Helena – Entretanto ele te ama.
Carolina – A mim?... Tu pensas...
Helena – Não nos disse outro dia no hotel?
Carolina – Disse que amava outra Carolina, que não sou hoje.
Helena – Cuidas que por uma mulher preferir outro homem, aquele que ela desprezou deixa de amá-la? Como te enganas!
Carolina – Então acreditas?
Helena – Agora mesmo ele aqui esteve: e me falou de ti com um modo...
Carolina – Que te disse?
Helena – Confessou que estava arrependido do que fez; que deseja ver-te para mostrar que sempre te estimou e ainda te estima.
Carolina – Não é possível, Helena. Se Luís me estimasse não me falava com tanto desprezo.
Helena – Ora, Carolina, se tu amasses um homem que se casasse com outra mulher, o que farias?
Carolina – Tens razão.
Helena – Espera.
Carolina – Mas ele te disse que me queria ver? Voltará?
Helena – Creio que sim.
Carolina – Meu Deus!
Helena – Que mal faz que tu lhe fales? Se ele te ofender, entre para dentro; se quiser amar-te, faz o que entenderes; mas não esqueças o Pinheiro.
Carolina – Sei o que devo fazer.
Helena – Se precisares de mim, chama-me.
Carolina – Me deixas só?
Helena – Ao contrário, vê quem está aí.
Carolina – Luís!
Luís – Não me recusou falar, Carolina. Eu lhe agradeço.
Carolina – Por que recusaria?
Luís – Depois do que se tem passado, não era natural que desejasse fugir à presença de um importuno?
Carolina – Qual de nós, a primeira vez que nos encontramos depois de uma longa ausência, repeliu o outro?
Luís – A repreensão é justa, eu a mereço. Mas não creio que venho ainda lembrar-lhe um passado que todos devemos esquecer, e acusá-la de uma falta de que outros talvez sejam mais culpados. Venho falar-lhe como irmão; queres ouvir-me?
Carolina – Fale; não tenho receio.
Luís – Todos nós, Carolina, homens ou mulheres, velhos ou moços, todos sem exceção, temos faltassem nossa vida; todos estamos sujeitos a cometer um erro ou praticar uma ação má. Uns, porém, cegam-se ao ponto de não verem o caminho que seguem; outros se arrependem a tempo. Para estes o mal não é senão um exemplo e uma lição: ensina a apreciar a virtude que se desprezou em um momento de desvario. Estes merecem, não só o perdão, porém muitas vezes a admiração que excita a sua coragem.
Carolina – Não, Luís; há faltas que a sociedade não perdoa, e que o mundo não esquece nunca. A minha é uma destas.
Luís – Está enganada, Carolina. Se uma moça que, levada pelo seu primeiro amor, ignorando o mal, esqueceu um instante os seus deveres, volta arrependida à casa paterna; se encontra no coração de sua mãe, na amizade de seu pai, na afeição dos seus, a mesma ternura; se ela continua a sua existência doce e tranqüila no seio da família; por que a sociedade não lhe perdoará, quando Deus lhe perdoa, dando-lhe a felicidade?
Carolina – Nunca ela poderá ser feliz! A sua vida será uma triste expiação.
Luís– Ao contrário, será uma regeneração. Em vez da paixão criminosa que a rouba de seus pais, ela pode achar no seio de sua família o amor calmo que purifique o passado e lhe faça esquecer a sua falta.
Carolina – É verdade, então, Luís?... Helena não me enganou!
Luís – o quê?... Não sei...
Carolina – Ainda me ama!
Luís – Eu?...
Carolina – Não era de si que me falava?
Luís – Não, Carolina; falava do Ribeiro.
Carolina – Ah! Era dele!...
Luís – É o único que tem direito de amá-la.
Carolina – Pois eu não o amo.
Luís – Não creio.
Carolina – Juro-lhe.
Luís – É impossível.
Carolina – Amanhã não duvidará.
Luís – Amanhã?... Que vai fazer?
Carolina – Há de saber.
Luís – Carolina, eu lhe peço, não dê semelhante passo; ele é ainda mais grave do que o primeiro. Compreendo que uma menina inexperiente sacrifique-se à afeição de um homem; mas nada justifica a mulher que renegar aquele a quem deu sua vida.
Carolina – Então não posso deixá-lo!
Luís – Não! Uma mulher deve sempre conservar a virgindade do coração e guardar pura sua primeira afeição. Respeita-se o consórcio moral de duas criaturas que se unem apesar do mundo e dos prejuízos que as separam; respeita-se a virtude ainda quando ela não reveste as fórmulas de convenção. Mas despreza-se a mulher que aceita qualquer amor que lhe oferecem.
Carolina – E quem lhe diz que amarei a outro?
Luís – O primeiro amor é às vezes o último; o segundo nunca o será.
Carolina – Podia ser, Luís, se o não desprezassem.
Luís – Não compreendo.
Carolina – Também eu não compreendo este sentimento; mas o coração é assim feito; deseja o que não pode obter, e que muitas vezes desdenhou quando lhe ofereciam. Admiro-me do que se passa em mim, e não sei explicá-lo. Parece-me, às vezes, que ainda haveria um meio de ligar o fio de minha vida às recordações dos meus dezoito anos, e continuar no futuro a existência tranqüila de outrora. Mas esse meio... é uma loucura.
Luís – Diga, Carolina! Eu farei tudo...
Carolina – Tudo!...
Luís – Duvida?
Carolina – Ame-me então!
Luís – Escarnece de mim.
Carolina – Luís!
Luís – Creia-me, Carolina. Se eu estivesse convencido da realidade desse amor, ainda assim, sacrificaria a minha felicidade à sua.
Carolina – Está bem! Não falemos mais nisso. Foi um gracejo; não faça
caso... Adeus...
Luís – Já me despede.
Carolina – Pode ficar se quiser. (Chega-se ao espelho, e enxuga furtivamente uma lágrima. Deita fora as jóias que Helenalhe dera.)
Luís (vendo no relógio) – Meio dia...
Carolina – Cuidei que fosse mais tarde!... Bonitas pedras! Não são? Foi um presente!...
Luís – Ah! foi um presente?
Carolina – Não é de bom gosto?
Luís – Muito lindo!
Carolina – Quanto valerá?
Luís – Nada para mim; para outros talvez seja o preço de uma infâmia.
Carolina – Faltava o insulto!
Helena – Quem está aí?
Carolina – Não.
Helena – O Ribeiro.
Carolina – Ah!
Helena – Que virá fazer?
Carolina – Não sei. Naturalmente recebeu a minha carta mais cedo do que devia.
Helena – Tu lhe escreveste?... Para quê?...
Luís (aCarolina) Seu amante!
Carolina – Eu o espero.
Ribeiro (a Carolina) – Esta carta?
Carolina – É minha.
Ribeiro – Que quer dizer isto?
Carolina – Não leu? Preveni-o da minha resolução.
Ribeiro – Não acredito!... tu não podes deixar-me!
Carolina – Não posso... Por quê?
Ribeiro – Tu és minha, Carolina! Tu me pertences!
Carolina – Engana-se; o que lhe pertence ficou em sua casa; deixando-o, deixei tudo o que me havia dado.
Ribeiro – Que me importa isso? É a ti que eu não quero e não devo perder.
Carolina – Seu que incomoda a falta de um objeto com o qual estamos habituados! Mas paciência... nem sempre a moça tímida havia de sujeitar-se ao jugo que lhe impuseram.
Ribeiro – É a segunda vez que me fazes esta exprobração. Não me compreendes! Se eu não te amasse, teria realizado os teus sonhos; gozaria um momento contigo desta vida louca e extravagante que te fascina e depois te abandonaria ao acaso. Mas Deus puniu-me com a minha própria falta: quis seduzir-te e amei-te. Não sabes o que tenho sofrido... em que luta vivo com minha família!
Carolina – Nesse ponto me parece que se algum de nós deve ao outro, não é decerto aquela que sacrificou a sua existência. Mas não cuide que me queixo; aceito o meu destino! Fui eu que assim o quis...
Ribeiro – Tu me lembras que tenho uma dívida de honra a pagar-te.
Carolina – Obrigada! Basta-me a liberdade e o sossego!
Ribeiro – Então decididamente me deixas?
Carolina – Já o deixei; já não estou em sua casa. A minha é nas Laranjeiras.
Ribeiro – A dele, queres dizer? A do Pinheiro!
Carolina – É o mesmo.
Luís – E era esta mulher que há pouco falava de amor.
Carolina – Não era esta, não senhor; era a outra a quem insultaram.(Vai sair)
Ribeiro – Uma palavra, Carolina!...
Carolina – Que quer ainda, senhor?
Ribeiro – Eu te seduzi, fiz-te desgraçada, não é verdade?... Pois bem!
Arrosto a oposição de minha família! Arrosto tudo! Quero reparar a minha falta! És a mãe de minha filha; sê minha mulher!
Carolina – Tua mulher!
Ribeiro – Sim, Carolina! É um sacrifício que te devo.
Carolina – Não lho pedi.
Ribeiro – Mas sou eu que te suplico.
Luís – É a honra, é a virtude; é a felicidade que ele lhe restitui! (Aparece Pinheiro)
(Os mesmos e Pinheiro)
Carolina – Não! É tarde...
Luís– Carolina!...
Carolina – Já que o amor não é possível para mim, prefiro a liberdade!
Quero ver a meus pés, um por um, todos esses homens orgulhosos que tanto blasonam de probos e honestos!... Aí curvando a fronte ao vício, o marido trairá sua esposa, o filho abandonará sua família, o pai esquecerá os seus deveres para mendigar um sorriso. Porque no fim de contas, virtude, honra, glória, tudo se abate com um olhar, e roja diante de um vestido. (A Pinheiro) Meu carro?...
Pinheiro – Está na porta.
Helena – Vem ver como é rico!
Ribeiro – Lembra-se ao menos de tua filha!...
Carolina – Deixo-o as seu pai como um remorso vivo.
Luís – Reflita, Carolina; aceite a reparação que o senhor lhe oferece; faça de um homem arrependido, de uma moça desgraçada e de uma menina órfã, uma família; dê a felicidade a seu marido, e um nome à sua filha!
Carolina – E quem me dará a mim o que eu perco?
Luís – A sua consciência.
Carolina – Não a conheço! Adeus! (Vai sair.)
Ribeiro – Não! Tu não sairás com este homem!
Carolina – Quem impedirá?
Ribeiro – Eu!
Helena – Sr. Ribeiro, seja prudente!
Pinheiro – É o que faltava ver! Que o senhor queira levar o ridículo a esse ponto! Tem algum direito sobre ela?
Ribeiro – Tenho o direito de vingar-me de um amigo desleal que me traiu.
Pinheiro – Eu traí; e o senhor?... Roubou! Roubou a filha a seus pais.
Luís (a Carolina) – Veja os homens a quem ama!
Carolina – Não amo a ninguém! Sou livre! (Caminhando para a porta vêMargarida que entra pelo braço de Araújo, recua com espanto.
(Os mesmos, Margarida e Araújo)
Carolina – Ah! Esqueci que ainda tinha mãe!
Margarida – Carolina!
Luís– Tardaste muito!
Araújo – Apesar de toda a sua coragem, faltavam-lhe as forças! Que te disse ela?
Luís – Cala-te!
Margarida – Carolina!... Não falas à tua mãe? Não me queres conhecer?...
Depois de tanto tempo!... Tens medo de mim?... Não penses que vim repreender-te.... acusar-te! Já não tenho forças!... Vim pedir-te que me restituas a filha que perdi! Queria ver-te antes de morrer... Eu te perdôo tudo... Não tenho que perdoar... Mas fala-me... Olha-me ao menos!... Mais perto! Quase não te vejo!... As lágrimas cegam... e tenho chorado tanto!
Carolina – Minha mãe!...
Margarida – Ah!...
Carolina – Oh! não!
Margarida – Que tens?
Carolina – Tenho vergonha!
Margarida – Abraça-me! Deus ouviu as minhas orações! Achei enfim a minha filha!...minha Carolina!
Carolina – Não estás mais zangada comigo?
Margarida – Nunca estive! Tinha saudades! Porém agora não nos separaremos mais nunca. Vem!...
Carolina – Para onde?
Margarida – Para a nossa casa; hás de achá-la bem mudada. Mas tudo voltará ao que era. Estando tu lá, a alegria entrará de novo; seremos muito felizes, eu te prometo.
Carolina – Está tão fraca!...
Margarida – Contigo sinto-me forte! Já não estou doente: vê! (Dá um passo e vacila)
Carolina – Nem pode andar!... Mas tenho ai o meu carro.
Margarida – Teu carro!...
Carolina – Sim! Ainda não viu? É muito bonito.
Margarida – Todas estas riquezas que compraste tão caro e com tantos sofrimentos custaram à tua mãe, já não te pertencem, Carolina, atira para longe de ti estes brilhantes!... Não te assentam!
Carolina – Minhas jóias!...
Margarida – Oh! Não lamentes a sua perda! Beijos de mãe brilham mais em tuas faces do que esses diamantes. Tu eras mais bonita quando íamos à missa aos domingos.
Carolina – Pois sim! (Afasta-se)
Luís (a Margarida) – Era a minha última esperança!
Margarida – Não falhou, o coração me dizia...
Carolina (no espelho) Não! Não tenho coragem!
Margarida – Que dizes?
Carolina – Perdão, minha mãe! É impossível!
Margarida – lembra-te, minha filha, que é a tua desonra que tu mostras a todos!
Carolina – Que importa?... Minhas jóias!... Tão lindas!... Sem elas, o que serei eu? Uma pobre moça que excitará um sorriso de piedade!... Não! Nasci com este destino! É escusado.
Luís (a Margarida) Foi irritá-la!...
Margarida (a Carolina) – Escuta! Não exijo nada! Não quero saber de coisa alguma! Faze o que quiseres; mas deixa-me acompanhar-te; deixa-me viver contigo: eu partilharei até mesmo a tua vergonha.
Carolina – Nunca! minha mãe! Seria profanar o único objeto que eu ainda respeito neste mundo. Adeus...
Margarida – Carolina...
Carolina – Adeus... e para sempre!
Margarida – Ah!... (Desmaia.)
Luís – Assim, depois de ter desconhecido o pai, e abandonado a filha, repele a mãe!
Carolina – Como há pouco me repeliram.
(Em casa de Carolina. Sala rica e elegante)
(Carolina, Helena, Meneses e Araújo)
Carolina – Dize alguma coisa, Sr. Araújo.
Araújo – Prefiro ouvir.
Carolina – Como está o seu amigo?
Araújo – Bem, obrigado.
Carolina – Por que ele não veio?
Araújo – Deve saber a razão.
Carolina – Ele foge de mim; não é verdade?
Araújo – Creio que foi a senhora que fugiu dele.
Meneses – Que é feito do Pinheiro?
Carolina – Não sei.
Helena – Anda por aí. Depois que deitou fora a fortuna do pai vive tão murcho!
Meneses – Está pobre!
Helena – Não tem vintém. <P–Araújo – Ninguém pode melhor dizê-lo do que a senhora.
Carolina – Explique-se.
Araújo – Este luxo explicará melhor. Quem lho deu?
Carolina (subindo) – Não me recordo.
Helena (na janela, a Carolina) – Não passeias hoje? A tarde está tão linda!
Carolina – Talvez.
Araújo – Vou-me embora.
Meneses – Tão depressa?... Para isso não valeu a pena incomodar-nos.
Araújo – É verdade! Mas convidei-te para esta visita, só por um motivo.
Meneses – Qual?
Araújo – Luís pediu-me que soubesse notícias dela. Vim buscá-las eu mesmo, para dá-las exatas.
Meneses– Pois então demora-te; talvez ainda tenhas que ver.
Helena – Olha! Lá vai aquela sujeita!
Carolina – Quem?
Helena – A mulher do Fernando, a quem pregaste aquela peça!
Carolina – Lembro-me.
Helena – Que bem feita coisa!
Meneses – o quê?
Helena – É uma história muito engraçada. O senhor não sabe?
Meneses – Não. Conta, Carolina.
Carolina – Não estou para isso. Se queres conta tu, helena.
Araújo – É melhor.
Helena – Foi no último dia de grande gala que houve...
Araújo – O dia 7 de setembro.
Helena – Isso mesmo. O Fernando por pedido da mulher veio à cidade de propósito para comprar um bilhete de camarote do Teatro Lírico. Os cambistas lhe fizeram dar cem mil-réis por um de segunda ordem...
Número?...
Carolina – Não me lembro.
Helena – Como era tarde, jantou na cidade e escreveu à mulher dizendo que se aprontasse porque tinham o camarote. Na ida passou por aqui e entrou.
Começamos a conversar, falou-se de teatro; Carolina estava morrendo por ir... Enfim, para encurtar razões, deu-lhe o bilhete.
Araújo – Que tratante.
Helena – Ao contrário, um homem delicado!... Mas o melhor, é que saindo daqui, não sabendo que desculpa havia de dar à mulher, não foi à casa, nem lembrou-se da carta que tinha escrito. Ora, a sujeita vendo que ele não ia, meteu-se no carro e largou-se para o teatro.
Araújo – Adivinho pouco mais ou menos o resto.
Helena – Não adivinha, não! Quando o bilheteiro ia abrindo a porta, chegou Carolina que ia comigo, e disse:
— Este camarote é meu. A mulher do Fernando respondeu:
— Não é possível; meu marido o comprou hoje para mim. O que havia ela de replicar?
— Foi seu marido mesmo quem mo deu; aqui está o bilhete, que por sinal custou-lhe cem mil-réis.
Araújo – Ela disse isto?...
Helena – Palavra de honra.
Araújo – O que fez a mulher?
Helena – Que havia de fazer? Retirou-se da corrida.
Meneses – Retirou-se, sim; e sem dizer uma palavra: porque uma senhora não dá à amante de seu marido nem mesmo a honra de indignar-se contra ela. Quanto ao homem que praticou este ato infame, perdeu para sempre a estima de sua esposa e dos homens de bem. Queira Deus que ele não veja um dia os seus cabelos brancos manchados por esse mesmo vício que alimentou.
Carolina – Está o Meneses como quer; deram-lhe tema para fazer discursos.
Araújo – Mas diga-me uma coisa. A senhora pensa que a sociedade pode tolerar por muito tempo uma mulher que não respeita coisa alguma?
Carolina (rindo) – Aí vem o outro com a sociedade!
Helena – É bem lembrada!
Araújo – Olha que eu não estou disposto a rir-me.
Meneses – Ri; é o melhor; não tomes isto a sério.
Carolina – Como quiserem; para mim é indiferente! Essa sociedade de que o
senhor me fala, eu a desprezo.
Araújo – Porque a repele!
Carolina – Porque vale menos do que aquelas que ela repele do seu seio. Nós. Ao menos, não trazemos uma máscara; se amamos um homem, lhe pertencemos; se não amamos ninguém, e corremos atrás do prazer, não temos vergonha de o confessar. Entretanto as que se dizem honestas cobrem com o nome de seu marido e como respeito do mundo os escândalos da sua vida. Muitas casam por dinheiro com o homem a quem não amam; e dão sua mão a um, tendo dado a outro sua alma! E é isto o que chamam virtude? É essa sociedade que se julga com direito de desprezar aquelas que não iludem a ninguém, e não fingem sentimentos hipócritas?...
Araújo – Têm o mérito da impudência!
Carolina – Temos o mérito da franqueza. Que importa que esses senhores que passam por sisudos e graves nos condenem e nos chamem perdidas?... O que são eles?... Uns profanam a sua inteligência, vendem a sua probidade, e fazem um mercado mais vil e mais infame do que o nosso, porque não tem nem o amor nem a necessidade por desculpa; porque calculam friamente. Outros são nossos cúmplices, e vão, com os lábios ainda úmidos dos nossos beijos, manchar a fronte casta de sua filha, e as carícias de sua esposa. Oh! Não falemos em sociedade, nem em virtude!... Todos valemos o mesmo! Todos somos feitos de lama e amassados com o mesmo sangue e as mesmas lágrimas!
Meneses – Não te iludas, Carolina! Esse turbilhão que se agita nas grandes cidades; que enche o baile, o teatro, os espetáculos; que só trata do seu prazer, ou do seu interesse; não é a sociedade. É o povo, é a praça pública. A verdadeira sociedade, da qual devemos aspirar a estima, é a união das família honestas. Aí se respeita a virtude e não se profana o sentimento; aínão se conhecem outros títulos que não sejam a amizade e a simpatia. Corteja-se na rua um indivíduo de honra duvidosa; tolera-se numa sala; mas fecha-se-lhe o interior da casa.
Carolina – Quanta palavra inútil!...
Meneses – Não são para ti, bem sei; mas saem-me sem querer e, felizmente, aqui está um amigo que me escuta com prazer.
Araújo – Realmente precisava ouvir-te para não duvidar de mim, e de todos esses objetos que estou habituado a respeitar.
Helena – Falemos de coisas mais alegres.
Meneses – Não lhe agrada a conversa neste tom? (Batem palmas.)
Helena – Não entendo disso; é bom para a Carolina que vive a ler.
Meneses – Ah! Lê romances naturalmente?
Carolina – Que lhe importa?
(os mesmos e Pinheiro)
Helena (na porta) – Não lhe pode falar! Não teime!
Carolina – Quem é?
Helena – O Pinheiro.
Carolina – Que vem ele fazer cá? Dize-lhe que não estou em casa.
Araújo – Bate-lhe na cara com esta mesma porta que ele fechava outrora com sua chave de ouro.
Meneses ( a Araújo ) – Não te disse que ainda tinhas que ver?
Pinheiro (a Helena) – Deixa-me! Hei de falar a Carolina. (Entra.)
Helena – Onde viu o senhor entrar assim na casa dos outros?
Pinheiro – São os maus hábitos que ficam a quem já foi dono. Meus senhores!...
Meneses – Sr. Pinheiro! (Estendendo-lhe a mão.)
Pinheiro (recusando, confuso) – Tem passado... bem...
Meneses – Pode apertá-la; nunca a estendi aos favores do homem rico; ofereço-a ao homem pobre que sabe suportar dignamente a sua desgraça.
Pinheiro (apertando a mão) – Se todos tivessem esta linguagem...
Araújo – Ele não teria merecimento, Sr. Pinheiro.
Pinheiro – Os senhores permitem que eu diga algumas palavras em particular à Carolina?
Meneses – Sem dúvida! Esperamos naquela saleta. Anda, Helena; vem divertir-nos contando os teus arrufos com o Vieirinha.
Helena (a Carolina) – Não sofras maçada.
Carolina – Deixa.
(Pinheiro e Carolina)
Pinheiro – Vejo que a minha presença lhe aborrece, Carolina. Só um motivo forte me obrigaria a importuná-la.
Carolina – Previno-lhe que vou sair; portanto não se demore.
Pinheiro – Houve tempo em que nesta mesma sala, neste mesmo lugar, a mesma voz se queixava quando eu não podia me demorar.
Carolina – Deixemos o passado em paz.
Pinheiro – Não se recorda.
Carolina – As mulheres só começam a recordar depois dos quarenta anos; antes gozam.
Pinheiro – Pois bem! Que esqueça o amor, compreendo; mas há certas coisas que lembram sempre.
Carolina – Não sei quais sejam.
Pinheiro – Os benefícios.
Carolina – Deixam de ser quando se lançam em rosto.
Pinheiro – Não foi essa minha intenção, Carolina; desculpe. O meu espírito se azeda com estas reminiscências. antes que a ofenda de novo, não vou
dizer o que lhe quero pedir.
Carolina – Ah! Vem pedir?
Pinheiro – Admira-se!
Carolina – Como nunca pedi, estranho sempre que me pedem.
Pinheiro – Talvez algum dia seja obrigada!...
Carolina – Deixamos o passado para tratar do futuro? Pois olhe, se um pertence às mulheres velhas, o outro é o consolo das pobres meninas de dezoito anos, que vivem a sonhar.
Pinheiro – Deste modo não me deixa dizer...
Carolina – Que lhe impede?
Pinheiro – Suas palavras de sarcasmo.
Carolina – Estou hoje contrariada.
Pinheiro – Por que motivo?
Carolina – Não sei.
Pinheiro – É a minha presença?... Tem razão; estou lhe roubando o seu tempo; outrora podia comprá-lo; hoje estou pobre; gastei toda a minha fortuna. Não me queixo, nem a acuso. Sofreria resignado essa perda se ela fosse apenas uma perda de dinheiro, e não acarretasse a desgraça de outra pessoa.
Carolina – Que tenho eu com isto?
Pinheiro – Deixe-me acabar. Vou confessar-lhe uma vergonha minha; mas é preciso: seja este o primeiro castigo. Escuso lembrar-lhe, Carolina, que ou por amor ou vaidade, procurei sempre adivinhar, para satisfazê-los, os seus menores desejos.
Carolina – Loucura! Não há nada que encha esse vácuo imenso que se chama o coração de uma mulher.
Pinheiro – É exato, toda a minha fortuna se sumiu no abismo; restavam-me apenas cinco contos de réis, que não me pertenciam. Eram um legado que meu pai deixara como dote a uma menina órfã, sua afilhada. Esse dinheiro devia ser sagrado para mim por muitos motivos; devia respeitar nele a última vontade de meu pai e a propriedade alheia; entretanto, foi com ele que comprei aquela pulseira que lhe dei no último dia em que estive nesta casa.
Carolina – Ah! Aquela pedra só custou cinco contos?
Pinheiro – Custou um roubo! A órfã me pede o seu dote para casar-se; e eu não o tenho para restituir-lhe.
Carolina – Então é impossível; não pense mais nisso.
Pinheiro – Não é impossível se quiser, Carolina; faça um sacrifício,
empreste-me esta jóia, e juro-lhe que com o meu trabalho lhe pagarei o valor dela.
Carolina (rindo) – Ah! Ah! Ah!... É interessante!... Sr. Meneses! Helena! Sr. Araújo!... Ouçam esta! É original.
(Os mesmos, Meneses, Araújo e Helena)
Helena – O que é?
meneses – Alguma outra anedota?
Carolina – Uma lembrança muito engraçada.
Araújo – Faço idéia!
Carolina – O senhor entendeu que devo agora fazer-me mascate de jóias.
Meneses – Não é má profissão.
Carolina – Adivinhem o que ele veio propor-me!
Helena – Por que não explicas logo?
Carolina – Querem saber?
Pinheiro – Eu poupo-lhe o trabalho; não tenho vergonha de confessar. É um homem, meus senhores, que tendo consumido com uma mulher a sua fortuna, perdeu a razão ao ponto de comprar-lhe o último presente com um depósito sagrado que lhe foi confiado. Ameaçado do opróbrio de uma condenação, esse homem vem pedir àquela a quem tinha sacrificado tudo, que o salvasse, emprestando-lhe essa jóia cujo valor ele jurava restituir-lhe com o seu trabalho. A resposta que teve foi a gargalhada que ouviram.
Carolina – Não tinha outra.
Meneses – Certamente.
Araújo – Como, Meneses?
Carolina – Vê!
Pinheiro – O senhor aprova?
Meneses – Não, senhor.
Araújo – Mas, então?...
Meneses – Desgraçados dos homens de bem, Araújo, se o mundo não fosse assim; se o vício não tivesse em si esse princípio de destruição que é o seu próprio corretivo. Estimo o Sr. Pinheiro desde que soube a maneira digna com que aceitou o seu infortúnio; mas esse infortúnio proveio de sua paixão louca por Carolina; ele não podia, não devia achar nela um sentimento de gratidão. É preciso que o despreze para o punir; é preciso que lhe negue para uma boa ação o dinheiro com que ele acabou de perdê-la. A avareza (designa Carolina) corrige a prodigalidade (designa Pinheiro.)
Carolina – Avareza! Não admito.
Araújo – E que nome tem isto?
Carolina – Chame-lhe ingratidão, chame-lhe o que quiser, mas avareza, não!
Faço tanto caso do dinheiro como da moral que trazem certos sujeitos na algibeira, e da qual só usam quando lhes convém, como de um charuto, de um lenço, ou de uma caixa de rapé. E a prova é que essa jóia, dá-la-ia de esmola a qualquer miserável, se não estivesse convencida que ele amanhã nem me tiraria o chapéu!
Pinheiro – Quando eu passo à noite pela Travessa de São Francisco de Paula, ouço vozes humildes que suplicam, e que já falaram mais alto que a sua, Carolina.
Carolina – Que tem isto? Se algum dia ouvir a minha, não a escute, como eu hoje não quero escutar a sua.
Pinheiro – Nem todos possuem o seu coração.
Carolina – Isso é verdade!
Araújo – E o seu amor...
(Carolina, Meneses, Helena e Araújo)
Carolina – Amor?...
Araújo – Amor ao dinheiro.
Carolina – Mas seriamente, os senhores não me compreendem. Nem sabem que para uma mulher não há ouro que valha o prazer de humilhar um homem.
Meneses – Tanto ódio nos tens?
Carolina – Muito!...
Araújo – Contudo não posso crer que aquelas que durante toda a sua existência correm atrás do dinheiro, façam dele tão pouco caso.
Carolina – Pois creia; todas essas minhas jóias, todo esse luxo e riqueza, que me fascinaram, e que hoje possuo, não os estimo senão por uma razão.
Araújo – Qual?
Carolina – Talvez possam realizar um sonho da minha vida.
Araújo – E que sonho é esse?
Carolina – Não digo.
Araújo – Por quê?
Carolina – Vai zombar de mim.
Araújo – Não tenha receio.
Meneses – Para zombar começaríamos tarde!
Carolina – E que zombem, não faz mal. Toda a criatura boa tem o seu fraco; assim toda a mulher, por mais desgraçada que seja, conserva sempre um cantinho puro onde se esconde a sua alma.
Meneses – Estás bem certa que tens uma alma, Carolina?
Carolina – Talvez me engane; é possível. Mas eu guardo-a com tanto cuidado!
Araújo – Aonde, em alguma caixinha?
Carolina – Justamente! Numa caixinha de charão... Vai ver, Helena; está no meu guarda-vestidos. (Dá-lhe as chaves.)
Meneses – E debaixo de chave!... És prudente!
Carolina – No meio de todas as minhas extravagâncias, de todos os meus prazeres, eu sentia uma pequena parte de mim mesma que nunca ficava satisfeita; chamei a isto minha alma, tive pena dela, fechei-a dentro dessa caixa, e disse-lhe que esperasse até um dia em que seria feliz. (Helena voltacom a caixa.)
Araújo – Ah! E esta?
Meneses – E de que maneira pretendes dar-lhe a felicidade?
Carolina – Não sei; mas como o dinheiro é tudo, fiz uma coisa; dividi o que eu tinha e o que viesse a ter com a minha alma. Voltava de uma ceia onde tinha me divertido muito; metia dentro desta caixa todo o dinheiro que possuía, para que o espírito tivesse um igual divertimento. As minhas jóias, depois de usadas uma vez, se escondiam aqui dentro; enfim a cada prazer que eu gozava, correspondia uma esperança que guardava.
Meneses (apontando para a caixa) – E quanto valerá hoje a tua alma?
Carolina – Não sei; o que entra aqui dentro é sagrado, não lhe toco nem lhe olho; tenho medo da tentação. Só abro esta caixa à noite, quando me deito.
Meneses – Pois deixa dar-te um conselho: põe a tua alma a juro no banco, e esquece-te dela. Há de servir-te na velhice. Ou então diverte-te!...
Carolina – Não; vou dá-la.
Araújo – A quem?
Carolina – A um homem que não me ama; e por causa do qual jurei que havia de ver todos os homens a meus pés, para vingar-me neles do desprezo de um. E sabem se cumpri meu juramento!...
Meneses – É talvez isto, Carolina, que faz de tua vida um fenômeno, que eu estudo com toda a curiosidade. Tu és um destes flagelos, não faças caso da palavra... um desses flagelos que a Providência às vezes lança sobre a humanidade para puni-la dos seus erros. Começaste punindo teus pais que te instruíram e te prenderam, mas não se lembraram da tua educação moral; leste muito romance mas nunca leste o teu coração. Puniste depois o Ribeiro que te seduziu, e o Pinheiro que te acabou de perder; ao primeiro que te roubou à tua família, deixaste uma filha sem mãe; ao segundo, que te enriqueceu, empobreceste. Só me resta ver como castigarás a ti mesma; se não me engano, tu acabas de revelar-me. Espero pelo tempo. Vamos, Araújo.
Carolina – O senhor veio fazer-me ficar triste.
Araújo – Virá depois de nós quem o alegre.
Carolina – Escute!... Não!...
Araújo – Arrependeu-se?
Carolina – Como está Luís?
Araújo – Não sei.
Carolina – Não tem visto?
Araújo – Ainda ontem.
Carolina – Ele lhe fala às vezes em mim?
Araújo – Nunca.
CAROLINA e HELENA
CAROLINA - Nunca!...
HELENA - Estás falando só?
CAROLINA - Estava pensando em uma coisa... Ele não vira, Helena!
HELENA - Por que razão?
CAROLINA - Ainda perguntas?
HELENA - Não creias. Estou quase apostando que não tarda aí.
CAROLINA - Tu não conheces Luís.
HELENA - Ora é boa!! Conheço os homens, Carolina; para eles uma mulher é sempre urna mulher, sobretudo quando é bonita.
CAROLINA - Terá recebido a carta?
HELENA - O Vieirinha entregou-a em mão própria.
CAROLINA - O Vieirinha?... Não tinhas outra pessoa por quem mandar?...
HELENA - Que tem que fosse ele?..
CAROLINA - Nada: é que me aborrece esse homem. Desejo nem vê-lo...
HELENA - Tu bem sabes...
CAROLINA - Sei, mas não estou para suportá-lo. Entra na minha casa como se fosse dono dela; ontem fui achá-lo naquela sala a remexer na minha cômoda.
HELENA - E faltou-te alguma coisa?...
CAROLINA - Não; mas para que isso não torne a acontecer, previno-te que, se queres continuar a morar comigo, deves descartar-te dele.
HELENA - Não me animo a dizer-lhe...
CAROLINA - É um homem sem caráter!
HELENA - Gosto dele, Carolina!
CAROLINA - Tens um gosto bem extravagante!
HELENA - Confesso! Se tu soubesses o que tenho sofrido!...
CAROLINA - Porque queres.
HELENA - É verdade; mas não sei que poder tem sobre mim, que não posso resistir-lhe! Conheço que é um homem capaz de tudo; e, entretanto, Carolina, se ele vier pedir-me, como já tem feito muitas vezes, que venda um traste meu para desempenhar o seu relógio... Tu vais te rir?... Pois eu não lhe negarei!
CAROLINA - Não me rio, não, Helena; ao contrário, tive uma idéia bem triste.
HELENA - Que idéia?
CAROLINA - Será esse o fim da nossa vida? A mulher que perverte seu coração estará condenada a amar um dia algum homem ainda mais baixo do que ela?
HELENA - E quem nos pode amar senão esses, Carolina?
CAROLINA - Mas isso não é amor! (Luís aparece na porta do fundo.)
As mesmas e LUÍS
HELENA - Sr. Viana!
CAROLINA - Ah!...
LUÍS - Creio que entra-se aqui pagando!... (Tira da carteira uma cédula que deita sobre o aparador.)
CAROLINA - Luís!...
LUÍS - Por este nome só me tratam os meus amigos e as pessoas que estimo.
CAROLINA - Não é preciso recorrer a estes meios para mostrar-me o seu desprezo; eu o sinto mesmo de longe e agora vejo-o mais no seu olhar do que nas suas palavras.
LUÍS - Que quer de mim?...
CAROLINA - Queria fazer-lhe um pedido; mas já não tenho coragem.
LUÍS - Então é inútil a minha presença aqui.
CAROLINA - Não! Espere! Farei um esforço; porém prometa-me ao menos uma coisa.
LUÍS - Não é preciso.
CAROLINA - É muito; prometa-me que por mais estranho que lhe pareça o que vou dizer-lhe, deixe-me falar; depois acuse-me e escarneça de mim: é o seu direito; não me queixarei.
LUÍS - A recomendação é escusada; três vezes procurei com as minhas palavras reparar um erro; mas afinal convenci-me que quando tine o ouro, não se ouve a voz da consciência. Pode falar.
CAROLINA - Sente-se. Fecha aquela porta, Helena, e deixa-nos.
LUÍS e CAROLINA
CAROLINA - Consinta que ao menos agora que ninguém nos ouve eu o chame Luís, como antigamente.
LUÍS - Para quê?
CAROLINA - Este nome me lembra uma intimidade, e me faz esquecer o ano que passou.
LUÍS - Para que esquecê-lo? É o mais feliz da sua vida!...
CAROLINA - Podia ter sido se alguém me tivesse amado; mas ele não quis, ou não julgou que uma moça perdida valesse a pena de uma afeição.
LUÍS - E valia?.
CAROLINA - Talvez, Luís... Sem o despeito dessa repulsa, talvez a filha não fosse surda ao grito de sua mãe e a mulher resistisse à fascinação que a atraia.
LUÍS - Ora!...
CAROLINA - Oh! Não me defendo. A culpa é minha: o mal estava aqui (leva a mão à fronte). Tinha sede de prazer e precisava saciar-me; entretanto, creio que também havia alguma coisa aqui (leva a mão ao coração), porque depois das minhas loucuras sentia um remorso do que tinha feito; e me parecia que me afastava cada vez mais daquele de quem desejava aproximar-me. E, coisa singular! Era justamente este remorso que me irritava mais, que me lançava em algum novo escândalo, e me fazia olhar com um soberano desprezo para essa sociedade que me repeliu, e para todas essas mulheres virtuosas que ele podia amar.
LUÍS - Foi então para dizer-me isto... que...
CAROLINA - Foi para dizer-lhe que este amor louco me tem sempre acompanhado, que resistiu a tudo, e que hoje se ajoelha a seus pés!...
LUÍS - Carolina!
CAROLINA - Luís, não te peço que me ames, não; sou indigna, eu o sei! Mas eu te suplico, me deixa amar-te!...
LUÍS - Cale-se!
CAROLINA - Que lhe custa isso? Um homem não se mancha com a afeição de uma mulher, por mais desprezível que ela seja; e é sempre doce sentir que se está dando um pouco de felicidade a uma pobre criatura que o mundo condena.
LUÍS - Não sou rico!
CAROLINA - A mulher que ama não vende o seu coração: suplica que o aceitem!...
LUÍS - E o partilhem com os outros!...
CAROLINA - Não me compreende, Luís. Vê esta caixa? Aqui tenho as economias da minha dissipação; guardei-as para um dia poder gozar um momento dessa existência doce e tranqüila, que eu não conheço. Não sei em quanto importam; mas devem chegar para viver um ou dois anos na Tijuca ou em Petrópolis. Venha comigo! Consinta que o ame. Logo que o aborrecer, deixe-me. Assim ao menos quando começar para mim o desengano, quando de meus anos gastos na perdição só restar a velhice prematura, eu terei as recordações desses poucos dias de felicidade para encher o vácuo do passado.
LUÍS - Adeus, Carolina.
CAROLINA - Não me recuse!...
LUÍS - Eu lhe perdôo, porque ignora que isto que propõe é uma infâmia! Nunca amou, Carolina, senão compreenderia que ninguém se avilta a ponto de aceitar esses sobejos de amor, esses restos de um luxo pago por tantos outros. Seus primeiros amantes, a quem arruinou, diriam que eu vivia da sua miséria.
CAROLINA - Oh! não...
LUÍS - É inútil!
CAROLINA - Pois bem!... Antes de partir... porque sei que é a última vez que nos vemos... Luís... (apresenta-lhe a fronte timidamente.)
LUÍS - O quê?...
CAROLINA - A sua lembrança!...
LUÍS - Outros lábios a apagariam!
CAROLINA - Ah!...