Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Ao Correr Da Pena José De Alencar - Página 9  Voltar

Ao Correr da Pena

José de Alencar

Capítulo XXXV

Rio, 17 de junho.

Sexta-feira, por volta de oito horas, ia meu caminho para o Teatro Lírico, assistir à terceira representação da Ana Bolena, quando me entregaram uma carta que me era dirigida!...

Uma carta!...

De todas as espécies de escritos que eu conheço, a carta é sem dúvida a mais interessante, a mais curiosa, e sobretudo a mais necessária.

A carta é um livro numa folha de papel, é uma história em algumas linhas, um poema sem cantos; pode ser um testamento, uma confidência, uma entrevista, um desafio, uma boa notícia, ou o anúncio de uma boa desgraça.

É um pássaro, uma ave de arribação, que voa a longes terras, aos climas mais remotos para levar ao amigo ausente as palavras e os pensamentos da amizade ou do amor.

É uma espécie de fio elétrico que comunica através do espaço e da distância duas almas separadas por uma infinidade de léguas, dois homens que muitas vezes nunca se viram, e que entretanto se conhecem.

Quando deram este nome a esse pequeno paralelogramo de papel, que num minuto pode devorar uma fortuna colossal, foi por analogia que talvez tenha escapado a muita gente.

Como a carta do baralho, a carta escrita produz as mesmas emoções, o mesmo delírio; também ela tem seus lances de fortuna ou de azar no jogo da vida.

Se uma dama, ou um ás, ou um valete que se volta sobre o tapete verde, pode arruinar-vos ou enriquecer-vos, da mesma maneira neste lansquenet do mundo a que se chama a existência, uma carta que se escreve pode trazer-vos o sorriso da ventura ou a alegria do desespero.

A única diferença é que o baralho tem quarenta cartas, e que a vida tem mil alternativas. No mais a semelhança é perfeita, e todas as cartas deste mundo são uma e a mesma coisa.

Deveis ter ouvido falar numa espécie de compromisso político, num salvatério que os governos costumam dar às nações, e a que se chama carta.

Que é isto senão uma carta com a qual os governos e os povos jogam essa partida de écarté político, na qual ganha o parceiro que marca seis pontos, isto é, que nomeia seis ministros?

Por isso nós fizemos bem em trocar o nome pelo de constituição, que é mais expressivo, e que não admite nem sequer esses jogos de palavras.

Tudo isto eram reflexões que me acudiam ao espírito enquanto seguia o meu caminho, e procurava adivinhar pela forma e pela dobra o que continha a tal carta.

Bem sabeis que isto é uma arte preciosa; e que há sujeitinho capaz de adivinhar a mão que escreveu uma carta, e o fim com que a escreveu, somente pela maneira por que se acha dobrada e pelo papel do envelope.

Assim, uma cartinha fina, perfumada, macia, trai sempre a mulher; uma capa elegante mas dobrada às pressas, indica geralmente o homem de Estado, um ministro, um funcionário, enfim, sobre que pesa um trabalho invencível.

Ora, a minha carta não tinha parecença alguma com estas duas espécies descritas; estava fechada simplesmente como qualquer carta que sai do correio.

Por isso, como nada tinha que me interessasse, meti-a no bolso e fui ouvir Ana Bolena, sem mesmo ler-lhe o sobrescrito.

Aí levei a conversar sobre a nova reorganização ministerial; e, quaisquer que fossem as opiniões daqueles com quem falei, a todos ouvi o mesmo pensamento e a mesma idéia sobre o novo ministro, o Sr. Wanderley.

É inegável que este nome dá nova força e novo prestígio ao gabinete, que decerto não podia fazer uma melhor aquisição.

Quanto à necessidade da completa retirada do ministério, isto é questão à parte, e sobre a qual só daqui a algum tempo se poderá emitir um juízo seguro.

Entretanto felicitemo-nos por ver definitivamente reconstituído o governo do pais, que durante os últimos dias deu sinais de uma solução definitiva.

Dizem que muitos não aceitarão a pasta; e por isso será bom cuidarmos desde já em fazer do cargo de ministro uma espécie de guarda nacional ou de juro, a que nenhum cidadão se poderá escusar.

É preciso de vez em quando fazermos um pequeno sacrifício pela pátria, por ela que tantas vezes se sacrifica por nossa causa, por nossos interesses pessoais.

Se não lhe fizermos esses sacrifícios, quem preencherá os lugares de senadores, deputados, presidentes, ministros e bispos de uma e outra igreja?

Além da reconstituição do gabinete, nada mais houve de interessante nos altos domínios da política.

A Câmara dos Deputados esperava e desesperava, conforme os diversos boatos que corriam pelos corredores a cada hora e a cada instante.

O senado (coincidência notável), enquanto o ministério estava em crise, discutia magistralmente uma lei de pescarias.

Esta lei, apesar de muito bem sustentada pelo seu ilustre autor o Sr. Marquês de Abrantes, sofreu no senado grande oposição.

Apesar da consideração que merecem as opiniões opostas ao projeto, cumpre atender à penúria e à escassez de gêneros alimentícios, que quase todos os anos em certa época vai aparecendo no nosso país.

Uma lei de pescarias, sabiamente elaborada, seria não só um importante ramo de comércio e indústria, mas um meio eficaz de suprir no mercado a falta dos gêneros de primeira necessidade.

Ultimamente tem-se falado muito o nome do Sr. Conselheiro Vicente Pires da Mota, que deseja retirar-se do Ceará por incômodos de saúde.

Estamos convencidos que o governo empregará toda a sua solicitude para que o Sr. Pires da Mota continue a dirigir a província, que tão bem tem acolhido a sua administração.

Quando, porém, qualquer mudança se dê, esperamos que o Sr.Marquês de Paraná faça uma escolha acertada, nomeando um homem que tenha como o atual presidente, grande tino administrativo e a energia necessária para vencer exigências absurdas de pequenas influências locais.

É isto pelo menos o que exige a política do atual ministério, e a sua prudência governativa, a fim de não termos de lamentar cenas desagradáveis, e de não retrogradarmos de um estado, que, embora não seja o melhor, é contudo mil vezes preferível ao passado odiento de alguns anos atrás.

Ainda uma palavra.

Temos na nossa administração um empregado de alto merecimento, de qualidades eminentes, de uma inteligência e de um zelo provados por grandes serviços e importantes trabalhos.

Falo do Sr. Dr. Eduardo Olímpio Machado, atual Presidente do Maranhão, que vai dirigir a Província do Amazonas.

Estamos certos que, logo que haja oportunidade, o governo aproveitará melhor este hábil administrador, que uma moléstia cruel impede de continuar a residir nas províncias do norte.

Parece-nos mesmo que, se achando vagas algumas presidências de províncias do sul, se faria a uma delas grande serviço, e ao Dr. Olímpio estrita justiça, nomeando-o para um desses lugares.

Mas lá se ergue o pano, e, como desejo ouvir o terceiro ato sem perder uma nota, deixo a minha conversa, e entrego-me todo à arte, à música.

Mas decididamente estava na noite das distrações.

Apenas a Charton começou a cantar o seu belo romance, o meu pensamento deixou-me, e em menos de um segundo tinha transposto mares e serras.

Andava pela Europa, o brejeiro! Como eu não posso ir, ele mete-me inveja, e leva o tempo a fazer-me figas.

Num minuto passeou pela Itália, viu Emmy la Grua aprontando-se para a sua viagem de além-mar, e depois entrou em Londres, e foi a Convent-Garden ver a Julienne Dejean, que representava a Norma.

Esta é uma moça encantadora, como dizem que é a linda italiana; não é uma Rosina faceira e graciosa como a Charton, é uma mulher talhada para as grandes paixões, para as comoções fortes e violentas.

Sua voz de soprano, ampla, sonora, de uma grande extensão e volume, dizem que tem esses acentos do desespero, esses gritos d'alma, que fazem estremecer como um choque elétrico, que fazem correr pelo corpo um calafrio de emoção.

É uma voz para o ciúme selvagem da Norma, para a vingança e para as paixões de Lucrecia Borgia, para a ambição de Macbeth, para todos esses dramas enfim em que os sentimentos trágicos atingem à sublimidade.

Entretanto esse mesmo timbre de voz torna-se doce, terno, sentimental quando a artista traduz o amor feliz e essas delicadas emoções do coração que se expande.

Por isso afirmam que ela não tem repertório; canta a música italiana de preferência; e executa qualquer ópera de soprano que lhe designem.

Com ela deve vir o tenor Tamberlik, que atualmente goza na Europa da reputação de um dos melhores cantores no seu gênero.

Foi isto que o meu pensamento viu em viagem e que me veio contar, tirando-me assim todas as minhas belas ilusões da noite.

Comecei a refletir sobre o destino das glórias deste mundo.

"Ainda esta noite, pensava eu, a Charton pisa a nossa cena lírica como rainha e como soberana. Algumas reminiscências que nos deixou a Stoltz já estão apagadas. Brilha num céu sem nuvens como o astro das nossas noites, murmura ao ouvido como o eco das harpas eólicas, surge no meio de uma auréola de luz como o anjo da harmonia.

"Daqui a um mês, ou a dois talvez, quem sabe se não lhe arrancarão a sua coroa, e sei de tantos buquês, de tantos aplausos, terá uma flor solitária e um simples monossílabo de admiração, desses que partem espontaneamente do peito?"

Os abissínios foram um povo da antiguidade que, como os judeus, perderam a sua pátria e se espalharam pelo mundo, misturando o seu sangue a todas as raças.

Quando o sol se ergue, todos se levantam; quando ele chega ao ocaso, todos se recolhem, e tratam de dormir.

Há, porém, homens para quem a noite é mais bela do que o dia, para quem uma estrela perdida no azul do céu é mais encantadora do que o astro-rei com todo seu fulgor.

Estes saúdam o sol quando nasce, mas à noite contemplam a estrela fugitiva e a acompanham no seu caminho solitário.

Infelizmente, porém, ninguém neste mundo, depois de ter sido sol, deseja ficar estrela; e este é o grande mal.

De tudo isto nada se conclui.

Esperamos.

O pomo da discórdia está lançado; o banquete lírico se prepara, e o público, como Paris, tem de julgar.

Que julgue bem, porque a luta deve ser gigantesca como os combates da Ilíada e da Odisséia, como as peregrinações da Eneida.

Aposto, porém, que já estais desesperados por saber da carta que recebi quando ia para o teatro.

Chegamos a ela.

Era escrita em francês, e continha versos, versos feitos por mulher!

Devo, porém, prevenir-vos que não acreditei nem um momento na verdade da assinatura; tomei por uma inocente brincadeira de algum amigo desconhecido, e como os versos são bonitos, vo-los ofereço.

Eis a carta:

"13 de junho de 1855

"Monsieur. - Si vous voulez lês proteger, j'aurai lê courage de vous em envoier d'autres.

A jeudi prochain.

Souffrez que je garde l'anonyme; ce petit air de mystère a um je ne sais quoi, qui me rend plus hardie, ou plutôt moins craintive.

A vous d'amitié,

Elle.

DANS UM ALBUM
185

Dans votre álbum, ou la jeune amitié laisse
Des songes de bonheur, des projets d'avenir.
Pourquoi vouloir, ami, que ma sombre tristesse
Vienne jeter son deuil sur aussi doux loisir?

Vous ne savez donc os que lê rire de m lèvre
Déjà depuis çpngtemps ne va plus à mon coeur;
Et que de ce bonheur dont, hélas, on me sèvre,
Je crains même d'écrire lê nom si séducteur!

Moi aussi, j'ai connu ces jours pleins d'espérance
Quand je croyais à tout, aux promesses, au devoir,
Leur souvenir em moi éveille la souffrance,
Car ils ne m'ont laissé qu'un brulant dèsespoir.

Ce n'est dona pas la froid indifférence
Qui m'empêchait d'écrire um mot de souvenir;
Mais je ne voulais pás, vous dont la vie commence,
Que sitôt vous sussiez que vivre c'est souffrir!

Elle....

Rio de Janeiro

Bem vedes que, se é uma caçoada, é tão delicada e de tão bom gosto, que vale a pena deixar-me enganar, quando mais não fosse, ao menos para dar à vossa curiosidade, minhas belas leitoras, esse lindo tema para sobre ele fantasiardes à vontade.

É realmente uma mulher, uma mulher bonita que escreve lindos versos em francês, que no fundo d'alma o desengano e no lábio o sorriso, como uma flor pálida que nasce entre as ruínas, como essa chama lívida que lampeja um momento entre as cinzas quando o fogo se extingue?

Ou será alguma mocinha tímida que vota à poesia as primícias de sua alma, e que deixa cair sobre o papel, em versos, esses primeiros perfumes de um coração de dezoito anos, essas primeiras flores da mocidade e do amor?

Podeis fazer, como estas, mil outras suposições, e aceitar aquela que mais vos agradar e que mais se harmonizar com o vosso espírito e com os vossos sentimentos.

Quanto a mim, ou porque já estou um pouco cético a respeito dessas dores concentradas e desses sofrimentos mudos que sorriem, ou porque me achasse em más disposições para a poesia, o caso é que, apesar da letra fina e delgada, apesar do pronome da assinatura, nem um instante acreditei que houvesse nisto dedo de mulher.

Vi logo que toda esta história não passava de uma engenhosa invenção de algum sujeito que, ou queria abusar da minha boa-fé, ou se envolvia neste véu poético do mistério, para obter de mim a publicação de seus versos.

Fiquei, pois, firmemente convencido que a tal assinatura de tão misteriosa significação, não era outra coisa mais do que a letra inicial do nome do poeta, escrita por extenso - elle!

Também pode ser que o pronome deva ser lido em português, embora os versos sejam franceses; e então toda a poesia desaparece diante desta transformação de sexo, produzida pela mudança de línguas.

O que sei é que em tudo isto há uns olhos ou bonitos, de homem ou de mulher que estão percorrendo estas linhas, e procurando com ansiedade ver se conseguiram enganar-me; e queira Deus que um sorriso irônico não faça coro com esse olhar curioso.

Agora, minhas belas leitoras, deixo-lhes a decifração do enigma; e só lhes peço que, se acaso acertarem com ela, não se tornem egoístas, e ma comuniquem, para rir-me também da caçoada feita a todos nós.

Entretanto, se a nossa incógnita (incógnita em álgebra é comum de dois), se a nossa incógnita continuar a mandar-me os seus versos, e se eles forem bonitos como os primeiros, continuarei a publicá-los, e a dar-vos assim no meio da minha prosa chilra, algumas flores de poesia.

Conversemos agora a respeito de teatros.

O Ginásio conseguiu fazer a excelente aquisição de uma nova artista, moça de educação fina, e que promete um excelente futuro. É filha de um artista que já teve seus belos dias no nosso teatro.

A nova artista deve estrear segunda-feira, num pequeno papel que lhe foi distribuído para dar-lhe tempo a familiarizar-se com a cena.

O Teatro de São Pedro continua no mesmo estado. Breve, porém, o veremos transformado em uma bela cena lírica, na qual alguns cantores de cartello, que dizem devem chegar da Europa, nos darão noites bem agradáveis e bem animadas.

Com a rivalidade dos dois muito ganharemos na bondade dos espetáculos e no zelo dos empresários

Capítulo XXXVI

Rio, 24 de junho

A Botafogo!...

Acompanhemos essa linha de carros que desfila pela Glória e pelo Catete; sigamos esse numeroso concurso que vai pouco a pouco se estendendo pela praia, ao longo do parapeito.

O sol já descambou além dos montes; e as últimas claridades de um dia turvo e anuviado, foram se extinguindo entre as sombras do crepúsculo.

Daí a pouco fechou-se a noite; e no meio da escuridão e das trevas sobressaía uma multidão de luzes, refletindo-se sobre as águas do mar.

Ranchos de moças a passearem, bandas de música tocando nos coretos, senhoras elegantes debruçadas nas janelas iluminadas, muita concorrência, muita alegria e muita animação; tudo isto tornava a festa encantadora.

Quanto ao fogo, queimou-se às oito horas; dele só restam as cinzas no fundo do mar. Não estranhem, portanto, que o respeite como manda a máxima cristã. Parcis sepultis.

Às dez horas, pouco mais ou menos, tudo estava acabado. A praia ficara deserta; e nas águas tranqüilas da baía, apenas as nereidas murmuravam, conversando baixinho sobre o acontecimento extraordinário que viera perturbar os seus calmos domínios.

Não é preciso dizer-vos que isto se passava domingo, no começo de uma semana que prometia tantas coisas bonitas, e que afinal logrou-nos em grande parte.

Tivemos algumas boas noites de teatro italiano, e ouvimos o Trovador e o Barbeiro de Sevilha, com uma linda ária do Dominó noir, que foi muito aplaudida.

Se é verdade o que nos contaram, brevemente teremos o prazer de ouvir toda essa graciosa ópera, em benefício da Sociedade de Beneficência Francesa. A lembrança é feliz, e pode realizar-se perfeitamente com o concurso dos artistas franceses que possui atualmente o nosso Teatro Lírico.

A diretoria decerto não se oporá a uma representação, que, além do auxílio poderoso que deve dar a um estabelecimento de beneficência, não pode deixar de fazer bem aos seus artistas, fazendo-os conhecer num gênero de música diverso, e no qual é muito natural que se excedam.

Quem sabe mesmo se, depois deste primeiro ensaio, a empresa não julgará conveniente, para a variedade dos espetáculos e para excitar a concorrência, dar de vez em quando uma pequena representação francesa?

Sei que a música italiana é a mais apreciada no nosso país; porém lembro-me ainda do entusiasmo e do prazer com que foram sempre ouvidas em nossas cenas a Nongaret, a Duval e mesmo a Preti.

Já que não podemos ter ao mesmo tempo uma companhia italiana e uma francesa, não vejo porque não se hão de aproveitar os atores que atualmente possuímos, e, contratando mais um ou dois, deram-nos algumas óperas francesas, que estou certo haviam ser mui bem aceitas.

Se não há algum obstáculo, que ignoramos, é de crer que a diretoria pense em fazer valer este meio de tornar o Teatro Lírico mais interessante e mais variado.

As óperas francesas têm grande vantagem de não fatigarem tanto os atores como a música italiana; e por conseguinte se faria um benefício aos artistas, reservando os meses da força do verão para esse gênero de cantoria.

Assim, podiam-se das as representações italianas com maior intervalo, e não se sacrificaria a voz de alguns cantores, obrigando-os a executar música de Verdi duas ou três vezes por semana.

Fui-me deixando levar pelo gosto de advogar os vossos interesses, minhas belas leitoras, e esquecia-me contar-vos uma cena terna que teve lugar sexta-feira no teatro, quando se representava o segundo ato do Trovador.

Uns bravos e umas palmas fora de propósito acolheram a entrada em cena da Casaloni, e continuaram enquanto ela cantava e seu romance da Cigana.

A princípio a artista procurou resistir à emoção que de certo lhe causava essa zombaria imerecida; mas afinal o soluço cortou-lhe a voz e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Lágrimas de mulher... Quem pode resistir a elas?

Depois de alguns momentos de confusão, em que a cena ficou deserta e a música em silêncio, a Casaloni entrou novamente em cena com os olhos rasos de pranto e a voz trêmula.

Neste momento é que eu reconheci bem o nosso público, e senti o coração generoso que animava todo esse concurso de espectadores que enchia o salão.

Ninguém disse uma palavra; mas uma salva continuada de aplausos percorreu todos os bancos de ponta à ponta: tudo que tinha um pouco de generosidade no coração e um pouco de sentimento no fundo d'alma protestava contra aquela amarga zombaria, contra aquela ofensa sem causa.

A mulher ofendida que chora é uma coisa sagrada e que se deve respeitar. Dizem que a lágrima é o símbolo da fraqueza; entretanto quantas armas, quantos braços fortes não se têm curvado ao peso dessa gota de linfa que não umedeceria sequer uma folha de rosa?

Deixemos aqui este episódio da semana, que não tem outro interesse senão o de mostrar o efeito de uma imprudência, e de provar a delicadeza do público que sabe preferir uma cantora, sem por isso ofender e maltratar a outras.

O Ginásio Dramático também teve esta semana uma noite feliz, honrada com a presença de SS. MM., que se dignaram estender sobre ele sua benéfica e augusta proteção.

Representavam-se nessa noite duas comédias, cujos papéis foram muito bem desempenhados pelo artista da pequena companhia, que parece se esmerou em dar provas dos progressos sensíveis que tem feito.

O Episódio do Reinado de Jaques I é uma comédia histórica e de muito espírito; tem algumas cenas de uma singeleza e de uma naturalidade encantadoras.

É um idílio de amor aos quinze anos, começado nos muros de uma prisão, à leitura da Bíblia, e entre as flores de clematites, - que de repente se vê oprimido nos salões de um palácio suntuoso, no meio das etiquetas da Corte.

O idílio esteve quase a transformar-se em drama ou tragédia; mas felizmente achou refúgio num coração de rei, coração cheio de bondade e de virtude, e aí continuou a sorrir em segredo até que...

Até que caiu o pano.

Todos os personagens estavam bem caracterizados e vestidos com bastante luxo e riqueza para os recursos da pequena empresa, que não se poupa a sacrifícios sempre que se trata de promover um melhoramento.

Suas Majestades prometeram voltar ao Ginásio esta semana. Neste fato devem os meus leitores ver a prova a mais evidente dos serviços que este teatro vai prestando à arte dramática do nosso país.

Animado por tão alta proteção, acolhido pela boa sociedade desta corte, o Ginásio poderá brevemente estabelecer-se em um salão mais espaçoso e mais elegante, e aí abrir-nos as portas ao prazer, à alegria, a um inocente e agradável passatempo.

No resto das noites, em que os teatros estiverem fechados, muita moça e muita família passeou pela Rua do Ouvidor para ver o modelo de casamento da Imperatriz Eugênia, que se achava exposto na vidraça do Beaumely.

As moças admiravam mais o vestido de cetim branco e o penteado, que dizem ser de um gosto chic; os homens, porém, admiravam mais as moças que o vestido, de quem tinham ciúme, porque lhes roubavam os olhares, a que supunham talvez ter direitos.

É incompreensível este costume que têm certos homens que gostam de uma mulher de se julgarem com direito exclusivo aos seus olhares, sem que ela lhes tenha feito a menor promessa.

Parece que o olhar de uma mulher bonita é como uma vaga de senador. Ninguém tem direito a ela, o que quer dizer que todos o têm.

Assim um fashionable apaixona-se por uma bonita mulher, e, sem que ela lhe tenha dito uma palavra, sem mesmo consulta-la, atravessa-se diante dos seus olhares, segue-a por toda parte como a sombra do seu corpo, julga-se enfim com direito a ser amada por ela. Se a moça de todo não lhe presta atenção e não se importa com a perseguição sistemática, o apaixonado toma uma grande resolução, e despreza a mulher bonita de que ele realmente não faz caso.

O mesmo sucede com a vaga de senador.

Um homem qualquer que tem quarenta anos, seja ou não filho de uma província, tenha ou não a afeição dos povos de certas localidades, sem consultar os votantes, apresenta-se candidato, enche o correio de cartas.

Se a província mostra não se importar com a sua candidatura, o homem de quarenta anos toma igualmente uma resolução, renuncia à eleição a que tinha direito.

Ora, eu não sei como se chama o homem de quarenta anos que renuncia à vaga de senador; mas o apaixonado que despreza a mulher bonita é conhecido entre certa roda pelo título de comendador da Ordem dos Verdes.

Esta ordem é a mais antiga do mundo; é anterior mesmo à época da cavalaria e da mesa redonda. Data dos tempos em que os animais falavam, e deve a sua origem a uma raposa espirituosa, que numa circunstância memorável soltou esta palavra célebre: Estão verdes.

Muito tempo depois Eduardo III, apanhando a liga da Condessa de Salisbury, disse também uma palavra, que é pouco mais ou menos a tradução daquela: Honny soit qui mal y pense.

Assim como desta palavra se criou a jarreteira, estabeleceu-se muito antes a Ordem dos Verdes, na qual são comendadores do número os namorados que desprezam as mulheres bonitas, os ministros que recusam pastas, os patriotas que renunciam a candidatura, os empregados que pedem demissão, e muitos outros que seria longo enumerar.

A insígnia da ordem é uma folha de parreira, que outrora foi o símbolo da modéstia e do pudor.

A cor é o verde, como emblema da esperança; porque o estatuto da ordem embora imponha a abnegação e o sacrifício de uma honra ou de um bem, não inibe que se trabalhe por alcançar coisa melhor.

Os membros desta ordem gozam de grandes honras, privilégios e isenções, e especialmente da graça de obterem tudo quanto desejarem. Para isso são obrigados apenas a uma insignificante formalidade, que é não desejarem senão o que puderem obter.

Concluiria aqui esta revista, se não tivesse dois deveres a cumprir.

O primeiro é a respeito de uma questão que tem ocupado a imprensa desta corte, e que atualmente se acha entregue aos tribunais do país.

Falo de abalroação da Indiana, simples fato comercial, a que a imprensa tem querido dar o caráter de uma questão de classe e de brios nacionais.

Um estrangeiro que perde o seu navio não poderá defender os interesses do seu proprietário e dos carregadores, somente porque semelhante defesa vai ofender a tripulação de um vapor brasileiro?

Ninguém mais do que eu sabe respeitar o espírito de classe, e apreciar a generosa fraternidade que prende os homens de uma mesma profissão; porém confesso que essa maneira de identificar o homem com a classe, de julgar do fato pelo mérito pessoal, não é a mais acertada para a questão.

O comandante do vapor Tocantins pode ser um excelente oficial, a sua tripulação pode ser a melhor, e entretanto ter-se dado um descuido que ocasionasse o sinistro.

Felizmente hoje a questão vai ser perfeitamente esclarecida por testemunhas imparciais e dignas de todo o sinistro.

O Tocantins foi encontrado na mesma noite de 11, meia hora antes do sinistro, por um navio cujo capitão já atestou que o vapor trazia apenas uma luz ordinária, e não tinha sobre as rodas os faróis verde e encarnado.

Como este, existem muitos outros depoimentos importantes que aparecerão em tempo competente, e que mostrarão de que parte está a verdade e o direito.

O segundo ponto sobre que tenho de falar é a respeito dos espetáculos líricos no Teatro de S. Pedro de Alcântara, dos quais tratei na revista passada.

Um correspondente do Jornal do Comércio contesta a possibilidade desses espetáculos em virtude de um privilégio dado à atual empresa lírica.

Entretanto semelhante privilégio não pode existir; se o governo o concedeu, praticou um ato que não estava nas suas atribuições, um ato nulo, porque é inconstitucional.

Não é monopolizando uma indústria já conhecida no país, não é destruindo a concorrência que se promove a utilidade pública.

A própria diretoria do Teatro Lírico deverá desejar esta concorrência; porque se, como ela supõe a nova empresa não levar avante, dando-lhe nova força e novo prestígio.

Ainda voltarei a esta questão, que na minha opinião interessa muito ao futuro da arte nesta corte.

Por hoje faço-vos as minhas despedidas.

Vamos ver as fogueiras de São João, brincar ao relento, e recordar as poéticas e encantadoras tradições de nossos pais.

P.S. - À última hora recebo a minha carta prometida para quinta-feira; desta vez reservo para mim a carta, e dou-vos unicamente os versos.

O pronome (em falta do nome) persiste em ser lido em francês, e não em português; porém agora afianço-vos que estou convencido do contrário.

Podeis crer-me.

Confidences

Si tu vois une femme au sourir caressant, Au limpide regard, à la marche assurée, Et dont l'air de triomphe est toujours ravissant, C'est qu'elle aime déjà, et sait qu'elle est aimée

Si tu vois une femme à la marche incertaine, Au long regard abaissé, à la voix animée, Et ne se livrant jamais à une joie soudaime C'est qu'elle aime, et doute si elle sera aimée.

Mais, si tu vois celle au regard triste et morne, Dont lês mouvements brusques et la voix saccadée Viennent montrer encore tout l'amour qu'elle donne A celui qui l'aime, et qui l'a délaissée,

Oh! ne ris pás, ami! Sa douleur est poignante, Elle ne croit plus à rien; sa raison égarée Fait qu'elle ne desire que d'arriver mourante Aux pieds de celui qui est toute sa pensée.

Puisque jamais, jamais, cette voix si aimée Ne parlera plus pour elle le langage du coeur, Elle que désormais le triste cours de sa vie Ne sera plus marqué por un jour de bonheur.

Car il est vrai que les fêtes de ce monde Passent sur la douleur sans jamais la guérir; Et que celui qui souffre une peine profonde, Peut assister aux joies sans jamais les sentir. </poem>

Elle....

Rio de Janeiro, 1855

Capítulo XXXVII

Rio, 8 de julho.

Se não quereis ficar doido, abandonai a cidade, fugi para Petrópolis, ou fechai-vos em casa.

Sobretudo não vos animeis a deitar a cabeça à janela ou a sair à rua, ainda mesmo de noite.

Apenas derdes os primeiros passos, encontrareis um homem grave, que vos apertará a mão como antigo conhecido.

Pensais que vai perguntar pela vossa saúde, ou falar-vos de algum negócio particular? Enganai-vos completamente.

Desde terça-feira que não há nesta grande cidade senão um negócio. A forma vulgar da saudação, o clássico bons dias, foi substituído por um cumprimento mais cheio de interesse e solicitude:

— Então, quantas teve?

— vinte.

— Ah! dou-lhe os parabéns.

E o sujeito deixa-vos com um pequeno sorriso de despeito ou de vaidade satisfeita.

Daí a dois passos encontrais um outro conhecido de mãos nos bolsos e chapéu à banda.

— Meu amigo, quer vender?

— O que, senhor?

— As suas ações.

— Ah! as minhas ações! Não se vendem.

— Pois, se quiser, fico com todas as dez.

Este especulador, que tomais por um comprador de ações, está desesperado por vender as suas antes do dia onze.

Mais adiante tomam-vos o braço de repente, e vos arrastam para a porta de uma loja ou para alguma esquina deserta.

— Quero pedir-lhe um favor.

— Pois não, senhor.

— Em quem vota?

— Em... Não sei ainda.

— Pois então peço-lhe o seu voto para o meu candidato.

— É membro da comissão?

— Não.

— Pois então está servido.

— Fico-lhe muito agradecido.

E continuais o vosso caminho, já um pouco azoado.

— Psiu!...psiu!

É um amigo que vem a correr, naturalmente para participar-vos alguma novidade importante.

— Sabe alguma coisa de novo?

— A respeito...

— Ora, a respeito das ações.

— Não; não tenho ouvido dizer nada.

— Fala-se numa segunda errata.

— Qual! não tinha jeito nenhum.

— Como! O regimento de custas era obra de jurisconsultos, e teve duas erratas.

— Tem razão!

— Adeus.

Quando pensai que vos desvencilhais do homem das erratas, caís nas mãos de um esquecido, que trata de comentar a grande lista dos agraciados, de princípio a fim.

Começa a calcular pelas famílias, depois passa a analisar os indivíduos, examinar a sua profissão, e por fim entra no vasto campo dos paralelos e das comparações.

O homem tem na memória uma certidão de batismo de cada um dos agraciados, e um registro dos bens, da morada e do gênero de vida de todos os agraciados na grande loteria do caminho de ferro.

Se o deixarem falar, disserta cinco horas a fio, sem copo d'água, sem mesmo temperar a garganta, sem fazer uma pausa, nem titubear numa vírgula.

Afinal vos larga para ir continuar além a sua propaganda, para ir pregar a nova cruzada contra os homens da comissão.

Assim enfastiado, aborrecido de todas estas coisas, tendo gasto inutilmente o vosso tempo, entrais no Wallerstein para conversar com algum amigo que não esteja contaminado.

Achai-vos no círculo de flâneurs, que passam o tempo alegremente a divertir-se a semear algumas flores neste vale de lágrimas.

Conversa-se sobre as novidades do dia, sobre a probabilidade da vinda de Thalberg e a notícia do contrato da Stoltz, sobre a próxima representação lírica em favor da Beneficência Francesa.

Se falais de uma moça elegante, de um lindo toilette preta que brilhava um desses dias nos salões, de uns bonitos olhos e de uns requebros graciosos, vos interrompem de repente:

— O pai não teve ações!

Se vos lembrais da Charton na Filha do Regimento , e se despertais todas as vossas belas recordações para sacia-las segunda-feira, ouvindo aqueles gorjeios maviosos de envolta com as facécias do Ferranti, não vos deixam acabar.

— É verdade, diz um, a propósito de Ferranti, deram-lhe dez ações!

E saís desesperado, correndo para a casa antes que vos venham atordoar novamente os ouvidos com a maldita palavra que está na ordem do dia.

Quanto mais se soubésseis o que é realmente para toda a sociedade a lista que publicaram na terça-feira os jornais diários da corte.

É uma espécie de cadastro, de registro, de livro negro da polícia, no qual se acham escritas as ações de cada um, por conseguinte o seu talento, a sua virtude, a sua consideração na sociedade.

As moças lá vão procurar os nomes dos noivos; os negociantes indagar se os seus devedores merecem a continuação do crédito; os amigos saber o grau de amizade que devem despender mutuamente.

Os curiosos divertem-se com as comparações, e os parasitas estudam os nomes daqueles a quem devem tirar o chapéu ou fazer simplesmente um cumprimento de proteção.

E assim são as coisas deste mundo.

Dante os homens tinham as suas ações na alma e no coração; agora tem-nas no bolso ou na carteira. Por isso naquele tempo se premiavam, ao passo que atualmente se compram.

Outrora eram escritas em feitos brilhantes nas páginas da história, ou da crônica gloriosa de um país; hoje são escritas num pedaço de papel dado por uma comissão de cinco membros.

Aquelas ações do tempo antigo eram avaliadas pela consciência, espécie de cadinho que já caiu em desuso; as de hoje são cotadas na praça e apreciadas conforme o juro e interesses que prometem.

Predefinição:Separação

Mas temos muita coisa agradável sobre que conversar, e não vale a pena estarmos a gastar o nosso tempo com esta questão de jornais.

Enquanto senadores, deputados, empregados públicos, desembargadores, negociantes e capitalistas correm à praça para saber a cotação das ações, vamos nós para o teatro ver o benefício do Gentile.

O público deu-lhe todas as demonstrações de apreço e simpatia; os ramos de flores e os versos choveram dos camarotes, e a Charton cantou melhor do que ela mesma costuma cantar.

É um pouco difícil, mas é verdade. Há certas noites em que se conhece que não é a obrigação que a faz cantar, mas a inspiração, um movimento espontâneo, uma necessidade de expansão.

Nestas noites canta como o poeta que escreve versos inspirados, como o pintor que esboça o quadro que a sua imaginação ilumina, como a alma triste que dirige a sua prece a Deus, como a moça que sorri, como a flor que se expande, como o perfume que se exala.

Os lábios vertem os eflúvios d'alma, as melodias que um gênio.

Mas isto são coisas que se sentem, que se compreendem, e que não se explicam. Ouvi um artista cantar num dos seus bons dias, e percebereis essa nuança inexprimível que vai de bem representar o bem sentir.

Ia-me esquecendo dar-vos notícia do vosso pequeno teatro, do vosso protegido, minhas belas leitoras.

Se soubésseis como vos agradece a bondade que tendes tido em anima-lo, como se desvanece pelo interesse que vos inspira!

Agora já não é somente um pequeno círculo de homens de bom gosto que aí vai encorajar o seu adiantamento e aplaudir aos seus pequenos triunfos.

Na balaustrada dos seus camarotes se debruçam as senhoras mais elegantes, as moças as mais gentis dos nossos aristocráticos salões.

O lindo rosto expandindo-se de prazer, o sorriso da alegria nos lábios, elas esquecem tudo para interessar-se pelo enredo de uma graciosa comédia.

E depois a sua boquinha feiticeira vai repetir no baile, ou na partida, uma frase espirituosa, um dito chistoso, que requinta de graça, conforme os lábios são mais ou menos bonitos.

No Teatro Lírico podeis ver um semblante triste, uns olhos vendados pelos longos cílios de seda, uma fronte pensativa e melancólica.

Mas no Ginásio o prazer roça as suas asas d'ouro por todos esses rostos encantadores; e bafeja com o seu hálito celeste todos os pensamentos tristes, todas as recordações amargas.

Tudo sorri; os olhos cintilam, as faces enrubescem, a fronte brilha, o gesto se anima, e a alma brinca e se embala nas emoções doces, calmas e serenas.

A dor, a tristeza, a velhice e o pensamento, nada há que resista a esta franca jovialidade, que como um menino travesso não respeita nem as cãs, nem as lucubrações sérias, nem a gravidade e a sisudez.

E quando por volta da meia-noite vos retirais, ides satisfeito, julgando o mundo melhor do que ele realmente é.

E tudo isto é obra vossa, minhas amáveis leitoras: podeis ter este orgulho. Fostes vós que criastes este teatro; que o animastes com um sorriso, que o protegeis com a vossa graça, e que hoje o tratais como vosso protegido.

Entretanto peço-vos que, quando tiverdes ocasião, não lhe deixeis de dar umas dessas doces repreensões, uma dessas ligeiras advertências, como só sabem dar os lábios de mulher.

Dizei-lhe que faça com que seus artistas decorem melhor os papéis, e aprendam a pronunciar com perfeição os nomes estrangeiros.

Esqueci-me de pedir-vos isto naquela brilhante reunião em que vos encontrei seta-feira, tão bonitas, tão satisfeitas, tão risonhas, que bem se via que esta noite tem de ficar gravada na vossa memória, até que outra a venha fazer esquecer.

E agora atirai o jornal de lado, ou antes passai-o ao vosso marido, ao vosso pai ou ao vosso titio, para que ele leia o resto.

Bem entendido, no caso de que não esteja pensando em ações, porque então é escusado; não me dará a atenção de que eu preciso para falar a respeito da discussão que tem havido ultimamente na câmara.

O Sr. Sayão Lobato fazendo a exumação dos partidos políticos, procurou demonstrar que as idéias liberais tinham sido sempre estéreis para o país.

Em resposta duas vozes se ergueram; a do Sr. Melo Franco que defendia seus aliados, ea a do Sr. F. Otaviano que tomou a si a causa nobre do fraco e do proscrito.

Perdoe-nos o ilustre orador, que com tanto afã defende o passado de seu partido e que, apesar de magistrado imparcial se mostra parcialíssimo político nos seus retrospectos históricos.

Se o partido liberal não escreveu leis de 3 de dezembro, e não fez grande cópia de regulamentos, nem por isso deixou de fecundar as instituições do país com o germe civilizador de sua idéia, de suas crenças, de sua constância em pugnar pelas reformas úteis e necessárias.

A sua história é a história de muito pensamento generoso e nobre no nosso país, desde a sua independência até a calma e tranqüilidade de que atualmente gozamos.

Foi ele que nos deu, e que tem defendido ardentemente o júri e a imprensa; foi ele que primeiro proclamou o princípio das incompatibilidades, das eleições diretas, da independência do poder judiciário, que iniciou todas estas reformas que hoje se trata de realizar.

Não podemos estender-nos mais; porém em qualquer tempo aceitaremos com o maior prazer esta discussão; pela nossa vez também, revolveremos as cinzas dos túmulos, mas para honrá-las, esquecendo os erros dos mortos, e não para profana-las excitando o desprezo dos vivos.

Os partidos desapareceram da cena política; pertencem ao domínio da história. Simples investigadores, podemos apreciar os fatos com a calma necessária, sem sermos influenciados por interesses pessoais.

E agora, vem minha boa pena de folhetinista, minha amiga de tantos dias, companheira inseparável dos meus prazeres, confidente de meus segredos, de minhas mágoas, dos meus prazeres.

Vem! Quero dizer-te adeus! Vamos separarmo-nos, e talvez para sempre!

Tenho saudade desses dias em que brincava comigo sorrindo-me, coqueteando, desfolhando as flores da imaginação, e levando-me por estes espaços infindos da fantasia.

Oh! tenho muita saudade! Sempre me lembrarei dessas nossas conversas íntimas ao canto de uma mesa, com os olhos nos ponteiros do relógio, aproveitando as últimas claridades do crepúsculo para recordar ainda algum fato esquecido.

Mas é necessário. Faço-te este sacrifício, bem que me pese, bem que o levem a mal os meus melhores amigos.

Os outros te esquecerão, mas eu me lembrarei sempre de ti: basta isto para consolar-te.

Parte 2

7 de outubro de 1855

Correi, correi de novo, minha boa pena de folhetinista!

És livre, como tuas irmãs, que cortam os ares nas asaa ligeiras; abri o vôo, lançai-vos no espaço.

Avante.

Mas como estão mudados os tempos; como são diferentes os dias de agora, daquelas semanas em que brincavas sorrindo com os bailes, com as moças, com a música, com tudo que era belo e sedutor!

Então tudo eram flores, - flores mimosas que desabrochavam aos raios de um belo sol de primavera, - que brilhavam sob um céu azul perfumando aqueles dias tão tranqüilos e tão serenos.

Hoje as rosas murcharam, o céu turvou-se; e nesta sáfara da vida por que passamos atualmente, apenas florescem os cardos com seus espinhos, as saudades com a sua melancolia, e os goivos com o seu triste emblema.

Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho, parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do - sentimento, as violetas.

Vós, minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma, - a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação tem sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, - flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, - a nossa bela religião de Cristo, - mãe extremosa de todos os órfãos, - a irmã desvelada de todos os infelizes, - a amiga e companheira fiel dos pobres, - a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribuição, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

E agora, minhas leitoras, deixai-me dar-vos um conselho, que estou certo haveis de acolher com toda aquela amabilidade com que outrora acompanháveis os ziguezagues desta minha pena caprichosa, que bem vezes vos dava sérios motivos para um arrufo, para um enfado.

Voltemos porém ao conselho; não penseis já que é algum conselho muito grave, muito sério, vestido de calça e casaca preta com gravata branca, - à guisa de um antigo conselheiro da coroa.

Não; - é um pequeno conselho bem próprio para moças bonitas como sois, - um conselho que tem além de todas as outras vantagens, o merecimento de mostrar as pérolas de vossos dentes, e de fazer da vossa boca uma florzinha cor-de-rosa.

Aconselho-vos, que apesar dos tempos em que estamos, apesar de tanta tristeza e melancolia que envolve esta bela cidade, apesar de tudo, apesar mesmo das lágrimas, não deixeis de sorrir.

Notai porém que eu digo simplesmente sorrir e não rir.

O riso, é esta expressão vulgar com que exprimimos a alegria, e o humor; é muitas vezes mesmo um movimento nervoso, sem sentido sem significação, um hábito que se contrai como tantos outros, como o costume de estalar os dedos, de alisar o bigode, ou endireitar o colarinho.

Assim rir, quando alguém sofre, quando nossos irmãos padecem, é uma ofensa amarga, um insulto à dor e a desgraça; porque esse riso, se não é um escárnio, é uma indiferença fria. É uma insensibilidade estúpida.

Mas o sorriso, é diferente.

O sorriso, é esta exalação da alma, que nos momentos de calma e tranqüilidade vem desabrochar nos lábios, e abrir-se como uma dessas flores silvestres que o menor sopro desfolha.

Nunca vistes nas noites cálidas e límpidas, essas estrelas brilhantes que atravessam o horizonte, traçando no espaço um rasto luminoso, e brilhando um momento entre a escuridão das trevas?

Dizem que isto é um efeito da eletricidade. Pois o sorriso, - como as estrelas filantes, - é produzido também por esse choque de emoções, e de sentimentos, que se pode bem considerar como a eletricidade moral.

Portanto não há mal nenhum, minhas belas leitoras, em que deixeis vossos lábios sorrirem, e vossas almas expandirem-se no lindo rosto; há sorrisos alegres, porém, também os há serenos, tristes e melancólicos.

Demais, peço-vos isto também por nós. Que quereis que façamos, se nestes dias aflitos não virmos brilhar uma estrela, uma flor, um sorriso?

Quanto a mim, sou como o marinheiro do Mediterrâneo, perdido na vasta amplidão dos mares, batido pela procela, que no meio da escuridão e do vendaval, apenas vê brilhar no céu uma estrela furtiva, sente-se reanimado, cria novas forças, e murmura a sua prece. Ave Maria Stella.

Assim no meio dos desgostos e das tribulações, quando virdes um sorriso despontar nos lábios de uma linda mulher que vos ame, podeis fazer como o marinheiro; ajoelhai e murmurai a vossa prece. Ave Maria Stella.

Portanto, minhas belas leitoras, sorri, sorri sempre, como sorri o céu, o mar, e tudo que é belo; porque foi este o destino que deus deu as coisas mimosas: porque é esta a missão que representam neste mundo a beleza e a graça.

E quando quiserdes sorrir, não esquecei o vosso protegido, o Ginásio, aquele pequeno e lindo teatro, sobre o qual tantas vezes conversamos outrora, nos domingos.

Ainda é o mesmo; sempre digno da vossa solicitude, sempre esforçando-se em corresponder a amabilidade com que o tratais.

Depois que nos separamos tão repentinamente, tem havido nele muita coisa de novo, muita representação interessante; porém de tudo o que se me tem contado, a mais bela noite do Ginásio foi a de quinta-feira, - em que teve lugar o benefício dos pobres.

Se eu já não soubesse, minhas leitoras, que amais de coração este bom teatrinho, que vos dá tantas horas de agradável passatempo, podia contar que depois deste ato de beneficência, não lhe recusaríeis a vossa proteção, e sobretudo a vossa presença, que é a maior proteção que pode dar uma linda moça.

Não sei sobre que mais hei de falar-vos que já não tenha sido dito e repetido pôr tantas penas delicadas, que vos apresentam todos os domingos a história da semana.

Sobre Norma?

Quem é que não foi ver no teatro lírico esta criação de Emy La Grua; quem não ouviu esse canto inspirado e profundo que os faz correr pelo corpo um arrepio de emoção?

Norma, como a vi num desses dias no teatro lírico, fez-me compreender o episódio da Velleda dos Mártires de Chateaubriand, que, segundo dizem, forneceu o assunto deste pequeno poema de paixão violenta, de ciúme selvagem, e de amor sublime.

Falam pôr aí de algumas exagerações que pretendem haver na criação deste papel dramático; mas quem assim pensa, não tem uma verdadeira idéia da arte.

Pôr mim, não concebo que um crítico possa dizer ao poeta, ao artista, ao gênio, enfim como Deus disse ao mar: - Vós não passareis daqui.

Desde o momento em que o homem, nos vôos de sua inteligência se eleva acima das circunstâncias ordinárias da vida, desde que o seu pensamento se lança no espaço, possuído desse desejo ardente, dessa inspiração insaciável de atingir ao sublime, não é possível marcar-lhe um dique, um ponto que lhe sirva de marco.

Ide dizer ao poeta que não deixe correr a sua imaginação pelos espaços infinitos da fantasia, - ide dizer ao pintor que force o seu pincel quando corre inspirado sobre a tela, e eles vos responderão que o pensamento que os anima neste instante escraviza e esmaga a sua vontade; que a alma e o corpo cedem à força da inspiração que os arrebata neste momento.

Como o poeta, como o pintor, é o artista dramático, quando se acha possuído de seu papel, quando sente abrasar-se-lhe nas veias o fogo sagrado; é preciso ainda notar que este tem mais um motivo para deixar-se arrastar, tem os aplausos e os bravos de uma multidão inteira.

Assim, tudo isto a que vulgarmente chamam exagerações, são apenas os arrojos da imaginação do artista, os primeiros esboços de sua criação, que ele ainda não teve tempo de polir e de limar; pôr isso se houverdes visto a Norma todas as vezes como eu, de certo tereis reparado que cada dia uma dessas exagerações vai tomando nova forma, vai-se desenhando mais brilhante, mais luminosa, como um painel que se retoca.

Pôr tudo isso que tenho escrito, não penseis que me faço um defensor cego de La Grua, um defensor quand même da cantora que é hoje a estrela brilhante do teatro Lírico.

Não: - nem ao público, nem a ela, nem a nós, conviria uma admiração tão cega, que excluísse a franqueza, quando pôr acaso se tornasse necessária.

O artista, a quem julgo ofender dizendo-lhe a verdade, e apontando-lhe um erro, - é sempre um artista medíocre que vive da sombra da glória, sem merecimento real.

Pôr isso nós, com Emy La Grua, faremos, se for necessário, como dizia Afonso Karr a propósito das mulheres bonitas; faremos como o escultor que talha o mármore de uma estátua, não para ofende-la, mas para modelar-lhe as formas elegantes e arredondar-lhe os mimosos contornos.

Se for necessário, o dissemos nós, porque parece-nos que nunca teremos ocasião de fazer de nossa pena de folhetinista um buril de escultor.

Al.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal