- Sabe acaso a senhora, o que seja um cartório? Pois aqui lho digo: é o depósito da paz e honra das famílias, em cujas notas se guardam os títulos de seus haveres, e os segredos de suas casas. Não será muito chamá-lo o tombo da cidade, pois que aí se vão lavrando e autuando todos os sucessos da república, ainda os menos importantes. E para um mister de tamanha ponderação, há de se admitir aí qualquer valdevinos...
- Apre lá! Não me esteja a estrelicar os ouvidos com suas cantigas. O rapaz há de dar um bom copista. Ande lá! Tem uma letra chibante!...
- Tire semelhante idéia da cabeça, senhora. E com sua licença!...
- Não se ponha comigo nestes pontos, Sr. Sebastião. Olhe, depois não se arrependa! intimou a velha, mostrando-lhe a unha do polegar, que espetava o indicador com frenesi.
Já a meio da porta o Sebastião parou perplexo. As palavras da sogra davam-lhe que pensar; e não era a primeira vez, que melhor avisado, ele tinha mudado de parecer diante daquela ameaça da velha.
Boquejavam pela cidade que a Romana Mência tinha uma bota de potro inteiriça, que fora de seu defunto marido, cheia de meias doblas e patacos em prata; a qual, segundo os noveleiros, estava enterrada por baixo do oratório da casa.
Se fora essa bota o talismã que prendera o Sebastião aos encantos da Miquelina, não reza a crônica; mas que era ela o condão com que a velha amansava o turrão do genro, e lhe abaixava a grimpa no meio de seus frenesis, nisso maldavam os murmuradores, quando ao cair da tarde, na Ribeira do Peixe, tomando a fresca e assistindo à chegada das canoas dos pescadores tasquinhavam na vida alheia.
Verdade ou não, o caso é que o tabelião já a meio da porta, parou atado, e esteve um instante a considerar no meio de tirar-se da embrechada. A Romana, que esperava pela volta, disfarçou.
- Enfim não havemos de brigar por causa disto, disse afinal o Sebastião virando-se.
- É como queira; eu cá danço segundo me tocam, replicou a velha.
- Vou pensar sobre o caso, e depois falaremos.
- Está bem aviado! Ainda vai pensar? Pois eu cá não sou de sanxa e marranxa; já pensei e repensei. Basta que trouxe o rapaz comigo, para duma feita deixá-lo no cartório. E por sinal que há de estar bem cansado de esperar, o coitado, feito pé de muro, aí defronte da casa.
- Então a senhora já contava com a cousa?... perguntou o Sebastião sentindo revoltar-se a sua dignidade de homem e de tabelião.
- Pois eu podia capacitar-me de que o senhor rejeitasse um tão bom achado?... Olhe, que o rapaz escreve que é mesmo um debuxo.
O tabelião sacudiu os ombros desdenhosamente.
- Mande-mo cá, senhora, que eu lhe tirarei os pontos.
Sumiu-se o Sebastião pelo corredor, em demanda do cartório, onde em pouco foi achá-lo a Sra. Romana, que levava o nosso Ivo à sirga, tirado pela aba do gibão.
DO PRIMEIRO TRASLADO QUE O IVO TIROU NO CARTORIO
Demorou-se a matrona. Empurrando o rapaz à frente do genro, disse-lhe:
- Aí o tem; há de ser preciso tosá-lo seu tanto, que está muito peludo.
E voltando sobre os pés, foi-se a Sra. Romana à sua obrigação.
- Peludo!... resmoneou o tabelião entre dentes; quando eu o acho delambido demais! Todavia hei de pô-lo a jeito.
Esticou-se o Sebastião no tamborete, equilibrando o gancho dos óculos em cima do beque, abriu a boceta com um estalo sonoro, e sorvida em cada venta a pitada mestra com um estrépito solene, dirigiu a palavra ao Ivo, que o estava espreitando através do acanhamento de se ver metido naquela arriosca.
- Com que então, moço, você quer ser da obrigação deste cartório?
- Se for do gosto de Vossa Mercê; que eu estou pronto a ser não só da obrigação, mas também da devoção.
- Como se entende isto?...
- Saberá Vossa Mercê que isto subentende-se.
- Fale-me raso e chão, moço; que eu não sou homem de remoques.
- Com perdão de Vossa Mercê eu queria dizer que hei de esforçar, não só pela vontade de ganhar, senão pelo gosto de o servir.
O tabelião fungou o resto da pitada, arregaçando as ventas; o que nele equivalia a interjeição de suspeita e desconfiança.
- As falas não são más, resta ver as obras.
Metendo uma costaneira de papel entre o índice e o máximo da mão esquerda, com a direita escolheu na pilha de bacamartes que tinha ao lado um volume.
- Tire-me o traslado desta escritura, disse o Sebastião Ferreira abrindo o volume no lugar onde estava marcado com uma tira de couro.
- É para copiar palavra por palavra? perguntou o Ivo, que não sabia o que era traslado.
- E sem faltar uma vírgula.
- Em que letra quer Vossa Mercê que eu copie? Em letra redonda, cursiva, grifa, itálica ou bastarda?
- Hem! hem! fez o tabelião; embasbacado com aquela nomendatura. Nada, moço; aqui não se querem dessas artes e novidades; que são boas para copistas de pergaminho. Escreva-me letra de mão e bem corrida, como está aí nas notas.
Ajoelhou-se o Ivo do outro lado da mesa, e sacando do bolso o seu tinteiro de chifre e a pena de ganso bem aparada, preparou-se a tirar o traslado do bacamarte reclinado diante dele sobre um enorme cunhete de jacarandá. Tinha o rapaz a maior confiança no seu bonito talhe de letra e esperava sair-se bem das provas; mas surgiu-lhe um embaraço com o qual não contava, e que o fez descoroçoar da, empresa.
Era a escrita do Sebastião Ferreira a mais tabelioa que se pode imaginar; dificilmente conseguiam os velhos escreventes meter-lhe o dente. Uma linha tremida estendendo-se horizontalmente, e com umas pontas que lhe saíam para cima e para baixo, tal era o aspecto desse gregotim indecifrável.
Debruçado sobre o bacamarte, o Ivo concentrava todos os esforços para destrinçar aquele texto emaranhado, e já lhe corria o suor pela testa abaixo, sem que tivesse conseguido soletrar duas palavras.
Extenuado, reconhecendo a impossibilidade de penetrar jamais o sentido daquele hieróglifo, assentou o rapaz dar de mão à empresa, e voltou-se para o tabelião na intenção de comunicar-lhe a resolução em que estava. Mas o Sebastião Pereira, de todo entregue ao desempenho do ofício, não dava fé, nem do que ia pelo cartório, nem mesmo da presença do Ivo, ali, a dois passos dele.
Ficou pois o rapaz com os olhos pregados no tabelião, acompanhando-lhe a pena que ringia sobre o papel e à espera da primeira pausa, para encartar a sua despedida. No mais atento de sua observação estremeceu de susto.
Na porta a que dava costas o tabelião, se abrira uma fresta por onde enfiou o olhar curioso de um cantinho apenas dos mais lindos olhos castanhos, que dar-se podem. Se não fosse a volta da testa de marfim que aparecia no batente da porta, o rapaz não se teria apercebido da aparição.
Esqueceu o Ivo tudo, o cartório onde estava, o tabelião e mais o seu gregotim, para espreitar aquele cantinho de olho que o espiava pela fresta da porta. Era ele capaz de jurar que a dona do olhar de maliciosa se estava rindo dos apertos em que o via.
Com receio de que o surpreendesse o Sebastião no mais doce de seu enlevo, arranjou-se de novo o Ivo em posição de escrever, puxou à frente o grosso in-fólio para lhe servir de baluarte contra os óculos do tabelião, e assentou no alto do papel, segundo as regras caligráficas, a mão pronta a lançar o rasgo da primeira letra no mais asseado bastardo.
Mas sentiu certas cócegas nas pontas dos dedos, e sem saber como, achou-se a fazer a bico de pena a cópia fiel daquela fresta da porta, onde aparecia o céu de uma testa de marfim, e um olhar que era a estrela do tal céu.
Bem percebeu Marta pelos modos, que o moço lhe estava. tirando as feições; e escondeu-se de vergonhosa, mas para voltar logo depois, descobrindo um pouquito mais do rosto. Disfarçava a sonsa, fingindo-se atenta para outro ponto da sala, e a descuido mostrava o lindo perfil; até que de repente sumia-se, como se então somente descobrisse o Ivo a observá-la.
Não obstante as negaças da menina, traçara o rapaz o seu desenho, e aproveitando uma vez em que Marta se mostrava mais, a contemplava com olhos de amante e artista, para dar os últimos toques à figura.
No mais absorto, assustou-o certo ruído cavernoso, semelhante ao ornejo de um jumento, e que não era senão o estrépito da pitada do Sebastião Ferreira, ecoando pelas cavernas ou fossas nasais. Achou-se então o rapaz em face do carão descarnado e impassível do tabelião, que lhe estava observando o pasmo.
- Que faz você aí embasbacado, moço? perguntou o tabelião.
Teve o Ivo um estremeção, que ia dando em terra com o bacamarte. Felizmente segurou-o a tempo, quando ele escorregava pela aba da mesa.
- Estava à espera do senhor tabelião, respondeu Ivo aproveitando a primeira desculpa que lhe acudiu.
- À minha espera!... Não está má!
- Pois não é Vossa Mercê que dita?
- Ditar o que, moço, se já lhe apontei aí a escritura...
- Ah! é para copiar deste livro?...
- Então, moço! E avie-se, que isso de lesmas, não servem cá para escreventes. Quer-se sujeito despachado!
Receoso de ser recambiado do cartório, arranjou-se o Ivo para dar conta da tarefa, e outra vez com a pena embutida nos três dedos, abriu o corte da primeira maiúscula. Mas aí estava a dificuldade. Que letra lançaria ele se não conseguira destrinçar ainda as rabiscas do tabelião?
Relanceou para a porta um olhar de desespero; mas já a fresta se havia cerrado, e não viu ali para consolá-lo em sua aflição nem sequer o olhar à sorrelfa, que poucos momentos antes o viera desinquietar. Com o espirro paterno, Marta fugira espavorida.
Nestas estreitas sentiu o rapaz no peito do gibão o amarrotar de um papel; e indagando da novidade, descobriu que era uma folha de almaço a sair do bacamarte, e justamente pelo verso da maldita escritura que estava condenado a copiar sem entender.
Examinando o manuscrito, pareceu-lhe pelo jeito, ser um traslado da tal abstrusa escritura, começado a tirar por algum escrevente do cartório. Sem mais e à ventura, pôs mãos à obra, e com pouco estendeu sobre o papel todo o traslado em um bastardinho bem lançado e do mais lindo talho.
Levantou-se o rapaz, e por cima da mesa apresentou a cópia ao tabelião, mas vendo que este não se distraía lá da sua tarefa, meteu-lha por diante do nariz.
- Hem!... Então já acabou, moço?
- Veja o senhor tabelião!
- Está bom; já se vai desasnando! Ora vejamos lá isso!
Fincou bem os óculos no cavalete, encrespou o sobrolho sobre a testa, enfiou a carranca, e empinando-se no tamborete, esticou a folha de papel aberta a dois palmos do nariz.
Imediatamente a cara tabelioa decompôs-se toda, e embrulhou-se numa careta displicente, como uma bexiga assoprada, quando lhe falta o ar e se enruga.
O Ivo ficou frio.
- Sempre arranha no ofício; mas olhe, moço, esta letra casquilha e delambida pode servir lá para iluminações e grifarias; cá no foro não se admitem estas desenvolturas. Está entendendo?... Quer-se um talhe de letra corrida, e que seja composta e sisuda como se requer nas cousas de justiça. Uma escrita à-toa como esta, que aí todo o gato e sapato pode ler sem titubear, não vai bem nuns autos. Isto de papel forense, nem todos lhe metem o dente; é preciso ter prática. Faça-me uma letra pelo molde tia minha, e vamos bem. É deixar correr a pena!
Ouviu o Ivo com espanto esta lição de caligrafia forense, e revoltado nele o sentimento do belo, ia protestar, quando pareceu-lhe que de novo entreabria-se a fresta da porta, e tanto bastou para dar-lhe a força de conter-se. Não eram aqueles gregotins, que o obrigavam a fazer e a decifrar, os elos que o prendiam à casa de Marta?
No dia seguinte tomou o Ivo conta da mesa de cedro em que o encontramos. Ficava-lhe a dois passos a mesa de um outro escrevente, de nome Sabino, moço como ele, e que não se conformava com a presença desse intruso, pois vinha disputar-lhe o lugar de calouro do cartório, que ele até ali ocupara sem rival.
Tinha o Sabino vinte anos, e como esses vermes que se formam no coco, e tomam-lhe a feição e o gosto, parecia o rapaz um feto concebido e criado no cartório. Borrado de tinta e poento como uns autos, a cútis era de almaço amarrotado, os beiços arregaçados como as beiras do protocolo, e a cabeça arrepiada que nem as abas de baeta preta que desciam da mesa.
Quando se dirigia a seu canto, percebeu Ivo o olhar com que o examinava o colega, e conheceu que ia ter nele um amolador. Felizmente dividia-os um pano de prateleira, que interceptaria a espionagem.
UMA EDIÇÃO ANTIGA DO PRELADO MODERNO
Ao tempo destes acontecimentos, cuja importância talvez escape ao leitor L' indiferente, que não perscruta os arcanos da história, nem se ocupa do encadeamento dos fatos, ainda a leal cidade de São Sebastião não tinha bispo, e muito menos capelão-mor.
Mas por isso não deixava o povo fluminense de ser menos religioso, do que é hoje em dia; nem também de grassar pela recente colônia essa lepra social, que chamam com a maior propriedade de "lazarismo", e que vai cada vez mais carcomendo a consciência da grande cidade imperial.
Era então administrada a igreja fluminense por uma simples prelazia criada desde 1557 por breve de Gregório III; e no ano de 1659 ocupava esse cargo o Doutor Manuel de Sousa e Almada, presbítero do hábito de São Pedro.
Nomeado por provisão de 12 de dezembro de 1655, tomara posse em julho de 1659, e sem apresentar o seu titulo de nomeação entrou a exercer a jurisdição eclesiástica na diocese, com aquele escândalo do abuso, que tão bem aclimatou-se cá na terra.
Era o Doutor Almada um padre às direitas. De mediana estatura e bem apessoado, envergava a batina e os hábitos talares com uns modestos ademanes que dão o cunho à elegância eclesiástica. Também não havia quem no altar fizesse com tanta graça uma genuflexão, nem suspendesse o sagrado cálice.
Doce e mansueto, sempre envolto em uma cordura que o vestia como sobrepeliz, o canônico doutor nunca se alterava. Assim deixou lama de sua grande habilidade e prudência, do que se encontra notícia no almanaque histórico do Rio de Janeiro, interessante crônica de Duarte Nunes, tenente de bombeiros desta capital no fim do século passado. Felizmente ainda não havia a praga das gazetas; do contrário com a labutação de escrever notícias de incêndios, em louvor próprio, não teria o homem folga para esmerilhar antigualhas.
Voltando ao nosso doutor, havia quem dissesse que, sob aquele bioco de alfenim que lhe açucarava o risonho semblante, dormia uma cólera fradesca, terrível em suas explosões; e tanto mais para temer quando, receosa do escândalo, ela subtraia-se a todas as vistas para estrebuchar em segredo, escondendo os seus esgares.
Destes acessos, parece que lhe ficava uma raiva fria e cruel, que ele embainhava no coração. Era como a brasa de ferro que se bate na forja, e da qual se tira a lâmina fina e buída do estilete.
A verdade é que o novo prelado da igreja fluminense, no seu fervor de curar do rebanho e granjear o amor de suas ovelhas, se houve por modo que anos depois os cariocas, já bastante edificados por suas virtudes, assestaram-lhe contra a casa uma peça de artilharia, devidamente escorvada, com a mecha acesa, e calculada para dar tempo aos autores da graça de se porem ao fresco.
Isso corre por conta do tenente de bombeiros, que não nos diz se do tiro resultou incêndio, nem se antes deste declarado já tinha ele comparecido. Apenas sabemos que o canônico doutor escapou da entrosga, e como lhe cheirasse a cousa a chamusco, foi tratando de passar-se a Portugal, privando assim esta ingrata cidade do espetáculo de suas virtudes.
Apenas mitrado, isto é, empossado da mitra que lhe conferiu o breve do Santo Padre, deu o Doutor Almada a amostra do pano de que era feita a sua batina.
Refogado na soberba que o clero opunha naquele século ainda à decadência de sua antiga primazia, imbuído nas falsas doutrinas consagradas pela bula da ceia, o Doutor Almada, como em geral os sacerdotes daquele tempo e muito mais os prelados, julgava-se revestido de um poder superior a toda autoridade temporal, qualquer que fosse a sua jerarquia.
Recebendo do rei a graça e mercê de sua nomeação, entendia que, uma vez provido, escapava à mesma jurisdição da qual lhe provinha o cargo; e não só isso, mas que lhe competia incontestável proeminência e censura sobre a coroa e seus ministros para defesa da religião católica,
O prelado fluminense, e como ele os mais, acreditava-se ingenuamente revestido de autoridade para excomungar qualquer ministro secular, e até o próprio rei, se o embaraçasse no exercício de sua jurisdição eclesiástica. É verdade que nem por sombras se lembrara ele de jamais desembainhar o seu gládio espiritual e afrontar-se com a própria coroa, contentando-se em arranhar-lhe o braço secular na pessoa de seus ministros. Tinha o clero de então a manha que dura ainda hoje, na igreja e no estado, de amaciar a cabeça com toda a espécie de bajulação, para devorar o corpo.
Foi a mudança da Sé o ponto que o novo prelado escolheu para exibir-se, e mostrar a suas ovelhas o pulso com que tangia o cajado apostólico.
A cidade de São Sebastião, que então era simplesmente "leal", pois não havia ainda praticado o insigne heroísmo de receber D. João VI e a sua corte de validos: a futura capital do reino unido e depois, do grande império, formava naquela época uma só freguesia, cuja matriz era a velha Igreja de São Sebastião, do orago da cidade e de sua primitiva fundação.
Situada no cimo do Morro do Castelo, onde o seu esqueleto ainda em pé campeia sobre a baia, e onde assentou-se a primitiva povoação, a Igreja de São Sebastião, símbolo da expulsão dos franceses e conquista da terra, tinha para o povo fluminense um caráter legendário. Aí estavam, naqueles muros, arquivadas as primeiras e gloriosas tradições da sua cidade. Esse templo fora como o berço da religião para a nascente colônia.
Mas contra esse generoso sentimento do povo surgiu como sempre sucede, o fermento do egoísmo que subleva a camada superior da sociedade. Com o incremento natural da população, foi a cidade descendo das encostas da colina e estendendo-se pelas várzeas que a rodeavam, sobretudo pela orla da praia que cinge o regaço mais abrigado da formosa baía, e corre em face à Ilha das Cobras.
Aí, fronteiro ao ancoradouro dos navios, com o fomento do comércio, se ergueram as tercenas e os cais, onde não tardaram a agrupar-se em volta das casas das alfândegas e dos contos as lojas e armazéns dos mercadores. Após essas, embora já mais arredadas da beira-mar, vinham as outras classes trazidas pelo desejo de estarem mais próximas ao centro do povoado, onde é mais ativo o tráfego.
À medida que a cidade abandonava as alturas para se espraiar na planície, a Matriz ia ficando longe para os moradores do bairro mais povoado. As ladeiras do Castelo, principalmente a do Beco do Cotovelo, primam no íngreme da rampa, talhadas como foram pelo molde das escadinhas e ziguezagues de Lisboa e Porto. Galgar uma subida dessas, em horas de soalheira, e na força do verão, é uma estafa capaz de arrefecer a mais sincera devoção.
Solitária no alto do morro histórico, em face dos bastiões aluídos do antigo castelo roqueiro; já isolada das residências do governador e ministros de El-Rei, outrora grupadas em torno dela, começou a velha Sé a ser desdenhada. Com exceção dos carolas e das beatas, a quem não faziam mossa nem o sol, nem a chuva, os fiéis buscavam de preferência para seus atos de devoção algum templo mais próximo; e só iam à Matriz nas festas da municipalidade ou para atos paroquiais.
Com a sagração da Igreja de São José, que se acabara de construir, foi a velha Sé despojada de sua proeminência política; pois o Senado, por sugestão do governador e a empenho dos principais moradores, começou a celebrar "as festas do Estado", como então se chamavam as nacionais, em o novo templo. que ficava na melhor posição.
Então caiu a Matriz em completo abandono e desleixo, não conservando de sua primazia, como casa paroquial. mais do que um nome vão. Ao próprio domingo já não concorriam fiéis à missa paroquial; corriam os banhos e liam-se as excomunhões, para as paredes, que não havia na igreja viva alma. As festas da Páscoa e do Natal, únicas entre as anuais, que ainda ali celebravam-se, para terem quem as assistisse, levava o vigário a sua negralhada. que o acompanhava mal contente por se ver privada de ir ao Colégio dos Padres ou a São Bento, onde havia. outra pompa.
Estavam as cousas neste ponto, quando empunhou o báculo o Doutor Almada; e visto por ele e examinado o caso, resolveu logo mudar a Sé para a ermida do patriarca São José.
Mal constou a determinação, assanharam-se os homens da governança, despeitados com o prelado pela arrogância com que este dispunha em negócio de tanta monta e tão do interesse do povo, sem ouvir seus procuradores e conselheiros.
ONDE SE MOSTRA QUE SE OS POVOS SERVEM DE INSTRUMENTO, TAMBÉM OS REIS SERVEM AS VEZES
DE PRETEXTO
Ninguém mais do que o ilustríssimo Senado desejava a transferência da Sé, que em grande parte promovera, retirando da Igreja de São Sebastião os assentos dos camaristas. Se não a levara avante, fora pelo receio de desagradar a El-Rei, obrando em negócio que excedia a sua alçada. Agora, porém, o caso mudava de figura; e cumpria-lhe zelar na manutenção de seus privilégios, menoscabados pelo prelado.
Preparados de antemão os bandos de sequazes, que usurpam o nome do povo, convocou-se sessão extraordinária para assentar no que mais convinha; e aí, em presença do governador, ouvidor-geral, provedor e oficiais da Câmara, levantou-se Francisco Pires Chaves, procurador do Conselho, para representar contra a mudança que à sua notícia chegara. E depois de bem exposto o caso, concluiu por este teor:
- 'Basta que São Sebastião é o divino Padroeiro, por cuja proteção se tomou a cidade, obrando nessa empresa façanhas e milagres, que os antigos experimentaram sensivelmente por sinais visíveis, e os presentes veneram por tradição viva na memória do povo. Essa eficaz proteção ainda agora a logramos, assim nas matérias de guerra, ficando esta cidade somente livre dos inimigos que invadiram todas as praças do Brasil; como também no tocante à saúde, livrando-nos de peste e contágio, como cada um por si tem testemunhado.
"E porque, mudada a fábrica da Igreja do Santo Padroeiro para outra de orago diverso, como se intenta fazer, altamente perde-se a primeira instituição paroquial, e o primeiro ser e nascimento da igreja fluminense; acrescendo o receio em que ficariam os moradores de que, diminuída a devoção que sempre lhe tiveram, e tarada à cidade a invocação de seu nome, se dispensasse o nosso Santo Padroeiro, que sempre o foi, de acudir-nos em nossas necessidades; por isso e mais razões óbvias e naturais, requeiro em nome do povo, e na presença das suas autoridades se resolva no melhor parecer, para que o glorioso São Sebastião não perca o seu título de Padroeiro de sua igreja e paróquia, que tem desde o nascimento da cidade. E nestes termos receberei Justiça e mercê."
Ouvidos os pareceres e tomados os votos que sem discrepância adotaram as razões deduzidas pelo procurador do Conselho, assentou-se em câmara que ficasse o negócio da Matriz no mesmo estado em que até então se havia conservado, enquanto se esperava que Sua Majestade, atendendo ao que se lhe havia avisado sobre a matéria, decidisse como fosse a bem do povo; e desta determinação mandou-se dar comunicação ao prelado.
Bufou o Doutor Almada ao ler a carta que lhe enviara o Senado nesse mesmo dia 3 de agosto, e enxergou nela um atentado contra a sua jurisdição. Não viu que pelo direito do padroado, à coroa exclusivamente competia destinar o lugar do culto, e nem admira tal cegueira em um prelado do século XVII, quando do mesmo, se não pior achaque, padecem os bispos de hoje.
No dia seguinte "desembainhando as armas espirituais", como disse o Senado a El-Rei, o imperioso prelado despediu contra a ilustríssima Câmara uma bomba eclesiástica de formidável calibre. Avalie-se da força do projétil por esta intimativa: "Agora lhes digo, que se em três dias que lhes dou pelas três canônicas admoestações que começarão da entrega desta, não revogam o assento que fizeram, os hei de declarar aos que se acham assinados na sua carta por incorridos na excomunhão da bula da ceia, e do mesmo modo hei de declarar a qualquer pessoa que nesta matéria fizer qualquer impedimento direta ou indiretamente. E por esta os notifico a Vossas Mercês para dita declaração."
A essa bomba não admira que respondesse o povo anos depois com o tal canhão que embocaram à porta do prelado; e se em vez de uma, os gaiatos carregassem a peça com três balas, não fariam mais nem menos do que praticou o Doutor Almada com as três canônicas admoestações.
Hoje em dia talvez muita gente ignore o que é excomunhão. Não foi assim naqueles tempos de prisca fé, quando bastava a palavra para fazer arrepios, e com razão, que era bem má graça ficar a gente como pesteado, de quem todos fogem, e a vagar por este mundo como um refugo do inferno, à espera de que o leve o demo, ou se lhe cosa na pele.
Por isso não deve surpreender que arrefecesse um tanto o entusiasmo do Senado pela defensão do padroado real, em pró do qual aliás não duvidariam os camaristas "pôr suas cabeças", como disseram na carta de 6 de novembro a Afonso VI. Responderam ao prelado protestando que no acórdão tomado nunca fora seu intento encontrar a jurisdição eclesiástica, senão só acudir à sua obrigação, por ser a Sé igreja do padroado d'El-Rei, para que em tempo nenhum se lhe pudesse dar em culpa, e argüir de pouco zelosos no serviço do dito Senhor; pelo que esperavam que não continuasse com a censura notificada.
Interpôs o governador seus bons ofícios, e afagada a soberba do prelado com o tom submisso do Senado, condescendeu este em suspender a excomunhão intimada, até resolução de El-Rei, a quem se dirigiram as duas partes, pela frota de novembro, a primeira que partiu depois desta ocorrência.
Reza a crônica que no intuito de justificar a sua determinação de mudar a Sé, afirmava o Doutor Almada que a Igreja de São Sebastião estava em mato, sendo preciso que o vigário lhe abrisse caminho para o trânsito dos fiéis nas festas e procissões. Não faltava à verdade o reverendo; apenas omitia uma circunstância bem insignificante: que o mato era de malvas, bredos e grama.
Assim terminou o conflito entre a mitra e o Senado; ou antes, sopitou-se para rebentar pouco depois, e com maior violência, como veremos.
UTILIDADE QUE UM NAMORADO PODE TIRAR DOS RIVAIS E DOS PINTOS
À rua da Quitanda, nome que lhe viera da banca de marisco, já então mudada para a Praia do Peixe, foi morar o reverendo Doutor Almada, numa casa próxima ao canto da Rua do Ouvidor, e fronteira ao quintal do tabelião.
Construída ao gosto do tempo, de regulares dimensões, o que se via mais notável na tal casa era uma grande pitombeira que havia na cerca, onde servia de regalo à vista pela beleza de sua copa frondosa, e de refrigério à calma pela fresca sombra que derramava no horto.
Era costume naquele tempo, mais do que hoje, de acompanharem-se as dignidades da igreja de não pequeno número de fâmulos, de ordinário mancebos que na qualidade de minoristas cursavam as aulas e se preparavam para tomar as ordens maiores. Formavam essas famílias eclesiásticas pequenos seminários, que se não eram de profanidades, como dizia um célebre pregador, não estavam isentos delas.
Entre os fâmulos do nosso prelado, e primeiro dos minoristas, contava-se um sobrinho, Cláudio de nome, endiabrado rapaz, que fazia-as todas e dava sota e bastos ao mais arteiro dos garotos da cidade.
As horas de folga e os dias de sueto, passava-os aquela rapazia trepada na pitombeira, comendo fruta e desinquietando as vizinhas, a quem atiravam as cascas e perseguiam de galhofas. De todas, porém, as mais expostas às chácaras dos minoristas eram a Miquelina, mulher do tabelião, e sua filha Marta, por ficarem defronte.
Das grimpas da árvore, ocultos pela folhagem, devassavam os rapazes não só todo o quintal, como a varanda de jantar, e os quartos do outão. Não punham mãe e filha o pé na cerca, nem passavam por perto das janelas, que não fossem alvo dos remoques e chacotas dos brejeiros.
Advertido o Sebastião do desaforo, uma vez saiu à varanda com a sua mais grave compostura tabelioa; e em voz de audiência, fanhosa e estridente, intimou aos rapazes que se comedissem. A resposta foi uma tremenda surriada e um granizo de caroços de pitomba, que bombardeou a respeitável penca do Sebastião Ferreira.
Vendo em grave risco, não somente a integridade de sua pessoa, como a dignidade de seu caráter público, o tabelião bateu em retirada, e abrigou-se por detrás de uma pilastra da varanda.
Com os escreventes acudira o Ivo, que aproveitara a ocasião de avistar-se mais de perto com Marta, e atirar-lhe um segredinho ao passar por alguma porta entreaberta. À vista do desacato que sofrera o Sebastião, correu o rapaz a ele:
- Deixe-os estar, senhor tabelião, que amanhã virei munido de meu bodoque, e então lhes faremos as contas. Hão de ver o que é mais rijo, se as suas pitombas, ou os meus carolos de barro.
Ficou o tabelião um instante perplexo, e como saboreando o antegosto daquela desforra que lhe oferecia o escrevente; mas ao cabo, resolveu não consentir na travessura do rapaz.
- Nada de vias de fato, moço, que não condizem com um oficial de Justiça de El-Rei. Estou que eles com a ceboleta que lhes dei se aquietarão; e quando não, irei então às vias judiciais, e terão de haver-se comigo.
Longe de se aquietarem, redobraram os minorenses as diabruras, e tão apoquentadas se viram a Miquelina e a filha, que todo o santo dia viviam encerradas na sala de frente, para escaparem às chançonas dos formigões. Não tardou porém que desconfiassem do couto, e então levavam a espiar pela rótula, atirando bouquinhas e escritinhos pelas frestas.
Quando se tornavam por demais insuportáveis, a senhora Miquelina mandava pela filha chamar o tabelião, o qual tomando a competente pitada, sobraçava o seu espadim de cerimônia, encaixava na cabeça o enorme tricórnio, e saía fora flanqueado dos escreventes armados de réguas, cunhetes e cabos de vassouras. Com a aparição daquele piquete, desaparecia o bando dos minorenses, que se ocultava no canto da casa, à espera de vez para outra investida.
A princípio mordia-se o Ivo com a maganeira dos minorenses; porém mais tarde, cogitando melhor, se consolou da perseguição que faziam à moça, pelas ocasiões que lhe davam de vê-la no cartório, quando ia ao pai com recado da senhora Miquelina.
Além dessas rápidas entrevistas, arranjara o Ivo um meio engenhoso de comunicar-se inocentemente com Marta.
Tinham as casas antigas uma particularidade, de que nunca me deram cabal explicação. Havia nas portas interiores junto ao solo, uma pequena aberta em meia-lua, de palmo de altura. Se era para não impedir ao bichano a caça dos ratos; se para dar a estes passagem franca, evitando que roessem a tábua ou esburacassem o soalho, é ponto este de arqueologia que ainda não foi decidido, e espera a profunda investigação dos que desenterraram os ossos de Estácio de Sá.
O certo é que na porta da serventia interior do cartório havia um rombo daqueles; e que uma galinha com a sua ninhada de pintos, abusando da liberdade, que as donas de casa costumam deixar nesse período interessante da criação, todas as manhãs se introduzia no santuário forense; e faltando com o respeito devido à veneranda poeira daquela arca, levava a ciscá-la por baixo das mesas e prateleiras.
Foi essa visita uma fortuna para o Ivo, que sentia a sua jovial mocidade sufocada pelo silêncio espesso e polvorento daquela atmosfera de alfarrábios. Desde o primeiro dia em que apareceu-lhe a ninhada no cartório, buscou ele entrar na privança e ganhar a amizade daquela família galinácea. Mas a poedeira mostrou-se arisca, lembrada sem dúvida dos pontapés que lhe disparavam o tabelião e seus escreventes, quando ela passava-lhes por baixo da mesa.
Mudaram essas disposições logo ao outro dia, pelo cuidado que teve o rapaz de levar no bolso do gibão uma broa seca de milho, a qual lhe servia não só para ir merendando enquanto copiava, mas também para familiarizar-se com a ninhada, espalhando as migas, que ela vinha comer a seus pés.
A cabo de uma semana estavam íntimos, a ponto que em toda confiança deixava a galinha ao Ivo apanhar-lhe algum dos pintainhos, e alisar-lhe a penugem dourada. Então levou o rapaz de casa certo papelinho, onde havia pintado um coração com asas que voava pelos ares, como se fora um pombinho, e que era de súbito trespassado por uma seta cruel.
Esse papelinho feito em rolo e atado com um fio de seda cor-de-rosa, guardara-o ó rapaz no peito da véstia com todo o resguardo porque nem o perdesse, nem o amarrotasse.
Na volta do meio-dia, vinda que foi a ninhada ao cheiro da broa, apanhou o Ivo um dos pintainhos, e pondo-lhe no pescoço à guisa de colar o papelinho enrolado, guardou-o na gaveta, tendo o cuidado de o regalar de migas, para evitar que piasse muito forte e avisasse o tabelião.
Não tardou que assomasse à porta o rostinho de camafeu da Marta, que vinha a recado da mãe, por causa das perseguições dos rapazes do prelado. Como os olhos da menina, embora com disfarce, de curiosos que eram, todas as vezes se enfrestavam pelo vão dos armários, viram o pintainho, que lhes mostrava o Ivo, e mais a redoma de papel que tinha ao pescoço.
Se ela entendeu a mímica, não se sabe; mas no dia seguinte quando a ninhada beliscava-lhe os pés impacientes pelos farelos da broa, notou o brejeiro do escrevente que um dos pintainhos tinha uma crista artificial. Era nada menos que uma perpétua branca, na qual contra todas as noções da botânica, achou o nosso namorado um perfume suavíssimo.
Desde então se estabeleceu por aquele novo correio uma correspondência inocente e pitoresca; pois de urna parte escreviam as pinturas e da outra as flores.
É preciso advertir que apesar da esperteza do Ivo, não passavam de todo desapercebidas do Sabino estas artes.
PERIGO DE METER UMA FRANGA NO POLEIRO, QUANDO NÃO SE TEM O COSTUME DE LIDAR COM A CRIAÇÃO
Cedo veio uma manhã, fatal manhã, que dissipou os fagueiros sonhos do nosso Ivo, e anuviou-lhe os dias prazenteiros, ali fruídos naquele soturno aposento, que lhe fora um seio de Abraão.
E todavia raiava o sol brilhante, e o céu ria-se de tão azul e transparente. Os passarinhos chilreavam entre os ramos das árvores, meneadas pela fresca brisa do mar, que já começava a soprar; e o escrevente, de coração farto e espírito folgazão, esforçava-se com ardor e prazer no trabalho, para adiantar o cumprimento da obrigação, de modo a distrair uns momentos, os mais felizes da sua vida, quando pingasse meio-dia da torre de São Bento.
Ainda faltava cerca de meia hora; mas a galinha, ou porque esse dia se expedisse nas suas correrias, ou porque se fosse cada vez mais amorando ao lugar, apresentou-se com a ninhada. Recebeu o rapaz com o costumado alvoroto, que logo cedeu a grande desconsolo; pois desta vez não traziam os pintainhos a prenda a que se acostumara o nosso namorado.
Já se sabe que não ganharam as migas da broa; além de parecer-lhe justo castigar a pouca diligência do mensageiro que vinha debalde, entendia o rapaz que era o modo de escorraçar dali a ninhada, e fazer que a menina reparasse o seu esquecimento, se não era antes alguma pirracinha.
Piavam os pintos e cacarejava a galinha, a espicaçarem-lhe as pernas, e ele a enxotá-las com a ponta do pé e a régua; donde tal ruído se levantou, que já era um escândalo naquele soturno asilo da murmuração forense. Felizmente o Sebastião Ferreira, quando se embrenhava em um alfarrábio, não dava pelo que ia cá fora.
Nessa conjuntura soou pelo cartório um "zute", ao qual levantaram os escreventes a cabeça de supetão para fitarem o vulto do tabelião. Este segurando na mão esquerda um auto, com a direita erguida e espetado para o Ivo o indicador, três vezes fechou em croque e abriu a formidável falange.
De pronto acudiu o rapaz ao chamado, acercando-se da mesa grande.
- Um edital por este teor e forma! disse o tabelião com o laconismo do costume.
Mas a galinha e sua ninhada não deixavam de atormentar o Ivo à gana das migas de broa; e faziam tal matinada e cacarejo por baixo da mesa e entre as pernas do Sebastião Ferreira, que deu ele enfim pelo atrevimento dessa profanação de seu cartório transformado em terreiro de criação.
- Enxote-me esta cambada, moço! gritou o velho escriba.
Fê-lo o Ivo, mas debalde, que a ninhada lhe voltava no encalço:
- É teimar em vão, já agora tomou esta manha.
- Feche a porta que já não tornam.
- E o buraco? retorquiu o Ivo apontando para o rombo. O remédio é prendê-la no galinheiro.
- Pois prenda-a, e não me atormentem.
Isto, disse o Sebastião ao Ivo e à galinha conjuntamente.
Lesto, como o galgo que aventou a caça, tangeu o rapaz diante de si a ninhada pelo corredor a fora em busca do quintal, com o ouvido alerta e olhar à espreita na esperança de lobrigar de longe a filha do tabelião. Mas não viu sombra da linda imagem que trazia n'alma.
Encaminhou-se pois ao galinheiro, bem desconsolado de sua vida; e lá deixou, com a ninhada, a esperança de receber naquele dia a lembrança do costume. Ao voltar tropicou com a fraqueza e tremor que lhe deu das pernas.
E não era para menos. Encontrara-se rosto a rosto com a Marta, que ali estava diante dele, palpitante, como um passarinho sob o olhar do gavião, e fechada em seu enleio, como a flor que abrocha em botão, com o temporal.
Tinha a menina cingida ao seio pelo braço esquerdo uma franga de penas mui alvas, que a brancura de sua tez escurecia. Andava triste aquela diva do poleiro, talvez pelo seu estado interessante, pois achava-se no primeiro choco. Daí vinham os desvelos de Marta, que depois de a tratar, ia levá-la ao galinheiro.
Com o susto que sentiu a rapariga dando com o Ivo em frente a si, escorregou-lhe do braço a franguinha que, passado o primeiro instante de atordoamento, disparou a correr. Após ela partiu Marta, e no encalço de ambos Ivo, que se não fez esperar.
Começaram então as corridas e reviravoltas, de que se lembra com saudades quem em menino se divertiu a apanhar uma galinha no terreiro da casa paterna. E os logros que pregava a maldita, e as quedas que se davam no brusco torcer do corpo, e as boas gargalhadas com que se adubava a travessura?
No meio do pega que ia pelo quintal, não sei como foi, que os dons em vez de apanharem a franga, se agarraram a si. Um maldoso era capaz de cuidar que se tinham abraçado.
- Ai! gritou Marta, soltando-se da cadeia que a prendia.
Trêmulo, o rapaz não teve ânimo, nem forças de retê-la; e ficou palerma, a olhar, balbuciando em voz sumida:
- Não foi por querer!...
- É capaz de me pegar?... acudiu Marta com petulância, acenando uma corrida. Nem nada!
- Quer ver?
E o Ivo disparou atrás da menina uma nova corrida, que depois de muitas negaças e risadas, veio como a primeira acabar em abraço.
Desta vez, naturalmente pelo cansaço, deixaram-se ficar os namorados como estavam, arrimados a uma latada de maracujás, juntinhos e entrelaçados pela cintura.
Ápage! Que tremenda algazarra soou de repente na copa da pitombeira Onde já estavam encarapitados o Cláudio e seus companheiros.