Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  As Vítimas Algozes Joaquim Manuel Macedo - Página 13  Voltar

AS VÍTIMAS ALGOZES

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Lucinda, a mucama

Para onde corria Cândida em fúria e aflição desesperada?... Ela não poderia dizê-lo; mas arrebatada, já com os cabelos soltos e caídos, esbarrando aqui e ali nas pessoas que encontrava, arrojou-se além do portão, sem ver ou sem lhe importar alguns soldados que ali se tinham postado, e impetuosa avançou pela rua...

— É uma mulher doida - diziam uns.

— É alguma mulher dissoluta que o amante espancou e pôs fora de casa - diziam outros.

— É talvez uma pobre mãe que vai buscar o médico para ver-lhe o filhinho que lhe morre - diziam os mais compassivos.

Mas para onde corria Cândida?

A mucama escrava a arrancara do branco céu da inocência e a fizera em menina sábia precoce da ciência pudenda da mulher.

A mucama escrava amesquinhara-lhe o pudor, distanciara-a do recato, impelira-a para vãos e aviltantes namoros.

A mucama escrava a atraiçoara duas vezes com Dermany, protegendo perversa um amor fingido e funestíssimo, e tornando-se amante infame do suposto noivo de sua senhora.

A mucama escrava depois de tentar debalde arrastá-la para as garras de Dermany, abrira a este a porta do quarto de sua senhora, e a abandonara quase desmaiada ao algoz.

A mucama escrava dera-lhe doses repetidas de uma substância vomitiva, para aluciná-la com a convicção de um estado, que patentearia o seu opróbrio.

A mucama escrava finalmente, inventando ainda aterradoras notícias, conseguira arrancá-la da nobre e respeitada casa de seus pais, para levá-la de rastos pelo braço de um miserável para o escuro recanto de um cortiço.

O mais, a infidelidade, a ingratidão, a torpeza, a fria perversidade da mucama escrava e de Dermany eram o castigo da Providência imposto à moça que se rebaixara, e tanto ofendera a seus pais, ao dever e à socie­dade.

Mas para onde corria Cândida?

Fugida da casa paterna, não ousando nem sabendo lá tornar, escapan­do a Lucinda, a Dermany, ao cortiço, nodoada, desonrada, perdida, para onde poderia ela correr, senão para os braços do primeiro libertino que re­parasse em sua beleza?

E depois do primeiro, o segundo senhor e dono, e, depois vencidos, desfeitos os últimos vexames, a extrema degradação...

Era portanto ainda a mucama escrava que fatal empurrava implacavel­mente sua senhora para a prostituição e o alcouce...

Oh! Como a escravidão é veneno e peste!

E Cândida corria sempre sem saber para onde, com os cabelos e os vestidos em desordem, corria insensata, delirante, e levando no turbilhão desconcertado, e horrível de mil idéias obscuras, negras, uma só idéia dis­tinta, mas lúgubre... era encontrar o mar...

E corria sempre surda e cega, quando de súbito duas mãos a agarraram, e uma voz amiga exclamou:

— Minha irmã!

Cândida reconheceu Frederico, exalou um gemido de agonia, e seu corpo sem vida dobrou-se inerte nos braços do mancebo.

— Que seja um desmaio, meu Deus! - disse Frederico, sustendo Cândida.

Seja antes a morte - disse Liberato, afastando-se apressado.

— Ajuda-me a socorrer nossa irmã!...

Liberato em vez de responder ou voltar, seguiu, rugindo de raiva, para o cortiço.

Era tarde para a vingança.

Quando Liberato chegou ao portão do cortiço, saía por ele Dermany no meio de soldados que o levavam preso para ser entregue à legação francesa.

O jogador tinha perdido a partida.

Liberato conteve o seu fervor e nem reparou no vulto de uma mulher que, ao percebê-lo recuou, escondendo-se por entre os curiosos que em chusma observavam a cena.

Dermany, ouvindo o grito de Cândida e o ruído de sua carreira pela galeria não tardara também em correr no encalço da sua vítima; mas ao chegar ao portão hesitara, vendo os soldados, e logo fugira para o interior do cortiço, onde em breve fora descoberto e preso.

Lucinda acompanhara temerosa a diligência feita pela força pública, e seguira a esta, lamentando em voz baixa Dermany, até que, ao passar o portão e ao dar com os olhos no irmão de sua senhora, desviou-se e, en­volvendo-se na multidão, foi desnorteada procurar abrigo, onde se acou­tasse.

A Providência marcava por diversos modos a punição dos criminosos; mas de envolta com essas punições acendia uma luz que somente os cegos não vêem, a luz do infortúnio, da desmoralização, da miséria moral, que em vingança implacável a escravidão impõe à sociedade escravagista.

Os escravos são vítimas; mas sabem ser vítimas-algozes.

Lucinda, a mucama escrava, vítima porque era escrava, tinha sido al­goz de sua senhora.

Que aproveite o exemplo.

O zelo da mais santa amizade, teceu delicado véu para encobrir o vergonhoso procedimento de Cândida. Segundo as explicações de Frederico, a pobre moça tomada de delírio febril saíra de casa e correra em desatino pela rua, onde ele e Liberato a encontraram só, e portanto isenta de com­prometimento que a desdourasse.

Os médicos chamados para socorrer Leonídia, tiveram também de prestar instantes cuidados a Cândida, e reforçaram as explicações de Fre­derico, declarando-a atacada de gravíssima afecção cerebral a que chama­ram meningite.

As folhas diárias, dando conta da prisão de Dermany, informaram, que a diligência policial se efetuara com extraordinária habilidade, sendo o criminoso surpreendido quando acabava de entrar no cortiço com uma mulher de ruins costumes, que aliás fugira precípite ao ver preso o sócio de suas orgias.

Lucinda e o pajem fiel de Florêncio da Silva tinham desaparecido.

Aparentemente ao menos, a reputação de Cândida achava-se escuda­da; mas só aparentemente, porque havia ainda outros escravos na casa, além do pajem e da mucama; esses porém tremiam e ainda não ousavam detrair...

Todavia a situação da família de Florêncio da Silva era duplamente lu­tuosa; porquanto Cândida não dava esperanças de salvar-se, e Leonídia ia agravando sempre mais as tristes apreensões dos médicos.

Cândida tinha acessos de delírio terrível, e então era de ver a indústria sublime com que Leonídia, distanciava todos, e até seu marido, do lado da filha: ela tinha invenções, idéias, recursos que só as mães os têm.

Uma vez, Florêncio da Silva em consternação, queria por força ficar ao pé da filha; mas Leonídia empurrando-o desesperada para longe, ex­clamou:

— Ela vai pôr-se nua!... Sai!

Em outro dia, porém, a mísera mãe a sós, e sem temor de algum outro ouvido, a desgraçada mãe a soluçar, a retorcer-se de dor, ouviu na voz do delírio choroso e pungente a relação entrecortada, repetida, mas então completamente feita de todos os erros, de todas as misérias de sua filha, e até da convicção de um estado que não era real, e que se o fosse, como ela supunha, exibiria vivo testemunho da desonra.

Então Leonídia desfeita em lágrimas, em aflição extrema, quando ter­minou o acesso do delírio, ajoelhou-se junto ao leito, apertou entre as suas as mãos ardentes da filha, e com voz gemente, cheia de ternura indi­zível, de verdade profunda, de consolação lúgubre, e, deixem-nos dizê-lo assim, de desespero resignado, disse:

— Minha filha! Meu bem! Meu anjo! Minha Cândida! Morre! Morre, minha filha; tu deves morrer: não fales mais... não delires mais... morre, meu anjo! Olha... eu também vou morrer...

E beijando mil vezes as mãos de Cândida, repetia:

— Morramos, minha filha, querida!... Tu deves morrer...

— Oh, minha mãe!... Minha mãe! Eu não quero que morras! Eu perdôo, esqueço todos os desvarios de Cândida e lhe darei o meu nome!

— Frederico!... - exclamou Leonídia, levantando-se.

— Frederico estava em pé atrás de sua mãe adotiva, e com o rosto banha­do em pranto.

Viverás, minha mãe?... - perguntou ele ternamente.

Leonídia humilhada e comovida, duvidosa e esperançosa, fora de si pe­la confusão, pela vergonha, pela dor, por mil sentimentos diversos, em vez de responder, também perguntou:

— Ouviste... o horror do seu delírio?...

— Ouvi tudo... sei tudo...

— E tu... Frederico?... Ainda assim... Frederico?...

— Viverás, minha mãe?...

Leonídia tomou as mãos do mancebo, encarou-o de face, e com os olhos em fogo, com admiração inexprimível, com a voz um pouco rouca, com acento de gratidão sublime, disse, sem pensar no que dizia, e como estupefata: - De que altura és tu?

— Oh, minha mãe!!!

A extremosa mãe lançou-se sobre Cândida, e abraçando-a bradou:

— Vive, minha filha!... Vive, minha filha! Vive! Vive!

Cândida pareceu sorrir triste, mas docemente, ao brado do coração de sua mãe.

CONCLUSÃO

Dois meses depois celebrou-se, ainda na cidade do Rio de Janeiro, o casamento de Frederico e Cândida.

Muito mais rico do que a noiva, conhecido e estimado pela nobreza de seus sentimentos, pela severidade de seus costumes, pelo brilho de suas virtudes, Frederico deu com o seu nome a Cândida uma égide que a pôs a salvo dos botes de injuriosas suspeitas.

Grande aos olhos da família de Cândida, anjo salvador para esta, Frederico, abençoado por seu pai, sentiu-se no ato de seu casamento e no meio das tristes lembranças dos passados desvarios de sua noiva, esplêndi­do aos olhos do Deus do perdão.

Quando a cerimônia religiosa terminou, ele deu a mão a Cândida e voltou-se para a família.

O olhar de Leonídia cheio de celeste amor abriu-lhe a porta do paraíso.

Leonidia tivera razão de perguntar de que altura era Frederico; porque na sua virtude ele se mostrou alto, como o sacrifício que fizera ao amor de sua mãe adotiva.

Á noite e recolhidos à câmara nupcial, Cândida fez um movimento para ajoelhar-se diante de Frederico.

Ele a conteve e disse-lhe docemente:

— O passado morreu: no altar donde viemos hoje, eu te purifiquei e Deus nos abençoou.

E abraçando a noiva, beijou-a na fronte.

Alguns dias depois os noivos e seus pais preparavam-se para voltar a seu lares, quando um agente policial, ou interesseiro procurador se apresen­tou na casa de Florêncio da Silva, anunciando que se achavam detidos e presos na casa de correção, um pajem, e uma negra crioula que se confes­savam escravos, dando o nome de Florêncio, como o de seu senhor.

Frederico avançou para o agente policial, e tomando a palavra ao sogro, disse:

— Nossos escravos ou não, nós os abandonamos ao seu destino; pois que de nós fugiram, rejeitamo-los.

— Então... como ficam eles?

— Pouco nos importa isso: a liberdade, como prêmio, eles a não merecem; como direito, a sociedade ou o governo, que lhos outorgue. Eles nos fugiram, nós os abandonamos.

O agente policial retirou-se confundido.

Frederico voltou-se para a família estupefata e disse:

— A escravidão é peste; por que não nos havemos de libertar da peste?... Que faríamos dessa mucama e desse pajem?... Matá-los?... Fora um crime hediondo: conservá-los em cativeiro?... Uma vergonha da família em constante martírio, considerando, vendo, e sofrendo diante desses escravos: vendê-los?... Vingança ignóbil que mancharia a mão que recebesse o dinheiro, preço da venda dos criminosos empurrados im­punes...

— Mas esses dois traidores e perversos...

— Árvore da escravidão, deram seus frutos. Quem pede ao charco água pura, saúde à peste, vida ao veneno que mata, moralidade à depra­vação, é louco. Dizeis que com os escravos, e pelo seu trabalho vos enri­queceis: que seja assim; mas em primeiro lugar donde tirais o direito da opressão?... Em face de que Deus vos direis senhores de homens, que são homens como vós, e de que vos intitulais donos, senhores, árbitros abso­lutos?... E depois com esses escravos ao pé de vós, em torno de vós, com esses miseráveis degradados pela condição violentada, engolfados nos ví­cios mais torpes, materializados, corruptos, apodrecidos na escravidão, pestíferos pelo viver no pantanal da peste e tão vis, tão perigosos postos em contacto convosco, com vossas esposas, com vossas filhas, que podereis esperar desses escravos, do seu contacto obrigado, da sua influência fatal?... Oh! Bani a escravidão!... A escravidão é um crime da sociedade escravagista, e a escravidão se vinga desmoralizando, envenenando", desonrando, empestando, assassinando seus opressores. Oh!... Bani a escra­vidão! Bani a escravidão! Bani a escravidão!

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal