Para onde corria Cândida em fúria e aflição desesperada?... Ela não poderia dizê-lo; mas arrebatada, já com os cabelos soltos e caídos, esbarrando aqui e ali nas pessoas que encontrava, arrojou-se além do portão, sem ver ou sem lhe importar alguns soldados que ali se tinham postado, e impetuosa avançou pela rua...
— É uma mulher doida - diziam uns.
— É alguma mulher dissoluta que o amante espancou e pôs fora de casa - diziam outros.
— É talvez uma pobre mãe que vai buscar o médico para ver-lhe o filhinho que lhe morre - diziam os mais compassivos.
Mas para onde corria Cândida?
A mucama escrava a arrancara do branco céu da inocência e a fizera em menina sábia precoce da ciência pudenda da mulher.
A mucama escrava amesquinhara-lhe o pudor, distanciara-a do recato, impelira-a para vãos e aviltantes namoros.
A mucama escrava a atraiçoara duas vezes com Dermany, protegendo perversa um amor fingido e funestíssimo, e tornando-se amante infame do suposto noivo de sua senhora.
A mucama escrava depois de tentar debalde arrastá-la para as garras de Dermany, abrira a este a porta do quarto de sua senhora, e a abandonara quase desmaiada ao algoz.
A mucama escrava dera-lhe doses repetidas de uma substância vomitiva, para aluciná-la com a convicção de um estado, que patentearia o seu opróbrio.
A mucama escrava finalmente, inventando ainda aterradoras notícias, conseguira arrancá-la da nobre e respeitada casa de seus pais, para levá-la de rastos pelo braço de um miserável para o escuro recanto de um cortiço.
O mais, a infidelidade, a ingratidão, a torpeza, a fria perversidade da mucama escrava e de Dermany eram o castigo da Providência imposto à moça que se rebaixara, e tanto ofendera a seus pais, ao dever e à sociedade.
Mas para onde corria Cândida?
Fugida da casa paterna, não ousando nem sabendo lá tornar, escapando a Lucinda, a Dermany, ao cortiço, nodoada, desonrada, perdida, para onde poderia ela correr, senão para os braços do primeiro libertino que reparasse em sua beleza?
E depois do primeiro, o segundo senhor e dono, e, depois vencidos, desfeitos os últimos vexames, a extrema degradação...
Era portanto ainda a mucama escrava que fatal empurrava implacavelmente sua senhora para a prostituição e o alcouce...
Oh! Como a escravidão é veneno e peste!
E Cândida corria sempre sem saber para onde, com os cabelos e os vestidos em desordem, corria insensata, delirante, e levando no turbilhão desconcertado, e horrível de mil idéias obscuras, negras, uma só idéia distinta, mas lúgubre... era encontrar o mar...
E corria sempre surda e cega, quando de súbito duas mãos a agarraram, e uma voz amiga exclamou:
— Minha irmã!
Cândida reconheceu Frederico, exalou um gemido de agonia, e seu corpo sem vida dobrou-se inerte nos braços do mancebo.
— Que seja um desmaio, meu Deus! - disse Frederico, sustendo Cândida.
Seja antes a morte - disse Liberato, afastando-se apressado.
— Ajuda-me a socorrer nossa irmã!...
Liberato em vez de responder ou voltar, seguiu, rugindo de raiva, para o cortiço.
Era tarde para a vingança.
Quando Liberato chegou ao portão do cortiço, saía por ele Dermany no meio de soldados que o levavam preso para ser entregue à legação francesa.
O jogador tinha perdido a partida.
Liberato conteve o seu fervor e nem reparou no vulto de uma mulher que, ao percebê-lo recuou, escondendo-se por entre os curiosos que em chusma observavam a cena.
Dermany, ouvindo o grito de Cândida e o ruído de sua carreira pela galeria não tardara também em correr no encalço da sua vítima; mas ao chegar ao portão hesitara, vendo os soldados, e logo fugira para o interior do cortiço, onde em breve fora descoberto e preso.
Lucinda acompanhara temerosa a diligência feita pela força pública, e seguira a esta, lamentando em voz baixa Dermany, até que, ao passar o portão e ao dar com os olhos no irmão de sua senhora, desviou-se e, envolvendo-se na multidão, foi desnorteada procurar abrigo, onde se acoutasse.
A Providência marcava por diversos modos a punição dos criminosos; mas de envolta com essas punições acendia uma luz que somente os cegos não vêem, a luz do infortúnio, da desmoralização, da miséria moral, que em vingança implacável a escravidão impõe à sociedade escravagista.
Os escravos são vítimas; mas sabem ser vítimas-algozes.
Lucinda, a mucama escrava, vítima porque era escrava, tinha sido algoz de sua senhora.
Que aproveite o exemplo.
O zelo da mais santa amizade, teceu delicado véu para encobrir o vergonhoso procedimento de Cândida. Segundo as explicações de Frederico, a pobre moça tomada de delírio febril saíra de casa e correra em desatino pela rua, onde ele e Liberato a encontraram só, e portanto isenta de comprometimento que a desdourasse.
Os médicos chamados para socorrer Leonídia, tiveram também de prestar instantes cuidados a Cândida, e reforçaram as explicações de Frederico, declarando-a atacada de gravíssima afecção cerebral a que chamaram meningite.
As folhas diárias, dando conta da prisão de Dermany, informaram, que a diligência policial se efetuara com extraordinária habilidade, sendo o criminoso surpreendido quando acabava de entrar no cortiço com uma mulher de ruins costumes, que aliás fugira precípite ao ver preso o sócio de suas orgias.
Lucinda e o pajem fiel de Florêncio da Silva tinham desaparecido.
Aparentemente ao menos, a reputação de Cândida achava-se escudada; mas só aparentemente, porque havia ainda outros escravos na casa, além do pajem e da mucama; esses porém tremiam e ainda não ousavam detrair...
Todavia a situação da família de Florêncio da Silva era duplamente lutuosa; porquanto Cândida não dava esperanças de salvar-se, e Leonídia ia agravando sempre mais as tristes apreensões dos médicos.
Cândida tinha acessos de delírio terrível, e então era de ver a indústria sublime com que Leonídia, distanciava todos, e até seu marido, do lado da filha: ela tinha invenções, idéias, recursos que só as mães os têm.
Uma vez, Florêncio da Silva em consternação, queria por força ficar ao pé da filha; mas Leonídia empurrando-o desesperada para longe, exclamou:
— Ela vai pôr-se nua!... Sai!
Em outro dia, porém, a mísera mãe a sós, e sem temor de algum outro ouvido, a desgraçada mãe a soluçar, a retorcer-se de dor, ouviu na voz do delírio choroso e pungente a relação entrecortada, repetida, mas então completamente feita de todos os erros, de todas as misérias de sua filha, e até da convicção de um estado que não era real, e que se o fosse, como ela supunha, exibiria vivo testemunho da desonra.
Então Leonídia desfeita em lágrimas, em aflição extrema, quando terminou o acesso do delírio, ajoelhou-se junto ao leito, apertou entre as suas as mãos ardentes da filha, e com voz gemente, cheia de ternura indizível, de verdade profunda, de consolação lúgubre, e, deixem-nos dizê-lo assim, de desespero resignado, disse:
— Minha filha! Meu bem! Meu anjo! Minha Cândida! Morre! Morre, minha filha; tu deves morrer: não fales mais... não delires mais... morre, meu anjo! Olha... eu também vou morrer...
E beijando mil vezes as mãos de Cândida, repetia:
— Morramos, minha filha, querida!... Tu deves morrer...
— Oh, minha mãe!... Minha mãe! Eu não quero que morras! Eu perdôo, esqueço todos os desvarios de Cândida e lhe darei o meu nome!
— Frederico!... - exclamou Leonídia, levantando-se.
— Frederico estava em pé atrás de sua mãe adotiva, e com o rosto banhado em pranto.
Viverás, minha mãe?... - perguntou ele ternamente.
Leonídia humilhada e comovida, duvidosa e esperançosa, fora de si pela confusão, pela vergonha, pela dor, por mil sentimentos diversos, em vez de responder, também perguntou:
— Ouviste... o horror do seu delírio?...
— Ouvi tudo... sei tudo...
— E tu... Frederico?... Ainda assim... Frederico?...
— Viverás, minha mãe?...
Leonídia tomou as mãos do mancebo, encarou-o de face, e com os olhos em fogo, com admiração inexprimível, com a voz um pouco rouca, com acento de gratidão sublime, disse, sem pensar no que dizia, e como estupefata: - De que altura és tu?
— Oh, minha mãe!!!
A extremosa mãe lançou-se sobre Cândida, e abraçando-a bradou:
— Vive, minha filha!... Vive, minha filha! Vive! Vive!
Cândida pareceu sorrir triste, mas docemente, ao brado do coração de sua mãe.
Dois meses depois celebrou-se, ainda na cidade do Rio de Janeiro, o casamento de Frederico e Cândida.
Muito mais rico do que a noiva, conhecido e estimado pela nobreza de seus sentimentos, pela severidade de seus costumes, pelo brilho de suas virtudes, Frederico deu com o seu nome a Cândida uma égide que a pôs a salvo dos botes de injuriosas suspeitas.
Grande aos olhos da família de Cândida, anjo salvador para esta, Frederico, abençoado por seu pai, sentiu-se no ato de seu casamento e no meio das tristes lembranças dos passados desvarios de sua noiva, esplêndido aos olhos do Deus do perdão.
Quando a cerimônia religiosa terminou, ele deu a mão a Cândida e voltou-se para a família.
O olhar de Leonídia cheio de celeste amor abriu-lhe a porta do paraíso.
Leonidia tivera razão de perguntar de que altura era Frederico; porque na sua virtude ele se mostrou alto, como o sacrifício que fizera ao amor de sua mãe adotiva.
Á noite e recolhidos à câmara nupcial, Cândida fez um movimento para ajoelhar-se diante de Frederico.
Ele a conteve e disse-lhe docemente:
— O passado morreu: no altar donde viemos hoje, eu te purifiquei e Deus nos abençoou.
E abraçando a noiva, beijou-a na fronte.
Alguns dias depois os noivos e seus pais preparavam-se para voltar a seu lares, quando um agente policial, ou interesseiro procurador se apresentou na casa de Florêncio da Silva, anunciando que se achavam detidos e presos na casa de correção, um pajem, e uma negra crioula que se confessavam escravos, dando o nome de Florêncio, como o de seu senhor.
Frederico avançou para o agente policial, e tomando a palavra ao sogro, disse:
— Nossos escravos ou não, nós os abandonamos ao seu destino; pois que de nós fugiram, rejeitamo-los.
— Então... como ficam eles?
— Pouco nos importa isso: a liberdade, como prêmio, eles a não merecem; como direito, a sociedade ou o governo, que lhos outorgue. Eles nos fugiram, nós os abandonamos.
O agente policial retirou-se confundido.
Frederico voltou-se para a família estupefata e disse:
— A escravidão é peste; por que não nos havemos de libertar da peste?... Que faríamos dessa mucama e desse pajem?... Matá-los?... Fora um crime hediondo: conservá-los em cativeiro?... Uma vergonha da família em constante martírio, considerando, vendo, e sofrendo diante desses escravos: vendê-los?... Vingança ignóbil que mancharia a mão que recebesse o dinheiro, preço da venda dos criminosos empurrados impunes...
— Mas esses dois traidores e perversos...
— Árvore da escravidão, deram seus frutos. Quem pede ao charco água pura, saúde à peste, vida ao veneno que mata, moralidade à depravação, é louco. Dizeis que com os escravos, e pelo seu trabalho vos enriqueceis: que seja assim; mas em primeiro lugar donde tirais o direito da opressão?... Em face de que Deus vos direis senhores de homens, que são homens como vós, e de que vos intitulais donos, senhores, árbitros absolutos?... E depois com esses escravos ao pé de vós, em torno de vós, com esses miseráveis degradados pela condição violentada, engolfados nos vícios mais torpes, materializados, corruptos, apodrecidos na escravidão, pestíferos pelo viver no pantanal da peste e tão vis, tão perigosos postos em contacto convosco, com vossas esposas, com vossas filhas, que podereis esperar desses escravos, do seu contacto obrigado, da sua influência fatal?... Oh! Bani a escravidão!... A escravidão é um crime da sociedade escravagista, e a escravidão se vinga desmoralizando, envenenando", desonrando, empestando, assassinando seus opressores. Oh!... Bani a escravidão! Bani a escravidão! Bani a escravidão!
Fonte: www.dominiopublico.gov.br