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Os Romances da Semana

Joaquim Manuel de Macedo

XXVI

O esquecimento de um grande insulto e de uma injuria vehemente pôde ser aconselhado por uma santa virtude ensinada por Jesus Christo, e então é digno da admiração dos homens, porque aquelle que sabe tanto perdoar se eleva pela sua humildade a uma altura que o aproxima do céo.

Mas também muitas vezes esse esquecimento é apenas a expressão do aviltamento e da miseria moral do homem corrompido pelos vicios; porque a corrupção mata o pundonor e o brio.

Jorge de Almeida não se atreveu a vingar-se da enorme affronta que recebera de Fábio ; a sua colera porém não foi desarmada pela virtude da humildade : elle não perdoou, teve medo.

Entretanto, era-lhe necessário salvar as apparencias, e suppoz salval-as, representando uma comedia que nem ao menos teve o merito da originalidade.

Fábio foi provocado a um duello, e uma hora depois a policia tinha já conhecimento do prazo e do logar do encontro, que assim ficou sem resultado, tornando-se impossivel o duello, esse crime que debaixo de certo ponto de vista pôde bem dizer-se um crime civilisado.

O pai de Jorge, temendo por seu filho unico, o pai da noiva deste receiando ver também compromettido o credito de sua filha, apressarão o casamento que fora adiado por alguns dias, e que se effectuou promptamente.

Assim, pois, uma familia honesta abrio o seio, e nella recebeu o homem indigno, o libertino que acabava de seduzir uma donzella e de tornal-a para sempre desgraçada.

Um pai que se ufanava de ser extremoso, entregara sua filha bella, innocente e pura, a um miserável que fora o algoz de outra mulher bella, innocente e pura.

Muitas e respeitáveis familias correrão a cumprimentar os noivos e a pedir as relações e a amizade de Jorge de Almeida.

As mais, as esposas, as donzellas estenderão suas mãos, e apertarão nellas a mão do mancebo corrompido e corruptor que trouxera para o leito nupcial, ainda fresca a lembrança de uma seducção infame.

Todos sorrião para Jorge de Almeida, todos o festejarão, todas as casas se abrirão para recebel-o, e ninguém se lembrou de pedir-lhe contas do seu crime.

E no emtanto Juliana, a victima de Jorge de Almeida, vivia escondida em triste solidão e gemia ferida pelo desprezo publico.

As sociedades a enxotavão do seu meio com a injuria, que nem mais procuravão disfarçar. Os pais e as mais tinhão recommendado ás suas filhas que fugissem da companhia de Juliana.

Os màncebos atrevião-se a olhal-a de um modo que equivalia a um insulto.

E a infeliz recuara diante dessa manifestação terrivel, e, não tornando mais a apparecer no mundo das festas e dos prazeres, escondia a sua vergonha no interior do lar domestico.

XXVII

Juliana recebia o castigo de uma grave falta.

Uma sociedade moralisada, que se respeita e que se estima, não pôde receber a mulher que se deixou seduzir, pondo-a em contacto com as donzellas e com as senhoras honestas, cercandoas dos mesmos respeitos.

A distincção entre uma e outras é um justo premio devido á virtude.

Mas não pode haver seducção sem que haja seductor, e se a seducção é um crime, o seductor não é menos, ou ainda é mais criminoso do que a mulher seduzida.

Na seducção a seduzida é uma victima, o seductor é um algoz.

E entre uma victima e um algoz, a equidade, a generosidade e a moral não podem hesitar.

A victima de uma seducção delinquio diante da virtude, calcou aos pés um dever, merece uma punição ; seja punida pois.

A bao sociedade rejeita a mulher seduzida, a victima ; ainda bem.

Mas o seductor ?... mas o algoz ?...

A sociedade que se chama boa, a sociedade que pune a victima, abraça o algoz; a sociedade que repelle a mulher seduzida, festeja o seductor!...

Não é moralisada uma tal sociedade; não, e não.

É uma sociedade injusta e cruel, escrava da tyrannia dos homens, corrompida e ignobil.

O crime é sempre um crime, seja elle praticado por um homem, como por uma mulher.

Como se explica a contradicção de se ostentar uma justa severidade com a mulher que é fraca, e uma inexplicavel condescendencia com o homem que é forte ?...

Não; tal sociedade não é moralisada, e para que o seja, deve estender o castigo das seducções aos seductores e ás seduzidas ; deve repellir os algozes como repelle as victimas; deve também trancar suas portas aos libertinos que sacrificão ao seu infame sensualismo a reputação, a felicidade e a vida inteira de pobres jovens que por elles se deixão enganar.

Mas a nossa brilhante e ufanosa sociedade não somente tolera, como chega a parecer que applaude os seductores, ouve as historias dos seus horriveis triumphos, e sorri ouvindo-as; não se envergonha da companhia dos algozes, e aperta-lhes a mão !...

E o pai que acaba de dizer á sua filha — não te sentes ao pé daquella mulher, não lhe falles, porque está manchada pela seducção ! — vê logo depois, e não acha que dizer, vendo sua filha dansar ao lado do seductor, e ser por elle levada em prolongado passeio pelas salas do baile !...

E chama-se moralisada uma sociedade que assim procede !

XXVIII.

Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victima experimentava todas as afflicções de um opprobrio irremediavel.

Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando, depois de ter sido ferida pela tempestade.

Todas as embriagadoras esperanças da belleza e da mocidade tinhão-se apagado no coração da infeliz moça.

Aquella que pouco antes era a donzella vaidosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossivel collocar-se a par da menos bonita das jovens, que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho.

E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e deleitoso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a compaixão de alguns.

Que podia ella esperar ainda?... Todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento ; mas haveria no mundo um homem não indigno e que fosse bastante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dando-lhe a sua mão e o seu nome ?... e se um homem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa, não teria de côrar de cada vez que levantasse para elle os olhos?...

Tudo pois estava acabado : nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais que sonhos de brilhante futuro; tudo estava acabado : havia só uma realidade terrivel, inevitavel, perpetua : era o opprobrio !...

A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas.

O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para impôrlhe um papel ainda mil vezes mais vergonhoso.

A situação era horrivel.

E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incrédula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o

XXVIII

Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victima experimentava todas as afílicções de um opprobrio irremediavel.

Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando, depois de ter sido ferida pela tempestade.

Todas as embriagadoras esperanças da belleza e da mocidade tinhao-se apagado no coração da infeliz moça.

Aquella que pouco antes era a donzella vaidosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossivel collocar-se a par da menos bonita das jovens, que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho.

E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e deeitoso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a compaixão de alguns.

Que podia ella esperar ainda?... Todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento ; mas haveria no mundo um homem não indigno e que fosse bastante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dando-lhe a sua mão e o seu nome ?... e se um homem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa, não teria decôrar de cada vez que levantasse para elle os olhos?...

Tudo pois estava acabado: nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais de sonhos de brlllante futuro; tudo estava acabado : havia só uma realidade terrivel, inevitavel, perpetua : era o opprobrio !...

A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas.

O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para impôrlhe um papel ainda mil vezes mais vergonhoso.

A situação era horrível.

E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incredula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o — 340 — céo e de encorajar-se com a fé e com o amor de Deus.

No coração do crente nunca se apaga de todo a esperança; o coração incredulo é um negro abysmo, em cujo fundo mora o demonio do desespero.

Esse demonio começava a fazer-se sentir no coração de Juliana.

A scena repugnante e vergonhosa passada no hotel viera naturalmente redobrar os soffrimentos da pobre victima.

A noticia do próximo casamento de Jorge de Almeida, que ella recebera sem manifestar notavel commoção, porque conseguira com um esforço violento suffocar a mais pungente dôr, esgottára todos os recursos da sua vontade.

O que depois e em seguida se passara, abateua, aviltou-a aos seus próprios olhos de modo a fazel-a considerar-se a ultima das mulheres.

Desde então a infeliz vivia a chorar dia e noite, incessantemente.

Juliana tinha chegado a amar apaixonadamente a Jorge de Almeida, e vendo-se tão ultrajada por elle e já tão repellida pelo mundo, tocara o extremo de aborrecer o mundo e de aborrecer a si propria.

O seu padecer era tão acerbo e tão profundo, havia em seu olhar ás vezes desvairado, em suas palavras ás vezes insensatas, em seus modos ás vezes singulares um não sei que de tão sinistro, que Cândida começou a receiar as mais fataes consequencias.

A infeliz mãi seguia e observava cuidadosa sua filha; desejava consolal-a, não sabia que dizerlhe, e limitava-se a chorar com ella.

Fábio era o único amigo que não tinha desamparado a triste moça; era o companheiro unico que vinha diariamente tomar uma parte naquelle viver de lagrimas, que estavão passando Cândida e Juliana Fábio era mais do que um mancebo generoso e nobre, era o typo do amigo dedicado ; tinha um coração cheio dessas grandes virtudes que tornão o homem capaz dos maiores sacrificios ou da abnegação mais completa.

E naquellás circumstancias ella não esquecia que o pai de Juliana fôra o seu protector desvelado, que em Cândida achara uma segunda mãi, que Juliana era a sua amiga da infancia.

E ainda mais: Fábio tinha amado extremosaamente Juliana.

O que se passava na alma desse mancebo, ninguém o poderia explicar : era uma lucta horrivel, e um soffrimento que excedia as mais despedaçadoras torturas.

Fábio fingia duvidar do opprobrio de Ju liana ; mais acreditava nelle : comprehendia que a situação era intoleravel, e não se podia sujeitar á idéa de ver morrer Juliana, nem de vêl-a carregar o peso de uma vida ignominiosa.

Uma noite, Fábio chegou á casa de Cândida quando já não o esperavão.

Erão 10 horas da noite.

Cândida estava só na sala, e nem procurou esconder as lagrimas que derramava, quando vio aproximar-se omancebo.

— Onde está Juliana?... perguntou elle.

— Está no terraço e pedio-me que a deixas-sa em liberdade.

— Como passou ella o dia ?...

— Peior do que nunca ! exclamou a pobre mãi! Fábio !... aquelle homem matou minha filha; nós vamos perder Juliana !...

— O amor maternal ás vezes exaggera os perigos que receia.

— Oh ! não ! é a pura verdade: esta noite, e já muito tarde, fui observar Juliana... ella tinha adormecido, escrevendo... cheguei-me de manso e li... Ah! tinha escripto a historia dos seus soffrimentos do dia que passara, e as suas ultimas idéas erão uma horrivel saudação ao suicidio !... cahi de joelhos, soltei um grito, accordei-a, e pedi-lhe chorando que vivesse para mim!...

— E ella ?...

— Perguntou-me de que me servia a sua vida!... Oh ! Fábio ! uma filha pôde fazer tal pergunta á sua mãi ?...

— E depois?...

— Acabou promettendo me que não se mataria; mas disse-me isso sorrindo, com um desses sorrisos que só se vêm nos lábios de um louco ! Ah ! ella vai morrer, Fábio ! aquelle homem matou minha filha! — Aquelle homem casou-se hoje, balbuciou Fábio.

— E hoje ella está pensando em matar-se ! repetio Cândida soluçando.

Fábio passeou ao longo da sala durante meia hora, parecendo engolphado em profunda e dolorosa meditação ; parou emfim de subito ouvindo um longo gemido, que fizera estremecer a afflicta mãi.

— Que é isto ?...

— Um gemido de Juliana ! exclamou Cândida desatando a chorar; é minha filha que vai morrer... aquelle homem matou minha filha! — Juliana não ha de morrer, disse Fábio : eu vou fallar-lhe... não me acompanhe : quero conversar a sós com ella.

E com ar grave e solemne, Fábio dirigio-se para o terraço.

XXIX

A noite era formosa ; a lua plena e formosa brilhava no céo branco e bonançoso ; as auras sopravão brandas e suaves : o jardim era como um thuribulo immenso que enchia de deleitosos perfumes o templo da natureza.

Era pois uma noite como aquella noite de loucura, embriaguez e de conseqüente arrependimento.

E vestida de branco, também como naquella noite, mas com os seus admiraveis cabellos negros soltos e em desalinho, Juliana estava debruçada sobre o parapeito do terraço e mar com as suas lagrimas a lembraça do seu grande erro e do seu cruel infortunio.

Seus olhos estavão fitos no caramanchão, que divisava ao longe, e que por entre o pranto consideravão com uma expressão indeflnivel de angustia.

Dir-se-hia que Juliana era então como a alma de um suppliciado que em deshoras vinha contemplar o patibulo, onde ao golpe do algoz se separara do corpo que animara.

Naquelle logar e naquella hora, como devião ser tormentosas as reflexões da pobre moça !...

Ella chorava sempre, e se durante breves momentos não chorava, succedia nos seus olhos ás lagrimas um brilho infernal, que era o reflexo de um pensamento sinistro e criminoso.

A moça vaidosa revoltava-se contra a sua desgraça, e não queria por modo algum sujeitarse a ella.

E o recurso único que lhe suggeria o espirito exaltado, era horrivel.

Juliana estancava o pranto somente quando sorria para a morte.

A idéa do suicídio preoccupava-a desde alguns dias, e se a principio a fizera estremecer, acabara bem depressa por não aterral-a mais.

Juliana chegara ás consequencias fataes da sua infeliz educação.

Acreditara no mundo, contara com os gozos da vida transitória ; o bello mundo trancá-ra-lhe as suas portas, a vida não lhe offerecia mais do que um futuro negro, feio e afflictivo.

Para Juliana, viver era gozar : de que lhe servia pois uma vida em pranto, em soffrimentos e torturas ? A sepultura era pelo menos um descanço.

Além da sepultura nada mais havia para ella.

Tinhão-lhe ensinado que a eternidade era uma illusão.

Juliana sabia demais que o arrependimento não podia regeneral-a diante de Deus.

A infeliz não acreditava que na paciencia e na humildade tinha as chaves com que lhe serião abertas as portas do céo.

Ferida pois pela desgraça , e repellida pelos homens, sem crenças religiosas, sem amor e sem temor de Deus, que não lhe tinhão ensinado a conhecer, com o desespero na terra, e sem a fé no coração, como recuaria ella ante a idéa do suicidio ? O suicídio era pois a consequencia da educação que a misera tinha recebido.

E ás vezes a pobre moça luctava contra as falsas doutrinas que a impellião ao crime : ás vezes pensava na eternidade, no céo, em Deus; era porém tarde; a luz passava quasi imperceptivel por diante dos olhos da infeliz cega.

O onda impetuosa da descrença arrancava das mãos da desgraçada naufraga a providencial taboa de salvação que ainda podia conservar-lhe a vida.

Juliana não estava louca; era incredula.

XXX

Quando Fábio entrou no terraço, Juliana chorava, e tanto e tanto que nem vio approximarse della o mancebo.

Fábio esteve por alguns momentos junto della, contemplando-a em tristissimo silencio, até que, sentindo que por demais se estava commovendo, e que precisava poupar as forças do proprio animo, tomou-lhe uma das mãos e murmurou : — Juliana !...

A moça estremeceu ; logo porém voltou-se e respondeu perguntando : — És tu, Fábio ?... que queres ?...

— Padeces muitos?...

Juliana sorrio com um desses sorrisos que despedação corações.

— Minha irmã, disse Fábio, é necessario deixar de soffrer e de chorar...

— Eu?...

— Não ha mal que não tenha remédio ; Deus é grande e omnipotente.

— Deus?...

— Sim, Deus.

— Oh Fábio! Fábio! faze-me crer... faze-me crer!... olha : o que eu tenho na alma é horrivel; mas vejo bem que muito menos o seria se eu pudesse crer!...

— Juliana!... — Sou muito desgraçada, Fábio.

— Podes porém ser feliz ainda,...

— Nunca.

— E se o homem que te illudio se apresentasse de novo ? Juliana fez um movimento de horror.

— Não o amas então mais ?... perguntou Fábio, hesitando.

— Aborreço-o ! murmurou Juliana com uma profunda expressão de verdade.

— Pois bem, disse Fábio ; sabe que Jorge de Almeida casou-se hoje.

Juliana estremeceu tão violentamente que Fábio teve de suste-la em seus braços.

— Estremeceste, Juliana!...

— Fábio ! disse a moça com voz sentida; o criminoso que conta com o patibulo, ainda assim estremece quando ouve o annuncio da sua sentença de morte.

— Então...

— Nada, Fábio; não concluas cousa alguma.

— Juliana, uma barreira eterna te separa desse homem.

— Estávamos já eternamente separados antes de levantar-se a barreira de que fallas.

— O teu coração está portanto livre e pôde dar-se a um outro homem que te mereça e te faça feliz...

— Um outro homem...

— Sim, Juliana.

— E que outro homem se abaixaria até á posição em que me acho ?...

— Aquelle que te amou sempre: eu, Juliana.

— Fábio!...

— Juliana, eu te offereço a minha mão e o meu nome.

Juliana deixou-se cahir de joelhos, e levantada nos braços de Fábio, tomou-lhe uma das mãos, e cobrio-a de beijos e de lagrimas.

— Aceitas, Juliana?...

A moça ficou por muito tempo sem poder fallar; quando porém os soluços não lhe embargarão mais a voz, respondeu resolutamente: — Não.

— Oh Juliana! sê minha esposa.

— Não : tu és o mais generoso dos homens : eu tenho porém consciencia,de que sou indigna de ti.

— Juro-te que não te lembrarei nunca uma — 350 — paixão funesta e louca que tantas lagrimas tem feito correr dos teus bellos olhos ! amo-te como d'antes, e quero que sejas minha : aceita-me, Juliana, aceita-me!...

Juliana commovida, tremula, e vivamente agitada, tomou entre as suas uma das mãos de Fábio, levou-o para um das ângulos do terraço, onde brilhavão menos os raios da lua, e alli, curvando a cabeça, balbuciou com voz lugubre : — Fábio.., o que Jorge disse no hotel era verdade... Fábio... Jorge de Almeida deshonroume...

E Fábio com voz ainda mais tremula e mais lugubre respondeu : — Ainda assim...

E encostou-se á parede para não cahir

XXXI

Juliana levantou a cabeça, fixou seus olhos no rosto de Fábio, e comprehendeu toda a immensidade do sacriicio que o generoso mancebo se offerecia a fazer para salval-a.

As lagrimas, a confusão, a dôr profunda que sentia a infeliz moça, parecerão dissipar-se como por encanto; mas a tranquillidade que ella affectou subitamente, era ainda mais tremenda e ameaçadora.

— Sim, Fábio, disse ella; a noite não póde mostrar-se mais formosa ; a lua brilha, as flores rescendem odorosas.., é uma noite de magia...

vem, Fábio, desçamos ao jardim...

E, tomando o braço de Fábio, desceu a escada do terraço, e adiantou-se com o mancebo pelas ruas do jardim.

Fábio estava triste, mas sentia-se ao mesmo tempo dominado pelo irresistivel poder daquella mulher formosissima.

De repente, Juliana parou diante de um massiço onde abundavão as violetas, e, depois de contemplal-as por alguns instantes, disse : — Tu tinhas razão, Fábio ; as flores têm veneno : as violetas envenenárão-me ! aquelle ramalhete de violetas foi o principio e a causa da minha desgraça.

— Ainda te lembras disso ?...

— Sempre .. mas lembro-o com horror ; o que porém me lembra ainda mais, Fábio, é a lição que me deste sobre o veneno das flores, e que então loucamente não quiz ouvir...

— Esqueçamos o passado, Juliana, disse Fábio, obrigando-a a continuar o passeio.

— Não posso : a sua lembrança é mais forte do que a minha vontade. Sobretudo desde tres dias ouço incessantemente repetidas pelo meu coração as palavras que me disseste na noite da festa dos meus annos.

— Juliana ! — Tu me dizias : — Juliana, os perfumes das flores podem matar... — E eu ousei responder-te: — Deve ser uma morte deliciosa!... — uma morte de flores !...

— Que queres dizer ? — Que eu era uma louca, Fábio ! — E hoje que dizes tu, Juliana?...

— Que és um homem generoso... mais do que isso, que és meu anjo, Fábio ! o meu anjo de amor e de consolação; e que eu hei de mostrarme digna de ti.

Os dous jovens tinhão chegado ao caramanchão ; e, Juliana quasi arrastada por Fábio, fora sentar-se ao lado do amante, no banco de relva.

— Sim ! exclamou Fábio ; eu serei o teu protector, o teu amigo, o teu esposo ; e tu has de viver para minha felicidade... Juliana! jura que serás minha esposa !...

— Eu disse que seria digna de ti, Fábio...

— Sê-lo-has sempre, eu o sei ; jura-me, porém, que serás minha esposa !... eu o exijo ! — Jurar que serei tua esposa ?... aqui ? perguntou Juliana aterrada.

— Sim... aqui... aqui mesmo ! — Oh, Fábio ! tu sabes o que me estás pedindo ? — Jura .. eu o exijo ! — Aqui?... neste logar ? perguntou de novo Juliana com uma expressão de dôr profunda, cuja causa Fábio não comprehendia.

— Sim ! aqui mesmo, repetio o mancebo.

— Nã, não... só á face dos altares prestarei o juramento que me pedes : aqui... não; aqui...

oh!... aqui eu juro-te somente que me mostrarei digna de ti.

— Faz-se tarde, Fábio ; e eu quero dormir esta noite o melhor e o mais bello dos somnos, para que amanhã venha o meu noivo encontrar-me digna delle ; voltemos pois.

A voz de Juliana tinha-se tornado tão doce e tão terna, o seu rosto tão sereno e apenas cheio de uma melancolia alias naturalmente explicavel, que Fábio ia pouco a pouco socegando.

De volta do jardim, os dous jovens demorárão ainda os passos para conversar mais algum tempo, Fábio procurando accender suaves esperanças no coração de Juliana, esta manifestando-se reconhecida a um amor tão generoso, e teimando sempre em dizer que se mostraria digna delle.

Ao entrar na sala, encontrarão Cândida que os esperava anciosa : — Minha filha! exclamou ella.

— Minha mãi, disse Juliana, amanhã mandará apromptar o meu vestido de noiva.

Cândida olhou para Fábio.

— Peço-lhe sua filha em casamento, disse o generoso mancebo.

A pobre mãi apertou Fábio nos braços.

— Estás contente, minha filha ?...

— Oh ! muito ! respondeu Juliana ; e agora abençôe-me, minha mãi! ha longo tempo que não sei o que é dormir, e hoje dormirei muito... — Oh ! ainda bem !... Juliana ajoelhou-se e repetio : — Minha mãi, abençôe-me ! — Que é isto ? de joêlhos ?...

— Sim, esta hora é solemne... Fábio veio dar uma nova direcção ás rainhas idéas, tornou-me outra... minha mãi, abençôe-me ! Cândida abençoou Juliana, e levantou-a em seus braços.

— Agora, Fábio, tu, disse a moça, tu és o meu noivo... beija-me, Fábio, beija-me...

Fábio aproximou-se de Juliana, e beijou-lhe a fronte.

— Oh ! beija-me ainda na face, e beija-me nos lábios para que eu te beije também ! Os dous jovens beijárão-se ternamente.

— Agora... bóa noite... adeus! disse Juliana, e retirou-se apressada para seu quarto.

— Estará louca?... perguntou Cândida confundida.

— Não, respondeu Fábio; Juliana está salva.

XXXII

Reinava silencio profundo em casa de Cândida.

Fábio, antes de se retirar, tinha referido á extremosa mãi quaato se passara entre elle e Juliana, excepto somente a confissão que recebera do segredo fatal ; e Cândida, illudida como o mancebo pela tranquillidade da infeliz moça, concebera também por sua vez uma esperança de felicidade.

Fábio retirára-se pouco depois de meia-noite, e, passada uma hora, Cândida, indo observar sua filha, achou-a já no leito e dormindo um profundo somno. Satisfeita, alegre, feliz, a pobre mãi retirou-se para o seu quarto, e adormeceu abençoando Fábio, o anjo que salvará Juliana.

A noite adiantava-se.

As duas horas da madrugada Juliana ergueuse, e cautelosa foi assegurar-se de que sua mãi dormia, e logo de volta desceu pressurosa ao jardim.

Juliana não tinha dormido um só instante, e apenas simulara habilmente um somno tranquillo e pesado quando vira entrar sua mãi para observal-a.

Agitada por um tremor nervoso, com um olhar ardente e desvairado, com a respiração anciosa, a moça adiantou-se pelo jardim, colheu com tanto cuidado como rapidez, grande cópia de rosas odoriferas, de angélicas, de re-sedás, e de quantas flores encontrou notáveis pelo seu perfume activo e forte.

Quando vio que tinha já colhido tantas flores que serião de sobra para vinte ou mais ramalhetes, e que ella ia depositando no banco do caramanchão, tratou de conduzil-as em porções para o seu quarto.

Sem pronunciar uma palavra, sem soltar um gemido, sem derramar uma lagrima, Juliana recolheu-se emfim e vio-se no meio de uma enchente de flores.

Então com a mesma rapidez e com o mesmo zelo,cobrio de rosas, de angelicas, de bogaris, de jasmins de Cabo e de resedá francez todo o seu leito, encheu do ramalhete o seu toucador, e espalhou o resto das flores pelo assoalho ; sentou-se depois e escreveu duas cartas.

Levantou-se emfim a pobre moça, fechou cuidadosamente e trancou as portas do seu quarto, deitou-se vestida como estava sobre as flores, apagou a luz, e desatou a chorar.

Erão lagrimas acerbas e não de piedade ; era o ultimo pranto do desespero de uma moça formosa que tinha amado loucamente os prazeres e os gozos da vida.

Breves minutos depois, o ar viciado pelos aromas activissimos que exhalavão as flores, começou a produzir os seus effeitos...

Juliana teve medo ; mas, fazendo um esforço supremo, deixou-se ficar immovel no seu leito, e como para animar-se e ainda mais desejar a morte, foi cantando baixinho : Esta lua tão formosa, Esta noite deleitosa, Este céo de lactea côr, Este silencio profundo, Este descanço do mundo É tudo encanto de amor.

Cantou as tres estrophes do canto da seducção, repetio-as ainda tres vezes... quiz repetil-as ainda quarta vez, mas parou no meio da primeira estrophe, como se tivesse adormecido.

XXXIII

No dia seguinte, Cândida achou trancada a porta do quarto de sua filha, e debalde chamou por ella em altos gritos.

Fábio acudio immediatamente á um recado instante da mãi afflicta e aterrada, e logo que chegou, comprehendeu que uma horrivel catastrophe tivera logar.

A porta do quarto foi arrombada, e Cândida e Fábio virão Juliana vestida de branca e morta, estendida no seu leito e no meio de um diluvio de flores.

O ar que se respirava, ainda era uma atmosphera de perfumes.

Juliana estava pallida; a morte porém não tinha ainda ousado desfigurar seu rosto encantador e formoso.

Cândida cahio desmaiada sobre o cadaver de sua filha.

Alguns momentes depois, Fábio encontrou sobre a mesa as duas cartas escriptas por Juliana; uma era dirigida a elle, outra a Cândida.

A carta de Fábio dizia assim : « Fábio, querias sacrificar a tua reputação e o teu futuro para salvar-me, e eu jurei mostrar-rne digna, de ti ; cumpro esse juramento matando-me. Lembra-te d'aquella noite da festa dos meus annos, em que me fallaste do veneno das flores ?... eu te disse então : — Fábio, se um dia resolver-me a acabar com a vida, matar-mehei com o veneno das flores. — A prophecia verificou-se, Fábio. Eu morro, e... morro amando-te. Adeus. » Na carta que deixara á sua mãi, Juliana assim se exprimia : « Perdão, minha mãi! é preciso que eu morra: não ha no mundo regeneração possivel para a mulher que se deixou seduzir. O mundo que tolera e talvez affaga o algoz, não perdoa a victima. Não ha para mim esperança, nem mesmo aceitando a mão e o nome do jovem que generosamente se avilta, pretendendo salvar-me.

A morte anniquila tudo : a morte é o meu unico recurso. Adeus, minha querida mãi, adeus para sempre ! » Cândida, ouvindo a leitura desta carta, exclamou desesperadamente : — Oh ! minha desgraçada filha teve um accesso de loucura.

— Não teve um accesso de loucura, disse Fábio: sua filha era incredula... a descrença levou-a ao desespero, e o desespero levou-a ao suicidio.

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