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Encarnação

José de Alencar

CAPÍTULO 18

Entrando no toucador de Julieta, escassamente alumiado pela claridade que filtrava entre as lâminas das rótulas, Amália tinha visto, ali sentada junto à mesa de charão, tal como lhe aparecera três meses antes a desconhecida.

Fora o abalo dessa visão que lhe causara a vertigem. Tomando a si, ainda a viu no mesmo lugar, impassível. Encheu-se de indignação e adiantou-se para expulsar de sua casa aquela indigna.

Apesar do estrépito dos móveis arrastados, a desconhecida permanecia imóvel.

Amália travou-lhe do pulso, e achou-o gelado. Era então um cadáver que tinha diante dos olhos? Não; apesar do horror que a invadiu, pôde afina conhecer a verdade.

Era uma figura de cera.

Atônita com esta descoberta, a moça lembrou-se da vez que avistara a desconhecida recostada no sofá; e correndo ao quarto de dormir lá encontrou-a no mesmo lugar, coberta com um véu de seda.

Era outra figura de cera representando a mesma mulher com a única diferença da posição. Não podendo imprimir movimento à estátua, o artista o tinha suprido com a mudança da atitude e do gesto.

Qual era, porém, essa mulher assim reproduzida? Amália não duvidava um instante que fosse Julieta, embora as figuras não no espírito a lembrança vaga que tinha da primeira esposa de Hermano.

Mas o retrato de Julieta ali estava, suspenso à parede do toucador, em um grande quadro a óleo, que representava a moca em corpo inteiro. Pela data via-se que fora tirado um ano depois de seu casamento.

Entre a estátua e o retrato havia muita afinidade de expressão; mas nos traços e contornos das feições, a diferença era sensível. Poderiam ser duas irmãs; não eram, porém, a mesma pessoa.

Hermano amara então outra mulher depois de Julieta? Amália repelia essa conjetura, que repugnava com o culto do mando pela esposa a quem primeiro se ligara.

A caixa de carvalho com preparos de flores artificiais, tinha embutido na tampa o nome de Julieta. O lenço e as roupas das figuras de cera estavam marcadas com três iniciais J. S. A.; e da mesma forma o livro que Hermano lia à noite, um volume de Spirite de Teófilo Gautier.

A perturbação que a descoberta de tais particularidades lançou no espírito de Amália, cresceu com a leitura salteada de alguns trechos daquela obra fantástica. Uma luz sinistra, como a do relâmpago, feriu o seu pensamento; compreendia enfim!

O amor de Hermano era uma demência. Não fora uma mulher que ele havia adorado, e adorava ainda; mas um fantasma, um ente de sua imaginação. Esse ideal, ele tinha encarnado em Julieta, desde o primeiro momento em que a vira.

Por que misteriosa relação se havia operado essa transfusão, ninguém o poderia explicar, senão por uma afinidade moral.

Morta Julieta, o ideal se tornara outra vez fantasia ou sonho, até que pela mesma ignora afinidade se encarnara de novo na imagem de painel do Veroneso, Ester ou Suzana, como dissera o Teixeira, referindo a visita ao Louvre.

Estas figuras, pensava Amália, são a cópia daquela imagem, a que Hermano dera o nome de Julieta por ser o da primeira encarnação viva de seu ideal. Mas elas não tinham nada de comum com a morta senão essa misteriosa relação, que transparecia em uns longes da fisionomia .

Julieta não era formosa; e toda a sua graça estava unicamente na expressão. A mulher reproduzida em cera era uma beleza estatuária que ofuscava inteiramente o retrato. Como pois tinha Hermano identificado essas duas imagens tão diversas?

Este fenômeno só podia explicar-se por um modo. Hermano não idolatrava a forma, embora a admirasse quando ela realizava a sua imaginação . O que ele amava era uma larva, um espírito, um duende de beleza imaterial, que transportara a princípio para uma mulher, depois para urna imagem e afinal para uma estátua.

Estes pensamentos trabalhavam na mente de Amália, quando recolhida a seu toucador, e atirada em uma poltrona baixa, ela cogitava sobre a cruel revelação que se fizera em sua consciência.

-Achou em mim alguma coisa que recordou Julieta ou antes seu ideal. Foi minha voz cantando a ária da Lucia que o atraiu; mas falta-me esse encanto, essa fascinação misteriosa que um momento supôs encontrar.

Lançando um olhar ao espelho, onde se refletiam as suas formas esplêndidas, ela suspirou:

- De que vale minha beleza? Ele não a vê, não a percebe. Julieta não era bonita: seu retrato está muito parecido; agora recordo-me bem dela, de quando passeava no jardim. Entretanto ele a amou. Eu podia ser feia e muito feia; que também me amaria se eu fosse a mulher que ele criou sua imaginação.

Mas por que não seda ela sua mulher?

Seu amor cheio de abnegação inspirou-lhe então uma resolução generosa. Sua existência, que já não tinha sedução nem fim ela a dedicada à felicidade do homem a quem amava. Adivinhara o segredo dessa criação ideal da mente enferma de Hermano, e a realizaria em si.

Deus lhe daria forças para operar essa nova encarnação. Dominando então o espírito do mando, o restituiria à razão, ao mundo, ao verdadeiro amor; e seriam felizes.

Para isso era preciso, ela bem o compreendia, fazer um sacrifício de sua personalidade; sacrifício doloroso para as almas superiores, que têm uma individualidade, e que não podem a exemplo das outras almas de estalão, despir o seu eu, e receber como a cera o molde da vulgaridade.

Ser outro, negar-se a si mesmo, suprimir-se moralmente, não se pode imaginar mais terrível suplício para uma consciência altiva; e foi a este que Amália se condenou no intento de salvar o marido ou perder-se com ele.

Decerto, naquela moça travessa, risonha, incrédula e leviana, que antes enchia de sua alegria as salas e os divertimentos, ninguém pensara encontrar um ano depois a mulher dominada pela paixão mais sublime, e capaz de um heroísmo de amor raro na vida ordinária.

Semelhante aberração não era senão aparente. Ai nesse contraste manifestava-se o efeito de uma evolução psicológica muito natural. A insensibilidade de Amália fora apenas a infância prolongada de uma alma extremosa que só muito tarde conheceu a paixão.

Em vez de gastar-se nos ensaios precoces de amor, com que as meninas antecipam a adolescência, exaltando os perfumes de sua flor, Amália preservara o coração dessa babugem e quando amou foi com todas as energias e arrojos da mulher.

Este romance de Amália, a incompreensível encarnação do delírio de um cérebro enfermo, essa admirável intuição, é que me propus contar; e agora sinto que não o conseguirei.

Como descrever a paciente eliminação de uma ama a despojar-se de sua individualidade para infundir em si o ser imaginário, filho de uma alucinação?

Hermano voltara da cidade. Encontrando-se com ele à hora do jantar, Amália notou a sua expressão esquiva e o olhar suspeitoso que lhe perscrutava a fisionomia. O Abreu sem dúvida contara que ela estivera no gabinete; e o marido receava-se dos efeitos dessa investigação.

O modo expansivo e natural com que o tratou a mulher, foi dissipando as suspeitas de Hermano, que por vezes mostrou um contentamento sincero.

Quando se levantaram da mesa, Amália, disse ao marido com meiguice:

- Eu tinha tanta vontade de conhecer Julieta!

Hermano disfarçou por delicadeza; mas insistindo a mulher e reiterando perguntas sobre as feições de Julieta, ele foi ao gabinete donde voltou com uma fotografia colorida. Era a mesma imagem do retrato a óleo.

- Como é bonita! exclamou Amália com um entusiasmo que o seu amor a obrigava a simular.

- Isso é apenas a sombra de sua beleza. Falta-lhe o olhar, o gesto, a voz.

- De que cor eram os olhos? - A cor... Não sei: mas o olhar ainda o sinto: era como o seu agora, Amália.

A moça corou e as pálpebras rosadas vendaram os seus belos olhos cheios de luz

Continuaram a conversar acerca de Julieta

Mais tarde Hermano ficou distraído, absorto. Amália sabia agora o motivo Eram os sintomas da alucinação que, em certa horas e ocasiões, desvairava o espírito do marido

A moça foi sentar-se ao piano e abriu a ária do Fausto. Hermano lhe dissera um momento antes que era uma das peças favoritas de Julieta.

Ela cantou: e o marido que já se tinha retirado, veio sentar-se outra vez a seu lado, e ficou ali preso a sua voz.

À última nota ele estremeceu e partiu. Esse canto era de Julieta que o chamava.

CAPÍTULO 19

Cala a tarde

Amália e Hermano sentados no jardim, contemplavam em silêncio as esplêndidas decorações, que os arrebóis desfraldavam no horizonte sobre as encostas da montanha.

A moça afinal curvou a fronte e cerrando a meio os cílios para concentrar-se disse ao marido:

- Ainda havia neste mundo uma felicidade para mim, Hermano: e essa não lhe custaria o menor sacrifício.

O olhar do mando interrogou-a: ela respondeu com a voz súplice;

- Não me pode dar o seu amor; bem o sei, e não o exijo; mas a sua amizade, sua confiança, por que motivo a recusa a quem não tem outro pensamento senão a sua felicidade? Não lhe mereço nem esta prova de estima?

Hermano quis interrompê-la: ela não consentiu:

- Não poderíamos viver como dois irmãos que se querem, e se amparam mutuamente nas suas tristezas e infortúnios? Por que há de ter segredos para mim que nada lhe oculto do que se passa em minha alma? Cuida que tenho ciúmes de Julieta? Engana-se.

Vendo pintar-se a dúvida no semblante do marido, Amália apressou-se em desvanecê-la:

- Quer uma prova? Estive ontem no toucador de Julieta e entretanto, quando voltou da cidade, ainda achou-me nesta casa, onde me conservo. Se eu não o amasse e a ela também, com amor de irmã, sofreria essa preferência, que era uma humilhação cruel para a esposa?

Desde esse momento, Hermano não teve mais segredos para Amália; e esta, durante as suas longas confidências pôde ler nas recordações do marido como nas páginas de um livro inédito, toda a história do homem a quem se unira.

Hermano contou-lhe uma e muitas vezes as menores circunstâncias de sua vida com Julieta. As impressões nessa alma opulenta eram profundas. A efígie da mulher amada ficara ali fundida como uma estátua ideal.

Amália passava as horas nos aposentos, que tinham pertencido, e ainda pertenciam, à sua rival. Ali coligia todos os traços, todos os vestígios, deixados pela pessoa que os habitara e com esses indícios esforçava-se em recompor a mulher que ela não conhecera, e que mal vira de longe com olhos de criança.

Ao cabo de uma semana, sabia os gostos de Julieta, os seus perfumes prediletos, os moldes de que ela mais gostava, as cores de seu agrado, as músicas favoritas; todas essas simpatias que formam a originalidade de um caráter.

Amália tinha o mesmo corpo de Julieta com alguma diferença das formas que nela eram mais ricas e harmoniosas. Vencendo a repugnância que a principio sentira, a moca chegou a trajar-se completamente com as roupas e enfeites da morta.

Pensava acaso que esses objetos lhe transmitiriam pelo contato alguma coisa da pessoa a quem haviam servido? Ou buscava apenas criar uma semelhança que favorecesse a ilusão de Hermano?

Ela própria não sabia que tenção era a sua. Não calculava: cedia à influência de um desejo intenso. Queria ser a mulher que Hermano amava, como Julieta fora antes dela.

Nos livros que achou na pequena estante do toucador, também Amália colheu muitas idéias, de que se apropriou para imitar o misticismo do original que ela se propunha copiar.

Um dia disse a Hermano:

- Eu acredito que Julieta me quer bem. Quando estou aqui, no seu quarto, tenho um contentamento, como se estivesse em sua companhia. Às vezes parece que ela me abraça.

Outro dia, no meio de uns idealismos romanescos, teve esta inspiração:

- O amor uniu a alma de Julieta à sua, Hermano. Por que não poderá unir da mesma forma a alma dela à minha, que também o ama?

A transformação de Amália já era tão perfeita, que enganava Hermano e até o Abreu, sobretudo quando ela disfarçava com uma renda preta os seus lindos cabelos louros, ou mesmo tingia com algum cosmético.

O velho criado habituou-se a ver nela a imagem de Julieta, e desde então envolveu-a na afeição que votara à sua filha de criação. Estimou-a, como se estima um retrato de pessoa a quem se quer

Quanto a Hermano, tinha momentos de completa ilusão, em que supunha se transportado aos tempos de seu primeiro casamento. Apagava-se então de sua memória todo o tempo que vivera depois da morte de Julieta e ele era feliz como se ainda tivesse a seu lado a mulher a quem amava.

De repente, porém, uma circunstância qualquer um incidente mínimo, que Amália não percebia, talvez um volver dos olhos, uma inflexão de gesto, o contato das mãos, rompia o encanto; e ele recuava como o homem que vê abrir-se por diante um abismo.

Fugia então; e ia abrigar-se daquela sedução no quarto de Julieta perto da estátua, que para ele representava o despojo material da alma de sua primeira mulher.

Amália recomeçava então com a mesma energia e perseverança aquela indução paciente, que terminava em decepção. Crescia-lhe a esperança, porque a sua fascinação aumentava a cada instante ela não podia duvidar. Hermano resistia ainda mas chegaria o momento, em que se deixaria vencer, e então ele lhe pertenceria e seriam felizes.

Se adivinhasse o efeito que essa luta produzia no ânimo do marido, e o extremo a que o arrastava, ela decerto a abandonaria, cheia de horror.

Com efeito Hermano, quando libertava-se da fascinação que Amália exercia sobre ele, enchia-se de pavor pelo perigo que o ameaçara. Estivera a ponto de cometer esse crime que era para ele o mais indigno por ser o roubo da honra e da vida.

Via-se já réu de um adultério infame!

Ter enganado a moça a quem se unira em segundas núpcias sacrificando a sua felicidade, que ele não podia dar-lhe, era já uma vilania de que se envergonhava, e da qual decidira resgatar-se com a morte. Que nome teria essa indignidade, se a agravasse com a mácula da virgem pura e ingênua que se confiava de sua lealdade?

Era preciso, ele o senha, pôr um termo a esta situação, e salvar-se de um perjúrio atroz que o condenaria à eterna separação de Julieta. Mas tinha de esperar não podia dispor de sua vida antes de oito dias.

Quanto lhe custou a passar esta ultima semana!

Na ocasião em que cegamente apaixonado por Amália, decidiu pedi-la em casamento, Hermano refletiu sobre o destino que devia dar às relíquias da primeira mulher. Não podia guardá-las como tinha feito até ali, porque seria isto uma infidelidade à esposa atual: não se animava, porém, a abandonar e como que expelir de si essas imagens e objetos, tão impregnados de sua vida, que faziam parte dela. Seria mutilar-se moralmente.

Tomou uma resolução que pudesse conciliar tais escrúpulos Reuniu naqueles dois aposentos de Julieta tudo que lhe pertencera e fechou-os como se fossem a sepultura onde jazia a alma da primeira mulher. Quanto à outra sepultura, onde jaziam as cinzas, dessa não se lembrava, nem a conhecia: era um pouco de pó.

Depois, quando na própria noite do casamento o indefinível terror de um adultério fantástico apoderou-se de seu espírito enfermo, ele refugiou-se nos aposentos de Julieta, encerrou-se ali naquele túmulo, onde encontrava o sossego e a ressurreição do passado.

Agora, porém, já não tinha esse refúgio já não podia transpor os umbrais da eternidade para encontrar-se com Julieta e amá-la. Até ali, nesse mesmo santuário, onde guardara todas as relíquias da morta, até ali o perseguia a formosa imagem de Amália.

Sentia a tépida fragrância que a moça deixara na sua passagem, e que derramava um sopro de vida nesses objetos frios e abandonados. O toque de outras mãos animara aquela solidão e as mesmas estátuas de cera pareciam influir-se de outra alma mais ardente, mais apaixonada do que a de Julieta

Assim, quando Hermano corria a abrigar-se ai da sedução de uma Amália parecida com Julieta, ele já não encontrava a mulher de outros tempos, mas sim uma nova Julieta semelhante a Amália e mais formosa que a primeira

Quantas vezes não voltou buscando essa visão encantadora! Mas já não a via; Amália tinha-se feito Julieta aquela esplêndida beleza de outrora se eclipsara.

Se em um desses momentos, a formosa criatura se mostrasse qual era, em seu fulgor, Hermano teria sucumbido: e talvez aquela insana obsessão que o afligia se dissipasse para sempre.

Mas a coincidência não se deu; e afinal chegou a época em que Hermano julgou-se livre de dispor de sua vida. Só faltava a ocasião esta não tardou.

Havia um baile no dia seguinte. Amália a princípio repugnou ir, por fim cedeu às instâncias do marido. Seu traje era copiado de um que achara no guarda-roupa de Julieta, um vestido de tule com sombra e laivos escarlatres.

Estava encantadora, mas sentia-se inquieta e nervosa. Durante a dança não tirava os olhos de Hermano, e a cada instante chamava-o para perto de si.

De repente perdeu-o de vista. Acabada a quadrilha, ansiosa perguntou por ele a D. Felícia.

- Ah!... Esqueceu a carteira e um amigo convidou-o a jogar. Foi a casa não tarda. Pediu-me que te prevenisse.

D. Felícia voltando à conversa que interrompera para dizer rapidamente estas palavras, não viu a palidez da filha.

Amália dominou o tenor que a invadira, dirigiu-se ao toucador, envolveu-se na capa e desceu as escadas apressadamente. No patamar encontrou o lacaio e mandou chegar o carro.

- Para casa! Depressa!... disse abrando-se sobre as almofadas do cupê.

Depois, enquanto os cavalos trotavam pela calçada da Glória, ela travando as mãos convulsivamente, murmurava:

- Chegarei a tempo, meu Deus?

CAPÍTULO 20

Amália tinha razão de assustar-se.

Hermano deixara o baile, decidido a realizar a sua idéia fatal. Contava que o pretexto do esquecimento da carteira lhe daria uma hora de liberdade, e tanto bastava para consumar o plano medonho que havia concebido.

Ele prometera à mulher e a si mesmo jurara, dar à sua morte aparências de acidente, de desastre casual. Escolhera o incêndio. Sempre fora sectário da cremação. O corpo abandonado da alma era para ele matéria em corrupção: o fogo a purificava e consumindo imediatamente a forma humana, evitava a sua profanação, pois outro nome não têm certas cerimônias fúnebres

Mas o seguro de sua casa não estava findo; e a consciência não lhe permitia fraudar os seguradores com a indenização que teriam de pagar a seus herdeiros pelo dano do incêndio Por isso foi obrigado a adiar o seu projeto. O termo da apólice tinha expirado na véspera estava livre enfim.

Ao sair do baile, tomou um tílburi que o levou a casa. O portão estava cerrado apenas, e o Abreu, que fumava sentado na escada, veio ao seu encontro, admirado de não ver a senhora.

- Esqueci a minha carteira e vim buscá-la para pagar uma dívida de jogo mas sinto-me tão fatigado que não tenho ânimo de voltar ao baile vou escrever um bilhete à senhora.

Deste modo afastou o velho criado cuja vigilância temia que pudesse frustrar o plano. No bilhete que por ele enviara à mulher, depois de escusar-se de ter saído do baile e de não ir buscá-la, rematava com estas palavras.

"Agora, Amália, é que eu conheço quanto a amo: pois esta curta ausência de alguns instantes parece-me uma separação eterna."

Ficando só Hermano trancou-se no toucador de Julieta. Depois de fechar as portas e janelas, abriu os bicos de gás, e sentou-se em face da figura de cera. O aposento era apenas esclarecido pela vela do castiçal colocado sobre a mesa.

Acreditava aquele visionário que era bastante a vontade de reunir-se a Julieta para que sua alma deixasse este mundo e se restituísse à sua metade. Nessa convicção, havia jurado a Amália não matar-se; e tinha consciência de respeitar o seu juramento.

Quando o gás que se exalava dos bicos abertos, se fosse condensando no aposento quase hermeticamente fechado, e afinal se inflamasse à luz da vela produzindo uma explosão, o incêndio o acharia morto já, e não serviria senão para destruir o seu despojo e as relíquias de Julieta, que não devia abandonar à alheia profanação.

Ele e tudo quanto amara não seriam mais do que cinzas, dispersas pelo vento; e no dia seguinte ninguém suspeitaria da verdade. Um incêndio é fato comezinho e tão freqüente!

Em cima da mesa estava uma fotografia em ponto grande, cuja moldura inclinada em estante mostrava um lindo retrato. Amália o havia tirado poucos dias antes; e naquela tarde, aproveitando-se de uma ausência do marido, o colocara ali para fazer-lhe uma surpresa.

Esse retrato não era a imagem fiel da beleza radiante de Amália, mas a cópia da transformação que sofrera a moça depois de seu casamento, e especialmente nos últimos dias. Assim como o louro brilhante de seus cabelos se ofuscara na sombra de uma renda preta, também os fulgores dos grandes olhos, e o sorriso cheio de graça, eram amortecidos por uma doce melancolia. Parecia que um véu de timidez apagara-lhe a formosura cintilante.

A luz da vela dava de chapa sobre a fotografia. Hermano olhou e viu pela primeira vez o retrato. Reconheceu o vulto, a atitude, o gesto, as roupas, as jóias e uns matizes indefiníveis que só ele talvez percebesse. Era Julieta: mas através da sombra de Julieta, ao longe, como uma estrela imersa no azul surgia a imagem luminosa de Amália.

Foi então que esse cérebro já tão exaltado precipitou-se na derradeira e mais violenta das alucinações que o tinham abalado. As duas mulheres que Hermano havia amado neste mundo, erguiam-se em sua alma, como duas soberanas em campo de batalha, para disputarem o seu despojo.

Quando já a consciência da realidade o ia abandonando, ouviu rumor na casa e teve um rápido momento lúcido para recear que o viessem perturbar na consumação de sua idéia sinistra. Ergueu-se e saiu fora, lembrando-se de fechar a porta, para que não se escapasse o gás, já condensado no aposento.

Foi mesmo às escuras trancar a comunicação para o fundo da casa onde estavam os criados, e livre do receio, caiu de novo no delírio, que o havia acometido, e no qual se apagaram os últimos lumes da razão.

Nos raptos da imaginação, viu outra vez as duas esposas, a quem havia jurado fidelidade. Às vezes, elas se aproximavam, perto, muito perto, uniam-se estreitamente, e fundiam-se numa só massa vaporosa, donde surgia afinal essa mulher dúplice, essa Julieta-Amália, que estava pintada no retrato.

Pouco depois a imagem da esposa gêmea também por sua vez apagava-se em uma sombra indecisa, da qual se destacavam as duas moças, cada uma no seu tipo distinto. Julieta com a esquisita elegância, que vestia de uma graça divina a sua figura apenas regular e Amália com a deslumbrante beleza, que materializava a sua alma, vazando-a em formas esplêndidas

Em face uma da outra Amália triunfava. Ela era a aurora: e sua rival o crepúsculo suave e encantador. Assim Julieta timidamente, envolta no seu perfume de modéstia, afastava-se: e a sombra gentil e melancólica ia-se desvanecendo até esvair-se no fulgor que derramava a formosura da rival.

Foi então que Hermano sentiu uma dor agudíssima, como se lhe arrancassem vivo o coração. Arrojou-se com todo o ímpeto de seu amor para chamar a esposa, que se separava dele pela eternidade. Era ela a primeira amada, e nesse momento a única. A ela devia pertencer exclusivamente por isso iam unir-se outra vez: a morte que os tinha apartado não tardaria em ligá-los de novo, revertendo-os um ao outro.

- Julieta! exclamou ele em um grito de ânsia.

A esposa o tinha ouvido ali. Ali estava ela a seu lado. A luz desaparecera e os seus raios se haviam transformado em estrelas. Foi ao trêmulo dessa luz celeste que ele divisou a sombra amada. Ela trazia o seu traje favorito de baile, o mesmo com que a viu da primeira vez.

Julieta lhe cingira o colo com o braço e ele sentia o doce contato do talhe gentil na sua espádua e no seu flanco. Depois a voz terna e queixosa da esposa murmurou-lhe ao ouvido como um arpejo:

- Ingrato!...

- Perdão, Julieta, perdão! confesso que Amália me fascinou: mas o que eu amei nela foi unicamente a tua lembrança, a tua alma que às vezes eu ouvia em seus lábios, e via em seus olhos. O que era ela, e só ela, a sua beleza, essa eu a admirava mas enchia-me de terror. Resistia à tentação, refugiando-me em teu amor: e se tu não me amparasses, teria sucumbido! Salvei-me, preservei minha alma e ela está pura como a deixaste, e vai reunir-se à tua pela eternidade. Eis o momento. Recebe-me em teu seio; não me deixes mais um instante neste mundo, pois aqui mesmo, perto de ti, próximo a infundir-me no teu ser, eu a vejo, eu a sinto, a ela, a Amália: e tenho medo que venha arrebatar-me e separar-nos para sempre.

A voz de Julieta murmurava-lhe então ao ouvido:

- Não tenhas este receio, meu Hermano. Queres saber por que tu vês Amália, em mim, em tua Julieta? É porque ela te ama como eu te amei, com igual paixão. Ela e eu não somos senão a mesma e única mulher que tu sonhaste. Podes dar-te a ela: é como se te desses novamente a mim. Vi que estavas triste e só no mundo; que a minha lembrança não te bastava; e então revivi em Amália, transmiti-lhe minha alma para que fosse tua esposa; para que tu me adorasses em uma imagem viva, que te retribuisse, e não em uma estátua de cera.

- Embora; estou cansado de viver; quero reunir-me a ti, em espírito, desprendendo-me dessa materialidade impura, que pode subjugar a alma, e arrastá-la ao crime. Amália é minha esposa perante os homens; e desde que nela está a alma de minha Julieta, ela é também minha esposa perante Deus; poderei pertencer-lhe legitimamente, porque te pertenceria a ti: mas essa poderosa sedução de sua beleza, se eu a sofresse de outra mulher?.. Não passaria de novo pelo martírio que me atormentou?... Melhor é nos reunirmos no céu recolhe a alma que deste a Amália, e leva-nos com ela.

A voz melodiosa suspirou outra vez:

- Queres morrer, meu Hermano? Queres deixar o mundo? Pois bem, dá-me tua alma: deixa-me absorvê-la na minha, e confundi-las que não formem senão uma só. Então abandonaremos a terra e iremos esconder-nos no seio de Deus, que nos criou.

Então Hermano sentiu uns lábios que se embebiam nos seus e hauriam-lhe a vida. Esse beijo ideal foi como a inalação do espírito que animara o seu corpo e que absorvido por Julieta, o desamparou. Desde esse momento ele não foi mais do que uma múmia.

E assim, como um corpo ermo de vontade e pensamento, seguiu Julieta, ou melhor diria, a alma gêmea em que se tinham condensado a sua e a da esposa. Atravessaram uma série de anos eram os de sua existência, cujo curso haviam remontado, e agora de novo repassam. Todas as fases de sua história, ele as reviveu com uma mulher que não era nem Julieta, nem Amália mas as duas vazadas em um só molde.

O passado e o presente se travavam e confundiam. O seu primeiro casamento que fôra de manhã, e o segundo que celebrara à noite as noivas, de tipos diversos; aqueles dois toucadores, um azul e branco, e outro rosa e ouro; todas essas coisas se haviam identificado.

A mulher que ele amara tinha a beleza de Amália e a alma de Julieta. Com essa mulher percorreu toda a sua vida até aquele momento em que resolvera deixar o mundo para consumar o consórcio da eternidade.

Uma nuvem branca e nítida vendava-lhe o céu. Ali estava um objeto cuja forma não distinguia; parecia-lhe o corpo, depurando a alma e preparando-a para a bem-aventurança.

Ele estava só; junto dele não havia outro corpo, mas uma essência divina, em que se imergia; um resplendor que se condensava em formas voluptuosas para envolvê-lo de luz. As chamas dessa luz o abrasavam, mas com uma lava doce e inebriante, que lhe acrisolava o ser. Enfim ele sentiu que sua alma desprendendo-se das cinzas, remontava ao céu.

Nesse momento D. Felícia que voltava do baile com o marido soltou um grito de terror vendo o grande clarão que avermelhava o horizonte.

Um incêndio violento devorava a casa de Hermano.

CAPÍTULO 21

Cinco anos permaneceram em abandono as ruínas da casa incendiada. Um ilhéu que alugara a horta para negócio, tratava da chácara.

Já se tinha desvanecido a lembrança do sinistro, quando uma manhã, cerca de onze horas, parou ao portão uma vitória descoberta, conduzindo pessoas com o aspecto muito conhecido de viajantes que desembarcam.

O assento principal era ocupado por uma senhora de rara formosura, trajada com elegância, e por um homem de parecer distinto, ainda moço apesar dos fios de prata que matizavam os seus cabelos negros.

Em frente a eles ficava uma gentil menina de quatro anos, na qual reproduzia-se como em uma miniatura a beleza da senhora, porém, com certo contraste de fisionomia. Tinha as feições da mãe, os mesmos traços, a mesma expressão; mas os cabelos e os olhos eram castanhos, e não louros.

Um criado velho, que vinha ao lado do cocheiro saltara do carro e abrira o portão, enquanto o cavalheiro apeava-se com a família.

- Espera-nos aqui, Abreu, disse a senhora entregando a filha ao criado, e não deixe Julieta apanhar sol.

Tomando então o braço do marido, seguiu pelo passeio gramado da chácara na direção das ruínas que apareciam por entre as árvores e indicavam o lugar onde fora a casa.

O incêndio desmoronando o teto e consumindo todo o madeiramento, deixara em pé as paredes do edifício de modo que de fora via-se como um esqueleto a antiga habitação com seus aposentos e divisões.

- Lembras-te, Hermano? perguntou a senhora fitando no marido seus grandes olhos cheios de luz.

- De tudo, Amália, respondeu simplesmente o marido.

Como para confirmar a sua asseveração, Hermano começou a recordar as reminiscências dos dias que ali vivera com Amália, apontando os menores incidentes e os lugares da casa em que tinham ocorrido.

Amália respirou do soçobro em que trazia a alma e que debalde tentava abafar. A casa, que a memória de Julieta enchia antigamente, agora não era mais povoada senão de sua lembrança.

Daí passaram à chácara e percorreram os sítios, em que tão viva era para Hermano a presença de sua primeira mulher. Essas recordações primitivas tinham sido apagadas pelas outras recordações mais recentes de seu amor por Amália.

Outrora o passado surgia com tanto vigor na vida desse homem que anulava o presente. Agora era o presente que reagia de modo a substituir-se ao passado. Hermano não se lembrava de ter amado nunca outra mulher senão a sua Amália e identificava tão completamente as duas esposas, que Julieta já não era para ele senão um primeiro nome daquela a quem se unira para sempre.

Afinal sentaram-se para descansar, em um sombrio formado pela copa de uma mangueira frondosa, donde pendiam ramas de maracujá

Hermano recolheu-se, como para penetrar mais profundamente em suas recordações, e murmurou:

- Não me lembro do incêndio!

Amália conchegou se, e apoiando o rosto na espádua do marido começou a sussurrar-lhe ao ouvido, cobrindo a face com a mão para esconder o rubor:

- Tu me deixaste no baile... Eu tive um pressentimento cruel e corri... Felizmente ainda encontrei-te; estavas na sala em pé. Foi talvez o rumor de meus passos que te perturbou. Eu prendi-te nos meus braços com receio que me fugisses. Tu me contaste tudo Querias morrer para não ser infiel a Julieta e tinhas preparado o incêndio que devia consumir o teu corpo, e a imagem daquela que amavas. Eu também devia morrer, e consumir-me contigo. Foi então que nossos lábios se tocaram. Tu me pertencias. e eu salvei-te para o meu amor. Era preciso arrancar-te desta casa; quando partimos, sem que nos vissem deixei nela o incêndio que a devorou Depois partimos para a Europa e...

- E eu renasci para a felicidade, disse Hermano, cingindo a loura cabeça da moça e pousando-lhe um beijo na face.

- Esta manhã, vendo ao longe, de bordo do vapor a praia de Botafogo, tive medo, e por isso trouxe-te aqui apenas desembarcamos. Se estes lugares ainda conservassem para ti alguma sombra do passado, partiríamos hoje mesmo para Montevidéu, para qualquer parte do mundo, onde a tua felicidade não corresse perigo. Mas estou tranqüila, podemos reconstruir a nossa casa e viver aqui, onde nasceu o nosso amor.

- De tudo isto só uma coisa não compreendo, disse Hermano.

- O que? perguntou Amália assustada.

- Fica tranqüila; a alucinação passou; tenho a razão inteiramente livre. O que não compreendo é como sendo tu e Julieta tão diferentes uma da outra, têm aos meus olhos uma semelhança tão grande, que parecem a mesma.

Nesse momento as folhas rumorejaram.

A menina que estava impaciente pela mãe, iludira a vigilância do velho criado e correra para Amália cujo vestido descobrira através da folhagem.

- Olha! disse a moça apresentando ao marido o rostinho gracioso da filha.

- É verdade!

Fonte: www.cce.ufsc.br

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