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Os Romances da Semana

Joaquim Manuel de Macedo

X

Jorge de Almeida tinha pedido a Juliana uma entrevista no jardim ás duas horas da madrugada.

Dous dias havião passado depois da festa dos annos de Juliana e nas tardes de um e outro Jorge de Almeida não se esquecera de vir fazer a corte á sua amada e noiva.

Cândida recebera e tratara o mancebo como a um filho ; tinha lido as cartas dos pais de Jorge, e não podia mais duvidar do próximo casamento e do brilhante futuro de sua filha.

Juliana saudava a chegada do seu noivo com um sorriso que se abria em seus labios, e que aos lábios chegava partindo do coração.

Ficando ás vezes na sala a sós com a formosa moça, Jorge de Almeida reiterava suas instancias, pedia de joelhos, queixava-se e maldizia-se por não merecer a entrevista, que era o sonho querido do seu amor.

Mas em um e outro dia Jorge de Almeida teve de despedir-se e de retirar-se, sem ver o suspi rado ramalhete de violetas descançando sobre o piano.

O angelico sentimento do pejo defendia a virtude da donzella.

Juliana apaixonada e amante violentava-se para resistir aos instantes pedidos, ás lagrimas e ás queixas amargas do homem que ia em breve ser seu marido ; mas o santo pudor dava-lhe forças para a lucta ; e quando no combate reconhecia-se quasi vencida, escapava ao vencedor accendendo-lhe uma esperança.

— Amanhã, dizia ella.

E assim o disse na primeira e na segunda tarde.

E ainda no terceiro dia ella repetio tremendo: — Amanhã.

XI.

Essa esperança do dia seguinte concedida ao amante era uma sinistra ameaça que á sua virtude fazia a donzella.

Porque não comprehendia Juliana que ainda mais do que o seu pudor, devia a sua razão oppôr uma barreira indestructivel ao pedido reprehensivel e indigno do seu amante? Amanhã era uma evasiva inspirada pelo pudor.

A resposta única da razão devia ser nunca.

Porque não respondia Juliana com a razão ?...

E que a razão desampara a jovem dominada pelo amor que se desmanda elevando-se á paixão, e só o escudo celeste do pejo íica para impedir....

ou retardar a perda da donzella a quem o seductor procura arrastar para um abysmo.

E para quem poderia voltar-se Juliana, pedindo conselho, protecção, auxilio e luz ?...

Para sua mãi ?... não se animaria nunca ; temeria vel-a justamente irritada lançar fora o homem insolente que dirigira proposição tão injuriosa á sua filha.

A Fábio ?... era um rival e ura inimigo de Jorge de Almeida, pois que o reputava indigno até de entrar no sacrario de uma família.

— Então a quem ?...

Quando os nossos olhos não achão rocurso na terra, levantão-se naturalmente para o céo, e procurão o auxilio de Deus.

Falla-se a Deus com a esperança, com a fé, com a oração, e Deus responde, serenando a tempestade que agita o seio do afflicto, e illuminando o seu espirito.

Mas Juliana era incrédula ; não tinha fé, e zombava, pobre infeliz, do recurso da oração.

XII

Fábio não tinha mais apparecido na casa de Cândida depois daquella noite de saráo para elle tão triste; no quarto dia porém, a saudade, o amor, e um nobre interresse o levarão ao tecto querido. Era de tarde, mas ainda cedo. Juliana estava no seu quarto acompanhada de sua mãi, e ahi mesmo recebeu o mancebo a quem a confiança quasi fraternal dava direito a semelhante liberdade.

Cândida estimava Fábio, adivinhara o amor que elle tributava a Juliana, sentia não poder abençoar a união dos dous jovens ; mas por isso mesmo e no ponto em que se achavão as cousas, entendeu que lhe cumpria apagar logo e para sempre a debil flamma da esperança que por ventura se conservava ainda accesa na alma do desgraçado amante.

Assim, depois de breves momentes de conversação, Cândida deu parte a Fábio do ajuste de casamento de Jorge de Almeida com Juliana.

O mancebo, ao receber a cruel noticia tornouse pallido, como se o véo da morte por seu rosto se houvesse estendido : seus olhos cerrarão-se, e duas lagrimas, expressão eloqüente de uma dôr profunda abafada com esforço no coração, vierão rolar por suas faces.

Cândida não poude resistir sem abalo ao aspecto daquelle mudo e immenso padecer, e sentindo-se fortemente commovida, levantou-se e sahio.

— Fábio ! disse Juliana; meu amigo... meu irmão, que é isso ?...

— Tu o perguntas, Juliana?... murmurou o mancebo, quando poude fallar.

— Não podíamos ser um do outro e...

— Oh ! exclamou Fábio ; pois bem ! mas não devia ser delle ! devias fazer a felicidade e a gloria de um homem extremoso e honrado; nunca porém ser o prêmio concedido á libertinagem e ao cynismo ! — Senhor! — Ainda é tempo de salvar-te, e ninguém me impedirá de dizer a verdade, Juliana . Jorge de Almeida é um infame, e procura seduzir-te.

— Envergonha-te, Fábio, e arrepende-te da calumnia que proferiste ! disse Juliana, correndo ao seu toucador, e tirando delle as car tas dos pais do Jorge, que ella entregou ao mancebo.

— Embora ! tornou este depois de ler as cartas e de vencer um primeiro movimento de surpreza : estas cartas me confundem ; mas ainda assim eu desconfio das intenções desse homem, embora, sim ! elle é sempre um infame.

— Fábio, tu ousas insultar diante de mim aquelle que em breve será meu marido ? O mancebo respondeu a estas palavras com um gemido surdo e pungente ; não se submetteu porém, nem guardou silencio. Um pouco exaltado pelo ciúme, e realmente muito inteessado pela sorte de Juliana, referio um por um todos os factos escandalosos que tornavão a vida de Jorge de Almeida uma longa historia de orgias, de seducção e de desmoralisação.

Juliana, perdendo emfim a paciência, ferida no seu amante, como uma mãi em seu filho, levantou-se irritada : — É de mais ! bradou, e pois que a con sciencia do dever não lhe ensina a respeitarme, ensine-o o meu solemne desprezo ! E sahio, voltando as costas a Fábio, que indo precipitar-se em seguimento delia, passou por diante do toucador, e vio sobre elle o ramalhete de violetas que Jorge offerecêra a Juliana na noite do saráo.

— 290 — — Oh ! exclamou elle, o ramalhete infernal!...

E apoderando-se das flores já murchas correu como um desvairado, e atravessava impetuoso a sala, quando parou a um grito de Juliana.

— O meu ramalhete !... ah! Fábio? o meu ramalhete!...

O mancebo voltou-se arrebatado, e vendo diante de si Juliana lacrimosa e supplicante, lançou sobre ella um olhar de commiseração terrivel, e atirando o ramalhete em cima do piano, desappareceu.

— 291 — XIII.

Juliana estava ainda profundamente commovida e immovel, no mesmo logar em que Fábio a deixara, quando Jorge de Almeida entrou na sala.

A presença de seu noivo socegou em breve a donzella que, receiosa de alguma rixa entre os dous mancebos fez um segredo da scena que acabava de passar-se.

Jorge vinha radiante de prazer, e com indizivel satisfação entregou a Cândida uma carta de seu pai e a Juliana outra de sua mãi, em que ambos manifestavão a sua approvação ao casamento do filho, e promettião estar na corte no fim de dez dias.

O resto da tarde e o principio da noite forão de suave embriaguez e de encanto para os dous noivos.

Juliana embevecida não podia arrancar os olhos do rosto de Jorge ; nada mais via nem sentia. Jorge nunca se mostrara mais carinhoso nem mais terno.

— 292 — Ás dez horas da noite levantou-se para sahir, e aproveitando um momento em que Cândida, por calculada casualidade, se dirigira a janella, aproximou-se do piano, beijou tres vezes com apaixonado fervor o ramalhete de violetas, e logo depois retirou-se.

Juliana deixou-se cahir quasi desmaiada em uma cadeira, soltando um triste gemido.

— 293 — XIV.

Era meia-noite.

Juliana estava só e velava anciosa em uma sala contígua á do seu toucador e afastada daquella onde no interior hora, dormia tranquillamente sua mãi.

A sala em que se achava a donzella, tinha uma porta que se abria para o salão principal, e que estava trancada; outra pela qual se passava para o terraço, donde se descia ao jardim por uma bella escada de pedra: essa porta estava também fechada; tão de leve porém, que seria facil abril-a sem ruido; uma janella finalmente olhando para o jardim, e que se deixara apenas cerrada e com a vidraça erguida.

Uma vela ardia solitária na sala do toucador e derramava fraca e escassa luz pela extensão daquella em que Juliana se conservava mysteriosamente velando.

Sentada junto de uma pequena mesa, sobre a qual descançava um dos braços nus, com seus cabellos soltos em multidão de bastos — 294 — aneis que cahião sobre as suas espaduas magnificas, trajando um vestido branco que fazia lembrar a mortalha de uma virgem Juliana esquecida de si mesma no seio daquella meia sombra de uma sala mal esclarecida ; muda e só, pensativa e agitada, e apenas exhalando de momento em momento dolorosos e profundos suspiros, podia comparar-se ao cysne que, abandonado no lago, adivinha a aguia ainda distante, solta o seu grito pungente, mas não foge, e, como resignado, espera a hora do terrivel sacrificio.

Com os olhos fitos em uma pêndula que distinguia a alguns passos diante de si, não podendo apreciar o movimento regular e progressivo dos ponteiros annunciadores da marcha incessante do tempo, ella escutava aquelle monotono tic-tac, que parecia responder a cada palpitar do seu coração, como se o pêndulo vibrador pudesse estar lendo em sua alma, e marcando de momento a momento uma accusação da sua consciência.

E de cada vez que o sino da egreja vizinha, perturbando o silenco da noite, dava signal de um quarto de hora já passado, um estremecimento nervoso agitava o corpo delicado da donzella, e uma gotta de suor cahialhe pela fronte sobre o collo.

Pela janella que ficar entreaberta, entravão — 295 — as auras da noite, que ião cubicosas brincar com os aneis de madeixa da formosa moça, e perfumal-os com os aromas roubados ás flores, e como thurificadores incensando uma victima prestes a sacrificar-se.

E o sino se fez ouvir ao perto quatro vezes seguidamente e logo depois, com o dobre mais grave, ainda uma vez.

Juliana estremeceu com mais violência do que até então, e balbuciou convulsa: — Uma hora!...

— 296 — XV.

Juliana esperava Jorge de Almeida.

Um successo imprevisto e não calculado tinha favorecido os projectos audaciosos do seductor, e determinando a concessão involuntária dessa entrevista nocturna, em que a virtude da apaixonada donzella ia ficar exposta aos maiores perigos.

Fábio havia, sem o pensar, arrojado Juliana naquelle abysmo, atirando o ramalhete de violetas sobre o piano.

A donzella vendo chegar o seu noivo, esquecera o fatal ramalhete, e somente delle se lembrara quando Jorge de Almeida o fez apparecer a seus olhos, beijando-o tres vezes.

O gemido que então escapou do seio de Juliana, foi o grito supremo de sua innocencia terrivelmente ameaçada.

Juliana não tinha concedido a entrevista já tantas vezes pedida pelo seu amante; reconhecia porém que este devia contar com ella e aproveitar-se do afortunado signal.

Se por instantes ella desejava que Jorge — 297 — de Almeida perdesse a lembraça de uma concessão para elle tão lisonjeira, logo depois sua vaidade despertada tremia, receiosa de um esquecimento que chegaria a parecer um desprezo.

A virtude offerecia a Juliana um unico recurso, e determinava-lhe não descer ao jardim á hora aprazada, faltar absolutamente á entrevista, que realmente não fora concedida, e no dia seguinte explicar ao seu noivo com franqueza e verdade a causa dessa falta, e o motivo daquelle qui-proquó, que era tão offensivo da sua honestidade e da sua pureza.

Mas, preciso é repetil-o, o que tinha até então defendido a donzella não era a razão, era o instincto; não era a consciencia do dever, era o sentimento do pudor ; e essa barreira que se oppunha á satisfação do empenho criminoso de Jorge de Almeida, tinha desapparecido com o concurso involuntario de Fábio.

O pudor soffrêra apenas uma angustia rapida e instantanea quando Jorge beijara o ramalhete de violetas : a angustia estava passada, a grande difficuldade vencida.

E diante da consciência do dever, Juliana apadrinhava-se com um pretexto, dizendo a si mesma que não fora ella a culpada da concessão da entrevista.

— 298 — A paixão inventava ainda outros sophismas para escusar um passo que era uma falta gravissima, um erro que ganhava já cora um previo remorso a alma de quem o commettia.

Juliana lembrava-se de que não tivera tempo de esclarecer Jorge de Almeida sobre o caso imprevisto que lhe dava logar a suppôr que seria esperado no jardim naquella noite, e contando que elle viesse ao encontro tão almejado, receiava que Jorge, se inutilmente a esperasse, resentido e afílicto, pudesse chegar a fugir-lhe e a esquecel-a.

E demais aquelle extremoso mancebo, que pouco antes viera, tão contente e feliz, apresentar as cartas em que seus pais abençoavão a escolha do seu coração, e se apressavão a manifestar taes sentimentos á própria familia pela sua amada, aquelle mancebo que assim se prendia pela sua honra e pela honra de seus pais, não deveria alcançar também uma prova immensa da mais completa confiança?...

A donzella sophismava perante o tribunal justissimo da sua consciencia, como uma delinqüente que treme aos olhos do seu juiz.

Juliana não comprehendia que uma mulher exaltada por um amor violento e ameaçada pela seducção precisa defender-se ainda mais dos impetos de sua mesma paixão do que dos laços — 299 — que lhe arma a habilidade e a experiencia sinistra do seductor.

E elle ahi estava só, attenta e muda, escutando o som monótono do pendulo que vibrava, calculando os minutos que passavão, e ouvindo com abalo e commoção o dobre do sino que marcava na egreja vizinha, de quarto em quarto de hora, a medida do tempo que se adiantava.

E ahi ficou immovel, mas anhelante, cheia de anciedade, de receio e de temores, até que finalmente ouvio o signal da hora aprazada e suprema.

— Duas horas! — 300 — XVI.

Aquelle dobre de um sino lugubre, que annunciava um prazo de amor desvairado, fez Juliana levantar-se a cahir de novo na cadeira como ferida por um choque electrico.

Logo depois commovida e tremula foi a uma porta da sala do seu toucador encostar o ouvido temeroso para assegurar-se de que sua mãi dormia, e, voltando logo, encostou-se cuidadosa á janella que deixara meio aberta, e esperou agitada e inquieta.

Não esperou muito tempo.

No silencio da noite distinguio-se o ruido de uma chave com que uma cautelosa mão abria o portão de ferro do jardim, procurando abafar o estalo da fechadura.

Juliana nem ao menos reflectio que essa chave estranha que facilitava a entrada para o jardim da sua casa era o indicio vehemente de um projecto premeditado com um desvelo minucioso, que tinha sabido preparar todas as condições para a sua facil execução.

— 301 — Um momento depois de aberto o portão, a areia gemeu sob os passos de alguém que de manso vinha aproximando-se do terraço, e em breve uma voz meiga, mas contida pelo receio, murmurou baixinho : — Juliana!...

Jorge de Almeida tinha visto a janella entreaberta, e adivinhou que a sua imprudente noiva o esperava naquella sala.

Juliana, temerosamente ainda, como porém se sentisse irresistivelmente attrahida pela voz terna que a chamava, deixou a janella, abrio devagar a porta do terraço, deu um passo para tora, e vio em baixo e junto da escada o vulto de um homem embuçado em uma capa negra.

A donzella não poude reprimir um movimento de temor.

— Sou eu, Juliana! disse Jorge com amor; vem ! vem, minha bella noiva! Juliana agarrou-se ao corrimão da escada e desceu com passos mal seguros, parando de degráo em degráo para respirar e alentar-se.

Jorge de Almeida ajoelhou-se, e beijou com respeito a mão que Juliana deixara livre.

— Juliana ! minha Juliana !... balbuciou elle.

Em vez de responder, a donzella chorou.

— 302 — Oh! não derramava ainda lagrimas de acerbo arrependimento; era a sua innocente pureza de virgem que se resentia daquelle primeiro e violento sacrificio.

Era a mimosa flor do valle que, tocada pelo primeiro tufão da tormenta que rugia ao longe dobrava já sua haste delicada, embora não tivesse murchado ainda.

— Oh! Juliana! disse Jorge com ternura; o teu pranto é provavelmente uma injuria que fazes á minha honra! No branco céo de tua alma de donzella innocente e pura expandio-se talvez a nuvem escura e feia ]de um temor que me avilta! Quem sabe se confundes um amante respeitoso e dedicado com um seductor infame! Juliana!...

A voz de Jorge de Almeida era como uma suave harmonia, e, penetrando deleitosa na alma apaixonada da moça, estancou-lhe pouco a pouco as lagrimas e dissipou-lhe o medo.

— Oh! minha bella noiva! continuou elle, sempre de joelhos ; tranquillisa-te, e confia em mim : tu serás como a imagem de uma santa que se tira do altar para se adorar de mais perto e beijal-a nos pés com religioso fervor, e que outra vez se colloca em seu sagrado throno, intacta e pura como tinha delle sahido.

Oh! amaldiçoado fosse eu por meus pais, se um instante só ousasse levantar olhos sacrile— 303 — gos para o anjo que deve ser a guarda da minha felicidade futura! tu és minha noiva, serás em breve minha esposa, e a tua honra é a minha honra!...Juliana respirou.

— Juliana!...

A donzella ergueu a fronte abatida, olhou com olhos de amor para Jorge de Almeida que estava a seus pés, e pousando suas mãos brancas e leves sobre a cabeça do mancebo, murmurou docemente : — Jorge !...

A confiança entrara no seio da victima inexperiente.

A seducção acabava de alcançar a segunda victoria contra a innocencia e o pudor.

— 304 — XVII.

A lua brilhava no céo clara e formosa; as flores exhalavão suavíssimos aromas ; a viração soprava brandamente, ciciando nas folhas das arvores ; a hora era de mysterioso silencio, o jardim uma poética e deleitosa solidão.

— Juliana, disse Jorge; abençoado seja a confiança que renasce em teu seio de anjo, e que em mim depositas, levantando-me até á altura da tua virtude!...

— Tu és meu noivo, Jorge, e eu confio em ti, como no protector desvelado que um destino amigo me vai outorgar.

— Ainda bem, minha formosa noiva! apoia-te pois no meu braço, e passeemos por entre as flores...

— Oh ! porque não ficaremos aqui!...

— Porque o sussurro das nossas palavras, embora murmuradas quasi ao ouvido um do outro, poderia talvez provocar a curiosidade de alguém que ainda não dormisse, e que o percebesse ; porque através das grades do jardim alguém que pela rua passasse, poderia — 305 — ter-nos; porque emfim um acaso infeliz é possivel, e se te vissem comigo a esta hora, padeceria o teu credito, que depois do teu amor é o meu maior thesouro.

— Não, Jorge ; nós estamos seguros neste logar ; não o deixemos, eu t'o peço !...

— Ainda tens medo do veneno das flores, Juliana?... perguntou Jorge sorrindo.

— Talvez, respondeu sem pensar no que respondia, a bella moça.

— Oh! Juliana! dir-se-hia que é a desconfiança que de novo apparece no teu espirito.

— Jorge! — Paciencia; não insisto mais, tornou o mancebo com uma voz sentida; devo contentarme com o que já fizeste por mim : abrindo a porta daquella sala, descendo a escada deste terraço, déste-me muito mais do que eu podia merecer.

Juliana sentio-se commovida pelas palavras melancolicas do seu amante, arrependeu-se da resistencia que oppuzera ao convite que elle lhe fizera, e, tomando-lhe o braço, disse com doçura: — Vamos, Jorge! vamos! —306 — XVIII.

E os dous amantes passearão por entre as flores, ao clarão do luar, que cada vez mais brilhante parecia mostrar-se, e no seio daquella solidão deliciosa, em que respiravão perfumes embriagadores, e em que o silencio era somente interrompido por seus juramentos de amor.

Juliana ia pouco a pouco banindo de sua alma todo o instinctivo receio que determinara suas fracas hesitações ; ia pouco a pouco e sem sentir quebrando os laços do delicado pejo, que ao mesmo tempo a acanhava e defendia; e pouco a pouco ia abandonando-se a uma segurança imprudente, que a tornava cega ao perigo que corria, e surda ao clamor da virtude que se alvoroçava resentida.

Jorge procedia com habilidade consum-mada: não querendo comprometter-se por precipitado, mantinha-se dentro dos limites do mais escrupuloso respeito em suas acções ; não tinha ousado tocar com seus lábios nem as faces, nem os cabellos de Juliana, nem com — 307 — um leve movimento do seu braço procurara apertar ao peito a mão formosa e leve da encantadora moça.

Fallando á sua noiva, não lhe dirigira uma só proposição que não pudesse repetir aos ouvidos de todos, ou enunciar em alta voz no meio de uma assembléa; discorrendo porém sobre o amor, e como se deixasse levar por uma inspiração arrebatadora, encadeiava sophismas graciosos que produzião consequencias que parecião verdadeiras, e erão apenas erros perigosos e lições disfarçadas de um senualismo vergonhoso; pintava o quadro do amor com as tintas de uma luxuria dissimulada, de modo que se fizesse contemplar e ap-laudir sem temor e sem desconfiança pela donzella, que sem o perceber abria o coração á voluptuosidade e deixava accender-se nelle uma flamma traiçoeira e infernal.

E assim ião os dous amantes passeando e conversando tão esquecidos do mundo e do tempo, que Juliana sorrio ouvindo o signal de três quartos depois das duas horas, e disse: — Oh ! como passou voando esta meia hora de passeio, Jorge !...

— Malditas sejão pois as azas do tempo que vôa, quando devia arrastar-se preguiçoso ! e gloria ao amor que sabe aproveitar as horas, que fogem rapidas ! passemos...

— 308 — — Sinto-me um pouco fatigada : voltemos, vamos sentar-nos em um dos bancos do terraço.

— Juliana ! temos diante de nós um caramanchão que nos ofierece um banco de relva ! Juliana deixou-se levar como uma pobre cega pela mão do perfido conductor.

XIX.

O caramanchão era aberto por tres lados, e tinha o outro lado e o tecto coberto por um tapete de verdura formado por trepadeiras de flores odoriferas. O banco de relva que havia no caramanchão estava molhado do orvalho.

Jorge tirou do braço a sua capa, desdobrou-a, estendeu-a, sobre a relva, e fazendo sentar Juliana a seu lado, disse pela vigésima ou trigesima vez : — Ah! como tu és formosa, minha querida noiva!...

— Eu quizera parecer sempre formosa a teus olhos, Jorge ; formosa porém não sou eu : formosa é esta lua tão brilhante e serena! for moso é este céo tão limpo de nuvens ! formoso é este jardim tão coberto de flores que embalsamão os ares ! formosa é esta noite tão rica de encantos! formosa emfim é esta solidão tão cheia de amor innocente e puro ! — Juliana! a tua alma se abre finalmente, livre de vãos temores, ás emoções enlevadoras e — 310 — fervidas do mais nobre dos affcctos !... falla mais, falla ; porque tuas palavras me parecera os echos que respondem ás fallas que do meu coração têm rompido para os meus labios ! — Jorge ! Jorge ! o mais que eu sinto não se diz, porque é impossível; eu te amo! Eis tudo.

O sino do templo vizinho dobrou annunciando tres horas da noite.

Jorge sentio como um brando choque, pois estremeceu ligeiramente; não dando porém a perceber a impressão que recebera, disse logo: — Juliana, não te esfrie esse entusiasmo pela solidão : dentro em pouco serás minha esposa: tu és o encanto das mais brilhantes sociedades, és a flor mais bella de jardim ele gante da nossa capital; eu não ousarei roubarte á admiração e ao culto das nossas assem-bléas, não te privarei das festas em que és sempre a rainha, não; mas hei de pedir-te algumas vezes o sacrifício de breves dias em que eu te leve a uma solidão propicia e deleitosa, em cujo seio eu te adore, e ninguém perturbe o meu culto, e ardente e apaixonado eu me farte de beijar os teus olhos que me tornarão escravo, e o teu peito, onde tenho meu thronode amor !...

— 311 — Jorge fallava com vehemencia calculada ; alguma cousa porém devia preoccupal-o não pouco; porque uma ou outra vez sua cabeça se voltava de leve, e o seu ouvido como que procurava um som estranho e longinquo.

Juliana muito enlevada para poder notar naquelles ligeiros signaes de uma impaciencia inexplicavel, respondeu ao seu noivo : — Jorge ! d'ora avante eu quero ser bella somente para ti, quero a solidão comtigo não para um dia, mas para sempre; porque a minha vida, o meu futuro, e a minha felicidade dependem só e exclusivamente do teu amor ! — Juliana!... exclamou o mancebo com paixão e apertando entre as suas uma das mãos da donzella; Juliana!... minha Juliana !...

A moça não retirou a mão que o mancebo apertava, e nesse momento soou não muito longe um canto que pouco a pouco veio-se approximando.

Um sorriso quasi imperceptivel passou pelos labios de Jorge de Almeida.

— 312— XX.

A voz que cantava era de homem, suave porém e melodiosa, tão cheia de sentimento que passava dos ouvidos ao coração de quem a escutava.

E o canto, quebrando o silencio das deshoras, tinha alguma cousa de irresistivel encantamento.

Juliana disse : — Alguém passa cantando, Jorge ! E Jorge respondeu apertando a mão da donzella: — Escutemos, Juliana.

A voz dizia assim no seu canto : Esta lua tão formosa, Esta noite deleitosa, Este céo de lactea côr, Este silencio profundo, Este repouso do mundo, É tudo encanto de amor.

O canto parou por momentos.

— 313 — — Como é bello este canto ! disse Juliana suspirando.

— É porque exprime os puros sentimentos do coração, respondeu Jorge.

E o mancebo levou aos labios a mão que apertava, e beijou-a muitas vezes.

A voz continuou a cantar com dobrada suavidade: Emquanto dura este enleio, Triumphão de um vão receio Os que se amão cora ardor, Vencem do pejo os rigores, E vão no meio das flores Trocar protestos de amor.

— Juliana... minha noiva ! exclamou Jorge.

Juliano não respondeu, antes procurou afastarse do apaixonado mancebo, que a reteve junto de si, segurando-a pela mão que continuava a beijar, e abraçando-a docemente pela cintura, que o braço atrevido não abandonou mais.

O canto ouvio-se ainda: A lua é discreta e nobre, E da noite o manto cobre Beijo roubado ao pudor ; As flores o beijo ouvirão, As auras d'elle sorrirão, Mas ganhou um beijo amor.

— 314 — O canto cessou, e ao mesmo tempo Jorge do Almeida abraçou ainda mais ternamente Juliana, e ousou depor nos labios da donzellaum beijo ardente e voluptuoso.

—315— XXI.

Erão onze horas da manhã.

Juliana estava pallida e melancolica; esforçava-se por encobrir a tristeza que a abatia, mostrava-se por momentos alegre e satisfeita ; mas logo depois cahia em nova e sombria meditação.

Cândida sentada em frente de sua filha observava-a cuidadosa.

Ao meio-dia, recebeu Juliana um bilhete em que Jorge de Almeida lhe repetia os seus juramentos de amor e de constancia.

O bilhete dissipou em parte a melancolia de Juliana.

Cândida retirou-se mais socegada, vendo a filha dirigir-se serena e quasi contente para a sala e dalli sentar-se ao piano.

Mas Juliana tocou apenas durante alguns minutos,porque de súbito seus dedos ficarão immoveis sobre o teclado, e seus olhos afogárão-se em pranto.

Logo depois ouvirão-se os passos de alguém que subia a escada.

— 316 — Juliana enxugou as lagrimas, e, enfeitando o rosto com um mentiroso sorriso de alegria levantou-se para receber a pessoa qui ia chegar.

Fábio entrou na sala.

— Como vem risonho hoje! disse-lhe Juliana.

— Sim, Juliana, respondeu o mancebo; venho contente e feliz, porque achei um meio seguro para salvar-te do perigo que estavas correndo, — Salvar-me!... exclamou a moça aterrada.

— Eu não me enganei, continuou Fábio; Jorge de Almeida procurava seduzir-te.

— Seduzir-me ! — Juliana, vai buscar as cartas que esse miseravel te entregou, dizendo que erão escriptas por seu pai.

— As cartas ?.,. e para que ?...

— Para demonstrar-te que são falsas.

A moça correu como louca para dentro, e em breve voltou, trazendo as cartas.

Fábio examinou a lettra e repetio com segurança : — São falsas.

— Oh! é impossível!... bradou a infeliz moça.

Fábio tirou do bolso algumas cartas que trazia, e mostrando as a Juliana, continuou; — 317 — — Estas sim são do pai de Jorge ; eu as obtive de um negociante que foi correspondente delle, e que deixou de o ser, aborrecido das exigencias e das indignidades desse mancebo.

Juliana, comparando as cartas, reconheceu á primeira vista a mais completa differença da lettra.

— E não é só isso, Juliana; ha mais alguma cousa.

— Que mais?... que mais'?... perguntou a moça, torcendo com força as suas mãos delicadas.

— Jorge de Almeida, proseguio Fábio, deve dentro de dous mezes casar-se com a filha de um rico capitalista desta cidade, e logo depois partir com a sua noiva para a Europa.

— Fábio! Fábio ! bradou Juliana com desespero ; dize-me que estás mentindo !...

— Não, respondeu Fábio ; não menti; affirmote que é exacto tudo quanto acabaste de ouvir.

A moça ajoelhou-se aos pés de Fábio, levantou para elle mãos supplicantes, e disse chorando : — Oh!... assegura-me que mentiste!... é indispensavel que tenhas mentido, Fábio!...

essas cartas que me apresentaste não são ver— 318 — dadeiras ; este casamento de que me fallas é uma falsidade.... Oh!.... dize-me que estás mentindo, Fábio!...

— Juliana, eu juro pela minha honra e pela salvação das almas de meu pai e de minha mãi, que te disse a verdade e somente a verdade.

A misera jovem fitou um olhar desvairado no rosto de Fábio.

— E agradeço a Deus, continuou o mancebo, agradeço a Deus o ter-me concedido a gloria de descobrir tudo isso ainda a tempo de salvar-te.

— É tarde ! murmurou Juliana, mas em voz tão baixa que Fábio não poude ouvil-a; é tarde ! agora é muito tarde ! E cahio desmaiada.

— 319 —

XXII.

Juliana estava arrastando longos dias e tormentosas noites de arrependimento e de remorso.

Toda a esperança de felicidade e de futuro se apagara de uma vez para sempre no coração da infeliz moça.

As lagrimas que ella chorava escondida começavão a abrir um sulco em suas faces mimosas e bellas.

Seus labios não sorrião mais senão com um fingimento que a ninguém illudia.

Juliana sentia que era desgraçada, e que a sua desgraça era irremediavel.

Fábio tinha-lhe dito a verdade.

Depois da impressão terrivel que produzira em Juliana a noticia do proximo casamento de Jorge de Almeida, e a demonstração de falsidade das cartas que este apresentara em nome de seu pai, a moça concebera uma duvida consoladora, e abraçára-se com a idéa de que Fábio, inspirado por um vil e indigno ciúme, procurava enganala.

— 320 — Em breve porém teve Juliana de reconhecer que fazia uma nova injustiça ao seu pobre mas honesto e extremoso amante, Jorge de Almeida appareceu aos olhos da sua noiva, e delia ouvindo tristissimas queixas de mistura com a relação da sua perfídia e do seu crime, jurou que era victima de uma negra calumnia, e sahio precipitado, asseverando que voltaria antes de duas horas com as provas irrecusaveis de sua innocencia.

E, Juliana esperou duas horas, e depois dous dias inteiros inutilmente, porque Jorge de Almeida não voltou mais, e só em logar delle chegou no terceiro dia o desengano.

Jorge de Almeida escreveu uma carta a Cândida, mostrando-se resentido das suspeitas injuriosas de Juliana, e retirando por isso a palavra de casamento que lhe tinha dado.

O seductor não ousou escrever uma unica palavra a sua victima.

A despedida e desenganos erão feitos com selvatica rudeza; mostravão-se porém dignos da moralidade do algoz.

Cândida, acabando de ter a insolente carta, levantou colerica os olhos para o céo e imprecou vingança.

Juliana, que ouvira a leitura daquella horrivel sentença que a condemnava, curvou a — 321 — cabeça, e embebeu os seus olhos na terra, como se quizesse esconder á sua vergonha.

— Levanta a cabeça, minha filha, disse emfim Cândida, concentrando a sua cólera; anima-te, consola-te : esse miseravel não te merecia : levanta a cabeça! Juliana ergueu a fronte, e olhou tristemente para sua mãi, sem lhe dizer palavra; mas sua consciência lhe estava respondendo que não podia mais levantar a cabeça diante de Jorge de Almeida.

— 322 — XXIII.

O projecto de casamento de Jorge de Almeida com a bella Juliana fora por alguns amigos sabido ; a noticia do triste desenlace da intriga infame forjada por um vil seductor correu logo de bocca em bocca, soffrendo muito por isso a reputação da victima.

As murmurações e as injurias levantadas pelas mais terríveis suspeitas marcavão já com o sello da reprovação a infeliz moça.

Cândida e Fábio comprehendêrão que era indispensavel que Juliana tornasse a apparecer nas sociedades e que assoberbasse a horrivel tormenta que contra ella se desfechava.

A situação era realmente tão dolorosa e difficil como positiva e irrecusavel.

Voltando ás assembléas que costumava frequentar, Juliana protestava ao menos com a sua presença e com a sua placidez contra as indignidades que a seu respeito erão espalhadas, e, no caso contrario, fugindo ao mundo elegante e ás festas, e escondendo-se em um — 323 — retiro, procurando um esquecimento que não estava nos seus habitos, deixava em pé e vigorando as suspeitas que lhe despedaçavão a coroa e o véo branco da pureza.

Juliana attendeu aos conselhos de Fábio e de sua mãi, e voltando aos bailes, ás festas e aos theatros, abraçou-se com a mentira.

Com a mentira, sim ; porque erão mentiras o brilho do seus olhos, o sorriso dos seus labios, a alegria do seu rosto e o encanto da sua conversação.

A verdade guardava-a ella no seio : a verdade era o arrependimento, era o remorso.

A mentira acompanhava-a ás sociedades, aos passeios, aos saráos, aos theatros : a verdade, que aliás não a deixava nunca, erguia-se terrivel no silencio da noite e na solidão do seu quarto ; erguia-se, e abrazava-lhe a face e os labios, lembrando-lhe beijos impuros ; erguia-se, e cantava-lhe aos ouvidos horas inteiras, e incessante e desesperadamente aquelle canto sinistro que marcara o momento da sua perda e do seu opprobrio.

E Juliana, que tinha horror a essas noites de indizivel martyrio, ainda mais se arreceiava de que viesse alguma vez sua mãi observal-a, temendo que por acaso então adormecida revelasse em um sonho traidor o segredo fatal da sua vergonha.

— 324 — A misera jovem, que em horas de imprudencia e de loucura tinha calado aos pés os preceitos do dever e da virtude, já estava pois sendo severamente castigada.

Recebia um castigo, nas justas murmurações de um mundo sempre desapiedado da mulher que se avilta.

Recebia outro castigo nesse desassocego e medo que incessantemente sentia.

E mais que tudo a consciência, que é como um écho da voz de Deus, a castigava com as torturas horriveis do remorso.

—325 — XXIV.

O caracter de Juliana era capaz de emprestarlhe a audacia necessária para resistir á silenciosa, mas palpitante reprovação com que ella era recebida nas reuniões em que se apresentava.

Sua vaidade dava-lhe forças para impôr-se.

Quando ás vezes via suas rivaes sorrirem maliciosamente olhando para ella, encarava-as atrevidamente, ou dardejava sobre as inimigas um olhar de fingido desprezo, que chegava a confundil-as.

Sem tremer, sem corar e sem empallidecer, Juliana resistia aos olhos perscrutadores dos homens, que parecião querer penetrar em seu coração e ler ahi um segredo cruel e sinistro.

E apezar daquelles sorrisos, daquellas vistas dos olhos insolentes, apezar do murmurar injurioso que ás vezes sorprendia de passagem, a pobre moça dansava, ria, folgava como d'antes, trazendo no rosto o céo e na alma o inferno.

— 326 — Em duas noites de reunião, porém, teve emfim Juliana de enfraquecer.

Em uma dellas, era um baile, ostentava a pobre moça toda a sua alegria artificial, e no momento em que acabava de levantar-se para aceitar o braço de um cavalheiro com quem ia dansar, vio de subito apparecer na sala Jorge de Almeida, que fixou sobre ella um olhar cheio de cruelissima ousadia.

Juliana estremeceu violentamente, recuou um passo, deixou-se cahir sentada na cadeira de que acabava de levantar-se, e desculpou-se com o seu cavalheiro, dizendo-lhe a tremer : — Não posso... é impossivel.

Esta impressão tão forte e profunda, que recebera Juliana ao ver entrar na sala Jorge de Almeida, foi interpretada pelos curiosos e observadores de um modo muito maligno para a infeliz moça, quo logo depois retirou-se do baile.

Passados alguns dias, em outra e muito numerosa e brilhante reunião, depois de algumas horas dedicadas á dansa e á musica, estava Juliana com algumas jovens, não tão bellas, mas tão vaidosas como ella, descançando e conversando em uma pequena sala que communicava com o toucador.

Fallavão sobre musica.

Juliana sinha sido muito applaudida pouco — 327 — antes cantando um romance, que pela primeira vez fora ouvido.

Uma das moças mordêra-se de inveja por que não pudera agradar tanto quanto esperava, executando uma aria já cem vezes cantada no theatro italiano.

Depois de longo conversar, a invejosa, cançada de ouvir elogios ao romance de Juliana, disse sorrindo ironicamente : — Sei um romance muito mais bonito do que esse que cantou D. Juliana.

— E qual é ?...

— Não tem nome ainda; posso porém repetir uma das tres estrophes de que consta a sua poesia.

— É novo ?...

— Para quasi todos, mas talvez que D. Juliana já o conheça, pois que é tão apaixonada de romances.

— Conta-o.

E a invejosa cantou baixinho : Esta lua tão formosa, Esta noite deleitosa, Este céo de lactea cor, Este silencio profundo.

Este repouso do mundo, É tudo encanto de amor.

Um gemido pungente interrompeu o canto da invejosa. Juliana acabava de desmaiar.

XXV

A miseria victima de um infame seductor não poude combater por mais tempo contra a sociedade que a repellia e que no emtanto continuava a abrir o seio ao seu algoz.

Voltando daquelle ultimo baile em que desmaiara ouvindo um canto injurioso, Juliana adoeceu gravemente.

Durante oito dias luctou com a morte, venceu-a emíim e talvez a pezar seu ; ficou-lhe porém uma profunda e acerba melancolia, contra a qual não houve recurso que aproveitasse. Os medicos aconselharão distracções. Juliana não se prestou mais a voltar aos bailes e ás reuniões, e apenas condescendeu em passeiar fora da cidade com sua mãi e Fábio.

Os passeios repetião-se inutilmente e sem o menor proveito : a melancolia de Juliana era invencivel, e fazia tremer a Cândida e ao seu sempre fiel e extremoso amante. Um dia Fábio chegou á casa de Cândida — 329 — ainda mais commovido do que nos anteriores.

— Que tens, Fábio ?... ha alguma novidade ?...

perguntou Cândida.

— Sim, mas é preciso não deixal-a perceber a Juliana.

— Então...

— Jorge de Almeiada casa-se amanhã.

— Silencio, Fábio! pelo amor de Deus silencio! Dahi a pouco partião em um carro Fábio, Cândida e Juliana, para um dos bellos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro, e apeando-se em um excellente hotel, que não é necessario nomear, seguirão a pé passeiando durante uma hora, no fim da qual voltarão para jantar.

Fábio e as duas senhoras acabavão apenas de entrar para a sala que havião tomado, quando em outra que a essa íicava contígua, soarão as vozes alegres e ruidosas de muitos mancebos, e no meio dellas, bem distincta entre todas, a de Jorge de Almeida.

Um caixeiro do hotel, que veio receber as ordens de Fábio, descobrio o segredo que se occultava a Juliana, declarando que Jorge de Almeida vinha dar a alguns amigos o seu ultimo jantar de moço solteiro, e despedir-se ruidosamente de sua vida de extravagante.

Juliana pareceu ouvir aquella noticia sem — 330 — abalo nem commoção ; pedio porém que se trancasse a porta da sala.

O jantar de Jorge de Almeida transformou-se bem depressa em uma bacchanal, a que só faltavão, para ser mais completa, essas mulheres loucas e perdidas cujas relações vergonhosas poucos homens se atrevem a confessar.

Os vinhos exaltavão os convivas, que suppunhão fallar do amor fallando de devassidão e de crimes.

Juliana tremia ouvindo confidencias feitas em gritos e inspiradas pelo vinho.

E no meio daquelle ruido e daquellas fallas immoraes,o nome de Juliana foi pronunciado ao som de risadas.

Acabavão de contar Juliana no numero das victimas de Jorge de Almeida.

Fábio levantou-se inflammadode colera, mas sentio-se preso nos braços de Gandida e de Juliana, que choravão desesperadamente.

Um dos exaltados convivas interpellou a Jorge de Almeida a respeito de Juliana.

A interpellação era uma infâmia.

Jorge, em vez de responder logo, soltou uma gargalhada indecente.

Os convivas instarão com decompassados gritos.

Jorge de Almeida obedeceu, fallou, e o que disse foi ainda mais infame.

— 331 — Fábio fez um esforço violento, e deixando Juliana cahida semi-morta nos braços de sua mãi, abrio a porta, penetrou na sala do banquete, e avançando para Jorge de Almeida exclamou levantando o braço com evidente ameaça : — Mentes, miseravel !...

Jorge de Almeida empunhou uma faca, e ia bradando : — Repito...

Mas não poude acabar porque Fábio irritado imprimio-lhe no face o maior insulto que pôde um homem receber.

Jorge cambaleou e cahio atordoado no assoalho.

Vinte adversários levantárão-se para vingar a offensa recebida por Jorge de Almeida, mas ao mesmo tempo, a sala encheu-se de gente que acudio ao estrepito,e que conseguio impedir uma lucta desigual e terrivel.

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