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A VIUVINHA

José de Alencar

VIII

Jorge tomou as mãos de sua mulher e beijou-as.

- Carolina!

- Meu amigo!

- Sabes o meu passado: já te contei todas as minhas loucuras e tu me perdoaste todas; preciso, porém, ainda do teu perdão para uma falta mais grave do que essas, para um crime talvez!

- Dize-me: esta falta faz que não me ames? perguntou a menina um pouco assustada.

- Ao contrário, faz que te ame ainda mais, se é possível! exclamou o moço.

- Então não é uma falta, respondeu ela, sorrindo.

- Quando souberes! murmurou o moço, talvez me acuses.

- Tu não pensas no que estás dizendo, Jorge! replicou a moça sentida.

- Escuta: se eu te pedir uma coisa, não me negarás?

- Pede e verás.

- Quero que me perdoes essa falta que tu ignoras!

- Causa-te prazer isto?

- Como tu não fazes idéia! disse o moço com um acento profundo.

- Pois bem; estás perdoado.

- Não; não há de ser assim; de joelhos a teus pés.

E o moço ajoelhou-se diante de sua mulher.

- Criança! disse Carolina sorrindo.

- Agora dize que me perdoas!

- Perdôo-te e amo-te! respondeu ela cingindo-lhe o pescoço com os braços e apertando a sua cabeça contra o seio.

Jorge ergueu-se calmo e sossegado; porém ainda mais pálido.

Carolina deixou-se cair sobre a conversadeira; suas pálpebras cerravam-se a seu pesar; pouco depois tinha adormecido.

O moço tomou-a nos braços e deitou-a sobre o leito, fechando as alvas cortinas; depois foi sentar-se na conversadeira, e colocou o seu relógio sobre uma banquinha de charão.

Assim, com a cabeça apoiada sobre a mão e os olhos fitos nas pequenas agulhas de aço que se moviam sobre o mostrador branco, passou duas horas.

Cada instante, cada oscilação, era um ano que fugia, um mundo de pensamentos que se abismava no passado.

Quando o ponteiro, devorando o último minuto, marcou quatro horas justas, ele ergueu-se.

Tirou do bolso uma carta volumosa e deitou-a sobre o consolo de mármore.

Abriu as cortinas do leito e contemplou Carolina, que dormia, sorrindo talvez à imagem dele, que em sonho lhe aparecia.

O moço inclinou-se e colheu com os lábios esse sorriso; era o seu beijo nupcial.

Tornou a fechar as cortinas e entrou na sala onde estivera a princípio; aí abriu uma janela e saltou no jardim.

Seguiu pela ladeira abaixo; a noite estava escura ainda; mas pouco faltava para amanhecer.

Debaixo da janela esclarecida do aposento de Carolina destacou-se um vulto que seguiu o moço a alguns passos de distância.

A pessoa, qualquer que ela fosse, não desejava ser conhecida; estava envolvida em uma capa escura, e tinha o maior cuidado em abafar o som de suas pisadas.

Jorge ganhou a Rua da Lapa, seguiu pelo Passeio Público, e dirigiu-se à Praia de Santa Luzia.

O dia vinha começando a raiar; e o moço, que temia ver esvaecerem-se as sombras da noite antes de ter chegado ao lugar para onde se dirigia, apressava o passo.

O vulto o acompanhava sempre a alguma distância, tendo o cuidado de caminhar do lado do morro, onde a escuridão era mais intensa.

Quando Jorge chegou ao lugar onde hoje se eleva o Hospital da Misericórdia, esse lindo edifício que o Rio de Janeiro deve a José Clemente Pereira, o horizonte se esclarecia com os primeiros clarões da alvorada.

Um espetáculo majestoso se apresentava diante de seus olhos; aos toques da luz do sol parecia que essa baía magnífica se elevava do seio da natureza com os seus rochedos de granito, as suas encostas graciosas, as suas águas límpidas e serenas.

O moço deu apenas um olhar a esse belo panorama e continuou o seu caminho.

O vulto que o seguia tinha desaparecido.

IX

O Rio de Janeiro ainda se lembra da triste celebridade que, há dez anos passados, tinha adquirido o lugar onde está hoje construído o Hospital da Santa Casa.

Houve um período em que quase todas as manhãs os operários encontravam em algum barranco ou entre os cômoros de pedra e de areia, o cadáver de um homem que acabara de pôr termo à sua existência.

Outras vezes ouvia-se um tiro; os serventes corriam e apenas achavam uma pistola ainda fumegante, um corpo inanimado, e sobre ele alguma carta destinada a um amigo, a um filho, ou a uma esposa.

Amantes infelizes, negociantes desgraçados, pais de família carregados de dívidas, homens ricos caídos na miséria, quase todos aí vinham, trazidos por um ímã irresistível, por fascinação diabólica.

As Obras da Misericórdia, como chamavam então este lugar, tinham a mesma reputação que o Arco das Águas Livres de Lisboa e a Ponte Nova de Paris.

Era o templo do suicídio, onde a fragilidade humana sacrificava em holocausto a esse ídolo sanguinário tantas vítimas arrancadas às suas famílias e aos seus amigos.

Essa epidemia moral, que se agravava todos os dias, começava já a inquietar alguns espíritos refletidos, alguns homens pensadores, que viam com tristeza os progressos do mal.

Procurava-se debalde a causa daquela aberração fatal da natureza, e não era possível explicá-la.

Não tínhamos, como a Inglaterra, esse manto de chumbo, que pesa sobre a cabeça dos filhos da Grã-Bretanha; esse lençol de névoa e de vapores, que os envolve como uma mortalha.

Não tínhamos, como a Alemanha, o idealismo vago e fantástico, excitado pelas tradições da média idade, e, modernamente, pelo romance de Goethe, que tão poderosa influência exerceu nas imaginações jovens.

Ao contrário, o nosso céu, sempre azul, sorria àqueles que o contemplavam; a natureza brasileira, cheia de vigor e de seiva, cantava a todo o momento um hino sublime à vida e ao prazer.

O gênio brasileiro, vivo e alegre no meio dos vastos horizontes que o cercam, sente-se tão livre, tão grande, que não precisa elevar-se a essas regiões ideais em que se perde o espírito alemão.

Nada enfim explicava o fenômeno moral que se dava então na população desta corte; mas todos o sentiam e alguns se impressionavam seriamente.

Era fácil, pois, naquela época, adivinhar o motivo que levava Jorge às quatro horas da manhã ao lugar onde se abriam os largos alicerces do grande Hospital de Santa Luzia.

O moço afastou-se da praia, e desapareceu por detrás de alguns montes de areia que se elevavam aqui e ali pelo campo.

Meia hora depois ouviram-se dois tiros de pistola; os trabalhadores que vinham chegando para o serviço correram ao lugar donde partira o estrondo, e viram sobre a areia o corpo de um homem, cujo rosto tinha sido completamente desfigurado pela explosão da arma de fogo.

Um dos guardas meteu a mão no bolso da sobrecasaca, e achou uma carteira contendo algumas notas pequenas, e uma carta apenas dobrada, que ele abriu e leu:

"Peço a quem achar o meu corpo o faça enterrar imediatamente, a fim de poupar à minha mulher e aos meus amigos esse horrível espetáculo. Para isso achará na minha carteira o dinheiro que possuo."

Jorge da Silva

5 de setembro de 1844.

Uma hora depois a autoridade competente chegou ao lugar do suicídio, e, tomando conhecimento do fato, deu as providências para que se cumprisse a última vontade do finado.

O trabalho continuou entre as cantilenas monótonas dos pretos e dos serventes, como se nada de extraordinário se houvesse passado.

X

Cinco anos decorreram depois dos tristes acontecimentos que acabamos de narrar.

Estamos na Praça do Comércio.

Naquele tempo não havia, como hoje, corretores e zangões, atravessadores, agiotas, vendedores de dividendos, roedores de cordas, emitidores de ações; todos esses tipos modernos, importados do estrangeiro e aperfeiçoados pelo talento natural.

Em compensação, porém, ali se faziam todas as transações avultadas; aí se tratavam todos os negócios importantes com uma lisura e uma boa-fé que se tornou proverbial à praça do Rio de Janeiro.

Eram três horas da tarde.

A praça ia fechar-se; os negócios do dia estavam concluídos; e dentro das colunas que formam a entrada do edifício poucas pessoas ainda restavam.

Entre estas notava-se um negociante, que passeava lentamente ao comprido do saguão, e que por momentos chegava-se à calçada e lançava um olhar pela Rua Direita.

Era um moço que teria quando muito trinta anos, de alta estatura e de um porte elegante; à primeira vista parecia estrangeiro.

Tinha uma dessas feições graves e severas que impõem respeito e inspiram ao mesmo tempo a afeição e a simpatia. Sua barba, de um louro cinzento, cobria-lhe todo o rosto e disfarçava os seus traços distintos.

A fronte larga e reflexiva, um pouco curvada pelo hábito do trabalho e da meditação, e o seu olhar fixo e profundo, revelavam uma vontade calma, mas firme e tenaz.

A expressão de tristeza e ao mesmo tempo de resignação que respirava nessa fisionomia devia traduzir a sua vida; ao menos fazia pressentir na sua existência o predomínio de uma necessidade imperiosa, de um dever, talvez de uma fatalidade.

Ninguém na praça conhecia esse moço, que aí aparecera havia pouco tempo; mas as suas maneiras eram tão finas, os seus negócios tão claros e sempre à vista, as suas transações tão lisas, que os negociantes nem lhe perguntavam o seu nome para aceitarem o objeto que ele lhes oferecia.

Todas as pessoas já tinham partido, e ficara apenas o moço, que sem dúvida esperava alguém; entretanto, ou porque ainda não tivesse chegado a hora aprazada, ou porque já estivesse habituado a constranger-se, não dava o menor sinal de impaciência.

Finalmente a pessoa esperada apontou na entrada da Rua do Sabão e aproximou-se rapidamente.

A senhora, que talvez tenha imaginado um personagem de grande importância vai decerto sofrer uma decepção quando souber que o desconhecido era apenas um mocinho de dezenove para vinte anos.

Um observador ou um homem prático, o que vale a mesma coisa, reconheceria nele à primeira vista um desses virtuosi do comércio, como então havia muitos nesta boa cidade do Rio de Janeiro.

A classificação é nova e precisa uma explicação.

A lei, a sociedade e a polícia estão no mau costume de exigir que cada homem tenha uma profissão; donde provém esta exigência absurda não sei eu, mas o fato é que ela existe, contra a opinião de muita gente.

Ora, não é uma coisa tão fácil, como supõe-se, o ter uma profissão. Apesar do novo progresso econômico da divisão do trabalho, que multiplicou infinitamente as indústrias, e por conseguinte as profissões, a questão ainda é bem difícil de resolver para aqueles que não querem trabalhar.

Ter uma profissão quando se trabalha, isto é simples e natural, mas ter uma profissão honesta e decente sem trabalhar, eis o sonho dourado de muita gente, eis o problema de Arquimedes para certos homens que seguem a religião do dolce far niente.

O problema se resolveu simplesmente.

Há uma profissão cujo nome é tão vago, tão genérico que pode abranger tudo. Falo da profissão de negociante.

Quando um moço não quer abraçar alguma profissão trabalhosa, diz-se negociante, isto é, ocupado em tratar dos seus negócios.

Um maço de papéis na algibeira, meia hora de estação na Praça do Comércio, ar atarefado, são as condições do ofício.

Mediante estas condições o nosso homem é tido e havido como negociante; pode passear pela Rua do Ouvidor, apresentar-se nos salões e nos teatros.

Quando perguntarem quem é este moço bem vestido, elegante, de maneiras tão afáveis, responderão - É um negociante.

Eis o que eu chamo virtuosi do comércio, isto é, homens que cultivam a indústria mercantil por curiosidade, por simples desfastio, para ter uma profissão.

É tempo de voltar dessa longa digressão, que a senhora deve ter achado muito aborrecida.

O mocinho negociante, tendo chegado à Praça do Comércio, tomou o braço da pessoa que o esperava, dizendo-lhe:

- Está tudo arranjado.

- Seriamente? exclamou o outro moço, cujos olhos brilharam de alegria.

- Pois duvidas!

- Então, amanhã...

- Ao meio-dia.

- Obrigado! disse o moço apertando a mão de seu companheiro com efusão.

- Obrigado, por quê? O que fiz vale a pena de agradecer? Ora, adeus!... Vem jantar comigo.

- Não, acompanho-te até lá; mas preciso estar às quatro horas em minha casa.

Os dois moços de braço dado dobraram o canto da Rua Direita.

XI

Seguiram pela Rua do Ouvidor.

Não sei que interesse, dizia o nosso negociante continuando a conversa; não

sei que interesse tens tu, Carlos, em resgatares aquela letra!

É uma especulação que algum dia te explicarei, Henrique, e na qual espero ganhar.

- É possível, respondeu o outro, mas permitirás que duvide.

- Por quê?

- Ora, é boa! uma letra de um homem já falecido, de uma firma falida! Aposto que não sabias disto?!

- Não; não sabia! disse Carlos sorrindo amargamente.

- Pois então deixa contar-te a história.

- Em outra ocasião.

- Por que não agora? Reduzo-te isto a duas palavras, visto que não estás disposto a escutar-me.

- Mas...

- Trata-se de um negociante rico, que faleceu, deixando ao filho coisa de 300 contos de réis e algumas dívidas, na importância de um terço dessa quantia. O filho gastou o dinheiro, e deixou que protestassem as letras aceitas pelo pai, o qual, apesar de morto, foi declarado falido.

Enquanto seu companheiro falava, Carlos se tinha tornado lívido; conhecia-se que uma emoção poderosa o dominava, apesar do esforço de vontade com que procurava reprimi-la.

- E esse filho... o que fez? perguntou com voz trêmula.

- O sujeito, depois de ter-se divertido à larga, quando se viu pobre e desonrado, enfastiou-se da vida, e fez viagem para o outro mundo.

- Suicidou-se!

- É verdade; mas o interessante foi que na véspera de sua morte se tinha casado com uma menina lindíssima.

- Conheces?

- Ora! quem não conhece a Viuvinha no Rio de Janeiro? É a moça mais linda, a mais espirituosa e a mais coquette dos nossos salões.

A conversa foi interrompida, os dois amigos caminharam por algum tempo sem trocarem palavra.

Carlos ficara triste e pensativo; o seu rosto tinha neste momento uma expressão de dor e resignação que revelava um sofrimento profundo, mas habitual.

Quanto ao seu companheiro, fumava o seu charuto, olhando para todas as vidraças de lojas por onde passava e apreciando essa exposição constante de objetos de gosto, que já naquele tempo tornava a Rua do Ouvidor o passeio habitual dos curiosos.

De repente soltou uma exclamação, e apertou com força o braço de seu amigo.

- O que é? perguntou este.

- Nada mais a propósito! Ainda há pouco falamos dela, e ei-la!

- Onde? exclamou Carlos estremecendo.

- Não a viste entrar na loja do Wallerstein?

- Não; não vi ninguém.

- Pois verás.

Com efeito, uma moça vestida de preto, acompanhada por uma senhora já idosa, havia entrado na loja do Wallerstein.

A velha nada tinha de notável e que a distinguisse de uma outra qualquer velha; era uma boa senhora que fora jovem e bonita, e que não sabia o que fazer do tempo que outrora levava a enfeitar-se.

A moça, porém, era um tipo de beleza e de elegância. As linhas do seu rosto tinham uma pureza admirável.

Nos seus olhos negros e brilhantes radiava o espírito, esse espírito da mulher cheio de vivacidade e de malícia. Nos seus lábios mimosos brincava um sorriso divino e fascinador.

Os cabelos castanhos, de reflexos dourados, coroavam sua fronte como um diadema, do qual se escapavam dois anéis, que deslizavam pelo seu colo soberbo.

Trajava um vestido de cetim preto, simples e elegante; não tinha um ornato, nem uma flor, nem outro enfeite, que não fosse dessa cor triste, que ela parecia amar.

Essa extrema simplicidade era o maior realce da sua beleza deslumbrante. Uma jóia, uma flor, um laço de fita, em vez de enfeitá-la, ocultariam uma das mil graças e mil perfeições que a natureza se esmerara em criar nela.

Os dois moços pararam à porta do Wallerstein; enquanto seu amigo olhava a moça com o desplante dos homens do tom, Carlos, através da vidraça, contemplava com um sentimento inexprimível aquela graciosa aparição.

Os caixeiros do Wallerstein desdobraram sobre o balcão todas as suas mais ricas e mais delicadas novidades, todas as invenções do luxo parisiense, verdadeiro demônio tentador das mulheres.

A cada um desses objetos de gosto, a cada uma das mimosas fantasias da moda, ela sorria com desdém e nem sequer as tocava com a sua alva mãozinha, delicada como a de uma menina.

As fascinações do luxo, as bonitas palavras dos caixeiros e as instâncias de sua mãe, tudo foi baldado. Ela recusou tudo, e contentou-se com um simples vestido preto e algumas rendas da mesma cor, como se estivesse de luto, ou se preparasse para as festas da Semana Santa.

- Assim, depois de cinco anos, disse-lhe sua mãe em voz baixa, persistes em conservar este luto constante.

A Viuvinha sorriu.

- Não é luto, minha mãe: é gosto. Tenho paixão por esta cor; parece-me que ela veste melhor que as outras.

- Não digas isto, Carolina; pois o azul desta seda não te assenta perfeitamente?

- Já gostei do azul; hoje o aborreço! É uma cor sem significação, uma cor morta.

- É o preto.

- Oh! O preto é alegre!

- Alegre! exclamou um caixeiro, admirado dessa opinião original em matéria de cor.

- Eu pelo menos o acho, replicou a moça tomando de repente um ar sério: é a cor que me sorri.

Esta conversa durou ainda alguns minutos.

Poucos instantes depois, as duas senhoras saíram e o carro que as esperava à porta desapareceu no fim da rua.

Carlos despediu-se do seu companheiro.

- Então amanhã sem falta!

- Ah! Ainda insistes no negócio?

- Mais do que nunca!

- Bem. Já que assim o queres...

- Posso contar contigo?

- Como sempre.

- Obrigado.

Henrique continuou a arruar, fazendo horas para o jantar.

Carlos dobrou a Rua dos Ourives e dirigiu-se à casa. Morava em um pequeno sótão de segundo andar no fim da Rua da Misericórdia.

XII

A razão por que o moço, saindo da Rua Direita, dera uma grande volta para recolher-se não fora unicamente o desejo de acompanhar Henrique. Havia outro motivo mais sério.

Ele ocultava a sua morada a todos; o que aliás era-lhe fácil, porque depois de dois anos que estava no Rio de Janeiro não tinha amigos, e bem poucos eram os seus conhecidos.

Havia muito de inglês no seu trato. Quando fazia alguma transação ou discutia um negócio, era de extrema polidez. Concluída a operação, cortejava o negociante e não o conhecia mais. O homem tornava-se para ele uma obrigação, um título, uma letra de câmbio.

De todas as pessoas que diariamente encontrava na praça, Henrique era o único com quem entretinha relações, e essas mesmas não passavam de simples cortesia.

Entrando no seu aposento, Carlos fechou a porta de novo; e, sentando-se em um tamborete que havia perto da carteira, escondeu a fronte nas mãos com um gesto de desespero.

O aposento era de uma pobreza e nudez que pouco distava da miséria. Entre as quatro paredes que compreendiam o espaço de uma braça esclarecido por uma janela estreita, via-se a cama de lona pobremente vestida, uma mala de viagem, a carteira e o tamborete.

Nos umbrais da porta, dois ganchos que serviam de cabide. Na janela, cuja soleira fazia às vezes de lavatório, estavam o jarro e a bacia de louça branca, uma bilha d'água, e um copo com um ramo de flores murchas. Junto à cama, em uma cantoneira, um castiçal com uma vela e uma caixa de fósforos. Sobre a carteira, papéis e livros de escrituração mercantil.

Era toda a mobília.

Quando, passado um instante, o moço ergueu a cabeça, tinha o rosto banhado de lágrimas.

- Era um crime, murmurou ele, mas era um grande alívio!... Coragem!

Enxugou as lágrimas, e, recobrando a calma, abriu a carteira e dispôs-se a trabalhar. Tirou do bolso um maço de títulos e bilhetes no valor de muitos contos de réis, contou-os e escondeu tudo em uma gaveta de segredo; depois tomou nos seus livros notas das transações efetuadas naquele dia.

Fora um dia feliz.

Tinha realizado um lucro líquido de 6:000$000. Não havia engano; os algarismos ali estavam para demonstrá-lo: os valores que guardava eram a prova.

Mas essa pobreza, essa miséria que o rodeava, e que revelava uma existência penosa, falta de todos os cômodos, sujeita a duras necessidades?

Seria um avarento?...

Era um homem arrependido que cumpria a penitência do trabalho, depois de ter gasto o seu tempo e os seus haveres em loucuras e desvarios. Era um filho da riqueza, que, tendo esbanjado a sua fortuna, comprava, com sacrifício do seu bem-estar, o direito de poder realizar uma promessa sagrada.

Se era avareza, pois, era a avareza sublime da honra e da probidade; era abnegação nobre do presente para remir a culpa do passado. Haverá moralista, ainda o mais severo, que condene semelhante avareza? Haverá homem de coração, que não admire essa punição imposta pela consciência ao corpo rebelde e aos instintos materiais que arrastam ao vício?

Terminadas as suas notas, esse homem, que acabava de guardar uma soma avultada, que naquele mesmo dia tinha ganho 6:000$000 líquidos, abriu uma gaveta, tirou quatro moedas de cobre, meteu-as no bolso do colete e dispôs-se a sair.

Aquelas quatro moedas de cobre eram um segredo da expiação corajosa, da miséria voluntária a que se condenara um moço que sentia a sede do gozo e tinha ao alcance da mão com que satisfazer por um mês, talvez por um ano, todos os caprichos de sua imaginação.

Aquelas quatro moedas de cobre eram o preço do seu jantar; eram a taxa fixa e invariável da sua segunda refeição diária; eram a esmola que a sua razão atirava ao corpo para satisfação da necessidade indeclinável da alimentação.

Os ricos e mesmo os abastados vão admirar-se, por certo, de que um homem pudesse jantar no Rio de Janeiro, naquele tempo, com 160rs., ainda quando esse homem fosse um escravo ou um mendigo. Mas eles ignoram talvez, como a senhora, minha prima, a existência dessas tascas negras que se encontram em algumas ruas da cidade, e principalmente nos bairros da Prainha e Misericórdia.

Nojenta caricatura dos hotéis e das antigas estalagens, essas locandas descobriram o meio de preparar e vender comida pelo preço ínfimo que pode pagar a classe baixa.

Quando Carlos chegou ao Rio de Janeiro, uma das coisas de que primeiro tratou de informar-se, foi do modo de subsistir o mais barato possível. Perguntou ao preto de ganho que conduzira os seus trastes, quanto pagava para jantar. O preto dispendia 80rs. O moço decidiu que não excederia do dobro. Era o mais que lhe permitia a diferença do homem livre ao escravo.

Talvez ache a coragem desse moço inverossímil, minha prima. É possível.

Compreende-se e admira-se o valor do soldado; mas esse heroísmo inglório, esse martírio obscuro, parece exceder as forças do homem.

Mas eu não escrevo um romance, conto-lhe uma história. A verdade dispensa a verossimilhança.

Acompanhemos Carlos, que desce a escada íngreme do sobrado e ganha a rua em busca da tasca onde costuma jantar.

Passando diante de uma porta, um mendigo cego dirigiu-lhe essa cantilena fanhosa que se ouve à noite no saguão e vizinhança dos teatros. O moço examinou o mendigo e, reconhecendo que era realmente cego e incapaz de trabalhar, tirou do bolso uma das moedas de cobre e entrou em uma venda para trocá-la.

O caixeiro da taverna sorriu-se com desdém desse homem que trocava uma moeda de 40rs., e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão. O pobre, reconhecendo que a esmola era de um vintém, guardou a sua ladainha de agradecimentos para uma caridade mais generosa.

Entretanto o caixeiro ignorava que aquela mão que agora trocava uma moeda de cobre para dar uma esmola, já atirara loucamente pela janela montões de ouro e de bilhetes do tesouro. O pobre não sabia que essa ridícula quantia que recebia era uma parte do jantar daquele que a dava, e que nesse dia talvez o mendigo tivesse melhor refeição do que o homem a quem pedira a esmola.

O moço recebeu a afronta do caixeiro e a ingratidão do pobre com resignação evangélica, e continuou o seu caminho. Seguiu por um desses becos escuros que da Rua da Misericórdia se dirigem para as bandas do mar, cortando um dédalo de ruelas e travessas.

No meio desse beco via-se uma casa com uma janela muito larga e uma porta muito estreita.

A vidraça inferior estava pintada de uma cor que outrora fora branca, e que se tornara acafelada. A vidraça superior servia de tabuleta. Liam-se em grossas letras, por baixo de um borrão de tinta informe e com pretensões a representar uma ave, estas palavras: "Ao Garnizé".

O moço lançou um olhar à direita e à esquerda sobre os passantes, e, vendo que ninguém se ocupava com ele, entrou furtivamente na tasca.

XIII

O interior do edifício correspondia dignamente à sua aparência.

A sala, se assim se pode chamar um espaço fechado entre quatro paredes negras, estava ocupada por algumas velhas mesas de pinho.

Cerca de oito ou dez pessoas enchiam o pequeno aposento: eram pela maior parte marujos, soldados ou carroceiros que jantavam.

Alguns tomavam a sua refeição agrupados aos dois e três sobre as mesas; outros comiam mesmo de pé, ou fumavam e conversavam em um tom que faria corar o próprio Santo Agostinho antes da confissão.

Uma atmosfera espessa, impregnada de vapores alcoólicos e fumo de cigarro pesava sobre essas cabeças, e dava àqueles rostos um aspecto sinistro.

A luz que coava pelos vidros embaciados da janela mal esclarecia o aposento, e apenas servia para mostrar a falta de asseio e de ordem que reinava nesse couto do vício e da miséria.

No fundo, pela fresta de uma porta mal cerrada, aparecia de vez em quando a cabeça de uma mulher de 50 anos, que interrogava com os olhos os fregueses, e ouvia o que eles pediam.

Era a dona, a servente e ao mesmo tempo cozinheira dessa tasca imunda.

A cada pedido, a cabeça, coberta com uma espécie de turbante feito de um lenço de tabaco, retirava-se, e daí a pouco aparecia um braço descarnado, que estendia ao freguês algum prato de louça azul cheio de comida, ou alguma garrafa de infusão de campeche com o nome de vinho.

Foi nesta sala que entrou Carlos.

Mas não entrou só; porque, no momento em que ia transpor a soleira, um homem que havia mais de meia hora passeava na calçada defronte da tasca adiantou-se e deitou a mão sobre o ombro do moço.

Carlos voltou-se admirado dessa liberdade; e ainda mais admirado ficou, reconhecendo na pessoa que o tratava com tanta familiaridade o nosso antigo conhecido, o Sr. Almeida.

O velho negociante não tinha mudado; conservava ainda a força e o vigor que apesar da idade animava o seu corpo seco e magro; no gesto a mesma agilidade; no olhar o mesmo brilho; na cabeça encanecida o mesmo porte firme e direito.

- Está espantado de ver-me aqui? disse o Sr. Almeida sorrindo.

- Confesso que não esperava, respondeu o moço, confuso e perturbado.

- O mal pode ocultar-se; o bem se revela sempre; acrescentou o velho em tom sentencioso.

- Que quer dizer?

- Entremos.

- Para quê?

- O senhor não ia entrar?

Carlos recuou insensivelmente da porta, e, querendo esconder do velho negociante o seu nobre sacrifício, fez um esforço, e balbuciou uma mentira:

- Passava... por acaso... Vou ao Largo do Moura...

O Sr. Almeida fitou os seus olhos pequenos, mas vivos, no rosto do moço, que não pôde deixar de corar; e, apertando-lhe a mão com uma expressão significativa, disse-lhe :

- Sei tudo!

- Como? perguntou Carlos admirado ao último ponto.

- É aqui que costuma jantar. E por isso adivinho qual tem sido a sua existência durante estes cinco anos. Impôs-se a si mesmo o castigo da sua antiga prodigalidade; puniu o luxo de outrora com a miséria de hoje. É nobre, mas é exagerado

- Não, senhor; é justo. O que possuo atualmente, o que adquiro com o meu trabalho, não me pertence; é um depósito, que Deus me confia, e que deve servir não só para pagar as dívidas de meu pai, como também a dívida sagrada que contraí para com uma moça inocente. Gastar esse dinheiro seria roubar, Sr. Almeida.

- Bem; não argumentemos sobre isto; não se discute um generoso sacrifício: admira-se. Venha jantar comigo.

- Não posso, respondeu o moço.

- Por quê?

- Não aceito um favor que não posso retribuir.

- Quem faz o favor é aquele que aceita e não o que oferece. Demais, eu pobre, nunca me envergonhei de sentar-me à mesa de seu pai rico, acrescentou o velho com severidade.

- Desculpe!

O velho tomou o braço de Carlos, e dirigiu-se com ele ao Hotel Pharoux, que naquele tempo era um dos melhores que havia no Rio de Janeiro; ainda não estava transformado em uma casa de banhos e um ninho de dançarinas.

Poucos instantes depois, estavam os dois companheiros sentados a uma das mesas do salão; e o Sr. Almeida, com um movimento muito pronunciado de impaciência, instava para que o moço concordasse na escolha do jantar que ele havia feito à vista da data.

Carlos recusava com excessiva polidez os pratos esquisitos que o velho lembrava, e a todas as suas instâncias respondia sorrindo:

- Não quero adquirir maus hábitos, Sr. Almeida.

O velho reconheceu que era inútil insistir.

- Então o que quer jantar?

Carlos escolheu dois pratos.

- Somente?

- Somente.

- Não me meto mais a teimar com o senhor, respondeu o velho olhando de encontro à luz o rubi líquido de um cálice de excelente vinho do Porto.

Serviu-se o jantar.

O Sr. Almeida comeu com a consciência de um homem que paga bem e que não lastima o dinheiro gasto nos objetos necessários à vida. Satisfez o estômago e deixou apenas esse pequeno vácuo, tão difícil de encher, porque só admite a flor de um manjar saboroso ou de uma iguaria delicada.

Então, bebendo o seu último cálice de vinho do Porto, passando na boca as pontas do guardanapo, cruzou os braços sobre a mesa com ar de quem dispunha a conversar.

- Pode acender o seu charuto, não faça cerimônia.

- Já não fumo, respondeu Carlos simplesmente.

- O senhor já não é o mesmo homem. Não come, não bebe, não fuma; parece um velho da minha idade.

- Há uma coisa que envelhece mais do que a idade, Sr. Almeida: é a desgraça.

E além disto o senhor tem razão; não sou, nem posso ser o mesmo homem; já morri uma vez, acrescentou em voz baixa.

- Mas há de ressuscitar.

- É essa a esperança que me alimenta.

- E como vai esse negócio? perguntou o velho com interesse.

- Tem-me custado recolher as letras de meu pai; já paguei 60:000$, e amanhã devo pagar 5:000$; seis letras que me faltam não sei onde se acham. Se eu pudesse anunciar... Mas, na minha posição, receio comprometer-me.

- Pensou bem. Porém só restam por pagar essas seis letras?

- Unicamente.

- Quer saber então onde elas estão?

- É o maior favor que me pode fazer.

- Com uma condição.

- Qual?

- Que há de ouvir-me como se fosse seu pai quem lhe falasse, disse o velho, estendendo a mão.

Por toda a resposta o moço apertou, com efusão e reconhecimento, a mão leal do honrado negociante.

- Essas seis letras, disse o Sr. Almeida, estão em meu poder.

- Ah!

- Lembra-se do que lhe disse, há cinco anos, na véspera do seu casamento?

- Lembro-me de tudo.

- Era minha intenção salvar a firma de meu melhor amigo... de seu pai. Mas a sua morte suposta impossibilitou-me. O passivo da casa excedia as minhas forças. Os credores reuniram-se e resolveram fazer declarar a falência.

- De um homem morto.

- É verdade. Não o pude evitar. O mais que consegui foi abafar este negócio, comprando a alguns credores mais insofridos as suas dívidas. Eis como essas letras vieram parar à minha mão.

- Obrigado, Sr. Almeida, disse o moço comovido, ainda lhe devo mais esse sacrifício.

- Está enganado, respondeu o velho querendo dar à sua voz a aspereza habitual; não fiz sacrifício; fiz um bom negócio; comprei as letras com um rebate de 50%, ganho o dobro.

- Mas quando as comprou não tinha esperança de ser pago.

- Tinha confiança na sua honra e na sua coragem.

- E se eu não voltasse

- Era uma transação malograda; a fortuna do negociante está sujeita a estes riscos.

- Felizmente, Deus ajudou-me e quis que um dia pudesse agradecer-lhe sem corar, esse benefício. O que tinha sido da sua parte uma dádiva generosa, tornou-se um empréstimo que devo pagar-lhe hoje mesmo.

- Não consinto; prometeu-me ouvir como a seu pai; eis o que ele lhe ordena pela minha voz. - Todas as suas dívidas acham-se pagas; a sua honra está salva; é tempo de voltar ao mundo.

- Mas as seis letras que estão em sua mão? interrompeu o moço.

- Aqui as tem, disse o Sr. Almeida entregando-lhe um pequeno maço.

- Devo-lhe então...

- Deve o que dei por elas; e me pagará quando lhe for possível.

- Não sei quanto lhe custaram esses títulos; sei que eles representam um valor emprestado a meu pai. O senhor podia perder; é justo que lucre.

- Bem; faça o que quiser.

- Quanto ao pagamento, posso realizá-lo imediatamente; já o teria feito se há mais tempo soubesse que esses títulos lhe pertenciam.

- Eu ocultei-os de propósito. Quando chegou dos Estados Unidos e me comunicou o que tinha feito e o que pretendia fazer, resolvi, para facilitar-lhe o cumprimento de seu dever, deixar que o senhor pagasse primeiro os estranhos.

- Agora, porém, essa dificuldade desapareceu; vamos à minha casa.

- Para quê?

- Para receber o que lhe devo.

- Não tratemos disso agora.

- Escute, Sr. Almeida; depois de cinco anos de provanças e misérias, não sei o que Deus me reserva. Mas, se ainda há neste mundo felicidade para mim, antes de aceitá-la é preciso que eu tenha reparado todos os meus erros; é preciso que eu me sinta purificado pela desgraça. Uma dívida, embora o credor seja um amigo, se tornaria um remorso. Tenho dinheiro suficiente para pagá-la.

- E que lhe restará?

- Um nome honrado, e a esperança.

O Sr. Almeida resignou-se e acompanhou Carlos até à sua casa.

Aí, o moço abriu a carteira, e, tirando os valores que há pouco havia guardado, entregou ao negociante a quantia de 30:000$ representada pelo algarismo das seis letras.

- Já lhe disse que só me deve 15:000$, disse o velho recusando receber.

- Devo-lhe o valor integral destes títulos; se a firma de meu pai não inspirou confiança aos outros, para seu filho ela não sofre desconto.

Enquanto o Sr. Almeida, mordendo os beiços, guardava as notas do banco e os bilhetes do tesouro, Carlos abria uma pequena carteira preta, e, depois de beijar a firma de seu pai escrita no aceite, fechou com as outras essas últimas letras que acabava de pagar.

- Aqui está a minha fortuna, disse, sorrindo com altivez.

- Tem razão, respondeu o velho; porque aí está o mais nobre exemplo de honestidade.

- E também o mais belo testemunho de uma verdadeira amizade.

- Jorge!... exclamou o negociante, comovendo-se.

Alguns instantes depois, o Sr. Almeida despediu-se do moço.

- Escuso recomendar-lhe uma coisa, disse Jorge ao negociante.

- O quê?

- A continuação do segredo. Nem uma palavra!... Quando for tempo, eu mesmo o revelarei. Ainda não sou Jorge.

- Que falta?

- Depois lhe direi.

E separaram-se.

XIV

As últimas palavras do velho negociante esclareceram um mistério que já se achava quase desvanecido.

Jorge era o verdadeiro nome desse moço que morrera para o mundo, e que durante cinco anos vivera como um estranho sem família, sem parentes, sem amigos, ou como uma sombra errante condenada à expiação das suas faltas.

A página em que eu devia ter escrito as circunstâncias desse fato ficou em branco, minha prima; agora, porém, podemos lê-la claramente no espírito de Jorge, que, sentado à sua carteira, triste e pensativo, repassa na memória esses anos de sua vida, desde a noite do seu casamento.

Acompanhando o moço no seu sinistro passeio às obras da Santa Casa de Misericórdia, o vimos sumir-se por entre os cômoros de areia que se elevavam por toda essa vasta quadra em que está hoje assentado o Hospital de Santa Luzia.

O vulto que o seguia de perto, embuçado em uma capa e tomando todas as precauções para não ser conhecido nem pressentido pelo moço, desapareceu como ele nas escavações do terreno.

Jorge, como todo homem que depois de longa reflexão toma uma resolução firme e inabalável, estava ansioso por chegar à peripécia desse drama terrível; por isso parou no primeiro lugar que lhe pareceu favorável ao seu desígnio.

Mas um espetáculo ainda mais horrível do que o seu pensamento apresentou-se a seus olhos; viu a realização dessa idéia louca que desde a véspera dominava o seu espírito.

Um infeliz, levado pela mesma vertigem, o tinha precedido; seu corpo jazia sobre a areia na mesma posição em que o surpreendera a morte instantânea, meio recostado sobre o declive do terreno.

A cabeça era uma coisa informe; o tiro fora carregado com água para tornar a explosão surda e mais violenta; as feições haviam desaparecido, e não deixavam reconhecer o desgraçado.

Naturalmente quis ocultar a sua morte, para poupar à sua família o escândalo e a impressão dolorosa que sempre deixam esses atos de desespero.

Aquele espetáculo horrorizou o moço: em face da realidade seu espírito recuou; houve mesmo um instante em que se espantou da sua loucura; e voltou o rosto para não ver esse cadáver, que parecia escarnecer dele.

Mas a lembrança do que o esperava, se voltasse, triunfou; julgou-se irremissivelmente condenado; e chamou covardia o grito extremo da razão que sucumbia.

Tirou as suas pistolas, e armou-as sorrindo tristemente; depois ajoelhou e começou uma prece.

Desvario incompreensível da criatura que, ofendendo a Deus, ora a esse mesmo Deus! Demência extravagante do homem que pede perdão para o crime que vai cometer!

Quando o moço, terminada a sua prece, erguia as duas pistolas e ia aplicar os lábios à boca da arma assassina, o vulto que o tinha acompanhado, e que se achava nesse momento de pé, atrás dele, com um movimento rápido paralisou-lhe os braços.

Jorge ergueu-se precipitadamente, e achou-se em face do homem que se opusera à sua vontade de uma maneira tão brusca.

Era o Sr. Almeida.

O velho, com a sua perspicácia e com os exemplos de tantos fatos semelhantes em uma época em que dominava a vertigem do suicídio, adivinhara as intenções do moço.

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