Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  O Garatuja José De Alencar - Página 4  Voltar

O Garatuja

José de Alencar

- Está bonito!

- Ai! que desejos!

- Mais outro!

- Bem apertadinho!...

- Agora uma beijoca!

- Ora, sem cerimônia!

- Sô malandro!...

- E o velho tonto que não dá pela maroteira!...

- Pato choco!

- Quiá! Quiá! Quiá!...

- Abraça, abraça, que da pele te há de sair!

- Gostas, hem? Pois hei de dar-te um bem apertado, mas é de embira!...

- Ora vejam que patola!

- Bigorrilhas!

- Desavergonhado!

Esta saraiva de chutas e ditérios misturada de caroços de pitomba, não veio aos esguichos, o que talvez se induza das falas assim apanhadas. Foi uma vaia e caiu de roldão sobre os dous míseros namorados, como o fracassar de um raio que os fulminasse.

Marta, criando-lhe asas o pejo, sumiu-se no interior da casa. Quanto ao Ivo, seu primeiro ímpeto foi afrontar a récua dos minoristas, e expugná-los a pedra. Mas lembrou-se do tabelião, e esfriou; embiocando-se no gibão e esgueirando-se pela cerca, pôde ganhar o corredor.

- Que ficou a cheirar lá por dentro, moço? gritou-lhe o tabelião ao vê-lo entrar.

- Saberá Vossa Mercê que... Sim, senhor, que... a franga deitou a correr, e foi preciso apanhá-la!...

- Apanhar... apanhar... repetiu o Freire arremedando o Ivo com o seu mais esganiçado falsete. Apanhar precisava você na cabeça, mas era um carolo desta régua.

- Alto lá, Senhor Sebastião, que os truques não foram do ajuste.

- Não me respingue, hem!

Ainda uma vez sofreou o rapaz o seu ímpeto, lembrando-se de Marta cujo piso sutil lhe parecera ouvir do lado da porta.

XVII

PROGNÓSTICO TIRADO POR UM TABELIÃO DA ASCENSÃO OU GRAVITAÇÃO DO NARIZ DE SEU ESCREVENTE

Sentado à mesa de cedro, no meio da furna de prateleiras e autos, o Ivo jurou a si mesmo recuperar o tempo vadio, dando conta com a maior presteza da tarefa do edital.

Mas se o corpo ali estava em face da folha de almaço estendida sobre mesa, o espírito lá andava-lhe a correr pelo quintal, fazendo estrepolias por causa da franga, e escondendo-se em um seio palpitante, coberto por um justilho pérfido.

No meio destas cismas, deu o Sebastião Ferreira um tremendo espirro que arrancou o escrevente ao seu enlevo, e o pôs de pena armada, pronta a acometer a abstrusa gíria do edital. Por uma coincidência que mostra quanto é verdade haverem dias caiporas, ou nefastos, como lhe chamaram os romanos, sucedeu que no alto do manuscrito campeava uma letra maiúscula, de golpe bastardo, e essa letra era um M.

Possuído de um repentino fervor, começou Ivo a talhar no ar com o bico da pena os contornos da letra, que afinal se desenhou no papel com um traço finíssimo, como se faz no primeiro esboço da pintura. Satisfeito de sua obra, ficou a contemplá-la com certo enlevo.

Era aquela a inicial do nome querido; e pois não admira que aí se viessem agrupar as doces reminiscências e os fagueiros pensamentos que lhe ei> chiam a alma, ainda mais naquela hora tão próxima do primeiro abraço.

Todas estas abundâncias do coração namorado se derramavam no papel, sobre aquele M adorado, mas pelos bicos da pena em cetrarias ou arabescos de toda a sorte e nos mais delicados lavores de paisagens. Aqui, em um dintorno da letra, eram pombinhos arrulando beijos; ali, pelos travados e ligamentos, anjinhos a brincar esvoaçando entre as flores, colibris beliscando as frutas, e por toda a parte emblemas de amor, como corações agrilhoados, molhos de setas, e cupidinhos vendados.

Tudo isto, ia o rapaz penejando sobre o papel com extrema rapidez, e no fogo da inspiração. Passada porém a primeira efusão, depois que verteu a flor de sua imaginação, no desejo de variar os ornatos e compor novas figuras para as cetras e tabões, entrou a banzar.

Nesse ponto, rondando o cartório com um olhar de esguelha, como era seu costume, o Sebastião Ferreira descobriu o Ivo na postura de um cismático, imóvel, com os cotovelos fincados na mesa, a cabeça presa entre as mãos espalmadas e os olhos pasmados para o teto.

- Hum! fez o tabelião sorvendo uma pitada.

Na sua mocidade gostava o Freire de caçar, e tinha seus galgos e perdigueiros. Dai veio achar ele certa analogia entre um escrevente de cartório e um cão de caça. Ensinara-lhe a experiência que o nariz do bom escrevente deve sempre cheirar o papel, como a venta dó bom podengo farisca o chão. Escrevente que anda com o nariz ao vento, perdeu o rumo, e não há que fiar nele.

Em vista desta regra cinegética aplicada ao tabelionato, o Sebastião Ferreira ergueu-se devagarinho e rodeando por detrás das estantes, na ponta dos pés, achegou-se ao Ivo pelas costas; mas recuou espavorido quando viu o grande M historiado que borrava toda a folha de papel destinada a um edital!

Horrível profanação! Escândalo inaudito, e que podia danar um cartório sempre conceituado entre os mais graves! Fazer de um papel forense uma borradela cheia. de poucas-vergonhas! Sem dúvida que era uma inconcebível enormidade, de memória de homem nunca vista.

Atarascado pela indignação, que o impava como a um velho odre, o tabelião bem quis pregar no atrevido a mais tremenda descalçadeira, que é possível imaginar; mas a raiva apertava-lhe o gasnete, e com violento esforço apenas esguichou uma palavra, que levou a rilhar entre os dentes, de tão cerrados que estavam os queixos.

- Birrrrr... bante!...

Essa cascata de erres despenhou-se como um cesto de cacaréus por escada abaixo, e estrondou na sílaba final.

Não teve o Ivo tempo de voltar a si do susto, pois travando-o pela gola do gibão, o Freire levou-o de arrastão até a porta da entrada, e empurrou-o na rua. Depois do que pela janela varejou o chapéu, o tinteiro de chifre, e tudo o mais quanto pertencia ao perverso rapaz.

Restava a folha de papel onde se estavam desvergonhadamente derrengando os horríveis penejados. Mas o Freire não se animou a tocar nessa obscenidade:

- Suma-me daqui esta pouca-vergonha! intimou ao mais velho dos escreventes. Reduza-a a pó que não fique sinal.

Limpo assim o cartório da praga que o infestara, voltou o tabelião ao seu tamborete, mas não à ocupação, que estava ainda muito cheio do desaforo para cuidar em outra cousa. Contudo não esbravejava; apenas resmungava entre si umas cousas que se não entendiam; e lá de vez em quando assentava uma reguada no próximo bacamarte, e acompanhava-a de uma exclamação neste gosto:

- Marau!...

Ou senão:

- Excomungado!...

Foi assim que em um momento viu-se o Ivo transportado dos jardins esplêndidos de seus castelos encantados para o olho da Rua do Aleixo, onde ainda se achava atordoado com o que lhe acontecera.

Mas não era ele rapaz que sucumbisse com um contratempo. Deitou-se a andar para a casa e em pouco voltou armado de um bodoque. Saltando a cerca do tabelião, na esperança de rever Marta e falar-lhe, o estouvado rapaz consolou-se de sua desventura, fuzilando o Cláudio e sua récua com bolotas de barro e coquinhos da praia, de que trazia os bolsos atopetados.

Os minoristas ainda lá estavam na pitômbeira, à espreita de Marta, para a atormentarem com as costumadas pilhérias e requebros. Assaltados de repente pela metralhada do bodoque, tentaram afrontá-la despejando sobre o Ivo um balde de ameaças e insultos; como, porém, a réplica lhes vinha em carolos que doíam, e já lhes começavam a pular os galos na cabeça e os vergões nas costas, tramaram afinal descer para escovar o pêlo ao atrevido, o que percebido pelo assaltante, inspirou-lhe o prudente arbítrio de se pôr fora do alcance da tal súcia de malandros!

XVII

DA PESCA FAMOSA QUE FEZ O IVO NOS BAGRES QUE LHE PERSEGUIAM A PIABINHA

Enquanto, como o rato no miolo do queijo, o Ivo cocava a menina de seus olhos dentro da própria casa, as impertinências e filostrias dos minorenses, se por um lado faziam-lhe certas cócegas, por outro não deixavam de trazer-lhe seu proveito.

Não era esse atrevimento dos rapazes que fazia a Senhora Miquelina mandar a Marta com recado ao pai a fim de vir pôr cobro a tais demasias, e que portanto lhe dava a ele, Ivo, o contentamento de ver a moça e gozar-se de seu meigo sorriso?

Uma vez porém despedido da casa, e por modo tão duro, imagine-se a gana que tinha o ex-escrevente aos minorenses, sobretudo com a lembrança da vaia que lhe tinham passado e à Marta. Além de que, era o Cláudio um rapaz bem apessoado; e portanto ao enjeitado deviam ferver os ciúmes, vendo-o a requestar a moça com tamanho afinco.

Ia escapando que na semana decorrida depois de sua despedida, tentou o Ivo meios de obter do tabelião que relevasse a primeira falta, e de novo o tomasse ao serviço do cartório. Valeu-se para isso do empenho da Senhora Romana, que já lhe tinha servido de madrinha da primeira vez, a quem para melhor dispor-lhe a vontade levou de mimo um São João Batista pintado por ele.

Desta vez, porém, o Sebastião Ferreira mostrou-se inexorável, e toda a costumada petulância da velha não pôde com ele. Basta que a lembrança do cano de bota recheado de moedas achou-o impenetrável. Nada, que tratava-se da honra do ofício público e decoro de seu cartório.

Reduzido pois, mas não resignado, à antiga e triste condição de pé de muro, vivia o ex-escrevente a rondar as cercanias da casa do Freire, obrigado a se esconder do tabelião, como dos minoristas que não lhe perdoariam as bodocadas.

De tudo, á que mais ralava ao nosso namorado era essa espionagem dos fâmulos do prelado, a qual não só lhe metia sua ponta de ciúme, como impedia-lhe de aproveitar as furtivas ocasiões de falar a Marta.

Um dia faltou-lhe a paciência; e assentou de acabar com aquela penitência, ainda que saísse uma estralada. Levou a cogitar a noite; e pela manhã cedo, foi à ribeira do Rossio do Carmo, e lá arranjou de um camarada pescador um anzol de garoupa com uma guita capaz de agüentar um tubarão.

Como era uso naquela época, a entrada da casa do Sebastião Ferreira tinha, além da grossa porta inteiriça, uma rótula com seus postigos. Mas esta em vez de se conservar fechada, como sucedia no geral das moradas, andava sempre escancarada por causa da passagem freqüente das partes e moços do cartório que iam e vinham na constante labutação forense.

Esquivou-se o Ivo pelo corredor e agachou-se atrás da porta, à espreita.

Não esperou muito tempo. Apenas soou meio-dia ouviu-se um vozeio na rua, entremeado de risadinhas abafadas. Eram os minorenses que vinham na forma do costume bulir com a Miquelina e a filha, e se apinhavam junto à rótula.

Desde certo tempo a mulher do tabelião, para defender-se da apoquentação dos formigões, fechava uma das janelas, e abrigava-se com Marta nesse canto da sala, onde não a podiam bispar os peraltas por mais que enfiassem os olhos entre as gretas.

Mas os diabretes desconcertaram-lhe o plano. Em achando fechada a janela metiam-se no corredor, a espiar pelo buraco da fechadura. Era aí que os esperava o Ivo, a quem desde o princípio não escapara a manobra.

Nesse dia, pois, quando o Cláudio e mais três companheiros estavam mais entretidos em espiar, revezando cada um sua vez de pôr o olho à fechadura, o enjeitado reunindo sutilmente as fraldas das sotainas, prendeu-as com o anzol, cujo cordel tivera antes o cuidado de atar com segurança ao trinco da porta.

Executada a empresa, escapuliu-se o Ivo sem que o pressentissem, e chegando à rótula do cartório, fronteira do tabelião, colou a boca na fresta para gritar com disfarce na voz:

- Uhl uhl velho urubu!

Ergueu-se furioso o tabelião, que brandiu o espadim e precipitou-se para a porta, mas depois de revestir-se de solenidade precisa, encasquetando o grande tricórnio. Seguiram-no os escreventes, armados, como de costume, de vassouras, réguas e tamboretes.

Ao ranger da chave na fechadura, os minorenses advertidos escamaram-se para não serem apanhados em flagrante. No meio da rua, porém, esticada a guita do anzol, esbarrou-os de repente na carreira, dando com eles de trambolhão em terra.

Nesse momento chegava à porta o tabelião que vendo prostado o inimigo, o apostrofou com extrema veemência:

- Corja de biltres!... Malandros!... Sevandijas!... O que vocês mereciam era que eu lhes tonsurasse as orelhas, para dar-lhes juízo, brejeiros!

Entretanto arremetiam os escreventes, de réguas e vassouras em punho, bem dispostos a sacudir a poeira do costado dos rapazes, e aplicar-lhes uma sova mestra. Sentindo fervilhar-lhes o lombo, além de lhes arder as orelhas, afinal levantaram-se os minorenses disparando novamente a correr; mas outra vez a cambulhada dos rapazes, empencados ao anzol, estrebuchou no chão.

Nesse momento, além, na rua, soou uma surriada formidável:

- Formigão!... Uh!... Formigão!...

- Fiau!... Fiau!.

- Basculho de igreja!...

- Morrão de tocheiro!...

- Minhoca de sacristia!

- Rabadilha de frade!...

E todo este berredo cortado de assobios estridentes, e acompanhado pela matinada infernal de umas matracas improvisadas com taquara rachada, e pelo ronco de um imenso caramujo.

Era autor dessa grazinada de ensurdecer, um bando de estudantes leigos, a quem o Ivo tivera o cuidado de avisar, prometendo-lhes um fartão de riso, sem contudo explicar-lhes a peça que ia pregar. Sempre houve, e ainda subsiste uma birra dos estudantes leigos com os seminaristas ou meninos do coro, a quem apelidam de formigão por achar-lhes certa semelhança com a saúva, uma das espécies desse térmita. Com que prazer pois não aceitaram os rapazes o convite do Ivo, e não se esconderam na vizinhança por detrás de uma cerca, à espera do momento?

Surpreendidos com o aparecimento dos estudantes, e vendo-se na presença de testemunhas, os escreventes que sabiam o valor da prova, desistiram da sova que se dispunham a dar. Além de que, percebendo-se afinal a causa dos repetidos trambolhões dos minorenses, dispararam todos em uma estrepitosa gargalhada.

Fustigados por esse riso implacável, Cláudio e os companheiros arrancaram tão furioso sacalão, que afinal escaparam-se deixando no anzol um farrapo da sotaina.

XIX

MOSTRA-SE A VERDADE DOS DOIS ANEXINS, QUE "O BOCADO NÃO É PARA QUEM O FEZ" E QUE "PAGA O JUSTO PELO PECADOR"

Restituído ao tamborete furado, que lhe servia de curul, o Sebastião Ferreira repotreou-se contente de si, e tossiu uma risada, o que antes só lhe acontecera duas vezes na sua vida de tabelião: a primeira ao receber a carta que o confirmava no ofício; a segunda, quando teve a sentença favorável nos embargos opostos ao esbulho que o escrivão da provedoria tentou fazer de suas prerrogativas.

A lição famosa dada aos minoristas do prelado vingava-o não só das contínuas amofinações com que eles o atormentavam e à família todos os dias, mas sobretudo do insólito desacato de que fora vítima quando pretendeu desalojá-los da pitombeira.

- Quem seria o da lembrança! disse o tabelião para os escreventes que olhavam-no embasbacados. Olhem que merecia umas páscoas; e eu que lhas daria de boa-vontade.

Entreolharam-se os escreventes, como consultando a resposta.

- Então não atinam com o cujo?

- A peça foi de truz; agora quem a pregou!... Isso lá como se pode saber! acudiu um.

- Ele parece que não passou... ia dizendo o outro.

- Pois não estão vendo que foi o sonso do Sabino? atalhou o tabelião.

O bloco do rapaz, com a cabeça entre os ombros, fingindo uma certa vergonha de ser descoberta sua estrepolia, escondia de modo a dar-lhe mais tom, um sorriso maligno, empastado nos lábios amarelos.

- Eu não!... respondeu ele dando uma cotovelada na ilharga, o que era sinal certo de grande emoção.

Essa negativa, com o sotaque particular que lhe imprimiu o rapaz, e o revirado d'olhos que lhe servia de asterisco, era a mais ingênua das confissões voluntárias.

São de todos os tempos e de todos os dias estes e quejandos disfarces; pois no fim de contas a lei deste mundo tem por mote aquele versículo do bom Virgílio: Sic vos, non vobis.

Abençoados e felizes da terra, são os vobis para quem trabalhamos nós outros. Na cabeça do rol estão os primazes, vobis coroados, que se divertem à nossa custa, atirando às rebatinhas dos grandes vassalos sacos de ouro e maços de cédulas, fabricados com o suor do pobre e o pêlo que tosam a este povo bonacho!

Voltou enfim o cartório ao habitual sossego e modorra. Acabada a féria, na saída, o tabelião (espantoso sucesso), atirou um peteleco na venta do Sabino, e introduziu-lhe sorrateiramente na munheca um tostão de prata.

Assim foram surripiadas ao Ivo as honras e, o que mais é, o proveito da engenhosa pescaria de formigões, que tivera a fortuna de engendrar não somente para descanso de Marta e alívio seu, como para entrar nas boas graças do tabelião.

Também o culpado fora ele, que durante os trambolhões dos minorenses se deixara ficar escondido atrás da cerca, no meio dos estudantes, que instigava, mas longe da porta onde ficara atado o cordel do anzol.

Entretanto os minorenses, desesperados com a vergonha que tinham sofrido, e abespinhados como os maribondos quando os assanham, ardiam por tomar sua desforra do tabelião, a quem principalmente atribuíam a armadilha de que tinham sido vitimas. Bem desconfiavam eles que aí andavam o dedo e a ronha do Ivo, mas dispostos a pespegar-lhe uma sova a propósito, o primeiro ímpeto foi contra o Sebastião, a cujo mandado obedecera o escrevente. Ignoravam ainda a despedida do Garatuja.

Na tarde daquele mesmo dia, estava o pecador" do Ivo escondido no quintal em segredinhos com Marta, quando o "justo" Sebastião Ferreïra, já de retorno, vinha pela Rua da Quitanda em busca da sua casa à esquina da Rua do Aleixo.

Fora o tabelião dar seu giro do costume, e aproveitara para referir em cada porta o caso engraçado. Agora voltava deleitando-se ainda com a lembrança das gargalhadas que o tinham aplaudido, e caminhava teso e compassado ao longo da cerca do prelado.

Fatal imprudência!

De repente sentiu o Freire meter-se-lhe entre as tíbias, um objeto que ele a princípio cuidou ser a própria bengala; mas não teve tempo de averiguar, porque apesar de sua grave compostura foi obrigado a ir de ventas ao chão e esborrachar a respeitável penca.

Babatando com esforço pôde erguer-se, mas sem bengala nem tricórnio, quando outra vez esgrimiu-lhe pelas canelas a taquara que o Cláudio com os companheiros, enfiavam pelo buraco da cerca. As ventas do tabelião de novo se achataram; e mais uma figueira foi plantada.

Finalmente, fulo de pó e bílis, conseguiu erguer-se o Sebastião Ferreira, mas foi para receber a mais tremenda encapelação, que já sofreu atrevido calouro no pátio de uma academia.

Os minorenses, saltando da cerca, tinham caído sobre ele de petelecos e chufas:

- Uh!... Uh!... mestre urubu!...

- Velho fuinha!

- Estais tonto, pato choco!

- Ora vejam, que pascácio? A cair pelas ruas!

- Se estará triscado!

- Qual! São manhas do sendeiro!

- Agüenta, ó pax-vóbis!

- Olha o casquete, que te esquece! disse o Cláudio fincando-lhe dum murro o tricórnio na cabeça.

- Este traste será próprio? acudiu outro empolgando a penca afogueada do tabelião.

- Com certeza é postiço!

- Puxa-o tu, que logo verás! Eu cá aposto que é beque de algum saveiro! Tanto espremeram as ventas do pobre homem, que afinal rompeu uma descarga de espirros, a modo de fuzilaria, e respingou de tabaco e monco os olhos e a boca dos rapazes. Diante desse fogo rolante fugiram os assaltantes, tomados de nojo e perseguidos pelas galhofas dos companheiros que haviam escapado à metralha narigal.

Nesse momento assomou o prelado à porta da rua, e com sua habitual mansuetude exortou os seus fâmulos, ordenando-lhes que se recolhessem:

- Pode seguir descansado, senhor tabelião, que já os acomodei. Isto de rapazes, são como cachorros, que em pilhando a porta aberta, embestegam por ela afora, e não há ter mão neles.

O Sebastião Ferreira não se dignou ouvir. Amarrotado pela encapelação na qual entretanto nunca perdera a sua gravidade, enveredou para a casa, onde chegou bufando de cansaço e de raiva. O pavio de uma candeia não arderia mais do que o magriço tabelião aceso em ira.

No entanto o Ivo, desapercebido do que sucedera, obtinha de Marta mais um abraço, que vinha completar as duas dúzias em três dias; e animado com esse sucesso atreveu-se, ainda que balbuciante, a pedir uma boquinha.

Teve em resposta um muxoxo, e viu desaparecer como por encanto o vulto da menina, que deitara a correr espavorida.

XX

UM BECA DO SÉCULO XVII QUE NÃO CHEGA AOS CALCANHARES DOS MODERNOS TEMUDOS

À rua da Misericórdia, próximo do Beco do Cotovelo, onde tinha residência, estava o Ouvidor Geral, Dr. Pedro de Mustre Portugal, em sua recâmera particular, atarefado com o despacho de processos.

Era homem de boa fêvera, nédio e socado, com uma dessas gorduras maciças e rubicundas, verdadeira polpa fradesca, da que se cria ao grosso unto do refeitório, e na manga lassa do hábito.

Cá, por fora dos conventos, também a terra produz dessa fécula substancial, quando a pachorra se mete em bombachas ou cuecas, e deita a dormir a consciência. Foi naturalmente por esse modo que o Dr. Pedro de Mustre Portugal obteve a rija carnadura que lhe realçava a compostura, e dava-lhe um aspecto, senão majestoso, certamente que importante pelo volume.

Sentado no telônio, sobre o estrado, esclarecido pela frouxa luz de uma lâmpada de azeite de mamona, o primeiro ministro da Justiça de El-Rei folheava os autos e os ia aviando, não sem escaparem-lhe algumas observações, que nada tinham com as ordenações e os provarás.

- Han-han!... murmurava com certo sonsonete; cá está o Matias Cosme!... Havemos de ver agora em que param as soberbias!... Se, torna a voltar a cara para não se desbarretar quando eu passar? Tornara!...

Salpicou o magistrado esta última palavra com um riso de mofa, e guardou no fundo da gaveta os tais autos, passando a examinar o seguinte da rima que tinha à esquerda, e que a um e um transferia para a direita.

- Oh! oh! oh!... exclamou entre riso. Patrono do réu, o Duro! Há de levar a liçãozinha do costume, para não se ter em conta de grande letrado!... Cuida lá de si para si que pode ensinar aos mais, o pedante!...

Sem consultar a ordenação, nem recorrer ao sujo canhenho, travou o nosso magistrado da pena, e escreveu dum jacto Indeferido, tendo o cuidado de calcar a mão para fazer uma <1etra bem grossa, já que não podia em voz ainda mais grossa chimpar o despacho lacônico e peremptório na bochecha do bacharel.

Destas ingenuidades que tinha o Mustre a sós e entre si, não vão fazer mau juízo a seu respeito. Passava por um dos magistrados mais honestos, que des. de a criação dá Ouvidoria-Geral do Rio de Janeiro haviam nela servido.

Em seu tempo, e isto basta para honrar sua memória, cessou uma balela que toda a gente repetia na cidade. Corria que certos mercadores de São Sebastião metiam-se com os ouvidores logo que estes chegavam à terra, e tanto faziam que os induziam a aceitar de empréstimo alguma soma, com que os tinham a jeito para seus pleitos e os de seus aderentes.

Também diziam de outros que, rendidos aos encantos de alguma ninfa da Carioca, trocavam a venda de Têmis pela de Cupido; e lá se iam ao sabor dos afagos, as sentenças com que Vênus comprava seus atavios e galas.

Ninguém ousou jamais suspeitar o Dr. Mustre de uma peita ou suborno. Cumpria à risca a ordenação não recebendo cartas relativas a demandas; e levava este escrúpulo ao ponto de tratar as partes desabridamente, quando o procuravam.

Tinha pois a consciência de ser um magistrado integérrimo. E seguro de que não o podiam comprar; nem influir por empenho ou ameaça, no exercício de sua jurisdição, do mais não se preocupava. Assim entendia que lhe era lícito sofismar uma lei para dar quinau em um advogado; demorar um processo para vexar a parte e obrigá-la à bajulação; inclinar-se em um ponto controvertido à decisão que favorecia seus amigos; satisfazer enfim todos seus caprichos e veleidades, dando-lhes a feição de opiniões.

É esta a pior espécie dos maus juizes. Acastelados na sua honestidade, que nem sempre é inexpugnável, põem a Justiça ao serviço de suas paixões e venetas; e quando vem o clamor, não falta quem os defenda como íntegros, lançando à conta de erro, o que aliás foi astúcia.

Seriam oito horas da noite, quando bateram rijo à porta exterior da recâmera. Surpreso de que o viessem perturbar àquela hora em seu trabalho, ergueu-se o Dr. Pedro de Mustre para ver quem o procurava.

- Com licença de Vossa Mercê, senhor doutor ouvidor-geral! disse o Sebastião Ferreira arremetendo pela porta adentro.

- Servo do senhor doutor ouvidor-geral!... disse da porta o licenciado João Alves de Figueiredo já nosso conhecido.

- Pode entrar, senhor licenciado; boa-noite, Sebastião Ferreira! Que novidade há?

Ainda revolto pela cena da encapelação, o homem não esperou que voltasse o ouvidor a seu telônio, e foi desde a porta acompanhando-o com a sua queixa.

- Aqui me tem Vossa Mercê em sua presença para querelar do prelado e seus fâmulos que esta mesma tarde me perseguiram com voltas e assuadas, chegando sua malvadez a ponto de me maltratarem gravemente o corpo em diversas partes, como vossa mercê pode ver, sem o menor respeito, já não digo à minha pessoa, mas à justiça de El-Rei, nosso senhor, cuja sou oficial.

Falou neste jeito por meia hora o Sebastião Ferreira, contando os pormenores da afronta que sofrera e acabou apresentando ao Dr. Mustre sua querela em que requeria devassa na forma da Ordenação.

Adivinhou logo o ouvidor que o requerimento era obra do licenciado, e preparou-se para notar-lhe os lapsos ou descuidos, a fim de acachapar o velho advogado com a ciência que lhe dava o provimento de El-Rei; porque da que se bebe nos livros, tinha bem pouca.

Essa presunção de grave jurista ia a ponto no magistrado, que sua rubrica era Dr. Portugal, querendo assim reviver para si a fama de seu homônimo, o Dr. Domingos Antônio Portugal, desembargador da Casa da Suplicação e autor da obra Tractatus de Donationibus Regiis.

Entretanto apesar dessas fumaças, o nosso ouvidor não queimava as pestanas sobre os livros, e além das Ordenações e das Extravagantes, era milagre encontrar-se em casa dele outra qualquer letra de fôrma.

Acabando de ler o requerimento espalmou o doutor a mão sobre o papel e disse com um sorriso:

- Careço de competência, senhor licenciado!

- Com a devida vênia, a ord. do livro 2º, tít. 1º, § 27, é expressa.

- Sem dúvida, quando ao tempo em que foi cometido o malefício, não andava o querelado em hábito e tonsura.

- Verum tamen! replicou o licenciado empertigando-se na ênfase doutoral. Pondere Vossa Mercê que o foro secular tem a primazia, pois a regra é que ninguém pode escapar à manus regia. É assim que a devassa se deve abrir, e os minorenses que venham com os seus artigos na forma da Ordenação, pois a seu tempo se verá se hão de receber-se.

Bem desejava o Dr. Pedro de Mustre dar uma lição ao prelado e vigário da vara pelas contínuas picardias que praticavam, intrometendo-se a cada instante com as cousas seculares. Mas empenhado o seu amor-próprio na questão com o licenciado, esqueceu tudo e meteu os pés à parede.

- Implorando a vênia do senhor ouvidor-geral... disse o tabelião curvando-se.

- Diga!

- Penso que não haverá dúvida, pois os biltres, com perdão de vossa mercê, têm hábito sim, mas de tonsura nem sinal.

- Está bem certo?

- Assim estivesse de obter desagravo.

- Pois há de obtê-lo, que lho digo eu. Amanhã abrirei a devassa. Desque não são tonsurados!

XXI

COMO SE ARRANJAVA OUTRORA UM MOTIM PARA DESFATIO DO BOM POVO FLUMINENSE, EM VEZ DAS INSÍPIDAS LUMINÁRIAS QUE LHE DÃO AGORA

No dia seguinte abriu o Dr. Pedro de Mustre a devassa e, inquiridas as testemunhas, mandou em segredo de justiça lhe fosse o feito concluso para julgar.

Quando chegou à notícia do prelado que o ouvidor estava devassando de seus fâmulos, o reverendo urrou com a afronta, e no primeiro momento disse cousas que muito haviam de alegrar a Satanás, se as ouviu. Vindo a reflexão, mandou chamar o vigário forâneo, o licenciado Vilalobos, e com ele praticou> encerrados ambos na câmera eclesiástica.

Nessa mesma tarde apresentou-se em casa do ouvidor o Padre Rafael Cardoso.

Era uma sexta-feira, e contava-se 30 de outubro. Estava o Dr. Pedro de Mustre aproveitando o tempo em arranjar uma pacotilha para a viagem que tinha de fazer por aqueles dias ao Espírito Santo, onde ia em correição tirar devassa da morte do capitão-mor assassinado à boca-de-fogo, assim como de outros graves malefícios. Apreciador do bom prato, o digno magistrado não deixava, nas suas excursões judiciárias, de levar sofrível provisão de alguns temperos prediletos, que naquele tempo, e talvez que ainda hoje, se não encontravam pelo interior.

Já tinha ele diante de si na mesa vários embrulhos de drogas, e ajuntava uma porção de cominhos espalhados na gaveta, quando entrou-lhe o Padre Rafael Cardoso.

- Deus dê boas-tardes ao senhor ouvidor.

- As mesmas a Vossa Reverendíssima. O que o traz por esta sua casa? perguntou o magistrado com fingida simpleza.

- Motivo bem desagradável, senhor ouvidor; mas está nas mãos de vossa mercê que daí não venham outras e piores conseqüências.

- Como então?

- Bem a meu pesar. e por obediência ao superior, que é um dos preceitos da nossa Santa Religião, venho por ordem do reverendíssimo senhor Vigário-geral, licenciado Francisco da Silveira Vilalobos, notificar a vossa mercê para devolver incontinenti a devassa tirada por esta Ouvidoria contra os fâmulos do reverendíssimo prelado ao juízo eclesiástico a quem só releva este assunto

- Ah! foi só a isso que veio? E se eu não quiser receber semelhante notificação?...

- O senhor ouvidor não fará isso!

- E por que o não farei, reverendo, se desconheço a autoridade com que o vigário-geral ou ainda o administrador se intromete na jurisdição secular, e tem a protérvia de mandar intimações a mim, ouvidor-geral desta comarca?

- Assim, Vossa Mercê persiste?

- Tenho dito.

- Neste caso sou forçado a consignar a vossa mercê três dias para cumprir a notificação sob a pena de excomunhão maior, que em nome do senhor vigário-geral lhe comunico pelas três canônicas admoestações.

Ao ver o tom citatório, que tomou o beleguim do vigârio-geral, e sobretudo ao ouvir a ameaça de excomunhão, teve o Dr. Pedro de Mustre ímpetos de agarrar o padre pelo gasnete, e atirá-lo pela janela fora. Mas avisou que seria derrogar de sua hierarquia, tomar ao sério aquela farsa eclesiástica.

Entretanto havia o Rev. Rafael sacado do bolso da batina um rolo de papel, e depois de ler por três vezes a canônica e paternal admoestação, estendeu o rolo ao magistrado.

- Vem a ponto! disse o ouvidor com ar zombeteiro. Estava mesmo à cata de um papel para embrulhar este cominho!

E seu dito, seu feito.

- Cautela, senhor ouvidor! Veja o que faz!...

O Dr. Pedro de Mustre cresceu para o padre, e calcou-lhe a manopla no ombro:

- O reverendo já fez as suas três admoestações; agora quero eu fazer-lhe uma, uma só e que não tem nada de canônica. Suma-te e não me esgote a paciência.

Não recalcitrou o Padre Rafael Cardoso, que só ao transpor o limiar da porta sentiu dissipar-se o calafrio que produzira nele o olhar do ouvidor.

Ficou em segredo essa ocorrência, da qual não transpirou nova na cidade. Por sua parte o ouvidor acreditando que a tal notificação não passava de uma ameaça para meter-lhe medo, persistiu em não tomar ao sério a empófia do prelado, e a ninguém falou do caso, que ele tinha como não sucedido.

Quanto ao prelado e sua roda, como esperassem reduzir o magistrado a abrir mão da devassa, assentaram que não era prudente metê-lo em brio com a divulgação do fato, o que tornaria indispensável a excomunhão. Embora resolvido a não recuar da grave censura, quando a necessidade o exigisse, entendia o prelado que não devia levar o ouvidor a tal extremo, tendo por mais prudente prevenir do que punir.

Assim decorreu o tríduo da notificação e veio o dia de finados que esse ano caiu em domingo. Durante esse tempo preparou-se o Dr. Pedro de Mustre para a viagem do Espírito Santo, fixando sua partida precisamente para a segunda-feira.

Já o galeão, que o governador pusera à disposição do presidente da comarca para transportá-lo em sua correição, estava sobre amarra, defronte do Rossio do Carmo, aprestado para a viagem e só esperava o magistrado para levar d'âncora e fazer-se ao mar.

A viagem do ouvidor era naquela época fato importante, e pois servia de tema à parlice das calçadas e boticas. Sucedeu que ouvindo falar da próxima partida do Dr. Pedro de Mustre, a qual estava para a madrugada seguinte, o Padre Rafael Cardoso soltou uma risadinha sarcástica.

- Vê-lo-emos!

- Cuida V. Revma que não se partirá o ouvidor?

- Não sei, tornou o padre, metendo-se na concha. Se nesta terra, onde tudo anda em bolandas, se consente comércio com excomungados!...

- Mas então?...

Rompera essa exclamação do pasmo que deixaram na roda as palavras encobertas do padre.

- Deus lhes dê as boas-noites, disse o reverendo embrulhando-se na capa; e sem mais abalou.

Derramou-se imediatamente pela cidade o boato assustador de que o Dr. Pedro de Mustre ia ser excomungado pelo prelado, se àquela hora da noite, sete dadas, já não estava. Uns recebiam a nova persignando-se; outros volviam os olhos em torno, como se receassem o contacto do réprobo; e por toda a parte o rebate ia assoprando no ânimo da população o terror e o assombro.

Não foi Ivo dos últimos a saber da novidade; e atinando com a razão do conflito armado entre o prelado e o ouvidor, sem mais detença tomou seu partido.

Imediatamente deitou-se para o Beco do Cotovelo; mas em vez de buscar a casa, bateu à rótula da tia Pôncia:

- Quem é? perguntou a regateira acudindo ao bater.

- Sou eu, tia Pôncia, não me conhece?

- Ah! o enjeitadinho?. . Ora, esta minha língua escorrega, que é um Deus nos acuda. Mas não foi por mal, menino. E para bem dizer não é crime ser enjeitado, ainda que... Está bem, isto agora não vem ao caso. Então, menino, que bom vento o trouxe por cá? É grande novidade?

- Pois não sabe o que vai pela cidade?

- Eu?... Sou lá alguma abelhuda mexeriqueira para andar metendo o nariz por toda a parte! Mas visto isso, sucedeu alguma cousa? O que é, menino? Ande, não se taça de rogado! Diga de uma feita!

- Ora, faça-se de novas? Então ainda lhe não soou que o prelado ia excomungar o ouvidor?

- Abrenuntio!... Credo!.. - Quem se pode julgar seguro quando a gente grande leva dessas!... Mas é que alguma ele fez, o tal doutoraço, que também não é lá boa rês. Eu desde que vi aquele toutiço de frade, que lhe tirei as inquirições.

- O ouvidor não fez nada de mais, tia Pôncia. O prelado, ou lá sua gente, que eu não duvido fosse ele mesmo, começou a desinquietar a família do tabelião, e como este não esteve pela graça, deram-lhe uma assuada. Era o caso de devassa, e o Dr. Pedro de Mustre por queixa do Sebastião Ferreira, tratou logo de tirá-la, como tinha de obrigação. Daí vem tudo.

- O caso é este?... disse a velha piscando os olhinhos. Pois, menino, adeus, que tenho mais em que cuidar. (

Fechou a Pôncia a rótula; mas poucos instantes decorridos, o Ivo oculto numa esquina a viu sair à sorrelfa embrulhada na mantilha e enfiar rua acima a trote batido.

Era o que ele esperava.

Uma hora depois nos quatro cantos da cidade corria a voz de que o motivo da excomunhão fulminada pelo prelado não era outro no fundo, senão a raiva de ver burlados os seus requebros pela filha, do tabelião.

A tia Pôncia tinha lançado em uma ou duas casas de terço, por onde passou, aquela semente que brotou com rapidez espantosa. O povo murmurava: e teria dado desde logo sinais de descontentamento, se não fosse a hora da noite, pois já estavam muitos recolhidos.

Em todo o caso o motim ficava armado pelas comadres, tão jeitosamente como o fariam as gazetas, que são as comadres do tempo de agora.

XXII

UMA CERIMÓNIA QUE JÁ NÃO SE VI: HOJE EM DIA, APESAR DE AINDA HAVER PROCISSÕES E MASCARADAS DE IGREJA

Amanheceu o dia 3 de novembro sob a grave expectação de um grande acontecimento.

Muito antes das primeiras e tênues alvoradas, abriam-se as portas das casas e os moradores vinham à soleira, na esperança de colher algum vago rumor, que lhes comunicasse o começo do sucesso extraordinário que todos esperavam, mas ninguém previa qual fosse.

Avistando-se uns aos outros, inquiriam-se mutuamente acerca do caso que os punha em alvoroto; mas nada com isso adiantavam, pois nada mais sabiam além do zunzum, que tinha corrido a noite passada, e a que dera causa a indiscrição do Padre Rafael Cardoso.

Quando a primeira barra listrou o horizonte sereno e esclareceu os cimos da Jurujuba, o Dr. Pedro de Mustre Portugal saiu de sua casa, e acompanhado por sua comitiva, composta de dois beleguins e um galego, dirigia-se ao porto a fim de embarcar para o Espírito Santo.

À porta os vizinhos e alguns curiosos que tinham vindo ao cheiro da novidade, se despediam do magistrado com os costumados votos:

- Boa viagem, senhor ouvidor!

- Deus o acompanhe!

- Amém! E o traga a salvamento.

- Que vossa mercê torne, como vai, na paz do Senhor!

E outras muitas variantes da mesma cortesia, a que o Dr. Pedro de Mustre respondia:

- Obrigado, minha gente! Obrigado; até a volta em que espero achá-los a todos em paz com a sua consciência e com a justiça.

Nisso rompeu entre os presentes o Padre Rafael Cardoso, acompanhado de dois acólitos com tochas acesas. Perfilando-se em frente ao magistrado, desdobrou um papel onde se via o grande selo da Igreja, e alçando-o com a mão esquerda à guisa de estandarte, levantou-se no bico dos pés a fim de fulminar do alto com a palavra e o gesto ao corpulento magistrado:

- Auctoritate Dei Patris Omnipotentis et Filii et Spirítui Sancti et beata Dei genitricis Maria, omniumque Sanctorum, pro Vicario generale, te excommunicamus, doctor Petrus de Mustre Portugalis, anathematisamus, et a limitibus sancta matris Ecclesioe sequestramus; et nisi resipuerint et ad satisfactionem venerint, sic extinguetur lucerna eorum ante viventem in soecula saculorum.

Depois de ter ejaculado de um jorro a fórmula do ritual romano, o reverendo ingurgitou-se como um odre para gritar, vibrando a execração com o braço hirto:

- Anathema sit! Amen! Amen! Amen!

O povo em torno caíra de joelhos e automaticamente, possuído de indizível terror, ia repetindo: - Amém!

Ficara o Dr. Pedro de Mustre atordoado com a excomunhão maior que lhe acabava de lançar o padre. Além de não acreditar que o vigário-geral fosse capaz de levar a efeito a sua ameaça, a solenidade da cerimônia e o terror que infundia no povo, o deixaram profundamente abalado.

Quando deu por si, estava só, no meio da rua; já o isolamento do réprobo caía sobre ele; nas esquinas ainda aparecia alguma gente a olhar o maldito; mas não ousava aproximar-se; e os próprios meirinhos, um tanto arredados, procuravam um pretexto para se escamarem.

Ordenou-lhes o ouvidor que levassem aviso do acontecido a alguns amigos e pessoas de conselho, pedindo-lhes para virem à sua casa; feito o que recolheu-se a esperar que chegassem para deliberar com eles no mais consoante à difícil conjuntura em que se achava.

voltar 12345avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal