A escolha do noivo de Cândida era questão de máxima importância para Lucinda, pois que a ela se prendia naturalmente a do domínio de um senhor e a do sistema de vida em que sua senhora, e também ela, teriam de submeter-se.
A mucama de Cândida já conhecia Frederico e o aborrecia pela completa indiferença com que ele havia mostrado quase ignorar a sua existência.
As escravas também têm suas vaidades, embora torpes: são as vaidades que lhes concede a escravidão, torpes, como ela.
Além desse ressentimento, que aliás abonava a moralidade de Frederico, o grave caráter deste, o seu proceder, as claras disposições do ânimo circunspecto e frio, indicavam que o seu viver seria como o seu caráter, modesto, zeloso de sua reputação, sério, e reservado, e que na sua casa a honestidade, a prudência, e o sábio culto do dever, moderariam a impetuosa paixão dos gozos da vaidade de Cândida, e por conseqüência imporiam ordem à família, respeito aos costumes sãos, e não dariam margem aos cálculos de expansão libertina e aos dourados sonhos de um dia achar fortuna, com que a mucama muito se preocupava.
O que convinha a Lucinda, era para sua senhora um noivo estouvado, libidinoso, extravagante e rico; era o chefe de família desgovernando, na casa a licença aproveitando a desordem, e o desatino dos senhores facilitando a devassidão dos escravos.
Cândida, entrando para seu quarto, leu no rosto da mucama anúncios de novidade.
— Que há? - perguntou.
— Importante segredo, minha senhora.
— Dize-o.
— Querem casar minha senhora com o filho de seu padrinho.
— Deveras? Ë cômodo: sou poupada ao trabalho de procurar marido - disse Cândida negligentemente, sentando-se e oferecendo os pés, pa que a mucama lhe tirasse as botinas.
Lucinda curvou-se, e enquanto descalçava a senhora e punha em seus pés mimosos lindas chinelas de pelica bordada, refletiu sobre a indiferente frieza da resposta que recebera.
— Ah! Minha senhora já sabia?... Mas sou capaz de apostar que ignora as condições...
— As condições?... Quais são?
— Minha senhora que tem já dezesseis anos, há de esperar solteira mais dois... vale porém a pena...
Cândida, que não se demorava em pensar no casamento com Frederico, ainda não tinha calculado com esse sacrifício de dois anos de espera.
Lucinda saboreou a impressão que produzira no espírito da senhora o que acabava de dizer-lhe; logo depois prosseguiu:
— E como em dois anos, a cabeça de minha senhora pode doidejar, e onde há mais perigo de endoidecer é nos bailes e nos teatros, já se sabe por que, logo que meu senhor-moço e o Sr. Frederico tornarem a partir, minha senhora irá muito poucas vezes a tais divertimentos...
— Não entendi bem... - disse Cândida, sentindo-se ofendida.
Lucinda repetiu palavra por palavra a sua traiçoeira informação.
— Tu gracejas, Lucinda! - tornou a moça, fitando olhos brilhantes de cólera no rosto da escrava.
— Uma palavra descuidada de minha senhora poderia ser-me fatal.
— Nunca te comprometi, e preciso do teu zelo e dos teus serviços. Fala: dize-me tudo que sabes.
A mucama relatou a conversação de Florêncio da Silva e de Liberato, azedando o que podia ser desagradável à senhora, e esquecendo de plano a generosidade com que o pai protestara respeitar e defender a plena liberdade de sua filha na decisão do seu casamento com Frederico.
Cândida, tendo os olhos pregados nos lábios de Lucinda, escutou-a até o fim com os supercílios quase cerrados, e atormentando os dedos em nervoso aperto das mãos entrelaçadas. Custava-lhe sobretudo duvidar do amor de seu pai, acreditando nas combinações de prepotência e imposição, que a mucama deixava claramente entrever.
Grave, um pouco sombria e como suspeitosa, a donzela perguntou:
— Onde meu pai e meu irmão conversaram assim?
— Na sala da entrada.
— A que horas?...
— Logo que anoiteceu... às sete horas talvez.
— Pode ser... Liberato tinha ido fumar... eu ficara a ler... mas pai não tinha chegado ainda... e então?
— Também eu pensava que ele não tinha chegado - disse irrefletidamente a escrava.
— Também tu?... Pois sim: e donde ouviste a conversação?...
— Da porta que comunica a sala da entrada com o corredor.
— E que tinhas ido fazer ao corredor?
Lucinda não soube que responder, perturbou-se, tentou mentir e não pôde; quis falar e não passou de repetir:
— Eu ia... eu ia... eu ia...
Cândida corou fortemente: compreendera enfim o motivo que levara a mucama ao corredor, mas em vez de revoltar-se contra a petulância viciosa da escrava, achou somente nela uma prova da veracidade da relação que acabava de ouvir.
— Que me importa o que foste fazer ao corredor!... - exclamou.
— Minha senhora perguntava...
Que me importa!
E, levantando-se, Cândida avançou um passo para Lucinda, e voltando-lhe as costas, disse-lhe:
— Despe-me.
A mucama estendia os braços, quando a moça tornando-se de frente, rápido movimento, encarou-a de novo e perguntou:
— Não mentes?... O que dizes é verdade?
— Eu juro que é verdade, e minha senhora há de experimentar as provas do que eu disse, na vida que lhe vão dar.
Cândida rompeu a rir.
— De que ri, minha senhora?
— Não vês que me dão dois anos?... Ah, Lucinda! Querem governar o tempo; e quanto tempo? Dois anos!
E, trocando sem explicável transição o riso por seriedade pesada, pareceu começar a refletir; logo, porém, levantou os braços e com as mãos desmanchou acelerada o penteado e disse à mucama:
— Despe-me: preciso dormir.
Tinham chegado as festas do Natal, os dias de jubilosa comemoração católica, em que com as solenidades da igreja docemente se apadrinham os regozijos profanos, que principiando a 25 de dezembro vão até 6 de janeiro, e ligam assim em laços de flores o ano que cai no passado e o avança que para o futuro, o ano velho que deixa desenganos e o novo que favoneia esperanças.
Esses dias do Natal marcam a época mais alegre, e as festas por excelência da roça: quem pode foge das cidades; as povoações do interior e principalmente as fazendas e habitações rurais, abrem o seio hospitaleiro e amigo às famílias que vão gozar os encantos, beber o ar puro da natureza campestre e esquecer por breve prazo o burburinho, a etiqueta fatigadora, a vida artificial, a que têm de voltar logo depois.
É na roça o tempo das cavalgadas e das romarias de fazenda em fazenda, para, em série de banquetes e de funções, ser satisfeito o empenho de obséquios, que os fazendeiros disputam entre si, repartindo os dias para repartir a glória da hospedagem festiva.
Florêncio da Silva e Plácido Rodrigues receberam, um em sua casa de campo, o outro na sua fazenda, famílias amigas, vindas da Corte a convite de ambos. Liberato e Frederico tiveram em alguns antigos companheiros do colégio seus hóspedes especiais.
Com três estudantes do curso jurídico de São Paulo convidados de Liberato viera também um jovem francês de nome Alfredo Souvanel.
Como que a fatalidade, ou o destino, aproximavam Souvanel de Liberato e Frederico: os dois mancebos tinham-se encontrado com ele pela primeira vez, havia dezoito meses, em uma breve excursão que os levara à Suíça, a visitar alguns asilos agrícolas, e separando-se no fim de três dias quando apenas se conheciam, de novo, passadas algumas semanas, se achavam reunidos com Souvanel no mesmo alojamento em Stuttgart, Alemanha, onde seguiam os estudos teóricos e práticos do Instituto Agrícola de Hohenheim.
Aí, na capital do Wurtemberg, estreitaram-se naturalmente as relações dos dois brasileiros com Souvanel, que se dizia proscrito político, e que viv eu vida vadia e alegre com os estudantes da escola agrícola, até que ao cabo de alguns meses, e de repente, despediu-se dos amigos na mesma hora em que se partiu, sem dizer para onde.
De volta da Europa chegando ao Rio de Janeiro em novembro, Liberato e Frederico esbarraram com Souvanel em companhia de amigos e antigos colegas seus, estudantes que vinham de São Paulo em férias.
Alfredo Souvanel devia contar cerca de vinte e seis anos; de estatura regular, louro, de olhos cintilantes, era de aspecto agradável, bem talhado de corpo, apurava-se no trajar tanto, quanto lho permitiam seus fracos recursos. Dizia-se bacharel em letras; tinha instrução superficial, mas inteligência fácil, espírito, e gênio alegre; jogava com destreza o florete e a espada, atirava com admirável precisão a pistola, e, melhor que tudo isso, era habilíssimo pianista, dispunha de excelente voz de barítono, tocava e cantava como tocam e cantam os mestres, que além do perfeito conhecimento da arte, têm o segredo do sentimento que a sublimiza.
Pretendia ele ser uma das vítimas do despotismo de Luís Napoleão, e amigo particular de Louis Blanc; dizia ter sido ativo colaborador de mais de uma gazeta em Paris, e falava com entusiasmo da França, e da república socialista; adorava Lamartine poeta, e detestava o político, porque em sua opinião Lamartine sacrificara a revolução de quarenta e oito.
Souvanel se apresentara em São Paulo a procurar discípulos de música, e das línguas francesa e inglesa; ganhou, porém, muito mais com a recomendação de proscrito político na sociedade dos estudantes, de quem astuto se aproximou.
Quem diz estudante, diz generosidade. Os acadêmicos de São Paulo protegeram Souvanel, a vítima do despotismo perseguidor e cruel, o mártir das idéias liberais; estenderam-lhe as mãos da mocidade crédula, mas ainda nobre e grandiosa nessa credulidade, que testifica a majestosa incapacidade de hipocrisia e de perfídia, na insuspeita da hipocrisia e da perfídia: a mocidade; e na mocidade principalmente os estudantes acadêmicos manifestam a nobreza e altitude de seus corações nas belas ilusões, em que se enganam com os homens e o mundo. Eles se enganam, porque ainda são melhores do que os homens e o mundo que os enganam.
Os acadêmicos de São Paulo adotaram Souvanel: para disfarçar a benificência, deram-se a aprender o jogo do florete e da espada, pagando as lições que recebiam, e em breve entusiasmaram-se pelo jovem francês, que era o mais alegrão, travesso, original, espirituoso e endiabrado companheiro de folganças.
Em poucos meses Souvanel falou português, como se vivesse há vinte anos no Brasil, e chegadas as férias, deixou São Paulo, e acompanhou os estudantes que vinham e lhe pagaram a passagem para o Rio de Janeiro, em cuja capital esperava melhorar de fortuna, como professor de piano e canto.
Os estudantes, amigos de Liberato, exaltaram os merecimentos de Souvanel, que além disso recomendado pelo infortúnio, pela pobreza, e pela jovial convivência de alguns meses em São Paulo, recebeu com aqueles convite para passar as festas do Natal na casa de Florêncio da Silva.
O jovem francês não se fizera rogar.
Bastaram poucos dias para que Souvanel se tornasse a alma das funções do Natal, na companhia em que se achava; jucundo, condescendente, infatigável, era o vivificador dos saraus, o ordenador de contradanças variadas, o rei do piano, o intérprete fiel das músicas de Bellini, de Donizetti e de Verdi, nas árias e duetos de suas melhores óperas; nas caçadas brilhava como o primeiro atirador; nas cavalgadas ostentava habilidade ginástica, fazendo prodígios de equilíbrio em pé sobre o selim, ou aos saltos ao pescoço e à garupa do cavalo; à noite nos salões inventava jogos, lia a buena-dicha nas mãos das senhoras, e com um baralho de cartas realizava proezas de empalmação, e de resoluções de problemas de cálculo, que pareciam inexplicáveis.
Souvanel eclipsou os próprios estudantes: onde ia, entregavam-lhe a direção do banquete, do sarau, de toda festança: as senhoras o lisonjeavam para que ele as fizesse dançar, cantar, brilhar; os estudantes o atropelavam, exigindo os entretenimentos que mais lhes convinham; os anfitriões o tomavam por árbitro e animador das amenas funções; em suas mãos enfim estava o fio de Ariadna daquele labirinto de ruidosos mas inocentes prazeres.
Dir-se-ia que Souvanel, o indômito traquinas, o espirituoso e alegrão francês, sempre tão atarefado, tão exigido, tão distraído, e por assim dizer multiplicado para atender e servir a tantas senhoras e senhores, não poderia ter tempo, olhos, contemplação, e talvez cálculo para ver, distinguir, amar, ou fingir amar, alguma das muitas belas jovens, que se reuniam naquela sociedade festiva e ambulante, que andava de romaria de fazenda em fazenda.
Entretanto não era assim: logo nos primeiros dias, depois da sua chegada à casa de Florêncio da Silva, Souvanel encetara amoroso enleio que se foi entretecendo imperceptivelmente para todos.
Florêncio da Silva tinha dado a seus hóspedes um dia para descanso da viagem antes de fazê-los entrar na vida de festas e passeios; mas o jovem francês era incansável e também apressado em recomendar-se.
Acabavam apenas de levantar-se do almoço, quando Souvanel, vendo na sala um magnífico piano, correu a ele e executou de cor e com perícia magistral uma peça brilhante: depois, e enquanto o aplaudiam, examinou os livros de música, e exclamou:
— Quem canta estas músicas? Sem dúvida mademoiselle...
A pergunta e a observação eram como um convite para cantar: Florêncio e Leonídia desejaram muito naturalmente, que o notável mestre apreciasse o talento musical de sua filha, que eles supunham cultivado com esmero.
Cândida cantou, acompanhada ao piano por Souvanel, a ária final da Safo.
O mestre para quem todos olhavam depois dos cumprimentos de cortesia, ou de sincero louvor, teve de enunciar o seu juízo de autorizada competência.
— É uma voz admirável! - disse ele. - Uma suavíssima e ao mesmo tempo volumosa, extensa e afinada!
Cândida pareceu encantada do elogio.
— Não te desvaneças, Cândida - acudiu Liberato, rindo-se. - Repara que Souvanel encareceu somente a tua voz, mas deixou de elogiar teu canto: pode-se ter boa voz, e cantar mal.
A donzela olhou para Souvanel, que perturbara-se ou fingira perturbar-se um pouco.
— Fale o mestre, e não o cavalheiro, que por cortês é menos franco - disse Florêncio da Silva.
Leonídia instou, Cândida pediu; Souvanel falou.
— Com a voz que possui, e a prática severa que tem do solfejo, mademoiselle em duas horas de estudo bem dirigido, cantaria esta mesma ária de modo a fazer acreditar que é outra.
— Opera esse milagre, Souvanel! - disse Liberato.
— Se mademoiselle quer perder duas horas...
A experiência conveio a todos.
— Esqueçam-se de nós; porque o estudo é enfadonho, e esgota a paciência.
Ninguém se afastou.
Souvanel compreendeu todo o partido que poderia tirar daquela exposição viva do seu método de ensino e extremou-se na lição: fez Cândida repetir dez e mais vezes cada compasso, explicando nota por nota a idéia contida em cada uma, revelando os segredos da expressão e do sentimento, desde o gemido até o grito, desde o murmúrio e o soluçar do trêmulo até a perfeita segurança na graduação da tenuta, ensinando a respirar na ocasião competente, e encher de ar as amplidões pulmonares para o arrojo veemente das paixões em música.
A bela discípula, rica de inteligência e de voz, ávida de saber, vaidosa para mais ardentemente desejar ser admirada, absorveu-se na lição, admirou o mestre, e admirou ao mestre; porque, no fim de pouco mais de duas horas, cantou com efeito a ária quase com perfeição, e, como Souvanel o dissera, de modo a fazer acreditar que era outra.
Souvanel acabava de fundar a sua reputação de mestre exímio.
É claro que desde esse dia, sempre que as conveniências da sociedade o permitiam, antes ou depois dos passeios, na manhã, ou na tarde, que mediavam entre as folganças gerais, Cândida tomava a Souvanel uma ou duas horas para preparar as árias que devia logo depois executar.
Mas Souvanel também cantou e fez furor.
Naturalmente as vozes quiseram combinar-se, diversas senhoras cantaram duetos com Souvanel; Cândida desejou cantá-los, e apelou para o mestre que se exaltava, achando na discípula uma adivinhadora dos segredos mais sutis da arte.
Raramente embora, Souvanel e Cândida ficavam uma ou outra vez a sós no piano.
Em uma dessas ocasiões o jovem francês disse com fingido ou real entusiasmo.
— Que voz! Penetra e fica no coração de quem a ouve!
Cândida interrompeu o canto.
— Prossiga! - exclamou o mestre.
— Oh! Não - respondeu a moça com enlevamento. - Eu quero que a minha voz repita três vezes ainda este allegro...
E ela o repetiu três vezes requintando a doçura e o sentimento que comovida e inspiradamente dava ao canto.
— Isto faz esquecer de que se vive na terra, e imaginar que se está no céu, ouvindo um anjo! - murmurou Souvanel.
— Anjo! - respondeu em voz baixa a imprudente donzela. - Anjo! Como, se nem tenho asas para voar e fugir?
— Oh! Mas para mim, pobre proscrito, está tão alta, que nem posso chegar com os meus lábios a seus pés!...
Nesse momento Leonídia se aproximava.
Souvanel apontou com o dedo o sinal de um compasso e disse imperturbável:
— Perfeitamente, mademoiselle! Agora aqui a respiração, e depois o sentimento contraído pelo receio; mas transpirando no trêmulo, e preparando-se para a expansão sublime...
Não havia nem receio no sentimento do canto, nem trêmulo na música, nem expansão a preparar...
E todavia Cândida não se mostrou surpreendida, e continuou a lição, improvisando um trêmulo mal cabido, que Souvanel não corrigiu.
A filha enganava a mãe.
O mestre começava a enganar a todos.
Em outra lição, e em outros breves momentos de liberdade, Souvanel mostrando um terno e doloroso pensamento da inspirada Favorita de Verdi, sorriu docemente e disse malicioso a Cândida.
— Deixe sair o coração na voz gemente... gema com o coração nos lábios
— Arreceio-me... - balbuciou a discípula.
— Por quê?
— O coração exposto assim?... E se mo roubassem?
— Ah! mademoiselle! Por mim eu seria ladrão de consciência.
— Como?
— Para não deixá-la pelo roubo infalível com o peito vazio, pediria de joelhos a glória de uma troca de corações...
— Não entendo bem esta música - disse Cândida, sorrindo meigamente.
E sem dúvida para conter no ponto a que tinham chegado, as finezas que o mestre lhe dizia, cantou; mas cantou com apuro de ternura, e com verdadeira ou bem simulada comoção, a música tão repassada de sentimento da Favorita.
Para tanto ousar, ouvir e dizer, era evidente que andava já adiantado o galanteio entre Souvanel e Cândida.
A música arrebata a alma, embriaga os sentidos.
Não há sedutor mais perigoso do que um mestre desmoralizado, e entre os mestres capazes de tentar seduzir o mais perigoso é o de música e principalmente o de canto; porque ele ensina as falas que falam ao coração, arrebatam a alma e embriagam os sentidos.
Souvanel achara Cândida bonita, e, tendo logo razão para julgá-la romanesca, acreditou-a susceptível de deixar-se apaixonar, viu nela um cálculo de futuro, e mediu as vantagens materiais que esperavam ao genro de Florêncio da Silva. Para ele não podia ser isso obra de pronta reflexão: estrangeiro mal conhecido, com a sua vida passada em nuvens de dúvidas, sem garantias da honra do seu nome, sem fortuna, sem abonador de sua moralidade, a princípio nem concebeu a idéia de possibilidade de casamento e apenas por distração explorou a sensibilidade e brincou com o coração da que supunha simples e inexperiente moça da roça; mas à medida que Cândida namoradeira, parecia fraquear deixando-se arder em flamas de amor, o jovem francês exaltava suas esperanças e pouco a pouco foi chegando ao cálculo do que, na própria consciência, julgando impossível, não se atrevera a imaginar nos primeiros dias.
Egoísta e frio especulador, descrente em religião, alheio às noções do dever, desdenhando dos brasileiros em refalsado segredo, ambicioso de riqueza, escondendo nas dobras do agrado pérfido, nas artimanhas da docilidade, da condescendência, das magias da música, nas teias sutis do espírito vivo e travesso a baixa urdidura da lisonja, da adulação, do servilismo, para achar protetores, ganho mais fácil e fundamento de fortuna, Souvanel não hesitou em abusar da confiança de seus hóspedes, em esquecer os favores que recebera de Liberato; mas cauteloso, dissimulado, traiçoeiro, laborou no mistério de rápidas e fugitivas provocações de amor, de confidências velozes de apaixonado extremo, e de paciente, lenta e hábil propinação do veneno da sedução.
Souvanel não sabia que falava, não à sensibilidade, mas ao ressentimento e ao desvario de Cândida, no ensejo mais oportuno e favorável.
Desde a noite em que Lucinda repetira à sua senhora com falaz inexatidão, o que haviam conversado Florêncio da Silva e Liberato sobre o projeto de casamento, Cândida se tornara suspeitosa das intenções de sua família, revoltada contra a idéia de opressora privação dos saraus e dos teatros, e disposta à resistência e à oposição à vontade de seus pais.
Desconfiada de todos e de tudo, reparara e observara com ânimo prevenido; seu pai e sua mãe não lhe falaram de Frederico e continuaram sempre a abismá-la, como dantes, no dilúvio das delicadezas do mais estremoso amor; Liberato, porém, discorrera por mais de uma vez em sua presença, atacando a inconveniência dos bailes freqüentes para uma donzela modesta e recatada, e ferira com exagerados sarcasmos o teatro ruim, grotesco, e imoral da pequena, mas já rica cidade de...
Ouvindo Liberato, Florêncio da Silva e Leonídia tinham defendido fracamente, e deixado condenar sem, protesto, as duas arenas onde triunfava esplêndida e maravilhosa a formosura de sua filha.
Cândida ouvira o que chamava sermões de Liberato com desprezadora indiferença silenciosa, que admirava a seus pais; ela, porém, ouvia com a revolta n'alma, reconhecendo nas observações de seu irmão a verdade das revelações da sua escrava.
Cândida em impulsos de reação detestou, ou pensou detestar Frederico, e jurou a si mesma que jamais consentiria em ser sua esposa.
Em dois anos de sacrilégio do sentimento, em dois anos passados em fingimentos de amor, em tolerância, provocações, e prática indesculpável de dezenas de namoros, Cândida conservara o coração livre e como inóspito do sentimento que absorve a vida da mulher: dir-se-ia que o hábito de fingir lhe embotara o sentir. Até os dezesseis anos não tinha amado; nem um só mancebo, nem o mais belo dos seus namorados conseguira atear o fogo em sua alma enregelada.
Cândida tinha vontade de amar, desejo louco de experimentar esse sentimento que perturba a razão, põe em incêndio o coração, escraviza uma, desatina outro; lera já em vinte romances dos melhores autores a filologia e a autópsia do amor, e ela não o conhecia ainda, como o aprendera nos romances; desejava amar e não amava.
Suspeitando, acreditando enfim, que seus pais queriam impor-lhe em Frederico um marido, e que nesse empenho planejavam roubá-la ao culto dos seus adoradores, por instintivo incitamento de resistência e de oposição desejou ainda mais amar, e não amava!...
Cândida não amava; porque em vinte ou trinta turificadores que queimavam incenso a seus pés, ela que recebia as turificações de todos, quando procurava distinguir um entre tantos, esquecia vinte nos gelos da indiferença pelo demérito deles, confundia dez no peso igual do merecimento, e nunca chegava à preferência de um só, marcado pela escolha do coração.
A namoradeira tinha almejado amor deveras por tresloucada curiosidade, e passara finalmente a almejar ainda mais, a querer, a pedir ao céu esse cativeiro d'alma por vingança da suposta opressão.
Foi nesse estado de espírito, nessas circunstâncias determinadas por injustas prevenções, nesse doido empenho de amar, que Souvanel se mostrou aos olhos, aos ouvidos, e ao coração aberto de Cândida.
A chegada dos hóspedes de seu pai e de seu irmão, e no primeiro dia que foi como que de apresentação dos estudantes e do jovem francês, que não eram conhecidos da família, a figura de Souvanel não produziu impressão simpática nem antipática no ânimo de Cândida; claramente, porém, agradaram-lhe mais os acadêmicos, cuja posição era definida: o estrangeiro recomendado só por suas habilitações de pianista e cantor, pareceu-lhe antes um recurso para divertir a sociedade, do que um amigo trazido como igual para o seio dela, e esta consideração o amesquinhou a seus olhos.
A primeira lição tornou Souvanel interessante; a vaidosa moça atendeu ao ensino sem atender à pessoa do mestre, e reconhecendo que muito podia ganhar com as explicações do insigne professor, lisonjeou-o, ameigou-o, sem idéia alguma de merecer-lhe cultos, e só para mais condescendente achá-lo, sempre que lhe pedisse o favor de alguma lição.
Mas Souvanel cantou, e sua voz era como o sentimento, deslizando suave como arroio murmurante, ou troando impetuoso, como a catadupa despenhada: era impossível deixar de olhar o homem que cantava assim, e Cândida viu no rosto e nos olhos de Souvanel todas as doces flamas, e rodas as lavas abrasadoras da paixão.
Na segunda lição o mestre explicou as notas, os compassos, o andamento, as modulações da voz que deviam exprimir amor, e o fez com eloqüência tão viva e insinuante, que a donzela começou a sentir alguma coisa de novo em seu coração, ouvindo Souvanel, e ainda leviana, explicou certo pendor que a inclinava para ele, pelo seu costumado empenho de avassalar sempre novos adoradores; desejou ser cortejada e requestada por esse mancebo, que sabia falar tão doce e fervorosamente de amor, e, insensata, deixou ver o primeiro sorriso e ouvir a primeira palavra, que não sendo provocação manifesta, autorizaram contudo louvores, a princípio apenas ternos, logo depois mais palpitantes de afetuoso interesse, e enfim anunciadores francos de galanteio, ou de amorosa chama.
Cândida deixou-se amar e animou com seus gracejos maliciosos o mestre nos momentos em que ficava a sós com ele e embeveceu-se nesse enleio, que se lhe afigurou simples namoro, como tantos outros, mais delicado e romanesco, porém, por se esconder medroso no encanto do mistério.
Souvanel, encorajado, desenvolveu com arte consumada, todos os ardis e todos os laços da sedução: poucas palavras bastam para mostrar os imensos recursos, o poder temível, e a vitória muitas vezes fácil da mais perigosa das seduções; escreveremos essas palavras que a muitos podem parecer até ridículas e que entretanto revelam séria observação: Souvanel seduzir pela música, e fez-se amar pela música.
Dez dias depois da sua chegada à casa de Florêncio da Silva, Cândida cantou com Souvanel, na fazenda de seu padrinho, o belíssimo e amoroso dueto de Torquato e Eleonora da ópera de Donizetti, e em seu transporte de fiel interpretadora daquela admirável e apaixonada música, desfez-se em lágrimas de indizível enternecimento.
Acabando de cantar, a donzela fugiu aos aplausos, correu para a sala do toilette, e atirando-se sobre um sofá, murmurou tremendo:
— Meu Deus! Que homem!
Cândida acabava de reconhecer que amava perdidamente Souvanel.
Algumas senhoras chegaram, procurando a bela cantora, a quem abraçaram.
— Cantou como nunca, D. Cândida! Cantou a fazer chorar!...
— Também eu chorei...
— É explicável... a comoção... a sensibilidade...
— Sim; foi isso - disse Cândida melancólica e pensativa. - É isso; aquele dueto faz um bem que parece mal.
Quando as senhoras voltaram à sala, trazendo a fugitiva e triunfante cantora, todos a cumprimentaram e a aplaudiram de novo, todos, menos um único cavalheiro e amigo, menos Frederico, que grave e pensativo se fora debruçar a uma janela.
Liberato foi bater no ombro de seu irmão colaço:
— Em que pensas, intempestivo filósofo?...
Frederico voltou-se e respondeu:
— Ocupava-me em resolver um problema.
— Ao diabo a geometria e o cálculo! Vamos dançar.
— Tens razão, Liberato; dancemos.
E Frederico avançou até o meio da sala, e, batendo palmas, chamou pares para uma contradança.
Souvanel dirigiu-se logo ao piano.
— Deixa o piano, Souvanel - disse Frederico. - Tu quase nunca danças; agora quero eu tocar.
Souvanel tomou parte na contradança; mas Cândida não foi o seu par, nem dançou defronte dele, e nem o jovem francês e ela se olharam.
E Frederico tocou, preocupado, porém, com a resolução do seu problema.
Frederico amava Cândida: o seu amor era uma sublime mistura de dedicação fraternal e de paixão de amante extremoso: o seu amor era um monumento, em cujas bases entravam Leonídia, que lhe dera o leite de seus peitos e o cuidado maternal de seu berço, Leonídia, sua segunda mãe; Florêncio da Silva, que na sua infância o igualara a Liberato, no zelo da educação e nas carícias; Florêncio da Silva, seu segundo pai; Liberato, seu irmão colaço, seu irmão na escola, no colégio, e no coração; Cândida, menina, a idolatria de seus inocentes amores de irmão mais velho, Cândida moça, a beleza peregrina e a celeste virtude, que devia e podia fazer-lhe da vida paraíso.
Frederico amava Cândida com o mimoso culto da gratidão, com o nobre culto da virtude, com as puras magias da infância, com as poesias da mocidade, com as flamas ardentes do amor que inspira a formosura.
Era um amor em que se identificavam todos os grandes amores do homem.
Em Frederico, tinha Cândida dois enérgicos e poderosos amores, o amor do coração e o amor da razão, ambos igualmente fortes e generosos pelo caráter do virtuoso mancebo.
Frederico sabia que era desagradável de figura e receava por isso não ser amado por Cândida: esse receio atormentava-o: ver Cândida amante e esposa de outro homem, era a apreensão de uma noite perpétua na sua vida; mas para ele, o sacrifício da filha de Leonídia e de Florêncio da Silva, da irmã de Liberato, da sua amada menina da infância, o sacrifício de Cândida sua esposa, por obediência e sem amor, era um crime de ingratidão, um sacrilégio que lhe tornaria a vida pior do que noite perpétua, remorso perpétuo. Ele sentia-se capaz de defender o coração de Cândida contra si, embora perdido para si esse coração, o mundo se lhe antolhasse insuportável .
Na grandeza e na generosidade do seu amor, o prudente mancebo não se confundira com os indiscretos apaixonados, que dão em espetáculo a donzela que amam, obrigando-a à pública ostentação de afetos que ainda não têm a sagração que os autoriza à face da sociedade, nem, em suas conversações com a adorada moça, ofendera a santidade do seu sentimento, procurando exprimi-lo e fazê-lo sentir por meio desses ademanes artificiais e vulgares, e dos discursos bombásticos e do dilúvio de juramentos, que são a eloqüência sublime dos namoradores de oficio e dos namorados ridículos.
Zeloso, porém, anelante e completamente cativo dos encantos de Cândida, Frederico a acompanhava de contínuo com os desvelos do coração com a vigilância do receio, e com aquela visão do espírito que acha luz nas próprias sombras do disfarce, e penetra os véus da dissimulação, adivinhando a verdade escondida.
Assim foi que, antes de todos, suspeitou ele do galanteio ou do amor nascente de Cândida e Souvanel: não podia dizer qual era o fundamento real da sua suspeita; mas em seu ânimo como que pressentia galanteio ou amor naquelas lições de canto, na atmosfera que cercava o mestre e a discípula, e na própria serenidade que ambos afetavam.
Frederico quis duvidar; mas a suspeita o perseguia indômita. O dueto de Torquato Tasso veio indiciar nas lágrimas de Cândida o sentimento que ela já abrigava no coração.
O nobre e amoroso mancebo tocava quase a certeza do seu infortúnio; nas ânsias tormentosas do seio, cavou silencioso a sepultura do seu magnífico amor; sofreu como sofrem as grandes almas; refletiu, porém: ou Cândida amava realmente Souvanel ou se prestava à comédia sacrílega do fingimento de transportada paixão: em ambas as hipóteses, era lamentável a leviandade com que a donzela se comprometia, prendendo-se ou simulando prender-se a um estrangeiro, cujo passado ninguém esclarecia, e cuja moralidade se patenteava negativa por essa mesma solicitude amorosa, que era ingrato abuso de confiança: em ambas as hipóteses, portanto, Cândida perdera muito na estimação que lhe merecera: na segunda hipótese, não podia mais ser sua noiva, pois que nunca tomaria por esposa quem tão fácil se abandonava à indignidade do galanteio: na primeira do mesmo modo, o seu casamento se tornara impossível, pois que outro homem enchia com a sua imagem e suave domínio a alma dessa mulher que ele tanto adorava.
Que lhe cumpria fazer?... Fugir de Cândida, apressar sob qualquer pretexto sua viagem para a América do Norte?... Frederico repeliu idéia: à força de muito refletir e talvez ainda tendo o seu amor agarrado a uma tênue esperança, pensou que bem pudera o ciúme ter iludido o seu espírito, inventando o que não existia, e caluniando inocente donzela: quando tudo fosse verdade, quando a paixão mais louca estivesse incendiando o seio da pobre moça, ele tinha o direito de não a querer mais para sua noiva; tinha, porém, o dever de velar como amigo, pela filha de Leonídia, sua segunda mãe, pela filha de Florêncio da Silva, que em seus primeiros anos lhe fizera as vezes de pai extremoso, pela irmã de Liberato, seu colaço, e seu fiel amigo.
Nesse melindre de sensibilidade, nessa poética aspiração de pureza, de angélica virgindade de coração na mulher com quem tivesse de casar-se, nessa grandiosidade de sentimentos que lhe impunham o religioso dever de dedicar-se ainda a Cândida, como amigo, depois de senti-la amesquinhada na sua estima, Frederico obedecia às inspirações de sua natureza heróica, e à virtude de seu grave e admirável caráter.
Amando extremosamente Cândida, reconhecia-se capaz de tomá-la pela mão, e de levá-la ao altar, para aí ver com os seus olhos o sacerdote abençoar os laços de sua união com outro homem, que fosse digno dela, e por ela amado. Na imensa dor desse sacrifício, acharia consolação na felicidade de Cândida, e, lamentando a própria desdita, seria amigo leal do esposo da filha de Florêncio e Leonídia, e da irmã de Liberato.
Mas Souvanel quem era? .. Que homem era? .. Frederico também relacionara se com ele na Alemanha; nunca porém o honrara com a sua confiança, e mais de uma vez dissera a Liberato, que a pretendida proscrição política, podia ser tão real, como embusteira, e que no suposto proscrito havia a decifrar um enigma, ou de homem exaltado, mas honesto, ou de especulador sem consciência.
O especulador sem consciência principiava a revelar-se à observação de Frederico, que ainda querendo duvidar, porque amava, e convencer-se até a evidência, porque era prudente e justo, depois de triste e longa noite de reflexões, resolveu esperar, ver, e friamente assegurar-se, e ser senhor do fatal segredo, que o ciúme lhe tinha já revelado.
Frederico não precisou esperar muito.
As festas, os banquetes, os saraus não terminavam, apenas se interrompiam.
Florêncio da Silva tomara para si dois dias, os últimos das grandes comemorações religiosas, a véspera e o Dia dos Reis: os últimos e portanto os mais ardentes de alegria, os precursores da despedida dos amigos, das famílias, que se deviam separar.
A casa de campo de Florêncio da Silva estava cheia de convidados, que deviam gozar dois dias de banquetes e de saraus, e à noite da véspera do Dia dos Reis, fogo de artifício às onze horas, e mais tarde recebimento de companhia cantadora dos Reis que se anunciara.
Era geral o júbilo, e como que havia delírio de exaltação.
Entre todos, só Frederico melancólico se obumbrava, embora às vezes revolto contra a própria tristeza, em reação calculada, se atirasse com ardor não costumado às contradanças, e aos jogos espirituosos de sociedade.
A noite de 5 de janeiro se adiantava no meio de inocentes folguedos.
Anunciou-se a hora do fogo.
As janelas eram apenas suficientes para as senhoras; quase todos os homens desceram para o terreiro.
As diversas peças de fogo dispostas com arte, iam arder em pontos destacados, projetando enchentes de luz sobre o jardim, o lago, os repuxos d'água, as árvores e a relva.
Havia multidão de curiosos, enchendo as ruas da grande chácara.
Frederico preocupado e melancólico, logo que chegou ao terreiro, afastou-se dos companheiros e foi para um lado da casa, onde o isolamento era mais certo, porque dali menos se apreciaria o fogo.
Nesse lugar de passageiro retiro, viu ele grande número de carros, descansando no chão os varais; os cocheiros e lacaios tinham ido admirar o fogo, em ponto mais favorável; um único pajem ali se deixara; esse porém dormia profundamente em estado de completa embriaguez.
Frederico vagou pensativo por entre os carros por algum tempo: de repente a luz de brilhantíssimo fogo inundou o espaço, e o mancebo, que parecia aborrecido da festa, abriu a portinhola de uma carruagem, subiu para ela, e cerrando as cortinas, submergiu-se em suas reflexões.
Passados breves minutos, duas vozes a princípio abafadas e logo mais livres se fizeram ouvir ao pé da carruagem, e arrancaram Frederico ao seu triste meditar.
— Podemos falar...
— Vê bem...
— Todos estão vendo o fogo e eu também quero ir vê-lo: anda depressa: entregaste a carta?
— Entreguei.
— E a resposta?
— Minha senhora não quer escrever...
— Então sinhá-moça não gosta do francês?
— Está doida por ele: nunca se mostrou tão caída com os outros namorados que tem tido: agora sim, creio que minha senhora caiu no laço.
— E como não escreve?
— Não tem tempo, não pode.
— Que diabo! O francês tinha-me prometido boa molhadura.
— Espera... eu tenho um recado.
— Vamos a ele, Lucinda; eu quero ver o fogo.
— Dize quanto antes ao francês, que apenas entrarem os cantadores dos Reis aproveite a confusão e vá imediatamente ao grupo de acácias do lado esquerdo do jardim, onde alguém lhe irá falar alguns instantes.
— Lucinda! - exclamou o pajem. - Isto é o diabo! Pois sinhá-moça se atreve... e depois?
— Que te importa o mais?
— E nós? Se meu senhor souber?... Se o francês...
— Guarda tu segredo: vai depressa...o francês te dará a molhadura, e eu amanhã te darei um abraço...
O pajem riu-se, fez a Lucinda um afago obsceno, e seguiu por um lado, enquanto a mucama de Cândida retirava-se por outro.
Frederico estava quase sufocado dentro da carruagem, faltava-lhe o ar, abriu a portinhola, saltou no chão, e ficou em pé e imóvel por algum tempo.
Com a mão agitada por convulsivo tremor, acudia a fronte, como querendo com o passar e repassar dos dedos, desbastar a multidão de turvas idéias que ondeavam nela.
Frederico nunca se precipitava: sentia-se possuído de indignação e de cruel responsabilidade. Acabava de testemunhar o despedaçamento da reputação de Cândida pelas línguas-punhais ervados de dois escravos: acabava de saber que a donzela que amava, e tão recatada presumira, já era conhecida por namoradeira, já tinha tido diversos namorados, já se aviltara, abandonando-se à má fama, que as bocas peçonhentas da cozinha e das senzalas sem dúvida propalavam; acabava enfim de ouvir um recado abjeto, pelo qual Cândida matara a honra de sua alma, e expunha à morte a honra do seu corpo.
O nobre mancebo descreu do brio de Cândida, e julgou-se ao menos curado de um amor imerecido e que pudera ter-lhe sido fatal. A desestima, talvez o ressentimento, aconselhavam-lhe com o desprezo o completo abandono dessa mulher indigna; essa mulher, porém, era mais do que filha de Florêncio da Silva, mais do que irmã de Liberato, mais do que afilhada de seu pai, era filha de Leonídia, a quem Frederico amava com extremo, com uma espécie de religioso culto, com aquela dedicação, com aquele devoto esquecimento de si, que acendem a flama que sublimiza a fé dos mártires: Frederico adorava em Leonídia a mãe, a bondade, e a virtude.
Só por Leonídia, ele ainda pensou em Cândida: os erros do passado da desastrada moça eram fatos e não podiam ser prevenidos: o perigo tremendo a que ia expor-se ainda felizmente estava em tempo de se atalhar; mas de que modo?... A denúncia da vergonhosa entrevista, sendo feita a Florêncio da Silva e a Liberato, chegaria a provocar imprudente desafronta; levada ao coração de Leonídia, seria horrível desencanto de sua glória maternal: nada era mais fácil do que impedir por qualquer meio o encontro escandaloso dos dois amantes nessa noite, nada mais difícil do que preveni-lo em alguma outra; falar a Cândida, esclarecê-la sobre a baixeza e o escândalo do seu proceder, fora talvez o alvitre mais sábio; repugnava, porém, a Frederico o dirigir-se àquela moça de coração estragado e de belo rosto hipócrita.
Espiar, era para o honesto e altivo mancebo ação ignóbil, e todavia nas circunstâncias em que se achava não viu expediente capaz de satisfazer seu empenho de poupar tormentos a Leonídia, desforço violento a Florêncio da Silva ou a Liberato e perdição irremediável a Cândida, senão surpreendendo os dois amantes na entrevista, punindo com a confusão a donzela e impondo a Souvanel pronta e imediata retirada da casa, que ameaçava com a ignomínia.
Tendo assim pensado e resolvido, Frederico saiu do meio dos carros, e voltou à companhia dos amigos, no meio dos quais encontrou Souvanel que lhe pareceu exaltado de júbilo.
O fogo de artifício terminou com aplausos estrondosos.
Meia hora depois a cavalgada dos cantadores dos Reis parou à porta da casa de Florêncio da Silva.
Frederico saiu desapercebidamente, foi direito ao grupo de acácias, e submergiu-se em um grupo de outros arbustos, que perto se destacavam.
Havia luar: em falta do clarão brilhante da lua plena, o começo da fase crescente espancava as trevas. Frederico podia ver, e ávido olhava.
A música dos cantadores dos Reis soava docemente. Frederico não a ouvia, tinha então a alma concentrada nos olhos.
Uma mulher apareceu, avançou sem medo, e cruzando os braços parou atrás do grupo de acácias.
Frederico viu, distinguiu bem essa mulher: era uma negra.
Alguns minutos morosos se arrastaram, e veio vindo cauteloso, e como tomado de receios o vulto de um homem, que estacou diante da mulher de cor preta.
— Quem é?... - perguntou em voz baixa o homem que chegara e surpreendido ficara.
Frederico reconheceu Souvanel.
— Sou Lucinda, a mucama da Senhora Dona Cândida, minha senhora.
Frederico reconheceu também pela voz a escrava, que pouco antes dera o recado ao pajem.
— Ah! - disse Souvanel com um tom que denunciava o mais desagradável desapontamento. - Ah! Então és tu?
— Sim senhor, sou eu.
— E a que vens? Trazes-me algum recado?
— Não senhor, trago-lhe um conselho.
— Qual?
— Minha senhora o ama; mas vossa mercê a compromete, confiando os segredos do seu amor a um pajem: deve entender-se comigo, que sou a mucama de minha senhora, e a quem sirvo com a maior fidelidade...
— Mas... eu não sabia...
— Fica sabendo agora - tornou a crioula rindo-se, e aproximando-se a meios passos e com meneios lascivos do corpo à medida que falava. - Eu sou apenas um ano mais velha que minha senhora, que me confia todos os seus segredos, e me toma por conselheira... se, porém, o senhor prefere o pajem...
— Oh! Antes quero a ti, que és mais esperta - disse Souvanel, pondo-lhe a mão no ombro.
Lucinda recuou, como a defender-se.
— Não me toque com a mão - murmurou ela.
Souvanel chegou-se para a crioula e perguntou:
— Foi Dona Cândida que te mandou aqui para te entenderes comigo sobre a correspondência e o segredo do amor que...
— Foi... não foi... para que mentir?.,. Fui eu mesma que vim...
O jovem francês riu-se.
— Quer dar-me algum recado para minha senhora?... - disse a crioula, abaixando a cabeça.
— Quero - respondeu Souvanel. - Escuta.
E travando-a pelo braço, achegou-a mais para si.
Frederico tinha já ouvido e visto bastante, e repugnando-lhe a cena que adivinhava, recuou sutil por entre os arbustos e árvores, e foi procurar oculta retirada em rua distante, quase aplaudindo a vitória libidinosa da negra escrava pela deliciosa convicção da inocência de Cândida, naquele ajustado encontro em que ele tão injustamente a acreditara desmoralizada e voluntária vítima.
Fazendo longa volta para tornar à casa, Frederico demorava o passo meditando sobre o que se passara a seus ouvidos e a seus olhos desde a hora do fogo.
Eis aí pois, pensava ele, uma escrava perversa e devassa como todas as escravas mais ou menos o são, comprometendo o nome e a reputação de uma donzela, sua senhora, para atrair um homem branco e satisfazer seu vício escandaloso; o pajem que levou o recado a Souvanel, convidando-o para a entrevista noturna, sem dúvida imagina sua senhora-moça nos braços do sedutor, e irá murmurar do seu opróbrio, conversando com os parceiros, prontos como ele a acreditar na infâmia que pode manchar os senhores.
Mas que muito era que o pajem rude e imoral, deixando-se enganar pela mucama, tão fácil criminasse sua senhora-moça, se Frederico, o refletido e ilustrado mancebo igualmente a considerava culpada?...Que juízo estaria ele também formando de Cândida, se levado pela indignação que lhe causara o recado, que da carruagem surpreendera, houvesse logo partido para a fazenda de seu pai, fugindo à casa e à família, que iam receber a nódoa da desonra?
Frederico sentiu-se mordido pelo remorso de sua credulidade aleivosa; tremeu, lembrando que em sua alma iludida caluniara Cândida, o seu primeiro amor, a sua aspirada noiva, a filha de Leonídia: impelido pelo arrependimento para idéias suaves, risonhas, e lisonjeiras relativamente à donzela, perguntou a si mesmo, se não era possível que também se tivesse enganado, supondo-a namorada, ou apaixonada de Souvanel; se não era possível que a malvada mucama, fingindo levar a sua senhora os recados e cartas que de Souvanel trazia o pajem, inventasse respostas verbais, e entretivesse o ingrato francês em ilusões que convinham à sua depravação.
Aditado por esses pensamentos, filhos de generosa reação, Frederico subiu a escada e penetrou com dificuldade na sala da entrada que estava cheia de gente, que acompanhava os cantadores dos Reis.
Agora é indispensável dar em breves palavras a topografia de parte da casa de Florêncio da Silva.
A sala de entrada mediava entre duas outras laterais e muito maiores, para cada uma das quais abria uma porta, e no fundo comunicava-se com um corredor, que também rasgava portas para vastas câmaras, dependentes daquelas duas salas, terminando enfim na de jantar.
O grande salão do lado direito e suas dependências tinham sido destinados a hospedagem e defeso retiro das senhoras.
O salão do lado esquerdo pertencia à dança, à música, à reunião geral, a todos: suas dependências, suas câmaras que eram salas ornadas com riqueza e luxo, estavam entregues ao domínio masculino.
Cada salão tinha duas câmaras, e para cada câmara uma porta.
Frederico, animado, alegre, não podendo entrar no salão do lado esquerdo, onde dançavam suas contradanças figuradas os cantadores dos Reis, avançou pelo corredor, e foi procurar o recurso da introdução pela primeira e respectiva câmara.
Tinha apenas dado um passo para dentro da câmara, e parou, anuviando a fronte: eis o que viu.
No salão a dança, o aperto da multidão, a hora da surdez e da cegueira de todos pelo excesso do ruído e da luz, a câmara deserta, um só homem nela, Souvanel meio escondido a um lado da porta aberta por metade; na metade aberta da porta uma cadeira fechando-a, nessa cadeira Cândida reclinada negligentemente, com o rosto para o salão e para a dança, que ela sem dúvida não via, com um braço atirado para trás, descansando a axila no encosto da cadeira, e abandonando a mão a Souvanel, que a apertava entre as dele, que meio curvado a beijava e que entre os beijos lhe dizia mil finezas.
Frederico revoltou-se, vendo essa branca e mimosa mão de donzela a receber os apertos das mãos e os beijos dos lábios que pouco antes tinham apertado e talvez em transporte brutal beijado as faces da negra torpe.
O amor de Souvanel e Cândida era pois uma realidade!...
O generoso e altivo mancebo não pôde mais resistir à evidência, e profundamente golpeado, despedaçado em todas as fibras do coração, ficou a olhar, e a saborear vingança naqueles fingidos extremos de paixão de Souvanel, que eram cansados restos da vida física, extenuada nos braços desonestos e negros da escrava, que era rival da senhora.
Cândida tinha os olhos na dança, e a mão febril e trêmula perdida nos lascivos beijos de Souvanel: este contava demais com a solidão da câmara, e embevecido, esquecia o mundo e a prudência a devorar aquela mão tão branca e tão cetim, e a dizer envenenadas ternuras, quando não a beijava.
Frederico ciumento, invejoso talvez, com a alma em raiva adiantou alguns passos, chegou quase ao pé das mãos, que se apertavam, e não foi sentido...
Esse abandono, essa imprudência, essa embriaguez, essa cegueira e surdez de amantes irritou-o ainda mais... inspirou-lhe ódio, furor; que lhe pareceram sinais, perdições, abismos de amor, que ele não merecera...
Sentiu um ímpeto de arrojada cólera... ia atirar-se entre aquelas mãos; de súbito porém se suspendeu...
Em frente da porta, por onde entrara na câmara, viu o desconcerto de sua fisionomia na imagem reproduzida por grande espelho, e horrorizou-se da decomposição dos traços de seu rosto...
Como endoidecido deixou-se a olhar ao espelho, e a inquirir se era sua imagem essa imagem turva e sinistra que estava vendo...
De súbito estremeceu, encontrando no espelho a figura de Liberato.. ah! Liberato era a providência que chegava para ver a loucura e a perdição de Cândida... Frederico ficou imóvel.
Mas ao lado de Liberato, o espelho mostrou dois estudantes amigos, passar além da porta da câmara...
A virtude venceu a raiva, a lembrança de Leonídia, e talvez o melindre do amor dominaram o ciúme...
Frederico deu um passo adiante, com suas mãos convulsivas separou, desenlaçou a mão de Cândida das de Souvanel, que a apertavam, e com voz comprimida disse:
— Aí vem gente.
Cândida estremeceu, recolhendo o braço.
Souvanel ficou impassível.
Frederico em pé, silencioso e aparentemente frio, salvava Cândida da mais leve suspeita ofensiva do seu recato.
— Oh! Eis aí Frederico! - disse Liberato. - Há uma hora, que te procuramos debalde...
— Cândida me prendia aqui com as suas observações sobre as contradanças dos cantadores dos Reis - disse Frederico.
Liberato e seus dois companheiros pouco se demoraram na câmara, e Souvanel, ao vê-los sair, levantou-se e seguiu-os.
Cândida tinha ficado como petrificada.
Frederico em pé, por detrás da cadeira da moça confundida, estava imóvel, silencioso, mas profundamente alvoroçado.
Em Cândida o primeiro sentimento que se despertou foi o do reconhecimento da grandeza d'alma daquele mancebo, que desprezado e ofendido em seu amor, a socorrera e salvara ainda no ato da ofensa; ela, porém, sentia sobre sua cabeça o respirar agitado de Frederico, conturbava-se sob o peso enorme desse anélito, e tinha medo, a criminosa, da primeira palavra do juiz.
Em Frederico havia dédalo de idéias inconseqüentes e contraditórias, no seu espírito o desassossego das inspirações incoerentes, no seu coração a luta do fogo e do gelo: o mancebo pensava em afastar-se e não sabia como fazê-lo, estava preso pela confusão de Cândida, tinha repugnância de ir esbarrar com Souvanel, tinha medo de encontrar Liberato e de ser por ele interrogado; e permanecia inerte, em pé, mudo, imóvel, a olhar sem ver, sem consciência da sua posição, sem atinar com uma saída desse estado de estupefação que seguira ao extremo desengano de seu amor, e ao instintivo movimento de sua generosidade.
Ele nem viu que as contradanças haviam terminado, e que ao convite de Florêncio da Silva os cantadores dos Reis saíam do salão para a mesa da ceia, acompanhados pelas senhoras e cavalheiros da sociedade do hóspede obsequiador.
Todos se tinham levantado e iam deixando o salão: somente Cândida sentada, e por trás de sua cadeira Frederico em pé, pareciam alheios ao que se passava.
Mas diante deles parou por um instante Leonídia, que conduzia pelas mãos duas senhoras, e disse sorrindo a seu filho de criação:
— Frederico, zela bem essa menina, que parece dormir sob a tua proteção vigilante: toma conta dela, meu filho!
E seguiu conversando com as amigas, a quem naturalmente explicava os santos laços que ligavam aquele mancebo à sua família.
Frederico estremecera à voz de Leonídia, e como por encanto sua alma escapou à estupefação, e engrandeceu-se ao desperto da consciência, e da razão.
Cândida quis amparar-se em sua mãe que passava, e fez um movimento para levantar-se.
— Fica - disse em voz baixa Frederico.
A moça obedeceu, convulsando.
Frederico abriu a meia-porta que estava cerrada, e foi sentar-se ao lado de Cândida; mas sem olhar para ela.
Cândida tremia. O mancebo falou.
— Sabes, é impossível quë não saibas, que nutri a esperança de merecer o teu amor; porque eu te amava muito: sabes que nossas famílias desejavam e projetavam nossa união... debalde o negarias...tu sabes tudo isso, Cândida! Atende bem: não me queixo de ti por não ter podido ser amado; amor não se obriga. O sonho desvaneceu-se: que o quisesses amanhã, eu não seria mais teu noivo. O amante apaixonado morreu para sempre; mas ainda vive o irmão: Cândida! Tu és minha irmã e precisas mim: dá-me a tua confiança.
A donzela não respondeu.
— Escuta, minha irmã; o que eu vi inda há pouco, foi doidice de menina... ninguém o saberá. Amas a Souvanel?... É um amor imprudente. Souvanel pode ser digno ou indigno de ti: na dúvida o teu comprometimento por esse amor é grave perigo, é loucura. Cândida! Oh filha de minha mãe, escuta: se amas deveras a Souvanel, contém-te e espera; eu te juro que irei informar-me sobre o passado, a vida, os costumes desse homem: se for preciso, minha irmã, irei à França, hei de saber quem ele é se for digno de ti, conta comigo, protegerei o teu amor, e serei uma das testemunhas do teu casamento. Sê portanto franca comigo, Cândida, responde a teu irmão: tu amas a Souvanel?
— Amo-o - murmurou Cândida.
Frederico, ouvindo a confissão de Cândida, não pôde reprimir um doloroso abalo; dominando-se porém logo, continuou:
— Perdoa: eu te amava... é natural que a certeza do teu amor por outrem me magoasse a pesar meu: hei de vencer esta fraqueza: confia em mim. Pois que amas a Souvanel, eu me incumbo de esclarecer-me sobre o que ele é e tem sido na sociedade. Eu te juro, minha irmã, eu te juro por minha honra, e pela vida de meu pai, que te direi a verdade. Eu te quero feliz, Cândida! Eu te quero feliz e esplêndida pela virtude; mas não te arrisques, não te percas, filha de minha mãe!
Cândida apertou entre as suas a mão de Frederico, e deixando cair lágrimas nas mãos apertadas, disse, chorando:
— Tu perdoas, como Deus, e és bom como Deus, Frederico!
— Eu sou um desgraçado, e tu és sacrílega, comparando-me com Deus, que é perfeito e onipotente; Deus, porém, te perdoará o sacrilégio, se me deres o que te peço em nome de nossa mãe!
— O quê, Frederico?
— Confiança plena, minha irmã!
— Eis a minha resposta - disse Cândida.
E levantando entre as suas a mão de Frederico, beijou-a rapidamente três vezes.
— Cândida! - exclamou Frederico, retirando a mão.
— Nestes três beijos, três vezes o coração da irmã - disse Cândida.
O mancebo levantou-se e conduziu aquela a quem chamara filha de sua mãe para a mesa da ceia, onde a fez sentar-se, e logo depois saiu calmo e sereno; chegando porém ao salão, que achou solitário, foi acelerado abrigar-se ao recanto de uma janela, agarrado a cujo parapeito experimentou e sofreu em convulsivo tremor, a reação violentamente demorada dos diversos afetos que tempesteavam em seu ânimo.