Os Romances da Semana

Joaquim Manuel de Macedo

Reunindo em um volume estes ligeiros romances, todos escriptos ao correr da penna, e já publicados na Semana e na Chronica da Semana do Jornal do Commercio, não me seduz a esperança de merecer por isso os applausos e o louvor do publico.

Sou o primeiro a reconhecer a falta de merecimento, a pobreza de acção, e os descuidos e desmazelo de estylo que aniesquinhão estes pobres romances que improvisei.

Comprehendo que com. o mais seguro fundamento poderia alguém observar-me que, pensando eu assim, a razão devia ter-me aconselhado a não arrancar do esquecimento esses escriptos sem merito, que não estavão no caso de apparecer á luz da imprensa.

Concordo plenamente com a observação.

Mas... um autor é como um pai: um pai não desama seus filhos ainda os mais feios : um autor não desama as suas obras ainda as mais defeituosas.

Demais, não brigarei com os criticos, e ainda menos me queixarei do publico por amor deste livrinho.

Cheguemos todos a um accordo a respeito delle.

Sabe-se que os artigos de Jornaes participão um pouco da condição dos ephemeros : ficão esquecidos, e morrem portanto um dia depois de serem dados á luz..

Estes romances forão publicados em artigos do Jornal do Commercio, e por consequencia um dia depois o publico os esqueceu e os deixou morrer da fatal molestia que persegue o Jornalismo.

Que póde fazer um pai a seus filhos mortos ?...

ajuntar-lhes os restos para guardal-os em uma urna, que sirva de consolação ao seu amor.

Pois bem : assentemos e concordemos todos em que este livro é a urna, em que determinei guardar estes pobres romances que morrerão.

Deste modo ganho sempre alguma cousa, porque ficarei livre dos criticos que hão de respeitar o parce sepultis.

E como é de regra que toda a urna deste genero tenha o seu epitaphio, darei por epitaphio a esta o titulo Romances da Semana, titulo que se explica pelo facto de terem sido, como já disse, todos estes romances publicados na Semana e na Chronica da Semana do Jornal do Commercio.

A BOLSA DE SEDA

O tremendo flagello da Asia que, ainda não ha muito annos, Eugênio Sue, personificando-o em uma personagem biblica, pintou estendendo debalde os braços para a America, pois que não podia vencer de um salto o estreito de Bhering, arrojou-se atravez do oceano Atlantico, e desmentindo a imagem do romancista, invadio com horrivel violencia o Impéerio do Brazil.

Em o cholera-morbus enchia de luto e lagrimas a cidade de Rio de Janeiro; então porém a população illustrou-se por uma firmeza que lhe foi proveitosa e lhe fez honra, e em vez de mostrar-se abatida pelo terror, soube — — engrandecer-se pela constancia e pela coragem.

A peste flagellava especialmente as classes mais pobres : onde havia miseria se ia encontrar a morte. Esta observação foi como um grito doloroso que despertou a caridade publica, e nunca esta santa virtude se demonstrou mais viva e brilhante.

Todos á porfia corrião a soccorrer os infelizes atacados pelo cholera: multiplicárão-se os hospitaes, as enfermarias, sobrarão os donativos e abundou o ouro para mitigar os soffrimentos da indigencia.

E o empenho da caridade foi tal, que levou-se até á exageração essa sublime virtude, que uma ou outra vez perdeu o seu caracter pela ostentação e pelo luxo com que foi por alguns praticada.

Foi esta consideração que deu motivo ao brevissimo romance, a que dei o titulo de — Boísa de Seda — aproveitando para a acção d'elle a exposição e leilão de objectos curiosos e interessantes offerecidos por muitas senhoras distinctas,para, com o productod'essa feira philantropica e caridosa, serem soccorridos os po— — bres da freguezia de N. S. da Gloria da cidade do Rio de Janeiro.

Deve-se acreditar que ainda ninguém esqueceu esse interessante e nobre leilão que em teve logar no edifício da Academia das Bellas Artes.

Esta simples exposição servirá para que mais completamente transpareça o pensamento do nosso romance.

A BOLSA DE SEDA

Era o dia de Outubro de — um sabbado, e por consequencia a vespera de um Domingo.

Creio que sabeis que é nos domingos que apparece a Semana, o meu folhetim hebdomadario do Jornal do Commercio.

Faltava-me matéria para a Semana : sentia-me incapaz de satisfazer os leitores do Jornal do Commercio no dia seguinte : estava triste, aborrecido de mim mesmo.

Reconheci que não dava conta da mão : roguei pragas ao publico, atirei com as pennas para baixo da mesa, tomei o chapéo, e sahi.

Fui passear.

—— Não sei bem onde me achava ; importa pouco para esta minha scena a questão do theatro; pôde representar-se em qualquer rua, em qualquer praça ou em qualquer hotel : é uma scena que serve em qualquer theatro, como ha em certos theatros decorações que servem para todos os dramas.

Ia eu indo e não via nada; tinha a semana pesando-me sobre o coração.

Senti de repente que me batião no hombro.

— Quid cogitas ? disserão-me.

Tinha encontrado um homem que sabia latim, o que não é muito commum no Rio de Janeiro ; voltei-me para elle ; era o meu amigo Constando, mocetão de vinte e cinco annos, bonito, rico, solteiro, que fuma charutos de Havana, tem bigodes e pera, e tudo, tudo e tudo, menos talvez juizo, o que é muito commum no Rio de Janeiro.

— Quid cogitas ?... repetio-me elle.

— Penso na semana, que já devia estar feita, e que ainda não comecei.

— Pois então alegra-te ! dou-te mais que uma semana. — Como ?...

— Dou-te um romance.

— Bravo ! o heróe ?...

— Sou eu : está entendido.

— A heroina?...

— — — Uma moça bonita. Queres?...

— O que?... a moça ou o romance?...

— O romance, está visto.

— Aceito : conta lá isso ; mas, antes de tudo, devemos-lhe um titulo : qual deve ser?...

— A bolsa de seda.

— Bem escolhido ; começa pois. Constando deu-me um abraço, e principiou : — Conheces minha mãe e minha irmã?...

— Que tem isso com o teu romance ?...

— Conheces minha mãe e minha irmã?....

— Não.

— Pois é pena; minha mãe é uma senhora muito religiosa e cheia de virtudes; e minha irmã uma moça bonita, engraçada, compassiva e boa até não poder mais. Ora, sendo ellas assim, ando desgostoso, desesperado, furioso por ver que em um .tempo como este, quando todas as senhoras se têm tornado notáveis por actos brilhantes de caridade, só minha mãe e minha irmã, apezar de boas e religiosas como são, se deixão ficar em casa, e não levão nem uma camisa, nem um lençol, nem uma esmola á casa de um pobre!...

— Tem paciencia.

— Qual paciencia ! queria ouvir abençoados os nomes de minha mãe e de minha irmã : ainda ante-hontem á noite tive um combate com ellas — — por isto, mas foi tempo perdido; depois de luctar em vão duas horas, fui me deitar, e sonhei...

sabes o que ?...

— Não.

— Sonhei com o anjo da caridade, vi-o, achei-o bonito, apaixonei-me por elle, epor fim de contas reconheci que o anjo era uma moça, e casei-me com ella.

— Dou-te os parabéns.

— Á hora do almoço contei o meu sonho a rainha mãe e a minha irmã; ellas rirão de mim, e eu, jurando que me havia de casar com um anjo como o que sonhara, sahi de casa.

— E depois ?...

— Passei o dia com un amigo, e á noite dirigime ao theatro; mas, cousa celebre! o meu sonho não me sahia da cabeça; ao passar por uma das nossas ruassinhas estreitas e menos freqüentadas, vejo parar um carro e saltar d'elle uma moça coberta com um véo. A moça não vinha só ; trazia uma companheira que se deixou ficar no carro, e cujo rosto não pude ver, porque também se cobria com um véo como a primeira.

— Bem; continua.

— Não pude deixar de admirar o corpo gracioso e encantador da moça que descera do carro ; mas o que sobretudo me impressionou foi o seu mimoso pesinho, que de relance apre ciei á luz do abençoado gaz ; está dito... fiquei doido por aquelle pé ; por signal que era o direito, e por conseqüência posso dizer que a moça entrou-me com o pé direito no coração.

— Pobre coração! — É verdade : dahi a meia hora eu o tinha completamente aealcanhado.

— Continua.

— O carro ficou parado, e a moça, avançando alguns passos, bateu na rotula de uma casinha de triste apparencia, e um momento depois entrou.

« O carro era de aluguel, e o maldito cocheirou ou era mudo, ou não fallava. A curiosidade sahia-me pelas pontas dos dedos; fui a uma venda da esquina, e informando-me sobre quem morava no pobre casebre, soube que era uma família indigente. Lembrei-me do meu sonho, adivinhei que tinha encontrado a minha bella sonhada, e de um pulo fui bater, e entrei na casa da pobreza.

« Fiz tudo isto com tanta rapidez que a moça quiz, mas não teve tempo, de se esconder, e fui encontral-a sentada ao lado de uma pobre velha : continuava a ter o rosto coberto com o seu véo longo e impenetrável; não me importei com o véo, e achei-a formosissima : fiz de conta como os poetas, e apaixonei-me como elles.

— — — Adiante, adiante...

— Fallei-lhe e não me respondeu; não me incommodei com isso, nem por tal esfriou a minha paixão; tentei approximar-me d'ella; mas immediamente levantou-se, e com tal pressa que lhe cahio uma bolsa de seda.

— Ah ! a bolsa de seda...

— É verdade : uma bolsa que sem duvida ella estava tecendo, e que ainda não estava acabada.

— E que mais ? — A velha apanhou e entregou-lhe a bolsa.; vi a mão da moça... fiquei abysmado.

— E depois ?...

— A moça apontou-me para um quartinho escuro e triste, onde gemia uma creança; corri a ver a infeliz; era um menino de quatro annos: eondoido de seus soffrimentos e de sua pobreza, começava a examinal-o, quando ouvi rodar uma sege...

— Que logro! — É certo : saltei para a sala ; mas a velha me disse com triste sorriso ; — é tarde! já partio.

— E quem é ella ?...

« —Um anjo do caridade, senhor.

« — Exactamente, exclamei eu, era isso o que eu procurava ; posso considerar-me casado.

Quando torna ella aqui ? — — - Não sei; apparece, como a Providencia, sempre que se faz necessaria, - «_ E que vem fazer?...

- « _ Que vem fazer ?... Ah! senhor, vem vestir a mim e a meus filhos ; vem ajoelhar-se aos pés daquella cama velha, e com suas mãos tão finas e mimosas banhar os pés de meu filho doente ! vem dizer-lhe palavras de amor, e fazel-o tomar remedios sem chorar, nem contrafazer-se; vem animar-nos a fé e accender-nos a esperança, e sempre acha occasião para, sem que ninguém a veja, deixar uma boa somma de dinheiro em baixo do meu travesseiro.

- « — E como se chama?...

- « — Ella diz que se chama minha irmã, - « — Irmã dos pobres ! é.isso mesmo : estou definitivamente casado.

- « — Ah ! senhor! - « — Onde mora ella? - « — Não o quer dizer.

- « — É bonita ?...

« — Oh ! se o è... e que graça,., e que voz... e que olhos !...

« — Exactamente !... eu a sonhei tal e qual.

« — Tal e qual, como, senhor?...

« — Tal e qual como ella é ; boa duvida! « — E o senhor sabe como ella é ?...

« A pergunta da velha embatucou-me; como não tive que responder, desviei-me da questão — — « — E vós quem sois, boa mulher ?... contaime a vossa historia.

« — A minha historia é bem simples, disse a velha; moça pobre, tive a fortuna de me casar com um excellente homem ; era um bom carpinteiro que ganhava com a sua incho bastante para sustentar a sua família ; tinha sido voluntario da independencia, bateu-se nobremente por ella, e ganhou a sua medalha da campanha da Bahia ; ha cinco annos adoeceu, e ficando alguns mezes de cama, acabou mais de miseria do que da molestia; ninguém se lembrou d'elle!.. Se eu tivesse uma bandeira nacional para amortalhalo!...

mas não tive : embrulhei o seu cadaver no ultimo lençol que nos restava, e pendurei a seu pescoço a medalha da independencia ; a Misericordia fez o resto, enterrando o corpo do antigo soldado; creio que ninguém reparou na medalha e foi bom isso.

« — Porque ?...

« — Porque os vivos havião de envergonhar-se do morto.

« A velha, apezar de pobre, fallava como um deputado.

« — E depois?... perguntei.

« — Depois, senhor, vivi e sustentei meus quatro filhos como pude : Deus me protegeu até hoje, e continua sempre a proteger-me ; mas, confesso o meu grande peccado : quando -- rebentou esta peste maldita, evi dous de meus filhos cahidos, quasi que desesperei!...

Felizmente um anjo de caridade entrou-me em casa, e comsigo me trouxe a esperança e a coragem.

« — E esse anjo ? « — Sahio daqui, ha pouco.

« _ Sim, bem sei ; mas, boa mulher, eu tenho absoluta necessidade de saber quem elle é, como se chama, e onde mora...

« — Como posso eu dizel-o ?...

« — Oh ! mas se é essencial !... eu devo casarme com aquella senhora ; é uma cousa decidida.

« — E possivel, senhor !...

« — Falta-me só conhecel-a ..

« — A velha olhou para mim espantanda; sem duvida alguma pensou que tinha diante de si algum doido ; receiando porém offender-me com o seu olhar, baixou a cabeça, e apanhando um fio de .seda que encontrara a seus pés, começou a enrolal-o por entre os dedos.

« Bem se diz que ás vezes a fortuna pende de um fio! « Vi a minha felicidade pendendo d'aquelle fio de seda.

« Lembrei-me da bolsa de seda.

« — Boa velha, creio que o fio que enrolaes — — nos dedos foi da bolsa de seda, que o vosso anjo de caridade tecia.

« É verdade.

« Então essa bella senhora, quando vera a esta casa, costuma trazer algum trabalho para se entreter, não ?...

« Ah, não, senhor : ella ás vezes demora-se aqui uma, duas, e até três horas, conforme julga necessario, para prestar-nos soccorro; e ha alguns dias apenas traz essa bolsa que está tecendo, segundo diz, para dal-a de presente a uma amiga que faz aimos domingo.

« — Domingo ? depois d'amanhã ?...

« — Sim, senhor.

« — Bravo ! vou saber quem é esse anjo de caridade ; domingo é o dia do leilão a favor da pobreza, e a bolsa de seda. não se destina a outro fim ; já conheço a côr da tal bolsinha... vou encontrar e conhecer minha mulher ! «A velha tornou a olhar-me com sorpresa e talvez piedade; e eu que não tenho nem a delicadeza, nem a graça das senhoras, em vez de fazer escorregar algum dinheiro para baixo de travesseiro da velha, lancei-lhe no collo a minha carteira, e sahi pela porta afora, meio atrapalhado com as bênçãos e com os agradecimentos da pobre mulher.

« Em vez de ir para o theatro, fui logo direito para casa, onde encontrei minha mãe e minha — — irmã, que desde que começou o cholera não vão nem á opera lyrica, nem ao baile, e nem saem de noite com medo do sereno.

« Contei-lhes o que me havia acontecido, e ellas, mettendo o negocio á bulha, acabarão, como sempre costumão, por me dar e gracioso titulo de doido.

« Mas amanhã é domingo, e a bolsa de seda virá provar que eu sou um rapaz de muito juizo.

O meu amigo Constando fez ponto final e olhou para mim.

— E que mais ?... perguntei.

— Por ora nada mais : deixarás o romance interrompido n'este ponto, e prometterás concluil-o na proxima Semana.

— Bem ; mas deves ao menos deixar esclarecido um ponto.

— O que?...

— A côr da bolsa de seda.

— N'essa não cahia eu : a côr de bolsa é o meu segredo ; ainda não estou casado, e emquanto não me casar não darei a ninguém os meios de descobrir quem é abella do meu sonho. Espera até amanhã, que é domingo.

— Mas tu contas demais com a tua perspicacia : como poderás descobrir no leilão de amanhã quem teceu a bolsa de seda, se os objectos offerecidos para o leilão não trazem — — os nomes das dignas senhoras que os offertão?...

— Tudo se sabe no mundo, meu caro : e a diligencia é a mãe da boa ventura. O que eu quero é ver a bolsa de seda no leilão de amanhã; mais fica por minha conta.

— Bem; mas vê que estás obrigado a dar-me a continuação e o desfecho d'este romance.

— Está subentendido.

— Tu o promettes ?...

— Palavra de honra! disse Constancio, estendendo theatralmente a mão direita.

— E quando ?...

— No dia e ás horas em que tiveres de começar a escrever a tua semana para o próoximo domingo.

— Excellentemente : sabbado ao meio-dia.

Sabbado ao meio-dia : conta commigo.

— — II No sabbado seguinte pelas onze horas da manhã já eu me achava ancioso esperando o meu amigo Constancio. Esperei inutilmente uma. hora, e dei um salto de alegria ouvindo o signal de meio-dia dado em uma egreja vizinha.

Era o momento aprazado.

— Até que emfim ! disse eu.

Soou a decima segunda dabalada, e appareceme vivo e alegre, como sempre, o meu amigo Constancio.

— O desfecho do romonce ?... grito correndo para elle.

— Sou um tolo, responde-me o pobre Constancio.

— Ah meu amigo ! o quo eu queria que me desses, era alguma novidade.

— Escuta : comprometti-me a contar-te o fim da minha aventura ; eis-me aqui ; mas não sei se já estou no meio d'ella.

— — — Seja como fôr, refere-me o que houve.

— Fui ao leilão, ou antes á exposição de domingo : corri, examinei um por um todos os objectos.

— E então?... que viste?...

— Nada, porque lá não se achava a minha suspirada bolsa de seda, : o meu anjo da caridade tinha adivinhado o meu plano, e não quiz expor a sua delicada obra : fiquei furioso, e vinguei-me fatiando contra a mesquinhez com que mal corresponderão aos esforços caridosos de tantas e tão respeitaveis senhoras.

— E depois?...

— Esperei até o fim da festa ; esperei ainda muito tempo, até que o porteiro da academia mostrou-me com toda a delicadeza a porta da rua, e sahi emfim ; mal tinha porém dado alguns passos, chega-se a mim uma pobre velha envolta n'uma mantilha. Eu estava de máo humor e voltei-lhe as costas.

— Compaixão, senhor ! uma esmola pelo amor de Deos ! Lembrei-me da minha desconhecida : metti a mão no bolso, e tirei uma moeda de prata.

A velha estendeu as mãos abrindo uma bolsa para receber a esmola.

Oh ! era a bolsa de seda. ! conheci-a immediatamente pela côr : era a minha bolsa ; agarrei-me a ella.

— — —A quem, homem ?... á velha ?...

— Não ; á bolsa.

— Ainda bem.

— Quanto quer por esta bolsa ?... donde lhe veio esta bolsa ?... quem a teceu ?... quem lh'a deu?... A velha ficou espantada o respondeu-me a tremer.

— Esta bolsa... foi uma senhora que me soccorre que a deu de presente a uma netinha que tenho.

— Pois eu a quero ; compro-a.

— Esto bolsa não se vende, disse a velha.

— N'esse caso tomo-a de graça.

— Oh ! se é assim, dê o senhor o que quizer por ella; mas olhe que não é vendida, é trocada, como uma reliquia.

Sem ser fidalgo, dei pela bolsa mais do que...

porém vamos adiante ; nada de má lingua.

— Como se chama, e onde mora a senhora que deu esta prenda á sua neta ?...

— Chama-se irmã dos pobres, segundo ella diz ; e deve morar certamente em alguma casa que ella não diz onde é.

— Estou na mesma : e a senhora onde mora?...

A velha disse-me o nome da rua e o numero da casa em que morava, e sumio-se ligeira como um coelho t— — Eu estava enthusiasmado : não conhecia ainda a bella mysteriosa ; mas pelo menos já possuía a bolsa de seda.

Corri para casa, e cheio de ardor, tendo nos olhos o fogo da felicidade, e no coração o anhelo da mais terna esperança, apresentei a bolsa de seda a minha mãe e a minha irmã.

— Então, que lhes dizia eu ? .. exclamei : tenho a bolsa ou não ?.., — Mas... que vale uma bolsa ?... perguntoume minha mãe.

— Essa agora é boa !... que vale uma bolsa ?...

pergunte ao mundo, minha mãe ! um homem que tem uma bolsa, tem o segredo da felicidade no amor.

— Vazia assim ?.. disse-me rindo e sacudindo com a bolsa minha irmã.

— Sacrilega ! exclamei.

— Entretanto, deve-se confessar que está bemfeitinha! continuou ella examinando ; eis aqui uma mancha...

— Foi dos meus beijos, acudi eu.

— Vejamos por dentro, proseguio minha irmã que é das Arábias, voltando a bolsa de dentro para fora.

Eu estava em êxtase.

— Oh !... exclamou ella soltando uma risada.

— Então que é isso ?...

— Constancio, perguntou-me a cruel moça ; -- a tua desconhecida é costureira de alguma casa de modas da rua do Ouvidor ? — Invejosa ! — Esta bolsa veio de Pariz : olha aqui no fundo a marca da casa da rua do Ouvidor.

Vi .. vi, e, cousa extraordinaria, não desmaiei ! tive n'aquelle momento pena de não ser mulher; se eu o fosse, teria arranjado um faniquito á proposito.

Emquanto minha mãe e minha irmã desfaziãose em risadas, sahi e corri desesperado á casa da velha de mantilha. Lembrava-me perfeitamente a rua e o numero ; cheguei deitando a alma pela boca fora, e... tenho vergonha de o o dizer...

— Então que foi !...

— O numero que a velha me tinha dado era de uma casa de vigesimos.

— Bravo ! logrado pela moça e pela velha... E depois?...

— Ah ! depois ? depois ! é que cinco dias inteiros fui victima das zombarias de minha terrivel irmã, que não cessa de ridiculisar a minha paixão e ainda mais a minha apaixonada ! — Pois tu ainda estás apaixonado ?...

— Sabbado passado estava até os olhos ; agora estou até os cabellos ! que queres ?... o homem é escravo da mulher que mais martyrios o faz soffrer.

— — — E ficou n'isso a historia?...

— Não : até aqui o ridiculo, até aqui o desespero, a raiva, e não sei que mais ; daqui por diante uma luzsinha de esperança.

— Accende-a depressa aos olhos dos meus leitores, Constancio.

— Fui durante a semana todas as noites á casa da familia pobre onde pela primeira vez encontrara a desconhecida : uma noite fui ás dez horas, outra ás nove, outra ás oito e outra ás sete, desde domingo até quinta-feira.

— E a bella mysteriosa?...

Foi todas essas noites também ; mas sempre sahia dez minutos antes da minha chegada, como se alguém a prevenisse d'ella ! além de formosa, porque o ha de ser por força, é ainda mais feiticeira !...

— Enganão-te n'essa casa também, Constancio: a desconhecida lá não tornou mais.

— Oh se tornou ! deixa sempre signaes da sua visita, disse Constancio, tirando um embrulho do bolso, disse: olha ! Olhei: Constancio desatou o embrulho que estava amarrado com uma fita verde ; vi cinco embrulhos mais pequenos : no primeiro estava escripto — Domingo.

— Eis aqui as petalas de uma rosa que na noite de domingo ella desfolhou ao pé da cama da velha. Aqui está no embrulho da segunda- - feira uma luvasinha de mão de creança que ella esqueceu sobre a cadeira ; no embrulho da terçafeira uma fita de sapato que se lhe rebentou no embrulho da quarta-feira tres alfinetes e uma agulha com que estivera tecendo ; e no da quinta-feira, emfim, um lencinho bordado, mas sem trazer marcadas as iniciaes do nome de sua dona, que é o que sinto.

— Ah Constancio ! d'esta vez embrulhaste-me a semana toda ! — E o mais é que a bella mysteriosa me conhece; fallou a meu respeito, disse o meu nome, o de minha mãe e de minha irmã, sabe onde moramos, e asseverou que me ama extremosamente desde muito tempo.

— Bravo ! e a bolsa de seda ?...

— Foi um mono que me pregou a velha de mantilha ; a bolsa de seda. ella apenas poude acabar na quinta-feira á noite, e confessou que a destina para a exposição de amanhã.

— Oh ! então, parabéns ! — Mas o peior é que ella teima em não dar-se a conhecer, e jura que eu nunca lhe verei o rosto: hontem logrou-me como se logra a um tolo ; ao mesmo tempo porém inflam-mou ainda mais as minhas esperanças.

— Conta-me isso.

Um dos filhos da pobre mulher a quem soccorremos, tem estado quasi não quasi a fazer -- viagem ; hontem fui fazer-lhe a rainha visita ás sete e meia horas da noite ; até então tinha lá ido ás sete, oito, nove, dez horas certas ; na sextafeira comecei a fazer as minhas visitas ás meias horas, a ver se me encontrava com a bella da bolsa de seda. Entrei, e logo pelo suave aroma que rescendia na sala, conheci que a desconhecida havia epouco d'alli sahíra; não me animei a perguntar por ella, porque vi a pobre mãe chegar á sala e entrar chorando na alcova, levando na cabeça uma bacia de pés com agua quasi fervendo.

— Que ha ? perguntei.

— O meu filhinho mais novo que acaba de cahir com o cholera.

Tive pena da triste mãe ; atirei com a casaca para um lado, arregacei as mangas da camisa e fui dar o escalda-pés á creança. O meu anjo da caridade tinha-me ensinado a ser caridoso.

A mãe resistio, e eu teimei e venci: já estava terminado o pediluvio, quando senti os passos de alguém que fugia : olhei para traz .. era a bella mysteriosa, que sahindo do interior da casa, desapparecia pela porta da rua, atirando sobre mim um papel.

Em mangas de camisa, como estava, não podia seguil-a pela rua ; apanhei o papel suspirando, emquanto a infeliz mãe envolvia o filhinho em colchas de lã.

-- O papel continha um cartuxinho com uma violeta, symbolo da modéstia, e duas linhas com lettras escriptas provavelmente com a mão esquerda, que dizião assim : « a caridade não se ostenta; por isso me escondo : tu me vês todos os dias, e não me reconheces, nem me has de reconhecer ; amas-me, e eu te amo. » Fiquei louco de alegria; não dormi toda a noite : fui obrigado a ouvir os gracejos e zom-barias de minha irmã desde o almoço até ás onze horas da manhã, e fiel á minha promessa ao meio-dia te appareci.

— Mas ficas ainda em divida.

— Sabbado espero pagar-te toda a minha conta.

— Excellentemente ! E amanhã ?...

— Amanhã terei a minha bolsa de seda, e não me fiarei mais em velhas de mantilha.

Dizendo isto, Constancio tomou o chapéo e sahio.

— — III Confiado na pontualidade do meu amigo Constancio, eu esperava pêlo sabbado ao meiodia para receber a continuação ou a conclusão do romance da Bolsa de seda, quando casualmente encontrei esse namorado da bella mysteriosa dous dias antes d'aquelle em que contava vêl-o apparecer.

Sabe-se que ultimamente alguns observadores curiosos da capital descobrirão no céo uma estrella brilhante áhora em que se parte o dia, e acharão n'esse facto uma novidade, que os encanta.

Uma autoridade competente declarou que a estrella que se via era o planeta Venus, e que não havia nada de extraordinário no pheno-meno;mas a despeito de tal declaração não diminuio o numero dos curiosos, que se entre-gão com vivo interesse á observação da estrella do meio-dia ().

() O facto, a que alludo n'este lugar, passou-se com effeito então no Rio de Janeiro.

— — E quinta-feira, ao dar o sino de S. Francisco de Paula o signal do meio-dia, passava eu pela Praga da Constituição, e eis que vejo uma columna cerrada de improvisados astrônomos de olhos fitos no céo.

Approximei-me, e qual não foi a minha surpreza, quando descobri no meio dos curiosos o meu amigo Constando ! Cheguei-me a elle e chamei-o ! tempo perdido!...

o rapaz estava com o juizo acima do mundo da lua.

— Diabo ! exclamou emfim; atrapalhaste-me no instante mesmo em que Venus começava a brincar com as meninas dos meus olhos ! — Constando ! pois assim te deixas prender pelos encantos de uma Venus que nunca ha de ser tua, e esquecendo talvez a bella mysteriosa?...

Apenas pronunciei as palavras bella mysteriosa, vi o meu amigo Constando mudar de feição e ficar assim com uma cara de noivo logrado, ministro demittido, candidato mamado, actor pateado, que vem tudo a dar na mesma cara, Comprehendi logo que o amante da bella mysteriosa tinha feito fiasco.

— Constancio, disse-lhe eu, adivinho que chegaste ao desfecho do teu romance.

Fez-me com a cabeça um signal affirmativo.

— — — Pois então faze de conta que hoje é sabbado, e vamos ao caso.

— Infandum, regina, jubes renovare...

Não o deixei acabar o verso de Virgilio.

— Tenho a tua palavra : paga-me o que me deves.

— Pois sim.... estou preso pela minha palavra... não ha remédio...

— Vamos a isso : que tens a dizer-me ?...

— Primeiro que tudo digo-te o que já te tenho dito dez vezes : sou um tolo ! — Sim ; mas tens consciência : é uma consolação ; porém a historia, a historia ?.., — Vaesrir... vaes zombar de mim ! — Como ?... pois a bella mysteriosa não disse á velha e depois não te escreveu n'um bilhete que te amava extremosamente ?...

— Disse, e até fallou a verdade.

— Pois que mais queres, coração insaciável ? Constancio soltou um suspiro magoado.

— Ah ! já sei : a tua bella mysteriosa é alguma velha feia, e...

— Ao contrario é moça, e bella.

— Já a viste ?...

— Vi-a sim ; e repito que é moça e bella.

— Mas desenxavida... pretenciosa...

— Também não ; é espirituosa e modesta.

— Então agora acertei: depois que a viste e a conheces, a tua razão, que é calculista como — — agiota, te esta de continuo cantando aos uvidos aquella velha cantiga que acaba assim : Casar com mulher sem dote é remar contra a maré.

_ Ainda te enganas : ella é tão rica como eu.

— Em tal caso dou as mãos á palmatoria, e confesso que não decifro o enigma.

Constando pensou um momento, e depois disse : — Visto que sempre terei de te contar o fim da historia, tanto faz hoje como sabbado.

— Digo-te que estás criando juizo, Constando.

— Passeiemos.

Dei-lhe o braço : começámos a passeiar e elle tomou logo a palavra.

— Creio que não preciso dizer-te que domingo não faltei á exposição dos objectos offerecidos pelas senhoras a favor da pobreza.

Eu ! eu, que estou habituado a levantar-me da cama ás dez horas do dia, fui domingo amanhecer á porta da Academia das Bellas Artes: jejuei até e pela primeira vez na minha vida, pois sahi de casa sem me lembrar de almoçar. O amor e a politica, tirando ambos igualmente o juizo ao homem, tem um notavel ponto de dissimilhança: o amor sacrifica a — — barriga ao coração, e a politica de muita gente é um sacrifício do coração á barriga.

— Não te afastes da questão principal, Constancio.

— Emfim !... estava lá ! ........ descobri finalmente a minha querida bolsa de seda entre os interessantes objectos expostos ! reconheci-a logo... immediatamente : era ella mesma, era a bolsa de seda ! — Que rapaz afortunado ! — Foi minha, e havia de sel-o por força ! eu teria preferido aquella simples bolsa de seda á propria Estrella do Sul, ou á Montanha da Luz ! — Parolas de namorado.

— Em uma palavra, achei-me de posse da minha bolsa de seda, e apenas a vi nas minhas mãos, esquecendo a exposição, e não querendo saber de mais nada, atirei-me para casa a galope.

— A galope ?. . penso que deves retirar a, expressão, Constancio.

— De modo nenhum : a palavra foi admitida ha alguns annos nos mais brilhantes salões; não havia ninguém que pretendesse as honras do grande tom, que não galopasse nos bailes; por consequencia, não retiro a expressão e repito, galopei.

— Perfeitamente ! — — — Entrei por nossa casa enthusiasmado e delirante, bradando : « eil-a aqui! eil-a aqui!... » minha mãe e minha irmã acudírão aos meus gritos ; mostrei-lhes a minha suspirada bolsa ; era de seda verde (tinha a côr da esperança e primorosamente trabalhada. Minha mãe achou-a perfeita , e minha irmã, depois de examinal-a cuidadosamente, depois de vi-ral-a e reviral-a umas poucas de vezes de dentro para fora e de fora para dentro, tornou-me a entregar a minha encantada bolsa de seda, contentando-se com fazer um bico).

— Um bico !...

— Sim, um momo : as moças quando, depois de examinarem uma obra, um trabalho devido á habilidade e delicadeza de outra moça, não lhe põem defeitos, e acabão fazendo simplesmente um bico, é porque não tem nada, nada absolutamente que dizer.

— Bravo ! és um novo La Bruyère.

— Eu tinha jurado não me separar mais nunca da bolsa de seda ; guardei-a pois junto do coração no bolso do peito da casaca.

— E foi muito justo que guardasses uma bolsa por cima do coração; porque o coração dos homens bate de ordinário por baixo da algibeira, e a algibeira não é cousa melhor do que uma bolsa.

— — — Estava emfim senhor da bolsa de seda faltava-me porém ainda saber quem era a bella mysteriosa: na exposição eu havia perguntado debalde e em vão procurado descobrir qual a senhora que tinha offerecido a bolsa de seda verde: perdi o meu tempo: ninguém sabia, ou ninguém me quiz responder. Não desanimei; no meu galope para casa delineei um plano admirável, que me devia fazer penetrar o segredo que me roubava e escondia o nome de minha apaixonada ; jurei a mim mesmo que antes da noite saberia o nome da bella mysteriosa, e decifraria a difficil charada ; mas de que se havião de lembrar minha mãe e minha irmã ! determinarão ir ver o balão aerostatico, e apezar de tudo quanto disse e das observações que fiz, teimarão e declarárão-me em estado de sitio por todo o resto do dia.

— Sim ; mas...

— Fomos ver o tal balão : ás horas achavamo-nos installados nos nossos logares da primeira ordem e o demoninho de minha irmã, que encontrou logo quatro ou cinco camaradas tão demoninhos como ella, ajuntou-se com ao amigas e, fallando todas a um tempo, disserãs cobras e lagartos contra a minha bella mysteriosa; mas eis que de repente cáe a estaca -- que suspendia o balão, fura-se este o povo grita e se amotinae... () _ — E ficas tu em disponibilidade e aproveitas a tarde.

— Qual! espera : no fervor d'aquella desordem, as moças assustão-se, e minha irmã com as suas amigas, tremendo e gritando, abração-se comigo.

— Feliz Constancio ! — Minha mãe ralha, e eu procuro socegal-as .... mas ellas não me deixão senão quando o ruido serena e o povo se resolve a retirar-se : emfin dou parabéns á minha fortuna ao verme de novo em casa; despeço-me de minha mãe, e vou sahir; lembro-me porém de minha bolsa de seda, e dáme vontade de beijal-a ainda uma vez : metto a mão no bolso, e...

— E o que?...

— Oh ! tinhão-me furtado a bolsa de seda ...

— Deveras ?...

— É como te digo : aproveitando a desordem que succedeu á catastrophe do balão, uma mão subtil furtou-me a bolsa de seda.! não sei como não morri de desespero ! — E com razão.

() Deixou com effeito de effectuar-se essa ascenção de um balão aerostatioo.em conseqüência do desarranjo, a que allude o romance.

— — — E queres saber quem foi que furtou a bolsa?...

— Quem ?...

— Foi ella.

— Ella? — Sim, a bella mysteriosa, ella mesma.

— Estás sonhando, Constando.

— Ora! ... deixou-me uma prova d'isso.

— Como ? — Furtando-me a minha querida bolsa, deixou em logar d'ella um bilhete escripto com uma lettra tão habilmente descaracterisada que nem o diabo seria capaz de adivinhar a mãosinha que o escreveu.

— E esse bilhete?...

— Continha estas breves palavras ; « Furto-te a bolsa de seda, que recorda as nossas loucuras, Uma barreira indestructivel nos separa. Adeus para sempre. D'oravante não serei mais a tua bellamysteriosa. » — E acabou-se a historia.

— Oh ! antes acabasse ahi ! ficaria ao menos sendo um bello sonho da minha vida.

— Pois continua ainda ?...

— Sim ; depois de reflectir um pouco, entendi que o bilhete era um novo logro que me estava preparado, e que a bella mysteriosa pretendia somente, tirando-rae a esperança de tornar a encontral-a, afastar-me da casa da familia po— — bre para ella poder ir lá a seu gosto ; determinei, portanto continuar a fazer tudo por vêl-a e conhecel-a.

— Mas, Constancio, tu já podes desconfiar de quem ella seja : olha, provavelmente quem te furtou a bolsa foi uma das moças que se abraçarão comtigo ; o bilhete falla em barreira indestructivel, o que quer dizer que a bella mysteriosa é casada, e por consequencia...

— Tudo isso pensei eu ; e por fim de contas lembrei-me de que todas as sujeitinhas que me abraçarão, andão doudas por achar marido, o que é o mesmo que dizer que todas ellas são solteiras.

— Continua a tua historia.

« — Com a minha idéa na cabeça, logo que anoiteceu parti para a casa da familia pobre : entrei e vi a velha e seus íilhinos chorando.

« — Que novidades ha ?... perguntei : o me nino perigou?...

« — Ao contrario, senhor, respondeu-me a velha ; está quasi bom, graças aos seus dous bemfeitores.

« — E então porque chorão ?...

« — Oh! senhor! é a nossa bemfeitora, é o nosso bom anjo, que hontem á noite nos fez as suas despedidas, e que não volta mais.

Senti andar-me a cabeça á roda : disse — — adeus á velha, e sahi; eu estava suffocado...

precisava de ar. » — Pobre Constancio ! — Os obstaculos accendião ainda mais a paixão que me devorava; era-me indispensavel tornar a encontrar-me com a bella. mysteriosa, com essa mulher singular, cujo véo eu quizera queimar com o fogo dos meus olhos, com essa mulher poética, romanesca, vaporosa que se fazia amar sem mostrar o rosto! De subito parei, e reflecti.

— Quem sabe?... disse comigo mesmo: quem sabe se as despedidas feitas á velha não são tão mentirosas como as do bilhetinho que me poz no bolso?... quem sabe se não é ainda o mesmo systema empregado para me arredar d'aquella casa? « Voltei para traz e então mais cauteloso, escolhendo as ruas c os beccos menos freqüentados, e por onde eu nunca passava, tornei a dirigir-me á casada família pobre.

« Quando me achei perto, approximei-me nas pontas dos pés... cheguei-me á rotula, que por signal abria-se para dentro, conforme o disposto nas posturas da camara municipal. » — Ora, Constancio!... que posturas tão sem pés nem cabeça!... esfriaste a narração com ellas.

— Tens razão : deita fora as posturas.

— — — Pois sim; mio façamos caso d'ellas...

também ninguém faz. Vamos á historia : tinhas chegado á rotula.

__ Cheguei... olhei para dentro... e vi...oh! — O que ? — Era ella !...

— Quem ?... a bella mysteriosa ?...

— Sim; não contava mais comigo, e tinha esquecido todas as precauções que costumava tomar. O seu véo estava deposto sobre uma cadeira ao pé da porta; e ella conversava com a velha, sentada com as costas voltadas para a rua.

— E tu?...

— Eu?... que pergunta! eu estava olhando, e por consequencia estava com a cara voltada para dentro.

— Não é isso : que fizeste ?...

— Primeiro tomei uma larga respiração...

depois empurrei a porta de repente, lancei-me para dentro, e apoderei-me do véo, bradando : — emfim!...

—E ella?...

— Soltou um grito de espanto... Voltou-se para ver quem era... esbarrou-se comigo... e...

— E... o que?...

— E desatou uma risada.

— Uma risada... então?...

— — — Sou um tolo !... sou um pedaço d'asno! — Mas emfim ella... quem era !...

— Era... sou um pateta!... confesso que sou um bobo!...

— Mas ella... ella...

— Era minha irmã.

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