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O Garatuja

José de Alencar

- O que é, comadre? perguntou-lhe a vizinha do lado.

- O porco sujo que me está fossando na porta, senhora!

- T'arrenego!

- E foi um maldito cigano que o trouxe! Eu bem o vi pelo buraco da rótula quando passou cosido num couro de bode, e então deitava uma catinga de enxofre.

- Que me conta, comadre?

- É como lhe estou dizendo.

- Espere, vizinha, que já lhe levo o meu coto bento de Jesusalém. Se for o cão tinhoso, há de ver como espirra, por mais artes que tenha. Aquilo é uma vela milagrosa!.

Saíram as vizinhas com os maridos, e toda a casta de relíquia e esconjuros, e afinal conheceram que a causa do barulho era um enjeitado, e de gente pobre, pois estava embrulhado em uma esteira velha.

No meio das exclamações de espanto e observações das comadres, ouviu-se um risinho de mofa. Era a vizinha defronte, a Pôncia, uma língua de lanceta, que se divertia cantarolando num falsete de tirar couro e cabelo:

Ele sai pelo quintal,

Porém entra pela rua,

Ora, etcetra e tal;

Tudo o mais é falcatrua!

Seu alferes, al não al.

- Que é isto, vizinha, cantando a esta hora da noite?

- Ai! ai! gente; quem canta, seus males espanta.

- Enredeira do inferno! resmungou a mãe da Rosalinda.

Criou-se o menino; e chegando à idade, o mandaram à escola aprender as humanidades, para depois lhe arranjarem algum modo de vida. O rapaz era esperto; até demais; porém não dava para clérigo, como dizia então o povo, dos que não mostravam aptidão literária.

A razão desse dito é que nesse tempo a instrução no Brasil era um privilégio das ordens regulares, especialmente dos jesuítas. O estudante confundia-se facilmente com o minorista que se preparava para o sacerdócio.

Ivo era assíduo no pátio do colégio, mas no tempo em que devia prestar atenção ao mestre, distraía-se em ver os painéis que pendiam das paredes, e as imagens das capelas. Ficava assim horas e horas com os olhos pregados nessas figuras, como se as quisesse embutir dentro d'alma.

Ao sair da aula, armava-se de um carvão, e lá se ia a despejar pelos muros cio convento caretas e engrimanços de toda a sorte, pelo que estava constantemente a levar carolo do padre-reitor, quando não era a penitência de joelhos ou em cruz, e o jejum a pão e água.

Mas apesar de todo esse rigor, era preciso de tempos em tempos caiar as paredes do dormitório, pois pareciam um pano de rás, com as figuras e novidades de que as enchia o endiabrado rapaz.

Afinal, cansados os padres de aturar aquele eterno pinta-monos, e convencidos de que era um borrador impenitente e relapso, despediram-no do pátio, onde pouco aproveitava, pois além de ler e escrever, o mais que sabia era de outiva, e não passava de uma tintura de cada cousa.

Assim ficou o Ivo senhor de seu tempo, para trocar as pernas pelas ruas de São Sebastião, e riscar toda a parede que lhe caia debaixo do carvão; donde veio chamar-lhe a gente o "Garatuja".

Com isto davam-se a perros os donos das casas, que as tinham de caiar amiúde; mas o povo divertia-se a ver as diabruras do rapaz, como hoje em dia nos pasmatórios da Rua do Ouvidor, aprecia as caricaturas expostas nas vidraças.

Os malignos achavam nos bonecos algumas parecenças com certos grandes da cidade, e descobriam umas alusões aos boatos e mexericos do tempo.

VI

DESACATO QUE COMETEU IVO CONTRA AS REVERENDISSIMAS VENTAS DA COMPANHIA

É para notar que passando a Companhia de Jesus por tio solícita em aproveitar as várias aptidões da infância, cuja instrução tinha a seu carrego, expulsasse o Colégio de seu pátio ao rapaz que tão decidida vocação revelava para a pintura.

Mas esse zelo e perspicácia era estimulado pelo espírito de corporação e interesse no engrandecimento da ordem. Assim nada o excedia quando se tratava de adquirir para o Instituto um engenho superior ou mesmo uma aptidão artística.

Pela mesma razão, se lhes escapava a consciência do menino em quem lobrigavam a centelha do gênio, e pressentiam nele os assomos da independência, seu desvelo era sufocar essa alma na sua nascença, crestá-la como ao botão de flor sem água nem sol. Assim conseguiam muita vez um aleijão moral, que servia para beato, se não dava para mendigo.

O Ivo cedo mostrara a ojeriza que tinha pela roupeta. Desde as primeiras rabiscadelas, não lambuzava uma figura de raposa sem o trajo de rigor. Os padres arrenegavam-se; o rodeiro andava constantemente de brocha em punho para apagar aquelas artes do demo; mas ainda havia esperanças de torcer o pepino.

Até que perdeu o reitor a paciência; e o caso não era para menos.

Havia em São Sebastião uma velha ricaça, chamada D. Ana Carneiro, que morava lá para as bandas da Quitanda do Marisco, quase no canto, onde se levantou mais tarde a Igreja de São Pedro. A Companhia andava desde muito angariando a gorda herança, quando correu na feira a nova de que a velha fizera testamento e deixava todo o possuído a seus colaterais.

Murchos ficaram os padres com o logro; e pode-se bem imaginar a ira fradesca de que foram acometidos, quando ao outro dia lhes veio dar aviso um irmão, dos de capa curta, de que na taipa da descida do Castelo para o lado do Boqueirão da Carioca, havia um rascunho ou grotesco alusivo ao logro.

Era o Ivo que na véspera, por trindades, ao sair do pátio, pusera o caso ao figurado. Primeiro pintara um bicho que se conhecia bem ser um carneiro, a correr com uma velha trepada nas costas, e a cauda a abanar. Atrás, mas logo atrás, enfiava uma pinha de narizes, de vários tamanhos e feitios, todos a farejarem com olfato de perdigueiro o objeto que lhes estava adiante. Cada qual desses vultos era um retrato; não havia mais que uma roupeta e um nariz, porém tal expressão lhe dera em dois riscos o diabrete do rapaz, que ali estava a Companhia em peso representada pela fiel efígie de suas reverendíssimas ventas.

À vista de tamanho desacato dividiram-se os pareceres; chegou-se a falar no Santo Ofício, e na necessidade de relaxar em carne o relapso; também houve quem lembrasse o exorcismo e o cárcere; prevaleceu todavia o alvitre mais prudente de abafar o negócio e evitar o escândalo.

Os jesuítas eram mestres da vida; e ninguém os excedia nessa arte proveitosa de concertar as pancadas, "dando umas em cheio e outras em vão", o que tornou-se hoje em dia a suma da boa política.

No fim de contas, Ivo não passava de um pobre rapaz, que deixado a si, nada valeria, baldo como era de meios, e sem indústria para os haver. A sua birra com os padres não vinha senão de o constrangerem ao estudo, e do receio também de que mais tarde lhe encaixassem a roupeta de noviço. Uma vez sobre si, e desafrontado da suspeita, não se lembraria mais de embirrar com a Companhia.

Por outro lado, desde que perseguissem o estudante com severo castigo, não era provável que lhe acudissem de românia como protetores, os poderosos inimigos do Instituto? E nas mãos desses, não se tornaria o rapaz perigoso instrumento, de cuja obra ali tinham uma tosca amostra? Estas ponderações, fê-las o Padre Francisco Madeira, o professo que mais voz tinha no capítulo, pelo grande fundo de saber, como pelo tento no manejo das temporalidades. Movido por voto de tanto peso, e também pela voga em que andava o rapazola entre o poviléu, adotou o Padre Antônio Forte, reitor do colégio, o alvitre, e com o melhor êxito; pois ninguém aventou a cousa que passou desapercebida.

Ficou Ivo como queria, vivendo à mangalaça pelas ruas de São Sebastião, e nos arrebaldes, que a pouco e pouco se foram transformando em bairros, e estão agora dentro da cidade.

Tinha naquele tempo a capital um pintor de casas, que se não era o único, passava pelo melhor. A ele, ao Sr. Belmiro Crespo, cabe a honra dos boscagem e frescos que talvez ainda se encontram por aí nalgum teto de sobrado ou retábulo de igreja.

Era artífice de consciência; moía as suas tintas como não faria um moleiro ao trigo; concertava-as na palheta com o brio de uma doceira a anaçar gemas de ovos; e de tento na mão, traçava na madeira, na cal ou no pano, as suas figuras, com escrúpulo de copista e paciência de chim.

O Sr. Belmiro Crespo pintava por molde; e nesse gênero era insigne. Mas fora daí, não havia meio de tirar dele, nem sequer uma casa, o abecê da paisagem. Era incapaz de copiar da natureza, ainda com o auxílio do espelho.

O nosso Ivo sentia desde muito uma atração bem natural para a tenda do pintor, e furtava horas ao recreio para as gastar ali, de pé na porta, a ver as grinaldas e passarinhos que o Belmiro transportava dos recortes de papelão para os seus painéis de lona.

Agora, livre do pátio, podia fazer sua assistência na tenda do oficial, e ali com efeito passava o melhor de seu tempo, a ajudar os vários misteres da pintura, no que se foi tornando perito.

O Belmiro, que a princípio o tratava como um pé-rapado, começou a acamaradar-se, logo que lhe descobriu os préstimos; e por fim tão prendado ficou do diacho do rapaz, que o trazia nas palminhas; e muito se rosnou pela vizinhança acerca de um pacto que o pintor havia feito com o diabo, para este lhe servir de aprendiz em paga da alma que lhe vendeu.

Estes cochichos e dizeres vinham de uns segredos que os dois tinham entre si, e das cachas que usavam passando horas e horas trancados, sem dúvida a fazer bruxarias e outras maldades.

Ao mesmo tempo, aparecia grande novidade em São Sebastião. A cansada grinalda e os pássaros com que o Belmiro invariavelmente ornava as paredes e tetos das casas, foram substituídos por festões de flores graciosas, e trechos de boscagens que pareciam copiados das florestas da Carioca e Tijuca.

Dizia o Belmiro, que tardando-lhe os moldes encomendados para Lisboa, cerca de ano, e estando os antigos já muito vistos, ele se propusera a fazer novos, e pedia indulgência para os seus humildes esboços, filhos só da boa-vontade.

VII

O CAIPORA QUE FOI A CAUSA DE TODA A EMBRULHADA DA EXCOMUNHÃO

Certa manhã, andava o Ivo a pautear com o nariz ao vento pelas margens da Lagoa das Marrecas, espantando os irerês e colhendo flores para as copiar à têmpera, lá na tenda do Belmiro.

Cobria a Lagoa das Marrecas a rechã, onde corre hoje a rua do mesmo nome, até as fraldas dos três Outeiros do Desterro, do Carmo e do Castelo, entre os quais se derramava como acolchoado de um divã, cujo recosto formassem as verdes encostas das colinas.

O caminho da cidade cortava pela frente da Ermida, pequena capela da invocação de N. S. da Ajuda, construída no lugar onde faz esquina agora a Rua da Guarda Velha, que não passava então de um carreiro. Serpejando pela falda do Outeiro do Carmo, na direção que ainda hoje tem a Rua dos Barbonos, seguia pela frente do Hospício dos Barbadinhos, e pouco adiante bifurcava-se.

Uma das voltas, cortando pelas abas do Monte do Desterro, era o caminho chamado de Mata-Cavalos, por onde se saia da cidade para o interior. Contornando a quinta das Mangueiras, situada em um espigão do morro, a outra volta subia para a Carioca, encontrando à esquerda com uma vereda que descia para a banda do Outeiro da Glória.

Estava o Ivo na encruzilhada, quando ouviu uns apitos como de sabiá que salta de ramo em ramo, e antes que pudesse imaginar donde saíam, apareceu-lhe em frente uma menina que vinha pelo caminho da Carioca asoquilipe, ora sobre um, ora sobre outro pé, com os cabelos ao vento, e a saia rocegada por causa do orvalho.

Tinha a travessa menina um rostinho de alfenim, com sobrancelhas de til, e lábios de pincel, como não era capaz de tirá-los sobre o marfim, em laivos de nácar, o mais delicado pintor. Embutia-se aquela figura angélica numa como redoma que lhe formavam as ondas bastas dos cabelos cendrados, a borbulharem em cachos dos bordos de uma pequena coifa de seda escarlate.

Esbarrando com o Ivo, soltou a menina um grito de susto, e fazendo sem querer uma pirueta que meteria inveja a um dançarino famoso, desandou a correr pelo caminho em que vinha.

- Que foi, Marta? perguntou uma voz de mulher.

- Senhora mãe, um caipora!

- Ave, Maria! Minha mãe de Deus!...

- Ai, que susto! murmurava a menina estremecendo ainda como uma rola.

- Como há de ser, Sr. Sebastião Freire? Eu aí não passo, nem que me arrastem. Então na encruzilhada!...

- Que partes são estas agora, Sra. Miquelina dos Anjos; não parece mulher de quem é, acudiu a voz de meio bordão do nosso Freire.

- Mas homem, se não está em mim.

- São visagens da pequena.

- Eu vi, senhor pai, acudiu Marta.

- Havia de ser algum macaco; ainda que já eles não andam por estas paragens tornou o tabelião.

- Reparaste no pé, menina? Tinha unha de... daquele bicho?

- Isso não tinha; mas olhava para a gente com uns modos.

- Fez-te uma careta, não foi? É macaco, não tem que ver.

- Sempre era bom esperar mais.

- Faz-se tarde, e já devíamos estar chegados. Ande daí, mulher!

Resolveu-se afinal a Sr.a Miquelina dos Anjos a passar; mas por cautela ia rezando à meia voz a magnificat, e ainda era preciso que o Sebastião lhe desse uma demão, empurrando-a às guinadas com o cotovelo.

A Marta, essa ia adiante, e embora se embiocasse toda, lidando por esconder-se dentro em si mesma a uns olhos que estava entrevendo por toda a parte e em cada folha, contudo não mostrava lá muito medo do caipora.

Ivo, surpreso da encantadora aparição, ia persegui-la com o pensamento já todo cheio de ninfas e dríades, quando a voz grossa do tabelião espancou-lhe as doces ilusões, e arrojou-o da mitologia à realidade.

Escondeu-se atrás do tronco de uma paineira, que ainda as havia nessa altura, e espiou a passagem do tabelião que voltava com a família de uma quinta da Carioca onde fora passar o domingo, e pousara para tornar com a fresca da manhã, pois estavam na força do verão.

Fez-se a passagem do ponto arriscado, que era justamente a encruzilhada, sem o menor contratempo: a viração serenara; nem um ramo farfalhou, nem uma folha estalou no mato. Já a Miquelina respirava, quando ouviu-se ali perto, dois passos atrás, um estrídulo, que aos ouvidos da mulher soou como uma gargalhada de bruxo.

- O caipora! bradou ela, e disparou pelo caminho fora.

O Sebastião Freire, sarapantado e um tanto bambo das pernas, com os olhos gázeos a saltarem desta àquela banda do caminho, lá se foi de recuo, aos trancos, receoso de que lhe surgisse do mato algum mau companheiro, caipora ou bicho, com que se visse abarbado.

A única pessoa da família em quem os guinchos não produziram grande susto foi em Marta. Apesar de seu modo bisonho e tímido, bispara ao passar o vulto do Ivo de espreita por trás da árvore; e atinou logo com a travessura, pela simples razão de que no lugar do rapaz, ela faria o mesmo.

Quando pois o Garatuja arremedou o conhecido regougo do macaco, conheceu logo a pequena donde vinha a artimanha, e em vez de susto, o que teve foi vontade de rir; mas tolheu-a o respeito aos pais, e também o acanhamento de mostrar-se ao rapaz em correspondência de travessura com ele.

Até as abas da cidade, cujo povoado começava na Rua da Ajuda, foram o tabelião e a sua metade em constante sobressalto por causa do maldito macaco, que os perseguia saltando de pau em pau.

- Arrenegado bugio, gritava o Sebastião; vou deste passo encomendar-te ao almotacé, para te filar e torcer-te o gasnete.

- E o senhor a teimar com o macaco! Quando lhe digo que é o caipora, legítimo de Braga! Se inda agorinha lhe bispei os chifres. Não vistes, Marta?

Ante a formal intimação. não havia titubear:

- Creio que vi!... Agora me lembro, vi mui bem!

- Não vistes nada!... berrou o tabelião perdendo a tramontana. É forte embirrância! Declaro eu, Sebastião Ferreira Freire, tabelião do público judicial e notas desta leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro por El-Rei, nosso senhor...

Aqui o nosso homem desbarretou-se com as maiores mostras de reverência.

- que Deus guarde...

Novo desbarretamento.

- ... por muitos e dilatados anos, como todos havemos mister a bem do reino e da religião católica apostólica romana, única verdadeira...

Tomou respiração e continuou:

- Declaro que é macaco, do que dou testemunho e porto por fé, e em prova da verdade firmo com meu público sinal...

Estacou de repente o Sebastião, e caindo em si, viu que não estava no cartório a ler o fecho de uma escritura, mas em caminho para a casa. Encapelou o feltro paulistano na cabeça, e deitou-se a pernadas pela Rua da Ajuda.

Ao entrar em casa, Marta disfarçadamente volveu o rosto e viu de esguelha, no canto, o Ivo, que a espreitava.

VIII

SUMIÇO QUE LEVOU UM CUPIDO ARMADO EM GUERRA, E ESTAMPADO EM PERGAMINHO

Aquele encontro em diante, tornou-se o Ivo menos assíduo na tenda do pintor.

Levava os dias agora a calcurriar a Rua do Aleixo, já atirando pedras aos passarinhos, já perseguindo os gafanhotos na relva, ou as rãs nas touças de bananeiras. Tudo lhe servia de pretexto para volver atrás, passar e repassar por diante das gelosias; e fincar-se horas e horas, como um mastro de Natal, em frente à porta do tabelião.

Tornava a casa muito contente de si, quando lograva entrever pela rótula uma sombra que podia ser do talhe de abelha da menina Marta, como do cocó da Sra. Miquelina, ou mesmo do gato da casa. O quer que fosse lhe dava uns repiques no coração; e aos olhos subia uma névoa rubra, que lhe escurecia a vista; mas nesse crepúsculo aparecia-lhe o rostinho de prata que ele vira com sua redoma de cabelos castanhos.

Ao cabo de alguns dias gastos nessa vadiagem, sentiu Ivo o impulso irresistível de comunicar o querido objeto de seus pensamentos e inundá-lo com as abundâncias de seu coração.

Ivo era mecânico, para falar a linguagem coeva, pois que artista naquele tempo servia para indicar os gramáticos e retóricos, ou os matreiros férteis em manhas; e nada disso tinha o nosso estudante, cujo pecado não passava de uma ponta de sarcasmo, ao demais original, pois lho dera a natureza, e não o podia negar.

Mecânico e artífice, não por mister e necessidade de ganhar a vida, senão por veia, tinha n'alma as primaveras floridas, que os poetas chamam lirismos.

O céu de uns olhos límpidos havia luzido naquela existência; e os raios que lhe infiltrara no seio, estavam abrolhando em flores e boninas, que por força haviam de romper-lhe do coração.

O que havia ele de dizer a Marta e o como havia de falar-lhe, não o sabia. Poetas são como as brisas, que pelo espaço vão caladas e tristes, mas encontrando as franças das roseiras, logo desatam em suaves arpejos.

Começou o rapaz a cismar e andou um par de dias zonzo até que tomou-se de uma rebentinha, que parecia corrupio o estouvado, a girar de uma banda para outra.

Arranjou como pôde um pedaço de pergaminho de Flandres, tamanho de palmo; e depois de bem respançado, meteu-o na grade. Então, munindo-se das cores precisas, trancou-se em casa e ei-lo a esboçar a miniatura, em que punha toda sua arte.

Foi apalpando o branco com a laca e a sombra para fazer os encarnados,. até que se destacou em colorido a figura esboçada de um cupido brincão e gentil, armado em guerra, de arco e aljava. O pintor o figurava em ação de brandir uma seta, cuja ponta embebia na luz de uma estrela radiante em céu azul, para cravar um coração caído por terra e já crivado por um molho delas.

Terminado o colorido e bem apalpadas as sombras e realces, quando ia passar à iluminação, esqueceu-se que faltava-lhe pão d'ouro para o farpão das setas, e correu à tenda do Belmiro a pedir-lhe um tantinho dele; de caminho foi arranjando o conto que lhe havia de fazer, para ocultar o verdadeiro fim.

De volta, achou-se em branco o nosso Ivo. Tinha-lhe desaparecido o painel, sem deixar indícios de quem o levara. A câmara onde trabalhava tinha uma só porta que ele tivera o cuidado de fechar à chave, e uma janela que dava para a cerca. Era por aí sem dúvida que entrara o larápio.

Correu ao peitoril, e só descobriu um gozo da cozinha, acocorado no quintal em frente dele, e a olhá-lo com focinho chocarreiro, como se estivesse aplaudindo o logro, que haviam pregado no nosso namorado, e mofando de sua figura estatelada.

Dando com os olhos no cão teve o rapaz um pressentimento cruel. O pergaminho, apesar do respanço e da imprimadura, no fim de contas não passava de couro de carneiro, e todo o cachorro tem sua queda para esse despojo animal, até mesmo quando o encontra no cisco em forma de sapato velho.

Convencido de ser o gozo quem surripiara o malfadado cupido, e talvez àquela hora o tinha no bucho, o Ivo, com o sangue a ferver-lhe, galgou de um pulo o batente da janela, e foi-se como um raio ao cão. Mas esse, que lhe pressentira o ímpeto, escafedeu-se. Perseguiu-o o pintor, bem resolvido a agarrá-lo e abrir-lhe o ventre para extrair a miniatura, de que ainda esperava aproveitar o pergaminho. Batendo o mato e correndo o rossio da cidade no encalço do fugitivo, consolava-o a idéia, de que o verdete e o zarcão dariam cabo do bicho.

Lá por volta de Ave-Maria, tornou ele a casa prostrado de fadiga, esgalgado de fome, mas sobretudo minado pelo desespero, que é a pior das rafas, Pois esmicha a alma.

Afagar por muitos dias um pensamento; sonhar a realidade dessa inspiração; brotá-la da imaginação, como a árvore brota a flor; vê-la espontar, a princípio tênue gomo, depois capulho, mais tarde já botão, e finalmente corola esplêndida, recendendo fragrância, e vertendo as mais lindas cores!

Chegar até aí, e quando não faltava senão o último toque, suprema carícia que o poeta e o artista não se cansam de fazer ao seu lavor, antes de o despedir de si, ver perdida a obra querida, o filho de sua alma, e não só perdida para ele, como para o mundo; condenada antes de vir à luz!

Essa dor, só a imaginam os que marcou Deus com o selo da fatalidade para fazerem de sua alma a hóstia do progresso, e darem sua vida à comungação dos povos: são os mártires da ciência e da arte. Ivo estava predestinado a ser um desses.

Para o mancebo, o painel era a sua primeira prenda de amor; e todavia por maior que fosse o desgosto do namorado, sobrepujava a desconsolação do pintor.

Ao entrar em sua casa da Rua do Cotovelo, esbarrou-se o Ivo com a Sra. Rosalina que o esperava, inquieta por causa de sua ausência. Ao vê-lo porém, dissipou-se o desassossego em que estava; e ficou apenas uma certa sofreguidão alegre, porque lhe esboçava nos lábios um sorriso, a muito custo disfarçado.

Ivo não deu por isso, aborrecido como vinha de sua vida, e ia passando sem falar com a madrinha. Foi esta que o reteve:

- Ivo!...

Como não tivesse resposta, insistiu:

- Ivo!... Responde, gente!

- Estou ouvindo! respondeu afinal o rapaz com um modo emburrado.

- Esta noite, quero levar você a uma parte.

- Eu não vou!

- Como há de ser agora? Se prometi à Sra. Romana.

- Qual Romana? acudiu lesto o rapaz. A sogra do tabelião?

- Ela mesma, menino, sem tirar, nem por.

Ivo hesitou um momento, buscando um disfarce para voltar da primeira resolução. Afinal saiu-se com esta:

- Como é aqui perto, eu posso ir até a porta.

- Pois sim.

E a Rosalina esfregou as mãos de contente.

IX

PROVA-SE A BOA RAZÃO QUE TEVE CAMÕES ENTRELAÇANDO A MITOLOGIA COM O CATOLICISMO

Que era feito do painel?

Ivo teve ímpetos de pedir à madrinha novas dele; mas arrependeu-se. Entretanto ninguém lhas podia dar tão cabais; pois fora ela com sua mão quem o tirara do cavalete, onde o deixara o rapaz, enquanto corria à tenda à cata do ingrediente para a iluminação.

Esta ligeireza da Rosalina carece de explicação.

De muito ruminava a antiga noiva do alferes nos modos de arranjar uma entrada com a Sra. Romana Mência, geralmente conhecida entre os garotos da cidade pelo expressivo apelido de matrona, que lhe valera sua muita severidade com as fraquezas do próximo.

Ora, a crônica dos amores da Rosalina e o episódio do enjeitado, apesar dos vinte anos decorridos, ainda estavam bem vivos na memória da matrona; e tanto bastou para que se baldassem todas as investidas da mãe do Ivo.

Mas não desacoroçoou a Rosalina; e cada vez mais se ocupou do modo de insinuar-se na casa da Romana. Carecia disso, não só para satisfação de seu amor-próprio ofendido, como para ajeitar a proteção de tão boa madrinha em favor do seu Ivo.

A Sra. Romana Mência era sogra do tabelião, e este bem podia admitir no seu cartório o rapaz, encarreirando-o em sua profissão, das melhores naquela época; pois era nos cartórios e nos conventos que se formavam então os homens para o manejo dos negócios da república; da mesma forma que hoje se fazem os estadistas nas tricas das secretarias, e nas alicantinas e rabulices do foro.

Na ocasião em que Ivo, fechando a porta da câmara, espirrou pelo corredor como um foguete à busca da tenda, a mãe que o viu tão pressuroso quanto refolhado, teve uns assomos de saber o que estava fazendo o rapaz. Empurrou a porta e achou-a fechada. Mais se lhe acendeu a curiosidade; rodeando pelo quintal bispou da janela o painel, que estava bem à mostra no meio do aposento.

Ai!... exclamou alvoroçada. Que Menino Jesus tão lindo, Senhor Deus!... De repente entrou-a um pensamento, que a pôs em faísca. Lembrara-lhe que a Romana Mência era uma devota, como não havia outra, perdida por tudo quanto era santo e cousa de beatice.

Recobrando a sua agilidade, do tempo do alferes, quando tantas vezes saltara essa mesma janela para ir-lhe ao encontro na cerca, por trás da atafona, a Rosalina com algum esforço conseguiu apoderar-se do painel, e cosendo-se com ele dentro da mantilha acatassolada, deitou-se de um fôlego para a casa da matrona.

Esta não se achava só, mas concertando com a nora e mais a Engrácia, uma das vizinhas, a novena daquela noite. Vendo entrar pela casa, e sem licença, a Rosalina, as duas se admiraram; mas a velha inquizilou-se ao sério.

Quem a chamou cá, mulher?

- Com perdão de Vossa Mercê, Sra. Romana, pela confiança de entrar assim na casa alheia, sem pedir licença; mas como é para bem!...

- Isso é que está por ver, que seja para bem, redargüiu a voz fanhosa da velha.

- Ai! era preciso que não fosse devota do Menino Jesus!

- A que vem isso agora?

- É ou não é?

- Se doutro modo não se vai e me deixa descansada, digo-lhe, senhora abelhuda, que sou e torno a ser. Agora musque-se!

- Pois então, exclamou a Rosalina, desenrolando a mantilha com ar de triunfo, recreie esses olhos em sua benta imagem.

Com um gesto patético apresentou o painel.

A Miquelina e a Engrácia caíram logo em êxtase diante da pintura; mas a velha desconfiada e prevenida levou algum tempo a firmar a vista, e compenetrar-se bem do que olhava. Então não se pôde conter e, pondo as mãos, entrou por sua vez em adoração.

Passado aquele primeiro enlevo contemplativo, cobraram as três a fala, e com a Rosalina fizeram um perfeito quarteto de tagarelice.

- Onde achou este retábulo, mulher? perguntou Romana.

- Foi o Ivo, o meu enjeitadinho que pintou! respondeu a Rosalina cheia de si

- Que me diz? Pois ele é capaz!

- Oh! tem uma habilidade, que é cousa por maior; o Belmiro não pode com ele.

- Há de trazê-lo cá. Em o vendo, logo conheço se é verdade.

- A senhora pode experimentar.

- Deixe estar que ninguém me logra.

A esse tempo travara-se entre a Miquelina e a Engrácia renhida disputa a respeito do painel.

- Mas, senhora, dizia a Miquelina, está-me catucando cá dentro que este não é o Menino Jesus!

- Quem há de ser então? O Arcanjo São Miguel?

- Também não. Quem diz que este painel é de devoção? A mim está-me parecendo pintura de pouca vergonha!

- Jesus! Que blasfêmia! Pois não está vendo as asas de querubim?

- Mas este coração aqui, assim todo crivado, como almofada de renda? Aqui há tafularia, senhora.

- O coração... Mas é para significar as tribulações que a gente passa antes de ganhar o céu. Estes são os espinhos...

- Espinhos não, são setas, e bem setas.

- Vem dar na mesma.

- Eu cá, não sei o que tenho; mas era capaz de jurar que isto não passa de bruxaria.

- Qual, senhora! Pois eu não vi o Ivo quando estava copiando do próprio que tem nos seus divinos braços a Virgem Santíssima dos Carmelitas?

A Rosalina tivera essa idéia, quando pela primeira vez deu com o painel. não podendo compreender que o filho tirasse da fantasia, sem auxílio de cópia, o lindo vulto do Menino Jesus. Não duvidou pois dar como visto, o que fora apenas imaginado.

- Que é pintura de devoção logo se vê, observou a velha Romana. Se não fosse, não punha o menino assim nuzinho, sem malícia nenhuma, o inocente! Nessas pinturas desavergonhadas, não vêem como eles escondem as patifarias, que nem parecem?

Esta razão era sem réplica; à vista dela ficou assentado que o painel representava o Menino Jesus; e a Sra. Romana o colocou sobre uma toalha no trumó, mandando logo recado ao seu capelão e confessor, um frade capucho, para vir benzê-lo.

Foi aí que o viu o Ivo, ao entrar em casa da Romana, na alheta da Rosalina, que o puxava pela aba do gibão com receio de que lhe escapasse.

E não era sem razão; pois o rapaz, ao transpor a soleira, estava como que cheio de espavento, e quisera achar-se a léguas daí.

X

DO ALVOROÇO QUE PRODUZIU UM GRILO NA

NOITE DA NOVENA

Havia novena essa noite.

Já as devotas começavam a chegar; e lá estava o tabelião com a família. Foi o Ivo recebido com muitos agasalhos pela velha Romana e todo o mulherio, que estava em contemplação diante da pintura. Atarantou-se o rapaz, e não sabia como atar-se, quando felizmente deu o tirador da ladainha sinal para começar a novena.

Colocou-se o rapaz de modo que pudesse espiar o rostinho de Marta, oculto sob o capuz da mantilha, que ela de propósito conservava sobre a cabeça para melhor recolher-se no seu pudor, como a corola da flor que cerra com o raio do sol.

Bem vontade tinha a menina de lançar de esguelha e a furto uma olhadela para ver como rezava o rapaz; não se animando, vingava-se em contemplar o improvisado Menino Jesus, como se o quisesse comer com a vista.

Notou a Sra. Romana que a neta várias vezes errara as palavras da reza; com o que teve algum desconsolo, pois seu maior desejo era fazer de Marta uma devota insigne, digna de receber a herança de seu oratório, de suas imagens, relíquias e todo o mais beatério.

Terminada a novena, os velhos sentaram-se na calçada, sobre o tijolo, com exceção do tabelião e algum outro também qualificado, para quem vieram cadeiras de couro. Rolou a prática sobre as novas do reino trazidas pela última frota, e afinal, depois de tocar em outros vários temas, veio a cair na mudança da única matriz que possuía então a nascente cidade, da Igreja de São Sebastião do Castelo, onde a tinham colocado desde a primitiva fundação, para a igreja de São José, de recente fábrica, e apenas acabada.

Foi este para nossos dignos antepassados negócio da maior monta, ou como agora se diria, a "grande questão". Não abalaria tanto os ânimos hoje em dia a mudança da corte para as cabeceiras do São Francisco, onde há muito devera estar, como naqueles tempos afonsinhos a mudança da sede paroquial da freguesia de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Se já existira imprensa, com a sua gíria moderna, que rajadas de eloqüência tribunícia não haviam de aparecer a propósito? E como andaria em bolandas a opinião pública, essa bonita peteca dos jornalistas?

No estrado do oratório, corrida a cortina de crepe sobre o altar e as imagens, sentaram-se as devotas para a costumada prática. Bisbilhotou-se a vida do próximo; contaram-se histórias de almas do outro mundo ou casos de bruxos e lobisomens. Tudo isto, a um tempo, em contínua tagarelice, cada uma escutando e palrando do mesmo passo.

E não se fala de uns cochichos que se perdiam no rumor da prática animada. Esses eram de lábios frescos e rosados, donde se escapavam a medo, envoltos em um suspiro ou na reticência do pudor.

Quanto aos rapazes, saltavam no quintal, ao clarão da fogueira, impacientes pela hora da ceia.

- Querem ver como eu tiro já as velhas do estrado para a mesa? Esperem vocês, disse Ivo aos companheiros.

O diabrete do rapaz ouvira cantar um grilo ali perto, e foi-lhe à cata. No lugar onde o apanhou havia um pé de perpétuas, das quais escolheu a mais aveludada. Acercando-se então da porta que ficava próximo ao estrado, atirou certeiro a flor no regaço de Marta, que pensou morrer de susto.

- O que é? disseram as outras.

- Caiu uma cousa!

- Não sei! respondeu Marta sacudindo o vestido.

Não apareceu a perpétua que estava bem fechada na mão direita donde passou disfarçadamente para o seio. O Ivo se escondera logo depois de atirar a flor, mas a menina o vira de relance.

A infatigável curiosidade feminina procurava ainda o objeto caído no colo de Marta, quando ouviu-se novo estrépito, e alguma cousa bateu na cabeça de uma devota. Mas em vez de ficar-se como a outra, descansada e quieta, começou a dar pulos tontos.

Foi uma debandada. Dispersou-se o mulherio como por encanto, no meio de guinchos e faniquitos. Esta desgrenhava o cabelo cuidando que o trasgo, pois era um com certeza, lhe ficara preso ao toucado. Aquela sacudia as saias, examinando-as por dentro e por fora. Essa outra embiocava-se, para examinar no seio, se por acaso não se enamorara a larva dos dois jenipapos.

Ao grande espalhafato acudiu o tabelião, apunhando a enorme boceta de tabaco, à guisa de pelouro, na carência de outra arma ofensiva. Os outros velhuscos da roda, qual mais destemido, o acompanhavam, este com um pedaço de tijolo, aquele com um tamanco velho.

Dos primeiros a acudir, se não o primeiro, foi o Ivo, e em tão boa hora que amparou sem querer o corpinho trêmulo de Marta, quando ela ia cair; mas apenas a apertou nos seus braços, que a desmaiada logo ficou de todo restabelecida, e fugiu-lhe como uma sombra.

A causa de toda a balbúrdia fora o grilo, que tão a ponto lançara o Ivo na roda das mulheres, e quando contava-se a história de uma borboleta preta, que chupava sangue à gente, e não era outra senão uma velha bruxa.

Como previra Ivo, deu o susto em resultado apressar a ceia, visto que se tinham desmanchado as rodas, e não havia que fazer àquela hora para entreter o resto do tempo.

Depois da ceia, e antes de recolher-se com a família, escapuliu M4arta de perto da mãe, e foi ao quintal colher uma perpétua para deixá-la sobre o trumó, aos pés do Menino Jesus.

Nesse entretanto o tabelião, sempre grave, compassado e sacramental, como um instrumento em devida forma, chamava de parte a dona de casa.

- Sra. Romana, minha respeitável sogra, poderá dizer-me quem é este rapazola que vi hoje aqui pela primeira vez?

- É o sobrinho da Rosalina.

- A do alferes? perguntou o tabelião vincando a testa.

- Fale mais baixo, Sr. Sebastião, que ela pode ouvir!

- Vistos os autos, a referida está aqui?

- Que tem isso agora? Por que andaram a fazer enredos da pobre? E não passa da Pôncia, aquela linguazinha de...

- Pois, Sra. Romana, minha respeitável sogra, urge que ponha cobro a isso, porquanto, se a supradita e mais o bonifrate do filho, que a espertalhona alapardou em sobrinho, se meterem aqui, nem sua filha e minha mulher, nem a sua neta, filha minha e da sua também supradita filha, tornarão a pôr os pés em casa onde se agasalha gente descomedida, que...

- Ora, Sr. Sebastião, guarde seu palavreado lá para a rabulice. A Rosalina há de vir com o filho e o senhor também com a Miquelina e a Marta!

- A senhora teima? perguntou o tabelião em tom sacramental.

- Teima é a sua de engrimar-se com a coitada da mulher, que não lhe fez mal nenhum.

- Escandaliza os bons costumes; e bem vê que sendo eu um oficial do público, judicial e notas, não posso tolerar...

- E que remédio tem o senhor?

- Não me afronte, Sra. Romana, senão... senão...

Fez o Sebastião uma reticência tabelioa, prenhe de solenes ameaças.

A velha, porém, fincara as mãos nos quadris; e surdindo por baixo do nariz do tabelião, perguntou-lhe em ar de desafio:

- Senão, o quê?

- Senão eu me recolho ao silêncio! respondeu o tabelião com dignidade.

- É o melhor que pode fazer.

XI

NO FIM DE CONTAS EI-LO O RATO DENTRO DO QUEIJO

Não eram passados oito dias depois da novena, quando pela volta das sete horas da manhã, apareceu a Sra. Romana Mência em casa do genro.

Acabava precisamente o Sebastião Ferreira a, sua refeição matinal, e esgravatava metodicamente a dentuça com uma pena de galo, esperando que pingassem as sete para encaminhar-se ao cartório.

D. Miquelina e a filha, sentadas ao lado direito da mesa, não tinham concluído a reza, em que o tabelião, como de costume, se despachava mais depressa que elas.

- Deus esteja nesta casa! disse a velha entrando.

- E os anjos a acompanhem, senhora mãe!

- Amém! disse Marta.

- Muito bem aparecida, Sra. Romana!

- Onde a gente é querida, sempre há de ser bem aparecida.

Não deixou o tabelião de reparar na visita da sogra àquelas horas canônicas do trabalho; mas foi quando notou o desempeno da velha, com a mantilha passada por baixo do braço direito, e a venta arregaçada, que o Sebastião Freire agourou mal daquela vinda tão fora de vila e termo.

Avisando como homem prudente em evitar a tormenta, fungou os restos da pitada, que estivera a rolar em bolota nos dedos, e foi-se esgueirando para ganhar o. cartório. Mas atalhou-lhe o passo a matrona, com ar decidido de quem traz negócio de monta.

- Temos que falar, senhor meu genro.

- São horas de abrir o cartório; bem sabe, primeiro a obrigação, depois a devoção.

- Pode abrir seu cartório. Quem lhe impede? Se é mesmo por ele que venho.

- Pelo meu cartório, Sra. Romana Mência!...

Soltando esta exclamação foi tal o pasmo do tabelião, que inteiriçando-se-lhe o vulto já tão esguio, tomou a figura de um ponto de admiração. O oficial das justiças d'El-Rei não compreendia que ingerência poderia ter uma mulher, fosse ela sua sogra, em tão grave assunto.

- Pelo cartório, ou cousa que lhe pertence, que eu desta barafunda não pesco.

- Por certo que não é para mulheres entenderem com o serviço da república; muito fazem elas já em tanger o fuso e a roca, que algumas nem de remendar a roupa da casa se lhe dão.

- Está bom, isso é lá com a Miquelina. Com ela se avenha, que eu em brigas de marido e mulher não me meto. Só lhe digo que não fui eu quem lha meti a casa, mas o senhor quem andou arrastando-lhe a asa, cerca de dois anos, como namorado sem ventura, até que afinal por diligências do D. Abade de São Bento..

- Ora pois deixemos estas histórias velhas, senhora, e vamos sem mais detença ao que a trouxe, que o tempo perdido não se recupera.

- Encontra-se o desejo com a boa vontade; nem para outra cousa estou eu aqui há um poder de tempo, e o senhor a dar à taramela.

- Sra. Romana, não se exceda. Isto não são modos de se falar a um tabelião do público, judicial e notas por El-Rei, que Deus guarde muitos e dilatadíssimos anos.

- Amém, e a todos nós para o servir e respeitar. Quer então saber a que vim?

O Sebastião Ferreira, temendo que uma resposta vocal provocasse novos ricochetes da velha, concentrou-se desta vez em um aceno compassado, abanando com a cabeça do alto a baixo.

- Pois eu lhe digo. O senhor há de precisar de um escrevente ou copista para o cartório.

- Não há tal... ia dizendo o Sebastião.

- E eu tenho um papafina para lhe dar. É o Ivo.

Espetou-se no cume da ponta da cabeça a ruiva cabeleira do tabelião; os olhos esbugalharam-se; e a voz soçobrou-lhe no esôfago com a concussão que sofrera todo o indivíduo.

- O da Rosalina? gaguejou o homem.

- Esse mesmo, sem tirar nem pôr! retorquiu a matrona sem voltar pé atrás.

- Com a devida vênia, a senhora não está em seu juízo; minha sogra, desembuchou afinal o tabelião.

- Tão são tivesse o senhor o miolo, que já me está cheirando a mandioca puba!...

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