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As Asas de um Anjo

José de Alencar

EPILOGO

Em casa de LUÍS. Sala simples, mas elegante.

CENA PRIMEIRA

CAROLINA e MARGARIDA

CAROLINA - Luís ainda não voltou, minha mãe?

MARGARIDA - Não! Creio que anda muito ocupado.

CAROLINA - O que será?

MARGARIDA - Não sei. Não lhe perguntei.

CAROLINA - E todos os dias enquanto ele trabalha, não vou sentiu que eu lá entrasse um instante.

MARGARIDA - Para não interrompê-lo nos seus estudos. CAROLINA - E todos os dias enquanto ele trabalha, não vou arranjar-lhe os livros, endireitar-lhe os papéis e mudar as flores dos vasos?... Nem por isso o perturbo. Às vezes ele mesmo me chama, e conversamos tanto tempo!... Outras, apenas levanta a cabeça, me vê, sorri e continua a trabalhar.

MARGARIDA - Talvez hoje precisasse estar só... Porém mudaste o teu vestido escuro?... Fizeste bem! Assim ficas mais alegre.

CAROLINA - Nunca mais poderei ter alegria, minha mãe!. Por meu gosto não mudaria! Mas Luís pediu-me que me vestisse de branco.

MARGARIDA - Ah! foi ele...

CAROLINA - De manhã quando nos vimos chegou-se a mim muito sério e disse-me que desejava pedir-me um favor. Cuidei que era outra coisa... Não tive ânimo de recusar-lhe.

MARGARIDA - Já o habituaste a fazer-lhe todas as vontades!... E assim deve ser porque ele te estima como um verdadeiro irmão.

CAROLINA - Infelizmente não mereço essa estima.

MARGARIDA - Não digas isto, Carolina!

CAROLINA - De que serve negá-lo? Não é a verdade?

MARGARIDA - Não te importes com o que pensa o mundo; não é para ele que vives, e sim para a tua mãe, para aqueles que te amam. O teu mundo, o nosso, é esta casa.

CAROLINA - E nesta mesma casa não falta alguém?... O amor de minha mãe não me lembra que eu tenho um pai que não me quer ver, que foge de sua filha como de um objeto repulsivo?...

MARGARIDA - Isto te faz sofrer e a mim também! Mas consola-te. Luís me prometeu que havia de trazê-lo.

CAROLINA - E poderá ele cumprir essa promessa? MARGARIDA - Tenho esperança.

CAROLINA - Há mais de um ano que esperamos!... MARGARIDA - Por isso mesmo! O único motivo que ainda te separa de Antônio é a vergonha que ele tem...

CAROLINA - Vergonha?... De que, minha mãe?

MARGARIDA - Do que fez!... Bebia... tanto... Como tu viste.

CAROLINA - Então é só este motivo?...

MARGARIDA - Só. Podes acreditar. Não conserva a menor queixa de ti.

CAROLINA. - Perdoou tudo então!

MARGARIDA - Tudo!

CAROLINA - Oh! mas Deus não perdoou, porque a todo momento vejo...

MARGARIDA - O quê?

CAROLINA - Nada, minha mãe, nada!

MARGARIDA - Não chores!... Falemos de outra coisa... Luís já deve ter voltado. São cinco horas.

CAROLINA (enxugando os olhos) - Chorar não me entristece, minha mãe, ao contrário me consola.

CENA II

As mesmas, LUÍS e MENESES

MARGARIDA (a LUÍS) - Chegaste enfim.

CAROLINA - Ah! LUÍS!

MARGARIDA - Sr. Meneses...

MENESES - Adeus, Margarida. (A CAROLINA) Hoje estás mais coradazinha!... Só falta o sorriso nos lábios.

CAROLINA - As lágrimas assentam-me melhor.

LUÍS - Por que choravas, Carolina?

MARGARIDA - Começou a lembrar-se...

LUÍS - Não te é possível então esquecer?

CAROLINA - E que servia que eu esquecesse? Os outros se lembram.

LUÍS - Como estás iludida, Carolina! O mundo é inconstante no seu ódio, como na sua simpatia. Não tem memória e esquece depressa aquilo que um momento o impressionou.

CAROLINA - Com os homens sucede assim! Com a mulher não: aquela que uma vez errou nunca mais se reabilita. Embora ela se arrependa; embora pague cada um dos seus momentos de desvario por anos de expiação e de martírio: embora, iluminada pelo sofrimento, ela compreenda toda a sublimidade da virtude, e aceite como gozo aquilo que para tantas é apenas um dever, um sacrifício ou um costume!... Nada disto lhe vale! Se ela aparecer o mundo arrancará o véu que cobre o seu passado.

LUÍS - Quando o arrependimento não é sincero, porque então a sociedade é severa.

CAROLINA - Não tem direito de ser! Deve lembrar-se que é a verdadeira causa de alucinação de tantas moças pobres... Porque ao passo que atira a lama ao ente fraco que se deixou iludir, guarda um elogio e um cumprimento para o sedutor.

MENESES - É assim deve ser, Carolina.

CENA III

CAROLINA, LUÍS e MENESES

CAROLINA - O senhor defende esta injustiça?

MENESES - Defendo a lei social, que, na minha opinião, deve ser respeitada até mesmo nos seus prejuízos. Como filósofo, posso condenar algumas aberrações da sociedade; como cidadão, curvo-me a elas e não discuto.

CAROLINA - Mas por que razão toda a falta recai unicamente sobre a parte mais fraca?

MENESES - Porque a virtude de uma senhora é um bem tão precioso, que quando ela o dá a um homem eleva-o, rebaixando-se.

CAROLINA - E a sociedade aproveita-se desse erro, aplaude o vencedor e encoraja-o para novas conquistas?

MENESES - Toda a virtude que não luta, não é virtude; é um hábito. Se não houvesse sedutores, a honestidade seria uma coisa sem merecimento! Creia-me, Carolina, o mundo é feito assim; deixemos falar os moralistas: eles podem dizer muita palavra bonita, mas não mudarão nem uma pedra desse edifício social que as maiores revoluções não têm podido abater.

CAROLINA - Ouves, Luís; tudo se defende, menos a falta de uma pobre mulher.

MENESES - Não há dúvida! Fiz uma das minhas. Este maldito Costume de escrever folhetins!... Mas desculpe; não me lembrei que a afligia.

CAROLINA - Já estou resignada! Não pertenço mais a este mundo!...

LUÍS - Hás de Voltar a ele. Eu te prometo!...

CAROLINA - Como, meu Deus!...

LUÍS - Não me acreditas?

CAROLINA - Desejava, mas não posso.

LUÍS - Espera!...

CAROLINA - Por que não me explicas?

LUÍS - Vai ter com Margarida; preciso conversar com Meneses.

CAROLINA - E depois?

LUÍS - Depois eu te chamarei.

CAROLINA (a MENESES) - Até logo?

LUÍS - Ele demora-se.

MENESES - Mas, de agora em diante, pode acusar a quem quiser!...

CAROLINA - Eu só acuso a mim mesma, Sr. Meneses.

CENA IV

LUÍS e MENESES

MENESES - Pobre moça!... Quem diria que depois daquele delírio do prazer viria uma tão nobre e tão santa resignação!

LUÍS - Isto prova, Meneses, que nem sempre o mundo tem razão; que estas faltas que ele condena encerram, às vezes, uma grande lição. As mais belas almas são as que saem do erro purificadas pela dor e fortalecidas pela luta.

MENESES - Concordo; para Deus assim é, para os homens não.

LUÍS - Para os homens também. Eu hoje respeito e admiro a virtude de Carolina!

MENESES - Não duvido; há virtudes que se respeitam e admiram, mas que não se podem amar.

LUÍS - Por que razão?

MENESES - Porque o amor é um exclusivista terrível; foi ele que inventou o monopólio e o privilégio. Já vês que este senhor não pode admitir a concorrência nem mesmo do passado.

LUÍS - Julgas então impossível amar-se uma mulher como Carolina?

MENESES - Concedo que ela excite um desejo ou um capricho, mas um verdadeiro amor, não.

LUÍS - O que dizes é verdade se o amor aspira à posse; mas se ele é apenas um gozo do espírito?

MENESES - Não creio na existência de semelhante sentimento.

LUÍS - Entretanto é assim que amo Carolina.

MENESES - Ainda?

LUÍS - Mais do que nunca.

MENESES - E que futuro tem semelhante amor?

LUÍS - É justamente sobre isso que desejo conversar contigo. Araújo não deve tardar; mandei-o chamar!

MENESES - Se não me engano ouço a sua voz.

LUÍS - É ele.

CENA V

Os mesmos e ARAÚJO

ARAÚJO - Por que razão teu criado não me quis deixar entrar pelo teu gabinete?

LUÍS - Foi ordem que lhe dei.

ARAÚJO - Pois deves revogá-la... É maçada!...

LUÍS - É por hoje unicamente.

ARAÚJO (a MENESES) - Como vais?

MENESES - Já me está com uns ares de capitalista.

ARAÚJO - Infelizmente são ares apenas.

MENESES - A realidade não tarda: o mais difícil já conseguiste, estás estabelecido.

ARAÚJO - Por falar nisto, adivinha quem me apareceu hoje querendo que o tomasse para caixeiro do balcão.

MENESES - Quem?

ARAÚJO - O Vieirinha.

MENESES - Ah!...

LUÍS - Fala mais baixo; Carolina pode ouvir-te.

ARAÚJO - O engraçado, porem, é que depois do não redondo que lhe preguei na bochecha, a dois passos da porta foi recrutado.

MENESES - Não merecia essa honra. A missão de defender o seu país é muito nobre para ser confiada ao primeiro tratante que se agarra na rua.

ARAÚJO - Que te importa isso? O país não ganhará um soldado, porém ao menos ensinará um velhaco.

LUÍS - Não percamos tempo. Senta-te!

ARAÚJO É verdade! Para que me mandaste chamar?

LUÍS - Para comunicar-te, e a Meneses, uma resolução minha.

ARAÚJO - Que solenidade!

LUÍS - O objeto exige.

ARAÚJO - Pois então fala de uma vez.

LUÍS - Tu que me tens acompanhado desde o princípio da minha vida, sabes qual foi o meu primeiro amor. O que porém não sabes, é que apesar de tudo, apesar da vergonha e do escândalo, nunca deixei de amar Carolina. Combati essa paixão louca e extravagante; não pude extingui-la; consegui apenas dominá-la.

ARAÚJO - Mas hoje é ela que te domina.

LUÍS - Não, Araújo; Carolina nem suspeita! Habituei-me por tanto tempo a reprimir os meus sentimentos, que eles me obedecem facilmente. Não é pois o coração, é a razão que ditou a resolução que tomei.

ARAÚJO - Que resolução, Luís?

LUÍS - Vou casar-me com Carolina.

ARAÚJO - Como teu amigo, não consentirei que dês semelhante passo.

LUÍS - Por quê? Dois anos de expiação e de lágrimas remiram essa alma que se extraviou. À força de coragem e de sofrimento ela conquistou a virtude em troca da inocência perdida. O mundo já não tem o direito de a repelir: mas exigente como é, quer que o nome de um homem honesto cubra o passado.

ARAÚJO - E tu fazes o sacrifício?

LUÍS - Sem a menor hesitação. Tenho morto o coração; todo o amor que havia em minha alma dei-o a Carolina; a fatalidade quis que ele se consumisse em desengano: era o meu destino. Que posso eu fazer agora de uma vida gasta e sem esperança? Não é melhor aproveitá-la para dar a felicidade a uma criatura desgraçada, do que condená-la à esterilidade? Que dizes, Meneses?

MENESES - Digo que terás de sustentar contra o mundo um combate em que muitas vezes sentirás a tua razão vacilar. A sociedade abrirá as portas à tua mulher: mas quando se erguer a ponta do véu, hás de ver o sorriso de escárnio e o gesto de desprezo, que a acompanharão sempre. Toda a virtude de Carolina, toda a honestidade de tua vida, não farão calar a injúria e a maledicência. Tens bastante força e bastante coragem para aceitar esse duelo terrível de um homem só contra uma sociedade inteira?

LUÍS - Tenho!

MENESES - Então, faz o que te inspira o amor; é um nobre mas inútil sacrifício.

ARAÚJO - Carolina já sabe da tua resolução?

LUÍS - Não; e só deve saber no momento. Conheço-a e temo uma recusa! Por isso dispus tudo em segredo; ali está preparado um altar...

ARAÚJO - Para hoje?

LUÍS - Sim; é preciso não deixar um instante à reflexão.

MENESES - Pensas bem!

ARAÚJO - Contudo essa precipitação...

LUÍS - A vida não é tão longa que valha a pena gastá-la em calcular o que se deve fazer.

ARAÚJO - Na minha opinião nunca é tarde para fazer uma loucura.

MENESES - Vamos conversar com Carolina. O Sr. Ribeiro e Luís naturalmente desejam ficar sós.

CENA VI

LUÍS, RIBEIRO e uma menina

RIBEIRO -- Custou-me a cumprir minha promessa.

LUÍS - É sempre triste separar-se um pai de sua filha.

RIBEIRO - Oh! Não faz idéia... Mas virei abraçá-la todos os dias.

LUÍS - Perdão, Sr. Ribeiro! De hoje em diante esta menina deixa de ser sua filha!

RIBEIRO - Que diz, senhor!... Podia eu consentir em semelhante coisa?

LUÍS - Falta à sua palavra?

RIBEIRO - Entendi mal. Julguei que me pedia deixasse minha filha em companhia de sua mãe, podendo vê-la quando quisesse.

LUÍS - O senhor ignora que amanhã Carolina terá um marido. A sociedade exige que esse marido seja reputado o pai de sua filha.

RIBEIRO - Um marido!... Quem?...

LUÍS - Eu, senhor!

RIBEIRO - Ah!

LUÍS - É com este título que reclamo o cumprimento da promessa que ontem me fez.

RIBEIRO - Um pai não pode deixar que sua filha passe como filha de um estranho.

LUÍS - Então esse pai deve legitimar o seu direito.

RIBEIRO - Que quer dizer?

LUÍS - Quero dizer que em vez do meu, Carolina pode ter o seu nome.

RIBEIRO - Nunca!

LUÍS - Neste caso é uma crueldade recusar a filha à mãe a quem se roubou a honra. Lembre-se, Sr. Ribeiro, que essa moça, de cuja desgraça o senhor foi a primeira causa, só pode ter uma felicidade neste mundo: a maternidade; enquanto que o senhor daqui a alguns dias amará urna mulher, terá uma família e gozará das afeições puras que Carolina perdeu para sempre.

RIBEIRO - Ela fará o mesmo. Não vai casar-se?

LUÍS - O senhor não me compreendeu bem. Dou à Carolina o meu nome; não exijo dela um amor impossível.

RIBEIRO - Sou pai, senhor!

LUÍS - E ela é mãe. Entre os dois, quem terá mais direito a esta menina? O senhor, para quem ela representa uma afeição que pode ser substituída; ou Carolina, para quem ela é a existência inteira?

RIBEIRO - Não exija uma coisa contra a natureza.

LUÍS - Exijo uma reparação que um homem honesto não pode recusar.

RIBEIRO - Essa reparação ofereci-a outrora.

LUÍS - Isto não o desobriga; todas as faltas que ela cometeu eram conseqüências necessárias da primeira.

(CAROLINA entra precipitadamente e abraça a menina.)

CENA VII

Os mesmos, CAROLINA e MARGARIDA

CAROLINA - Minha filha!... Como está bonita!... Tu conheces tua mãe?... Abraça-me!

LUÍS - Tem ânimo de separá-las?

RIBEIRO - Custa-me!... É verdade!

LUÍS - Não lhe digo nada mais, Sr. Ribeiro. Ali está uma mulher que o senhor fez desgraçada; hoje que ela vai reabilitar-se, consulte a sua consciência, e proceda como entender. Se julga que depois de a ter seduzido deve ser um obstáculo à sua regeneração, arranque-lhe a filha dos braços e complete a sua obra.

RIBEIRO - Se soubesse como amo esta menina!

LUÍS - Não mostra!

RIBEIRO - Que diz, senhor!

LUÍS - Se a amasse verdadeiramente não hesitaria em fazer-lhe esse sacrifício. Que responderá o senhor um dia à sua filha quando ela lhe perguntar por sua mãe?...

RIBEIRO - Basta, senhor!

CAROLINA (assustada) - Quer levá-la outra vez?

RIBEIRO - Quero dizer-lhe adeus.

CAROLINA - Ah!...

MARGARIDA (baixo a LUÍS) - Antônio está aí.

LUÍS - Mande que espere um momento. (Sai MARGARIDA com a menina.)

CENA VIII

LUÍS e CAROLINA

LUÍS - Estás satisfeita, Carolina?

CAROLINA - Tanto quanto me é possível!

LUÍS - Ainda te falta alguma coisa, não é verdade?

CAROLINA - Falta-me o que nunca mais poderei obter!

LUÍS - Por quê? Não te prometi há pouco?

CAROLINA - Sim: mas essa promessa não se realizará.

LUÍS - Depende de uma palavra tua.

CAROLINA - Como?...

LUÍS - Consentes em ser minha mulher?

CAROLINA - Luís!...

LUÍS - Responde!

CAROLINA - Não!

LUÍS - Recusas, Carolina?.

CAROLINA - Eu te amo, Luís! Deus sabe que poder tem este amor em minha alma; Deus sabe que para partilhá-lo contigo, para ser amada por ti, eu daria, talvez não creias, eu daria o amor de minha filha! Porém nada neste mundo me faria sacrificar a tua felicidade!

LUÍS - Como te enganas! Não é um sacrifício.

CAROLINA - Queres dar-me à custa de tua honra, um título de que eu me tornei indigna. Não devo aceitá-lo.

LUÍS - Mas eu também te amo!...

CAROLINA - Tu?... Tu me amas... Luís?... Não acredito!...

LUÍS - Deves acreditar.

CAROLINA - Não! Não é possível! Depois do meu crime, Deus não podia dar-me tanta ventura! Que reservaria Ele para a virtude?

LUÍS - Deus já te perdoou, Carolina. Vê!

CAROLINA - Um altar?

LUÍS - Que nos espera.

CAROLINA - Luís, pelo que há de mais sagrado, responde-me: este casamento é necessário para a tua felicidade?

LUÍS - Eu te juro!...

CAROLINA - Então... Cumpra-se a tua vontade!

CENA IX

ANTÔNIO ( cenamuda. Toca a música durante o tempo em que celebra o casamento. Pouco depois de esvaziar-se a cena, ANTÔNIO, quebrado pelos anos e encanecido, entra; olha com uma admiração profunda o que se passa na sala imediata. Ajoelha e reza.)

CENA X

ANTÔNIO, LUÍS e CAROLINA

ANTÔNIO - Ah!...

LUÍS - Antônio, eu te restituo a filha que perdeste.

CAROLINA - Meu pai!...

ANTÔNIO - Carolina!...

LUÍS - Abençoa tua filha!

ANTÔNIO - Depois que ela me perdoar!

CAROLINA - Sou eu que preciso de perdão!... Meu pai!... (Abraçam-se.)

LUÍS - Agora, Antônio, entra naquela sala; deixa-me dizer duas palavras à minha mulher.

CENA XI

LUÍS e CAROLINA

CAROLINA - Tua mulher!... Ainda não creio, Luís! Perdoada por meu pai, estimada por ti!... Gozar ainda esse prazer supremo de ocupar a tua alma, de viver para a tua felicidade!... Nunca pedi tanto a Deus!... Dize!... Dize, dize que me amas, para que não me arrependa de ter aceitado este sacrifício!...

LUÍS - Amo-te, Carolina.

CAROLINA - Mas se não puderes esquecer... Se a lembrança do passado surgir como um espectro... Não me acuses, Luís!... Foste tu que o exigiste!

LUÍS - Não tenhas esse receio, Carolina. Tu és minha mulher perante o mundo. Perante Deus...

CAROLINA - O que sou?

LUÍS - És minha irmã.

CAROLINA - Tens razão! O nosso amor é impossível.

LUÍS - É puro e santo!. .. Há de ser feliz!

CAROLINA - Já não existe felicidade para mim!...

LUÍS - Existe, Carolina. Existe ao pé de um berço. Sê mãe!..

CAROLINA - Minha filha!... Sim... Viverei para ela... (A cena enche-se.)

LUÍS - E agora... Conheces estas fitas?.

CAROLINA - Ainda as conservas!...

LUÍS - São o emblema de tua vida e a história da minha. São as asas de um anjo que as perdeu outrora, e a quem Deus as restitui neste momento.

CAROLINA - Ah!...

FIM

Fonte: www.biblio.com.br

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