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O Garatuja

José de Alencar

Entretanto o povo afluía para a casa da Câmara, onde naquele tempo se consultavam e decidiam os mais graves negócios da governação e regimento da terra; pois aí estavam os juizes e procuradores do povo, que formavam o Senado da cidade.

Isto sucedia naquele bom tempo de governo absoluto, em que havia franqueza e lisura. Agora, que se diz por aí vivermos em regime constitucional, ainda se ajuntam no mesmo sítio, onde era a antiga vereança, os que se inculcam de representantes da nação; mas já nas suas horas de aflição, nos seus dias inquietos, o povo não aflui mais para ali, pois tem os mais olhos voltados para São Cristóvão.

Ao rebate que ia pela cidade acudiu logo o juiz do povo, João Batista Jordão; como presidente que era da Câmara, convocou todos os oficiais dela, e bem assim os homens bons e o povo, para em vereação avisar-se sem perda de tempo sobre o caso estranho e tão fora da norma comum, que não havia exemplo de outro.

Estavam já bem excitados os ânimos. A insistência que fizera o prelado para a mudança da Matriz, era ainda muito recente; e deixara viva no espírito popular certa indisposição contra o Dr. Almada.

O povo tem a religião do passado: ele venera as tradições da pátria e da cidade; deleita-se com as relíquias e antigualhas, que lhe são como recordações da infância, e lhe retraçam o berço onde se embalou à sombra da fé rude de seus antepassados. Por isso não há mais puro santuário da história, do que seja o povo.

Os fluminenses daquela era, em que a vida não se tornara ainda uma empresa a comanditar, tinham seu fraco pela velha igreja, que primeiro se erguera na terra selvagem da Guanabara; e eram particularmente devotos de São Sebastião, que, na sua crença ingênua, se mudara para o Rio de Janeiro a fim de servir de patrono a essa terra de sua predileção.

Esse fermento de desfavor contra o Dr. Almada, veio azedá-lo a excomunhão do ouvidor, geralmente atribuída na cidade aos escândalos do prelado que sabiam ser derretido por mulheres, e que se metera a engraçar com a filha do tabelião.

Se ainda havia alguma consideração nos ânimos tolhidos pelo respeito à igreja, desapareceu de todo com a irrupção que fez na praça um magote de rapazes. Era a corporação dos estudantes, que vinha também requerer à Câmara remédio contra o excesso e exorbitância da autoridade eclesiástica.

Já naquele século, essa respeitável corporação tinha aquele "diabo no corpo", que no tempo de hoje faz estrepolias nos exames, e mais tarde deve produzir a alma nova da nação, a mocidade regeneradora de uma sociedade católica.

Não era de admirar, pois, a parte ativa que tomavam os estudantes no motim; sobretudo sabendo-se que Ivo estava à frente deles, e os fazia rir a gargalhadas.

XXIII

ONDE SE VE TRABALHAR A GOVERNANÇA ANTIGA, E SE RECONHECE QUE NESSE MECANISMO HAVIA DE MAIS UM CILINDRO CHAMADO POVO, QUE HOJE NÃO EXISTE

Agora que são conhecidas as causas do alvoroto em que se achava esta pacata cidade na manhã de segunda-feira, 3 de novembro de 1659, podemos continuar a narrativa dos sucessos que ocorreram depois.

Acabava de entrar no Rossio o Dr. Pedro de Mustre Portugal, com o seu acompanhamento da gente de justiça; encaminhou-se ele direito à vereança onde era esperado, e foi recebido no maior silêncio, com uma tão ansiosa curiosidade, que modernamente na linguagem parlamentar chama-se - "movimento geral de atenção" - e é a canela com que os taquígrafos, umas vezes por ironia e outras por lisonja, polvilham a insípida aletria de certos discursos.

- Senhor juiz do povo, oficiais da Câmara, homens bons da cidade e quantos me ouvem: A Vossas Mercês em Câmara, venho expor o mais grave atentado cometido contra a majestade de El-Rei, nosso senhor, e sua autoridade que a todos nós fiéis súditos, cumpre defender.

Narrou o ouvidor o conflito suscitado pelo vigário-geral a propósito da devassa; e arrazoando largamente sobre a incompetência da autoridade eclesiástica para avocar a si o processo da alçada, declarou que ia ordenar a prisão dos autores da assuada, por ser caso disso; e concluiu com a excomunhão que naquela manhã lhe fora lançada.

- Dessa iníqua e exorbitante censura, atentatória da autoridade real de que estou investido e com a qual oficiava, já apelei coram probo viro, e de novo apelo ante omnia a precepto comminationis, porque desconheço qualquer jurisdição que possa tolher a execução da lei, e empecer no exercício de suas prerrogativas ao Soberano de quem todos, eclesiásticos e prelados, são vassalos e súditos, como o restante do povo. E assim requeiro que se tome em Câmara a minha apelação para produzir seu efeito suspensivo, até que Sua Majestade resolva.

Em vista da gravidade do caso, deliberou o Senado pedir ao governador e capitão-general a sua assistência pessoal em Câmara; ao que deferiu ele permitindo que viessem os vereadores a seu quartel ou residência, no que se acordou para o dia seguinte. E não só por dar maior solenidade ao ato, como para melhor esclarecer o intrincado ponto de praxe forense, sujeito à disputação, deliberou a Câmara convidar os mais afamados doutores in utroque jure, que floresciam então na heróica cidade de São Sebastião.

Foram, segundo rezam as memórias do tempo, os seguintes luminares, de cujos nomes sacudimos a poeira dos tempos para enviá-los à posteridade com esta crônica: os reverendíssimos Frei Pedro e Frei Mauro da Trindade, da Ordem de São Bento; os carmelitas Padre-Mestre Frei Francisco de Lima, Frei João Pacheco e Frei Antônio da Conceição; o Padre Francisco Madureira, da Companhia; e o padre-mestre pregador da Ordem de São Francisco; este na classe dos teólogos; quanto aos juristas sabemos do licenciado João Alves de Figueiredo (que era o patrono do tabelião), e mais Gaspar Leitão Amovo, Dionísio Mendes Duro, Antônio de Barros e Bartolomeu de Oliveira.

Bem se vê quanto já era abundante de letrados a cidade de São Sebastião e se naquele tempo estivesse em uso. a empreitada de códigos e leis, não faltaria quem a tomasse.

Entre aqueles nomes que citamos figuraram também o D. Abade de São Bento, o prior do Carmo e o provincial dos jesuítas, pela razão mui simples de que, sendo os cabeças de sua ordem, não podia haver aí sabedoria que não viesse deles, por mais duro que tivessem o casco.

Deviam estes luzeiros da ciência solver a importante questão de que dependia àquela hora a paz e sossego da cidade, a saber: se a apelação interposta da excomunhão tinha ambos os efeitos e portanto suspendia a pena espiritual. Hoje não se faria tamanho barulho e gasto de saber com uma questão forense; cada juiz nasce mestre, tem a jurisprudência infusa; não carece de ler, nem de consultar: é o que sai.

Enquanto nas livrarias dos conventos e telônios de advogados se deitam abaixo as rimas de bacamartes, e se vão espoando os alfarrábios de cujo ventre hão de sair as eruditas citações para lardear as consultas, os vereadores, tendo provido à urgência do caso, trataram de jantar. Pautados pelo antigo anexim romano - Sine Cerere et Baccho friget Venus - já naquele tempo entendiam os conspícuos senadores fluminenses, que de barriga vazia não se pode deliberar sobre a governança e regimento dos povos.

Por outro lado, pensaram eles que era de bom conselho deixar esse intervalo de um dia para arrefecer a irritação popular. Donde se vê que a protelação, esse achaque de nossa administração, vem de longe: é mal crônico.

O motim, que se formara pela manhã, não tinha aumentado, mas conservava-se no mesmo estado de surda agitação, como a tempestade encadeada pela calmaria. Sentia-se ali dentro, no seio da turba, a ebulição da cólera popular; mas alguma força oculta a sopitava.

O respeito tradicional à religião, o terror da Igreja, e os sentimentos de devoção que animavam os fluminenses, deviam conter os ímpetos da indignação popular contra o prelado, que no fim de contas, apesar de quanto o acusavam, era não somente um sacerdote, mas a primeira autoridade eclesiástica da igreja fluminense.

O povo é sempre assim: uma força magna e irresistível, porém cega. Carece de nem o dirija, e o maneje. O que dispõe desse poder tem a revolução fechada em sua mão.

Era essa cabeça que faltava então ao povo fluminense. O motim ali estava no meio da praça como uma bombarda carregada de metralha, à espera que lhe acendessem a mecha, e o arrojassem contra a arrogância eclesiástica, para a derrocar em um momento.

Qual seria porém esse que ousasse empunhar o cutelo popular? Os principais da cidade, aqueles que andavam na governança e estavam no costume de conduzir a plebe? Esses, ainda mesmo servindo-se dela para promover seu interesse, temiam-se da agitação mais forte que pudesse desencadear-lhe as iras.

Naquela emergência, estimaram os vereadores a manifestação popular que os apoiava; mais do que isto, porém, seria perigoso, e fora de toda a regra, pois tinha o povo seus procuradores e conselheiros para avisarem no que mais convinha, e prover a tudo que fosse para seu bem.

Estava portanto gorado o levante, se o Ivo percebendo o jeito que tomaram as coisas, não se incumbisse de arranjar a cabeça que faltava ao tronco popular.

Veremos como se houve nesse mister.

XXIV

PROCESSO PELO QUAL INVENTOU O IVO O QUE HOJE SE CHAMA O HOMEM DA SITUAÇÃO

Ao toque de meio-dia foram-se dispersando os magotes da gente. Os moradores tornaram a casa onde os esperava o caldo, pois não havia naquele tempo quitandeiras e freges, onde o popular achasse jantar a qualquer hora e em cada canto.

Depois da refeição as ruas de novo se encheram; mas como nada mais ocorrera de novo, e as cousas continuavam no pé em que a tinha deixado pela manhã o Senado fluminense, concentrou-se o ânimo da população na expectativa do dia seguinte, no qual à vista do acórdão tomado em Câmara, com a assistência do governador e conselho dos luzeiros da ciência, se tinha de decidir a questão.

Correram pois as horas da tarde em sossego; os ranchos de povo que desfilavam pelas ruas, embora animados ainda por um resto do alvoroto da manhã, já não tinham aspecto irritado e sôfrego, mas ao contrário, palravam com moderação a respeito das ocorrências do dia. o garatuja 65

O assunto que de preferência os ocupava era o voto dos teólogos e juristas consultados sobre a intrincada questão; faziam conjeturas e comentos acerca das disposições de cada um, e do alvitre que adotaria.

- Olhem! acudiu um orador de esquina, dos que hoje abundam. Os padres do Colégio, esses podem ter certeza que são contra o Almada, pois é seu costume andar sempre a jogar as cristas com os bispos, prelados et reliqua. Lá quanto aos outros é perder a esperança; então os beneditinos!... Se o Almada não se sai do mosteiro!...

No meio destas diversões veio a noite, e com ela outra vez se escoou o poviléu, deixando ermas as ruas escuras. A pouco e pouco foram-se extinguindo os fogos, e não tardou que a cidade dormisse a sono solto.

Lá pela volta das dez horas, foi o silêncio profundo da noite quebrado por um tanger de sino, que despertou parte da população. Pelo toque logo se reconheceu que era rebate no campanário da Câmara, o que ainda mais espanto causou, sobretudo no estado em que se achavam os ânimos.

Abrindo as portas, e saindo à rua, avistaram os moradores por cima dos telhados, lá para as bandas do Rossio do Carmo, um clarão, que avultava no meio da profunda escuridão da pequena cidade, a qual não conhecia ainda nem os lampiões de azeite de peixe, quanto menos o gás.

- É fogo! disseram.

Os primeiros despertos correram direitos ao ponto e de caminho iam dando vozes e rebates de fogo, que avisavam os mais; de modo que em poucos instantes meia cidade corria pelas ruas, e a outra não tardava a acompanhá-la.

Esbarrou-se a multidão com uma cousa que não esperava.

No alto do pelourinho estava um retábulo armado com pintura de transparente. A tela esclarecida pelo anverso com cabeças de breu representava em grande o vulto de São Sebastião, baixando do céu ao Morro do Castelo. Com uma vergasta que tinha na mão direita, o divino padroeiro expelia da sua cidade uma caterva de porcos que se tinham introduzido nela e estavam a fossar-lhe os muros. Na mão esquerda tinha o Santo arvorada sua bandeira, e a confiava à guarda do Sebastião Ferreira Freire, ali pintado em própria figura.

Mas o traço, sobre todos notável do painel, era que os porcos tinham tonsura e cara de gente, vendo-se no maioral da frente a do prelado, e em seguida toda a fradaria, que o rodeava, desde o vigário-geral até o Cláudio minorense.

Atinando com a alegoria, a multidão disparou em um frouxo de riso, cujo burburinho cobriu o murmúrio das ondas a rolar na praia. Rompeu a revolução da gargalhada, a mais assoladora, e às vezes a mais cruel de todas as revoluções.

O respeito de que o seu caráter sacerdotal cingia o prelado, a força moral, essa formidável barreira que resiste às iras populares, nos seus mais terríveis assomos, o ridículo a acabava de aluir com um sopro.

Era obra do Ivo, bem se percebe, a tal alegoria ou como hoje diríamos, a caricatura, e não ficava somenos nem pelo chiste, nem pelo desenho, às melhores que figuram ai pelas ruas da corte em dias de carnaval.

Desde meio-dia trabalhara o Garatuja sem descanso, ajudado pela malta de estudantes que pulava de contente com a estrepolia, e aplaudia a lembrança do rapaz, sem importar-se com o desacato à religião, que estavam preparando naquele retábulo.

Enquanto de pintava, os outros preparavam a armação e as cabeças de breu para o transparente.

O rebate foi dado por um pirralho, que animosamente trepou ao telhado da casa da Câmara, e lá se foi com a sutileza de um gato até o campanário, onde debruçado à beirada, conseguiu tanger o sino.

Entretanto o povo, passada a primeira impressão, indagara entre si do autor dessa lembrança; e não faltava quem atribuísse o inesperado e misterioso aparecimento do retábulo à intervenção do poderoso São Sebastião que aí se representava para assim comunicar sua vontade aos moradores da cidade. Esse encanto do maravilhoso é irresistível para a imaginação popular.

Aproveitando o momento de comoção, Ivo galgou os degraus da pilastra hasteando uma bandeira de São Sebastião, em tudo semelhante à do painel:

- Povo de São Sebastião, é preciso entregar sua bandeira àquele a quem o nosso divino padroeiro escolheu para defendê-la!

- Bem avisado! gritou uma voz.

- Vamos sem mais detença à casa do Senhor Sebastião Ferreira, nosso tabelião!

- À casa do tabelião! gritaram todos.

Estremunhado de sono, saltou o Freire da cama aos clamores que o apelidavam, e às tontas chegou à janela para ver o que lhe queriam; mas não antes de lhe assegurarem de fora que eram de paz.

Num instante a turbamulta o envolveu e arrebatou: de modo que o pacífico tabelião achou-se sem acordo próprio e quase sem conhecimento de si, no meio da rua, levado em charola, com a bandeira de São Sebastião arvorada na sinistra, e uma catana empunhada na destra.

Como isto se fizera, não o sabia ele. Viu-se no meio de um torvelinho de gente, e cercado, de fogaréus, que lançavam pelas ruas onde passavam uns lampejos sinistros e faziam-lhe calafrios, lembrando-lhe os autos-de-fé.

Eis como inventou o Ivo o "homem da situação". O que ele fez com o seu pincel, ainda hoje há quem o faça com uma gazeta, e com o mesmo desembaraço e petulância. Do que não se precisa mais é de povo, essa antigualha sem serventia. Paga-se a música dos alemães; abre-se uma finta com o nome de subscrição para retrato ou jantar; e aí está uma notabilidade, um chefe de partido, um medalhão.

XXV

UM DOS CASOS EM QUE A AUTORIDADE OBTEMPERA PRONTAMENTE A VONTADE DO POVO, E TIRA A SARDINHA COM A MÃO DO GATO

A troça dos estudantes com o Ivo à frente, servia de vanguarda ao motim, e fazia uma algazarra tremenda ao estalo da matraca, e ao zunido das cega-regas.

- Abaixo o prelado!

- E mais a sua clerezia!

- Fora com a súcia!

- Não queremos simonia!

- Â fogueira com eles!

- E os formigões?...

- Havemos de pô-los à viola!

- Qual viola, uma pisa!

- E o tal Cláudio?...

- Eu cá, em o pilhando, migo-lhe os focinhos!

Tomando a direção que lhe deu o Ivo, chegou a multidão em frente à casa do ouvidor, a quem saudou com repetidos clamores, instando por sua presença.

Velava ainda o Dr. Mustre, cogitando nos sucessos do dia e suas conseqüências; e pois ouvindo os reclamos do povo, acudiu pronto. Foi recebido com estrondosa ovação ao aparecer no lumiar da porta.

- Viva o Dr. Portugal!

- Viva!...

- Por muitos e longos anos!

- Viva!...

- São Sebastião, pelo nosso ouvidor!

- Pelo nosso ouvidor!

Destacou-se o Ivo, e acenando aos sujeitos que traziam em charola o Sebastião Ferreira para chegá-lo à frente, assim falou ao magistrado:

- Aqui estamos, os povos da cidade, e o Sr. Sebastião Ferreira Freire, a quem por influição do seu e nosso divino padroeiro, escolhemos e nomeamos por nosso procurador para defender-nos contra a arrogância da clerezia; e todos vimos para requerer a vossa mercê, como ouvidor de nossos agravos e principal ministro da Justiça de El-Rei, aquela que nos é devida, pela afronta que sofremos na pessoa do nosso tabelião.

- Queremos despicá-lo!

- Cala-te daí! Deixa falar o rapaz.

- Está conclusa em mão de vossa mercê, continuou o Ivo, a devassa tirada contra os criados do prelado; e porque não é bem que se retarde a punição dos culpados, pedem os povos aqui reunidos que vossa mercê profira sua respeitável sentença, para ser executada esta mesma noite; assim que daqui não sairemos sem ela.

- Venha a sentença! gritou a turba.

Não podia o Dr. Mustre cogitar melhor desforra contra o prelado do que essa que lhe acabava de sugerir o Garatuja.

Vendo-se apoiado pela efervescência popular, e podendo em todo o tempo escusar-se a pretexto de coato, decidiu-se o magistrado a responder à mitrada com uma chibatada de sua vara branca de ouvidor.

- Despachar os feitos com a maior presteza, é da obrigação do juiz: como é da minha satisfação prover as urgências dos povos de minha jurisdição, e deferir as suas súplicas, sendo elas fundadas em boa razão. Esperai enquanto torno!

Já se dissipara o atordoamento em que havia caído o Sebastião Ferreira; mas ao passo que fora saindo desse embotamento moral, o começara a invadir uma sorte de embriaguez: era a carraspana dessa jerebita, que chamam popularidade, e à qual não resistiam os pacíficos tabeliães de outrora, como também não lhe escapam hoje os nédios e maciços barões.

Vendo-se à testa daquele ajuntamento de gente, que requeria dos ministros d'El-Rei em tom de mando, e não de súplica, o nosso tabelião revestiu-se da sua importância de cabeça dos povos de São Sebastião, e enchendo-se de entusiasmo, exclamou:

- A sentença, senhor ouvidor, pois se recusais a estes povos a justiça real, não estranheis que apelem eles para a justiça de Deus!

- Sim, apelaremos!

- Apelemos já!

- Â toca do padre!

- Deite-se fogo à casa!

- Devagar, camaradas, clamou Ivo; é preciso fazer as cousas em regra. Se os bichos têm de ir lá parar, que vão com todas as cerimônias.

- Assim é!

- Esperemos a sentença.

Esta não se demorou. Breve assomou de novo à porta o Dr. Mustre, que deu leitura do decreto judicial pelo qual declarando precedente a devassa, sujeitava a prisão e livramento aos minorenses, fâmulos do prelado, ordenando se incluísse seus nomes no rol dos culpados, e se expedisse mandado de captura.

Com uma salva de aplausos foi acolhida a sentença, da qual o escrivão ad hoc lavrou logo o termo de publicação, passando incontinenti o mandado de captura, que foi entregue aos beleguins da Ouvidoria para o cumprirem com assistência dos povos.

Poucos momentos depois atopetava-se a multidão na Rua da Quitanda em frente da morada do prelado, cuja cerca foi invadida, e posta em sítio a casa. Esta conservava-se fechada como estava, e em silêncio, apesar do vozeio e burburinho do povo. Adiantou-se o beleguim, e batendo na porta com a vara, proferiu a seguinte intimação:

- Em nome d'El-Rei, e por ordem do senhor ouvidor-geral, intimo os moradores da casa, ou quem nela estiver, a que abram a porta a fim de cumprir a diligência que me foi ordenada, e não o fazendo à 3ª notificação, procederei a arrombamento e penetrarei à viva força e de mão armada, se for preciso.

Mal acabava o beleguim, que de supetão abriu-se a porta e assomou nela o vulto do prelado.

- Retirem-se, desavergonhados, que não se pisa a soleira desta casa, sem nossa vênia!

- Vênia? Nós do povo lha escusamos.

- Avie com isso, meirinho!

Impelido pelo arrojo do popular, o meirinho desenrolou o mandado:

- Com o presente mandado de captura, requeiro a Vossa Reverendíssima, Sr. Dr. Manuel de Sousa Almada, que entregue à prisão os seus fâmulos, Cláudio de Sousa...

- Insolente, bradou o padre, cuja cólera fez explosão. Desafio-te e a essa canalha, que transponham o batente desta porta. Aquele que o fizer será maldito; em nome de Deus o excomungo, e o teto desta casa se abata sobre os ímpios que a profanarem.

Ante essa execração, feita com gesto solene e voz retumbante, a multidão recuou pávida; mas ali estavam os estudantes para meterem o padre a ridículo, desarmando-o assim do prestígio que devia exercer no espírito daquela gente.

Rapazes, em lhes dando para rir, não respeitam as cousas mais sagradas; assim que soltaram os garotos um chorrilho de impropérios:

- Como grunhe o cevado! gritou um brejeiro, aludindo ao painel.

- Anda lá, acudi ti outro farsola; deite os bacorinhos para fora!

Romperam as gargalhadas e chacotas com que a multidão, de novo excitada, assaltou a casa do prelado.

Terríveis deviam ser as conseqüências desse embate da onda popular, e não era dado prever, os excessos que praticaria essa plebe, irritada com a resistência, e dirigida por meia dúzia de rapazes estouvados.

- Entregue os réus!

- Queremos os .minorenses!

- Havemos de trancafiá-los na cadeia.

O prelado esmagou-os sob o olhar altivo e recolheu-se com a dignidade de um ministro da Igreja.

XXVI

AINDA UMA VEZ SE PROVA QUE O POVO É EM

TODOS OS TEMPOS A MESMA CRIANÇA TRAVESSA, A QUEM SE ENGAMBELA COM UM DOCE OU UM BONECO

Felizmente nesse momento da maior exacerbação, apareceram ali os camaristas, acompanhados de outros moradores que andavam na governança da terra, e tinham preponderância sobre o povo.

Avisados do tumulto que ia pela cidade, e do perigo que ameaçava o Dr. Almada, receosos por um lado dos desmandos populares, e por outro do desagrado d'El-Rei que por certo não levaria a bem o desacato à Igreja com ofensa da dignidade prelatícia, tinham os principais acudido com presteza no intento de evitar algum desastre.

Chãos e simples. como eram, os 'homens bons" daquele tempo valiam mais sem contestação do que os 'eminentes estadistas", que por aí andam a granel, pois não há gazeteiro que os não amasse em tal quantidade que o forneiro-mor ocupado em cozinhá-los para ministros, não lhes dá vazão.

Às suasões do Batista Jordão, o juiz, às advertências e rogos dos mais camaristas e principais.. moderou-se a turba, sofreando os ímpetos com que já investia contra a casa do prelado. Porventura obteriam os prudentes que se retirasse o ajuntamento, e aguardasse o povo a resolução que ia tomar o Senado, se não fosse a rapaziada, que embirrou em levar a sua avante.

- Sem os formigões, daqui não arredaremos o pé!

- Querem que nos retiremos? Pois dêem os culpados à prisão.

- Cumpra o mandado!...

- Ou havemos nós de cumpri-lo.

- Não reconhecemos couto!

- Faremos respeitar a justiça d'El-Rei!

- Não o afrontarão na pessoa do seu ministro, que não consentimos!

Estas vozes carregadas de ameaças, circunscritas no princípio ao tropel dos estudantes, se propagavam logo pelo grosso da multidão. Conheceram os camaristas a dificuldade de obter a dispersão do povo. sem até certo ponto atender à sua reclamação, que no fundo era da maior justiça, pois não pedia mais do que a execução de um mandado expedido pela Ouvidoria da Comarca.

Assentaram então os apaziguadores do motim em instar com o prelado para entregar os minorenses à prisão, por bem da paz e para evitar dano irreparável.

- É preciso lavrar o auto de resistência, ponderou um dos camaristas.

- Meirinho!...

O beleguim sacou do bolso o tinteiro de chifre, e sentando-se na soleira da porta. começou a lavrar sobre o joelho o auto de resistência que precede ao arrombamento.

Aproveitaram-se os camaristas dessa pausa para interporem sua mediação; e avisado o meirinho que demorasse quanto pudesse a sua grifaria, alcançaram o juiz e o procurador que o prelado os admitisse a entrar para conferirem sobre o caso.

A princípio mostrou-se intratável o reverendo; mas ouvindo a vozeria do povo. que já revolvia-se impaciente com a demora da conferência, e percebendo o terror de que se achavam possuídos os próprios camaristas, assustados com os excessos em que ia romper o motim, tornou-se mais acessível à acomodação.

Insistira o juiz nestes termos:

- Não dizemos que Vossa Reverendíssima entregue seu sobrinho, ou aqueles fâmulos seus de mor estimação; porém os outros... se os entregasse, podia-se alcançar do povo que se aquietasse, enquanto que assim recusando-lhe tudo, vai-se irritando, e ao cabo quem sofre somos todos nós.

- Os clérigos menores, de hábito e tonsura, fâmulos da Igreja, de que sou humilde ministro, esses, senhor juiz, não há poder que mos faça entregar à justiça secular, da qual não são súditos.

- Neste caso caia sobre Vossa Reverendíssima o peso das calamidades, que vai acarretar a sua obstinação.

- Havia um meio, insinuou o prelado.

- Vossa Reverendíssima dirá.

- Tenho aí dois moços que ainda não receberam a tonsura, mas destino-os também para clérigos, se forem aptos. Esses, vestindo-lhes o hábito, podiam servir para apaziguar a canalha, se Vossas Mercês interpuserem seu bom conselho.

O primeiro impulso dos camaristas foi repelir essa mistificação, mas urgia um remédio qualquer, se não queriam ver desencadear-se a fúria popular, alagando a cidade de sangue.

Vieram os tais moços, como os chamava o prelado. Eram um moleque e um caboclo, ambos cativos, os dois coitados, que iam servir de vitimas expiatórias das estrepolias dos minorenses. Vendo-os, quiseram recuar os camaristas; mas o povo fora rugia de cólera, e começava a assaltar as janelas com pedras e calhaus.

- Ao menos, observou o Chaves, que era gracioso, arranjemos-lhes uma tonsura, ou coisa que se pareça. Venha lá uma tesoura.

Enquanto se metiam o moleque e o caboclo em hábito e tonsura, saiu o juiz à porta:

- Moradores de São Sebastião, e povos da cidade! Por bem da paz e sossego de todos pensamos em conferenciar com o reverendíssimo prelado sobre a entrega dos réus; e mostrando a plena justiça da vossa reclamação, o reduzimos a restituir desde já à prisão dois dos culpados, fazendo o mesmo aos outros logo que os tenha à mão.

- Todos, queremos, todos e já!

- Mas como? gritou o Chaves. Se amolaram as palanganas, e lá se vão zunindo!

- Aonde?

- Para o mosteiro em busca de asilo. Agora é assobiar-lhes às botas, ou aos calcanhares.

- Pega! exclamou um mais ardente e disparou a correr.

Outros o seguiram maquinalmente. Ao mesmo tempo o meirinho com seus acólitos, capturando os dois improvisados minorenses, se afastaram com eles, levando após a maior porção do povo.

Assim conseguiram os camaristas salvar a casa do prelado da devastação que a ameaçava.

A poucos passos de distância os estudantes, expulsando os beleguins, tomaram conta dos presos e fizeram com eles coisas do arco-da-velha. Basta que, no dia seguinte, o caboclo amanheceu em cuecas, atado a um mastro, à guisa de judas em sábado d'aleluia, e com o couro pintado de azul. Quanto ao moleque, nu em pêlo, com uma crosta de vermelhão que o envolvia do cabelo à sola dos pés, e com o apêndice de um cabo de navio servindo-lhe de cauda, saltava no meio da rapaziada em figura de diabrete, e representava menos mal o seu papel de palhaço do inferno.

Era já dia claro; e ainda o motim percorria as ruas da cidade, esperando a hora da sessão, que a Câmara convocara para o quartel do governador.

XXVII

ONDE SE VÊ A IMPORTÂNCIA JURÍDICA DO MEDO NA DECISÃO DOS CASOS MAIS INTRICADOS DA TEOLOGIA

A casa de residência do governador, ou seu quartel, como diziam então pelo respeito ao elevado posto de capitão-general, ainda estava por aquela época na Rua da Cruz, que depois veio a ser Rua Direita, e ultimamente com o sestro em que deu a nossa vereança passou a Rua de 1º de Março.

Essa mania de mudar os nomes às ruas e pô-los à moda, é nada menos que uma barbaria e degradação igual à que se perpetrava com os antigos monumentos e quadros empastando-os de arrebiques à moderna. Em um caso, profanação da arte; em outro, profanação da história: dois relicários do coração humano.

Nas mudanças sucessivas por que passa o nome de uma parte da grande cidade, escreve o povo fluminense um capítulo da sua história íntima. Assim, folheai essa página de pedra e cal, que se chamava até o ano atrasado Largo do Paço.

Sua primeira designação, nos tempos primitivos, foi campo do Ferreiro da Polé. Subiu depois a Rossio quando as casas o cercaram. Carmo, atesta a edificação do convento dessa Ordem; Terreiro do Governador, a residência da primeira autoridade da capitania; Praça do Palácio, a elevação de cidade a capital de vice-reinado; e finalmente Paço, a corte real que pouco tardou em trocar-se por imperial.

Entretanto que significa Pedro II escrito naquelas esquinas? Simples lisonja de cortesão. O augusto filho do fundador do império não tem particularidade alguma com essa praça, onde estão os paços que, se hoje o hospedam, foram de seu pai e de seu avô; e triste daquele a quem cinge uma coroa, se carecesse de uma esquina de rua para ir à posteridade!

O que dizemos do primeiro cidadão, aplica-se aos patriarcas e aos outros medalhões da política. Erijam-lhes estátuas de ouro, se quiserem; levantem-lhes monumentos de bronze; dediquem-lhes templos e altares; mas não se meta a câmara a tralhona, usurpando essa prerrogativa do povo soberano de criar os nomes e formar as tradições de sua cidade natal.

Se não mente a crônica, era no lugar onde está hoje a Caixa da Amortização e Correio, que se levantava a residência do governador, a qual foi destruída na invasão dos franceses em 1710.

Para aí se dirigiram desde as 7 horas o juiz e oficiais da Câmara, bem como as pessoas gradas e sabedoras pelo senado convocadas; iam todos solícitos de acudir com pronto remédio ao sucesso extraordinário que desde a véspera trazia em alvoroto a cidade.

Esperava-os o Governador Tomé Correia de Alvarenga, não menos sôfrego de pôr termo à agitação do povo. Durante a noite, ciente do que ia pela cidade, mandou ficar sua guarda assim como a gente do terço a postos e de prontidão para o que pudesse acontecer; mas fez-se desentendido, e absteve-se da menor intervenção.

Empenhado em arranjar uma representação da Câmara e povos de São Sebastião pedindo a El-Rei para provê-lo, a ele Tomé Correia, no efetivo governo das capitanias no sul, que estava servindo interinamente, tratava de agradar a todos e pois não lhe convinha tirar razões e ir às mãos com o motim que era lá com a clerezia.

Ao entrar a sessão, ouviu-se na rua grande alarido. Era a troça dos estudantes que voltava, trazendo no centro o tabelião e à frente o moleque lambreado de vermelho, e montado em um cabrito. Atrás vinha uma súcia de meninos que seguravam a cauda do diabrete, como se fosse a amarra de uma âncora.

- Senhor juiz e oficiais em Câmara, gritou o Ivo, aqui trazemos a Vossas Mercês este exímio teólogo para consultar sobre o caso intrincado. É grande sabedor de excomunhões, bruxarias e demonices.

Gargalhada estrondosa, seguida de formidável apupada.

- Salta, capeta!

- Silêncio, que o cabrito vai espirrar!

- Não é espirro. É um latinaço que lhe esguichou pelas ventas.

- Então o cabrum é doutor?

- De borla e capelo.

- Quiá!... Quiá!... Quiá!...

De véspera esperava-se que a sessão convocada pela câmara fosse das mais importantes de que havia notícia, já pela gravidade das circunstâncias e já pelos grandes luzeiros da ciência que tinham de dar seu voto.

Nessa conformidade se tinham preparado os teólogos e juristas, recheando-se de latim, abarrotando-se de citações abstrusas, para desbancar os argumentos ex-adverso. Dir-se-iam os improvisadores do atual parlamento em véspera de um debate solene.

Bom é saber-se que dos teólogos, só os jesuítas propendiam para o ouvidor, por espírito de oposição à mitra; e dos juristas apenas o licenciado Figueiredo, por ser patrono do tabelião, encostava-se ao parecer daqueles.

Os mais, ou pelo anexim popular de que "lobo não come lobo", ou pelo receio de jogar as cristas com a Igreja, eram todos pelo prelado, e se dispunham a sustentar em Câmara, com uma torrente de doutores, que a excomunhão fora decretada conforme o direito e leis da Igreja e do Reino, não podendo suspender-se pela interposição do recurso, que só tinha o efeito devolutivo.

Durante a noite, porém, operou-se grande mudança no espírito dos sábios teólogos e juristas; parece que o livro do povo ali, à rua, aberto em todas as páginas, ensinou-lhes mais em uma hora, do que haviam aprendido toda a vida em comentários e tratados de praxistas.

Assim, logo cedo compareceram, não mais para arrazoados jurídicos, senão para tomar uma deliberação, com que o povo se acomodasse. Do prurido de disputações, se algum ainda tinha resquícios, a vaia dos estudantes acabara de aplacá-lo de todo.

Decidiram em Câmara por unanimidade que a apelação interposta suspendia a excomunhão como entre outros doutores sustentavam Farinácio Scácia e o Senador Temudo; e pois continuava o ouvidor no exercício de sua jurisdição, devendo aguardar-se a decisão superior e representar se a El-Rei sobre a necessidade de uma providência que de futuro evitasse tão graves conflitos entre a autoridade eclesiástica e secular.

Neste sentido, diz o Dr. Baltasar da Silva Lisboa escreveu se ao prelado intimando que suspendesse a censura até determinação de Sua Majestade.

Assim terminou aquela refrega do povo fluminense cujo último ato foi conduzir em triunfo à sua casa o cabeça do motim.

O velho e pacato Sebastião Ferreira Freire ia um tanto amarrotado das bolandas em que andara; porém satisfeito a mais não poder com a desforra que tomara do prelado e sua gente.

XXVIII

MAIS UM EXEMPLO DA INGRATIDÃO DAQUELES A QUEM A POPULARIDADE ELEVA AO PINÁCULO DA GLÓRIA

Três dias depois dos acontecimentos referidos, terminado o jantar, espaciava o tabelião pela cerca, saboreando ainda a ovação que havia recebido, e pavoneando-se em sua importância.

Ao passar junto de um arvoredo embastido, pareceu-lhe ouvir um sussurro de vozes e espreitando por entre a folhagem, descobriu sua filha Marta em requebros e galanteios com o Ivo.

O rapaz instava por aquela beijoca, há tanto tempo pedida e desde então negaceada pela sonsa da menina, que bem desejos tinha de a receber, mas faltava-lhe o ânimo de consentir. Coisas de namorados.

Cansado já de instâncias, queixumes e arrufos, que tudo havia debalde empregado, usou Ivo de esperteza. Disfarçando para apanhar Marta desprevenida, enlaçou-a de repente pela cintura, e prendendo-lhe os braços, conchegou-lhe o talhe ao peito, para colher os lábios vermelhos, que em vão tentavam fugir.

Já o beijo abria as asas arrulando sobre a mimosa boquinha, quando se interpôs como uma cabeça de medusa. o ruivo chinó do tabelião.

- Alto lá!... gritou o Sebastião Ferreira.

Confusos e trêmulos, os dois namorados encolhiam-se como se esperassem esconder-se dentro em si ao sobrolho crespo do pai irritado. Contemplou-os o Sebastião alguns instantes a gozar do seu enleio, e travando a cada um do braço, levou-os de roldão ao cartório.

Ainda lá estava o escrevente juramentado, aproveitando a última réstia de dia. o garatuja 75

- Lavre-me uma escritura de esponsais, visto ser eu suspeito, e competir-lhe a substituição. Sem detença.

- Pronto! respondeu o escrevente com o livro aberto.

- Entre partes, 1º outorgante Maria Sebastiana Ferreira Freire, por um lado, e pelo outro Ivo... - Ivo... Ivo de quê? perguntou ao enjeitado atônito.

- Ivo das Ervas...

- Escreveu?

- Das Ervas, disse o escrevente repetindo a deixa.

O tabelião deu tempo a fazer o cabeçalho da escritura. Marta morria-se de susto e vergonha, não atinando com o que vinha a ser aquela cerimônia. Tão peco não era o rapaz, que estremecia, mas de comoção e júbilo.

- E pela 1ª outorgante foi dito que de sua mui livre e espontânea vontade, sem a menor coação, e com o consentimento de seu pai e mãe, promete casar-se com o 2º outorgante na forma do Sagrado Concilio Tridentino, levando-lhe em dote o direito de sucessão deste oficio de tabelião e a quinta parte do que render o contado, em vida do atual serventuário, pai dela outorgante. Mas declara que é isto sob a condição de nunca mais trabalhar o dito 2º outorgante como artífice de pincel, ou cousa que se pareça, deixando para todo o sempre o baixo mister da pintura, e ocupando-se tão-somente do serviço do cartório, o que há de firmar sob juramento, e não o cumprindo, ficarão de nenhum efeito estes esponsais.

- Mas... ia recalcitrando o Ivo.

- Se quiser é assim. Pintor é casta que me não entra cá na família. Marta há de casar-se com um escrevente, para que eu tenha sucessor.

O Ivo coçou a orelha.

- Mas podia vossa mercê esperar pelo neto, que lhe havemos de dar.

- Arranje-se você lá com ele; eu cá preciso segurar-me, que já estou maduro.

Tinha o Ivo amor a seus pincéis e sonhava com a glória; mas os olhos pretos de Marta volviam para ele com um tão mavioso requebro.

- Decida! tornou o tabelião.

- Aceito.

- E pelo 2º outorgante foi dito que de sua parte aceitava e prometia sob juramento, et cetera, et cetera.- Menina, chama tua mãe para assinar.

Enquanto o escrevente punha o fecho da escritura, o Sebastião Ferreira fez o Ivo jurar sobre um missal a condição a que ficava sujeito para obter a mão de Marta.

Concluída a cerimônia, voltou-se o tabelião para os dois noivos:

- Agora podem-se beijar, na conformidade da lei.

Mas esse beijo ob veniam paternam e como sanção do contrato esponsalício, era desenxabido e não tinha o sainete daquele que o velho tio desastradamente perturbara. O Ivo pousou ao de leve os lábios na fronte rubescente de Marta, prometendo-se mais tarde, naquela mesma noite talvez, roubar à boca faceira de sua amada, outro beijo mais saboroso.

O casamento dos noivos efetuou-se um ano depois. Já compenetrado da realidade da vida, o Ivo esquecera os seus pincéis, para tornar-se um escrevente de cartório, ao gosto do futuro sogro, a quem devia suceder. Viveu feliz; e se alguma vez lhe perpassavam pela mente os sonhos de glória, que haviam embalado sua juventude, era nuvem passageira.

A leal cidade de São Sebastião perdera um artista, o primeiro talvez que nasceu em seu seio; mas nem se apercebeu disso, como não se apercebe ainda hoje dos talentos que a sua indiferença vai mirrando, e caem por aí esmagados sob a pata do charlatanismo insolente.

Fonte: biblio.com.br

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