Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Romances De Uma Velha Joaquim Manuel Macedo - Página 3  Voltar

Romances de uma Velha

Joaquim Manuel de Macedo

CENA XIV VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO e POLIDORO POLIDORO – Dois minutos antes da hora: o relógio do verdadeiro amor anda sempre adiantado. (A Braz.) Que faz aqui o dr. Augusto? BRAZ (A Polidoro.) – Também estou desconfiado: temo que a madrinha o queira tomar por advogado et coetera...

VIOLANTE (A Clemência) – Este nem caso fez da tua presença: reparaste? CLEMÊNCIA (A Violante) – Eu tenho a dilação, madrinha: lembra-se? CENA XV VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO, POLIDORO e LEOPOLDO LEOPOLDO – Duas horas: pontualidade inglesa; às ordens de vossa excelência!... (A Polidoro) Que significa a presença do dr. Augusto? POLIDORO (A Leopoldo) – Baldo ao naipe! estou in albis.

VIOLANTE – Senhores, agradeço tanta bondade; infringindo as conveniências e os costumes da sociedade, eu os emprazei para a mesma hora e o mesmo lugar a todos três.

POLIDORO – Três! LEOPOLDO (A Augusto) – O sr. doutor também? AUGUSTO (A Leopoldo) – Admira-se?...

VIOLANTE – Eu procedi assim, não para ofendê-los, mas porque tive para mim que os senhores pensavam somente em zombar de uma velha...

AUGUSTO – Perdão... eu protesto...

LEOPOLDO – Minha senhora... reitero a minha proposição...

POLIDORO – E eu também com o coração nos lábios...

VIOLANTE – Era o que desejava muito ouvir diante do meu afilhado e de minta sobrinha: obrigada! agora, e isto é irrevogável, mais três dias para que os senhores reflitam, e para que eu também assente na minha escolha; daqui a três dias pois, no 27 domingo, os senhores terão a complacência de vir jantar conosco, e no fim do jantar dirigirei o último brinde ao preferido. (Confusão e desapontamento dos três.) BRAZ – Talvez fosse melhor fazer o brinde da preferência antes do jantar.

CLEMÊNCIA – Não, titia: os dois infelizes perderiam o apetite.

VIOLANTE – Será como disse; e até domingo reservo-me o direito de absoluto recolhimento para mais tranqüila resolver sobre a escolha.

CLEMÊNCIA – Ao menos porém até o fim do sarau...

BRAZ – Ei-lo que termina a galope.

CENA XVI VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO, POLIDORO, LEOPOLDO, galopada geral; os pares invadem a varanda por todos os lados; LAURIANO arrebata Clemência; MÁRIO e IRENE galopam; CASIMIRO passa e volta galopando com uma jovem; ardor na dança. Augusto, Polidoro e Leopoldo cercam Violante.

BRAZ – Eu defendo a madrinha! não consinto que ela galope!...

FIM DO TERCEIRO ATO ATO IV Salão elegante, que abre ao fundo portas para a varanda, que se vê em parte; janelas ao lado esquerdo, abrindo para o jardim; portas ao lado direito.

CENA I CASIMIRO e PORFÍRIO PORFÍRIO – Isso não tem senso comum.

CASIMIRO – Digo-te que é um dever de honra, e um recurso para a felicidade da minha vida; seguindo teus conselhos, ofendi Irene, embora não ousasse deixar perceber a extrema e indigna proposição...

PORFÍRIO – Elas arrepiam-se muito no princípio, mas acabam por ceder; teima.

CASIMIRO – Não. Irene é um anjo de pureza, depois do que lhe disse, devo pedi-la em casamento; cumprirei o dever, e me farei ditoso.

PORFÍRIO – Irene tem dezoito anos; daqui a dezesseis anos terá trinta e quatro, e será ainda moça e bela; tu, então, contarás setenta, será inválido da pátria, posto fora do serviço ativo, e apesar teu contemplado na passiva.

CASIMIRO – Setenta anos!... não chego lá; quero passar em flores o resto da vida.

PORFÍRIO – Darás a Clemência madrasta dois anos mais moça.

CASIMIRO – Melhor; brincarão ambas como se fossem irmãs; elas são muito amigas; além disso... Clemência que trate de achar marido... já é tempo.

PORFÍRIO – E Mário? CASIMIRO – Conheço-lhe o caráter; é de gênio revoltoso, mas por fim obedece-me sempre; hei de convencê-lo a entrar para o seminário de S. José, os padres lazaristas deve ganhar muito.

PORFÍRIO – Estás desarrazoando.

CASIMIRO – Nunca tive tanto juízo; olha, tudo me anda às avessas: a Acrobata adoeceu de bexigas e adeus amores! é pena: o ladrão da rapariga arrebatava! a mana Violante está doida, e quer casar; adeus herança! Eu ganho suficientemente no comércio 28 para manter com decência e algum luxo a minha família; e até para capitalizar dois a três contos de réis por ano; mas a paixão pelo belo sexo traz-me sempre a bolsa rasa, e cria-me dificuldades. Irene é pois um sábio recurso; com os seus encantos me fará esquecer todas as Acrobatas, me consolará do casamento de Violante, e me tornará caseiro, circunspecto, grave, econômico e feliz; não achas? PORFÍRIO – Acho que é uma grande asneira.

CENA II CASIMIRO, PORFÍRIO, BRAZ que entra pelo fundo.

BRAZ – Qual é a asneira? são tantas! agora serão pelo menos duas.

PORFÍRIO – Que lhe importa? nós nunca podemos estar de acordo.

CASIMIRO – Ao contrário, estou certo que desta vez o Braz me apoiará.

PORFÍRIO – Entende-te pois com ele. (Indo-se) CASIMIRO – Espera: não tarda o jantar...

PORFÍRIO – Com o Braz à mesa a indigestão é infalível. (Vai-se) BRAZ – Efeito do molho, tens medo da mostarda et coetera.

CENA III CASIMIRO e BRAZ CASIMIRO – Quero os teus conselhos; prometes ouvir-me e falar-me seriamente? BRAZ – Conforme: eu canto segundo o gênero e o caráter da música.

CASIMIRO – Estou cansado de fazer loucuras impróprias da minha idade; ontem fiz a última.

BRAZ – Veremos, qual foi a última? CASIMIRO – Direi depois; faço-te uma confidência de irmão: eu amo Irene...

BRAZ – Ainda hoje? CASIMIRO – Hoje mil vezes mais.

BRAZ – Ah! de que data é a tua última loucura? CASIMIRO – De ontem; já to disse.

BRAZ – Ah! et coetera; continua.

CASIMIRO – Amo Irene, mas ontem... eis a loucura... falei-lhe de um modo de que ela justamente se ofendeu... fui insensato... grosseiro...

BRAZ – Até aí muito bem pela conclusão, e Irene? CASIMIRO – Tratou-me com o desprezo mais esmagador.

BRAZ – E tu? CASIMIRO – Choro o meu arrependimento, e adoro-a perdidamente; sem Irene continuarei a ser o que tenho sido; com Irene me corrigirei e serei feliz; e tendo-a...

des.... des... desconsiderado um pouco... entendo que o dever por um lado e o amor pelo outro me ordenam...

BRAZ – A pedi-la em casamento et coetera.

CASIMIRO – Essas tuas et coetera me apoquentam...

BRAZ – Não faças caso; é costume: porém... essa idéia de casamento na tua idade, e no teu estado...

CASIMIRO – Esquece essas circunstâncias, e, abstração feita, aconselha-me.

BRAZ – Ah! abstração feita, aprovo unanimente.

CASIMIRO – Não zombas comigo? BRAZ – De modo nenhum; postas de lado aquelas circunstâncias et coetera, 29 aprova-se por força o teu projeto.

CASIMIRO – Falas sério, Braz? BRAZ – Não vês? abstração feita...

CASIMIRO – Então... é o caso de me prestares o maior favor; Irene está arrufada... se te quisesse encarregar de falar-lhe... de convencê-la...

BRAZ – Encarrego-me, conta comigo; mas... atende, casamento de velho com menina é fazê-lo de improviso, ou falha.

CASIMIRO – Eu não me sinto velho; concordo, porém, e se fosse possível...

amanhã mesmo...

BRAZ – Amanhã é impossível, Casimiro; há muita obra a fazer; primeiro alcançar a palavra de Irene, depois obter todas as dispensas na Conceição; tomo tudo a mim; se é que não estás abusando da minha simplicidade, basta que assines os papéis que logo te darei...

CASIMIRO – És meu irmão adotivo, não deves iludir-me, não podes gracejar em tão grave assunto...

BRAZ – Sou teu irmão adotivo, lembraste-o bem; farei por tua felicidade e por tua reputação mais do que esperavas em mim.

CASIMIRO – Braz! meu Braz! BRAZ – Deixa para depois os agradecimentos; estou tomando gosto à negociação e ao serviço de que me encarregas pela mais interessante coincidência...

CASIMIRO – Que coincidência? BRAZ – No domingo a madrinha proclama o seu casamento, e no mesmo dia poderás realizar o teu; mas... tu sabes, a alma do negócio é o segredo, e neste gênero de negócios...

CASIMIRO – Principalmente; ninguém me ouvirá palavra, confio em ti, farás tudo. Quanto à coincidência... se pudesses também convencer Violante de que não lhe está bem casar-se na sua idade... de que o ridículo, a murmuração de todos... o mal que faz a seus parentes...

BRAZ – No coração de uma velha o badalo do casamento soa mais forte que o bombo em música de timbaleiros; não há esperança: lasciate ogni speranza; a velha entra por força a porta do inferno.

CASIMIRO – Aí chega ela... eu vou passear pelo jardim... Violante me irrita com a sua mania: já brigamos hoje, é melhor sair...

CENA IV BRAZ e VIOLANTE VIOLANTE(A Casimiro) – Pode voltar-me as costas quantas vezes quiser! agradeço-lhe a sua ausência...

BRAZ – Madrinha! VIOLANTE – Pois não! tenho passado o dia em uma roda-viva; que tem ele de opor-se ao meu casamento? BRAZ – Mas... eu não a julgava com tanto talento para a zombaria! tem tocado o sublime...

VIOLANTE – Por fim de contas... não tornes a falar-me assim... tenho uma idéia a ferver-me na cabeça... mandei-te chamar por isso.

BRAZ – Desde ontem à noite que a madrinha me está logogrifando com a idéia que lhe ferve na cabeça; ainda bem que me mandou chamar: às ordens! VIOLANTE – Como te direi, Braz? tu és quase meu filho, atende-me e aconselha-me; mas... não olhes para mim com esses olhos espantados... por fim de 30 contas meteste-me a brincar com fogo... por um lado só a idéia do meu casamento pôs em fúria Casimiro contra mim, e me deu a mostra do pano, e do que devo esperar destes meus parentes; por outro lado, três moços bonitos, amáveis e cada qual mais extremoso, se oferecem a proteger e aditar meus últimos anos.

BRAZ – Madrinha... o que está dizendo... por quem é... uma senhora de tanto juízo... (Mudando de tom) bravo, madrinha! admirável!... até a mim própria iludia! representa perfeitamente! VIOLANTE – Mas não há ilusão... é a idéia que me está fervendo na cabeça...

BRAZ – Estupendo! é de arrebatar! bravo, madrinha! VIOLANTE – Pior! queres fazer-me perder a paciência? principias a faltar-me ao respeito!..

BRAZ – Como?... pois não é graça, madrinha? VIOLANTE – Meu Braz, se eu não me casar, que contarei deste mundo no outro? e por fim de contas quem pode assegurar que eu não seja amada por meu marido? e ainda não amada, ele pelo menos fingirá amar-me, e há de cercar-me de cuidados para que eu lhe deixe toda minha fortuna: esse fingimento me fará feliz...

BRAZ – Et coetera... et coetera...

VIOLANTE – Não entendo.

BRAZ – Naturalmente: et coetera é grego; mas tem sua eloqüência nestes casos.

VIOLANTE – Eu não pensava nestas coisas; tu me expusestes ao fogo... criaste a hipótese... fizeste-me desejar a realidade, oferencendo-ma ou mostrando-ma de perto!...

Braz, a gente não é de ferro...

BRAZ – Ah, madrinha! a serpente não pensou que houvesse tentação para a Eva de sessenta e dois anos! sou o maior tolo do Brasil! VIOLANTE – Reprovas também?...

BRAZ – Não digo isso... mas reflita por algumas semanas antes de se decidir...

madrinha... a sua idade...

VIOLANTE – Não vem ao caso; com os anos que tenho, achei de uma vez três pretendentes à minha mão; parte deste princípio e raciocina.

BRAZ – Partindo desse princípio, não há que raciocinar: é casar et coetera.

VIOLANTE – Pretendes meter-me à bulha? BRAZ – Qual! tenho visto disparates maiores; exemplo: o do... o da... o de... não acho agora exemplo; mas sem dúvida haverá muitos; a madrinha quer casar? aprovo; conte comigo em tudo, por tudo e para tudo.

VIOLANTE – Eu contava tanto com os teus epigramas como com a tua dedicação.

Agora quero de ti um favor: preciso que até amanhã à noite, me tragas informações miúdas e completas sobre os meus três pretendentes.

BRAZ – Honradíssimos e desinteressadíssimos jovens: iguaizinhos todos três.

VIOLANTE – A tua voz tem um tom de ironia...

BRAZ – Não, senhora; apenas falei em grifo, como diz certo amigo; vá descansar, madrinha; amanhã lhe trarei o relatório das virtudes e das hipotéticas fraquezas daqueles três primores... serei leal, como sempre; vá descansar.

VIOLANTE – Sim, e preciso bem; desde ontem que não durmo... sinto uns abalos no coração...

BRAZ – Vá dormir sossegada; o seu casamento se fará et coetera... et coetera.

VIOLANTE – Tu és trigo sem joio. (Vai-se) CENA V BRAZ e CLEMÊNCIA 31 BRAZ (Acena para dentro chamando) – Psiu! psiu! CLEMÊNCIA (Dando-lhe a mão) – Como passou? BRAZ – Melhor do que merecia; falemos com algum cuidado... (Observando) CLEMÊNCIA – Que há? BRAZ – Virei de bordo e venho bater bandeiras; abandonei o partido da madrinha e passo-me para o seu; não se admire, porque isto é trivial.

CLEMÊNCIA – Na minha questão com a titia dispenso absolutamente o seu apoio.

BRAZ – Dê forte, que bem o mereço; mas o caso tornou-se grave; na sua família manifestou-se a loucura contagiosa; é para fazer medo! não me espantaria se hoje ou amanhã a senhora se dirigisse à minha casa para pedir-me em casamento.

CLEMÊNCIA – Tranqüilize-se.

BRAZ – Não posso, porque esse é o caráter da epidemia; escute, guarde segredo e auxilie-me em seu próprio interesse; seu pai incumbiu-me de pedir para ele a menina Irene em casamento.

CLEMÊNCIA – É possível?!!! vou contar a Mário.

BRAZ – Deitaria tudo a perder.

CLEMÊNCIA – Meu pai então está doido? BRAZ – Se a moléstia é reinante! CLEMÊNCIA – Tem razão... gosto de Irene; mas se meu pai ma desse por madrasta... sim... era caso de correr a sua casa a pedi-lo em casamento... é demais! BRAZ - Não se encolerize; ouça o que mais me ataranta: a madrinha, que instigada por mim fizera a famosa aposta com o único fim de castigar um pouco a sua vaidade, e de ensiná-la a conhecer a torpeza de certos homens, tomou gosto ao brinquedo e quer deveras casar-se.

CLEMÊNCIA – O senhor está gracejando.

BRAZ – O que eu estou é em brasas.

CLEMÊNCIA – Não... a titia diverte-se com os três ambiciosos, e dá-me boa lição...

BRAZ – Falo-lhe como amigo, e membro adotivo da sua família...

CLEMÊNCIA – Mas a titia quer fazer mal a todos nós, expondo-se a muito maior mal?... isso me aflige realmente.

BRAZ – Eis aí pois dois casos de loucura; sou, por felicidade, o confidente da madrinha, e o corretor da negociação casamenteira de Casimiro, mas preciso de auxiliares.

CLEMÊNCIA – Que posso eu fazer? BRAZ – Muito, conforme as circunstâncias; na questão paterna há de facilitarme hoje mesmo uma conferência com Irene; mas nem de leve indiciará que a não quer por madrasta.

CLEMÊNCIA – Convém prevenir...

BRAZ – Deseja mais um doido na história? a senhora é homeopata, espera curar pelos semelhantes.

CLEMÊNCIA – Farei o que me ordenar.

BRAZ – Quanto à madrinha, estou ainda a ver navios; velha com esperança de casamento é mais teimosa que um galo da Índia a brigar; não sei que faça; a senhora, porém, descobriu um recurso, que me pode servir.

CLEMÊNCIA – Qual! estou aniquilada...

BRAZ – Deixe-se de fingimentos; pediu uma dilatação de três dias; para que? preciso saber tudo.

CLEMÊNCIA – Apelação de condenada; mme. Dubarry com o pescoço na 32 guilhotina dizia ainda ao algoz: “un petit moment, monsieur le baourreau!” BRAZ – Desconfia de mim, não é? CLEMÊNCIA – Desconfio: só tenho um recurso, espere por ele, e vá laborando, como puder, contra a loucura da titia, se é que não veio armar-me uma cilada.

BRAZ – Não tenho direito de protestar... ao menos porém trabalhemos de acordo; eu creio... mas o meu ouvido é ótimo (Baixo) são pisadas de velha; ela pode dispor de si! se fosse pobre, vocês haviam de empurrá-la! (Baixo) não faça caso: (Alto) esta oposição é pelo receio de perder a herança, com que calculavam! (Baixo) ataqueme de rijo: (Alto) a madrinha não precisa de tutores! (Baixo) proteste.

CLEMÊNCIA – Pois que se case... sentirá as conseqüências...

BRAZ – Et coetera.

CENA VI BRAZ, CLEMÊNCIA e VIOLANTE, que viera chegando VIOLANTE – A senhora também pretende por-me impedimentos? CLEMÊNCIA – Não, senhora; case-se, e há de ver o que a espera; por mim já tive o que desejava, a dilação de três dias.

VIOLANTE – Que me importa a dilação? agora o caso é sério e nele só o Braz goza a minha plena confiança.

CLEMÊNCIA – Mas eu não prescindo da aposta.

VIOLANTE – Já ganhei-a, e vou deixar-te para tua consolação dois infelizes, como desprezados despojos do meu triunfo.

BRAZ (A Clemência) – Caráter da loucura epidêmica; não apuro as coisas.

(Alto) É o que eu dizia: a madrinha vencerá, casará, e, celebrado o casamento, haverá festa, banquete, glória, et coetera, et coetera.

VIOLANTE – Ah, meu Braz! CENA VII BRAZ, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e MÁRIO MÁRIO – Revolução a consumar-se! CLEMÊNCIA – Que temos? MÁRIO – Sou outro, porque vou ser outro; decididamente quebrei com o meu passado: quebrei e era de razão; não era? tenho vergonha do que fui...

CLEMÊNCIA – Mário, tu nos assustas, que é que foste? MÁRIO – Um vadio, o escândalo da sociedade, um traste sem préstimo; tenho vergonha... não é de razão? o que me abriu os olhos foi o sopro de um anjo.

BRAZ – Explica-te, relâmpago! MÁRIO – Há uma hora que Irene me disse: “Juras amar-me e que me queres por esposa: em que te ocupas? qual o trabalho de que tirarás o pão para me sustentar?...” Olhei ao redor de mim e dentro de mim, por fora e por dentro achei-me no vácuo! Palavra de honra, tenho sido um vadio descomunal! não tenho? se são capazes digam em que me ocupo... digam... digam!...

BRAZ – Em trocar as pernas: é ocupação de muitos outros, como tu.

MÁRIO – Não as trocarei mais: Irene fez-me ver a verdade com a luz do amor.

BRAZ – Pois é raro que essa luz mostre assim as coisas.

MÁRIO – Virtude da fonte lucífera; as Irene também são raras o caso é que consumou-se a revolução; sou outro, porque vou ser outro, e não vendo hoje mesmo Hipogrifo, porque Irene mo proibiu.

33 BRAZ – Nisso ela errou: conservando Hipogrifo, ainda podes desencabrestar.

MÁRIO – Não tenha medo: quero estabelecer-me, trabalhar e enriquecer.

VIOLANTE – A resolução é ótima: que calculas ser?...

MÁRIO – Se eu pudesse, seria banqueiro; mas falta-me a matéria prima; não tenho riqueza... não tenho fundos...

BRAZ – Que asneira, Mário! para ser banqueiro basta o dinheiro dos outros.

MÁRIO – Quero um mister decente: arranjam-mo? vejam se mo arranjam, e cuidado comigo, que adoro os extremos; olhem, que sou capaz de ir quebrar pedras, ou de mostrar-me puxando uma carroça d’água.

BRAZ – E não te vexarias? MÁRIO – Eu, vexar-me? chapéu desabado à cabeça, blusa a operário francês, calças grossas a ilhéu, sapatões ferrados a italiano, puxando o burro preso à carroça, erguerei orgulhoso a fronte ao passar diante das janelas de Irene, porque, vendo-me assim, Irene dirá: “É por mim!” VIOLANTE – E nós? e o nosso vexame? MÁRIO – Pois arranjem-me um mister mais decente: eu declaro que estou decidido, sou outro, porque vou ser outro, consumou-se a revolução.

BRAZ – Mas onde tens o capital para comprar dois burros pelo menos, a carroça e os barris?...

VIOLANTE – Para isso não te empresto dinheiro, não contes comigo por fim de contas.

MÁRIO – Nem eu preciso, vendo Hipogrifo: dois contos de reis... é querer.

CLEMÊNCIA – Nunca serás aguadeiro... seria um opróbrio...

MÁRIO – Opróbrio é ser vadio; arranjem-me ocupação mais decente e mais rendosa... concedo oito dias às vaidades de família...

CLEMÊNCIA – Papai trata de obter para ti um emprego público.

MÁRIO – Rejeito in limine, por duas razões: primeira, quero estar em oposição muito independente a todos os ministérios; segunda, um aguadeiro ganha mais do que os empregados públicos de escala superior.

BRAZ – Abaixo o aguadeiro! ofereço-te a administração duma pequena fazenda de café com cinqüenta escravos sob a condição de metade nos lucros.

CLEMÊNCIA – Excelente! VIOLANTE – Que fazenda é essa, Braz? suponho que não será a minha.

MÁRIO – Também não aceito.

BRAZ – Então és incontestável.

MÁRIO – Não caio nessa; fora da cidade só casado com Irene.

VOZES (Dentro) – Mário!... Mário! Mário!...

CENA VIII BRAZ, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, MÁRIO e CASIMIRO CASIMIRO – Mário, aí estão à porta dez ou doze cavaleiros teus amigos...

bradam por ti... não ouves? VOZES (Dentro) – Mário! Mário! MÁRIO – Passeio oficial de sportemen... parece extraordinário e singular em S.

Cristóvão... (Luta interior) tentação diabólica... eu tinha dado a minha palavra! VOZES (Dentro) – Mário! Mário! MÁRIO – Hipogrifo a brilhar... vou... não vou... (Vai e volta) CASIMIRO – Há de ir... deves cumprir a tua palavra...

MÁRIO – Sou outro, porque vou ser outro... consumou-se a revolução... não 34 vou! VOZES (Dentro: batem com os açoites nas janelas) – Mário! mandrião! vem! MÁRIO (Correndo à janela) – Relache par indisposition: Hipogrifo constipou-se.

FIM DO QUARTO ATO ATO V A mesma sala do ato quarto CENA I CLEMÊNCIA e BRAZ, que chega BRAZ (Grande cumprimento) – É de mestra!... agora, aconteça o que acontecer, não vá pedir-me em casamento; porque se arrisca à negativa certa.

CLEMÊNCIA – Tão feia ou má sou eu? BRAZ – Nem feia, nem má; é porém um demoninho de arteira.

CLEMÊNCIA – Veremos nos resultados do artifício. Aqui todos guardam segredo: lembre-se que anteontem se declarou do meu partido...

BRAZ – Bati bandeiras aos seus pés, estou rendido, hoje mil vezes mais.

CLEMÊNCIA – Eu o esperava ansiosa para assegurar-me da sua discrição...

BRAZ – Beijo-lhe as mãozinhas pela dúvida.

CLEMÊNCIA – Agora... desculpe-me... devo completar o meu toilette...

BRAZ – Bata as asas e voa já ao paraíso do espelho. (Vai-se Clemência) CENA II BRAZ e CASIMIRO CASIMIRO – Braz... Braz... então?... falaste-lhe de novo?...

BRAZ – Tranqüiliza-te, Casimiro! estás que pareces desvairado! para mim são favas contadas; anteontem falei-lhe pela primeira vez e sabes já que houve trovoada e chuva; isto é, rugidos de cólera e lágrimas de dor...

CASIMIRO – Coitadinha! BRAZ – Ontem de novo ataquei a fortaleza, e, como te disse, Irene defendeu-se com reticências... monossílabos... e enfim com um “saberá mais tarde” assobiado a tremer, que me fez ficar sabendo mais cedo...

CASIMIRO – Confia talvez demais na minha felicidade...

BRAZ – Tão seguro estou de conseguir o meu fim, que, obtida a permissão da mãe e do irmão de Irene, já alcancei todas as dispensas admissíveis para o casamento... em poucos dias teremos a boda.

CASIMIRO – Excelente amigo!... mas hoje?... tornaste a falar-lhe?...

BRAZ – Não há duas horas; Irene é como todas as moças; está morrendo por casar; mas faz-se de boa para ser muito rogada; insisti na história, e ela sorriu-se vaidosa... corou... vês?... foi como se começasse dizendo; “eu...” e pontinhos: depois suspirou... vês?... foi como se acabasse dizendo: “quero” com ponto final et coetera.

CASIMIRO – Mas... como, suspirou... isso já e muito, e todavia... pode não ser coisa alguma.

BRAZ – Enganas-te: isso é sempre alguma coisa. Irene caiu no laço; juro-te que desde dois dias o seu olhar, a sua fisionomia, os seus enleios, a sua respiração muitas 35 vezes comprimida, estão denunciando noiva.

CASIMIRO – É verdade que ela ontem falou-me com uma perturbação...

BRAZ – Queres mais claro? CASIMIRO – Eu queria... o sim decisivo...

BRAZ – Também eu quis, pedi-o, e exigi-o ainda há pouco.

CASIMIRO – E ela?...

BRAZ – Quis falar... hesitou... apertou-me a mão, feliz Casimiro! e enfim, depois de muita confusão... rosas de pejo nas faces... agitação palpitante do seio, et coetera, afortunado Casimiro! ela murmurou a custo: “Poupe-me ainda... farei por chegar um pouco cedo para o banquete de dª. Violante... e lá... se nos acharmos sós... o senhor me ouvirá... e ficará contente de mim.” CASIMIRO – Oh! ela disse isso? que tu ficarias contente dela?... então é certa a minha dita, Braz! é a conseqüência...

BRAZ – Lógica, está claríssimo: o contrário fora absurdo et coetera; e por essa razão corri a esperá-la aqui; entendi-me com o irmão, que as acompanhará até a escada da varanda, e voltará depois.

CASIMIRO – Ah, meu Braz! BRAZ – Traduzo ou interpreto: desejas ouvir a minha conferência com Irene.

CASIMIRO – Se fosse possível...

BRAZ – Vaidoso! vaidoso! é uma traição que a tua noiva me agradecerá; quando ela chegar, entra no teu gabinete, e da porta entreaberta ouvirás tudo. Feliz Casimiro! eu ponho-me de sentinela. (Na janela) CASIMIRO – Muito padece quem ama! BRAZ (A janela) – Com efeito um amor assim fora de tempo deve andar aos tombos pelas rugas do coração; mas a madrinha, que é oito anos mais velha do que nós, mostrou-te o caminho do casamento...

CASIMIRO – Que doida! que velha ridícula! BRAZ – Desta vez é a madrinha que traz nos olhos a trave; mas o argueiro que está nos teus é de um tamanho colossal...

CASIMIRO – Eu sinto verdadeiro amor...

BRAZ – Também a madrinha diz que o sente; é questão de mais ou menos cabelos brancos nos dois amores... mas... Irene chega... como vem formosa! afortunado Casimiro! ao gabinete, perverso.

CASIMIRO (Entrando) – Conversa de modo que eu ouça distintamente.

BRAZ – Podes contar com isso: conversarei fortíssimo.

CENA III BRAZ, IRENE e CASIMIRO no gabinete BRAZ – Minha senhora, dou parabéns à minha fortuna, pois que a madrinha e dª. Clemência ainda estão aprimorando os seus toilettes, e Casimiro e Mário provavelmente mostrando os seus.

IRENE – A fortuna de que fala é determinada pelo cruel dever de dar-lhe contas de mim ... compreendo que me cumpre falar, explicar-me, responder-lhe... mas custame...

o vexame atormenta-me...

BRAZ – Na minha qualidade de homem é evidente que tenho menos vergonha e rompo a discussão, começando pelo fim, o que é mais em regra. Casimiro a adora; a sua mão de esposa vai aditar-me... uma só palavra sua resumirá mil discursos; diga – sim – , e está acabada não, mas principiada a história, e que história? et coetera.

IRENE – Devo ser franca: o sr. Casimiro está adiantado em anos e eu sou quase 36 menina; poderia sentir por ele somente amor filial; como lhe consagrarei amor de noiva? o nosso casamento seria muito desigual, e ainda isso é o menos.

BRAZ – Caio das alturas: pois há mais?... tenha a bondade de chegar-se para mim, que sou um pouco surdo (Perto do gabinete) pois há mais? IRENE – Há: disse que ele é demasiado velho para uma noiva de dezoito anos...

tem três idades minhas.

BRAZ – Como?... esta surdez martiriza-me...

IRENE (Mais alto) – O sr. Casimiro tem três idades minhas.

BRAZ – Ah! isso é o menos: o que é o mais?...

IRENE – Pois que é necessário dizê-lo... confesso-o... eu já sou amada... e...

amo...

BRAZ – Como?...

IRENE (Mais alto) – Já sou ... e amo...

BRAZ – Ah! essa circunstância... bilateral é bilateralmente grave.

IRENE – E ainda mais...

BRAZ – Mais?... então é o infinito na desgraça de Casimiro... estou caído das alturas et coetera! IRENE – Não é o infinito, mas é o impossível moral e absoluto...

BRAZ – Que ilusão a minha! e eu que contava... mas então...

IRENE – O homem por quem sou amada, aquele que amo... sr. Braz...

BRAZ – Querem ver que sou eu...

IRENE – É... Mário... o filho do sr. Casimiro...

CENA IV BRAZ, IRENE, CASIMIRO no gabinete e MÁRIO, no fundo BRAZ – Como? esta surdez é o diabo.

IRENE (Alto) – O homem por quem sou amada... aquele que amo... é Mário...

BRAZ – Mário? a atrapalhação é séria; porém...Mário é um estróina.

IRENE – Tem o mais nobre coração... é jovem e belo; eu o amo...o seu defeito era a ociosidade... ama-me porém ternamente... (Abre-se a porta do gabinete; Casimiro com os traços decompostos; Mário ao fundo entusiasmado) eu conseguirei corrigi-la... e pelo encanto... pela pureza e santidade do nosso amor levá-lo a trabalhar, a ser útil a si, à sociedade, e a esquecer entretenimentos vãos. (Casimiro sai arrebatado ao mesmo tempo que Mário avança) MÁRIO – Prova! acabo de vender Hipogrifo. (Confusão de Casimiro) IRENE – Ah! meu Deus! BRAZ (A Casimiro) – Contém-te, Mário chegou apenas a poucos momentos, e nada ouviu sobre tuas loucas pretensões... é indispensável que ele as ignore sempre.

CASIMIRO (A Braz) – Mas como está desmoralizada a mocidade! (A Irene) Minha senhora.

IRENE – Sr... Casimiro...

CASIMIRO – Peço perdão...entrei precipitado...

MÁRIO – Foi a mais feliz surpresa, meu pai.

CASIMIRO – Impertinente! sempre desassisado...

MÁRIO – Porque vendi Hipogrifo? dois contos para raiz de fortuna abençoada pelo amor de um anjo.

BRAZ – Adorável estróina, Deus te abençoe.

IRENE – Eu me confundo... e preferiria ir ver as senhoras.

CASIMIRO (A Mário) – Não compreendes que és inconveniente? 37 MÁRIO – Pois há mal no que disse?... meu pai, amo dª. Irene, ela ama-me; logo nos amamos; eu era um vadio, agora vou trabalhar; prova de juízo, vendo Hipogrifo; o que falta só é que meu pai aprove o que falta.

CASIMIRO (A Braz) – Que lição cruel, malvado! BRAZ (A Casimiro) – Deixa-te de tingir os cabelos; resigna-te à reforma de namorado et coetera, e sabe ser feliz pela felicidade de teus filhos.

CENA V BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, VIOLANTE e CLEMÊNCIA VIOLANTE – Mil agradecimentos, dª. Irene, por ter vindo honrar o nosso jantar, que será o do meu noivado.

IRENE – Renovo-lhe os meus parabéns, minha senhora; e o seu noivado quando será, dª. Clemência?! espero ser convidada.

CLEMÊNCIA – Fiz dois votos: o primeiro para que nós duas tenhamos as nossas bodas no mesmo dia; o segundo, para que a titia assista a elas ainda solteira e sem noivo.

VIOLANTE – Esta pobre invejosa não passa de praguenta amalucada: a minha dita lhe tira o sono e faz delirar; em parte devo desculpá-la: o meu casamento, dª. Irene, foi resolvido pelas linhas tortas com que Deus costuma escrever direito; principiou por brinquedo de aposta, e vai acabar em coisa séria. Ah! se eu lhe contasse toda a história...

mas... bem vê que por fim de contas há no nosso sexo certas revoltas do pudor...

IRENE – Oh!... sem dúvida...

BRAZ – E com todas essas revoltas a madrinha casa-se por fim de contas et coetera! CLEMÊNCIA – Quem sabe? eu hei de ver para crer...

VIOLANTE – O que pretendes é perturbar-me o espírito com temores vãos...

ficaste vencida! CLEMÊNCIA – Confesso; mas espero ficar sem vencedora. (Impaciência de Violante) titia, a que horas devem chegar os seus três pretendentes? VIOLANTE – Às quatro horas precisas (Consulta o relógio) são apenas três...

ainda tenho de esperar um século! CLEMÊNCIA – E em uma hora transforma-se o mundo. (A Braz) Estou com medo...

BRAZ (A Clemência) – E eu não; confio muito nas misérias humanas.

CENA VI BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e um criado, que apresenta em uma salva de prata uma carta a Violante e retira-se VIOLANTE (A Clemência.) – Vê de quem é essa carta e o que contém.

CLEMÊNCIA (Abre e lê.) – Oh! CASIMIRO – Que é? CLEMÊNCIA (Lendo.) – “Minha senhora: cedendo, a meu pesar, a circunstâncias imperiosas, sou obrigado a desistir das minhas pretensões à mão veneranda de v. exa.; se, porém, o destino não me permite ser esposo, serei ao menos sempre de v. exa. o mais humilde criado... dr. Augusto de Melo.” CASIMIRO – E esta? VIOLANTE – É falso! Como não sei ler, a maldita invejosa abusa da minha ignorância. (Toma a carta e dá-a a Braz.) Braz, lê tu esta carta por fim de contas.

38 BRAZ (Depois de ler para si.) – Tal e qual, madrinha! E a letra e a firma são do dr. Augusto. Custa a crer... mas este... foi-se! et coetera.

VIOLANTE (Dissimulando mal.) – Por fim de contas, era esse o que menos me agradava dos três.

CLEMÊNCIA – Ah, titia!...

VIOLANTE (Com força.) – Ainda tenho dois.

CENA VII BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta segunda carta a Violante e vai-se.

MÁRIO – Este criado tem cara de correio de más novas.

VIOLANTE (Confusa dá a carta a Braz.) – Lê tu, meu Braz; lê porém direito...

BRAZ (Abre a carta e lê.) – Et coetera!!! “Excelentíssima: tendo empregado três dias em refletir, como v. exa. me ordenou, cheguei à triste convicção de que me cumpre declarar com o mais profundo respeito e dor acerba que dou o dito por não dito, e sou de v. exa. o servo mais dedicado. – Leopoldo Pereira.” Li muito direito: a madrinha quer arquivar a carta? (Apresentando-a.) VIOLANTE – Deita fora esse papel sujo! CLEMÊNCIA – A titia deve ter paciência, como eu tive...

VIOLANTE – Não me fales!... ainda me ficou o melhor dos três... por fim de contas o mesmo que eu estava resolvida a preferir... (Senta-se agitada e abana-se forte.) IRENE – Mas de que modo se explica semelhante procedimento? VIOLANTE – Juro que são intrigas desta pombinha sem fel! (Mostra Clemência e abana-se muito.) Por fim de contas está fazendo muito calor!...

CENA VIII BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta terceira carta a Violante e vai-se.

CASIMIRO – Terceira carta! Será possível que...

VIOLANTE (Vai dar a carta a Braz, e arrepende-se; dá-a a Irene.) – Dª. Irene, a senhora é uma santa...

MÁRIO – Apoiado, titia! VIOLANTE – Uma santa menina que não me enganará: leia, leia a senhora.

IRENE (Abre a carta e lê para si.) – Ah! É demais! Não ouso...

VIOLANTE – Leia, ainda que seja a minha sentença de morte.

IRENE (Lendo.) – “Excelentíssima senhora: tenho a honra de participar a v. exa.

que ontem fiz-me examinar por dois médicos, os quais me declararam com hipertrofia do coração, e condenado ao celibato para viver mais alguns anos que consagrarei ao amor platônico do belo sexo; assim, pois, coagido por força maior e maldizendo da minha hipertrofia, peço mil perdões a v. exa....

VIOLANTE (Arrebata e rasga a carta.) – Basta! Muito obrigada pelo seu favor: por fim de contas... (A Clemência.) foste tu que os endemoninhaste... mas por fim de contas eles são três demônios.

BRAZ – Madrinha, tudo que Deus faz é por melhor; veja que de três harpias escapou; se se casasse com algum deles sabe o que teria de sofrer?...

VIOLANTE (Encolerizada,) – O que?... O que?... O que?...

BRAZ – Teria de sofrer... et coetera, et coetera, madrinha.

CASIMIRO – E ficamos sem noivo para o banquete do noivado! 39 BRAZ – Menos essa... já temos um... (Mostrando Mário.) e eis aí outro.

CENA IX BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, LAURIANO e, logo depois, PORFÍRIO.

LAURIANO – Minhas senhoras! Meus senhores! (Cumprimento.) IRENE – Vens radioso de alegria...

LAURIANO – Felicitem-me! Acabo de saber que com ótima aprovação nos exames de suficiência, que fiz, estou habilitado para ensinar diversas matérias de instrução secundária e tenho já prévios ajustes para lecionar em quatro colégios: oito horas de trabalho por dia; mas é quase riqueza, e seria riqueza completa (olhando Casimiro e Clemência.) se me fosse dado reparti-la com a escolhida do meu coração...

BRAZ – Et coetera, Casimiro, et coetera! Isso é claríssimo, e cai do céu; não cai do céu dª. Clemência?...

PORFÍRIO (Arrebatado.) – Que é dele?... Que é dele?... Quero abraçá-lo.

CASIMIRO – Quem? PORFÍRIO – O capitão Jorge de Souza? Que é dele?...

BRAZ (A Clemência.) – Temo-la travada! CLEMÊNCIA (A Braz.) – Agora pouco importa.

PORFÍRIO – Mas que é do capitão? CASIMIRO – Estás doido? VIOLANTE – Que capitão, senhor?... Não sabe que o meu infeliz primo Jorge morreu há dois anos em combate no Paraguai? PORFÍRIO – Mas ressuscitou: no Paraguai muitas vezes se ressuscita; aqui está a gazetilha do Jornal do Commercio de hoje... (Mostra o jornal.) VIOLANTE – Ressuscitou! Meu primo!...

PORFÍRIO – Estão cambando?... A gazetilha diz que a notícia é dada pela família; aqui está (Lendo.): “O capitão Jorge de Souza, que todos julgavam morto, escapando ao inimigo que o tinha prisioneiro, apresentou-se aos seus bravos companheiros no mesmo dia da vitória do Campo Largo e chegou ontem a esta corte no transporte de guerra” VIOLANTE – Meu primo! Meu primo! PORFÍRIO – Mas é de pasmar! Não os entendo... a gazetilha fala na senhora...

VIOLANTE – Em mim?... Essa é boa! Eu em letra redonda por fim de contas.

PORFÍRIO – Aqui está! Diz, que conforme condição expressa do testamento de seu tio e padrinho, a senhora, sua única e universal herdeira, estava obrigada a entregar toda a herança ao filho, o capitão Jorge de Souza, se em qualquer tempo ele aparecesse vivo...

VIOLANTE – Isso é uma grande mentira; não há tal condição no testamento! PORFÍRIO – Vamos a melhor!... A gazetilha acrescenta que a senhora ontem mesmo apressou-se a fazer plena entrega da imensa fortuna que herdara, ficando em completa pobreza, mas abençoando generosa a chegada de seu primo. (Violante mede Clemência de alto abaixo.) Explique-me esta embrulhada...

CLEMÊNCIA (Abaixando os olhos.) – A titia perdoe... se a gazetilha não está bem redigida... para outra vez escreverei melhor.

PORFÍRIO – Eu fico às escuras!... Que quer dizer isto? BRAZ – Foi uma aposta que acabou sem vencedora; pois o vencedor foi somente o dinheiro, que conquistou três miseráveis, logo depois fugidos em debandada ao anúncio da pobreza.

40 PORFÍRIO – Fiquei na mesma; o Braz quando não diz et coetera é ininteligível.

VIOLANTE (A Braz.) – Meu Braz, vexame até aqui! Por fim de contas não sei onde me esconda! BRAZ (A Violante.) – Espere, que eu a salvo já. (Alto.) Basta de enganar estes pobres meninos: Clemência e Lauriano, Irene e Mário, tendes sido desde alguns dias objetos do nosso inocente divertimento; aqui não há velha noiva ridícula, nem velho com pretensões anacrônicas: ajoelhai-vos diante da tia benfeitora e do pai extremoso! MÁRIO e CLEMÊNCIA – Como?... Então?...

BRAZ – Mário, eis as dispensas necessárias para que no fim de oito dias estejas casado com dª. Irene; a assinatura de Casimiro nestes papéis esclarece tudo.

MÁRIO – Meu bom pai!... (Recebe os papéis, e vai com Irene beijar a mão de Casimiro.) CASIMIRO (A Braz.) – Obrigado, Braz, obrigado. (Aperta-lhe a mão.) BRAZ – Dª. Clemência, a madrinha nunca pensou em casar-se, quer viver, e vive para seus parentes, e ontem ordenou-me que tivesse pronto para cada um de seus dois sobrinhos um dote de cinqüenta contos de réis.

CLEMÊNCIA – Titia... escuse-me as travessuras... sempre a amei... (Beija-lhe a mão.) MÁRIO – Com o produto da venda de Hipogrifo, titia, são cinqüenta e dois contos de réis para a minha Irene; não quero porém desigualdades; cedo um conto de réis a Clemência, e beijo-lhe a mão... vem beijá-la também, Irene!...

VIOLANTE (À sobrinha e Irene, que lhe beijam a mão.) – Me deixem! BRAZ (A Violante.) – Cem contos de réis pela lição, madrinha... e negócio da China; aceite e cale-se.

VIOLANTE (A Braz.) – O que eu merecia era ir para o hospício de Pedro II; aceito e calo-me. (Alto.) E por fim de contas...

BRAZ – Et coetera... et coetera...

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

voltar 123avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal