dar tiros nas pacas, armar laços a uma moça bonita, a viagem é curta.
O estudante fez um movimento de máo humor.
— Não vá desconfiar : a cousa não é para isso; não gosta da filha do Sr. Guilherme eu já sei; são gostos, e se não houvesse máo gosto, o amarello não teria extracção.
— Subamos o monte, ou, se lhe parecer, soltemos já os cães.
— Não : isso ha de ser um pouco mais acima : veja porém que sitiosinho bonito vamos deixar aqui á mão esquerda, e logo á subida do monte : ouve este ruido de agua ? é de uma pequena cachoeira que vem do alto, e cahe no meio de um grupo de arvores formando um formoso lago junto do sitio, — Fico sciente : subamos...
— Sim ; mas o que não sabe é que o sitio pertence ao meu compadre Pereira, que é casado com a minha comadre Antonia...
— A noticia é realmente interessante...
— Mete-me abulha, heim? pois saiba mais que a comadre Antonia tem parentes na cidade...
— Deveras? isso então é extraordinario ! — Morreu-lhe, ha um anno, uma irmã que lá tinha casado com um pobre diabo, e deixou uma filha a quem o pai condemnou a vir morar na roça com a tia, receioso de que a rapariga se extraviasse...
— Uma cabecinha de vento...
— Qual ? uma cabeça de fogo : dizem que é capaz até de ler latim como o Sr. reverendo vigario : falia que parece um advogado, e anda sempre com o juizo por esses ares fora...
— E feia como um bicho, teve a boa idéa de vir esconder-se na roça...
— Bella como uma rosa, perigosa como uma feiticeira, tentadora como o diabo...
— Compadre Baptista, quer me parecer que o senhor tem sua queda para poeta ?...
— Então?... improviso meus versinhos quando canto em desafio nas nossas noites de fado...
Eu logo vi : e ainda não se soltão os cães?...
— Agora.
Dous escravos approximárão algumas trclas de cães, estes, soltos, sacudirão as caudas, e por alguns momentos andando em torno a rastejar com os focinhos o cheiro da caça, sahirão logo depois, e desaparecerão.
Os caçadores forão seguindo, e a breves passos achárão-se juntos de um arroio que corria sobre um leito de pedras.
— Fique aqui, disse Baptista, terá uma caçada certa, e para distrahir-se, subindo áquelle ingazeiro, verá á sua vontade a fazenda do Sr.
Guilherme, e o sitio do compadre Pereira. Até logo.
Baptista internou-se na floresta.
O dia vinha apenas rompendo.
Dentro em pouco os latidos dos cães annunciavão a descoberta da caça, e passada uma hora Luciano, disparando o primeiro tiro, alcançou a primeira victoria.
Tres cães chegarão ao mesmo tempo, arfando de fadiga, mas ufanos de seu triumpho : o estudante deixou-os descançar por algum tempo, e logo depois banhou-os na agua fresca do arroio e outra vez os lançou na floresta.
Ao longe ouvião-se os gritos de Baptista incitando os cães que lhe respondião latindo, como para demonstrar que zelosos proseguião na sua empreza; mas os latidos cada vez se desprendião mais afastados.
— Creio que terei de esperar muito tempo ; disse comsigo Luciano.
E sem o pensar, lembrou-se do ingazeiro.
Luctou um pouco com a própria consciencia; vencido porém, olhou cuidadoso em torno de si, e certo de que se achava absolutamente só, dirigio-se para o ingazeiro, e subio a elle.
O sol brilhava ; era a sua primeira hora.
Luciano vio um panorama bello e magnífico dilatando-se a seus olhos ; indifferente porém a todos esses encantos da natureza, embebeu suas vistas na casa e no campo da fazenda de Guilherme, e alli as esquecia involuntariamente, quando estremoceu escutando um canto melodioso entoado por uma voz de mulher.
Olhou... e vio...
O sitio de Pereira estava por assim dizer debaixo dos seus pés, e a mais curta distancia do que havia calculado, e uma mulher, de figura graciosa, e toda vestida de branco dirigia-se cantando para um bosquesinho, onde a cachoeira formada pelo arroio cahia, espraiava-se e dava lugar a um lago.
Luciano deu um salto do ingazeiro abaixo e sem reflectir um só momento desceu o monte por entre as arvores, desejoso de ver de mais perto a sobrinha de Antonia, que segundo dizia Baptista, tinha cabeça de fogo, era capaz de ler latim como o vigario, fallava que parecia um advogado, e andava sempre com o juizo por esses ares fora...
O canto tinha cessado : succêdera-lhe silencio profundo.
A medida que se ia aproximando, o estudante media cauteloso os passos e procurava fazer o menor ruido possível, empregando para isso toda a sua habilidade de caçador : ás vezes ria-se pensando na decepção por que ia passar esbarrando diante de uma mulher feia, ou pelo menos desgeitosa...
Emfim, chegou á entrada do bosquesinho, e por entre as arvores olhou, e ficou embevecido...
A sombra de uma arvore frondosa, sobre cujo tronco se sentara, estava uma moça talvez de vinte annos, delicada, formosa, encantadora ; lendo attentamente um livro, que segurava com suas mãos pequeninas e brancas ; seus cabellos negros cahião em aneis graciosos e immensos sobre uns hombros e um collo admiraveis; seus olhos, que ás vezes levantava para o céo, erão grandes, negros e brilhantes.
Baptista não mentira: aquellamoça era realmente encantadora.
Como porém esta creatura angélica, que parecia ter sido educada com tanto zelo, com tanto extremo, esta moça cujas mãos erão tão finas, e tinhão a cór tão branca, esta menina tão delicada, e por assim dizer de fôrmas tão vaporosas e de espirito que se dizia tão romanesco, viera esconder-se, sepultar-se naquelle obscuro cantinho, na casa de tão pobres lavradores ? Não era, não podia ser uma infeliz mulher perdida pelo vicio, não : a pureza brilhava nos seus olhos e na sua face.
Como explicar então o mysterio ?...
O estudante não se movia do lugar onde estava, com as mãos no peito comprimia a respiração anhelante : dominava-o sobretudo o receio de ver ao mais leve ruido desapparecer como um sonho aquella mulher encantadora.
A caçada estava de todo esquecida : o compadre Baptista como que não existia no mundo : debalde os cães se tinhão approximado perseguindo as pacas levantadas... Luciano não ouvia o latido dos cães, nem os gritos descompassados de Baptista.
E duas longas horas passarão rápidas como um instante para o estudante absorto.
Emfim o moça fechou o livro, levantou-se, e com um andar gracioso retirou-se para a humilde casa de seus tios...
Luciano deixou seus olhos irem presos aos pés mimosos da mulher formosa... até que ella desappareceu de todo...
— E as pacas, compadre?... perguntou Baptista rindo e batendo-lhe no hombro.
Aquella joven que de um modo sem duvida romanesco apparecêra aos olhos de Luciano, era verdadeiramente bella; mas a imaginação do estudante emprestou-lhe ainda encantos indiziveis, e lh'a afigurou mil vezes mais formosa.
Arrancado do seu extase pela retirada da bella incognita e pelas palavras pronunciadas por Baptista, Luciano sentio que uma flamma violenta lhe abrazavaja o coração, e que uma mulher que apenas havia duas horas vira pela primeira vez, devia fazer a gloria ou o martyrio da sua vida.
Pôde ser que houvesse exaggeração nesse subito sentir; um estudante porém raramente se apaixona de outro modo, e trinta vezes que se apaixone, é sempre assim ; se poucos são os estudantes que se casão antes de ser doutores, é porque poucas são as moças que sabem aproveitar-se opportunamente da violencia das paixões que inspirão; o que salva os estudantes de casamentos imprudentes não é a reflexão é a duração ephemera de suas paixões: cada um delles, quando deixa a academia, leva no coração a lembrança de cem amores e de cem romances, que acabarão antes de tempo ou ficarão por acabar.
Ora, aquelle novo amor qne começava para Luciano tinha todas as condições de um verdadeiro amor de estudante; porque sobretudo havia nelle o encanto do romanesco e do mysterio, que abrião espaço aos mais arrojados vôos da imaginação.
A bella incognita tinha-se mostrado inesperadamente.
Luciano nem a conhecia, nem ao menos lhe sabia o nome, e a encontrara de subito no seio da solidão e á margem de um lago.
Não era preciso mais para que o estudante morresse de amores por ella.
Baptista, encarregado de colher informações mais positivas a respeito da formosa moça, veio ainda mais augmentar o mysterio que a rodeava, porque soube e declarou a Luciano que a bella incognita não era sobrinha de Antonia, como se suppunha, mas uma menina que ainda no berço fora confiada á sua irmã, e cujos pais devião ser bastante ricos, pois que pagavão com uma avultada pensão os cuidados de sua educação. O motivo de sua vinda para aquelle lugar do interior da província não tinha sido a morte da irmã de Antonia, e sim a necessidade de íurtar a interessante jovem ás pesquizas e talvez á perseguição deparentes inimigos : o segredo da sua vida e do seu retiro era tão profundamente guardado, que nem mesmo Pereira e sua mulher sabião o seu nome.
Decididamente, Luciano não podia escapar a tanta magia. No fim de tres dias amava a sua incógnita, como nunca Petrarca amou a Laura, nem Torquato Tasso a Eleonora.
É inutil dizer que nesses três dias fez elle tres novas caçadas ao monte, donde corria o arroio que ia lançar-se no lago do feliz bosque vizinho ; cumprindo, porém, entender-se que que ao compadre Baptista ficou reservado exclusivamente o empenho de matar as pacas, emquanto Luciano limitava o seu prazer a subir ao ingazeiro, ver a bella incognita sahir da cabana dos lavradores e dirigir-se para o lago, e, emfim, depois de tel-a contemplado de longe, correr para o lugar ditoso, donde escondido adorava em extase aquella formosa creatura.
A lembrança do projectado casamento com Dionysia já nem sequer por um só instante occupava o espirito do estudante : que lhe importava Dionysia ?... Se outr'ora revoltava-se contra a idéa d'aquelle casamento, sem um motivo real, desde tres dias nem mesmo admittio a possibilidade de sujeitar-se a um laço, que seria uma barreira eterna e insuperável levantada entre elle a bella incognita.
Dionysia estava positivamente condemnada ao esquecimento e o esquecimento é ainda muito mais fatal do que o odio ; o esquecimento é quasi a morte.
Mas tres dias passados em contemplação e em saudades não podião mais satisfazer o coração do estudante: Luciano precisava inebriar-se, escutando a voz e devorando com os olhos, os olhos d'aquella joven romanesca.
Na manhã do terceiro dia, quando no seu posto de extatica adoração estava elle contemplando a sua incógnita, chegou um momento em que, impellido por uma força irresistivel e sem pensar no que ia fazer, lançou-se de subito para a arvore, a cuja sombra descansava a bella moça, e cahindo de joelhos aos pés desta exclamou : — Eu a amo ! A incognita deixou ouvir um grito de sor-presa e de susto, e levantou-se para fugir ; mas, tomada de subito tremor nervoso, deu apenas um passo e sentou-se outra vez, dizendo : — Meu Deus !...
O estudante aproveitou o ensejo, e de joelhos com estava, tremulo também, inspirado porém pela paixão fez mil protestos de ternura e mil juramentos de amor.
Pouco a pouco a moça foi serenando : no ardente discurso que ouvia, o respeito dominava sempre o impeto do amor : reconheceu bem depressa que tinha a seus pés um escravo e não um seductor, e banindo de sua alma o receio, fitou no mancebo um olhar cheio de angelica doçura, e disse: — Porque vem perturbar a paz do meu retiro ?... onde e como pude eu inspirar-lhe esse amor ?... e esse amor, se um dia eu o tivesse também, que me daria elle ? Luciano quiz fallar.
— É inutil, continuou a incógnita com voz segura, adivinho tudo quanto quereria dizer-me.
Ama-me, não é assim ?... porém como ? vio-me por acaso algumas vezes n'esta solidão, agradoulhe o meu rosto, achou-me bella talvez, impressionou-o o mysterio da minha vida, e vem cahir a meus pés. Que amor é esse ?... sabe se por ventura sou digna d'elle ?... se victima de um erro ou de um remorso vim aqui esconder o meu opprobrio ? .. sabe se eu mereço reprovação ou piedade ?...
— A pureza brilha no seu angelico semblante : não me enganei, não me engano.
— E quem sou eu ? — É um anjo ! Também ha anjos decahidos, Sr. Luciano, disse a moça sorrindo-se.
— Sabe o meu nome... conhece-me...
balbuciou o estudante.
__ Oh ! sim... conheço-o, e sei um pouco a historia de sua vida. Sei que desde tres dias procura descortinar o segredo do meu nascimento, do meu passado, e do meu futuro.
— E quem lh'o disse ?... perguntou Luciano sorprendido.
— Dionysia, respondeu a moça sorrindo outra vez.
O estudante levantou-se irritado, ouvindo o nome da sua pretendida noiva.
— Escute, continuou a incógnita : pronunciei este nome para lembrar-lhe um dever que tem esquecido.
— Nunca ! — Mas porque ?...
— Até ha tres dias porque não tolerava a idéa de casar-me com essa senhora, depois de tres dias porque a amo, e nenhuma outra mulher lera o meu nome.
— E seus pais ?... — Meus pais hão de adoral-a desde o primeiro instante em que chegarem a vêl-a.
— E meus pais ? — Oh ! diga-me quem são, e eu correrei a fallar-lhes... quem são ?...
— Não sei, balbuciou a moça abaixando vergonhosa a cabeça.
— Pois bem: terá por seus pais os meus e por defensor, amigo, escravo o mais apaixonado dos esposos.
— Não ; a minha vida está presa a um mysterio que eu mesma não comprehendo : eu nem devo, nem posso animar o seu amor.
— Entendo tudo, disse o estudante exaltandose ; Dionysia adivinhou o meu amor pela senhora, e tratou de perder-me no seu conceito.
— Eu menti ainda ha pouco, senhor, tornou a moça : não conheço a sua noiva... nada lhe ouvi...
vivo longe de todos, e de todos me escondo.
— Como poude então saber que se projectára esse casamento que me repugna ? — Fallou-me disso a mulher do lavrador em cuja casa me asylárão.
— E com que fim ?... a que proposito ?...
A moça descansou uma de suas mãos sobre o hombro de Luciano, que estremeceu a esse doce contacto : depois encarou o mancebo com um olhar mágico e suavissimo, sorrio com a mais encantadora graça e disse: — Que lhe importa ?...
— Meu Deos !... exclamou Luciano cahindo outra vez de joelhos.
Ajoven recuou um passo, como se arrependida ficasse da acção que praticara e do tom em que fallára : corou, parecendo sentir que deixara insensivelmente escapar dos labios uma phrase que começava a atraiçoar um segredo do coração; mas logo depois flingindo-se medrosa, disse : — Sinto rumor... alguém se approxima...
Luciano ergueu-se, pensando que era Bap-tista que o vinha perturbar no momento em que o fortuna lhe concedia um sorriso ainda duvidoso... voltou-se para o lado do monte e ouvio immediatamente o leve ruido dos passos ligeiros da incognita, que fugia correndo.
— Oh ! por compaixão... disse, elevando a voz e estendendo os braços para a fugitiva.
Ella parou : volveu o rosto para Luciano, seus olhos brilharão com divino fogo, seus labios sorrirão de novo com encanto e doçura e murmurarão emfim : — Até amanhã.
N'aquella simples, mas animadora phrase « até amanhã! » e no olhar e no sorriso que a acompanharão, havia um futuro immenso de esperanças e de amor.
Luciano passou o dia a sonhar mil venturas: abella incognita fizera-lhe adivinhar o paraiso, pronunciando duas palavras.
Ao meio-dia um pobre lavrador da vizinhança viera pedir ao estudante que fosse ver sua mãi que enfermara no dia anterior.
Luciano apromptou-se depressa para sahir, e emquanto esperava que lhe trouxessem o cavallo, perguntou ao lavrador : — Suppõe que seja grave o estado de sua mãi?...
— Tenho medo de que venha a tornar-se tal: hontem cahio com uma febre que parecia fogo, e, bem que ao amanhecer de hoje ficasse livre d'aquella maldita fervura do sangue, diz a senhora D. Dionysia, que foi ver a minha bôa velha, que é provavel ou quasi certa a volta da febre.
— Então... a Sra. D. Dionysia...
— Aquillo é um anjo, meu senhor! lá ficou ao pé de minha pobre mãe...
Luciano voltou logo ao seu quarto, e tornando a apparecer ao lavrador, deu-lhe algum dinheiro, e disse-lhe : — Ha um excellente medico na freguezia : ahi tem com que pagar-lhe até dez visitas, vá chamal-o ; eu não posso ir ver sua mãi.
E vergonhoso da acção que praticara, recusando-se a um serviço de caridade, correu para furtar-se ás vistas do lavrador, que ficara sorpreso e boquiaberto.
Luciano tinha hesitado ante a idéa de encontrar-se com Dionysia; pareceu-lhe que vêla e fallar lhe n’aquelle dia, chegaria a ser uma offensa feita á bella incognita, cuja imagem devia ser a unica que occupasse toda a sua alma e todos os seus cuidados.
O amor suffocou-lhe a consciencia.
A noite, Eugenio perguntou ao filho se pretendia caçar na manhã seguinte.
— Talvez, meu pai, respondeu o mancebo corando.
— Entretanto eu contava poder conversar comtigo alguns momentos amanhã de manhã.
— Meu pai, se quizesse, poderia marcar-me uma hora para...
— As nove da manhã.
— Ah! então a minha caçada não será incompativel com a minha obediencia.
— Tens te tornado um caçador incansavel! observou Eugênio, sorrindo ; mas não importa, aproveita as tuas ferias.
Ao romper da aurora d'esse dia mimoso que fora aprazado pela formosa incognita, Luciano correu, como era de suppôr, não para o ingazeiro do monte, mas immediatamente para o lago do bosquesinho.
A jovem romanesca já alli estava. O estudante affligio-se com razão por ser o segundo a chegar: um meigo e carinhoso sorriso socegou-o porém immediatamente.
— Eu o esperava, disse com accento commovido a bella incognita, não dormi...
preoccupou-me toda a noite esta hora que vamos passar juntos, e que é uma hora solemne, que vai decidir do meu destino.
Luciano sentio-se fortemente abalado por aquella voz suave e melancolica, que lhe parecia um canto entoado por um anjo.
— Antes de tudo, uma observação que o vai penalisar, mas que a minha franqueza não me consente esconder. Hontem o senhor negou-se a ir ver uma pobre velha doente: fez mal. Sabe rei um dia, em breve, romper este mysterio e mostrar-me na altura da posição que apaixonada ou generosamente me offerece.
O estudante ia fallar; mas a bella incognita como para obrigal-o ao silencio, poz uma de suas mimosas mãos sobre os labios do mancebo, que imprimio n'ella um ardente beijo.
Recolhendo vergonhosa a mãosinha provocadora, a bella incognita tirou do seu seio uma pequena imagem de ouro que representava a Mãi Santissima.
— Eis aqui a imagem da Mãi de Deos, o symbolo do mais profundo amor e de celeste pureza; jura-me, Luciano, que serás meu esposo no dia em que eu provar que sou digna do teu amor, digna do teu nome e da benção de teus pais! — Juro! disse Luciano, cahindo de joelhos.
A bella incognita beijou nos pés a pequena imagem ; o mancebo depositou no mesmo lugar um outro beijo.
— E quando será esse dia ? perguntou Luciano, cheio de ardor e de esperança.
— Mais cedo do que pensas, respondeu a moça.
— Oh! dize!...
A bella incognita levantou os olhos para o céo, procurando o sol, e de novo olhando para Luciano, observou-lhe sorrindo.
— O tempo correu voando ; devem ser mais de sete horas : não te lembras de que prometteste a teu pai estar em casa ás nove horas da manhã ?...
— Quem te poude referir o que hontem se passou entre mim e meu pai ?...
— Esqueces que eu te amo, e que a minha alma te acompanha por toda parte?... Minha alma estava comtigo, quando teu pai te fallava...
ella disse-me tudo. Basta. A hora se adianta : teu pai te espera. Adeus ! E d'essa vez disserão ambos a um tempo : — Até amanhã.
As nove horas da manhã Eugênio e Luciano estavão sentados em frente um de outro.
— Foste pontual, meu filho, disse Eugênio.
Luciano sorrio e corou.
— Devo hoje occupar-te com um assumpto que a todos nos interessa, e cuja terminante decisão não pode ser por mais tempo adiada.
O mancebo fez um movimento.
— Ouve-me até ao fim.
— Mas, meu pai, eu creio que posso adivinhar qual seja o assumpto de que pretende tratar, e n'esse caso...
— Não importa ; ouve-me sempre. O estudante curvou a cabeça.
— Uma antiga e verdadeira amizade ligame a Guilherme ; desejosos de prender-nos ainda mais estreitamente com novos laços, promettemos ambos um ao outro tornar de nossas famílias uma só familia casandote com Dyonisia. Este desejo rebentou em nossa alma quando tu e ella estaveis ainda nos berços.
Sonhámos um futuro de immensa felicidade para todos nós, e o dia chegou era que ou deve realizar-se, ou esvaecer-se para sempre esse bello sonho.
— Senhor...
— Sei tudo quanto mais pretendes dizer ; ouveme porém ainda. Tu não conheces Dionysia : primeiro, os cuidados de tua educação, depois uma longa ausencia de Guilherme e sua família separárão-te d'aquella que de destinámos para esposa, e que assim ficou sendo para ti inteiramente desconhecida. Sem razão alguma, sem o menor fundamento, demonstraste a mais viva repugnancia a este casamento que projectamos : não foi somente indifferença por Dionysia, foi um sentimento que não tem nome, porque não posso admittir que seja odio o que fez rebentar em tua alma a idéa d'esta união. Um homem de juizo, meu filho, nem ama nem tem repugnancia a uma mulher sem um motivo para isso, e eu não poderia comprehender que amasses como não comprehendo que desprezes afilhado meu amigo.
— Meu pai tem razão n'este ponto, mas eu também a tenho. O casamento é uma alliança perpetua, um laço que só a morte deve romper; e em tal caso é justo que aquelles que assim se prendem, soldem com o amor essas cadeias, que de outro modo se tornarião pesadas e fataes.
— E porque não amarias tu Dionysia? _ Ah ! meu pai! e porque amal-a-hia eu ?...
O amor não se obriga, rebenta espontâneo do coração.
— Mas esse futuro que faria a felicidade de teus pois e de teus melhores amigos não tem a menor importancia no teu espirito ?. .
— A felicidade de mossos amigos é muito e a de meus pais é tudo para mim : no entanto, eu seria ingrato se desconhecesse que a felicidade de meus pais depende principalmente da minha, e eu seria completamente desgraçado se me casasse com Dionysia.
— E porque ? — Porque não a amo, nem jamais poderei amal-a.
— Quem sabe? — Eu sei, meu pai.
Eugênio sorrio.
— Meu pai duvida da força da minha vontade? O pai tomou pela primeira vez um ar severo.
— Penso que se não trata de força de vontade, e tanto assim que ainda não mais lembrou fazer sentir a minha; não creio que meu filho fizesse o propósito de contrariar-me pelo simples gosto de parecer forte e indomavel.
— Perdão, meu pai; não era isso o que eu queria dizer.
— Ainda bem ! disse Eugênio serenando.
Insinuava eu que era possível que viesses a amar Dionysia; e porque não ?... Affirmo-te que é uma jovem cheia de encantos e de prendas, e duvido que haja quem possa vela sem amal-a.
Ensaiemos pois : tu frequentarás d'ora avante a casa de Guilherme e se, em oito dias, não te sentires dominado pelos encantos da tua noiva, não terei nenhuma palavra que dizer, nenhuma queixa a fazer pela opposição com que procuras tornar impossível este casamento.
Era tão razoavel este conselho de Eugênio, que Luciano vio-se verdadeiramente embaraçado para negar-se a seguil-o; no fim porém de alguns momentos de reflexão, levantou a cabeça e disse: — Meu pai, a minha frequencia naquella casa seria inutil; a alliança que vossa mercê deseja é impossivel.
— Impossivel! e porque?...
— Porque eu amo outra mulher, e opportunamente espero que meu pai approve e abençoe o meu casamento com ella.
Eugênio pareceu desagradavelmente impressionado por aquella franca declaração do filho.
— E quem é essa senhora que deve ser minha filha ?... perguntou elle. Luciano corou e não respondeu.
— Com se chama ella ? Luciano medio toda a difficuldade de sua situação, e pareceu confundido.
_ Quem são os pais dessa senhora?... qual é o seu passado ?... sabes se é digna de ti ?...
Responde-me.
Luciano ficou atterrado.
— Guardas silencio, meu filho ?... que mysterio é esse ?... Teu pai é o teu primeiro amigo, e deve saber tudo. Que mulher é essa que tu preferes a Dionysia?... Falla!...
— Mais tarde, meu pai, mais tarde!... disse enfim o estudante.
— Meu filho! — Perdão, meu pai, mas eu não posso ainda satisfazer a sua justa curiosidade; juro-lhe porém que nunca me casarei sem prestar-lhe a obediencia devida, que é para mim ao mesmo tempo uma obrigação e uma gloria.
— Luciano, disse Eugênio ; esse mysterio faria estremecer a qualquer homem prudente e ajuizado. O amor de um pai lê no futuro : cuiado, meu filho,ou eu mais engano muito, ou te armão uma cilada ou zombão de ti...
— Não, meu pai! — Sim, meu filho.
— Como póde assim affirmal-o ? — O coração m'o está dizendo : felizmente, essas intrigas não durão quando a victima escolhida tem bastante consciência do seu dever para não esquecer-se da sua própria dignidade.
Luciano, não te fallarei mais de Dionysia.
— Oh ! ainda bem,meu pai! — Continua em teus loucos amores... vai...
repete todas as manhãs as tuas romanescas e interessantes caçadas....
— Meu pai! — Sim.... mas eu te asseguro que dentro de poucos dias, em lugar de pedir-me que approve essa paixão imprudente por uma desconhecida que ninguém poude dizer que não seja uma mulher perdida, por uma moça astuta e perigosa que se arma com o encanto do mysterio para accender a imaginação de um mancebo exaltado e ardente, eu te asseguro que, em lugar de vir pedir-me que chame essa mulher minha filha, virás arrependido rogar-me de joelhos que eu me apresse a realisar um projecto que fará a tua e a nossa felicidade.
Eugênio sahio, deixando o filho confundido e envergonhado.
Apezar disso, ao romper do dia seguinte já Luciano achava-se no lago do bosquesinho.
Dessa vez chegou elle primeiro...
Mas o tempo foi correndo... as horas fôrão passando, e a bella incognita não apparecia.
Luciano não sahia como explicar esse esquecimento da promessa que recebera em um doce — até amanhã ! Cansado de esperar, veio-lhe á mente correr á casa dos lavradores; teve porém medo de desgostar á bella incognita procedendo assim.
O dia adiantava-se, e finalmente o compadre Baptista veio lembrar-lhe que era chegado o momento de retirarem-se.
Luciano levava o inferno no coração.
Acabando de descer o monte, os dous caçadores montarão a cavallo e seguirão.
Baptista fallava por dous, e fazia bem porque fallava por si e ainda por Luciano que nesse dia guardava um silencio de finados.
Ao chegarem a um ponto da estrada em que havia uma encruzilhada, um cavalleiro desconhecido que alli estava parado, chegou-se para Luciano, entregou-lhe uma carta e immediatamente partio a galope.
Luciano abrio a carta e leu com avidez e commoção indizivel : « Luciano ! adeus ! Sabem que nos amamos, e sepárão-nos : arrastão-me parabém longe de ti... não sei para onde» provavelmente para a cidade do Rio de Janeiro.
Embora! um dia, talvez bem cedo, me encontrarás inesperadamente. Adeus! deixo-te a minha alma e levo comigo o teu amor.
Adeus!adeus!» — Para que lado tomou aquelle cavalleiro? perguntou Luciano guardando a carta no seio.
— Por alli, respondeu Baptista, espantado do olhar de fogo do mancebo.
Luciano enterrou as esporas no ventre do seu cavallo, que partio á desfilada seguindo a direcção indicada.
Baptista sacudio a cabeça, desatou a rir e continuou o seu caminho, depois de dizer duas vezes, como fallando comsigo mesmo : — Estes rapazes ! estes rapazes !...
Luciano chegou á casa ás duas horas da tarde, furioso por não ter encontrado o cavalleiro portador da carta da bella incognita.