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As Vítimas Algozes

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Lucinda, a mucama

Quem menos lamentara, e antes aplaudira a mudança temporária da residência de Florêncio da Silva para a cidade do Rio de Janeiro, fora Lu­cinda.

A crioula sonhava com a capital, tinha por ela certa espécie de culto perverso, adivinhava os seus misteriosos escândalos, e adorava-os em sua imaginação de escrava viciosa.

Lucinda mais de uma vez procurara consolar a senhora; mas a sua con­solação repugnava por infame.

Vendo Cândida submergida em pesada tristeza, dissera-lhe:

— Minha senhora, não se mate assim; o infortúnio foi grande; mas, se é irremediável, o que convém é remediá-lo.

Em outras circunstâncias Cândida ter-se-ia rido da observação contraditória da mucama; na sua situação, porém, perguntou amargurada:

— E como se remedeia o irremediável?...

— Olhe, minha senhora: o moço francês, o Sr. Souvanel é o mais bonito e o mais merecedor dos homens, e foi feito para seu marido; mas se é irremediável o perdê-lo, como parece...

— Então?...

— O remédio é ter paciência, e minha senhora consolar-se, procurando ou aceitando algum outro moço bonito para marido.

— Eu?!!!

— Sim, minha senhora.

— Eu?!!!

— Que tolice, minha senhora! Eu não digo que esqueça o moço fran­cês; mas no caso de ser impossível o casamento com ele, minha senhora não se há de condenar à vida de freira.

— Oh, se hei de!... eu o amo sempre!

— E se ele morrer?... Se seguir preso para França, como se diz que se­guirá?

— Nem assim mudará o meu destino. Eu só posso ser esposa de Der­many.

— Por que, minha senhora?

— Lucinda! - murmurou a moça, abaixando o rosto envergonhada.

— Que tolice de minha senhora! - repetiu a miserável escrava. - Que tolice! .. com a riqueza de seu pai...

Cândida levantou a cabeça, e disse:

— Infâmia!...

Lucinda mudou de tom, e com voz sumida, soprou algumas palavras de segredo importante no ouvido de sua senhora; esse segredo, porém, devia ser esquálido; porque a moça, revoltando-se, tornou com voz surda e imensa perturbação:

— Duas infâmias...

A mucama estava habituada a vencer pela insistência e pela teima a oposição da senhora, e conseqüentemente em suas conversações noturnas, ou das horas dedicadas ao toucador, foi sempre perseverando nas mesmas idéias, e até já tinha sido portadora de amorosos recados de um belo man­cebo que se enamorara de Cândida, quando de súbido mudou de rumo e de sistema, e voltou a proteger a causa considerada perdida de Dermany.

Cândida sobressaltou-se, notando a extraordinária transformação do modo de pensar da escrava.

— Dermany está na cidade?... - perguntou, estremecendo.

— Sim, minha senhora, está.

— Ah! Expõe-se por mim?

— Como um louco.

— Ama-me, pois, ainda?

— Apaixonadamente.

— Onde o vês? Onde te fala?...

— Só à noite... no saguão da casa ... coitado! Vem vestido de libré de lacaio...

— Oh!... Por mim...

— Só por minha senhora.

— Ele se expõe ... meu Deus!

— É preciso salvá-lo.

— E como?

— Minha senhora... pertence ao Sr. Souvanel.

Cândida tornou-se branca e fria como a neve; o sangue pareceu refluir-lhe para o coração; seus olhos cerraram-se.

Lucinda, temendo que a senhora desmaiasse, dava-se pressa em acudi-la; esta, porém, repeliu-a brandamente e disse repassada de dor:

— Não há mais Souvanel... há outro... há Dermany, que se esconde, e que se disfarça com a libré de lacaio; porque é criminoso...

Com efeito, Dermany tinha chegado à cidade do Rio de Janeiro: arro­jara-se a tanto, pensando que a polícia brasileira não faria grande esforço para descobri-lo e prendê-lo, não tendo que punir nele crime cometido no país, e porque também é nas grandes capitais, onde melhor se pode ocultar quem foge à justiça pública.

Dermany correra em seguimento de Cândida, e foi-lhe fácil achar a ca­sa de Florêncio da Silva, pois sabia qual era o hotel onde Frederico estava alojado; perdeu duas noites de improfícua espera; porque em ambas Fre­derico em vez de sair do hotel, voltou a ele: na terceira noite, enfim, o ir­mão adotivo de Cândida ensinou, sem que o pensasse, a casa que ela ha­bitava com seus pais ao infame sedutor.

O pajem fiel de Florêncio da Silva, fora naturalmente trazido para a cidade, acompanhando seu senhor, como Lucinda acompanhara sua senhora; os dois escravos cúmplices da sedução e do opróbrio de Cândida esta­vam pois ali, para abrir outra vez as portas à traição e ao crime.

Dermany, jogador furioso, tinha a audácia dos jogadores da sua têm­pera, e parava vertiginosamente nos lances arriscados da vida, como nas grandes e decisivas cartadas do lansquenet. Certamente ele teria podido fugir da cidade de... e asilar-se no interior de alguma das províncias cen­trais do Brasil, onde tarde ou nunca o encontrariam os olhos do ministro francês; não admitiu porém esse recurso de um viver impune, seguro, mas retirado, modesto e com as privações dos gozos dos grandes focos de po­pulação.

O plano de Dermany era de ousadia descomunal; era parada de joga­dor, que em desespero atira à mesa toda a sua fortuna; plano para ele de aparente simplicidade brutal, mas realmente cheio de complicações e de embaraços na execução, reduzia-se ao seguinte: - raptar Cândida e levá-la para remoto e solitário ou ignorado refúgio: daí escrever a Florêncio da Silva e obrigá-lo a lavar a nódoa da filha pelo casamento; servir-se da proteção do sogro para escapar às perseguições ou antes à ação da justiça; insinuar-se durante um ou dois anos no ânimo da família de sua esposa, recolher o dote em dinheiro e o que pudesse da riqueza de Florêncio da Silva, e, abandonando Cândida, fugir para os Estados Unidos da América do Norte.

Para conseguir tanto, Dermany arrostou os perigos a que se expunha na cidade do Rio de Janeiro, e escondido de dia, e tomando à noite uma libré de lacaio, falou e entendeu-se com o pajem, o escravo fiel de Florên­cio da Silva, renovou ainda no quarto do pajem os seus encontros secretos com Lucinda, mostrou-se cada vez dela mais apaixonado, deslumbrou-a com a perspectiva do futuro brilhantemente escandaloso, que lhe prepa­rava, e teve a certeza de contar com ela para entregar-lhe Cândida.

O sedutor soube pela mucama qual era o abismo que o separava da seduzida. Lucinda pediu-lhe cem vezes que inventasse explicações, escusas romanescas e ardilosas para negar ou ao menos atenuar os crimes de que o acusavam; mas Dermany, certo de que Cândida tivera conhecimento das provas irrecusáveis das suas infâmias, tomara o partido de confessá-las, es­crevendo à sua vítima, e limitando-se a protestar o seu profundo arrepen­dimento, a atribuir tudo a loucuras da mocidade, e a ameaçar enfurecido a pobre moça de entregar-se aos seus perseguidores e de ir morrer nas ignomínias do galé, se ela não quisesse salvá-lo com o seu amor.

Dermany escrevera dez cartas a Cândida, subindo cada vez mais no diapasão do amor em delírio, e da ameaça em romântico furor, e conse­guiu receber esta breve resposta à sua décima carta: - "Dermany: enga­naste-me: estou perdida para todos; não hei de porém descer mais por ti: já não me podes salvar; salva-te ao menos tu, fugindo. Eu te perdôo: adeus. - Cândida".

Lendo o conciso bilhete de Cândida, o sedutor irritado deixou escapar diante de Lucinda as seguintes e terríveis palavras:

— Esta resposta é um tesouro! A confissão, o conselho, o perdão e a as­sinatura valem mais do que pensa quem a escreveu!

E a escrava pôs-se a rir, dizendo:

— Ainda bem!... Não perca o bilhete.

A demonstração plena de que Cândida nascera com felizes disposições naturais e de que pudera ter sido exemplo de recato, de honestidade e de virtudes, se não tivesse sido sujeita ao influxo perversor da companhia fre­qüentíssima, pestilencial e depravada da mucama escrava, está em que, a despeito dessa inoculação imoral das lições de Lucinda, a despeito da consciência do aviltamento que a tornara dependente de Dermany, ape­sar do amor ardente que tributava ao seu infame sedutor, envergonhava-se enfim desse amante, procurava distanciá-lo, repugnava-o ou temia-o, desde que o soubera perpetrador de crimes ignominiosos.

Cândida tinha amado, mais do que isso, adorado Souvanel; mas recua­va aterrada diante da imagem de Dermany - o ladrão.

E concebei, se puderdes, esta contradição por assim dizer delicadíssima de sentimentos opostos, mas persistentes e simultaneamente influentes: Cândida amava sempre apaixonada a Souvanel que a ofendera, e rejeitava Dermany réu de crimes infamantes e previamente marcado com o sinal repulsivo do galé: a consciência condenando, o coração amando, e entre a consciência e o coração um abismo, em cujo fundo se levantavam a repro­vação da consciência e a tormentosa e aflitiva incandescência do amor.

Se conceberdes essa contradição ou luta de sentimentos, esse não e sim, essa desestima e esse amor, esse medo que faz arredar, e esse laço que aduna, essa convicção da indignidade do amado, e esse cativeiro da aman­te, essa repulsão e essa atração, tereis compreendido as tempestades, os despedaçamentos do coração, os transes da alma de Cândida.

O maior infortúnio, o mais chorado sacrifício, dera à infeliz moça a ex­periência do mal sofrido e com esta o cauteloso temor de outros males iguais a sofrer. O remorso de um opróbrio a fazia horrorizar-se de outros.

Cândida amava em Dermany, Souvanel; mas em Dermany inspira­vam-lhe repugnância e horror o ladrão e o galé.

Idéia talvez pueril, Cândida, amando Souvanel e esbarrando com Sou­vanel em Dermany criminoso, lembrava que a esposa toma o nome do marido, e tremeu de horror pensando que poderiam chamar à mulher do galé - galé, à mulher do ladrão - ladra.

A sociedade não impõe, não inflige a condenação injustamente exten­siva de semelhantes nomes, que indicam crime e punição; mas a esposa de tal criminoso e sentenciado punido, é em todo o caso mulher de galé, mulher de ladrão.

O crime não se estende pela punição, mas a infâmia do crime estende-se pelo nome à mulher, à esposa infeliz do criminoso.

Daí o medo e o horror que faziam Cândida recuar diante de Dermany, o novo nome com inesperada e horrível condição de Souvanel o sedutor amado.

Cândida amava sempre o antigo Souvanel; mas à força se tornava cau­telosa, prudente e sábia.

A cautela, a prudência, a sabedoria chegavam tarde para o grande erro do passado; ao menos, porém, preveniriam erros igualmente fatais no fu­turo.

Lucinda pleiteava incessante a favor da causa de Dermany, era a portadora das suas cartas, a intérprete de seus sentimentos, a eloqüente descri­tora dos seus sofrimentos e desesperos.

Cândida ouvia paciente, curiosa e comovida a mucama, inteirava-se de suas conversações com Dermany; mas suspeitosa e tomada de susto, des­confiada de Lucinda, pretextara as estreitas proporções de seu quarto, sem dúvida incomparavelmente inferior à sala em que ela dormia na casa magnífica da chácara de seu pai, para excluir a companhia noturna de sua escrava, e dormir só e trancada, livre portanto de qualquer atrevida visita, ou invasão sinistra do sedutor.

Lucinda exasperava-se, mas continha-se: ao pé do toucador, ou pen­teando sua senhora, vingava-se gárrula, impudente, venenosa, da sua proscrição noturna, insistindo sempre com a senhora para que confiasse o seu destino a Dermany, e sem dó das lágrimas que a fazia derramar, lembrava-lhe o seu maior infortúnio, e o direito e o dever que assistiam ao amante de tomá-la por esposa; outras vezes aconselhava e pedia a Cândi­da que, ainda mesmo para desenganar Dermany, concedesse a este uma hora, alguns minutos somente de conversação particular.

A mísera vítima resistia tenazmente com assombro da mucama, que esgotando em vão os esforços mais porfiados, mostrou-se em uma manhã mais séria e apreensiva que de costume, e disse-lhe:

— Minha senhora vai levar o Sr. Dermany a um excesso que certamen­te lhe custará dias de grande tormento...

— A ele ou a mim? - perguntou Cândida tristemente.

— A ele também; mas principalmente a minha senhora.

— E o excesso? Qual é?...

— Ontem o Sr. Dermany mandou-me chamar, e encarregou-me de dizer a minha senhora, que não podendo dominar sua paixão e resolvido a tudo tentar para ser seu esposo, ou minha senhora lhe irá falar esta noi­te, ou amanhã ele escreverá a seu pai, exigindo-a em casamento, e reme­tendo-lhe como prova de seus direitos sobre minha senhora, o bilhete que há três dias minha senhora lhe escreveu.

A escrava tinha os olhos embebidos no rosto de Cândida, que ao receber esse golpe inopinado, abismou as faces em ondas de sangue.

A vítima abrasou-se no fogo da vergonha e da cólera, e instantes de­pois, quando pôde falar levantou a cabeça, olhou terrível para Lucinda e respondeu:

— Dize a esse homem...

E interrompendo-se logo, prosseguiu depois de um instante:

— Oh! Não: a esse homem... doravante nem mais uma palavra...

— Minha senhora...

Cândida impôs silêncio a Lucinda.

— E tu - disse-lhe - acautela-te: se tornares a falar-me desse ho­mem, hei de acusar-te à minha mãe para que me liberte da tua compa­nhia fatal.

A mucama pôs-se a chorar.

— Deixa-me! - tornou-lhe a moça rispidamente.

E Lucinda saiu, enxugando as lágrimas.

— Que infâmia!!! - murmurou Cândida.

Frederico prevenira seu pai de que sérios deveres o retinham na capital, junto da família de Florêncio da Silva, e continuava a dedicar-se a Leoní­dia, velando por Cândida. Tinha conseguido a vitória mais difícil, con­vencer sua irmã adotiva dos crimes e da indignidade do homem que a apaixonara; mas não lhe escapando a luta da razão e do amor que ainda se travava no ânimo da infeliz, prosseguia em sua nobre tarefa, atacando re­petidamente esse amor desatinado com a força de vigorosos raciocínios, e com severos conselhos dados sem amargor e sem recriminações.

O generoso mancebo sabia fazer-se ouvir: falando de Dermany, paten­teava com a luz da evidência seus atos criminosos e o tremendo e vergo­nhoso castigo que ele teria de receber; nunca porém o injuriava com in­sultosa qualificação; ao contrário parecia lamentá-lo, chamando-o desgra­çado; combatendo o amor de Cândida, desculpava-o, reconhecia a impos­sibilidade de sufocá-lo de súbito, e apelando para o tempo, fulminava o desatinado sentimento, avultando suas lamentáveis e desastrosas conse­qüências e finalmente sem dar à sua voz o tom, e às suas falas a forma de consolação, lembrava a Cândida sua mocidade e sua beleza, e a segurança do mais belo noivo, à sua escolha, em prazo marcado pelo esquecimento, ou pelo arrefecimento do primeiro amor.

Para a triste moça Frederico tinha só um nome - minha irmã: - da sua afeição nunca falava, da ternura de Florêncio da Silva e de Leonídia sempre, e no fim de seus conselhos, todos absolutamente contrários ao amor de Dermany, mais de uma vez declarou-se pronto a facilitar todos os meios para remover e pôr a salvo da justiça o desgraçado, se ele se prestas­se a retirar-se do Brasil.

Cândida abatida, obumbrada e submersa em aflições que escondia, ainda experimentava maior dor ante as amplas manifestações do coração grandioso, da sensibilidade delicada, e da modesta superioridade de Fre­derico; ela o escutava, o atendia, o consultava com essa plena seguridade que o reconhecimento da virtude, e a mais elevada estima sabem impor. Mil vezes a mísera moça já se tinha revoltado contra o amor que a infelici­tava, e que a fizera espantar a serena felicidade que Frederico lhe oferece­ra, querendo-a por esposa; e embora a si mesma dissesse que nunca fora suficientemente digna de homem tão nobre, amargurava-se lembrando, que se tornara absolutamente indigna dele.

Cândida não amava, admirava Frederico; e ainda a pesar seu amava Dermany; mas se o que sentia por aquele era estima sem amor, o que sen­tia por este era amor sem estima.

Frederico estava animado e animava Florêncio da Silva e Leonídia, as­severando que sua irmã se submetia ao império da razão.

Mas exatamente no dia em que Cândida recebera o recado ameaçador de Dermany, Frederico, tendo lido uma carta que Liberato lhe escrevera da cidade de... dirigiu-se imediatamente à casa de Florêncio da Silva.

Quando Frederico entrou na sala, Leonídia estava só: Florêncio tinha saído; Cândida repousava.

Pálida, agitada, nervosa, Leonídia antes de falar, apresentou a Frederi­co uma carta de seu filho.

— Ah! Liberato lhe escreveu, minha mãe?...

— Dermany veio para a Corte - disse com voz lúgubre a triste se­nhora.

— Era disso que eu vinha preveni-la... mas... por que tão forte como­ção?... minha mãe está sofrendo muito...

Leonídia murmurou, levando a mão ao peito:

— Talvez... mas há de passar... tudo passa...

E interrompendo Frederico que ia falar, perguntou rápida:

— Receias que Cândida ainda... se deixe alucinar por esse homem?

— Não; não; sossegue: minha irmã começa a pensar bem.

— Mas Dermany... esse francês audaz...

— Dermany?... - respondeu Frederico, afetando serenidade. - So­bram-nos os meios de distanciá-lo: tranqüilize-se: entre ele e minha irmã estou eu.

— Meu filho, vejo bem a ruga do despeito e da cólera encrespada na tua fronte! - exclamou Leonídia. - Que pensamento é o teu?

Frederico sorriu-se e tornou, dizendo:

— Que pensamento?... E tão simples e natural! Defenderei minha irmã.

Leonídia empalideceu ainda mais, e levantando-se, disse:

— Frederico! Não quero que exponhas a tua vida!

— Lembro-me eu de tal, minha mãe?... Não se aflija sem motivo.

— Oh!... Além da desgraça da filha o medo de te perder, Frederico! Porque eu sinto, eu vejo, eu sei que és capaz....

— Sossegue, minha mãe...

— Se eu te conheço!... Não te precipitarás doidamente, bem sei; mas passo a passo, e decidido tu irás até... o fim; e o fim?... Que é, que será o fim?...

Leonídia lia claro no ânimo do filho adotivo e em agitação cruel gesti­culava sem falar, e apenas de espaço em espaço, soltando a voz, dizia com interrupções:

— Que homem fatal! - Mísera filha!... - Que perigos! - Meu Deus!

Frederico procurava debalde sossegar sua mãe adotiva.

A aflição da nobre senhora era produzida pelo concerto de mil tormen­tos que a angustiavam: Leonídia tremia pelo receio da perdição e da de­sonra de Cândida; imaginava, talvez exagerada, os riscos a que via expos­to o seu querido Frederico, o amado irmão de seus filhos; desesperava da realização de seu mais doce e belo sonho da vida, do casamento de Cândi­da com Frederico, e enfim, pensando em seu marido, em sua família, confrangia-se, sentindo que os pesares, e a desgraça a feriam de morte com uma moléstia fatal, cujos sinistros anúncios ela estava escondendo, e que breve teria de deixar seu esposo em viuvez, seus filhos - sua mísera filha sem mãe...

E Leonídia - tão feliz, tão completamente feliz até bem pouco - amava ainda a vida; mas queria a vida, acreditava que podia curar-se, restabelecer-se, viver muito, se fosse possível, o que a vinda de Dermany pa­ra a capital ia talvez tornar impossível...

A dor, o medo, o amor da filha, do marido, de Liberato, de Frederico, os seus sofrimentos, as apreensões da morte, a ternura de mãe, a louca paixão de Cândida, o seu dulcíssimo sonho, a imagem sinistra de Der­many, as desilusões, a vergonha, torturavam a sensível e infeliz Leonídia.

Frederico a olhava dolorosamente comovido.

— Oh, minha mãe! Que amargura é essa? - tinha ele por vezes perguntado.

Leonídia acabara por desatar em pranto.

— Não chore! Não chore assim, que me mata, minha mãe! Eu estou aqui: eu juro que salvarei minha irmã...

Um raio de inspiração extrema, de esperança doida, iluminou o rosto de Leonídia, que estancando as lágrimas, encarou Frederico e o perguntou com voz abatida, trêmula, e célere:

— Um amor leviano... amor, oportunamente vencido, desonra uma menina?

— Não, minha mãe.

— Cândida arrependida ainda pode merecer um homem honesto?

— Pode... pode... há de ser feliz - respondeu Frederico enternecido e só pensando em tranqüilizar sua mãe adotiva.

— E tu, Frederico?... Tu queres salvar Cândida?... Queres dar-me a vida?... Queres pagar-me... é pagar-me que eu digo, o leite, o berço, a criação, e o amor?... Queres, meu filho?!!!

— Minha mãe!... - exclamou Frederico, que enfim compreendia a situação violenta em que se achava.

Leonídia pôs as mãos sobre os ombros do mancebo, olhou-o com os olhos em fogo de amor maternal, e por entre lágrimas, riu-se sem cons­ciência do riso, deixou-se de repente cair de joelhos, e disse a soluçar:

— Frederico!... Meu filho!... Casa com minha filha!...

Levantando Leonídia em seus braços, Frederico a depôs no sofá, e cain­do por sua vez de joelhos, tomou-lhe ambas as mãos, e as beijou choran­do, e exclamando:

— Minha mãe! Minha mãe!

Nos escrúpulos de seu brio, Frederico tinha condenado Cândida, como indigna do seu amor puríssimo; mas fora de si, vendo o santo desespero de Leonídia, sua mãe idolatrada, entre o seu brio e aquela dor suprema, pôs todas as suas esperanças na paixão de Cândida por Dermany, e em úl­timo caso incapaz de resistir, capaz somente de abnegação e de sacrifício, a temer e a tremer hesitava, pensava urgido e em comoção veementíssi­rna, quando Leonídia com o coração a convulsar-lhe os lábios, perguntou-lhe de novo e arrebatada:

— Meu filho! E Cândida?...

— Será minha esposa, se ela livremente declarar que o quer ser - res­pondeu o mancebo, abaixando a cabeça.

Leonídia correu para fora da sala, e quase logo voltou, trazendo Cândi­da pelo braço.

— Cândida - disse a pobre mãe em sublime alvoroço, mostrando Fre­derico à filha. - Cândida! Cândida! Este anjo da família te aceita por es­posa, se quiseres salvar-te nas suas asas!!! Oh, minha filha! Responde.

O ultraje recebido no recado de Dermany, a comoção e o pranto de Leonídia, a palidez e ansiedade de Frederico, que desejava escutar - não - e que podia também indicar o empenho de ouvir - sim - , a surpre­sa, a dor, as emoções diversas, a vertigem enfim, perturbaram todas as idéias de Cândida, que esquecendo o passado, os erros, a nódoa, o amor, os remorsos, balbuciou atônita, como espantada, como idiota:

— Eu quero.

Leonídia atirou-se nos braços de Frederico.

Cândida ficou em pé a olhar absorta; mas passados alguns momentos cambaleou, e sem gemer nem gritar caiu desmaiada na cadeira que en­controu mais próxima.

Os amores mais profundos e santos ainda assim têm suas exigências de egoísmo: em Leonídia o amor maternal fora egoísta, abusando do poder que exercia sobre Frederico, para obrigá-lo a aceitar a mão de Cândida; ao menos, porém, Frederico reconhecia que Leonídia não tinha a idéia de sa­crificá-lo e só pensava em realizar o mais suave empenho da sua vida, em­penho que se exaltara pelas circunstâncias delicadas e apreensivas da si­tuação em que Dermany pusera sua família.

Frederico retirara-se absorvido em tristes reflexões: amara ternamente Cândida; talvez a amava ainda; mas repugnava-lhe ao pundonor tomá-la por esposa; a imagem de Dermany o perseguia insolente, levantando-se sempre ao lado da imagem de Cândida; todavia ele se prendera pela sua palavra, e pelo inesperado e inverossímil - eu quero - pronunciado pe­la irmã adotiva.

Além disso, o nobre mancebo desde alguns dias se preocupava da ameaça de novo e para ele mais cruel infortúnio; observava cuidadoso que Leonídia envelhecia e decaía rapidamente; notava o embranquecimento subitâneo de seus cabelos, a magreza e a palidez do rosto, a respiração opressa coincidindo com a contração ligeira da face, e com o instintivo movimento da mão, que acudia às vezes ao lado esquerdo do peito, e principiava a temer que profundo e abafado desgosto estivesse destruindo a saúde e preparando a morte próxima da extremosa e amargurada mãe, que aliás não se queixava de padecimento algum.

A idéia da morte de Leonídia apavorava Frederico.

O que pensou e refletiu o generoso mancebo, foi digno dele: resolveu consagrar-se à felicidade da família, que por morte de sua mãe o adotara filho; mas em todo caso determinou exigir explicações da decisão inexpli­cável e do desmaio de Cândida.

Voltando na tarde do mesmo dia à casa de Florêncio da Silva, encon­trou este e Leonídia radiantes de alegria.

A mãe extremosa disse-lhe:

— Nem sabes o que fizeste, meu filho; eu ia morrer, e tu me restituis a vida.

E apontou para o peito. Era a primeira vez que Leonídia confessava a convicção do mal que principiava a sofrer.

Frederico empalideceu.

— Nada receies - tornou-lhe a mãe adotiva - , tu vais curar-me.

Leonídia não calculava o poder, a influência das palavras que proferiu agradecida.

Logo depois apareceu Cândida. Florêncio da Silva tomou o chapéu e saiu; Leonídia conversou alegremente algum tempo, e deixou a sós os su­postos noivos.

Cândida não se confundiu: seus pais a entregavam sempre à intimidade fraternal daquele conselheiro dedicado e amigo.

— Minha irmã - disse Frederico - , eu tenho consciência de que não pensas que eu tivesse preparado a surpresa que te fez desmaiar esta manhã.

— Sei bem que te sacrificavas, Frederico.

— Não falei em sacrifício: tenho a dignidade da minha independên­cia; não te pedi, confesso; mas te aceito em casamento: eis a verdade...

— Tu me aceitas? Frederico! Tu me levantas?

— Cândida, eu te julgo digna de mim; sentes que te mereço?...

— Não... eu não sou digna de ti...

— Oh! E a tua decisão?

— Eu estava alucinada... respondi sem refletir... ah! Se soubesses!

— Deves dizer-me tudo, minha irmã.

— Tudo?... Oh! sim: a ti o direi... mais tarde...

— Amas pois ainda, como dantes a...

— Escuta: eu te juro, que nunca serei esposa de Dermany, nunca; ou­viste? Mas casar-me contigo, Frederico?... Tu nem sabes como eu te ad­miro hoje!... Nem sabes como eu me sinto vil diante de Frederico tão no­bre!...

— Minha irmã, tu te calunias; foste leviana, mas eu te perdoei...já não sou eu que aceito, sou eu que suplico a tua mão de esposa.

Cândida tomou a mão que Frederico lhe estendia e beijou-a.

— Minha irmã!

— Chama-me assim; é o único título que poderás dar-me.

— E nossa mãe?...

— Deixemo-la crer e viver algumas semanas... algum tempo no seu doce engano... oh!... Frederico!... Frederico!

— Cândida... fazes-me estremecer...

A pobre moça exclamou imediatamente, interrompendo Frederico:

— É loucura... mas estou louca... amo Dermany... não serei dele; mas hei de morrer solteira...

— Antes isso - disse gravemente o mancebo.

— Minha mãe está falando perto... ela vai chegar...

— Enganemos pois nossa mãe, Cândida; é preciso enganá-la... é indispensável enganá-la...

— Como? Por quê?... tu falas, tremendo...

— Cândida, nossa mãe concentra no coração desgosto assassino... o corpo ressentiu-se dos martírios da alma... e a tísica...

— Oh!... Meu Deus!

— Silêncio, Cândida; não a mates - disse Frederico.

— Como se não fosse eu que a estivesse matando!... - murmurou a infeliz moça.

Leonídia entrou na sala. Florêncio da Silva chegou de volta de seu pas­seio: a conversação tornou-se animada e amena. Frederico retirou-se às onze horas da noite.

Mas duas horas antes, às nove, e enquanto os senhores descuidosos se entretinham em amiga conversação, Lucinda, a escrava, descera ao quarto do pajem, que demorava no fundo do saguão, e ali recebera a visita de um homem vestido de lacaio.

O lacaio era Dermany.

Lucinda deu-lhe conta de quanto naquele dia se passara no seio da família de sua senhora.

Dermany, ouvindo a nova do casamento de Cândida e Frederico, disse com impassibilidade e frieza:

— Tinhas razão, Lucinda: já era tempo de jogar a última cartada; jo­guemo-la.

E tirando do bolso um pequeno embrulho que encerrava dez outros, muito mais pequenos, e todos iguais, mostrou-os à escrava, acrescentando logo:

— Como te disse, um em cada manhã...

— No café - acudiu Lucinda, rindo-se.

— Não tenhas medo; não há perigo: são doses fracas de tártaro emé­tico.

— Oh! Minha senhora já as terá tomado maiores: amanhã começarei...

— Tu és um tesouro, Lucinda! - disse o francês.

Liberato não se limitara na cidade de... a substituir seu pai na direção da casa comercial e na gerência de outros negócios: a pretensão do falso Souvanel a ser esposo de sua irmã, e o conhecimento da inclinação, do amor de Cândida, o tinham fortemente contrariado, porque ele desejava com ardor o segundo laço de fraternidade, que devia ligá-lo ainda mais a Frederico; essa contrariedade, porém, assumira proporções de ressenti­mento ameaçador, desde que soubera que Souvanel era um nome-másca­ra que escondia a face do crime, e Dermany um miserável que tentara le­var o opróbrio, o desgosto, a desordem e o luto ao seio de sua família, conspurcando-a com o contacto de sua pessoa, já marcada ignobilmente: ficando pois, na cidade de... Liberato determinou provocar Dermany, e vingar-se dele, aproveitando para isso a ausência de seu pai, que sem dú­vida o teria contido.

O irmão de Cândida abandonava-se aos ímpetos de sua natureza exal­tada; felizmente, porém, Dermany a medo de diligências da autoridade já se achava oculto, graças ao generoso aviso de Frederico.

Liberato descobriu o asilo protetor do francês criminoso; mas estacando diante do infortúnio, seu furor desarmou-se, e fazendo espiar Dermany, para não perdê-lo de vista, adiou sua vingança.

Alguns dias passaram e de súbito Dermany desapareceu, sem que se soubesse para onde se retirara.

Liberato espalhou dinheiro a mãos cheias, empregou todos os recursos de uma polícia hábil e acabou por saber que Dermany seguira para a cida­de do Rio de Janeiro, onde estava.

Nestas pesquisas, a vingança tinha gasto dez dias.

Liberato sobressaltou-se: Dermany na capital era a conspiração contra Cândida e contra sua família: o alvoroçado mancebo imediatamente des­pachou um portador levando cartas a seus pais e a Frederico, nas quais os prevenia da partida do francês para a cidade do Rio de Janeiro; mas, deixando-os ignorar suas próprias disposições, entregou a casa e os negócios de Florêncio da Silva ao guarda-livros, honradíssimo velho, que merecia bem tal confiança, e seguiu apressadamente para onde julgava perigar a felicidade e a honra da irmã e da família.

Arrojado, violento e iracundo, Liberato, anelando encontrar Dermany para insultá-lo e coagi-lo a bater-se com ele, segundo os costumes que aprendera na Europa, queria escapar à ação dominadora de seu pai, e à influência prudente e fria de Frederico, que se oporiam às suas idéias de desforço e vingança.

Chegando à capital, o mancebo impetuoso, foi alojar-se em um hotel de segunda ordem, onde condenou-se ao mais desagradável encerro du­rante o dia, indo à noite passear de sentinela pela frente da casa ocupada por seu pai.

Liberato estava certo de que ali havia de encontrar o homem que pro­curava; amanheceu, porém, três vezes, passeando diante da casa, sem que lhe aparecesse Dermany, e tendo apenas visto nessas três noites Frederi­co, que se retirava do teto amigo, e, além de Frederico, duas vezes nessas noites, um lacaio que fora conversar com o pajem de seu pai.

Mas o irmão de Cândida teimou, como Dermany tinha teimado, espe­rando Frederico, para, seguindo-o, aprender a casa de Florêncio da Silva: entretanto o caso não era o mesmo, e Liberato esquecia as suspeitas, os re­paros e desconfianças que devia despertar o seu passeio constante de todas as noites sempre pela mesma rua e em idas e vindas freqüentes até o rom­per da aurora.

O exaltado mancebo procedia insensatamente, e ainda pela quarta vez voltou a rondar pela frente da casa de seu pai.

Todavia, não era só Liberato que se abalava com a estada de Dermany na capital: Frederico, certificado desse fato por algumas palavras que con­seguira arrancar a Cândida, achava-se inquieto; mas preferia com razão tor­nar sua irmã adotiva ou já suposta noiva defendida por sua própria virtu­de, que ele trazia alerta com a luz de sábios avisos e com a evidência da desgraça e da ignomínia que Dermany lhe preparava, a empregar espiões e cautelas que são quase sempre estéreis, quando a mulher quer ser má.

Ainda assim, porém, Frederico desde duas noites observava cuidadoso da janela da casa de Florêncio da Silva, o desazado passeador que tão mal disfarçava algum intento premeditado: pela imprudência do proceder e pela figura, logo se convenceu de que não era Dermany; mas desconfia­do, apesar disso, despedindo-se da família amiga e quase sua, saiu às ho­ras do costume, e não mostrando reparar no homem suspeito, que nesse momento seguia pelo lado oposto da rua, caminhou tranqüilo e sem olhar para trás, e dobrando a primeira esquina, parou e ficou à espera.

No fim de um quarto de hora, Frederico ouviu os passos de alguém que se aproximava, e avançando oportunamente para dobrar outra vez a esquina, esbarrou cara a cara com a insensata sentinela, e reconheceu Liberato, pela exclamação que escapou a este.

— Liberato! - exclamou Frederico, abraçando o amigo.

E logo olhando-o com atenção perguntou:

— Por que semelhante chapéu, e esse trajo que não são os do teu cos­tume?

Liberato, confundido, respondeu:

— Porque eu não queria que tu e meu pai me conhecêsseis.

— E que pretendias?

— Já o adivinhaste: encontrar Dermany e esbofeteá-lo.

— Assim, Dermany de um lado e tu de outro, conspiráveis para desacreditar Cândida!

— Frederico!

— Desde quando estás na Corte?

— Há quatro dias.

— E portanto já quatro noites

— É verdade... tenho velado à espera do miserável...

— Por fim de contas só uma queixa temos dele: é ter querido desposar Cândida, sendo criminoso e estando condenado.

— Achas pouco?

— Não; mas na sua desesperada situação é explicável, embora não desculpável, que ele tentasse obrigar uma proteção poderosa.

— E a sua ameaçadora insistência, pois que ousou vir para a capital?...

Frederico procurava desarmar os írnpetos do furor do amigo; apertado, porém, pela última pergunta, disse o que não pensava:

— Tens certeza dessa insistência? Dermany não se atreve por certo a mostrar-se de dia, e tu mesmo asseguras que ele não tem sido encontrado de noite na rua em que mora tua família.

— Mas... quem sabe se uma correspondência secreta...

— Não creio: há providências tomadas; somente poderia haver correspondência, se ele pudesse penetrar no saguão da casa, e entender-se, com algum escravo; e tu dizes...

— Nestas quatro noites, somente duas pessoas têm entrado na casa, tu e um lacaio...

— Que lacaio? - perguntou Frederico.

— Não sei; um lacaio.

— E por que dizes que é lacaio?

— Ora! Pela libré e porque se senta na soleira da porta ao lado do pajem, com quem conversa.

— E depois se retira sem entrar...

— Não; pelo contrário, entra sempre com o pajem e demora-se até fechar-se a porta; já duas vezes e pela terceira vez hoje...

— E hoje? Saiu antes de mim?

— Frederico! É um raio de luz...

— Mas... responde...

— Ei-lo aí vai! - disse Liberato, mostrando um lacaio, que passava a pequena distância, seguindo a Rua do Lavradio.

Frederico tinha o braço do amigo preso em suas mãos.

— Seguiremos de longe este lacaio - disse ele.

— Deixa-me livre - murmurou trêmulo de cólera Liberato. - Tu és apenas irmão adotivo e eu sou irmão legítimo e natural de Cândida.

Frederico para dominar o amigo, respondeu-lhe:

— Sou mais do que irmão adotivo de Cândida, sou seu noivo des­de quatro dias.

— Ah! Frederico!

— Silêncio, acompanhemos o lacaio.

Os dois amigos caminharam, medindo seus passos e sem perder de vis­ta o lacaio que, tendo-os percebido, nem por isso apressou a marcha.

Frederico estava contrariado pela companhia de Liberato; mas não po­dendo esperar que este o deixasse só, dobrou-se às circunstâncias sem ma­nifestar o seu desagrado: desconfiava, tinha quase a certeza de que o la­caio era Dermany e ardia em desejos de ir franca e diretamente tomar-lhe o passo, de apoderar-se dele pelo terror que abate o criminoso persegui­do, e de forçá-lo a aceitar o favor de retirada segura do Brasil; tendo porém, a seu lado Liberato, e conhecendo seu gênio violento, resolveu limi­tar-se nessa noite a assegurar-se da morada do francês.

O lacaio depois de algumas voltas e de um longo caminhar, tomou pela Rua de... e foi seguindo até que hesitou, como querendo parar; mas voltando os olhos e vendo os dois vultos que a distância o acompanhavam pelo outro lado da calçada, continuou sua marcha morosa e imper­turbável.

— Passemos adiante dele, e não o olhemos - disse Frederico.

E ambos, acelerando o andar, deixaram logo atrás o lacaio que também foi prosseguindo.

Frederico dobrou a primeira esquina e, sempre com o ouvido atento, parou com Liberato no canto da outra rua: o ruído das pisadas do lacaio ti­nha cessado; mas evidentemente ele tinha voltado.

Não se ouvira bater em porta alguma.

Frederico levou o amigo quase a correr em volta do quarteirão e foi outra vez entrar na mesma Rua de... por onde ambos tinham já entrado seguindo o lacaio.

Todas as casas estavam fechadas, exceto um sobrado, onde havia dança e música.

Algumas carruagens achavam-se paradas à porta do sobrado.

Frederico tinha pouco antes passado junto dessa casa sem atender aos sinais de reunião festiva que havia nela; ainda então seguiu para diante; mas indo e vindo nada descobriu que o orientasse sobre o desaparecimen­to do lacaio; começava já a impacientar-se, quando reparou em um muro enegrecido, no meio do qual se destacava rude e velho portão largo, e lembrou-se de que exatamente ali o lacaio quase interrompera a marcha, em que aliás continuara depois de olhar para trás.

O portão estava aberto e a flama do gás, em grande e tosco lampião, iluminava a entrada...

Dentro o espaço se alargava e no fundo se distinguia como a frente de imensa casa, onde aqui e ali luzes dispersas mostravam portas que se des­tacavam do meio das trevas...

— É provavelmente aqui - observou Frederico.

— Entremos - disse Liberato.

Frederico não respondeu ao estouvado amigo; mas levando-o consigo, dirigiu-se para a casa onde soava a música, e a alegria velava: demorou-se por algum tempo, como apreciando a voz de uma senhora que cantava, e quando terminou o canto, fez algumas perguntas banais aos criados e pajens que conversavam junto das carruagens, e enfim inquiriu ainda:

— Aquele portão e muro são de alguma chácara?

— Como? Chácara nesta tua?... Aquilo é um cortiço - respondeu um criado.

— Ah! Um cortiço... pensei que era chácara de pessoa rica; porque ainda há pouco me pareceu ter entrado ali um lacaio.

— Entrou - disse um homem que estava em mangas de camisa e con­versava com os criados. - Entrou; é um lacaio que mora no cortiço; en­quanto o amo está em Minas tomando águas...

— Que diabo! E não lhe deixou cômodo em casa?... - perguntou um pajem a rir..

— Diz que o amo é unhas-de-fome: alugou a chácara a um irmão, por quatro meses que foi passar em Minas.

Frederico já sabia bastante e afastou-se com Liberato.

— Que moços curiosos! - disse um criado.

— Ora! São como todos - tornou o homem que estava em mangas de camisa. - Nesta mesma noite um outro sujeito e de muito pior cara, veio beber cerveja à venda, e enquanto despejava duas garrafas, fez-me dar-lhe conta dos moradores do cortiço, e achou tanta graça na história do lacaio, que obrigou-me a repeti-la três ou quatro vezes com todos os por­menores.

Frederico levara Liberato para o seu hotel.

Digamo-lo em honra dos dois mancebos:

Frederico tinha planejado obrigar Dermany a deixar o Brasil, e propunha-se a favorecer-lhe e garantir-lhe a retirada ou a fuga.

Liberato queria esbofetear Dermany, calculando indômito e arrojado com as conseqüências dessa extrema afronta.

A nenhum deles, porém, lembrara sequer, por um instante, a idéia de denunciar Dermany à polícia.

Brilhavam nos dois mancebos a altivez e a generosidade do caráter na­tural dos brasileiros.

A insolente e inqualificável ameaça de Dermany tinha sublevado o co­ração de Cândida: na grandeza do seu amor, que ainda resistia ao conhe­cimento da indignidade do homem amado, ela sentira o enorme insulto feito à sua delicadeza, o menosprezo do seu pudor, o desprezo da sua in­dividualidade nesse egoísmo enregelado de especulador imoral, que se mostrava pronto a patentear o erro fatal que a aviltava, a documentá-lo com a confissão imprudente lançada em um bilhete confidencial; e, feri­da em sua vaidade, ultrajada nessa intenção perversa, preferira o maior martírio a submeter-se, como escrava medrosa, à prepotência de senhor infame.

No dia da ameaça e da afronta, na hora mais fogosa de seu ardente res­sentimento, Cândida irrefletida e exaltada, surpreendida pela proposi­ção, pelo pedido, pela exclamação de suprema esperança e empenho transportado de sua mãe, em um ímpeto de vingança, em um grito de náufraga, que vê a salvação, em uma explosão de dor e de desespero de­clarara aceitar Frederico por seu noivo.

Mas logo após, a consciência fulminara a aviltada, que desmaiou.

Cândida chegara aos dias do mais triste arrependimento e do mais acerbo desencanto: Frederico se mostrava a seus olhos como anjo salvador; Frederico era para ela a grandiosidade, a virtude, o belo moral, e Der­many, o objeto da sua paixão e não mais do seu amor, era a embriaguez ignóbil, o grilhão que pesa e fere, o vício que se esconde porque faz ver­gonha, e apesar de sua paixão, se tivesse liberdade de escolha, se um erro irreparável não lhe escravizasse a vontade, Cândida exultaria, proclamando-se noiva e esposa de Frederico.

Mas três dias tinham passado sem que se efetuasse a ameaça de Der­many, e, embora justamente revoltada, Cândida não tolerasse mais a con­versação da mucama, abrandou a sua cólera e principiou a considerar o atrevido recado do seu amante como recurso doido de apaixonado em de­lírio.

E nesses três dias foi-se também agigantando no ânimo da infeliz moça uma preocupação cruelíssima, que a separava mais que nunca de Frederi­co, e que a impelia mais que nunca para Dermany.

Nesses três dias, marcados como os últimos por aflitivo cálculo, Cândida, não sabendo como o amor contrariado pode determinar e muitas ve­zes determina perturbações físicas profundas na vida animal da mulher, estremecia pavorosamente, lembrando outra causa em regra produtora de iguais alterações.

E, muito pior, ela conservara na cidade certo costume geral na roça; ao levantar-se do leito de manhã, ou ainda na cama tomava sempre uma chávena de café que a mucama lhe trazia, e nos dois últimos dias logo de­pois de tomar o café, tivera náuseas e vômitos.

Na segunda manhã, observando a repetição desses fenômenos, Lucin­da fez um movimento de espanto e de temor.

Cândida pálida, banhada em frio suor e cheia de perturbação, pergun­tou à escrava:

— Achas-me doente?

A mucama hesitava.

— Fala... fala...

— Minha senhora tem tido febre?

— Não... nada mais sinto além...disto.

— Em tal caso... ah! Minha senhora...

— Dize: que pensas?... - tornou a moça com voz alterada.

— Eu não sei... tenho medo...

Em sua nova e tremenda aflição Cândida esqueceu o desgosto e a des­confiança que ultimamente lhe inspirara a mucama, e murmurou a tre­mer um segredo no ouvido da pérfida que, recuando, como aterrada e es­condendo o rosto com as mãos, disse:

— Oh!... Minha senhora está grávida...

A sentença não fulminou a vítima - ; porque esta já esperava o golpe. Cândida fechou os olhos e exalou um gemido repassado de dor.

Lucinda traiçoeira e malvada, deixou-se em pé e emudecida por alguns minutos, e apenas suspirando com fingida mágoa: por fim disse:

— Minha senhora... voltarei daqui a pouco... dissimule e espere.

E, voltando as costas, saiu alegre, e radiosa de animação infernal. Cândida ficou só; - ah! Não se julgava mais só.

Que remorsos! Que amargura! Que emoções novas! Que raciocínios! Que terror!

Na pavorosa situação em que, iludida e atraiçoada, a mísera se acredi­tava, era força pensar, medir o futuro, raciocinar...

E ela o fazia, coitada, torcendo com ânsia as mãos, e derramando lágri­mas que lhe abrasavam os olhos.

Esperar era nada resolver, e nada resolver, era a vida em torturas com os olhos no ventre, amando e temendo o testemunho do opróbrio a crescer e a acusá-la...

Cair de joelhos aos pés de sua mãe era matá-la e matar-se... e sua po­bre mãe já doente... e as apreensões da tísica!

Fugir com Dermany era a partilha da infâmia...

Dermany era ladrão e condenado...

Mas ainda assim Dermany era o pai de seu filho... que contas do pai daria ela a seu filho?...

E se ela conseguisse obter o perdão de seus pais, estes no infalível cui­dado que tomariam para esconder a sua degradação, que fariam de seu fi­lho? Que destino dariam à inocente criatura?...

Em sua presumida maternidade a voz do ventre falava-lhe ao coração.

Cândida não estava, mas supondo-se condenada a ser mãe, já defendia seu filho.

Foi no meio dessa tempestade de idéias tormentosas e cada qual mais pungente, que Lucinda voltou para junto de sua senhora.

A padecente estendeu os braços para o carrasco de máscara negra e per­guntou, chorando:

— E agora que será de mim, Lucinda?

A refalsada mucama respondeu:

— Já pensei, minha senhora; há um remédio... cruel, mas certís­simo...

— Qual é?...

— O aborto...

— Oh! Nunca! Nunca!...

— Então... é preciso ter ânimo... dizer tudo e quanto antes à sua mãe...

— Eu a mataria...

— É verdade que ela parece doente... anda com uma tosse...

— E então?

— Não vejo outro recurso, minha senhora...

— E... Dermany?

— Eu não falo mais nesse homem a minha senhora.

— Se meu pai consentisse o nosso casamento, e Dermany quisesse viver comigo no fundo de um deserto...

Lucinda não respondeu.

— Fala - disse Cândida em tom quase humilde.

A mucama falou:

— Minha senhora não pode esperar tal consentimento.

— Eu o sei.

— Pode porém obrigar o perdão de seus pais...

— E como?...

— Casando apesar deles com o Sr. Dermany: feito o casamento, o per­dão dos pais vem depois: é o que se vê sempre...

— Sim... Sim... mas esse francês... seus crimes infamantes...

— Eu não aconselho, minha senhora - disse a perversa escrava.

— Ah! Lucinda...

Cândida interrompeu-se, e retorcendo-se com ansiedade e náuseas, imediatamente depois experimentou ainda urna vez a ação vomitiva do tártaro emético tomado no café.

— Não há dúvida possível - disse a mucama escrava - e o pior é que em poucos dias hão de começar as suspeitas de minha senhora-velha...

— Meu Deus! - exclamou Cândida em desespero.

— Minha senhora, é necessário resignar-se...

— Oh! Não! Não! Não! É impossível! Antes morrer!

— E seu filho?... - perguntou a escrava-demônio.

Cândida desfez-se em pranto angustiado.

A escrava ia evidentemente dominando de novo a senhora, e arrastan­do-a para as garras de Dermany.

Ao meio-dia Liberato apresentou-se a seus pais e teve com eles longa conferência particular, terminada a qual foi alegre e feliz, pela esperança do casamento de sua irmã com Frederico, abraçar a noiva.

Cândida recebeu o irmão como o seu primeiro e natural amigo e nas circunstâncias extremas em que se achava, nos confrangimentos do seu coração, procurou consolações, esperanças de comiseração e de amparo, mostrando-se leal e sincera no que podia sê-lo sem confessar a sua ignomínia. Liberato era precipitado e violento.

Ouvindo a irmã confessar que o seu casamento com Frederico não era um ajuste realmente assentado entre ambos, e que só os padecimentos de sua mãe aconselhavam deixá-la por algum tempo nessa ilusão suave, rom­peu em protestos e ameaças que revoltaram a infeliz moça tão desespera­da já.

O cuidado dos sofrimentos de Leonídia apenas conteve as explosões de Liberato fora dos aposentos de Cândida; ele, porém, declarou ali que sabia como Dermany se introduzia na casa para falar com os escravos e jurou que poria termo imediato a todos os escândalos com que a irmã infamava sua família.

Em vez de um amigo consolador, esperançoso, indulgente, dedicado, Cândida encontrara em seu irmão juiz severo, ameaçador, terrível, e, para maior mal, Liberato receoso de não poder ocultar de sua mãe doente as impressões inesperadas e acerbas que recebera em sua conversação com a irmã, saiu furioso, e não voltou à casa de seu pai senão à noite em compa­nhia de Frederico.

Vinham ambos, Liberato e Frederico, resolvidos a fazer com que Flo­rêncio da Silva tomasse providências para melhor garantir o respeito devi­do à sua família. A condenação do serviço de escravos no interior da casa, e especialmente a remoção pronta e urgentíssima da mucama de Cândida e do pajem fiel de Florêncio da Silva eram as principais exigências, ou os primeiros conselhos dos dois mancebos.

O veneno da escravidão estava prática e evidentemente reconhecido por Liberato e Frederico nas relações do fingido lacaio com os escravos da casa ameaçada de desonra; ambos vinham denunciar a traição dos escravos mais estimados da família dos senhores, a ação maléfica dessas vítimas-al­gozes, vítimas pela prepotência que lhes impõe a escravidão, algozes pelo dano que fazem, pelas vinganças que tomam, pela imoralidade e pela corrupção que inoculam.

A princípio conteve-os a presença suspeitosa de Cândida; mas em bre­ve a triste e conturbada moça deixou a sala, como se compreendesse que estava ali acanhando e impedindo expansões que urgiam manifestar-se.

Os pais e os irmãos, Florêncio da Silva e Leonídia, Liberato e Frederico aplaudiram-se da retirada de Cândida, e longamente se entregaram às mais sérias e graves combinações.

Mas a noite ia avançando e Leonídia foi chamar a filha, pois que che­gara a hora de servir-se o chá.

Florêncio da Silva e os dois mancebos conversavam ainda sossegadamente; quando pálida, perturbada, convulsa, Leonídia entra de novo na sala, e com a face decomposta, a voz surda, sepulcral e horrivelmente con­traída diz ou balbucia:

— Cândida... desapareceu

— Quê?!!! - exclamaram três vozes.

— Fugiu!!! - tornou Leonídia.

E caindo em uma cadeira a pobre mãe levou ambas as mãos ao rosto, abaixou a cabeça, e abrindo a boca, lançou uma golfada de sangue.

— Leonídia!... - gritou Florêncio da Silva, correndo a acudir a esposa.

— Minha mãe! Minha mãe!... - disse Frederico, chorando. - Minha mãe! Coragem! Eu juro que salvarei Cândida para salvar a sua vida!

E lançou-se precipitadamente para fora da sala e da casa.

— Liberato! Acompanha Frederico! - disse Leonídia nos braços do marido, e quase sem voz.

Liberato voou em seguida do irmão adotivo.

A mucama escrava consumara finalmente a sua obra.

Vendo Cândida sair apreensiva e temerosa da sala, a perversa Lucinda correu a ela em tremente agitação e anunciou-lhe aterradoras novas, de­clarando que o pajem de seu senhor, posto em confissão por Liberato, de­nunciara medroso todos os segredos do amor de sua senhora-moça e de Dermany, não o deixando ignorar nem mesmo a alucinação e o erro da noite sinistra; que Liberato furioso jurara medonha vingança, de que ela, pobre escrava, ia ser a primeira vítima; que Dermany fora reconhecido na última noite por Frederico, e que em desvario inaudito ousara voltar ain­da, e estava no quarto do pajem e absolutamente decidido a subir e a apresentar-se na sala, arrostando tudo para reclamar sua noiva, se esta não lhe fosse falar imediatamente.

Lucinda chorava, tremia, e despedia-se de sua senhora, dizendo que ia fugir...

Cândida apavorada, e no maior desatino, toda entregue aos impulsos do terror, perdida, doida, e nesse estado de abandono da própria razão, nesse delírio compelida pela escrava, lançou-se precipitada para o saguão e entrou no quarto onde estava Dermany.

O jovem francês radiou com alegria satânica.

— Este momento é toda nossa vida - disse ele com voz comovida, mostrando duas folhas de papel a Cândida. - Aqui estão as licenças que consegui hoje obter para que em qualquer igreja o primeiro padre que encontrarmos abençoe o nosso casamento. Lê e fujamos! Vem ser minha esposa!

— Cândida toda trêmula nem olhou para os falsificados documentos que Dermany lhe apresentava, e estendendo-lhe a mão, balbuciou apenas:

— Vamos.

E aceitando sem repugnância o braço de um homem que trazia libré de lacaio, acompanhou-o, fugindo da casa de seus pais.

A escrava mucama os seguiu levando uma trouxa de vestidos seus: evidentemente ela se tinha preparado.

Dermany caminhava apressado, e Cândida deixava-se quase arrastar, e arfava de fadiga, quando teve de entrar naquele pequeno povoado de ca­sinholas que se escondem humildes, e a que o povo deu o nome de cor­tiço.

— Quem traz você aí? - perguntou um velho que estava sentado no portão.

— Minha irmã e uma escrava: é só por uma hora - respondeu Der­many.

Cândida confusa, vergonhosa pelas observações rudes e desrespeitosas que ia ouvindo a homens e mulheres que encontrava e a olhavam rindo-se, subiu a uma espécie de galeria baixa, estreita, agreste, para a qual se abriam muitas portas todas igualmente pequenas, e onde não havia uma só janela.

Indivíduos de ambos os sexos, todos vestidos pobremente, alguns mal­trapilhos, entravam por aquelas portas, ou saíam para a galeria, galhofan­do grosseiramente.

Cândida agarrava-se ao braço de Dermany, que enfim parou diante da última porta, e abrindo-a, disse à infeliz moça:

— Entra.

Cândida entrou seguida de Lucinda, e achou-se em uma saleta, cuja mobília limitava-se a uma cama, uma agreste mesa, e um banco de pau.

Lucinda começava a espantar-se.

Dermany chamou o morador do quarto vizinho, que pronto acudiu à sua voz; era um mancebo asselvajado e que indicava ocupar-se de gros­seiro mister.

— Manuel, vai correndo buscar-me por todo preço um carro com pos­santes bestas; dirás na cachoeira que é para ir já a Andaraí levar uma fa­mília.

— Estou morto de cansaço: cavei terra o dia todo...

— E quanto ganhaste?

— Mil e quinhentos a seco.

— Dou-te três mil-réis, se me trouxeres o carro antes de uma hora.

— Olhe lá!

— Toma mil-réis por conta.

Manuel recebeu o bilhete de mil-réis e partiu acelerado.

Dermany entrou no quarto e abraçando Cândida beijou-lhe cem vezes as faces e os lábios, dando-lhe os mais doces nomes.

Lucinda afastou-se para a galeria.

O jovem francês requintou seus afagos; mas Cândida trêmula, ansiosa, e obstinadamente insensível às carícias, disse por vezes:

— Fujamos primeiro...

Dermany saiu do quarto, dizendo de mau modo:

— Espera-me pois aí.

Lucinda voltou logo para junto de sua senhora.

Cândida principiava a medir as proporções escandalosas e horríveis de sua situação.

O cortiço causava-lhe medo e asco...

Dermany não a encantava mais, despertava-lhe a vergonha na cons­ciência...

A fuga da casa de seus pais lembrava-lhe o opróbrio...

— Oh, minha mãe!... - exclamou a desgraçada.

— Não se atormente, minha senhora - disse Lucinda.

— Ah! Que me resta agora?...

— O amor do Sr. Dermany, e em todo o caso e sempre a fidelidade da sua pobre escrava.

Cândida, coitada, abraçou Lucinda.

E pouco depois disse:

— Tenho sede... água! Água!...

A mucama não achou água no quarto de Dermany.

— Espere, minha senhora; vou procurar e pedir um copo d'água.

Cândida ficou só, e como que se sentiu agonizante naquela solidão de criminosa.

Ouvia gargalhadas, e convulsava pensando que era da sua ignomínia que gargalhavam.

Ouvia abrir e fechar portas e tremia por mil perigos, mil vexames, e mil afrontas no meio de tanta gente a viver como em comum.

E Dermany não voltava... nem Lucinda lhe trazia água...

E ela tinha medo e febre... terror e sede abrasadora...

Cândida ouviu leve ruído próximo... o seu medo exagerou-se... quis e não ousou gritar por socorro... levantou-se do banco de pau e saiu para a galeria.

Viu um pátio e gente nele...

Estremeceu, escutando atrás de si brando gemido...

Voltou-se e viu aberta a porta do aposento vizinho... e outra vez ruído abafado que vinha desse quarto...

Olhou... deu um passo a tremer... chegou à porta do quarto e... titu­beou, desprendeu grito doloroso e horrível, e deitou a correr frenética e impetuosamente pela galeria, pela escada, pelo pátio, a chorar, e a ulular como louca...

O que ela tinha visto no quarto era esquálido, infame, e espantosa­mente perverso e criminoso...

Cândida sacrificara tudo, riqueza, posição, crédito, honra, o nome de seu pai, talvez a vida de sua mãe, a glória de ser esposa de Frederico para seguir Dermany...

Deixara-se levar, dominar, arrastar pela sua mucama, a escrava...

Dermany lhe garantira amor, oh! Mais do que amor então, a benção nupcial pelo primeiro padre na primeira igreja...

Lucinda, a escrava que a levara à perdição, poucos minutos antes lhe assegurara a sua fidelidade em todo o caso e sempre.

E Cândida acabava de ver com os seus olhos naquela noite, naquele lugar ao pé do seu sacrifício, na suprema dedicação oprobriosa, em paga da mão rejeitada de Frederico, em paga da mancha lançada no nome de seu pai, em paga da vida ameaçada de sua mãe, em paga da sua reputação e da sua honra, oh! Ela acabava de ver Dermany nos braços de Lucinda!!!

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