O mez de Fevereiro ia correndo e approximando-se do seu termo.
Ninguém ignora que o mez de Fevereiro de 1861 foi no Brazil um mez cheio de alegria para alguns e de tristeza para muitos, conforme trouxe a satisfação ou o desengano das esperanças que em Janeiro sorrião a quasi todos os pretendentes de cadeiras no parlamento.
Innocencio andava triste desde muito dias, mas convém saber que não era a sua tristeza a conseqüência de uma derrota eleitoral. Distava muito da corte o Circulo por onde elle esperava ser eleito; não tinha ainda recebido noticias da eleição, e continuava, pois, como até então, a contar como seguro e indisputavel o seu triumpho.
Também não era a demora da nomeação que do governo esperava, que o fazia mostrar-se melancolico : maldizia das delongas com que a administração publica atrazava a decisão e despacho do seu requerimento, mas insistia sempre em que o governo o escolheria para desempenhar a comraissão de que se tratava ou escolheria para ella alguma outra pessôa de merecimento bastante para não lhe dar motivo de queixa.
O que entristecia Innocencio, era unicamente a situação em que se achava a respeito do seu amor e suas pretenções de casamento.
Depois daquella noite em que encontrara os quatro Srs. Cubas em casa de Fagundes, continuara durante uma semana a freqüentar com a mesma assiduidade o tecto querido onde vivia a sua amada, tendo sempre o desprazer de achar ao lado de Christina ou o velho Cubas e seus tres filhos, ou pelo menos o pretencioso Victorino, que não cessara de fazer a corte áquella que elle já considerava sua noiva.
A principio julgou aquellas visitas apenas impertinentes; logo depois, porém, incommodou-se muito seriamente com ellas.
Por mais que quizesse cerrar os olhos á luz da evidencia, não poude deixar de reconhecer que Christina, em vez de procurar furtar-se aos comprimentos demasiado significativos de Victorino, parecia antes excital-os e corresponder a elles.
Innocencio teve pejo de mostrar-se ciumento, mas não lhe foi possivel disfarçar o seu desgosto.
Christina ou não comprehendeu oufingio não comprehender o sentimento que despedaçava o coração de seu amante.
Geraldo-Risota, que era o companheiro infallivel de Innocencio, ria muito do que se estava passando, e repetia sempre ao afilhado : — É o vento que está soprando.
Na ultima noite daquella semana, que foi a derradeira de assiduidade, Christina, apertando a mão de Innocencio no momento da despedida, limitou-se a dizer-lhe « boa noite !» e não lhe disse mais, como d'antes « até amanhã ».
O nobre mancebo resentio-se, e passou tres noites sem voltar á chácara de Fagundes.
Na quarta noite não poude vencer-se e correu aos pés de Christina.
A bella e desinteressada joven estava sentada junto de Victorino, e, cortejando com sensivel frieza a Innocencio, nem lhe perguntou se estivera doente.
Era muito : era claro, era evidente : o vento estava soprando.
O filho do riquissimo Sr. Cubas fazia voltar a cabeça á jovem romanesca, que uma noite dissera com enthusiasmo a Innocencio que desejava que o homem a quem amasse e que tivesse de ser seu esposo, fosse tão pobre, tão completamente pobre que somente lha pudesse dar o thesouro de seu coração.
Innocencio retirou-se da chacara de Fagundes uma hora depois de ter lá chegado, e arrastou oito noites seguidas sem voltar a ella. Amando sempre Christina, procorando desculpal-a, desgostoso de si mesmo, gastou dias inteiros a procurar um pretexto para tornar a vêl-a, e a descobrir um meio que puzesse um termo honroso á situação melindrosa em que suppunha achar-se.
Está visto que acabou por fazer a desejada descoberta de um e outro.
O pretexto foi a inconveniência que resultava, do seu subito e inexplicavel desapparecimento de uma casa onde fora constantemente bem recebido e obsequiado. O meio foi a necessidade de ter uma explicação decisiva com Christina.
Tomada esta dupla resolução, Innocencio, desejando por um lado não encontrar-se com Victorino, e por outro escapar ao menos uma vez á companhia de seu padrinho, sahio uma tarde ainda cedo, e sósinho dirigio-se á chácara de Fagundes, Christina estava no jardim e vio o mancebo aproximar-se della: não avançou um passo para encontral-o, nem recuou um passo para fugir-lhe ; ao menos porém sorrio ao vêl-o chegar.
Innocencio abrio o coração para receber aquelle correio.
— Até que emfím voltou ! disse Christina.
— Suppunha então que eu não voltaria ? perguntou o mancebo.
— Não sei, respondeu a moça; quem comprehende o coração de um homem ? — Tem-se feito mil vezes essa pergunta, minha senhora, mas sempre a respeito do coração da mulher.
Christina tornou a sorrir.
— Sim, minha senhora, continuou Innocencio: é somente o coração da mulher que se reputa incomprehensivel; eu porém via em V.
Ex. uma bella excepção a essa regra pouco lisonjeira para o sexo amavel.
— E mudou de opinião ? — Não mudei ainda, mas é possivel que mude.
— E porque ?...
— V. Ex. o pergunta?... Se quer zombar de mim, é uma crueldade e um sacrilegio, porque atormentaria o amante e ridiculisaria o amor.
— Que amor! que amor é esse tão forte e irresistivel que pode dormir oito dias ?...
Innocencio sentio brilhar de novo a seus olhos a mais suave esperança: daquellas palavras transpirava uma queixa, e essa queixa era para elle a felicidade, a gloria.
O credulo mancebo não sabia que Victorino não apparecêra na chacara de Fagundes nas duas ultimas noites.
— Sentio então a minha ausência ? perguntou Innocencio.
— Senti e chorei: senti, porque a sua ausencia me parecia um desengano cruel; chorei, porque suppuz que ella podia ser aconselhada por um resentimento infundado, e, ousarei dizel-o, por um ciúme injusto.
— Christina!...
— O senhor é máo para mim ! disse a moça, levando o lenço aos olhos, — Oh ! não chore ! não ! exclamou Innocencio : é verdade... o ciume torna-me injusto ; eu porém venho hoje merecer o meu perdão, pedindo-lhe licença para dar um passo decisivo, que deve ser o principio da nossa felicidade.
— E qual ?...
— Se o permitte, pedil-a-hei hoje em casamento a seus pais. Christina estremeceu e corou.
— Permitte-o ?...
A moça tinha os olhos no chão e meditava.
Innocencia tremia por sua vez.
— Permitte-o ?..
Escute, disse Christina commovida : o senhor vem me offerecer uma dita que desde muito desejo ; mas de hoje a tres dias eu faço annos, e ser-me-hía ainda mais agradável que o seu pedido fosse feito no meio da festa do meu anniversario natalicio :concorda ?.,.
— Oh ! Christina ! a felicidade não se adia aproveita-se no mesmo instante em que se mostra.
— Nega-me isso ?... Talvez seja um capricho, mas eu lh'o peço.
— Pois bem : de hoje a tres dias virei pedir a sua mão a seus pais.
Innocencio retirou-se ao anoitecer, não completamente tranquillo, um pouco porém mais socegado.
Se se tivesse demorado até mais tarde, poderia ter apreciado devidamente a influencia de sua entrevista com Christina, porque nessa noite Victorino veio acompanhado de seu pai e de seus irmãos á chacara de Fagundes.
Innocencio dormio mal : a insistencia com que Christina lhe rogara que adiasse o pedido de casamento, causára-lhe desagradavel impressão.
No dia seguinte, logo depois de deixarem a mesa do almoço, Geraldo-Risota levou Innocencio para a saio de visitas, e, sentando-se em frente delle, perguntou-lhe: — Onde foste hontem á tarde? — Á chacara do Sr. Fagundes.
— Adivinho que tiveste uma explicação com a tua namorada.
— É exacto.
— E então ?...
— Pedil-a-hei em casamento depois de amanhã. Geraldo-Risota fez uma careta.
— Diabo !... querem ver que o vento deixou de soprar ! — Meu padrinho !...
— Não fallemos mais nisso,'por ora. É a terceira decepção, que poderá chegar mais tarde.
— Como ?...
— Já leste o Jornal do Commercio de hoje ? — Ainda não.
— Pois lê; toma-o.
— Innocencio recebeu o Jornal, abrio-o e leu a Gazetilha.
— E possivel!... exclamou o mancebo : Anselmo Cubas deputado pelo meu districto eleitoral!...
— Se não acreditas, esfrega os olhos e lê outra vez.
— Mas Anselmo Cubas nunca foi áquelle districto, e nenhum dos eleitores o conhece !...
— E o elegerão sem saber se é vegetal ou mineral ? Que novidade ! — É incrivel !...
— E quantos votos tiveste ? ......
— Dous, meu padrinho ! somente dous ! — Eu não esperava tantos.
— Mas a palavra daquelles homens ?...
— Em tempo de eleições suspendem-se as garantias da honra e da probidade.
Innocencio deixou cahir das mãos o Jornal.
— Apanha o Jornal, disse Geraldo-Risota; apanha-o depressa, e lê a parte official ; anda.
Innocencio leu.
— Esta é ainda melhor!... Carlos Cubas nomeado pelo governo para a commissão que eu pedia !...
— E que tem isso ?...
— Carlos Cubas é de uma completa incapacidade... é quasi um idiota...
— Pateta! já viste algum filho de millionario que não seja sábio ?...
Geraldo-Risota rompeu em gargalhadas estrondosas, emquanto Innocencio lia e tornava a ler o acto official e a Gazetilha, como duvidando ainda dos seus proprios olhos.
Nesse momento baterão na escada, e logo depois um escravo apresentou uma carta a Geraldo e outra a Innocencio.
Geraldo apenas abrio a carta que lhe era dirigida, renovou as suas gargalhadas com tanta força que ficou quasi suffocado.
Innocencio tinha no rosto apallidezda morte.
As cartas erão assignadas por Fagundes, que participava aos seus amigos o proximo casamento de sua filha Christina com Victorino Cubas.
— Foi o vento que tornou a soprar, disse emfim Geraldo.
— Oh ! tres desenganos, tres decepções n'um dia !... Povo, governo e mulher... todos me emganárão !...
— Vai aprendendo, rapaz, vai aprendendo: has de acabar, como eu, não acreditando em cousa alguma desde mundo.
— Não, meu padrinho ; não : o scepticismo é a morte do coração, é a sua gargalhada, é o pranto da alma desfigurado em uma risada de escarneo lançado á face de todos os homens ; o scepticismo é uma luz do inferno que conduz o homem ao desespero ou ao vicio : eu nunca serei sceptico; apezar do povo, do governo e da mulher, nunca serei sceptico.
— Pois em tal caso, meu pobre afilhado, volta para a roça e occupa-te em fazer versos : arranja um mundo a teu geito com o encanto da poesia, e vive nelle para sempre, que é esse o unico recurso que resta aquelles que a des—peito de todos os desenganos, ainda têm esperanças e ainda acreditão nos homens.
Geraldo-Risota soltou de novo uma gargalhada homerica.
Mas Innocencio não se confundio; antes levantou com toda aquella nobreza que nasce de uma sã consciencia e da virtude.
Dizeis que o suicidio é um acto de loucura?...
a vossa opinião tem incontestavelmente um duplo merecimento : o da reprovação dessa horrivel offensa das leis natu-raes e divinas, pois que somente a admittis no homem,., cuja razão se aliena ; e o da caridade pelo suicida, porque, reputando-o louco, o tornais objecto apenas da nossa commiseração.
Também eu creio que muitas vezes o suicidio é um acto de loucura; mas quem póde assegurar que em todos os casos o seja?... raciocinaes, apoiando-vos no grito da natureza, que é ouvido e obedecido pelo ins— 248 — tincto?... Mas vós chamais a educação uma segunda natureza, e sabeis que ella tem a força e poder de domar, de corrigir, e de corromper o instincto.
Os musulmanos são homens, e a facilidade com que se vião alguns delles recebendo o cordão fatal que lhes era mandado pelo sultão, apertar com as proprias mãos o nó assassino, e a placidez com que alguns outros se suicidarão muito voluntariamente, explicão-se menos por uma cega obediencia, e por um acto de loucura do que pelas idéas do fatalismo e pelas esperanças daquelles gozos sensuaes e eternos que a sua falsa religião estabeleceu e promette.
Lastimais a repetição dos casos de suicidios que ultimamente se têm observado?... Não ha lastima que mais justa seja; não sei porém o que mais se deva lastimar, se os suicidas, se a sociedade.
Lastimemos pois a sociedade, além de lastimarmos os suicidas : lastimemol-a, menos ainda pelo funesto exemplo que estes lhe deixão, do que pelos vicios profundos a corrompem, e que são os preparadores do desespero que determina o suicidio.
Admittindo mesmo em hypothese que o suicidio seja sempre um acto de loucura, é facil de provar que a depravação dos costumes e uma educação defeituosa e ruim podem levar o homem, por ura caminho em cujo termo não poucas vezes a razão chegue a alienar-se, e o abysmo do suicídio abra-se para receber o desesperado.
Porque a corrupção e a educação mal regrada não hão de produzir, embora por idéas e principios diversos, o mesmo resultado que produz a religião dos mahometanos?...
Fallarei especialmente a respeito do que se passa entre nós ; limitar-me-hei por agora a uma unica, mas sem duvida principal consideração.
Como preparamos nós a mocidade de ambos os sexos ?... O Estado e os pais de familia cuidão um pouco em dar instrucção aos meninos e jovens ; mas da sua educação e particularmente da educação religiosa tratarão elles tanto como devião ?...
Ornão-se os espiritos e estragão-se os corações !...
Saltamos de um para outro extremo. Outr'ora preparavão-se os meninos para serem padres ou frades, e quando o menino, tornando-se homem, não conseguia ser nem padre nem frade, ao menos ficava quasi sempre sendo fanatico.
Gorrigio-se o erro ; corrigio-se porém de mais : hoje, em vez de fanaticos, estamos fazendo incredulos.
Esta verdade sente-se a cada momento, todos os dias, e no emtanto em lugar de se applicar um remedio capaz de melhorar a situação, nem se attende á educação da mocidade, nem ao menos se trata de fortalecer a religião, regenerando o nosso clero pela intelligencia e pela moralidade.
Quem sabe?... talvez se conte muito com o potente auxilio dos frades barbadinhos e de certas corporações que vão lançando raizes no paiz e que não podem senão levar-nos outra vez aos tempos do fanatismo : quem sabe?.,, talvez se esteja sonhando e desejando a volta dos Jesuitass ao Brazil, como se fossem precisas suas roupas negras para que ainda mais negro se nos mostre o horizonte do futuro da patria. Entretanto, é positivo que a falta de educaçãoreligiosa, e religiosa sem fanatismo, deixa submergir-se a juventude nas sombras uma incredulidade fatal.
Essa incredulidade, esse scepticismo apaga a fé, e mata a mais suave e a única infinita das esperanças: a fé e a esperança em Deos.
Sem a luz da fé, sem o conforto da esperança era Deos que tudo póde, como não ha de o homem enfraquecer, desesperar, ou, se quizerem enlouquecer quando esbarra diante de uma desgraça que lhe parece irremediavel e irresistivel?...
Sem a luz da fé, sem o conforto daquella esperança illimitada, infinita, o homem em taes e tão horriveis circumstancias, não se podendo voltar confiadamente para Deos, volta-se para o suicidio ; não acreditando no céo, arranca-se violentamente da terra.
Como então vos sorprenderá, vendo avultar o mappa sinistro dos suicidios?...
Não vos admireis; a arvore está dando os seus fructos ; a desmoralisação e a depravarão dos costumes não podião nem podem produzir outros resultados.
Tende paciencia : a historia de cada suicida é a historia intima dos vicios que corrompem a sociedade.
A recordação e o estudo desses horríiveis casos são tristes e profundamente dolorosos ; podem fazer-vos chorar, eu sei ; mas deverão por isso deixar de ser referidos ? Chorai, embora : não ha lagrimas estereis senão as da hypocrisia.
Vou contar-vos uma dessas historias.
Tenho-vos feito ler não sei quantos romances alegres e brincões; em compensação, permitti que eu agora vos offereça um outro de um genero absolutamente diverso.
Será um romance triste ; mas tão simples como breve : tolerai-o : e se nem com a tolerancia quizerdes animar-me, não o leais. O titulo deste romane é O Veneno das flores: porque o intitulei assim?... lêde-o, se desejais sabel-o.
I.
Cândida festejava o anniversario natalicio de sua querida filha, a bella Juliana.
O brilhantismo das luzes, as ondas de mil perfumes entornados pelas flores, a viva alegria do saráo, a harmonia dos cantos não explicavão a magia indizivel que dava animação e enlevo a essa festa que o amor maternal forjara.
O segredo desse encanto estava na idéa suave de uma aurora que presagiava um formoso dia, na idéa do despontar do décimo setimo anno de uma menina de sorprendente belleza, na admiração da graça arrebatadora — 256 — que enchia de fulgor e de fascinação os traços angélicos do rosto, e as fôrmas puras e maravilhosas do corpo de Juliana.
Ella brilhava no meio de trinta lindas gentis e faceiras jovens, como Venus no seu esplendor matutino : não tinha rivaes ; era uma princeza formosa cercada de sua corte magnifica.
Seus cabellos erão negros, longos e ondeados, seus olhos da mesma côr de um fixar irresistivel, seu rosto de um perfeito oval e de côr morenoclara finissima; o seu sorrir , era um prodigio de elevadora graça ; seu collo admirava pela magestade; seu peito, como suas espaduas, arrebatava pelas flammas voluptuosas que accendia : a sua voz era cheia de uma celeste harmonia; e emfim toda ella ostentava formosura como a dos anjos, delicadeza como a das flores, frescura como a do orvalho, ligeireza como a dos passarinhos, alegria como a da infancia.
Juliana estava vestida com uma simplicidade magistralmente calculada. Seu vestido de gaze branco, cujo corpinho degollado e liso concedia a vista de encantos que o pejo não veda, e desenhava encantos que elle resguarda, na saia ampla afigurava nuvem fantástica e dava á formosa moça um não sei que de aéreo e vaporoso, que lhe requintava a magia da belleza.
- O motivo da festa era um feliz pretexto para uma preferencia que ninguém se lembrava de dissimular.
Juliana via-se incessantemente abysmada em um diluvio de felicitações e de flores.
Cem vezes naquella noite de festivo culto a bocca mentirosa da lisonja tinha pronunciado aos ouvidos da bella moça o nome — anjo.
Mas Juliana nem tinha as virtudes que emprestão na terra o nome de anjo á mulher, nem as condições para esperar na vida o gozo da felicidade, que pôde fazer do mundo um reflexo do Paraiso.
Ella era o que a educação que lhe havião dado a tinha feito.
Filha unica, foi objecto de uma idolatria para seus pais; desde criança, sua vontade e seus caprichos forão leis de amor no seio da familia ; desde criança soube que era formosa, mas não aprendeu que alguma cousa ha preferivel á belleza.
Seu pai deu-lhe mestres que abrilhantárão-lhe o espirito, e ensinárão-lhe bastante para que ella aos quinze annos se pudesse reputar mais instruida do que em geral o são as senhoras.
Completárão-lhe a educação com os encantos das bellas-artes.
O pai de Juliana era um homem illustrado, mas discipulo da escola de Voltaire, e enthusiasta do patriarca de Ferney, não querendo comprehender que esse gigante demolidor misturou em suas doutrinas grandes verdades com funestos erros ; que em sua gloriosa guerra contra o fanatismo foi em arrojo fatal atacar também a pureza da religião ; que no seu facho de civilisador incendiario havia fogo do céo e fogo do inferno; o pai de Juliana enregelou o coração de sua filha com um horrivel septicismo que nelle plantou, e morrendo quando ella tocava o seu terceiro lustro de idade, escapou ao castigo de ver o fructo de seus principios no tremendo futuro que esperava Juliana; mas nem por isso deixou de ser punido; pois , que embora seu cadáver fosse molhado pelas lagrimas da pobre orphã, sua alma não subio ao céo nas azas puras da oração de sua filha.
Passado um anno de luto, Cândida levou Juliana ao seio ardente do mundo elegante.
As sociedades abrirão em par suas portas á nova e esplendida belleza que vinha encantal-a; os thuribulos da adulação queimarão incenso embriagador aos pés da donzella ; a sensualidade civilisada derramou no coração da menina o seu activissimo veneno misturado com o mel suave e deleitoso das mais odorosas flores.
E Juliana, moça engraçada e lindissima, foi o que a sua educação a tinha feito, caprichosa altiva, temeraria, vaidosa, acreditando inexperiente nos homens, incredula, sem fé em Deus, tudo esperando no mundo, nada esperando do céo.
Entre os mancebos que mais ardentes e cubiçosos devoravão com olhos avidos a encantadora jovem, distinguia-se Fábio, tanto pelo seu enlevo, como pelo respeito affectuoso que lhe enfreiava a paixão.
Fábio era um moço pallido, de olhos bellos e penetrantes, ecuja fronte alta dava testemunho de uma intelligencia feliz.
Camarada da infancia de Juliana, começou a amal-a em menina, ama-a ainda mais em sua esplendida mocidade, e amal-a há toda a vida.
Não desconhece os defeitos da mulher que adora, não pôde porém dominar seu coração; ama-a, como também o marinheiro ama o oceano, apezar de conhecer-lhe a inconstancia, as tempestades e o perigo.
Anima-o aluz de alguma esperança?.... sim; mas luz tão fraca e duvidosa, como a flamma extrema e moribunda de uma lampada que prestes vai apagar-se.
Fábio é pobre ; conta porém enriquecer pelo trabalho, e então correrá aos pés de Juliana, e lhe offerecerá a posição faustosa que ella aspira, e que sem um esposo rico não conseguirá jamais, pois que a fortuna de sua mãi é apenas mediocre.
Dóe ao mancebo apaixonado a idéa de que é essa ancora de ouro a única a que se poude prender seu amor para não ser levado pela corrente do mais triste engano.
Dóe-lhe ; ama porém ainda e sempre, e zeloso como um infeliz, da duvidosa esperança que lhe sorri no futuro, Fábio estremece ao ver algum cavalheiro approximar-se cubiçoso da bella Juliana, e geme de afflicção escutando as palavras que o galanteio entorna no ouvido vaidoso da donzella, que as recebe ás vezes simulando uma indifferença que não desanima.
São onze horas da noite : o saráo está na sua hora de mais vivo fervor.
Um novo convidado entrou na sala: é Jorge de Almeida.
Ao vêl-o apparecer, Fábio empallideceu e acanhou-se ; Juliana corou e sorrio.
Jorge de Almeida era um jovem de 22 annos de idade, alto, bem feito e de physionomia insinuante e sympathica, apezar da ousadia do seu olhar magnetico e da expressão sensual de seus lábios eroticos. Tinha o rosto claro, já porém um pouco desbotado pala fadiga e pelos excessos de uma vida toda passada em ardentes prazeres e levada pelo caminho que ensinarão os falsos interpretes das doutrinas de Epicuro.
Nada haveria que notar na extrema elegancia desse mancebo ; nas suas maneiras, no seu fallar, nos seus vestidos apreciava-se esse esmalte da boa sociedade ; não perdia pela affectação nem pela incuria.
Infelizmente, o coração de Jorge era frio como o marmore e arido como um solo esteril.
O pai de Jorge era um abastado e importante fazendeiro do interior ; mandára-o para a corte afim de preparal-o para entrar em alguma das academias scientificas do Imperio ; cego porém pelo amor mais extremoso, deixando-se levar Pelos caprichos do filho, facilitando-lhe todos os gozos e todas as distracções com o ouro que fazia chover sobre elle, surdo ou prestando de má vontade o ouvido aos prudentes avisos de amigos dedicados, acabou por carregar a sociedade com o peso de um novo e elegante libertino, em vez de offerecer-lhe um cidadão util e honesto.
Que outro resultado podem esperar os pais que abandonão os filhos aos seus proprios impulsos, e que, ainda mais, os trazem fartos de ouro na idade em que a inexperiência é um véo que esconde o mal, a paixão um fogo em que os desejos refervem, e a imprudência a sinistra aconselhadora que sempre lisonjea e precipita ainda os mais loucos anhelos ?...
Jorge de Almeida aprendeu pouco ou quasi nada nos livros, alguma cousa na boa, muito na má sociedade.
Os livros derão-lhe apenas em uma lição incompleta e nunca meditada aquellas noções vagas e insufficientes que antes perturbão do que esclarecem o espirito, á semelhança dos raios vacillantes da lampada nocturna do templo, que deixão afigurar-se quadros chimericos, e imagens fantasticas nos espaços onde não chegão com a sua luz.
A má sociedade chegou-lhe aos labios o nectar da concupiscencia e de todos osgozos sensuaes, nectar envenenado que elle bebeu até a saciedade; lançou-lhe no coração o germen do vicio, desmoralisou-se emfim.
E a boa sociedade armou-o com as exterioridades que seduzem ; além de máo que era, tornou-o perigoso, porque deu-lhe um parecer de perfeito cavalheiro, e ornou-o com o sorrir que mente, com o olhar que enreda, com o agrado que atraiçíia, com a palavra que perjura.
Em sua vida tumultuosa e desregrada, em suas relações naturalmente muitas vezes mal escolhidas, Jorge tinha já contado vinte falsos amigos e outras tantas pérfidas amantes : em breve aprendeu a rir de uns e de outras, e não sabendo distinguir as fezes da nata da sociedade, nem os seus espinhos das suas flores, descreu della e só acreditou no poder e na influencia da riqueza, que lhe abria todas as portas e lhe proporcionava mil deleitosos prazeres.
Jorge entrou na sala, dirigio-se logo a Juliana, e inclinando-se respeitosamente diante delia, offerceu-lhe um formoso ramalhete de violetas.
— Porque tão tarde ?... perguntou docemen te Juliana.
— Ah ! praza ao céo que eu me tivesse feito desejar ! respondeu o mancebo, cravando no rosto da jovem um olhar atrevido e cheio de fogo.
— Se foi esse o seu desejo, tornou, ella abaixando os olhos, realisou-o cruelmente.
— Em tal caso receba eu um generoso perdão dessa felicidade que me custou um doloroso sacrificio de metade de uma noite ditosa! Juliana offereceu a mão a Jorge, que a beijou cora respeitosa cortezia para os olhos de todos, e com um ardor que somente a donzella sentio.
Jorge foi comprimentar a mãi de Juliana, que o recebeu com amizade e confiança.
O ramalhete de violetas era mais um depois , tantos que bem pudera passar quasi despercebido ; ficou porém em todo o resto da noite na mão- de Juliana, que aspirando suavemente e a cada momento o doce aroma das flores, parecia querer passal-o todo para o coração.
Amava Juliana as violetas de preferencia a todas as outras flores, ou o encanto daquelle ramalhete provinha do mancebo que o offerecêra ?,.. Era facil adivinhal-o.
Todos o adivinhavão talvez, porque os homens murrauravão segredos, observando Juliana, e as senhoras sorrião olhando para ella.
No eratanto, a donzella radiava de prazer e felicidade, e tão preoccupada ou embevecida se achava que estremeceu ouvindo a voz de Fábio que se approximára, sem que fosse sentido.
— Fábio ! tu me fizeste mal, disse Juliana.
O mancebo suffocou no seio um gemido pungente, e ficou alguns momentos sem dizer palavra, olhando cora tristeza indizivel para a formosa moça.
— Que me queres ?... dize.
— Um passeio, Juliana, balbuciou Fábio.
— Não : tu és exigente de mais : já contradansámos, já valsámos, já passeamos : hoje não tornaremos a passear.
— Um passeio, Juliana: um passeio ainda menos por mim, do que por ti.
Fábio estava tão triste que a sua camarada de infancia, delle se compadecendo, levantou-se e tomou-lhe o braço.
— Vamos, disse ella sorrindo ; mas confessa que faz máo ver.
— Não, Juliana ; todos sabem que somos como dous irmãos, e que também, como irmãos nos amamos.
— Como irmãos só !... tornou ella rindo outra vez.
Juliana, tu zombas de mim como a creança atormenta aquelle que por amal-a muito deixa por ella escravisar, e cede sempre aos seus caprichos...
— Julgas-me pois creança, Fábio?...
— Oh ! muito ! muito creança és ainda, e precisas bem de um amigo devotado que vele por ti ! — E esse amigo... provavelmente...
— Serei eu, e nenhum outro o seria como eu, tu o sabes.
— Fábio, esse nosso passeio começa um pouco melancolico, o que não é muito admissivel em uma festa.
— Mas, indispensavel é que assim seja ; es- ]cuta, Juliana: tu estás ameaçada de um grande perigo ..
— Aqui ?...
— Aqui mesmo, e em toda a parte: na tua mão estou vendo um annuncio da desgraça que presinto...
— Na minha mão ?... será este ramalhete de violetas ?... perguntou a moça, comprimindo uma risada.
— Sim, e não rias: tu aspiras com insaciavel deleite essas flores, e não te lembras de que as flores ás vezes têm veneno e ás vezes matão.
— Oh ! a violeta é uma flor sem espinhos tem um perfume suavissimo...
— Juliana, os perfumes das flores podem matar.
— Não creio — Já se tem visto amanhecer morta a pessoa que dormio em uma sala fechada onde se deixarão flores odoriferas.
— Agradecida; dormirei com o meu ramalhete de violetas, deixando aberta a porta do meu quarto.
— Ha porém nas flores venenos de outra especie ; ha o veneno de seducção, Juliana, o veneno que lança nellas o homem perigoso e fatal que as offerece a uma donzella inexperiente.
— Fábio !...
— Jorge de Almeida te faz a corte, e tu o amas...
— Que te importa ?...
— Que me importa !... meu Deus !... Juliana, não é ciúme, é o proprio amor sem esperança que me inspira, e me obriga a fallar. Foge desse homem, repelle-o, porque é indigno de ti; não o conheces : é um libertino, um miseravel estragado, corrompido pelo vicio, que não respeita nem a família que o recebe, nem a honra da mulher pura que o ama.
— Fábio, disse com seriedade Juliana, comprehendo o ciume que despedaça o coração: não comprehendo porém a calumnia que mancha os labios de um amante infeliz.
—Juliana! — Estou fatigada ; leva-me á cadeira que deixei.
— Deus permitia, minha amiga, que não te lembres nunca chorando do que me ouviste nesta sinistra noite ! — Sim... farei por esquecer-me, para estimarte como d'antes.
— Juliana !... atira para longe de ti esse ramalhete de violetas ! acredita no que te digo : ha flores que envenenão e matão.
— Deve ser uma morte deliciosa !... uma morte de flores !...
— Creança ! louca ! — Se um dia resolver-me a acabar com a vida, matar-me-hei com o veneno das flores.
— Desgraçada ! desgraçada !...
Fábio e Juliana entrarão na sala do baile, e puzerão termo á sua conversação ; quando porém ella sentou-se e agradeceu ao mancebo este lhe repetio ainda com um tom prophetico : — Teme o veneno das flores ! 272 VII.
Nos bailes a hora mais propicia para os namorados é aquella em que a fadiga começa para os indifferentes; então estes olhão e quasi que não vêm, ouvem e quasi que não escutão. É a hora da solidão no seio da multidão, hora em que o espaço se abre pára o amor, que vôa audacioso de coração em coração.
Jorge de Almeida conhecia perfeitamente a theoria dos bailes, e foi portanto quando sentio que tinha chegado aquella hora, que foi offerecer o braço a Juliana, convidando-a para um passeio.
— Dei-lhe, quando chegou, a minha mão a beijar, disse Juliana depois de alguns minutos de conversação apaixonada ; diga-me : foi um premio ou um castigo ?...
— Um premio que mereci, respondeu Jorge.
— Porque ?...
— Porque cheguei tarde ao seu baile pelo cuidado do nosso amor e de minha ventura.
— Longe de mim?...
— Apezar disso.
__ Ecomo ?...
— Recebi cartas de meu pai e de minha mãi, tive de entreter o portador que é um bom amigo da nossa familia.
— E as cartas ? perguntou Juliana anciosa.
— Como as desejava.
— Então seus pais convém no nosso casamento ?...
— Meus pais approvão a minha escolha ; já se informarão a respeito de sua familia, e dentro de um mez chegarão á corte para abençoar sua nova filha.
Juliana reteve uma exclamação de prazer; não poude porém abafar um suspiro.
— Suspiras, Juliana ?...
— Oh ! sim! e este suspiro sahio-me do fundo do coração. — Amas-me, então ? —Ainda o perguntas ?...
Jorge apertou o braço de Juliana contra o peito, e a donzella commovida e feliz inclinou a cabeça e quasi que a encostou no hombro do mancebo, que sentio em sua face o brando contacto das madeixas de sua amada.
Tinhão ambos entrado em um terraço que dominava um bello jardim : as auras da noite sopravão suaves, e o aroma das flores embalsamava a atmosphera.
— Oh ! Juliana ! disse Jorge; como está formosa a noite, e como é deleitoso o aroma das flores respirado junto de ti !...
Juliano sorrio.
— De que te estás rindo ?...
— De uma lembrança que tive: passeei ainda ha pouco com um cavalheiro que me deu uma lição sobre o veneno das flores, e que me aconselhou a que tivesse medo dos seus perfumes que podem matar.
— Sacrilego! maldizer das flores ao pé de ti é um sacrilegio, e além do sacrilegio, elle mentio.
— Mentio?...
— Mentio ; as flores são os thuribulos do céo; junto das flores ninguém poderá ser máo, Juliana! uma idéa poética e dulcissima, embora ousada. — Dize...
— Uma prova de confiança e de amor...
— Qual?...
— Dá-me uma hora, em que só comigo, sem receio de indifferentes nem de importunos, passes ouvindo innocentes juramentos de amor no meio daquellas flores...
— Jorge ! — Sou teu noivo... não o podes mais duvidar : eis aqui as cartas de meus pais que deixo nas tuas mãos, autorisando-te a apresental-as á tua mãi.
Juliana recebeu as cartas tremendo.
__ Dá-me uma hora ! repetio Jorge.
— Oh ! não !...
— Dá-me uma hora. ou ficarei com a certeza de que não confias em mim.
— E o dever, Jorge ?...
— E o amor, Juliana ?...
— Não ;julgar-me-hias indigna.
— Eu sou teu noivo, Juliana ! — Embora, ainda não és meu esposo.
— Duvidas ao mesmo tempo da tua e da minha virtude. Tens razão... eu desejei mais do que podia merecer... deixemos este terraço...
— Jorge ?tu te affliges ?... pois nesta noite queres entristecer-me ?...
— És tu que me entristeces, que me offendes, Juliana ; és tu que julgas o teu noivo indigno de um innocente favor, e capaz de uma infamia; és tu que me abates e me injurias !...
— Jorge !... murmurou ternamente Juliana, apertando a mão do amante.
— Dá-me uma hora ! A moça não respondeu.
— De hoje em diante não deixarei de visitar-te um só dia ; virei todas as tardes, e amanhã ou depois, quando as circumstancias mais nos favorecerem, collocarás sobre o teu piano esse ramalhete de violetas, que então estarão murchas, e que ainda assim me parecerão lindissimas ; porque me darão o signal de que me esperas no jardim ás duas horas da noite.
E Juliano nem respondeu, nem se lembrou do veneno das flores.
VIII.
A vaidade tinha tornado Juliana ao mesmo tempo loureira e ambiciosa de riquezas.
Era loureira, pelo desejo de ser incensada e adorada, pela vangloria de se ver cercada por uma numerosa corte de submissos namorados, como uma rainha por uma multidão de lisonjeiros cortezãos ; pelo maligno prazer, emfim, de encher de inveja os corações de cem rivaes, jovens vaidosas como ella, e aquém se ufanava de humilhar com o quadro de seus triumphos e de suas conquistas.
E ambicionava riquezas, porque são as riquezas que pagão o luxo, a ostentação e as festas em que ella almejava brilhar, e ser idolatrada ainda depois de casada.
E a louca de vaidade não comprehendia que fessa ambição de riqueza tendia a rebaixal-a, porque a levava a vender o coração, e as mais puras e suaves affeições, aviltando-se desse modo aos olhos de sua própria consciencia.
E a loureira nem via que thesouros que facilmente se prodigalisão, são desestimados depressa ; que sorrisos de amor e galanteios que se concedem a muitos, perdem o encanto da sua pureza, e ficão sendo antes os brincos das fantasias do que os enlevos dos corações daquelles que de passagem os vão recebendo.
A moçaloureira, por mais formosa que seja desmerece progressivamente e na razão directa das conquistas de que se vai desvanecendo : suas victorias são, como as de Pyrrho, derrotas reaes para a vencedora ; que importa que ella desdenhe em um dia do amante que animara na vespera?... é elle,sim,que rejeita o culto dos escravos e vencidos que já servirão bastante para o esplendor dos seus triumphos ; cada vencido, porém, e cada escravo que se retira desprezado, leva comsrgo um despojo de amor, embora fingido, uma historia de galanteio finalmente, que depõe contra a virgindade do coração da conquistadora.
Bem cedo nenhum mais a ama deveras, e todos a galanteão por insultuoso entretenimento de horas; e fazem dajoven loureira o recreio dos olhos, a zombaria do amor, a rosa interessante que mil borboletas festejão um momento , e abandonão sem saudade logo depois.
E succede ás vezes que a moça loureira, no meio dos seus vôos de inconstância e do galanteio, sem o pensar e sem o querer, deixa-se — 279 — captivar de um homem mais habil e astuto, e de ordinario de um homem desapiedado, que, illudindo-a com traiçoeiras finezas, prepara-lhe não um altar em que a adore, mas uma pyra vergonhosa em que a sacrifique.
E a vaidosa perde-se em um casamento infeliz, ou ainda peior, em um desengano aviltante, e depois vêm as lagrimas, o arrependimento, os remorsos ; lagrimas, arrependimento e remorsos, provindos daquelles gozos loucos de funesta vaidade... veneno das flores emfim.
Juliana aspirava com voluptuosidade e confiança o perfume daquellas flores, e ainda não sentia os effeitos do seu veneno.
Mas o caminho em que ia, era o caminho do abysmo e da perdição.
Como tantas outras, deixára-se prender pelas azas no seu adejar continuo e irreflectido de borboleta galanteadora.
Vio uma noite Jorge de Almeida, achou-o elegante, suppôl-o talvez pretencioso, e quiz encadeial-o ao seu carro de conquistadora: irritou-se porque o mancebo ousou ou fingio resistir : soube depois que elle era rico, e teve um pensamento de ambição ; provocou-o e exultou, porque chegou a acreditar que o tinha domado.
A lucta porém se havia prolongado por alguns mezes, em que a simulada indifferença de Jorge de Almeida inflammára a vaidade da formosa moça : e quando Juliana soltou dentro do coração o grito de victoria, o coração respondeulhe com uma confissão de derrota.
Juliana amava pela primeira vez.
O seu amor era puro, não se nodoava nem com um leve pensamento de ambição, nem com o desejo de humilhar seus rivaes ;. Todas essas idéas tinhão passado ; o seu coração estava exhalando o virginal perfume de um sentimento goneroso, nobre, santo.
Se Jorge de Almeida fosse pobre como o obscuro artesão que tem de seu o fructo do seu suor no trabalho de cada dia, Juliana ainda assim o quizera, ou talvez assim o preferira.
A vencedora estava pois vencida ; a conquistadora que procurava ainda um escravo, tinha encontrado um senhor, e dobrava-se contente aos ferros do seu captiveiro.
Mas a lembrança do passado, que era um recente passado de hontem, fazia mal a Juliana.
Quem poderia acreditar na sinceridade do amor da moça loureira ? Duvida-se ainda mais da mulher do que se duvida do homem.
Jorge de Almeida, libertino e incredulo, desejava o posse de Juliana : não a amava porém; descria da paixão de que ella parecia possuida ; attribuia ao encanto da sua riqueza a fortuna daquella nova conquista, e fingindo-se também abrazado nas flammas de um amor irresistível, promettia-se não perder a felicidade brutal que se lhe antolhava provavel.
Uma grande desgraça annunciava-se portanto imminente : gotta a gotta já se estilava o veneno das flores ; era horrivel, era porém uma consequencia filha legitima dos principios : era cruel, mas era logico.