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Os Romances da Semana

Joaquim Manuel de Macedo

VII

Era a terça-feira do carnaval que acabámos de ver passar.

Luciano achava-se já de volta na cidade do Rio de Janeiro, e bem que na companhia de seus pais, que com elle tinhão vindo, conservava-se triste, silencioso e quasi intratavel, como um pequeno gentio que do seio da floresta é á força trazido para o mundo da civilisação.

O estudante aborrecera profunda e terrivelmente a vida do campo e as suas caçadas desde que lhe havião roubado a sua bella incognita: e attribuindo esse facto á influencia ou intervenção de Guilherme, começara a trocar por aversão a repugnância que a principio lhe causara a ideado seu casamento com Dionysia.

Violento como era, esquivou-se a acompanhar seu pai á fazenda de Guilherme, e emfim, tornando á cidade, empregou oito dias inteiros a correr todas as ruas da capital, e atirar informações, que nenhuma luz lhe derão, para encontrar a bella incognita, como ardentemente desejava.

— 184 — Aborrecido de tudo, afflicto e inconsolavel, perdida a esperança de descobrir o lugar mysterioso onde lhe escondião a amada, encerrou-se no seu quarto, e ahi ficou outros oito dias sonhando com a bella incognita, e amaldiçoando Dionysia.

Alguns collegas que o vinhão repetidamente visitar, procurarão debalde chamal-o de novo á vida da alegria e das festas, e declararão a uma voz que Luciano voltara da roça completamente embrutecido, e que precisava ser de novo educado, passando outra vez pelas provações impostas aos calouros.

Chegou o carnaval.

No domingo Luciano revoltou-se contra os collegas que se esforçavão por arrancal-o de casa, e despedio a todos elles no meio de uma tempestade de injurias.

Na segunda-feira ainda o estudante deixou-se ficar no seu quarto, resistindo aos pedidos de sua mãi que se empenhava por vel-o sahir e distrahirse.

Na terça-feira emfim Luciano, que não cedera nem aos seus collegas, nem á sua mãi, obedeceu ao impulso de um máo pensamento. Veio-lhe á mente que indo ao theatro, e podendo lá encontrar a familia de Guilherme teria occasião de vingar-se em Dionysia das saudades e das afflicções que estava experimentando.

Cabeça de estudante! conceber um plano e executal-o é sempre obra de poucos momentos.

Immediatamente mandou procurar duas duzias de trajos e disfarces, e chegados estes, trancouse no quarto, e depois de muito escolher preferio um bello Pierrot.

Apezar de todos os seus cuidados, sua mãi observou tudo quanto el!e fazia, espiando-o cuidadosa pelo buraco da fechadura da porta, e sorrio ao vél-o trajando as roupas preferidas: sorrio talvez ou por achal-o bonito, ou por ver que o filho se resolvia a ir divertir-se.

As dez horas da noite Luciano entrou no theatro de S. Pedro de Alcântara.

Realmente, era um Pierrot magnifico.

Mas ninguém diria que a sua mascara escondia o rosto de um estudante! Luciano esteve estúpido, durante duas horas completamente estupido, porque limitou-se a correr as salas e corredores, e a observar todos os camarotes.

O estudante perdera o seu tempo : a familia de Guilherme não tinha vindo ao theatro de S.

Pedro : pelo menos elle não descobrira um só homem que com Guilherme se parecesse A meia-noite lembrou-se Luciano de que bem podia ser que a família que procurava, tivesse preferido ir ao theatro Provisorio, e determinando-se logo a realisar seu plano, descia da terceira ordem dos camarotes, onde então se achava, quando ao chegar á escada da segunda ordem encontrou-se com dous dominós que parárão diante delle.

Os dous dominós erão provavelmente um homem euma senhora, epelo menos assim paredão pela differença da estatura, do andar, e dos modos.

O mais alto dos dous, que era um dominó preto, disse algumas palavras ao ouvido do outro, que era um lindo e gracioso dominó de setim azul, e emquanto o primeiro se deixou ficar immovel no lugar, em que estava, o segundo, o dominó de setim azul, avançou dous passos para Luciano, e tocando-lheno hombro, disse-lhe: — Conheço-te ! — Pouco me importa isso : respondeu o estudante sem attender ao dominó azul, e sem ao menos contrafazer avoz.

— Vim procurar-te... escuta, tornou o dominó azul, tomando a mão de Luciano.

D'essa vez o estudante estremeceu ao som da voz que lhe fallava.

— Quem és ?... perguntou.

— Prometti que um dia e cedo viria encontrarte inesperadamente : eis-me aqui! Luciano acabava de reconhecer a voz suave e pura da bella incognita.

— Meu Deus ! exclamou elle, e prendendo entre as suas uma das mãos do dominó, levou-o para o fundo do corredor, onde era menos numeroso o concurso.

— És tu ? és tu ? perguntou elle.

— Sou eu, sim ! respondeu a bella incognita atirando para traz o capuz do dominó, e libertando seu formoso rosto da mascaraque o occultava.

Era com effeito ella mesma, e mais encantadora do que nunca.

Luciano não sabia o que dizer-lhe: apertavalhe a mão, e chorava.

— Falla! conta-me... dize-me tudo quanto comtigo se tem passado! balbuciou elle emfim.

— Não, respondeu a joven : a historia fora demasiado longa, e não nos sobra o tempo.

Ouve-me, Luciano: amas-me sempre?...

— Oh! sempre! sempre! cada vez mais!...

— Escuta : não te lembra quando me juravas que me farias tua esposa, e que me darias o teu nome, a tua familia e teu futuro, que eu te respondi então que seria tua um dia, e breve, e quando pudesse provar-te que era digna de ti e da benção de teus pais ?...

— Sim... sim... e então ? — Amas-me ainda, Luciano ?...

— Muito... como nunca se amou no mundo.

— Pois o dia afortunado chegou...

— Como?...

— O dia, Luciano, é hoje ! — Hoje ?...

— Dentro de meia hora, poderás ver meus pais, saber o meu nome, conhecer o meu passado e decidir se mereço a dita de ser tua esposa.

— Oh é demais ! é muita felicidade n'esta vida de soffrimento e de afflicções ! — Vem ! — Onde ! — A minha casa, á casa de meus pais.Luciano não poude deixar de olhar admirado para a bella incognita..

— Hesitas ?... perguntou ella.

— Não ; mas teus pais quem são ?...

— Sabel-o-has bem depressa...

— E elles sabem...

— Tudo...

— Vamos.

O Pierrot deu o braço ao dominó azul, e ao descer a escala passou junto do Dominó preto que se conservara ainda no mesmo lugar, em que ficara ; mas logo depois sentindo que era por elle seguido passo a passo, lançou-lhe um olhar de desconfiança, e perguntou á sua bella incognita : — Quem é este dominó ?...

— O teu maior amigo.

— Como se chama ?...

— Pois ignoras o nome do teu maior amigo ?...

— Intrigas-me.

_ É uma cousa muito natural em um baile de mascaras.

— E que quer elle comnosco ?...

— Sem a menor duvida seguir-nos.

Os tres mascaras tinhão chegado á porta do Iheatro, e a um signal do dominó preto, que então se adiantou alguns passos, approximou-se um elegante carro.

— Seguir-nos ?... disse admirado Luciano.

— Sim, e entrar comnosco n'esta carruagem.

Com effeito, o dominó preto saltou para dentro do carro logo que vio dentro d'elle a bella incognita e Luciano, que cada vez mais sorprehendido se mostrava.

O carro partio.

— Para onde vamos ?... perguntou o estudante.

— Que te importa, uma vez que me levas a teu lado ?... disse a moça.

— Oh ! mas parece que durmo e que sonho, e tenho medo de accordar.

— Tranquillisa-te : accordaremos todos no seio da felicidade.

— Todos ?...

— Sim : não posso dizer accordaremos ambos; porque estás vendo que já somos tres...

— Mas o nosso terceiro companheiro é mudo?...

— Ah ! se soubesses como o seu coração palpita de alegria, ouvindo-nos !...

— Dominó preto, quem és tu ?...

O dominó não respondeu.

— Pergunta-me o que quizeres : eu responderei por elle.

— Pois começa por dizer-me o seu nome.

— Que empenho é esse, se ainda não sabes o meu ?... disse a moça com doçura.

— Quem és então ?... quem és, mulher encantadora ?... perguntou de novo Luciano, beijando com amor a mão da bella incognita.

— Quem sou ? pois não te diz o coração que sou a esposa que elle te escolheu ; que sou a mulher que te prendeu e conquistou-te ?...

— Sim ! sim ! é isso mesmo ! — Ves? disse a moça com um tom de irresistivel magia ; eu sou a soberana, e tu és o escravo...

— Sempre! — Ninguém te obrigou a amar-me, e tu amaste-me, e amas-me ; ninguém te arrastou para junto de mim, e tu offereceste os pulsos ás minhas cadeias !... és meu! és meu escravo; não é assim ?...

— Oh! e como é doce poder sel-o ! ..

O carro parou n'esse momento á porta de uma vistosa casa de campo.

Luciano nem tinha reparado no caminho por onde fora trazido.

O criado abrio a portinhola da carruagem, os dous jovens apearão-se, e logo após elles o dominó preto.

Luciano vio a casa brilhante de luzes, como para uma noite de festa.

— Vem! disse-lhe a bella incognita, tomando lhe o braço.

O estudante não hesitou : o que se estava passando, começava a parecer-lhe um conto das Mil e uma Noites, e sua imaginação exaltada o impellia para ver o fim d'esse romance, em que elle tinha uma parte tão notavel.

Entretanto o seu coração palpitou mais fortemente, quando sentio que chegavão á porta da sala.

— Emfim ! disse em alta voz a moça antes de entrar.

— Quem é?... perguntou alguém, que na sala estava.

— Sou eu, meu pai; sou eu que trago o rebelde vencido, e para sempre encadeiado! Luciano soltou um grito de sorpreza encontrando-se face a face com Guilherme, a esposa d'este, e sua própria mãi, que o vierão receber com os braços abertos.

192 — Meu Deus! exclamou o estudante chorando de alegria ; e meu pai!. . onde está meu pai?...

— Disfarçado em um dominó pela primeira vez na sua vida !... disse o dominó preto, arrancando a mascara.

Luciano cahio de joelhos.

— Que queres ? perguntou Eugênio sorrindo.

Luciano não poude fallar; mas apontou para aquella que fora a sua bella incognita, e que acabava de ser incognita, continuando sempre a ser bella e encantadora.

— Não te dizia eu, observou-lhe Eugenio ; não te dizia eu que dentro de pouco tempo tu me pedirias de joelhos que abençoasse o teu casamento com Dionysia ?...

Adivinha-se o resto. O casamento de Luciano com a filha de Guilherme vai em breve effectuarse, o estudante, maldizendo o seu louco orgulho que o fazia voltar o rosto á felicidade, reconhece e diz a todos que a bella incógnita não perdeu nenhum dos seus encantos por chamar-se Dionysia.

INNOCENCIO INNOCENCIO I.

Na manhã do dia 24 de Janeiro do anno corrente de 1861 estava passeando á entrada da estação da estrada de ferro, no campo da Acclamação, á espera do trem que devia a todo instante chegar, um homem de 50 annos de idade, de estatura regular, um pouco gordo, nem bonito nem feio, mas que á primeira vista logo se fazia notar por um sorriso constante que lhe morava nos labios, sorriso que nem exprimia bondade, nem toleima ; muito claramente porém uma ironia cruel, e, talvez, insolente.

Esse homem chamava-se, ou antes chama-se Geraldo ; mas porque muito a miudo dá ao seu sorriso habitual as proporções de gargalhada, é, ainda mais do que pelo seu nome de baptismo, conhecido na cidade do Rio de Janeiro pela alcunha de — Risota.

Geraldo-Risota ri com effeito de todos e de tudo ; mas o seu rir é triste e desconsolador : é um rir que faz mal. Uma longa e dolorosa experiencia, uma série de desgostos e decepções, uma disposição natural do seu espirito, uma mania talvez, ou o quer que fosse, tinha alterado profundamente o caracter d'aquelle homem, tinha-o tornado tão descrente das cousas d'este mundo, que de todo se lhe apagaram a fé e a esperança no futuro da vida, da sociedade e do paiz ; mas essa descrença, em vez de tornal-o melancolico e rude em seu parecer, emprestáralhe esse rir de mofa, e o fazia soltar gargalhadas a respeito de tudo : era um Democrito grosseiro, que parecia feliz e devia ser desgraçado.

Geraldo-Risota passeiava, pois, esperando a chegada do trem de ferro, que emflm annunciouse por aquelle sibilo bem conhecido.

Alguns minutos depois, um homem e uma senhora, que erão sem duvida marido e mulher, e uma bella moça, provavelmente filha d'elles, sahírão da estação e saudarão amigavelmente a Geraldo, e logo em seguida appareceu um elegante mancebo, que correu para este com os braços abertos.

Geraldo-Risota abraçou o mancebo sem entusiasmo, sem ardor, mas com apparencias de interesse, e, tomando, immediatamente um carro de aluguel, partio com elle para sua casa.

— Pensei que te demorasses mais tempo na tua provincia, Innocencio, disse Geraldo.

— Não, meu padrinho ; eu estava ancioso por voltar á capital do Imperio ; brilhantes esperanças, nobres ambições, e agora quiçá também o amor marcão aqui o meu lugar.

O Risota soltou uma gargalhada.

— Que é isso, meu padrinho ?...

— Foi uma gargalhada muito longa, confesso; mas era preciso que fosse assim, visto que devia valer por tres, pois que a um só tempo me fallaste em tuas brilhantes esperanças, nobres ambições, e em amor.., tres cousas que me fazem sempre morrer de riso.

Innocencio não respondeu ; pôz-se a olhar para a rua, e dahi a pouco disse : — Quando eu observo o desenvolvimento e progresso que teve a cidade do Rio de Janeiro nos oito annos que gastei estudando na Europa, sinto verdadeiro enthusiasmo imaginan— 198 — do o que será a nossa capital d'aqui a vinte ou a trinta annos !...

O Risota achou no que acabava de ouvir motivo para rir tanto que o mancebo desapontou e não disse mais palavra.

O carro parou finalmente á porta da casa de Geraldo, e este, depois de conduzir o seu afilhado ao aposento que lhe destinara, disse-lhe: — Procede comigo como dantes, Innocencio : faze de conta que é tua a casa de teu padrinho ; almoça, descança; que eu tenho que fazer, e vou tratar da vida.

Innocencio ficou só : pedio almoço ao escravo que veio pôr-se ás suas ordens, e logo depois achou-se sentado á mesa.

Emquanto elle almoça, aproveitarei o tempo dizendo o que convém para tornar conhecido o afilhado de Geraldo.

Innocencio era filho de um honrado fazendeiro da provincia de... e tendo mostrado desde tenra idade muita disposição para a carreira das lettras, seu pai o mandou educar.

Geraldo, que era parente afastado, mas também padrinho de baptismo de Innocencio, recebeu em sua casa o afilhado, que fez no Rio de Janeiro os seus estudos de humanidades com applauso geral dos mestres, que admirarão a sua intelligencia, e não menos o seu caracter honestissimo.

Aos dezoito annos Innocencio partio para a Europa, e lá, em vez de passear e divertir-se empregou oito annos em estudos assiduos e conscienciosos, de modo que em 1860 voltou para o Brazil, rico de sciencia e de illustração, podendo ufanar-se de ser um mathematico habil, um engenheiro pratico e um litterato brilhante.

Innocencio perdera seu pai quando estava na Europa, viera porém encontrar uma doce consolação no amor da mais carinhosa mãi.

Também tendo, de volta do velho mundo, chegado ao Rio de Janeiro em Junho de 1860, apenas se demorou oito dias nesta capital, e logo partio para sua provincia, onde ficou ao lado de sua mãi até o fim do anno, epoca cm que tornou para o Rio de Janeiro, chegando á cidade no dia 24 do primeiro mez de 1861, como se acaba de ver.

É certo que elle poderia ter chegado alguns dias mais cedo ; encontrando porém na fazenda de um velho amigo de seu pai, fazenda pouco distante da cidade, uma família da corte que alli fora passar a festa do Natal, deixou-se captivar e prender pelos encantos de uma interessante moça, amou-a, e não seguio a concluir a sua viagem senão quando aquella -200- família teve também de retirar-se, cabendo-lhe a dita de embarcar-se com os pais da sua amada e com esta no mesmo trem e no mesmo carro do caminho de ferro de D. Pedro II.

Creio que se adivinhará facilmente que a familia de que se trata é aquella mesma que saudou com signaes de amizade a Geraldo ao sahir da estação do campo da Acclamação.

Agora que fica já referida a historia do passado de Innocencio, é justo dizer duas palavras sobre o seu physico, e alguma cousa mais sobre o seu caracter.

Innocencio vai fazer vinte e sete annos; é alto, delgado, pallido, e sympathico; tem sobretudo uma fronte elevada, onde se lê claramente uma bella intelligencia, e olhos pardos e cheios de doçura, em que transluz a bondade.

Disse que Innocencio vai completar vinte e sete annos, e devo accrescentar que a certos respeitos parece não ter mais de quinze ou dezeseis ; une a um enthusiasmo de poeta a inexperiencia de um menino.

Bom até ao extremo, honrado como os que mais o são, de consciencia a mais escrupulosa, severo sempre para comsigo mesmo, indulgente sempre para com os outros, era sobretudo credulo como a infancia, e não calculava jamais nem com a hypocrisia, nem com a perfidia dos homens.

Ate á idade a que tinha então chegado, vivera constantemente afastado das luctas e das agitações do mundo, e só occupado com os seus estudos, cultivando apenas a sociedade oenqrosa e leal de alguns dos collegas das aulas.

Entrava agora finalmente no mundo social com a cabeça cheia de utopias e o coração cheio de amor. Era enthusiasta do bello, da virtude, e escravo do dever : amava com ardor a patria e desejava servil-a ; amava os homens e desejava ser-lhes util.

Embora fosse modesto, Innocencio tinha consciencia de que valia alguma cousa, e ufanava- se dos conhecimentos e da illustração que possuía, porque podia com a sua intelligencia esclarecida prestar serviços ao seu paiz.

E emfim, para remate completo e perfeito desta natureza tão propria para ser objecto e victima das zombarias e dos enganos do mundo, Innocencio era poeta, e podia, se quizesse, brilhar como tal aos olhos dos homens.

Desculpem-me se deixo em silencio os deeitos deste mancebo : os seus defeitos sem difficuldade se adivinhão, porque naturalmente devem corresponder á exaggeragão das suas boas qualidades.

Deixei Innocencio ainda ha pouco á mesa do almoço; agora vou encontral-o no seu quarto.

Está deitado, mas não dorme, nem descança; medita: em que medita ?... Elle lá o sabe; sonha talvez, sonha com um futuro de flores, com triumphos, com amor, com a gloria: sonha com illusões : não é assim que sonhão todos os poetas?...

Levantou-se, e foi sentar-se a uma mesa, abrio a sua carteira de viagem, delia tirou papel, pennas e um pequeno tinteiro, e pôz-se a escrever.

Escreve no seu diario as lembranças e impressões do dia, a cujo termo ainda não chegou.

Realmente, ha n'esse cuidado pressa demais.

Sorrio e suspirou escrevendo um nome; esse nome é Christina.

É provavel que se chame Christina a moça com quem elle veio no carro do trem do caminho de ferro ; não é provavel, é certo, porque sem necessidade já escreveu três vezes o mesmo nome, e o repete docemente dez vezes de cada vez que o escreve uma.

Melhor! esqueceu a prosa, e compõe versos: é um canto que improvisa, e com tanta facilidade e promptidão que no fim de duas horas escreve o ultimo verso da vigesima e derradeira estrophe.

Mas nesse momento rebentou aos ouvidos do mancebo uma gargalhada homeryica.

Innocencio voltou a cabeça e vio seu padrinho encostado á sua cadeira.

— Estava ahi, meu padrinho ?...

— Sim, e li o teu canto, que me fez rir.

— Porque?... achou-o máo? — Pessimo, porque me parece excellente.

— Não o comprehendo.

— Pois é facil: quem escreve versos como esses...

— Está apaixonado, não é isso?... confesso que tem razão.

— A paixão é o menos, porque a paixão apaga-se.

— Conforme...

— Apaga-se.

— Admitíamos isso ; e que mais então ?...

— É que quem escreve versos camo esses, ainda que nunca mais escreva outros, nem por isso deixará de ser sempre poeta pela cabeça e pelo coração, e está por conseqüência destinado a ser uma alma de outro mundo desterrada neste, onde não encontrará nunca nem o que pensa, nem o que sonha.

— Meu padrinho confunde este mundo com o inferno.

Não, meu afilhado ; eu não confundo, digo somente o que elle é : és tu que pretendes arranjar o mundo a teu modo, e transformal-o em paraíso.

E o peior foi que dessa vez Geraldo-Risota não rio.

II

A capital do Imperio do Brazil compõe-se, por assim dizer, de duas cidades distinctas, mas habitadas pela mesma população : a cidade da manhã e a cidade da tarde, a cidade do trabalho e a cidade do descanço. A primeira é aquella que especialmente se estende do campo da Acclamação para os diversos bairros commerciaes, que fórmão o que ainda se chama a cidade velha : a segunda é immensa, variada e pittoresca, e comprehende todos esses suburbios elegantes, amenos e saudáveis, que se chamão Cattete, Botafogo, Laranjeiras, Santa Theresa, Engenho-Velho, Rio-Comprido, S. Christovão, Andarahy, Tijuca, e outros ainda.

De manhã, negociantes, capitalistas, funccionarios publicos, advogados, e homens de de todas as profissões, correm a povoar a cidade do trabalho ; chegada porém a hora em que o trabalho cessa ou escassêa, voltão apressados a passar a tarde e a noite na cidade do uescanço. É verdade que a grande maioria da população fica sempre na primeira cidade ; mas também a grande maioria é composta d'aquelles que não podem ter uma casa para a manhã e outra para a tarde e a noite : habitão constantemente a cidade do trabalho pouco mais ou menos pela mesma razão por que os prezos habitão na cadeia.

Geraldo-Risota pertencia ao numero dos felizes, que podem ir jantar e dormir na chacara, e, muito zeloso d'esse direito, logo que terminou a sua tarefa no dia da chegada de Innocencio, partio para a sua casa de campo, levando comsigo o afilhado.

Jantarão ambos como bons amigos, e, acabado o jantar, fôrão tomar o fresco passeando pelo jardim.

Alli estão elles, o padrinho e o afilhado, sentados em frente um do outro, em dous bancos de relva.

Innocencio acabava de enunciar-se não sei a respeito de que assumpto com o seu ardor costumado, e Geral-Risota havia lhe respondido com uma gargalhada.

Ficarão depois em silencio por algum tempo ; mas Geraldo outra vez encetou a conversação.

— Conversemos, Innocencio; mas falla-me em prosa se queres que eu te entertda.

— Fallar-lhe-hei do modo que chama prosa, meu padrinho, isto é, sem mostrar interesse, e ainda menos enthusiasmo, que é o que lhe narece poesia; fallar-lhe-hei pois assim, mas ha de ser com uma condição.

— E qual é ella ? _ Que vossa mercê não me interromperá com as suas risadas, que me desapontão.

— Oh diabo ! — Sim ou não, meu padrinho !...

— Mas se és tu que me fazes rir ! — Vossa mercê ri de tudo.

— Foi o melhor partido que pude tomar depois que reflecti seriamente sobre os homens e as cousas da nossa epoca.

— Em tal caso não direi mais palavra, nem em verso, nem em prosa.

— Está bem : por tua causa suffocarei o riso e tornar-me-hei sério e grave como um desembargador quando veste a beca. Ora pois, conversemos.

— Conversemos, meu padrinho.

— Principia tu, pondo-me ao facto dos teus projectos e esperanças ; pôde ser que eu te dê algum bom conselho, porque emfim sou teu parente, teu padrinho, e teu amigo.

— Com o maior prazer.

— Vamos lá: acceode outro charuto, e falla ; mas falla sem fogo, falla frio, desenxabido e positivo como um deputado ministerial.

Innocencio accendeu um segundo charuto e fallou : — Meu padrinho, tres grandes esperanças me animão, tres bellos pensamentos me occupão actualmente.

— É muito : tres são demais ; devia ser uma só, e ainda assim não seria difficil o desencanto.

— Mas as minhas esperanças baseão-se em seguros fundamentos.

— Vamos a ellas.

— Espero no dia 30 de Janeiro ser eleito deputado pelo meu districto, na provincia onde nasci.

— Oh lá! — Espero que o governo me confie uma commissão importante, na qual servirei bem ao meu paiz, e darei uma provados meus recursos intellectuaes.

— Excellente! — Espero emfim casar-me com uma jovem que fará a felicidade da minha vida.

— Tres sortes grandes sem comprar bilhete!...

desconfio de tanta cousa junta : olha que eu desato a rir, Innocencio ! — E eu calo-me.

— Não : estás vendo que conservo inalteravel a minha gravidade de desembargador de beca.

Tornemos ás esperanças, e estudemos cada uma por sua vez. Como arranjaste a deputação? — Muito simplesmente : reuni em minha casa os eleitores do meu municipio, expuz claramente a todos elles as minhas idéas politicas e administrativas, mostrei-lhes quaes erão os meios mais racionaes e capazes de preparar um brilhante futuro á nossa pátria, marquei o procedimento que eu teria se fosse eleito deputado, e conclui dizendo-lhes : eu não vos peço os vossos votos ; pergunto-vos se os mereço : se os mereço, deveis dar-m'os : a eleião não é uma questão de favor, e sim de interesse geral e de consciencia. Ora, os eleitores respondêrão-me que as minhas idéas erão excellentes, e que me suppunhão muito digno de uma cadeira na camara temporaria ; por conseqüencia, não posso duvidar do resultado da minha eleição.

— Mas quem toma a peito a tua candidatura ? — Creio que todos os eleitores. — Porque?...

— Já o não disse?... porque todos eíles applaudírão as minhas idéas, e reconhecerão que erão sãs, conscienciosas e utilissimas.

— E o presidente da provincia protege-te ? — Que tem que ver o presidente da provincia com a minha eleição ?... eu rejeitaria um diploma que fosse arrancado aos eleitores pela intervenção do governo.

— Mas alguma potencia eleitoral ao menos...

— A unca potencia eleitoral deve ser o merecimento do candidato ; uma eleição não é um favor que se ande mendigando : hei de ser eleito sem empregar esses meios que reprovo.

— Só depois de vèr esse milagre acreditarei n'elle. Desconfio muito que não serás nem o immediato em votos. Rapaz, tu pensas que a eleição é uma bella realidade politica, e ella não passa de uma comedia ou fantasmagoria constitucional. Mas vamos á segunda esperança : a tal commissão...

Soube, antes de partir para a minha provincia, que o governo ia nomear um commissario encarregado de examinar trabalhos importantes, que se referem á especialidade que foi objecto dos meus principaes estudos : requeri ser escolhido para essa commissão, documentando o meu requerimento com todos os meus attestados acadêmicos, declarando-me prompto para exhibir provas da minha capacidade em um exame publico, e, visto que sou ainda pouco conhecido, apontando diversos cavalheiros considerados d'esta capital que podem affiançar a minha probidade. Ora, a commissão é difficil e espinhosa, não creio que muitos a desejem, e portanto espero ser escolhido para ella.

— E quem é o teu patrono n'esta pretenção ? _ O meu patrono?...

— Sim ; quem se empenha a teu favor ?...

— Meu padrinho é maniaco pelos empenhos!... eu não pedi, nem peço a pessoa alguma que se interesse por mim : offereci-me a sujeitar-me a um exame publico, lembrei homens conceituados que podem responder pela minha probidade, e é o que basta.

— Fallaste ao ministro respectivo ?...

— Procurei-o, e respondêrão-me que elle estava muito occupado, o que é bem natural, porque um ministro tem a seu cargo uma tarefa onerosissima ; deixei pois o meu requerimento documentado na secretaria, e espero socegadamente o resultado.

— Innocencio ! disse Geraldo; uma de duas : ou tu te resolveste a passar a tarde divertindo-te á minha custa, ou és o maior tolo que eu tenho conhecido no mundo.

— Porque, meu padrinho?... — Pois tu já viste nomeações sem patronos e sem empenhos?...

— Oh senhor ! exclamou Innocencio, não fallo agora de mim, que pouco valho: quando porém se apresenta pretendendo um emprego um homem illustrado, honesto e capaz de preenchel-o com proveito do paiz...

— Em regra não arranja nada, é posto de lado, e morre pagão, se não tem padrinho.

— Que blasphemia, meu Deos!...

— Innocencio! conheces o direito constitucional do teu paiz ?...

— Um pouco.

— Quantos são os poderes do Imperio ?...

— Ora, meu padrinho ! — Responde.

— São quatro.

— São cinco.

— Eu respondo com o direito constitucional.

— E eu com o direito consuctudinario. O patronato é o quinto poder do Imperio : ainda não houve ministro que o confessasse em alta voz ; mas também nenhum houve ainda que deixasse de reconhecel-o e dobrar-se a elle.

— Então o Brazil...

— O Brazil está no caso das outras nações : mais miseria, menos miséria, mais ou menos desmoralisação, todas ellas andão assim.

— Portanto...

— Aposto que ficarás sem a commissão.

— Veremos.

— Vamos á esperança do casamento.

— Meu padrinho, não vio aquella familia que chegou hoje comigo em um carro do trem da estrada de ferro?...

__ Ah! trata-se da formosa D. Christina, filha do meu amigo Fagundes... uma bella moça de apparencias sentimentaes, mas fria como uma pedra de gelo, e positiva como um bilhete do banco.

— Meu padrinho ! eu a amo...

— E ella ? — Corresponde ao meu amor.

— E os pais? — Não podem deixar de sabel-o.

— Entendo : o nosso amigo, em cuja casa estiveste, deu-lhes noticias tuas e de tua familia, e elles ficarão sabendo que tens uma fortunasinha de cincoenta a. sessenta contos de reis. — E que vem isso ao caso ? — Vem muito : vais por ahi melhor do que pelas esperanças de deputação e de emprego.

— Creio que não se refere ao meu dinheiro...

— Refiro-me ; é mesmo justo que um pai deseje para sua filha um marido que tenha com que tratal-a convenientemente : é verdade que o meu amigo Fagundes não é pobre : mas nem por isso calcula menos com um genro que seja rico. Anima-te pois : a tua terceira esperança realisar-se-ha, comtanto que....

— Acabe ! — Ora! comtanto que ainda a tempo não appareça algum outro pretendente que, mercantilmente fallando, represente uma somma mais avultada do que tu podes representar.

— Isto é de mais ! — Não é de mais nem de menos, é exacto.

Entretanto approvo a tua idéa de casamento, e amanhã á noite iremos tomar chá á chacara do Fagundes; quero apresentar-te como meu afilhado. — Aceito, meu padrinho.

— E não tens mais que confiar-me ? — Nada mais.

Ouvindo isso, Geraldo-Risota começou a soltar tantas e tão continuadas risadas que esteve o ponto de cahir do banco onde se achava sentado. Innocencio susteve-o, e pedio-lhe que se lembrasse da promessa que fizera.

— Deixa-me rir ! deixa-me ! não sabes quanto me custou estar sério por tanto tempo ; mas disseste cousas que hão de fazer-me rir durante um anno.

III

No dia seguinte, das seis para as sete horas da tarde, Geraldo e Innocencio dirigirão-se á chácara de Fagundes.

Era curta a distancia que tinhão de vencer, mas ainda assim o padrinho e o afilhado aprveitarão o tempo conversando.

— Innocencio, disse Geraldo, preciso que meprevinas do papel que pretendes representar para com a familia de Fagundes.

— Que papel pretendo representar ! essa é boa, meu padrinho ; eu quero e hei de sempre apparecer e mostrar-me tal qual sou : dir-se-hia que vossa mercê suppõe que se trata de representar alguma comedia! — Rapaz, o mundo é um theatro immenso onde os homens, quer em relação á politica quer em relação ás suas profissões, ás sociedades que frequentão, e até á propria religião, são comicos mais ou menos habilidosos. Todos representão, e muitos ou quasi todos o fazem até mascarados.

— E com que fim ? — Com o fim de ver quem mais engana os outros e mais se aproveita da credulidade alheia.

— E meu padrinho queria então que eu também por minha vez voltasse as costas á verdade, esquecendo o dever da lealdade e da franqueza, e me desfigurasse com a mentira?...

— Eu não disse que o queria; apenas perguntei o que pretendias fazer : não te aconselho a que te deixes corromper e te des-moralises, mas também se te visse já enfeitado com uma certa perfídia e desmoralisação elegante, que tanto aproveitão aos grandes e poderosos da terra, não trataria de corrigir-te, porque vejo que é com esses enfeites que melhor se arranja a vida e se passa bem no mundo.

— E meu padrinho pratica também assim ?...

— Eu não, mas eu já não sou desse mundo ; ou mesmo quem sabe se as minhas repetidas gargalhadas não são uma espessa mascara com que escondo o pezar de mil decepções e desenganos ?... Está dito :. eu também represento o meu papel de Democrito.

— Ah! — Mas ainda ha pouco disseste uma grande asneira perguntando-me se eu queria que te desfigurasses com a mentira : as mentiras do bom tom não desilgurão, esmaltão, e era possivel que te quizesses esmaltar com algumas dessas mentiras aos olhos da família do meu amigo Fagundes.

— Por exemplo...

— Por exemplo, podias querer passar por fidalgo, e em tal caso inventarias dez historias a respeito da sublime procedência de teus avós : para um moço que deseja recommendar-se á sua noiva e aos pais della, isso não era de todo novo nem mal pensado. Actual-mente, a fidalguia vai creando azas e tomando uns ares que fazem medo; o que vale é que os nossos fidalgos arranjão-se ás duzias e apresentão-se tão caricatos que fazem rir. Podias também, e isso era mais importante ainda, querer passar por herdeiro futuro de uma riqueza colossal, dizendo em tal caso que tua mãi possue dez fazendas em vez de uma só : em questão de casamento uma mentira deste gênero esmalta admiravelmente um noivo e impressiona de um modo indizivel os pais da moça.

— E depois?...

— Depois de arranjado o negocio, os illudidos que engulírão a pílula, calão-se porque se se animassem a fallar e protestar...

— Que aconteceria?...

— O mundo rirse-hia delles, e eu, mais que todos, soltaria enormes gargalhadas.

— Pois eu nunca me servirei da mentira nem da perlidia para alcançar o que desejo.

— Farás bem e farás mal ; alcançarás uma coroa no reino do céo, mas has de levar muita pateada nos reinos da terra.

— Então a virtude já fugio espantada e corrida deste mundo ?...

— Não : ainda se sustenta nelle, resistindo ao triste espectaculo da prepotência, do patronato, da traição, da infidelidade, e do vicio, que muitas vezes campeião triumphantes; ainda resiste e resistirá sempre, e é por isso que é virtude.

— Ainda bem ! meu padrinho já acredita em alguma cousa! — Pois eu deixei algum dia de crer na vir tude, na honestidade e na honra ?... O que eu digo é que, sendo poucos os virtuosos, ando sempre a rir e sempre desconfiado, ao ver a multidão de gente que anda a toda hora impondo de virtuosa.

Geraldo e Innocencio chegarão nesse momento ao portão da chácara de Fagundes, e dahi a pouco baterão palmas á porta, e o primeiro exclamou : _ Licença para um padrinho que traz comsigo o seu afilhado ! É inutil dizer que Geraldo e Innocencio fôrão recebidos com a maior alegria.

— O Sr. Innocencio não precisava de apreentação, disse Fagundes, é já nosso amigo e deve-nos muita estima.

— Mas folgamos bastante por saber que é seu afilhado, accrescentou Carlota, a mãi de Christina.

— E além de afilhado, parente, disse Geraldo.

— Parente chegado?... perguntou com interesse a boa mãi da menina.

— Não ; tenho outros mais próximos, respondeu Geraldo, desatando a rir.

Bem depressa a conversação tornou-se geral, sendo Innocencio objecto de extraordinarios elogios da parte de Fagundes e de Carlota.

Quem menos fallava era Christina.

O rosto desta moça era regular e bonito; attrahia porém a attenção ainda mais por uma certa expressão de suave melancolia do que pela suabelleza; seus olhos principalmente, seus olhos negros ehumidos, erão cheios de um languor que captivava ; sua voz parecia um canto harmonioso, cada um de seus sorrisos um triumpho de amor : a graça morava nos labios de Christina.

Innocencio devorava cora olhos ardentes a sua encantadora amada.

Fagundes e Carlota conversavão cora Geraldo de modo a deixar ao mancebo tempo e occasião de sobra para fallar era liberdade a Christina.

Mas os dous namorados entendião-se ainda mais com os olhos e cora os suspiros do que com a palavra.

— Canta alguma cousa, disse emfim Carlota a Christina.

A moça fez-se rogar um pouco, e acabou por levantar-se, sendo acompanhada por Innocencio ao piano.

— Permitte que eu tenha a honra de acompanhar o seu canto?... perguntou o mancebo.

— Com muito prazer, disse corando e tremendo a moça.

Escolhião a musica... folheavão-se os livros...

os dedos côr de rosa de Christina encontravão-se com os de Innocencio, e ao doce contacto ambos sorrirão.

Emfim Christina preferio entre outras a aria de Eleonorado Torquato Tasso, e cantou-a com sentimento e paixão.

Acabado o canto, os dous namorados ficarão conversando junto do piano.

— Gosta muito d’aquella musica, minha senhora ?..- — O mais que é possivel.

__ Tem razão; a musica do Torquato é um verdadeiro triumpho da arte.

__ Talvez que a arte seja o que menos influe na minha predilecção por esta ária.

— Então...

— Arrebata-me o pensamento que alli domina, arrebata-me aquelle amor que faz esquecer a distancia que separa o poeta da princeza: o sentimento transborda alli com a mais sublime pureza. É um amor que não parece da terra, e que é no emtanto o único que eu posso reputar verdadeiro e santo.

Innocencio teve desejos de ajoelhar-se aos pés de Christina e adoral-a como um anjo.

— Oh ! tem havido tantos sacrilegos, ousando emprestar o nome sagrado de amor a sentimentos ás vezes tão baixos !... o interesse tem tantas vezes manchado esse nome bello e puro, envolvendo-se com eíle, que...

— Acabe...

— Senhor.... estou dizendo loucuras...

— Oh! não.... está fazendo ouvir a lição da virtude, da generosidade, do amor do céo ! — Pois bem : tantas vezes tem-se observado aquelle sacrilégio abominável, que pela minha parte eu preferira ser victima delle a parecer suspeita de haver pensado em commettel-o! Oh! eu desejara que o homem a quem eu amasse.... e que tivesse de ser meu esposo, fosse tão pobre, tão completemente pobre que somente me pudesse dar o thesouro do seu coração. Então eu ostentaria o meu amor profundo, desinteressado, virgem, divino pela sua essência, divino ainda pela sua duração sem termo... porque o meu amor, eu o sinto, não poderá acabar nunca! Com uma commoção violenta, Innocencio agitado, nervoso, tremulo e receioso de atraiçoar-se, correndo com os dedos pelo teclado de piano, executou alguns compassos de uma musica estridente, ao mesmo tempo que Christina, commovida também, mas observandoo cuidadosa e disfarçadamente, vio cahirem-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.

— Incommodei-o ? chora?... perguntou ella.

— Não ! não! estas lagrimas que cahírão de meus olhos, são mais doces do que todos os risos da felicidade, Christina.... Christina... o seu amor é como o amor que eu sinto, e o seu... eu o quero para mim... é meu... pertence-me... Ah! diga-me ainda uma vez que me ama...

A moça deixou cahir sua mão esquerda sobre as mãos de Innocencio, e apertando com a outra o coração, murmurou docemente : — Amo-o ! O chá começou a servir-se naquelle momento.

Às dez horas da noite Geraldo e Innocencio despedirão-se e retirárão-se.

— Então ! aproveitaste bem o teu tempo, não é assim ?... perguntou Geraldo.

— Meu padrinho, respondeu Innocencio, Christinaé um anjo! — Mas repara que não me asseguras que não seja algum daquelles anjos decahidos que se revoltarão contra Deos e cahírão do céo no inferno.

— Não zombe ; é um anjo de virtude e de amor! — Qual! é uma moça bonitinha, que tem mais defeitos do que pensas.

— Meu padrinho, peço-lhe que respeite aqúella que deve ser minha esposa.

— Não digo mais palavra sobre ella; creio porém que posso fallar sobre os pais.

— E que tem a dizer a respeito d'el-les ?...

— Pouca causa : digo que se interessão por ti.

— Ah! — Não houve pergunta que me não fizessem : ficarão sabendo a quanto montou a legitima que te tocou por morte de teu pai e a — 224 herança que te caberá, por morte de tua mãi...

— Meu padrinho ! — Não acharão máo o que eu lhes disse e que foi a pura verdade, mas ficarão menos contentes quando eu os informei de que não podias esperar ser herdeiro de mais parente algum...

— Sempre a mesma idéa!...

— É muito natural; os pais devem pensar no futuro de suas filhas ; e assiste-lhes o direito de ser muito positivos.

— Tem razão.

— E Christina ? que te disse ella? — Vossa mercê zomba de tudo........

— Não, tomarei este negocio ao serio.

Innocencio contou palavra por palavra tudo quanto se passara entre elle e Christina, e o enthusiasmo com que esta lhe fallára do amor da princeza Eleonora, e do amor desinteressado e santo, unico que ella comprehendia. Ouvindo isso,Geraldo-Risota pareceu fazer um esforço sobre si mesmo, e de repente.começou a assobiar muito desatinadamente uma musica que ninguém seria capaz de dizer o que era.

— Que faz, meu padrinho ? perguntou Innocencio.

— Assobio, meu afilhado; assobio para não rir

IV

Foi tão lisonjeiro ou tão animador o acolhimento que Innocencio recebeu dos pais da sua amade, que não deixou mais passar uma única noite sem ir pagar tributos de amor e colher suaves esperanças na chácara feliz onde habitava Christina.

Visitas tão freqüentes poderião oífender certas considerações que sempre se devem respeitar ; mas Innocencio olhava já Christina como sua noiva, e embora ainda não a tivesse pedido formalmente em casamento, já com tanta clareza manifestara as suas intenções a este respeito, a Fagundes e sua esposa, que sem vexame e quasi que com uma presumpção de direito ia todas as noites passar duas ou tres horas ao lado daquella que devia ser em breve a sua companheira de toda vida.

Também de sua parte Fagundes e Carlota recebião sempre com o maior agrado Innocencio, e Christina nunca se despedia delle que, ao apertar-lhe a mão, não lhe dissesse : — Até amanhã! — 226 Tudo isso era muito natural e explicavel.

A um namorado não faltão jamais pretextos e nem mesmo razões que lhe parecem muito solidas para freqüentar assidua e até diariamente a casa daquella a quem ama.

Os pais de uma menina que já tocou á idade de casar-se, acolhem sempre com estudado favor o mancebo que se lhes afigura em boas condições de ser um marido extremoso e capaz de fazer a felicidade da filha.

O que porém menos natural poderia parecer, era a incançavel solicitude com que Geraldo- Risota mostrava auxiliar os amores e os projectos de casamento de Innocencio.

Geraldo não deixava de acompanhar o afilhado uma só noite á charara de Fagundes, nem de informar-se na volta a respeito do estado das relações dos dous amantes.

Uma vez, Innocencio chegou a agradecer ao padrinho os signaes do vivo interesse que lhe devia.

— Nada de agradecimentos, respondeu Geraldo ; não quero que te enganes comigo; o empenho que tomo em informar-me dos teus amores com Christina, nasce somente do juizo que faço do coração da tua noiva, e da admiração que me causa a sua constancia.

— Já vê, meu padrinho, que lhe cumpre reformar o seu juizo e pedir perdão a Cristina — Ainda não: deixa primeiro soprar o vento.

— Que vento ? — Um certo vento que ás vezes faz mudar de rumo a muitos homens, e do mesmo modo a muitas senhoras.

— Meu padrinho ! já lhe pedi.. .

— Mudemos de assumpto.

— É melhor.

— Como vais de esperanças eleitoraes?...

— Nada posso dizer além do que já lhe disse; não tenho recebido carta alguma da provincia.

— Máo signal! — Não : estou perfeitamente tranquillo : a minha eleição é indubitavel.

— E a commissão do governo ?...

— Fui já três vezes procurar o ministro, para entender-me pessoalmente com elle, e não consegui uma só vez fallar-lhe.

— Talvez o procurasses em horas mal escolhidas.

— Por pensar também assim, mudei sempre de hora.

— E sempre infeliz, heim ? — A primeira vez fui ás onze da manhã: S.

Ex. estava almoçando.

— Bom! — A segunda fui ás cinco horas da tarde ; S.

Ex. estava jantando.

— Melhor ! — Exasperado ou pelo menos contrariado, á terceira vez fui ás oito da noite, e S. Ex. estava ceiando !...

— Optimo, sempre comendo ! — Não volto mais ao ministro, — Mas a commissão ?...

— Ha de vir a seu tempo : o meu requerimento está de tal maneira concebido que, ou o governo ha de attender-me, ou escolherá para o desempenho da commissão um homem mais habil e mais digno do que eu, e nesse caso não poderei queixar-me.

— E se escolher uma pessoa sem capacidade nem habilitações ?...

— Nao admitto semelhante hypothese.

— Podes contar com a salvação eterna, Innocencio.

— Porque ? — Porque dos innocentes é o reino do céo.

Na noite que se seguio áquella em que teve logar este breve dialogo, Innocencio e Geraldo- Risota encontrarão na chácara de Fagundes quatro outros visitantes.

Erão elles : Antônio Cubas, um ancião com endador e trimillionario, e Anselmo, Victorio e Carlos, todos tres também Cubas, pois que erão filhos do rico capitalista.

Antonio Cubas é um bom velho mas orgulhoso, porque orgulhoso o tornarão os aduladores da sua fortuna...

Dos seus tres filhos, Anselmo era atilado, astuto, ambicioso e dotado das melhores condições para fazer fortuna depressa : seu pai o amava muito, depunha nelle a maior confiança, e o escolhera entre os outros para ajudal-o a dirigir os seus negocios.

Victorino e Carlos tinhão estado em Pariz, onde havião encontrado por vezes Innocencio.

Victorino fora estudar a sciencia do direito, e Carlos a engenharia ; divertirão-se ambos o mais que puderão, e voltarão pouco mais ou menos com a instrucção com que tinhão sahido do Brazil.

O doutor em direito ainda não distinguia bem os diversos systemas de governo por que são regidos os povos, e sustentaria que a Inglaterra e a Rússia têm identicas fórmas de governo. O engenheiro não sabia desenhar nem seria capaz de construir uma ponte ; ambos porém tinhão os seus diplomas muito regulares.

Entretanto, Victorino e Carlos havião sem pre aproveitado alguma cousa em Pariz : nada se podia notar na perfeição com que retorcião as pontas dos seus bigodes ; no tom com que se vestião; na amabilidade com que fazião a corte ás senhoras e no ar de solemne desprezo com que olhavão para quem não tinha pelos menos um cavallo inglez, um phaetonte, e uma duzia de historias de conquistas e de seducções de que se ufanar.

Innocencio olhou com indifferença, e Geraldo-Risota com muita attenção para os quatro Cubas.

A noite não correu inteiramente ao gosto de Innocencio. Os novos hospedes tinhão vindo perturbar os gozos innocentes e suavissimos do seu coração.

Christina, obrigada sem duvida pelas exigencias de uma perfeita cortezia, a obsequiar a todas as pessoas que em sua casa se achavão, não poude como até então occupar-se exclusivamente de Innocencio ; mas pelo menos olhou mil vezes, mil vezes sorrio para elle, e mil vezes ainda tornou a olhal-o corando, e certamente afflicta por não poder escapar de um modo conveniente ás insistências de Victorino, que especialmente lhe fazia a corte.

Ás dez horas da noite leventarão-se Antônio Cubas e seus filhos, para se retirarem, e logo depois Innocencio e Geraldo-Risota despedirãose também.

— Até amanhã, disse Christina a Innocencio, apertando-lhe como sempre a mão.

Aquelle doce — até amanhã — foi para o apaixonado mancebo uma indizivel consolarão.

O padrinho e o afilhado voltavão para casa caminhando em silencio.

Mas Geraldo não podia conservar-se por muito tempo em silencio.

— Não dizes nada,Innocencio! observou elle, um pouco maliciosamente.

— Nada tenho que dizer, meu padrinho.

— Pareces-me um pouco pensativo.

— Quasi sempre ando reflectindo.

— Um pouco melancolico....

— Creio que não.

— Sou capaz de jurar que esta noite voltaste da chacara do Fagundes menos satisfeito do que das outras...

— Talvez.

— Porque ? — Não sei.

Geraldo sorrio ; mas conteve-se, para que o afilhado não se apercebesse disse.

— Conhecias já aquelles Srs. Cubas ?...

— Conheci em Pariz os dous mais moços.

— Victorino e Carlos...

— Esses mesmos.

— Que me dizes delles?...

— Não convivi com elles ; nada posso informar das suas qualidades.

— Aproveitarão muito na Europa ?...

— Não estou no caso de responder affirmativa nem negativamente. Ignoro.

— Muito bem, Innocencio ! muito bem ! gosto ainda mais de ti quando não me fazes rir.

— Não o comprehendo, meu padrinho.

— Comprehendes....comprehendes: como não te é possivel elogiar aquelles dous petits-maitres, preferes guardar silencio : isso é generoso ; eu porém que sou máo e fallador, direi o que tens e escondes na consciencia. Victorino e Carlos forão para França, demorárão-se por lá cinco annos, gastarão cincoenta contos de reis ao tolo do pai, voltarão com dous diplomas que mandarão comprar na Allemanha, e chegarão ao Rio de Janeiro sabendo de menos a propria lingua e somente sabendo de mais uma lingua, nova e desconhecida, que se parece um pouco com a franceza : mas que, em ultimo resultado, não o é. Acertei ou não ?...

Innocencio sorrio e não respondeu.

— Sabes que mais ? disse Geraldo : gosto muito de fallar; mas aborreço-me de o fazer quando não me respondem : se eu fosse musico, detestaria as arias, e só cantaria duetos. Tu hoje estás intoleravel, Innocencio.

— Porque, meu padrinho ? __ Queres que te diga o que te tornou assim silencioso e aborrecido de tudo ?...

— Diga.

— Foi o vento.

— Que vento?...

— O vento que começa a soprar, meu afilhado; aquelle que ás vezes faz mudar de rumo a muitos homens e a muitas senhoras. É um vento que os marinheiros não conhecem, vento que tem um nome geral que eu agora não quero dizer, e que póde também chamar-se por todos os nomes que tomão os homens : desta vez o vento chama-se... — Como ?...

— Victorino.

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