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Diva

José de Alencar

- Mentiu-me, então?...

- Menti, confesso!...

- Creio antes que mente agora. A mentira é irmã do insulto.

- Desculpemo-nos mutuamente, D. Emília; ambos erramos; e para que estas cenas não se repitam, eu quero ser franco. A senhora me fez uma vez, há tempo, sua confissão: quer ouvir a minha?
- Fale! replicou Emília com um tom de ameaça.

- Eu não sou inteiramente pobre, mas também não sou rico, e tenho acima de tudo a ambição do dinheiro.

- Ah! fez ela cerrando as pálpebras e encostando a cabeça no recosto do banco para ouvir-me impassível.

Seu olhar, coando entre os cílios e partindo-se em mil raios, cintilava sobre o meu rosto, como o trêmulo rutilo de uma estrela.

- O que lhe vou dizer é talvez humilhante para mim; mas eu me sacrifico!
- Muito agradecida! Isso me penhora.- respondeu-me, inclinando-se com um sério imperturbável.

- À exceção do comércio, a senhora sabe que não há no Brasil carreira alguma pela qual se possa chegar depressa... e honestamente, à riqueza. A minha mal dá para viver com decência. Portanto sendo eu honesto... porque tenho medo da polícia, e não gosto que me incomodem... sendo eu honesto, repito, só havia um recurso à minha ambição... Adivinha qual?
- Suspeito; mas diga sempre.

- O do casamento.

- É um recurso lícito e fácil.

- Não tanto como lhe parece.

- Ora! Para o senhor?...

- Para mim, sim senhora; porque embora ambicioso, eu não estou disposto a sacrificar à riqueza minha felicidade; seria um absurdo, pois se eu quero ser rico é para ser feliz.

- E como pretende conciliar isto? Deve ser curioso.

- É agora que eu preciso de toda a sua indulgência; vendo-a quando voltei da Europa, senti-me atraído para a senhora por uma inclinação que eu considerei amor; e essa inclinação... Não devo ocultar coisa alguma para minha maior vergonha... essa inclinação aumentou involuntariamente quando soube que os negócios do Sr. Duarte tinham prosperado por tal forma que ele era, se não o maior, um dos maiores e mais sólidos capitalistas da praça do Rio de Janeiro... Não sei se deva continuar!...

- Por que não, doutor? Eu estou ouvindo-o com um prazer imenso!
- Mas eu me acanho.

É modéstia própria dos homens de talento, que sabem viver. Mas nós nos conhecemos!...

- Bem; eu continuo. Disse-lhe que a amava já muito, mas isso não era nada em comparação do que senti depois... Um dia, alguém, creio que um corretor, assegurou-me que o Sr. Duarte era nada menos que milionário... duas vezes milionário...

- Ah! Eu ignorava!
- Pois saiba que é. Viúvo, só com dois filhos... pensei eu... Então D. Emília terá um milhão de dote! Um milhão! Desde esse momento meu amor não teve mais limites; tornou-se uma paixão digna de Romeu, de Otelo, dos mais celebrados heróis de dramas e romances. Como sua formosura então revelou-se resplandecente aos meus olhos!... Eu compreendi nessa ocasião os poetas que eu não compreendera nunca, e as suas comparações minerais... Vi que seus dentes mimosos eram realmente pérolas de Ceilão, seus lábios rubis de Ofir, e seus olhos diamantes da melhor água! Sua voz argentina tinha aos meus ouvidos essa melodia inefável, que nem Rossini nem Verdi puderam ainda imitar, a melodia do ouro... do ouro, a senhora bem sabe, a lira de Orfeu deste século!... Oh! Que paixão, D. Emília! Era um delírio... uma loucura... Foi então que eu não pude mais resistir e confessei-lhe que a amava!
Emília ergueu-se rápida:
- Ah! compreendo agora!...

Como não fiquei ao ver aquela mulher, exultando de júbilo e orgulho ali, em face de mim, que pensava tê-la afinal humilhado com meu frio sarcasmo.

- O que é que a senhora compreende, D. Emília?
- Que eu vivo em sua alma! E como o senhor não pode arrancar-me dela, procura rebaixar-me a seus próprios olhos e humilhar-me para ter a força, que não tem, de me desprezar! O senhor ama-me, e há de amar-me enquanto eu quiser... e há de esperar aqui, a meu lado, até que chegue a hora em que me perca para sempre... Porque eu é que posso jurar-lhe: não o amo, não o amei, não o amarei nunca...

A paixão, recalcada por algum tempo, ergueu-se indomável em minha alma, e precipitou como uma fera sedenta para essa mulher. Toda a lia que o pecado original depositou no fundo do coração humano, revolveu-se e extravasou.

Eu avancei para Emília; e meu passo hirto, e meu olhar abrasado deviam incutir-lhe terror.

- Pois bem!- exclamei eu com a voz surda e trêmula.- A senhora quer! É verdade! Eu a amo! Mas aquela adoração de outrora, aquele culto sagrado cheio de respeito e admiração... Tudo isso morreu! O que resta agora neste coração que a senhora esmagou por um bárbaro divertimento, o que resta, é o amor brutal, faminto, repassado de ódio... é o desespero de se ver escarnecido, e a raiva de querê-la e obrigá-la a pertencer-me para sempre e contra sua própria vontade!...

- Eu o desprezo!... respondeu-me Emília.

Era quase noite. A voz de Julinha soou no jardim, chamando a prima. Eu ia dar um último passo para Emília; hesitei.

- Fuja, senhora!
Ela não se moveu; ficou muda enquanto os ecos da voz de Julinha continuando a chamá-la ressoavam ao longe. Quando o silêncio restabeleceu-se, e parecia que a prima se tinha afastado, ela veio colocar-se em face de mim, e erigindo o talhe e cruzando os braços afrontou-me com o olhar.

- O senhor é um infame! disse com arrogância.

Fiz um esforço supremo; inclinei-me para beijar-lhe a fronte. Seu hálito abrasado passou em meu rosto como um sopro de tormenta.

Ela atirara rapidamente para trás a altiva cabeça, arqueando o talhe; e sua mão fina e nervosa flagelou-me a face sem piedade.

Quando dei acordo de mim, Emília estava a meus pés. Sem sentir eu lhe travara dos pulsos e a prostrara de joelhos diante de mim, como se a quisera esmagar. Apesar da minha raiva e da violência com que a molestava, essa orgulhosa menina não exalava um queixume; soltei-lhe os braços magoados e ela caiu com a fronte sobre a areia.

- Criança!... E louca!... murmurei afastando-me.

Emília arrastou-se de joelhos pelo chão. Apertou-me convulsa as mãos, erguendo para mim seu divino semblante que o pranto orvalhava.

- Perdão!... soluçou a voz maviosa.- Perdão, Augusto! Eu te amo!...

Seus lábios úmidos das lágrimas pousaram rápidos na minha face, onde a sua mão tinha tocado. E ela ali estava diante de mim, e sorria submissa e amante.

Fechei os olhos. Corri espavorido, fugindo como um fantasma a essa visão sinistra.

XX

"Sim, Augusto, eu te amo!... Já não tenho outra consciência de minha vida. Sei que existo, porque te amo.

Naquele momento, de joelhos, a teus pés, essa grande luz encheu meu coração. Acabava de ultrajar-te cruelmente; detestava-te com todas as forças de minha alma; e de repente todo aquele ódio violento e profundo fez-se amor! Mas que amor!
Desde então me sinto como inundada por este imenso júbilo de amar. Minha alma é grande e forte; guardei-a até agora virgem e pura; nem uma emoção fatigou-a ainda. Entretanto receio que ela não baste para tanta paixão. É preciso que eu derrame em torno de mim a felicidade que me esmaga.

Por que me fugiste, Augusto?... Segui-te repetindo mil vezes que te amava; confessei-o a cada flor que me cercava, a cada estrela que luzia no céu. Minha alma vinha aos meus lábios para voar a ti nestas abençoadas palavras: eu te amo! Tudo em mim, meus olhos cheios de lágrimas, minhas mãos súplices, meus cabelos soltos, se tivessem uma voz, falariam para dizer-te: Ela te ama!
Beijei na areia os sinais de teus passos, beijei os meus braços que tu havias apertado, beijei a mão que te ultrajara num momento de loucura, e os meus próprios lábios que roçaram tua face num beijo de perdão.

Que suprema delícia, meu Deus, foi para mim a dor que me causavam os meus pulsos magoados pelas tuas mãos! Como abençoei este sofrimento!... Era alguma coisa de ti, um ímpeto de tua alma, a tua cólera e indignação, que tinham ficado em minha pessoa e entravam em mim para tomar posse do que te pertencia. Pedi a Deus que tornasse indelével esse vestígio de tua ira, que me santificara como uma coisa tua!
Vieram encontrar-me submergida assim na minha felicidade. Interrogaram-me; porém eu só ouvia os cânticos de minha alma cheia das melodias do meu amor. Não lhes falei, com receio de profanar a minha voz, que eu respeito depois que ela te confessou que eu te amo. Não deixei que me tocassem para não te ofenderem no que é teu.

Quero guardar-me toda só para ti. Vem, Augusto: eu te espero. A minha vida terminou; começo agora a viver em ti.

Tua Emília."

São onze horas.

Recebo agora esta carta, aqui na cidade.

Quando fugi ontem de Emília, tinha tão grande terror de mim mesmo, que não me animei a ficar no Rio Comprido.

Acabando de ler o que ela me escrevera, pedi a Deus que me desse coragem para resistir:
- Senhor! Vós sabeis que eu não devo amar essa mulher! Seria uma infâmia!...

Achei Emília sentada em uma cadeira, absorta em seu enlevo. Vendo-me, toda essa bela criatura assumiu-se num só e inefável sorriso para cair aos meus pés, difundindo sua alma nestas palavras impetuosas:
- Eu te amo, Augusto!
Depois continuou repetindo uma e muitas vezes a mesma frase, como se estudasse uma modulação de voz que pudesse exprimir quanto havia de sublime naquele grito d'alma.

- Sim! Eu te amo!... Eu te amo!...

Eram as notas da celeste harmonia que seu coração vibrava, como o rouxinol canta na primavera e as harpas eólias ressoam ao sopro de Deus.

Quando ela desafogou sua alma desta exuberância da paixão, falei-lhe :
- Mas reflita, Emília. A que nos levará esse amor?
- Não sei!... respondeu-me com indefinível candura.- O que sei é que te amo!... Tu não és só o árbitro supremo de minha alma, és o motor de minha vida, meu pensamento e minha vontade. És tu que deves pensar e querer por mim... Eu?... Eu te pertenço; sou uma coisa tua. Podes conservá-la ou destruí-la; podes fazer dela tua mulher ou tua escrava!... É o teu direito e o meu destino. Só o que tu não podes em mim, é fazer que eu não te ame!...

Enfim, Paulo, eu ainda a amava!...

Ela é minha mulher.

PÓS-ESCRITO

O autor deste volume e do que o precedeu com o título de Lucíola sente a necessidade de confessar um pecado seu: gosta do progresso em tudo, até mesmo na língua que fala.

Entende que sendo a língua instrumento do espírito não pode ficar estacionária quando este se desenvolve. Fora realmente extravagante que um povo adotando novas idéias e costumes, mudando os hábitos e tendências, persistisse em conservar rigorosamente aquele modo de dizer que tinham seus maiores.

Assim, não obstante os clamores da gente retrógrada, que a pretexto de classicismo aparece em todos os tempos e entre todos os povos, defendendo o passado contra o presente; não obstante a força incontestável dos velhos hábitos, a língua rompe as cadeias que lhe querem impor, e vai se enriquecendo já de novas palavras, já de outros modos diversos de locução.

É sem dúvida deplorável que a exageração dessa regra chegue ao ponto de eliminar as balizas tão claras das diversas línguas. Entre nós sobretudo naturaliza-se quanta palavra inútil e feia ocorre ao pensamento tacanho dos que ignoram o idioma vernáculo, ou tem por mais elegante exprimirem-se no jargão estrangeirado, em voga entre os peralvilhos.

Esse ridículo abuso porém não deverá levar ao excesso os doutos e versados na língua. Entre os dois extremos de uma enxertia sem escolha e de uma absoluta isenção está o meio-termo, que é a lei do bom escritor e o verdadeiro classicismo do estilo.

A língua é a nacionalidade do pensamento, como a pátria é a nacionalidade do povo. Da mesma forma que as instituições justas e racionais revelam um povo grande e livre, uma língua pura, nobre e rica anuncia a raça inteligente e ilustrada.

Não é obrigando-a a estacionar que hão de manter e polir as qualidades que por ventura ornem uma língua qualquer; mas sim fazendo que acompanhe o progresso das idéias e se molde às novas tendências do espírito, sem contudo perverter a sua índole e abastardar-se.

Criar termos necessários para exprimir os inventos recentes, assimilar-se aqueles que, embora oriundos de línguas diversas, sejam indispensáveis; e sobretudo explorar as próprias fontes, veios preciosos onde talvez ficaram esquecidas muitas pedras finas; essa é a missão das línguas cultas e seu verdadeiro classicismo.

Quanto à frase ou estilo, também se não pode imobilizar quando o espírito, de que é ela a expressão, varia com os séculos de aspirações e de hábitos. Sem o arremedo vil da locução alheia e a imitação torpe dos idiotismos estrangeiros, devem as línguas aceitar algumas novas maneiras de dizer, graciosas e elegantes, que não repugnem ao seu gênio e organismo.

Deste modo não somente se vão substituindo aquelas dicções que por antigas e desusadas caducam, como se estimula o gosto literário, variando a expressão que afinal de tanto repetida se tornaria monótona. De resto, essa é a lei indeclinável de toda a concepção do espírito humano, seja simples idéia, arte ou ciência, progredir sob pena de aniquilar-se.

Falemos particularmente da língua portuguesa.

A escola ferrenha, que já vai em debandada, mas há cerca de vinte anos tão grande cruzada fez em prol do classicismo, pretende que atualmente, meado do século XIX, discorramos naquela mesma frase singela da adolescência da língua, quando a educavam os bons escritores dos séculos XV e XVI.

Não é isso possível; se o fosse, tornara-se ridículo.

A linguagem literária, escolhida, limada e grave, não é por certo a linguagem sediça e comum, que se fala diariamente e basta para a rápida permuta das idéias: a primeira é uma arte, a segunda é simples mister. Mas essa diferença se dá unicamente na forma e expressão; na substância a linguagem há de ser a mesma, para que o escritor possa exprimir as idéias do seu tempo, e o público possa compreender o livro que se lhe oferece.

Gil Vicente não seria aplaudido se em seus autos falasse a linguagem do tempo de D. Diniz; também o autor dramático que tivesse a ousada pretensão de fazer representar atualmente uma comédia no estilo de Antônio José acharia talvez os espectadores que enchem as nossas platéias, convidados pelos pomposos anúncios; mas auditório, não.

O erro grave da escola clássica está em exagerar a influência dos escritores sobre seu público. Entende ela que os bons livros são capazes de conter o espírito público e sujeitá-lo pelo exemplo às sãs lições dos clássicos. É um engano; os bons livros corrigem os defeitos da língua, realçam suas belezas, e dão curso a muitos vocábulos e frases, ou esquecidos ou ainda não usados.

Mas escritor algum, fosse ele Homero, Virgílio, Dante, ou Milton, seria capaz de fazer parar ou retroceder uma língua.

O gênio, por isso mesmo que paira em uma esfera superior, pode atravessar uma época sem que ela o compreenda, nem mesmo o conheça; mas adiante está a posteridade que o vinga. Ora , se em vez de avançar para o futuro, ele retroa-se ao passado, quem o há de ler e apreciar? Os túmulos das gerações transidas? Eis porque o gênio pode criar uma língua, uma arte, mas não fazê-la retroceder.

Suscitasse a Providência nesta era outro Shakespeare, e ele não havia de saber aquela expressão cheia de vigor e energia que falam Hamlet, Otelo, Romeu e outros personagens do grande trágico; e isso pela razão muito simples, de que as paixões daqueles heróis seriam anacronismos literários nesta época. Quisesse-as ele não obstante arremedar, e não seria Shakespeare, mas algum desconhecido e extravagante versejador.

Mas para que outro argumento além daquele que nos oferece a nossa mesma língua?
A literatura portuguesa não teve de mil e quinhentos a mil e seiscentos uma longa série de elegantes autores, entre os quais se nomeiam de preferência Barros, Couto, Lucena, Garcia de Rezende, Heitor Pinto, Luís de Souza, Camões, Jacinto Freire, Bernardes, Azurara? Entretanto, sob a influência atual desses modelos do estilo quinhentista, não se foi modificando a língua consideravelmente?
Exauriu-se depois daqueles escritores o bom gosto literário, que se tornaram tão raros os imitadores deles? De forma alguma; homens de incontestável superioridade escreveram depois, como Vieira, Garção, Bocage, Francisco Manuel, Diniz e outros; mas amoldaram-se às tendências de sua época, na qual a língua, como todos os laços do exclusivismo nacional, já declinavam (sic) para a transfusão universal das idéias que devia operar a civilização moderna.

Em conclusão: público e escritor exercem uma influência recíproca; e essa lei moral tem um exemplo muito frisante em um fenômeno físico. A atmosfera atrai os átomos que sobem da águas estagnadas pela evaporação, e depois os esparze sobre a terra em puro e cristalino rocio. São da mesma forma as belezas literárias dos bons livros; o escritor as inspira do público, e as depura de sua vulgaridade.

Coisa singular é que ninguém conteste estas verdades triviais a respeito da arte e da literatura, e muitos as repilam em relação à língua. Aqueles mesmos escritores que romperam com a escola mitológica tão em voga na poesia portuguesa, para aceitarem a escola moderna, que foi iniciada sob o título de romantismo, por uma singular contradição se julgaram adstritos à linguagem clássica usada pelos antigos modelos.

O estilo quinhentista tem valor histórico; é um estudo de costumes, que no romance do gênero adquire súbito valor como o provaram Alexandre Herculano e Rebelo da Silva. Fora disso é apenas uma fonte, mas não exclusiva, onde o escritor de gosto procura as belezas de seu estilo, como um artista adiantado busca nas diversas escolas antigas os melhoramentos por ela introduzidos.

Feita esta confissão plena de meus pecados em matéria de estilo, direi por que escolhi antes esta ocasião do que outra qualquer para pôr-me bem com a minha consciência.

Quando saiu à estampa a Lucíola, no meio do silêncio profundo com que a acolheu a imprensa da corte, apareceram em uma publicação semanal algumas poucas linhas que davam a notícia do aparecimento do livro, e ao mesmo tempo a de estar ele eivado de galicismos. O crítico não apontava porém uma palavra ou frase das que tinham incorrido em sua censura clássica.

Passou.

Veio anos depois a Diva. Essa, creio que por vir pudicamente vestida, e não fraldada à antiga em simples túnica, foi acolhida em geral com certa deferência e cortesia. Da parte de um escritor distinto e amigo, o Dr. Múzio, chegou a receber finezas próprias de um cavalheiro a uma dama; entretanto não se pôde ele esquivar de lhe dizer com delicadeza que tinha ressabios das modas parisiense.

Segunda vez a censura de galicismo, e dessa vez de um crítico excessivamente generoso, que se alguma preocupação nutria era toda em favor do autor do livro.

Desejei tirar a limpo a questão, que por certo havia de interessar a todos que se ocupam das letras pátrias. O distinto escritor, solicitado em amizade, capitularia os pontos da censura. Se em minha consciência os achasse verdadeiros, seria pronto em corrigir meus erros; senão, produziria a defesa, e não fora condenado sem audiência.

Muitas e várias razões me arredaram então daquele propósito; a atualidade da questão passou; eu correria o risco de não ser lido saindo a público para discutir a crítica antiga de uma obra talvez já submergida pela constante aluvião de fatos que ocupam o espírito público.

Ao dar à estampa esta segunda edição da Diva, pareceu-me azado o momento para escrever as observações que aí ficam, pelas quais deseja o autor ser julgado em matéria de estilo quando publique algum outro volume. Não basta acoimarem sua frase de galicismo; será conveniente que a designem e expendam as razões e fundamentos da censura.

Compromete-se o autor, em retribuição desse favor da crítica, a rejeitar de sua obra como erro toda aquela palavra ou frase que se não recomende pela sua utilidade ou beleza, a par da sua afinidade com a língua portuguesa e de sua correspondência com os usos e costumes da atualidade; porque são estas condições que constituem o verdadeiro classicismo, e não o simples fato de achar-se a locução escrita em algum dos velhos autores portugueses.

Quem quer que percorra ligeiramente o dicionário português mais castiço, o de Morais, achará nele cópia de palavras de origem francesa, que se aclimataram bem em nossa língua e passaram à categoria de clássicas, somente pela razão de as reconhecerem necessárias e bonitas os autores quinhentistas. Pois nós os modernos escritores, como eles artistas da palavra e do discurso, não teremos o mesmo direito?
Não há contestar; é o direito da inspiração e do gosto, exerça-se ele sobre a idéias ou sobre a palavra. Ao público cabe a sanção; ele desprezará o autor que abuse da língua e a trucide, como despreza aquele que é arrastado às monstruosidades e aleijões do pensamento. Da mesma forma aplaudirá as ousadias felizes da linguagem, como aplaude as harmonias originais e os arranjos do pincel inspirado.

Na língua portuguesa o escritor de mais fino quilate, o superior Garrett, deu o exemplo dessa independência e espontaneidade da pena. Muitos de seus cometimentos ficaram na língua sancionados pela força e prestígio de seu talento popular. Garrett aplaudido pela sua época é um clássico de tão boa têmpera como os melhores do século XV, e de maior voga por ter florescido em nossos dias.

Cinjo-me a estas poucas páginas para não dar ao pós-escrito as proporções de uma memória ou dissertação, coisas de sua natureza fastidiosas, sobretudo depois da leitura de um romance. Grande prova de paciência já terá dado aquele que até aqui me acompanhou para que por mais tempo não abuse de sua nímia complacência.

Concluindo, chamo sua atenção para a nota junta, em que eu justifico algumas inovações de que me tornei réu, nos dois volumes referidos. Não quero que me sejam elas relevadas a pretexto de erros tipográficos; cometi-as muito intencionalmente.

Rio de Janeiro, 1º de agosto de 1865.

NOTA

1- NÚBIL – É o adjetivo latino nubilis, tão eufônico e elegante como o seu equivalente pubere. Nenhum dicionário do meu conhecimento faz dele menção; mas talvez já fosse alguma vez usado por escritores portugueses.

2 - ESCUMILHAR – Diminutivo do verbo escumar, como o substantivo usado e conhecido escumilha é diminutivo de escuma. Da mesma procedência é fervilhar, de que falaremos adiante.

3 - PUBESCÊNCIA – Do latim pubesco laniginem, emito. Não há outro vocábulo na língua portuguesa para exprimir com tanta elegância e propriedade esse estado da cútis ou da maçã de certos frutos quando se cobrem de uma fina e macia felpa.

4 - EXALE – Hesitei quando a pena escreveu este adjetivo desconhecido na língua portuguesa. Lembrava-me sim das mui judiciosas observações do bom Filinto Elísio a respeito do uso dos adjetivos passivos, que ele tanto preconizou como uma das belezas da língua. Mas os adjetivos passivos de que ele falava vinham do latim em linha reta; e o meu não tinha por si o cunho da mestria romana. Refletindo mudei de pensar e arrisquei-me.

Assim como os bons clássicos latinos fizeram de infestatus, proecipitatus, exanimatus, occultatus, etc., os passivos irregulares infestus, proeceps, exanimis, occultus, podiam muito bem ter feito de exhalatus, exhalis. Esqueceram-se; nem era possível que de tudo se lembrassem. Convinha suprir a lacuna, tanto mais quanto exale é irmão de extreme, entregue, e outros que não descendem do latim. Em conclusão, o vocabulário aí fica registrado. Os que, como eu, têm o vício de esperdiçarem seu tempo e saúde a rabiscar papel, muitas vez terão sentido a monotonia das desinências uniformes dos particípios passados dos verbos, especialmente da primeira conjugação. Esses, espero, serão indulgentes para o meu objetivo.

5 - PALEJAR – Escrevi este verbo persuadido que andava ele inserido nos dicionários, e fiquei surpreso de não o encontrar aí, porque nenhum é mais do que ele necessário e genuíno na língua.

Talvez se lembre alguém de opor-me o verbo empalidecer, de igual origem, e já sancionado pelo costume; mas esse verbo está bem longe de exprimir a idéia do outro que eu introduzi, se é que antes de mim alguém já não fez este benefício.

Muitas são as desinências verbais da língua portuguesa, por meio das quais variamos o sentido do vocábulo primitivo, e exprimimos as diversas modificações de uma ação. A desinência escer, de esco, que a língua latina adotou do grego, forma os verbos chamados incoativos. Esco em grego tem a significação de crescer; junto a um nome ou verbo, indica uma ação contínua, mas lenta e gradual da idéia anterior. Assim alvorecer é o progresso que faz o alvor no oriente; embevecer o ato de ir bebendo aos poucos.

Ora, no período a que me refiro, página 45, não era minha intenção dizer que as luzes da sala iam a pouco e pouco tornando pálida a fronte da donzela; mas sim que lançavam-lhe reflexos ou ondulações que a faziam pálida. A idéia é muito diversa; em vez de ação contínua, lenta e progressiva, eu quis exprimir uma ação intermitente, rápida e igual. A desinência escer não servia para o caso; era mister recorrer a outra.

Essa devia ser a desinência ejar, derivada do latim ago, e muito usual em português. Ago, fazer, obrar, dá logo a idéia de iniciativa e poder criador; comunica ao nome ou verbo a força de produzir de si mesmo a idéia exprimida. Assim almejar é a alma que sai de si mesma excitada por um desejo; arquejar, a arca do peito que sai da sua posição natural; forcejar, a força emitida dos músculos; vicejar, o viço que se expande.

A desinência ago por isso mesmo que comunica o poder criador, a força ativa à palavra a que se junta, indica a persistência da idéia ou da ação; e por isso os gramáticos chamam os verbos dessa terminação freqüentativos. Assim arejar significa uma produção repetida do ar, murmurejar um murmurar amiudado, etc.

Palejar portanto é o verbo que servia ao meu pensamento; a palidez que as luzes lançavam de si obre a fronte da donzela, palidez que devia ser rápida, trêmula e intermitente como a oscilação da chama; todas estas circunstâncias aí estão no vocábulo.

Quanto à sua genealogia, talvez haja quem o preferisse derivado do adjetivo pálido, como empalidecer; entendi eu que o extraía bem do verbo palleo, donde saiu o adjetivo pallidus, e o verbo pallesco. E por que havia eu de fazer o meu verbo neto do verbo radical quando o podia fazer filho?
6 - ROFADO – Não sei por que não mencionam os dicionários o verbo rofar, do latim rufo, quando dão os nomes respectivos, rofo, prega, e rofo, rugado. Esse verbo foi admitido no composto arrufar com uma ortografia mais semelhante à etimologia. Prefiro rofar, para distinguir de rufar, tocar ruflas no tambor.

7 - GÁRCEO – Não é o adjetivo garço ou zarco, que significa azul esbranquiçado; mas o derivado de garça, como róseo foi derivado de rosa.

8 - GARRULAR – Da propriedade que tem nossa língua de criar novos verbos já falou com muito critério o autor do Gênio da língua portuguesa. Facilmente se adapta uma desinência verbal a qualquer nome, verbo. É o que se fez ao adjetivo gárrulo, criando-se assim o verbo para suprir a falta que nos faz o radical latino garrio, que bem se podia traduzir garrir.

De resto garrular tem procedência igual à de escapulir, que provém de escapulo em primeiro grau e de escapar em segundo.

9 - OLÍMPIO, do latim olympius, a, um.

Para que esta novidade? Não temos já olímpico?... que?...

Temos, sim; mas agora mesmo acabo eu de sentir quanto são incômodas e vexatórias para o escritor consciencioso essas palavras terminadas em sílabas ásperas, especialmente com o emprego freqüente do relativo que. A harmonia é uma das primeiras belezas da língua. Para mim ela vale mais do que todos os escrúpulos clássicos; desde que na língua mãe se deriva um adjetivo irmão que exprime a mesma idéia com mais eufonia, havia eu de rejeitá-lo por cortesia a uma só letra, e uma letra rude e áspera, especialmente nas palavras esdrúxulas?
10 - ELANCE – É bem possível que algum leitor enxergasse nessa palavra uma tradução ridícula e extravagante do vocábulo francês élan, e se horrorizasse do galicismo.

Mas espero que repare tal injustiça cometida contra o inocente autor.

A língua latina tem a palavra lancea, lança, da qual derivaram as seguintes: lanceo, meter a lança; lancisco, ferir com a lança.

Passaram essas palavras com pequena modificação para a língua portuguesa, a qual, pela propriedade que tem de criar substantivos verbais, de lançar tirou logo lançamento, como de defender, mover, conceber, aparecer, derivou defendimento, movimento,, concebimento, aparecimento, e muitos outros desconhecidos no latim.

Outra propriedade preciosa da nossa língua é comunicar ao nome a idéia de atividade ou passividade da ação verbal por meio de certas desinências em que ela é muito rica. Assim essa desinência em ento, talvez corrupção do gerúndio latino agendus, exprime um movimento sucessivo, ainda não acabado. Exemplo: revolvimento. A desinência em ão, de actio, indica o movimento rápido e consumado. Exemplo: revolução. A essas duas desinências ativas correspondem outras duas passivas, em ado ou ada, ido ou ida, de actus, que significa o objeto que já sofreu o movimento do verbo. Exemplo: mandado. A outra é uma desinência irregular, ou antes não é desinência, mas ausência dela, e contração dos nomes em ento para designar o movimento passivo, ou o efeito do anterior movimento, como mando, que é o efeito de mandar.
Sobre estas desinências pode-se ver a obra já citada, Gênio da língua portuguesa, a qual contudo não é completa.

Nada mais natural, em vista do expendido, que a língua portuguesa tendo criado o nome verbal lançamento o apassivasse por contração e fizesse lance para exprimir o efeito do movimento do verbo, como o outro exprimia esse mesmo movimento continuado. Igual operação ideológica houve na palavra realce, engaste, encaixe, disfarce, transe, contração de realçamento, engastamento, encaixamento, disfarçamento e transimento. Nenhum desses nomes contraídos e passivos tem equivalentes no latim.

Tal é a verdadeira etimologia da palavra portuguesa lance; e não a que dá Morais, derivando-a do francês élan, ou a que procurou Constâncio arbitrariamente e conforme seu costume na palavra grega laxis. Que necessidade tinha a língua de socorrer-se de elemento estranho, quando em si própria tinha o necessário para dar raiz lancea tirar por gradações o vocábulo lance?
Ao passo que em português a radical era assim desenvolvida, no francês produzia o verbo lancer, o nome lancement, e segundo pretende Bescherelle e os melhores dicionários esse outro nome composto élan e seus derivados élancer, etc. Quanto a mim, élan parece antes uma corrupção por transposição de an-helus; a sua significação de ímpeto ou salto arrebatado é figurada e não primitiva.

Como quer que for, tenham os franceses feito o seu vocábulo élan ou lancea ou de anhelus, como nós fizemos o nosso de lance, não podemos nós os portugueses explorar mais essa fonte para dela haurir as riquezas que existam sem incorrer em crime de galicismo? Porque os franceses compuseram a raiz, e criaram élan, élancer, élancement, não é permitido ao escritor português usar de igual direito e prerrogativa?
Quando de lance fizeram os bons autores relance, relancear, juntando o prefixo que indica repetição, concederam autoridade para todos aqueles compostos que forem necessários e harmoniosos. Elance está nesse caso; ele é parente próximo e eflúvio, efeito, efúgio, efusão, elisão, emanação, e tantos outros formados da preposição e ou ex que exprime a emissão ou produção externa da ação.

11- RUTILO – De restilar, brilhar, trilar, fizeram restilo, brilho e trilo; de cintilar, cintila ou centelha. Por que razão o verbo rutilar, um dos mais belos da língua portuguesa, não havia de ter um só nome substantivo, quando outros têm-os os três e quatro? Nada de privilégios, nem mesmo para os vocábulos; igualdade perante a língua, como perante a lei.

12- ROÇAGAR – Este verbo, se não me engano, já foi usado; eu mesmo o escrevi freqüentes vezes sem investigar dos seus títulos e diplomas. De feito, sendo o particípio presente roçagante consagrado, parece que não pode ele existir sem o verbo, cujo é. Constâncio diz, é verdade, que deriva roçagante de roçar; mas creio que não obstante seus devaneios em matéria de etimologia, não pretendeu ele que fosse o particípio daquele verbo.

Aqui aparece a desinência ejar de que falamos em outra nota, mais aproximada da radical ago. Essa desinência, como foi dito, comunica ao verbo a idéia de iniciativa e atividade; e por dedução a idéia de freqüência e repetição. Roçagar é pois uma variante de rocegar ou rossejar; variante de grande estimação pela beleza e harmonia. Sua verdadeira significação deve ser a seguinte: produzir roçamento freqüente e repetido.

Daí veio chamar-se roçagante a roupa talar e ampla, não somente porque arrasta no chão, como dizem Morais e Constâncio, mas porque suas muitas dobras tocando-se de leve umas às outras produzem um roçamento repetido, rossejam. Na significação usual foi usada a palavra neste volume da Diva, página 171; porém afastei-me dela em Lucíola, página 195: "Avistando-me, roçagou o véu, e disse com um triste sorriso, etc."
Como se vê da frase, não se tratava de objeto que arrastasse no chão, e que por conseguinte tirasse daí a significação atribuída ao vocábulo; mas era alguma coisa flutuante, cheia de rugas e pregas, como são os véus; o movimento da pessoa que o quisesse colher, para descobrir o rosto, havia por força produzir o contínuo e repetido roçamento.

O verbo arregaçar não exprime tanto nem tão bem; é mais do que colher e seus compostos, pois é colher fazendo seio ou regaço; mas não dá a idéia de ondulação contínua, e nem a da rejeição do véu por sobre a cabeça. Arregaçar o véu é levantá-lo apenas; roçagaré atirá-lo para as espáduas. Em idêntica significação o empreguei à página 22, "...enquanto a mão ligeira roçagava os amplos folhos da seda que rugia arrastando." Traduza-se: enquanto a mão ligeira rejeitava fazendo roçar uns nos outros repetidas vezes os amplos folhos, etc."
13 - FRONDES – A palavra latina frons, ondis, que significa propriamente a folha superior e recente, o renovo-gérmen, arborum, hervarum et florum. Introduzida na linguagem científica por Lineu, foi logo adotada, como merecia, pela linguagem literária e artística, onde ela vem aumentar a família de vocábulos que receberam do latim os nossos clássicos frondear, frondejar, frondente, frondoso, frondífero, etc.

Para exprimir os renovos das palmeiras ela é sobretudo de grande beleza, porque acrescenta a idéia de elevação.

14 - AFLAR – A virtude ou vício desse vocábulo me deve ser imputado, porque fui eu o primeiro que o transportei para a nossa língua ex auctoritate qua scribo.
Afflo vel adflo, ad aliquid spiro, vel flatu contingo, composto de ad, para, e flo, soprar. Se acharem na língua portuguesa um verbo que exprima ao mesmo tempo, com tanta propriedade, elegância e beleza imitativa, o movimento produzido pelo bafejo da aragem sobre as folhas, ou a ondulação de certos objetos que agitam o ar, como o leque, os folhos de um vestido, etc., eu confessarei que cometi uma superfluidade emprestando do latim essa palavra nova.

Mas duvido que achem termo nessas condições. Eu conheço soprar, arejar, bafejar, arar, espirar e seus compostos, ventilar, e talvez outros que me não recordem agora. Nenhum deles satisfaz: soprar, arejar, ventar e ventilar têm a significação genérica de emitir sopro, ar ou vento; bafejar é o ar ligeiro que expelimos pela boca, ou figuradamente o que se lhe assemelha pela brandura e tepidez; espirar, respirar, suspirar significam várias modificações no movimento do ar vital; arfar exprime a ondulação produzida pelo ar interior.

Aflar porém reúne a significação de muito desses verbos. Ele indica a emissão do ar, acrescentando a idéia de um lugar para, ad. Afla a brisa, sopra para, dirige-se a outro lugar. Indica também, como arfar, uma ondulação produzida pelo ar, mas não é de expansão, e sim de deslocação. O seio arfa porque se intumesce de ar; a palma afla porque o sopro intermitente a embalança.

A grande beleza porém do vocábulo está na onomatopéia; afla é o som harmonioso de certos movimentos que o verbo seja chamado a exprimir: afla um mimoso leque meneado lentamente, um vestido de chamalote com a ondulação do andar gracioso, uma bandeira agitada pela brisa, etc.

15- RUBESCÊNCIA – Já se tratou da desinência verbal escer, que designa continuação gradual, progressiva e lenta. A essa desinência verbal corresponde a dos substantivos derivados encia, que exprimem a mesma idéia.

A língua portuguesa foi parca em seu empréstimo da latina quanto à família deste vocábulo; apenas tomou o substantivo rubor, o adjetivo rúbido, e o verbo composto enrubescer; desprezou o verbo rubir, de rubeo, ser vermelho, o substantivo rubidino, is, rubidez, que outros adotaram quando sentiram a necessidade, e com tão bom direito como foram adotados languir e languidez.

Eu limitei-me a adotar o verbo simples rubescer e seu substantivo rubescência, porque careci dele para exprimir a minha idéia. Rubor exprime o efeito da ação verbal rubeo. O outro derivado, rubidez, se fosse admitido, exprimiria um estado ou qualidade, conforme a ação. Rubescência porém indica a gradação da cor que se vai acendendo nas faces até chegar a ser rubor.

16- FERVILHAR – É palavra conhecida e usada; é o diminutivo de ferver. Essa propriedade de diminuir a significação dos verbos, como de a aumentar pela desinência, é outro privilégio da língua portuguesa.

FIM

Fonte: www.biblio.com.br

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