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Memórias da Rua do Ouvidor

Joaquim Manuel Macedo

Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre Homem da Costa, e no dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas e dos dois Amotinados. Apareceram pasquins, compuseram-se cantigas e lundus, que eram as armas da censura popular do tempo, e alguns malévolos propuseram que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.

O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou grupo de dez ou doze maldizentes.

E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente a exagerada e servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de ouro; este, porém, pediu-lhe com ardor a patente de capitão.

O Marquês respondeu-lhe:

- Pobre Amotinado!... os postos do exército são do rei, que os confere a quem presta serviços a seu governo; os teus serviços foram prestados só à minha pessoa e eu não posso pagá-lo senão com o meu dinheiro. Vejo que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.

E foi buscá-la, e deu-lha, e o miserável aceitou-a.

O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem todos perdoavam as travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito governo.

A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante a boniteza para achar, como achou, marido de seu gosto e escolha.

Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação envelhecida.

Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão e espalha-brasas em querer chamá-la Rua do Amotinado.

Acresceu logo depois a pretensão de alguns cônegos e de gente devota, que propunham a denominação de Rua do Cabido ou Rua da Sé Nova, em honra da Sé Nova que então, embora já desanimadamente, se construía no largo ainda desse nome, e onde se abria a Rua do Padre Homem da Costa.

E quando mais fervente se achava esta contenda, chegou de Lisboa nomeado ouvidor da comarca para o Rio de Janeiro o Dr. Francisco Berquó da Silveira (da família Berquó da qual foi membro ulteriormente o Marquês de Cantagalo, amigo dedicadíssimo e estimado de D. Pedro I), e logo ou pouco depois de sua chegada à capital do Brasil colônia foi morar em 1780 à Rua do Padre Homem da Costa, na casa de sobrado, que é hoje de n.º 62-A, e ocupada pela loja de papéis pintados do Sr. Anacoreta.

Um ouvidor de comarca era naquele tempo muito mais do que um simples mortal, era um potestade, que o povo respeitava mais do que hoje respeita ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e não havia quem deixasse de pôr-se de chapéu na mão quando ele passava.

Desde que o Dr. Berquó estabeleceu sua residência à Rua do Padre Homem da Costa; desfizeram-se as pretensões denominativas de Rua do Amotinado e do Cabido, e todos de acordo a chamaram Rua do Ouvidor.

E, portanto, o defunto Padre Homem da Costa, muito depois de morto, deu em 1780 à costa, não nos baixios, mas nas alturas do ouvidor da comarca.

1780!... não esqueçam a data, que marca o começo da época que tinha de ser tão gloriosa para a rua por excelência poliglota e enciclopédica, labirinto, vulcão, mina de ouro e abismo de fortunas, rainha dos postiços e das artes arteiras, fonte de belos sonhos, armadilha de enganos, et coetera, et coetera, et coetera, somando tudo - Torre de Babel.

Principiara sendo - Desvio - desvio do caminho reto, e essa origem não foi lisonjeira.

Passara de Desvio à Rua de Aleixo Manoel, plebeu raso, que, embora só de fidalgos, era barbeiro, segundo os meus velhos manuscritos.

Subiu, tomou solidéu e batina, entrou para a categoria do clero, elevando-se à Rua do Padre Homem da Costa.

E enfim exaltou-se, mostrando-se com a toga da magistratura em sua nova e última denominação de Rua do Ouvidor.

E notem: o ouvidor chamava-se Berquó, nome cujas letras combinadas de outro modo formam o presente do indicativo do verbo quebrar, isto é - quebro, o que quer dizer: não resisto, rendo-me.

O Berquó, o tal ouvidor, tinha pois nas letras do seu nome cabalisticamente encerrado o segredo dos encantos da rua, a que ninguém resiste, a que todos se rendem; porque todos quebram, e até se requebram escravos do seu poder.

Mas não o esqueçam, a rua começou a denominar-se do Ouvidor em 1780.

Mais dois anos passados, e fulgirá esplendíssimo e supermemorável o primeiro centenário da brilhante e famosa Rua do Ouvidor.

Que festa! quem viver em 1880 verá o que há de haver.

Em 1880 - o centenário!...

Preparai-vos, ó modistas, floristas, fotografistas dentistas, quinquilharistas, confeitarias, charutarias, livrarias, perfumarias, sapatarias, rouparias, alfaiates, hotéis, espelheiros, ourivesarias, fábricas de instrumentos óticos, acústicos, cirúrgicos, elétricos e as de luvas, e as de postiços, e de fundas, de indústria, comércio e artes, e as de lamparinas, luminárias, faróis, e os focos de luz e de civilização e vulcões de idéias que são as gazetas diárias e os armazéns de secos e molhados representantes legítimos da filosofia materialista, e a democrata, popularíssima e abençoada carne-seca no princípio da rua, e no fim Notre Dame de Paris, a fada misteriosa de três entradas e saídas e com labirintos, tentações e magias no vasto seio - preparai-vos todos para a festa deslumbrante do centenário da Rua do Ouvidor!...

A festa é de nosso dever e de nossa honra!...

Preparai- vos!

O centenário é em 1880!...

Se eu tiver paciência, animação e confiança, proporei no fim destas Memórias que ainda têm muito que dar de si, o programa da grande festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor.

Vejam lá se me deixam ficar mal.

CAPÍTULO 6

Como se revela em burlesca proeza o primeiro ou mais antigo herói da Rua do Ouvidor; conta-se a história de duas ceias no fundo da taberna de Manoel Gago e como pela sua singular habilidade pregou famosa logração a três amigos o Belo Senhor, interessante celebridade do Rio de Janeiro, rematando-se esta tradição com o conselho um pouco profético dado por Agostinho Fuas, um dos logrados, ao Belo Senhor.

A rua que em 1780 recebeu a denominação do Ouvidor teve por seu primeiro herói em burlesca proeza o Belo Senhor.

Talvez que bem poucos dos meus leitores saibam quem foi o Belo Senhor; aliás a mais famosa personagem travessa e infelizmente muito pior do que travessa da cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século passado e que acabou ignorado morrendo não sei em que ano do princípio do atual.

O Belo Senhor chamava-se José Joaquim de...; nascera na cidade do Rio de Janeiro, onde seus pais (creio que pelo menos o pai era de Portugal) o fizeram receber limitada instrução acima da primária, mostrando-se ele, porém, muito inteligente, e sobretudo, maravilhoso em caligrafia.

Era de tanta beleza varonil no rosto como bem talhado de corpo; de espírito sutil, de gênio alegre e folgazão, dançando com o maior primor, cantando agradavelmente, merecera por tudo isso a desvanecedora alcunha de Belo Senhor, que por certo não foram os homens que lhe puseram.

Em sua juventude gozou o Belo Senhor a vida, esbanjando o tempo, e só ocupado de folguedos e de prazeres; ao menos, porém, isento de abusos e de atos criminosos que mancham o homem.

É nessa idade louçã, de alegrias e de devaneios, que se apresenta o mais antigo herói de travessura curiosa passada na Rua do Ouvidor.

O que passo a referir é tradição que ouvi não só a um, mas a alguns velhos que conheceram o Belo Senhor, e entre esses há um respeitável e estimadíssimo cirurgião que em idade muito avançada faleceu em 1877.

Nesta tradição pertencem-me os nomes dos tafuis amigos do Belo Senhor, a data precisa da segunda ceia, e os diálogos; porque não fui informado daqueles nomes, e nem da data que marquei para dar certa vida à tradição.

Tudo mais, isto é, a primeira e a segunda ceia, as fivelas e a casaca novas, e a surpresa causada pela presença da Rosinha, atriz da casa da ópera, devem considerar-se, e pelo menos eu reputo de tradição verdadeira.

E agora conto a proeza do Belo Senhor, sem mais prelúdios, nem cerimônias.

Companheiro assíduo dos mais elegantes e ricos tafuis do seu tempo, o Belo Senhor; que, muitas vezes, por seus dotes naturais, pelo seu espírito e por suas prendas ganhava, mais do que eles, agrados das senhoras nas reuniões e saraus, quase sempre baldo ao trunfo não os podia igualar no luxo dos vestidos sempre novos, e na magia do ouro, com que era posto em derrota na disputa de certos amores.

Uma noite, em 1783, ou pouco depois, em companhia de alguns desses tafuis, todos de boas e ricas famílias, o que não os impedia de render vassalagem à extravagância, que também é rainha da mocidade, ceava o Belo Senhor peixe frito com pimentões, chouriço de porco e rim de vaca assado e bebia vinho do Ponto, em saleta reservada do fundo da famosa taberna de Manoel Gago, sita à Rua do Ouvidor; esquina da Rua dos Latoeiros.

Ninguém se admire da escolha de uma taberna para uma ceia desses tafuis.

Ainda depois de estabelecidos os hotéis e em anos que chegavam ao termo da primeira metade do nosso estupendo século, não faltavam hóspedes muito sérios às saletas dos fundos de certas tabernas para cear sardinhas fritas com pimentões, e rim assado com o indispensável molho de pimenta de cheiro.

Era costume do século passado, que se conservava no atual, e as tabernas preferidas só admitiam nas saletas fregueses conhecidos e de boa companhia.

Trata-se, porém, da ceia dos tafuis.

Em ajuntamento de mancebos que só pensam em divertir-se e rir, há de ordinário uma vítima de escolha ocasional.

Nesta noite a vítima era o Belo Senhor.

Afonso Martinho tinha dito que ele trazia nos sapatos o testemunho de impostura e falsidade; porque as fivelas que tinham passado por ser de ouro já estavam por velhas perdendo o dissimulo e denunciando a prata que nem era de lei.

O Belo Senhor comia então uma posta de pescada, e não respondeu.

As fivelas dos sapatos do Belo Senhor estão em harmonia com a sua casaca de uso ordinário, como hoje, e que, como todos vêem, já está perdendo o pêlo! exclamou Domingos Lopo.

- É avareza desse demônio: devemos castigá-lo; proponho que de hoje a oito dias o Belo Senhor seja obrigado a pagar-nos aqui mesmo ceia dez vezes melhor do que esta, que eu hoje pago; disse a zombar Antônio Pereira.

Mas quando Domingos Lopo falava, o Belo Senhor estava-se regalando de chouriço com farinha de mandioca; e quando Antônio Pereira o emprazou para a ceia que havia de pagar, ele saboreava o rim assado, temperando-o no molho de pimenta de cheiro, e não deu resposta nem a um, nem a outro, e menos ainda pareceu ressentir-se.

Não havia maligna intenção nos gracejos dos três amigos; mas realmente era pouco generoso, e de mau gosto em mancebos ricos zombar do que era manifesta prova dos poucos recursos pecuniários da vítima do ridículo.

Risadas acompanhavam, no entanto, os remoques provocadores de reação que o Belo Senhor não costumava conter.

Mas então ele comia, e não falava.

Agostinho Fuas tomou por sua vez a palavra e disse:

- O Belo Senhor está hoje triste, silencioso e abatido: querem saber por quê? Há um mês que apaixonado, perdido de amor pela Rosinha Feitiço, a mais bela dama da Casa da Ópera, cantava-lhe de noite modinhas à porta e de dia mandava-lhe ramalhetes de rosas, e de não-me-deixes; mas coitado! soube ontem que eu sem modinhas nem flores, e só com uma chave, que tirei da minha bolsa, abri a porta que não lhe abriam, e tomei-lhe a namorada!... Tem paciência, Belo Senhor! espera dois ou três meses pelo termo do meu capricho: eu te pus no purgatório, mas não te condenei ao inferno.

Gargalhadas gerais agravaram a zombaria de Agostinho Fuas, tanto mais cruel, quanto era absolutamente expresso de verdade.

O Belo Senhor por acaso ou por abafado ímpeto de ira cobriu de pimentas de cheiro uma garfada de rim e comeu, parecendo regalar-se.

Agostinho Fuas, um pouco picado da indiferença da vítima, tirou do bolso uma carta e mostrou-a aos companheiros.

- Ai está um bilhete que a Rosinha me escreveu hoje...

- Mas que diabo! ela escreve Gostinho em vez de Agostinho? disse Afonso Martinho.

- É assim que me trata: vê agora a assinatura...

- Feitiço...

- É como eu a chamo. E tu, Belo Senhor; não queres ver a carta da Rosinha Feitiço?

Era demais.

O Belo Senhor que inalterável não tinha levantado os olhos do prato saboreou o último pedaço de rim assado, encheu de vinho o copo, bebeu vagarosa e deliciosamente, depôs o copo na mesa e disse com perfeita serenidade:

- Agora eu.

Todos os olhos se fitaram no Belo Senhor que, voltando-se primeiro para Antônio Pereira, disse-lhe:

- Antônio Pereira! de hoje a oito dias cearemos nesta taberna profusa e grandiosamente!... convide a todos os presentes e a mais alguns amigos, mas eu juro que tu, Antônio Pereira, hás de pagar a ceia.

- Eu?... aposto que não!...

- E nessa noite de ceia, de hoje a oito dias, eu me apresentarei de ricas fivelas de ouro nos sapatos, e tu, Afonso Martinho, hás de pagar as fivelas.

- Eu?... também aposto que não!

- E tu, Domingos Lopo, hás de pagar a casaca nova com que me apresentarei a honrar a ceia!

- Terceira aposta!... juro que não.

- Quanto a Agostinho Fuas, não pretendo que ele me pague coisa alguma; pelo contrário, serei eu quem o há de felicitar com a mais agradável surpresa.

- Explica-te, Belo Senhor!

- Impossível! será o encantamento da ceia; mas é segredo que guardarei comigo até de hoje a oito dias.

- São, portanto, quatro apostas, disse Antônio Pereira; vê em que te metes, Belo Senhor!

- Não faço aposta alguma; respondeu este: contento-me com a ceia profusa, com as fivelas de ouro, com a casaca nova e com o surpreendente efeito do meu segredo.

Levantaram-se todos para sair.

- A propósito! exclamou o Belo Senhor; quero saber a hora precisa da ceia: Antônio Pereira é quem deve marcar a hora, porque as despesas correrão por sua conta.

- O Belo Senhor paga-nos aqui boa ceia, de hoje a oito dias, às nove horas da noite precisas, disse Antônio Pereira.

- Muito bem! de hoje a oito dias, 20 de julho de 1783, às nove horas da noite em ponto, disse o Belo Senhor.

E logo acrescentou:

- Daqui até lá nem mais meia palavra sobre este assunto.

E todos se retiraram da taberna a rir e a gracejar, como amigos que eram.

Passaram-se os oito dias do prazo marcado, chegou a noite de 20 de julho, e ainda antes das nove horas já se achavam reunidos na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, além de alguns outros todos os mancebos que ali tinham ceado oito dias antes.

Faltava somente o Belo Senhor.

Havia curiosidade como que ansiosa.

Nenhum dos convidados ousava supor que ele faltasse ao prazo e à ceia.

A questão do pagamento da ceia, das fivelas de ouro, da casaca nova, e enfim a surpresa prometida a Agostinho Fuas preocupavam a todos.

A ceia já estava servida e era na verdade profusa para a habilidade culinária de Manoel Gago, o dono da taberna, que até então se limitara a dar aos seus fregueses peixe frito, camarão, chouriço e rim de vaca.

Os nossos leitores dispensam a descrição da ceia.

Ao toque de nove horas entrou pela taberna o Belo Senhor trajando fina casaca nova e trazendo nos sapatos ricas fivelas de ouro.

Os amigos nem tiveram tempo de aplaudi-lo, porque logo em seguida dois robustos negros se mostraram conduzindo elegante cadeirinha que depuseram a entrada da saleta.

- Agostinho Fuas, disse o Belo Senhor, sem dúvida que eu devia começar pela agradável surpresa que te prometi.

E, abrindo as cortinas da cadeirinha, ofereceu a mão e ajudou a sair dela uma bonita moça morena.

- Apresento-lhes a linda e mimosa Rosinha Feitiço, que nos dará a glória de cear conosco, se Agostinho Fuas o permitir.

A surpresa foi realmente grande, e até a bela Rosinha também a partilhou, vendo Agostinho Fuas confundido e amuado.

- Antônio Pereira! podemos sentar-nos à mesa?

- Eu não me sentarei à mesa com a senhora Rosinha sem que ela me explique como se apresenta aqui!... disse Agostinho Fuas.

- Camarada! que ciúmes de mau gosto!... observou o Belo Senhor a sorrir.

- Então isso é Ópera do Judeu?... perguntou a bonita morena.

E tirou do bolso e entregou a Agostinho uma carta.

O amante ciumento leu alto com admiração e ainda com maior surpresa:

"Feitiço: - Quero que venhas cear comigo em boa companhia; como porém não me é possível ir buscar-te, entendi-me com o meu amigo Belo Senhor, que vai receber-te às oito e meia horas da noite, levando cadeirinha para te conduzir. Podes confiar-te a ele, e vem sem falta; eu o exijo: é questão de honra! até logo, Feitiço. - Teu Gostinho."

- E então? perguntou a atriz da casa da ópera.

- O mesmo tratamento que me dás, e que te dou!... e a minha letra!... porque é a minha letra... a minha assinatura.. é, juro que é; mas juro também que não escrevi esta carta! exclamou Agostinho Fuas.

- Oh! ceemos, Agostinho Fuas! disse o Belo Senhor.

Sentaram-se todos; mas imediatamente Manoel Gago chegou-se a Antônio Pereira, e entregou-lhe a conta da ceia.

- Que diabo é isso?... que tenho eu com o rol e com a conta da ceia? disse Antônio Pereira.

Manoel Gago nem pode falar; mas, correndo a taberna, tirou da gaveta um papel e veio apresentá-lo a Antônio Pereira.

O papel dizia assim:

"Sr. Manoel Gago, a 20 de julho de 1783 quero que às 9 horas da noite precisas tenha pronta e servida à mesa para 20 pessoas ceia constante dos pratos e vinhos seguintes... (estendia-se o rol): não olhe as despesas; quero, porém, que, logo ao começar a ceia, me apresente a conta diante de todos, é caso de aposta. - Seu freguês, Antônio Pereira."

O papel correu pela mão de todos, e todos deram testemunho de que a letra e a assinatura eram de Antônio Pereira, que puxou pela bolsa e pagou a ceia a rir alegremente, dizendo aos amigos:

- Tal e qual como Agostinho Fuas!... reconheço por minhas a letra e assinatura... não há questão... mas leve-me o demo, se eu escrevi e assinei isso!...

O Belo Senhor ceava gulosamente e sem falar.

Mas antes das dez horas entraram na saleta um alfaiate e um ourives, que, desfazendo-se em desculpas, e protestando que se mostravam ali só por obediência às ordens escritas e positivas, entregaram o primeiro a Domingos Lopo a conta de uma casaca do mais fino pano e o segundo a Afonso Martinho a de primorosas fivelas de ouro, que também por ordem escrita e assinada um tinha feito e o outro entregado ao Belo Senhor; sob a condição de cobrança realizada naquela noite e àquela hora na taberna de Manoel Gago, e durante a ceia que ali se daria.

O ourives e o alfaiate, fregueses dos dois ricos tafuis, tinham obedecido ao extravagante capricho de mancebos notáveis por devaneios e originalidades travessas de juventude, e, além disso, seus fregueses de maiores despesas e do mais pronto pagamento.

Afonso Martinho e Domingos Lopo riram-se ainda mais do que Antônio Pereira, e todos com eles verificaram, depois de acurado exame, que era impossível negar a letra das ordens e as assinaturas dos dois pagantes da casaca de pano fino e das fivelas de ouro do Belo Senhor.

E Domingos Lopo e Afonso Martinho pagaram ao som dos aplausos da companhia ao alfaiate e ao ourives.

Tanto eles como Antônio Pereira podiam negar-se aos pagamentos que fizeram; eram porém cavalheiros amigos do Belo Senhor, e julgaram de bom-gosto dar-se por vencidos pela habilidade caligráfica daquele, a quem aliás tinham provocado com as suas zombarias.

O Belo Senhor foi o herói da ceia que se prolongou até a meia-noite.

A essa hora, e ao dissolver-se a reunião, o Belo Senhor ainda zombeteiro perguntou a Agostinho Fuas:

- Queres que eu me encarregue de acompanhar a tua bela Rosa ao seu jardim?...

Rosinha Feitiço fez um momo a indicar negativa.

- Não, respondeu Agostinho Fuas, quero porém que saiamos juntos.

E saíram.

A pequena distância da taberna de Manoel Gago, e vendo-se livre de ouvidos indiscretos, Agostinho Fuas deixou o braço de Rosinha, a quem conduzia, e, afastando-se dela alguns passos com o Belo Senhor; apertou as mãos deste e disse-lhe em voz muito baixa:

- Belo Senhor! gosto de ti e vou dar-te boa prova disso.

- Que é?...

- Lembra-te sempre do conselho de Fuas, na Rua do Ouvidor!...

- Mas... enfim!.. falas tão sério!...

- Desdenha e perde a tua admirável e extraordinária perfeição imitativa da escrita e da assinatura alheias.

- Ah!... o que fiz hoje...

- O que fizeste hoje foi simples, mas lamentável brinquedo com amigos, e mais tarde o que poderás fazer será crime. Lembra-te!

E Agostinho Fuas voltou a tomar o braço da bonita atriz da casa da ópera.

O Belo Senhor ficou parado e quase triste.

E mais tarde lembrou-se muito, e lembrou-se em dias sinistros - do conselho de Fuas na Rua do Ouvidor.

Provavelmente hei de ter ocasião de lembrar também a sabedoria do conselho de Agostinho Fuas, dando, embora de passagem, notícia de lamentável crime, e de adversa fortuna à que a maravilhosa habilidade caligráfica levou o Belo Senhor, já infelizmente corrompido.

CAPÍTULO 7

Como o vice-reinado do Conde de Rezende obumbrou a cidade do Rio de Janeiro e nesta a Rua do Ouvidor com sinistras perseguições, e com o terror que espalhou, fala-se da conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais, e refere-se a uma tradição que não saiu toda dos velhos manuscritos suspeitos de tradições imaginárias. Como e por que Perpétua Mineira veio em 1784 morar à Rua do Ouvidor e aí, não ganhando bastante a costurar, abriu em sua casa saleta de pasto à mineira, acontecendo que depois de certo tempo ela começou a rir fora de propósito, cultivou perpétuas roxas, teve muitos amores, até que se apaixonou pelo Tiradentes, e, enfim, desapareceu na noite de 21 de abril de 1792, depois de ter andado à roda da forca, onde fora morto o seu amante, a procurar uma perpétua, achando somente ensangüentado um pedaço de lenço que reconheceu e guardou.

O último decênio do século passado e os primeiros dez meses do ano de 1801 marcaram obumbrado e sinistro período na história da cidade do Rio de Janeiro, e deixaram triste episódio às Memórias da Rua do Ouvidor.

Em 1789 tinha sido denunciada a conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais, estes presos e a devassa posta em andamento.

Em 1790 (a 4 de junho) começou o vice-reinado do Conde de Rezende para tormento do Rio de Janeiro. Suspeitoso, aterrador, desapiedado, o Conde de Rezende, ainda depois de enforcado o Tiradentes, e de saídos em desterro os principais chefes da conspiração, isto é, ainda depois de abril de 1792 até o fim do seu vice-reinado, foi cruel opressor do povo, e implacável perseguidor de poetas e de literatos, a alguns dos quais encerrou por longo tempo em negras prisões pelo crime de se reunirem em palestras literárias e científicas, às quais ele atribuía injustamente dissímulos de clubes revolucionários e reincidências em tramas republicanas.

A Rua do Ouvidor sofreu, como toda a cidade, a influência sinistra do governo do Conde de Rezende, obumbrando-se pela desconfiança e pelo terror, e para dar idéia dessa triste situação, preciso lembrar a famosa conspiração chamada do Tiradentes, as perseguições e abusos do vice-rei, e vou fazê-lo, vestindo com as roupas, isto é, com as cores e com os costumes do tempo, uma tradição que colhi nos meus velhos manuscritos.

É a tradição-romance de Perpétua Mineira, que aliás não saiu toda desses manuscritos já suspeitos de fonte imaginária.

Dois amigos meus que tinham sido jovens no primeiro quartel do século atual, e que se presumiam de sabedores de coisas dos fins do último século, informaram-me em anos que me viram atarefado recolhedor de notícias do nosso passado na cidade do Rio de Janeiro, informaram-me, repito, da seguinte historieta:

- Uma mulher moça e bonita, a quem chamavam Perpétua Mineira, vivera durante anos dos vice-reinados de Luís de Vasconcelos e do Conde de Rezende morando na Rua do Ouvidor entre as ruas Direita e Detrás do Carmo (hoje do Carmo), e que em sua casa abrira saleta de pasto, ou de jantar e ceias de cozinha á mineira.

Perpétua, a princípio de costumes irrepreensíveis, tornara-se depois fácil em amar e inconstante em amores, contando entre os seus felizes apaixonados o Tiradentes, e enfim subitamente desaparecera, sem que houvesse dela mais notícia alguma, no mesmo dia em que subiu à forca, seu capitólio da história, aquele impávido conjurado, de quem ela fora amante.

Atiçado e impelido pelo interesse romanesco de tais informações, procurei então com ardor no processo dos inconfidentes de Minas, em publicações, em documentos arquivados, em conversações com amigos fluminenses e mineiros distintos, e curiosos investigadores destas coisas da pátria, alguns vestígios da existência ao menos daquela Perpétua Mineira, que floresceu ou murchara na Rua do Ouvidor.

Perdi o meu tempo.

Os meus dois informantes continuavam a asseverar o que me diziam sobre a interessante Perpétua Mineira; mas em falta de testemunho mais seguro, limitei-me a tomar notas das informações sem poder aceitá-las como incontestáveis.

Agora, escrevendo as Memórias da Rua do Ouvidor e chegando nelas à época da conjuração dos inconfidentes de Minas Gerais, das perseguições e do terror do vice-reinado do Conde de Rezende, lembrei-me daquelas informações, e tomando-as por base, recorri sem cerimônia aos meus velhos manuscritos e achei logo neles a tradição completa, a tradição-romance de Perpétua Mineira, que passo a contar.

Não asseguro, mas inclino-me a crer, a admitir ao menos o fato da existência de Perpétua Mineira com a saleta de pasto, ou de jantar e ceias, na sua casa da Rua do Ouvidor; admito a probabilidade dos amores de Perpétua e do Tiradentes. O mais vai sair dos meus velhos manuscritos por conta e risco exclusivamente deles e sem responsabilidade do memorista consciencioso.

É tradição-romance de Perpétua Mineira para diante.

Em pequena casa térrea de porta e janela que em princípio do século atual ainda se via, na Rua do Ouvidor ao lado direito e pouco antes da quina da Rua Detrás do Carmo, como triste amostra das acanhadas e rudes construções dos primeiros tempos da cidade, morava uma mulher a quem chamavam Perpétua Mineira.

Perpétua era com efeito o seu nome de batismo; o de família ninguém o conhecia, porque ela não o tinha e a alcunha de mineira lha puseram no Rio de Janeiro pela sua naturalidade da capitania de Minas Gerais.

Era ainda mais infeliz do que se fora órfã, era ou fora enjeitada, e nunca a procuraram os pais. No seio da família caridosa que a recolhera, aprendera ao menos a trabalhar; aos dezoito anos de idade, porém, fora segunda vez enjeitada, expulsa da casa beneficente pelo crime de ter sido seduzida pelo filho mais velho dos seus protetores.

O sedutor apaixonado amante da enjeitada quis, a despeito da oposição de seus pais ricos e presunçosos de nobre sangue, desposá-la, e dar-lhe, como devia, o seu nome; Perpétua, porém, a chorar e a maldizer de sua fraqueza, lembrou quanto por ela tinham feito os caridosos adotadores da inocente e mísera recém-nascida exposta, abandonada à porta de estranhos, e agradecida até ao sacrifício de sua honra, impôs ao filho revoltado obediência aos pais, deu-lhe em despedida um, o último beijo, e, fugindo à capitania do seu berço, veio para a cidade do Rio de Janeiro no ano de 1784, e quase logo foi ocupar a casa da Rua do Ouvidor, que ficou mencionada, e que houve a preço de seis cruzados de aluguel por mês.

Perpétua pôs-se a costurar, foi ela a primeira, não modista, mas costureira da Rua do Ouvidor; tão pouco, porém, rendiam-lhe as costuras, que para viver começou a explorar outro recurso, abrindo ao concurso do público na pequena saleta de sua casa mesa muito asseada, na qual vendia lombo de porco em vários guisados primorosamente preparados, lingüiças e bolos, e diversos acepipes culinários de farinha de milho.

Em linguagem moderna combinada com a antiga, inglesa abrasileirada, a pobre e infeliz Perpétua abriu casa de lunch - à mineira.

Foi daí que começou a sua alcunha Perpétua Mineira.

E sem o pensar ela foi ali na Rua do Ouvidor a precursora de Mme Joséphine, costurando, e do Sr. Guimarães, fazendo lunch à mineira.

De estatura alta, e bem talhada de corpo, Perpétua tinha negros e belos os cabelos e os olhos, o rosto branco e de encantador oval, trazendo nas faces as pulcras rosas de além das serranias do Ocidente.

Apenas lhe amesquinhavam as graças físicas, as mãos trigueiras e ásperas pela rudeza do trabalho e os modos e falas agrestes que denunciavam a sertaneja, pouco afeita aos costumes e aos lavores da sociedade urbana.

Bonita como era, Perpétua adquiriu logo boa freguesia freqüentadora da sua saleta de pasto, onde muitos dos mineiros que vinham à cidade do Rio de Janeiro também e de preferência iam para jantar ou cear à moda da capitania.

Tão jovem que ainda se poderia dizer menina, Perpétua, vivendo só, manteve durante um ano procedimento irrepreensível, foi casta depois de seduzida, bem que não lhe faltassem namoradores e apaixonados entre os fregueses da saleta de pasto.

Mas um dia alguns mineiros chegados da capitania deram à pobre enjeitada a notícia do casamento do seu querido sedutor. Por explicável contradição de sentimentos em alma exaltada, ela, que generosa impusera ao amante obediência à vontade dos pais, ao saber que a obediência se cumprira, sentiu o peso da morte no coração, adoeceu gravemente, foi levada para a Santa Casa da Misericórdia, donde no fim de dois meses saiu restabelecida da moléstia cerebral que lhe ameaçara a vida, mas trazendo alteração lamentável em seu caráter.

Restaurando a sua saleta de pasto, Perpétua Mineira não zelou mais e como dantes o seu proceder honesto, e ainda o repetirei casto depois do erro: fingida ou realmente alegre, faceira e garrida escapou apenas às abjeções do vício venal, mas desceu às baixezas da impudicícia por amores, cuja duração era marcada pela sua inconstância e pelo seu capricho.

A jovem mineira parecia feliz; era tão fácil e freqüente o riso em seus lábios, que às vezes até ria fora de propósito; além disso, notava-se que ela, tendo mandado preparar no quintalzinho de sua casa canteiros de jardim, só cultivava nesses canteiros perpétuas, a flor do seu nome; exclusivamente, porém, perpétuas roxas, a flor das sepulturas ou da morte.

Entretanto, Perpétua Mineira adquiriu celebridade imodesta na cidade do Rio de Janeiro, e entre os seus sucessivos amantes contou o Belo Senhor, e dizem que (muito às escondidas e com imposição de segredo) o Vice-Rei Luís de Vasconcelos, que foi sempre muito mais cauto do que o Marquês de Lavradio.

Por fim, em 1787, apareceu-lhe em casa José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que já não era moço, nem distinto por beleza varonil, mas que impressionava a quase todos por arrebatamentos apaixonados, pelas expansões francas e ardentes do sentimento, pela coragem, pelo entusiasmo fácil, e até pelas leviandades e estouvamentos de seu ânimo imprudente, e a que faltava sobretudo o bom-senso.

O Tiradentes inflamou-se de amor pela bela Perpétua, e esta perdidamente se apaixonou por ele.

Capricho ou predileção de mineira?...

É quase ou de todo insensato pretender arrasar segredos de sentimento.

Perpétua amou o Tiradentes, amou-o terna e fiel, e desde então ria-se ainda; mas só a propósito: nenhum outro homem pôde mais passar além da saleta de pasto para o interior da casa, nem mesmo (dizem) aquele que a horas mortas de noite às vezes entrava misterioso.

Pode-se amar deveras mais de uma vez na vida?... pode haver outro depois do primeiro amor que enche e perfuma completa e perfeitamente o coração?...

Perpétua não ousaria responder, porque depois do seu primeiro amor amava ternamente o Tiradentes; mas, cumpre dizê-lo, amante estremecida e fiel do Tiradentes, ela continuou sempre a cultivar no seu quintalzinho perpétuas e exclusivamente perpétuas roxas.

As ligações de Perpétua e do Tiradentes duravam com interrupções longas pelas ausências deste, mas com exemplar fidelidade respeitadas por ela já há dois anos, quando em 1789 aquele conspirador indiscreto chegou à cidade do Rio de Janeiro e no fim de alguns dias, na véspera de sua volta para Vila Rica, revelando à amante o segredo da conspiração mineira, em terna despedida, pediu-lhe que colhesse e lhe desse uma perpétua, a flor do seu nome, como lembrança de amor.

A bela jovem cortou um basto anel de seus cabelos, e, dando-o ao Tiradentes, disse-lhe:

- Dou-te melhor lembrança: a perpétua não, não! olha: só tenho perpétuas roxas, as flores da morte.

O Tiradentes beijou e guardou o anel de cabelos, mas exigiu com tanta insistência a flor, que a amante colheu e entregou-lhe uma perpétua, dizendo:

- Leva-a, é porém de mau agouro. Sê feliz! Adeus! Qualquer que seja o teu destino, eu te amarei perpétua. Lembra-o bem: perpétua!...

No mesmo ano o Tiradentes tornando ao Rio de Janeiro, mas já perseguido para ser preso, como em Minas o tinham sido os outros conspiradores, não ousou ir à casa de Perpétua Mineira, mas ainda assim caiu em poder dos agentes do governo.

A generosa e exaltada amante, a pobre Perpétua Mineira, sonhou, imaginou planos doidos para salvar o Tiradentes, facilitando-lhe a fuga dos cárceres subterrâneos da ilha das Cobras, para onde o tinham levado, e, desatinada e vaidosa, começava a calcular com repugnantes traições ao seu amor, com sublimes sacrifícios já para ele horríveis, contando com o poder dos seus encantos a fazer milagres no coração de Luís de Vasconcelos, aliás severo e inflexível no cumprimento do seu dever, quando a 4 de junho de 1790 o vice-reinado passou ao Conde de Rezende.

Adeus, embora ilusórias, vaidosas esperanças de Perpétua Mineira!...

O Conde de Rezende chegava carrancudo, ameaçador, e temendo conspirações a tramar-se em toda a cidade, e para mais se agravarem suas turvas suspeitas, e as sinistras prevenções do seu ânimo, logo na noite de 20 de junho, incêndio violento devorou a casa onde a Câmara Municipal celebrava suas sessões e tinha o seu arquivo (casa do Teles na Praça de Pedro II, até à quina da Rua do Mercado).

O Vice-Rei passou a noite em ânsias, vendo no incêndio ensejo preparado para pronunciamento revolucionário, ao mesmo tempo que o povo só via na horrível fogueira mau agouro do novo governo.

Não foi possível ao Conde de Rezende descobrir a origem do incêndio; mas por isso mesmo o atribuiu aos revolucionários, e multiplicou precauções aterradoras.

Perpétua por ter sido amante do Tiradentes, e porque recebia mineiros a jantar e a cear em sua saleta de pasto, foi objeto de incessante espionagem, e teve a casa por vezes varejada, de modo que em breve temerosos e espantados quase todos os freqüentadores da saleta de pasto dela desertaram, e a Rua do Ouvidor cobriu-se com o véu da tristeza e anuviou-se pelo medo.

Mas a corajosa Perpétua deixou-se ficar em sua casa à espera...

À espera de que?... ela nem podia ter notícias do Tiradentes, considerava como os seus companheiros do infortúnio em segredo nas masmorras da ilha das Cobras.

E todavia ela esperou quase dois anos... esperou até abril de 1792.

A 19 deste mês, o Belo Senhor, que nunca a abandonara, embora Perpétua desde que amara o Tiradentes só lhe permitisse inocentes relações, foi triste anunciar-lhe a horrível sentença proferida pela alçada no dia antecedente.

A pobre moça nem pôde chorar nos primeiros momentos, e convulsa e como atônita, murmurou estupidamente:

- Eu lho disse: foi a perpétua roxa!...

- Que perpétua roxa?... perguntou o Belo Senhor a temer que a infeliz moça começasse a delirar.

- Eu o sei... e ele o sabe: respondeu a amante do Tiradentes.

Horas depois Perpétua Mineira, que não pudera chorar, pálida e abalada por estremecimentos nervosos, tornou-se muda e ficou de novo à espera... ficou alerta.

Não se alimentou, nem dormiu, ficou à espera...

Às onze horas da noite de 20 de abril Perpétua Mineira ouviu sinistro ruído de gente aliás silenciosa quê descia pela Rua Direita, e saiu para ver o que era.

Todas as casas estavam fechadas.

Perpétua Mineira chegando à Rua Direita apoiou-se à parede da quina da Rua do Ouvidor.

E viu... e ouviu...

Viu quase na sombra... viu mal distinto lúgrube préstito de soldados e de presos, e ouviu o tinir das correntes...

Viu pelos ouvidos os soldados em sua marcha compassada e regular, e os presos no gemer das cadeias...

Quando presos e soldados foram em fúnebre silêncio passando diante dela, a mísera e exaltada mulher, adivinhando entre aqueles o amante, que não podia distinguir na escuridão, disse alto, bastante alto para ser ouvida, mas com voz pungente:

- Perpétua!...

As cadeias de um dos condenados retiniram, agitadas por forte tremor, aliás apenas momentâneo.

O Tiradentes tinha reconhecido a voz de Perpétua.

No outro dia, 21 de abril, José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, subiu à história subindo à forca no campo do Rosário.

Quando o seu corpo caiu no patíbulo sob os pés do carrasco, os repiques festivos dos sinos das igrejas e as aclamações oficiais obrigadas abafaram profundíssimo gemido de dor, e a comoção geral não deixou ver, ou o instinto generoso do povo escondeu o crime de um corpo de mulher que tombara como sem vida.

Essa mulher, porém, não estava morta; levaram-na, ou ela tornou a si, e pôde retirar-se... fugir...

A cidade obedeceu à imposição de manifestações de festa e de exultação até as luminárias que se apagaram às dez horas da noite.

Depois reinou na cidade silêncio sepulcral.

Pouco depois da meia-noite uma mulher alta e envolta em negra mantilha avançou misteriosa pelo campo do Rosário até chegar à forca ainda em pé.

O campo estava solitário, era profunda a escuridão... e na escuridão a forca se escondia, como o remorso que se abisma no fundo enegrecido do seio em torturas...

Chegada junto da forca, a mulher tirou das amplas e protetoras dobras de sua mantilha uma lanterna furta-fogo e curvando-se, com os olhos abaixados para o chão, pôs-se a andar em torno do patíbulo e como a procurar algum objeto... sonhado...

A mísera sonhara achar... mas não achou uma - perpétua roxa...

Achou... vestígios de sangue que a terra absorvera...; finalmente, porém, achou... quase um trapo... um pedaço de lenço branco e ensangüentado.

Perpétua, porque era ela, recolheu o pedaço de lenço e, examinando-o à luz da lanterna, descobriu em um dos ângulos as letras J.J.S.X. bordadas à seda...

Ela tinha bordado essas mesmas letras em um lenço do Tiradentes.

Perpétua Mineira beijou dez vezes o pedaço de lenço ainda úmido de sangue, depois guardou-o no seio e sobre o coração.

Quase logo apagou a lanterna, largou-a no chão e pôs-se a caminhar em retirada do campo do Rosário.

Mas então Perpétua Mineira vacilava em sua marcha, e sentia-se extenuada de forças. É que ela não se alimentava nem dormia desde 19 de abril, e já há uma hora tinha começado o dia 22.

A saleta de pasto da Rua do Ouvidor não se tornou a abrir.

Desde a noite de 21 de abril Perpétua Mineira desaparecera e não se soube o destino que levara.

Houve quem dissesse que se encontrara na estrada de Minas Gerais e junto de poste, onde se deixara exposto um dos quartos do corpo de Tiradentes, o cadáver de uma mulher.

CAPÍTULO 8

Como a Rua do Ouvidor ainda entra na história da conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais por curioso episódio que se refere sob a denominação de episódio ou de tradição da maçã, que, plenamente provada, seria preciosa luz histórica. Conta-se a viagem da maçã que o Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade por triste e aborrido não quis comer, e mandou-a ao Vigário Padre Toledo, que, ao saboreá-la, achou-lhe miolo muito melhor do que poderia ter imaginado. Terminada a tradição da maçã, diz-se enfim como o Belo Senhor teve de lembrar-se do conselho que Agostinho Fuas lhe dera na Rua do Ouvidor, depois da segunda ceia na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, e como escapando do degredo o Belo Senhor morreu pobre e ignorado na cidade do Rio de Janeiro.

Referindo no capítulo antecedente a tradição de Perpétua Mineira, declarei positivamente que eu a encontrara completada nos meus velhos manuscritos, como estes, porém, não trazem nome de autor, nem baseiam em documentos suas informações, é claro que só me aproveitam para enfeitar estas Memórias; porque fora abuso condenável expor-me a falsificar a história, dando por fatos averiguados alguns devaneios de imaginação.

Podem severos críticos achar de mau gosto o meu repetido recurso aos velhos manuscritos, mas hei de teimar nele: escrevo as Memórias da Rua do Ouvidor; que em seu caráter de rua das modas, da elegância e do luxo merece e deve ser adornada e adereçada condignamente.

Não vendo gato por lebre, desde que previamente declaro a origem e a natureza das tradições, que vou contando a salvar sempre a verdade histórica.

Este cavaco serve de preâmbulo a uma outra e bem curiosa tradição, que pertence um pouco à Rua do Ouvidor; e que seria, na hipótese de chegar por algum modo a averiguar-se, interessante episódio da história da conspiração mineira, que ficou sendo chamada do Tiradentes. É um episódio que eu chamarei da - maçã.

A tradição que passo ao conhecimento dos meus leitores não é das tais dos velhos manuscritos: há sete ou oito anos passados eu a ouvi (como diversas informações sobre alguns inconfidentes) a um bondoso e inteligente fazendeiro de Minas Gerais, com o qual entretive passageiras, mas saudosas, relações aqui no Rio de Janeiro.

O episódio me sorri, me agrada muito, porque vem apoiar o meu juízo sobre os motivos determinantes da Carta Régia de comutação da pena de morte em degredo para os verdadeiros e principais chefes da conspiração mineira em 1789.

Fonte: www.biblio.com.br

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